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quinta-feira, 16 de abril de 2009

Foz do Sabor - Paisagens do Douro e Sabor

"Novos Contos da Montanha" em Vila Real


Realizou-se o lançamento da obra "Outros Contos da Montanha", de Isabel Maria Fidalgo Mateus, no dia 15 de Abril, às 21 30 horas, no Auditório da Biblioteca Municipal Dr. Júlio Teixeira, Vila Real.
A obra foi apresentada pela Professora Maria da Assunção Anes Morais.
No final, foi servido um Porto de Honra acompanhado pelos típicos e saborosos doces de amêndoa de Torre de Moncorvo.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Linha do Sabor - 7


"A 1ª Máquina que chega a Duas Igrejas 22-05-1938.
Momento único para a família Ferraz, pois a máquina era conduzida por os irmãos (maquinista e fogueiro) com o Inspector da CP ao meio.!! "
Rui Carvalho, Carviçais.

Fotografias actuais da estação de Carviçais, na Linha do Sabor.

Lembrando a mãe do Praça

Um dia, o Praça, Afonso Emílio para os amigos, perguntou-me: "Queres vir comigo buscar a minha mãe a Poiares?" E assim partimos os dois até Poiares para buscar a senhora Elisa. Ainda a viagem era muito longa e cansativa e tanto eu como o Afonso sabíamos que para a sra. Elisa era a despedida definitiva do Trás-os-Montes, de Poiares e do Felgar onde vivera quase sempre e muito cedo ficara viúva.
O Afonso abandonara a casa do Campo Grande, nº 9 (muitas das crónicas de Um Momento de Ternura e Nada Mais, ainda são um olhar nostálgico a partir do Campo Grande) e comprara um apartamento espaçoso perto do Hospital de Santa Maria, ao lado do Gemini, por preço convidativo, pois com os ares ainda quentes do PREC, a venda de casas entrara em queda. Tinha lugar para a sua mãe. A sra Elisa vivia os últimos dias transmontanos em Poiares, em casa de uns primos. Carregámos o carro, um Renault 12, com muita tralha, tarecos e muitas colchas, da bagageira ao tejadilho. A sra Elisa, de olho azul (que o Afonso não tinha, mas os netos herdaram) já sofria de alguma falta de vista, no tecer do tempo que ia longo. E demorámos muitas e muitas horas até chegarmos a Lisboa onde viveu até ao fim dos seus dias e foi sepultada no cemitério do Lumiar.
Um dia, o Afonso foi passear com a mãe pela Avenida da Liberdade. E ela olhou para uma estátua. E o Afonso perguntou-lhe se sabia quem era. "Não sei---respondeu-- mas parece-me cego". A estátua era a do António Feliciano de Casdtilho, um poeta cego. O melhor elogio que poderia ter feito ao escultor.
Um dia, recebemos um telefonema do Afonso. A mãe estava de cama. A minha mulher (que é médica) observou-a. "Afonso, a tua mãe tem a respiração de um passarinho".
E morreu, serenamente, na cama, no silêncio da noite.
Durante uns tempos, viveu também na casa do Afonso, a sua sogra, natural de Múrias. Foi a mulher mais bisbilhoteira que conheci na minha vida. O seu perguntar faria corar de vergonha qualquer profissional de interrogatórios, por muito experiente que fosse. Mas houve um dia em que lhe achei muita piada. Dizia ela, em voz de tons muito agudos: "Veja lá com quem as minhas filhas casaram: a Olga com um Tropa (Alfredo, realizador de cinema) e Natália com um Praça (o nosso Afonso)".
Durante anos e anos eu e o Afonso convivemos todos os dias. Partilhámos segredos, histórias e noites que aqui e em qualquer outro lugar não devem ser relatados.
Um dia, estava muito gordo, a sua pele de tão esticada parecia a pele de um tambor. E a minha mulher obrigou-o a fazer dieta. Chama-me e diz-me: "Antes de começar a dieta vamos almoçar ao Mirandela". O Mirandela era o restaurante de um transmontano na Feira Popular. Comemos bem e o Afonso na sua filosofia de bonacheirão, com a tolerância que nunca o abandonou até ao fim dos seus dias, não resistiu a dizer: "Não achas que se eu emagrecer, perco a graça toda?"
Estive com ele até aos últimos dias. A minha mulher detectou-lhe um cancro. Ainda conseguiu que os drs. Hélder Coelho e Joshua Ruah o operassem. Mas já era muito tarde. Apesar de algumas indignidades (raríssimas, é certo) de que foi alvo, houve um comovente momento de solidariedade: o Duarte Lima ofereceu-lhe o dinheiro de que precisasse para ser tratado no estrangeiro. Não era necessário. Mas ficou o gesto. Nobre.
E no início de Maio despedi-me definitivamente dele (não, estou a mentir, ainda não me despedi).
A Assembleia da República aprovou, por unanimidade, um voto de pesar pela sua morte. Para que conste, nesta dor de anos.

Linha do Sabor - 6

Regresso à Linha do Sabor, com trecho de um conto do pucareiro Afonso Praça e fotografias, cedidas da sua colecção, de Abílio Dengucho.
Aguardamos, com muito interesse, mais fotos do Abílio. E textos!
E, como se diz em Carviçais, apita, Abilio!









Flores amarelas para o comboio

Do Pocinho a Duas Igrejas é um longo estirão (105 qui­lómetros, segundo contas oficiais) que o pobre comboio ofe­gante da linha do Sabor parecia estender ainda mais, nos seus solavancos de velho cansado que teimava em resistir contra o tempo impiedoso.
Até Moncorvo — menos de uma dezena de quilómetros, sempre a subir — dava a sensação de que lhe saíam das entra­nhas os últimos restos dos pulmões gastos, embrulhados em fumo negro, sufocante. Mas o comboio avançava imponente apesar de tudo, trôpego e pesadão, sempre muito pouca-terra, pouca-terra, atravessando as terras que se estendem do vale do Douro ao planalto mirandês.
Muita gente achava graça, pensava que comboios assim só antigamente ou nos museus e nos filmes americanos, sobre­tudo aqueles que já tinham corrido mundo e davam prosápia de viajantes achavam que aquilo era o máximo, digno de ser preservado como uma anta ou uma pintura rupestre. Pois bem: aquele comboio era mesmo de antigamente, contavam por lá que foi recebido à pedrada como se fosse obra do diabo, há quem diga que a linha ficou quilómetros afastada de algumas povoações em consequência das hostilidades feitas aos engenheiros que a traçaram, recebidos com manifestações de varapau e foices roçadoiras, talvez com a ameaça de uma escopeta de carregar pela boca mais asada para caçar lebres ou perdizes no Reboredo ou em Vale de Ladrões. Mas isto são vozes do povo, transmitidas de pais a filhos, vá lá agora saber-se até que ponto correspondem à verdade.

In “Um Momento de Ternura e Nada Mais”, de Afonso Praça.



terça-feira, 14 de abril de 2009

Detalhes em Ferro 5


Portão da casa do do comendador Francisco António Pires, no Felgar. A casa tem dois imponentes portões, iguais, cuidados de forma exemplar. São à base de ferro fundido com bonitos elementos florais. Ao centro têm as iniciais "AP". Estão pintados a vermelho com alguns elementos a branco. Um felgarense já adiantou no Blogue que datam de 1886! Devem ser exemplares únicos no concelho.

domingo, 12 de abril de 2009

Felgar, Março de 74

Como vários Felgarenses se têm mostrado interessados em ver / saber coisas de outros tempos sobre a sua terra, aqui vão o texto do Assis Pacheco e fotos minhas, em homenagem às tecedeiras, oleiros, fogueteiros e a todos que passaram pela Banda.




Nota : No dia 20 de Junho estará patente ao público, no Centro de Memória de Moncorvo, uma exposição da reportagem “Moncorvo, Zona Quente na Terra Fria”, de Fernando Assis Pacheco (texto) e Leonel Brito (fotos), publicada no jornal “República”, em Março de 1974 . As 17 páginas da reportagem serão exibidas em painéis .
Também vão ser expostas fotografias dessa época, de Leonel Brito, com textos de Rogério Rodrigues.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Páscoa - Amêndoas amargas por causa da Crise


A azáfama nas pastelarias em busca de amêndoas já conheceu tempos melhores. As grandes superfícies atraem cada vez mais os consumidores. Mas ainda há quem procure especialidades e em Torre de Moncorvo ainda se fabricam de forma totalmente artesanal. E com muita procura.

"Encomendação das Almas", um filme de Leonel Brito, 30 anos depois

Depois do grande sucesso que foi a apresentação, ontem, no auditório municipal de Freixo de Espada à Cinta, do filme sobre a Encomendação das Almas, teremos hoje, no auditório do Museu do Ferro & da Região de Moncorvo, o visionamento do mesmo documentário, pelas 21;30 horas.

Será previamente feita uma introdução a este documentário, pelo próprio autor, o realizador Leonel Brito, e um dos autores dos textos de fundo, Rogério Rodrigues (ambos colaboradores do nosso blogue). O argumento teve também como co-autor o saudoso jornalista Afonso Praça, igualmente nosso conterrâneo, e contou com a colaboração especial, a nível da explicação etnográfica, do Padre Joaquim M. Rebelo, que, como Afonso Praça, infelizmente já não está entre nós.

Este filme é um verdadeiro documento etnográfico e antropológico, rodado há exactamente 30 anos, na vila de Freixo de Espada à Cinta (com o cortejo dos Sete Passos), e em algumas aldeias dos concelhos de Freixo e de Torre de Moncorvo (neste caso, Felgar e Urros). Além dos cânticos das Almas, que se realizavam pela Quaresma, vêm-se outros aspectos da vida rural desse tempo (1979), num momento charneira da nossa história recente, em que, a par de algumas transformações decorrentes da emigração, se vêm ainda aspectos da nossa ancestralidade.

Este é um documento notável que o autor, Leonel Brito, depois de o resgatar aos arquivos da RTP (entidade para quem foi produzido o filme), e de o passar para DVD, ofereceu aos arquivos do Museu do Ferro, da Biblioteca Municipal de Torre de Moncorvo, e à Câmara Municipal de Freixo. Impõe-se, agora, a sua edição, repto que deixamos às entidades competentes. Resta-nos enaltecer a generosidade e o empenho do realizador Leonel Brito, nosso conterrâneo e colega de blogue. Obrigado Leonel!

Então aqui fica o convite para logo à noite, às 21;30 horas, no auditório do Museu do Ferro!
Compareçam!

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Pombais (Voaram e não voltaram, mas Porquê?!)

No Nordeste Transmontano concentra-se um dos núcleos mais representativos de pombais, embora existam alguns dispersos um pouco por todo o país.
Percorrendo o concelho Torre de Moncorvo, encontra-se um grande número de pombais, pena a maior parte deles estarem em constante abandono e completa degradação.
A maioria dos pombais tem planta circular ou em ferradura, sugerindo formas arquitectónicas castrejas. As paredes são em alvenaria de pedra miúda, terra argilosa como ligante e reboco de argamassa de cal. A cobertura e de madeira apoiadas nas respectivas paredes. O acesso dos donos ao interior dos pombais faz-se por uma pequena porta de madeira. No telhado existem plataformas de entrada e saída dos pombos – saídas de voo.
Eram destinados à produção de pombos para alimentação humana e de estrume denominado por “pombinho” que era usado como fertilizante agrícola.
A partir da década de 60, a população rural emigrou, levando ao abandono de muitas práticas agrícolas tradicionais, nomeadamente o cultivo de cerais. Os agricultores progressivamente modernizaram as suas explorações, mecanizando-as, reduzindo a mão-de-obra recorrendo a agro-químicos inorgânicos importados. Face a essas mudanças drásticas os pombais viram desaparecer quase por completo a sua utilidade no contexto da economia rural. Dada a redução do cultivo cereais e pela introdução de novas práticas e técnicas culturais, tal como o fluxo demográfico humano para os meios urbanos, os pombos, perante a falta de alimento e protecção dos montes e vales, desapareceram.
Outra causa do abandono generalizado dos pombais, foi a expansão verificada na actividade cinegética após os anos 70. O grande número de caçadores, desconhecedores das tradições locais e não cumpridores da legislação da caça, levou ao abate fácil de milhares de pombos.
Assim grande quantidade de pombais tradicionais deixaram de estar povoados, deixaram de ser tratados e houve proprietários que nunca mais voltaram aos pombais. Muitos entraram em degradação pois apesar das paredes rudes e de construção sólida, estes têm no telhado o seu ponto fraco dado que a cobertura em madeira não resiste à intempérie sem os devidos cuidados.
A partir anos 90, algumas entidades responsáveis pela preservação deste tipo de património promoveram medidas de estudo e conservação. O Instituto da Conservação da Natureza, através do Parque Natural do Douro Internacional (PNDI), iniciou um projecto pioneiro de recuperação de pombais. Foram assim recuperados entre 1997 e 1998 os primeiros 25 pombais.


Mas apesar de algumas entidades responsáveis promoverem medidas de estudo e conservação, ainda há muitos pombais em ruínas, em constante abandono à espera de serem recuperados.

domingo, 5 de abril de 2009

Haverá uma Literatura Transmontana? (2)

O Rogério, no seu excelente post de 28 de Março, intitulado “Haverá uma Literatura Transmontana?”, entre vários nomes de grande importância para a cultura, referiu três de incontestada relevância: Raul Rego, Paulo Quintela e Abade Baçal, destacando o seu extraordinário labor e, sobre eles, terminou com as seguintes palavras “...estas três figuras honram a cultura portuguesa, como transmontanos”. Palavras justíssimas e mais que merecidas.
Tive a honra e, neste caso, também o proveito de ter sido aluna de Paulo Quintela de finais de 1955 a 1961. Foram mais de 5 anos de convivência diária, se às aulas acrescentarmos o TEUC (Teatro dos Estudantes de Coimbra) de que Paulo Quintela, com um grupo de estudantes, foi fundador em 1938.
A literatura alemã, nos longínquos anos 50 era quase totalmente, senão totalmente, desconhecida em Portugal. Paulo Quintela traz até nós génios, grandes lutadores, grandes solitários, resistentes, perseguidos: Goethe, Hölderlin, Rilke, Nietzsche, Brecht, só para citar os seus preferidos. Mas, para mim, era no teatro medieval inglês que se via o grande Mestre: conduzia-nos ao cenário vivo, víamo-nos no meio dos verdadeiros actores, ouvíamo-los falar... Era algo tão espantoso que não arranjo palavras para o expressar.
Isto é apenas uma nota, em jeito de introdução, ao que quero dizer-vos. Chegou-me às mãos no início da semana um livro “Homenagem a Paulo Quintela no Centenário do seu Nascimento”. Trata-se de um conjunto de comunicações, poemas e depoimentos sobre a personalidade e a obra do eminente professor, tradutor, poeta e lutador que foi Paulo Quintela. O livro é editado e publicado pela FLUC (Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra) e traz a data de 2008, embora a homenagem tivesse tido lugar em Março de 2006. (Na verdade, Paulo Quintela nasceu em Bragança em 24 de Dezembro de 1905. Porém, nestas lides de organizar homenagens, recolher textos e documentos, proceder à edição e publicação, passam, por vezes, largos meses.) Mas o livro aqui está e valeu bem a pena a espera.
De entre as várias comunicações destacarei apenas duas, uma porque nos dá a ideia deste grande vulto da cultura portuguesa, a outra porque foca directamente o homem transmontano.
Dele diz o Presidente do Conselho Directivo da FLUC, Prof. Lúcio Cunha:

“Um dos mais brilhantes vultos da nossa Faculdade, Paulo Quintela, Professor, investigador, poeta, tradutor, homem de teatro, resistente e lutador pela liberdade, foi, porventura, um dos mais completos, produtivos e prestigiados Mestres desta Escola”.(Obra cit. p.20 ).

Por sua vez, António de Sousa Ribeiro diz na sua intervenção:

“Paulo Quintela não detinha apenas a firmeza das convicções, mas também a coragem de as assumir publicamente. [...] e o orgulho com que sempre cultivou a lembrança das suas origens humildes. ‘Não passo de um pobre homem de Bragança, filho de um pedreiro e de uma padeira e neto de um almocreve’“. (Obra cit. p.60).

E termino deixando aqui um poema de Paulo Quintela onde o homem transmontano se revela por inteiro:

Ar não-condicionado

Ar que eu respire há-de ser
-Quente ou frio, não faz mal
–Ar livre. Quero morrer
Respirando ao natural.

Ar do mar ou ar da serra,
Ar de jardim ou de praça,
Ar que nenhum muro encerra
-Livre, que o dá Deus de graça.

Digo:
-Não me condicionem
O ar da respiração!
E mais:
-Não me solucionem
O que não tem solução!

Nem me queiram ajudar
Com oxigénio em balões.
Já disse:
-Quero acabar
Com ar livre nos pulmões.

E em vida não me racionem
Água, vinho, ar livre e pão.
Ar livre! Não condicionem
Minha livre condição.

Abram portas e janelas
Quando estiver pra morrer
Quero ver árvores, estrelas,
E depois apodrecer.

Que quem nasceu como eu
Entre montes de ar lavado
Vai pro Inferno ou pro Céu
-Mas sem ar condicionado.

(Poema inédito de Paulo Quintela)

Leiria, 5 de Abril de 2009-04-05
Júlia Ribeiro

Ponte Rodo-Ferroviária do Pocinho - Linha do Sabor


Estrutura inaugurada em 1909





A Linha do Sabor demorou mais de trinta anos a concluir. Ligação ferroviária de via estreita, Pocinho - Miranda do Douro (Duas Igrejas), a 11 kms de Torre de Moncorvo e a 12 Kms de Vila Nova de Foz Côa, impressionante estrutura rodo-ferroviária, está desde o ano de 1988 encerrada a qualquer tráfego.

Alminhas - Urros

As alminhas têm alguns ponto de contacto com as festividades que vivemos estes dias, a Páscoa. Páscoa também significa passagem, reunião do corpo com o espírito, êxodo ou passagem da morte para a vida. As alminhas representam também um lugar de passagem, o purgatório. Este culto tem raízes há vários séculos atrás e foi tão forte que ainda hoje encontramos em todas as aldeias pelo menos umas alminhas. Também estas representações estão normalmente em locais de passagem, encruzilhadas dos caminhos, ou então à entrada das localidades. Muitas lançam um aviso: "Vós que ides passando, lembrai-vos de nós que estamos penando".
Estas alminhas estão num muro, em Urros, a caminho do Santo Apolinário.

Quem estiver interessado neste tema das Alminhas, pode ler um texto que escrevi no Blogue - À Descoberta de Vila Flor.

terça-feira, 31 de março de 2009

À Descoberta, até Felgueiras

Os primeiros dias de Primavera estiveram convidativos para um longo passeio. Foi o que eu decidi fazer, em companhia dos meus dois filhos, no dia 28 de Março.
O passeio iniciou-se no coração do vale da Vilariça, mais concretamente na ponte da Junqueira, precisamente onde começa o concelho de Torre de Moncorvo. Quem por ali passa quase nem se apercebe da existência de uma ponte mais antiga, uns poucos metros mais abaixo. Essa ponte foi destruída numa cheia que ocorreu a 17 do Junho de 1955, ainda assim se mantém desde então.

A primeira paragem foi na Junqueira. O dia estava frio, mas bastante agradável para passear. A primeira tentação foi trepar a um dos cabeços a nascente da pequena aldeia. Tivemos que desistir a meio, mas a tentativa valeu a pena. Conseguimos uma visão diferente. Estou mais habituado a ver a Junqueira do alto da aldeia abandonada do Gavião, espreguiçando-se indolente ao sol do fim da tarde.

Descemos de novo à aldeia e percorremos as principais ruas. Pouco depois, já quando partíamos em direcção a Moncorvo, alguém se sentiu incomodado com a nossa presença, adoptando uma postura muito hostil. São os contratempos de partir À Descoberta, nunca sabemos quem vamos encontrar pela frente.

Já em Moncorvo procurámos um restaurante para almoçar. Escolhi uma ementa mais ao gosto dos meus jovens acompanhantes, não queria “castigá-los” também com a refeição. Depois do almoço fizemos um passeio pela Corredoura. Tentei encontrar elementos dos contos da Júlia, bruxas, lobisomens, mas apenas me consegui recordar do calor das noites de Verão de quando ali vivi.
Subimos depois ao Museu do Ferro. O Nelson tinha recolhido em Freixo algumas imagens dos Sete Passos que me queria mostrar. Vistas as imagens (e muita conversa depois), continuámos o percurso, porque o nosso destino era Felgueiras.

De repente, o céu escureceu. Levantaram-se fortes rajadas de vento que trazia uma tempestade de areia Reboredo abaixo. Andam máquinas gigantescas a surribar os cumes que arderam recentemente! Começaram a cair algumas gotas. Procurámos refúgio na capela de Nossa Senhora da Teixeira.
A chuva já caía raivosamente, estava tudo escuro e revoltoso à nossa volta. Por momentos sentimos o isolamento do ermita que aqui habitou no século XVI. Esquecemos a chuva, o vento, para dedicarmos algum tempo a admirar os frescos que decoram a galilé. Vale bem a pena fazer uma visita a esta capela. Eu já a conhecia, mas foi bom visitá-la de novo, até porque pelo facto de ter que responder a uma série de perguntas dos meus acompanhantes me levantou muitas questões. Porque é que está ali, no meio daquele descampado, numa construção tosca, um vasto conjunto de frescos inspirados possivelmente em El Greco e na Capela Sistina? Porque é que esta preciosidade não está mais protegida?O tempo melhorou. Despedimo-nos da pietá, que nos franqueou a entrada, e voltámos à estrada. A paragem seguinte foi na Açoreira. Não deixa de ser curioso manter-se na Açoreira o culto a S. Marinha, também existente no concelho de Vila Flor e que remonta talvez do séc. IX. A sua festa é no Domingo de Pascoela, uma boa ocasião para se conhecerem algumas tradições da Açoreira.
A aldeia tem certamente origens bem antigas, como o provam as suas casas e palheiros em xisto.
A etapa seguinte esperava-nos a poucos quilómetros, Maçores. Percorremos algumas ruas da aldeia, mas o que nos marcou mais foram mesmo alguns palheiros circulares, em xisto, que perecem ter sido retirados de um filme sobre uma civilização antiga.
Deixámos Maçores em direcção a Felgueiras. A estrada, com acentuado declive, em pouco tempo nos colocou a quase 800 metros de altitude. O tempo melhorou ligeiramente mas nada que nos permitisse usufruir de toda a beleza que se pode contemplar deste ponto tão elevado. Pode-se “voar” até Peredo dos Castelhanos, e, com pequenos saltos de pardal, passar para Urros, depois Ligares, ou então olhar em sentido oposto e apreciar a Primavera que acorda em cada planta que cobre a serra de um verde rasteiro. Giestas, urzes, arçâs, estevas e sargaços são algumas das espécies que completam os espaços que os sobreiros, pinheiros e zimbros dominam.
Chegámos, por fim, a Felgueiras. A receber-nos estava a capela de Sta Edwiges, nome que sempre me causou alguma estranheza. Sei hoje que esta santa é a protectora dos pobres e endividados. A sua história é muito interessante e o seu papel social na ajuda dos mais necessitados é um bom exemplo para os dias que atravessamos.

Quase sem querer, cortei à esquerda nas primeiras casas. A minha intuição era de que o Lagar da Cera se situaria nessa direcção. Mesmo 14 anos depois, não me enganei! Embora em Felgueiras haja várias actividades económicas, é a cera que torna esta aldeia singular (também o trabalho do ferro teve grande tradição). Foi o lagar comunitário da cera que trouxe Santos Júnior a Felgueiras e que tem também levado a aldeia por várias vezes à televisão. O lagar, situado perto da ribeira de Santa Marinha (!), resiste ao tempo, mostra as suas rugas, mas não é tratado como merece. Se o projecto da sua recuperação foi distinguido em 1987, que se passou então? É pena que também este património esteja a perder-se pouco a pouco. Há que unir esforços. Não podemos esperar até que a sua preservação e recuperação sejam impossíveis.

Perto do lagar pude apreciar um espaço agradável, com uma original fonte. O painel de azulejos, apesar de moderno, está bem enquadrado no conjunto. Noutros pontos da aldeia há outros espaços, igualmente arranjados, alguns resultantes da demolição de casas abandonadas.
As casas onde se produzem velas estavam fechadas. Percorremos a aldeia. Tal como tantas outras, são evidentes os sinais de abandono. As pessoas mostraram-se afáveis, prestáveis, embora curiosas. Só um céu negro e uma chuva forte nos impediu de continuar À Descoberta de outros pontos de interesse da aldeia. Foi sem dúvida um bom passeio (de reconhecimento).
Voltámos à estrada, em direcção ao Carvalhal.
Quando atingimos o ponto mais alto do percurso, 831 metros, alguns farrapos de neve vieram colar-se ao pára-brisas do carro. O frio era muito e abstivemo-nos de fazer mais paragens no percurso. Descemos à vila, atravessámo-la e seguimos até à Foz do Sabor. As sombras já começavam a cobrir o vale. Seguimos pela estrada das Cabanas até à Quinta da Silveira, e depois até à Ponte da Junqueira.
Lavámos um par de horas a percorrer 73 quilómetros de estrada, mas “Descobrimos” um bom pedaço do concelho! O dia, risonho de manhã, trocou-nos as voltas à tarde. Mas, mesmo assim, valeu a pena. Este é um reino maravilhoso que vale a pena descobrir.

Linha do Sabor - Larinho

Nas imagens pode-se ver o antigo traçado da linha férrea do sabor, que foi desactivada há mais de 20 anos. Foi aproveitado pela Câmara Municipal de Torre de Moncorvo, dando lugar a uma Ecopista que serve tanto para a marcha a pé, como para ciclovia. Foi a primeira a ser realizada em Trás-Os-Montes. Desta forma, os “amantes” das caminhadas podem percorrer a antiga linha ferroviária e apreciarem a beleza da paisagem natural que circunda a vila de Torre de Moncorvo e restantes locais do concelho, por onde passava a Linha do Sabor.

O primeiro troço da Ecopista, entre Moncorvo e Carvalhal, abriu em 2006. A estação do Larinho deu lugar a uma cafetaria, onde as pessoas podem tomar algo, depois de uma caminhada ao longo da Ecopista.
O projecto contempla, também a recuperação da estação de Carviçais, sendo aí instalado um museu etnográfico e a recuperação das casetas ao longo da linha, servindo de apoio aos utilizadores. Uma terceira fase da ecopista irá contemplar a recuperação do troço entre Carviçais e o Pocinho
Pois é sempre bom ver algo de interesse nacional ser recuperado e reaproveitado, não ficando assim ao abandono, como acontece muitas vezes.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Felgueiras, lagar da cera

Em Maio de 75, era eu sócio e director da cooperativa de cinema Cinequanon, organizei duas idas a Moncorvo para as filmagens de dois documentários, ambos fazendo parte da série de programas Artes e Ofícios, para a R.T.P.: "Estevais Ano Zero" e “Velhas Profissões”. Neste último estão integrados uma tecedeira e um oleiro do Felgar, o lagar da cera em Felgueiras e um moinho. Este documentário encontra-se no Museu do Ferro e na Biblioteca de Moncorvo à disposição de todos. A equipa de filmagens era a seguinte: Sá Caetano na realização; eu, Leonel Brito, na produção e entrevistas; Elso Roque na imagem; João Diogo no som.

Os fotogramas são extraídos das imagens do lagar da cera

Nota: Espero que este post seja pretexto para se falar de Felgueiras e das suas gentes.


Moncorvo é notícia - Mar09

Outras Notícias sobre Moncorvo

domingo, 29 de março de 2009

O último apito


Abílio Carvalho passou cerca de 20 anos a comandar o comboio entre o Pocinho e Duas Igrejas

A última viagem na Linha do Sabor – entre o Pocinho e Duas Igrejas- foi efectuada por Abílio Carvalho, 69 anos, o ex-maquinista natural de Carviçais.

A via encerrou em 1988 e ainda hoje o ferroviário de outros tempos lamenta o facto da CP ter rebentado a linha que foi construída pelos transmontanos.
“Embora não andassem lá comboios gostava de ver o património no local, até porque não foi com o dinheiro da venda do ferro que a CP enriqueceu”, ironiza o antigo maquinista.
Abílio Carvalho iniciou a sua carreira nos caminhos-de-ferro como limpador de carruagens (em 1962), mas a ambição levou-o a efectuar uma série de formações e a concorrer, em 1970, para maquinista. “Só não fui inspector porque não quis, apesar de ter sido chamado”, diz com orgulho.
Com uma vida ligada aos comboios e, em particular à Linha do Sabor, o ex-funcionário da CP afirma que comandar o comboio tinha as suas dificuldades, devido à inclinação acentuada da linha na zona de Torre de Moncorvo.
Mesmo assim, Abílio Carvalho fala com saudade dos anos que dedicou aos comboios a carvão e às automotoras. “ Foram tempos em que todas as freguesias encostadas à Linha do Sabor tinham muito movimento, que desapareceu com a partida do comboio”, lamenta.

“Não há nada como o comboio. A passagem da máquina transformava a paisagem com o seu fumo negro”

Depois do troço entre o Pocinho e Duas Igrejas encerrar, a CP ainda disponibilizou, durante alguns anos, um serviço de camionetas, que faziam a ligação entre as antigas estações de comboio. Era nesse meio de transporte que o maquinista se deslocava até Carviçais quando foi transferido para Barca d` Alva.
“Não há nada como o comboio. A passagem da máquina transformava a paisagem com o seu fumo negro. Havia turistas que nos pediam para meter mais carvão à máquina para tirarem fotografias ao comboio a deitar fumo negro”, sublinhou o ex-ferroviário.
Enquanto maquinista, Abílio Carvalho conta que passou por algumas aventuras engraçadas, destacando uma peripécia que decorreu no café da aldeia, onde ganhou a alcunha “Apita Abílio”, que o acompanha até aos dias de hoje.
Tudo começou com a curiosidade de dois idosos de Carviçais, que pediram ao maquinista para fazerem a viagem entre os apeadeiros da Fonte do Prado e Mós, para verem como funcionava o comboio. Mas, a dada altura, um diz para o outro: “não te metas com os rapazes novos que ainda te metem na fornalha”. O medo apoderou-se dos dois homens e acabaram por não fazer a viagem, dizendo a Abílio Carvalho: “Quando passares nos locais mais perigosos, apita Abílio”.

Por: Francisco Pinto
O texto foi publicado no Jornal Nordeste em Novembro de 2006.
Fotografias: Aníbal Gonçalves

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