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sábado, 17 de outubro de 2009

Já fora de tempo, mas ainda a tempo....

Parreira no Outono, no termo de Sequeiros, Açoreira (foto de João Pinto V. Costa)


VINDIMA
A terra esfarela, corpo fértil, colorido e perfumado. As recordações trazidas pelo aroma que invade a casa e os campos em Outonos repetidamente ausentes. Vestem-nos cantigas, afagos e murmúrios. É um retornar este tempo! Um regresso e um novo brilho no olhar com que ainda me alimento.
Em peregrinação, nestes fins de Setembro de manhãs frias e fogo nas mãos refazem o ritual da colheita e do lagar e o hino do recomeço em toda a serra sagrada.

in: Jacinto de Magalhães, 1985.

As vindimas e as lagaradas já passaram, mas o Outono ainda não. Entretanto vestem-se de vermelho as parreiras pelo país vinhateiro...

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Fruta da época - romã

Para esta época, diz o Seringador: "É este o momento mais oportuno para se fazer a poda de toda a casta de árvores. Terminam-se as vindimas nos lugares enxutos e tardios, a colheita das maçãs e peras da época, e procede-se à das castanhas, nozes e avelãs". E poderíamos acrescentar também a colheita de romãs, onde as há.

Dando-se bem em micro-climas mediterrânicos, a romãzeira pontuava os formosos hortos das cercanias da vila de Torre de Moncorvo, chegando a dar nome a um dos bairros do lado poente, entre o cemitério e a rua do Hospital velho (actual centro de dia da Misericórdia). No que restou dessas hortas, na zona do Santiago e nos jardins do Museu do Ferro, ainda se vêm algumas dessas antigas romãzeiras.

Quando madura, a romã abre-se, qual tesouro, mostrando os seus rubiginosos bagos. Talvez por esta abundância de bagos compactos, na Antiguidade, a romã era símbolo da Fertilidade. A coroa que se forma no seu umbigo, semelhando uma coroa real, faziam dela uma fruta rainha.

Aqui lhe deixamos a sugestão de uma sobremesa deliciosa para esta época do ano: uma salada de romã, regada com um bom vinho generoso do Douro (vulgo "vinho do Porto"), ou, se preferir, faça uma visita ao Museu do Ferro e aproveite o soalheiro outoniço nos seus jardins, esbagando os rubis de uma preciosa romã, colheita da casa...

Fotos de N.Campos (romãs e romãzeiras nos jardins do Museu do Ferro & da Região de Moncorvo)

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

A política em Moncorvo, há mais de um século...

Civilizados vão os tempos de hoje, à vista do que se passava há mais de um século, nos tempos finais da monarquia, em que tiros, facadas, bengaladas, vira-casaquismos e impropérios festejavam os actos eleitorais, de que saíam as tais chapeladas de votos com que os caciques locais entronizavam os coriféus dos respectivos partidos sedeados em Lisboa. Lá vinham depois as prebendas, ou uma nomeação política, para governador civil, ou outro cargo mais destacado, com sorte, junto da corte.Dois grandes protagonistas destas guerras políticas, na Moncorvo dos fins de século XIX, foram o Dr. Gallas (do Partido Progressista) e o Dr. Ferreira Margarido (dos Regeneradores, partido mais conservador).

Fotografia do Dr. Ferreira Margarido, in O Trasmontano, Outº. 1902 (cortezia da Biblioteca Municipal de T. de Moncorvo)
O Dr. António Joaquim Ferreira Margarido, natural de Torre de Moncorvo (nasceu em 1842), concluíu o curso de Medicina em Coimbra, tendo exercido em vários locais, tais como Mértola e Figueira de Castelo Rodrigo, antes de se fixar em Moncorvo. Depois de uma carreira política brilhante, viria a ser nomeado Conselheiro, tendo desempenhado o cargo de governador civil do distrito de Bragança várias vezes. A primeira vez foi em 1890 (de 30 de Julho a 13 de Novembro); depois em 1891 (de 16 de Julho a 7 de Abril de 1892); em 1893/94 (de 14 de Dezembro a 13 de Dezembro de 1894); em 1906 (22 de Março a 17 de Maio) e em 1908/09 (de 22 de Fevº. a 14 de Janeiro de 1909). Após a implantação da República o Dr. Margarido apagou-se por completo, acabando por falecer nesta vila, em 1922. Pelos relevantes serviços em prol do concelho, de que se destaca a intervenção a favor da ponte do Pocinho e da construção da linha do Sabor, o seu nome foi dado à rua que fica por detrás do Jardim Municipal.

Mas, como este "post" vinha a propósito das lutas políticas desses tempos, aqui transcrevemos alguns assentos da "Caderneta de Lembranças" do moncorvense Francisco Justiniano de Castro (1829-1901), sobre esse tema:

Por exemplo, veja-se como se fazia uma campanha no ano de 1897:
"Maio, 4 - andarão quaze [sic] toda a noite o Doutor Gallas [era do partido Progressista, mas parece que, nesta ocasião, se teria bandeado para os Regeneradores], e os Margaridos e todos os regeneradores, com a muzica desta villa atucar [sic], e a butarem [sic] muito foguete, a correrem as ruas todas da villa, dando vivas ao partido regenerador e a todos os regeneradores." - ora hoje estas arruadas fazem-se em ruidosas caravanas automóveis, com bandeiras, megafones e, à falta de banda de música, com as buzinas a apitar. No essencial não é muito diferente.

No ano de 1900, foi também ano de eleições, tendo saído vencedores os Regeneradores, cujo elenco municipal tomou posse no dia 21 de Julho:
"- Dia 21 de Julho de 1900, tumou poçe [sic] da camara municipal desta villa a cumição[sic] nova regeneradora composta dos cavalheiros seguintes: Affectivos [sic]: Joaquim António da Silva / José Manoel de Campos / José António dos Reis / Adelino Augusto Menezes (da Horta) / António Manoel Mota / Manoel António Candoso / Luís António Mendes / Subestitutos: (...)".

Mas a dança das cadeiras não se ficava só pela Câmara, já que no dia anterior mudara a direcção do Hospital (este ficava no actual centro de dia da Misericórdia):
"- No dia 20 de Julho de 1900, tumou poçe do Hospital desta villa a comição composta dos cavalheiros seguintes o Exmº. Snr. Doutor António Joaquim Ferreira Margarido e o Exmº snr. Joaquim António da Silva, e o Exmº Snr. José António dos Reis, etc".
Naturalmente também havia os "vira-casacas", ou boatos a respeito das suas "oscilações":
" -Dia 20 de Julho de 1900, tornouçe[sic] o Gallas a virar para o partido progreçista mas foi falso este buato[sic].

Depois também havia as "révanches" pós-eleitorais, os saneamentos por razões políticas, por "morderem a mão" que lhes dera inicialmente o "tacho":
"-Dia 11 de Agosto de 1900 é que butarão fora desta villa o snr. Antonio José Martins que tinha entrado dia 8 de Maio de 1877 por o ter nomiado a camara regeneradora... agora era contra os que o tinham nomiado, foi bem feito".
Outros tinham que ir para o "exílio", embora o chefe dos derrotados conseguisse dar um jeitinho para se arranjar trabalho fora daqui:
" - Dia 19 de Agosto de 1900, foi o Anibal que era cantuneiro da camara desta villa para o Porto, para outro emprego que também lhe lá arranjou o Dor. Araújo, por paga das rusgas que fizerão nas eleições a favor delle". -Note-se que o Dr. Araújo era generoso para com os seus apoiantes saneados:
"E o Briato [Viriato] Lopes Russo que era o guarda fios nesta villa e o butarão fora também o Dr. Araujo lhe está dando o ordenado que ganhava por ser socio das rusgas da eleição a seu favor". - andar nas "rusgas" da eleição, era o mesmo do que hoje andar nas caravanas de apoio.

Talvez já a preparar a contestação, saía em Setembro um jornal novo:
" - Dia 27 de Setembro de 1900 é que apareceu neste villa o jornal novo dos Guerras atitulado [sic], o Eco de Moncorvo, que é só de poucas vergonhas porque só [eles] é que apresentavão assim um jurnal ao publico, mais ninguem o aperzentava". - os Guerras eram os proprietários da casa grande da rua do Cabo, antigo solar dos Tenreiros, à entrada da vila, para quem vem das Aveleiras.

No seguimento do acto eleitoral, certamente durante a distribuição dos cargos, talvez se tivessem "zangado as comadres". O Gallas (aparentemente "comprado" pelos Regeneradores) parece ter-se zangado com o Margarido, o que explica o boato que correu no dia 20 de Julho (ver acima). Mas entretanto alguém negociou uma solução entre esta coligação de interesses, e o assunto resolveu-se:
" - Dia 8 de Outubro de 1900 à noite os regeneradores fizerão conferencia em casa do Oliveira e o Dr. Gallas e o Dr. Margarido fizerão as pazes e ficaram outra vez amigos". - A "casa do Oliveira", deve ser a de António Caetano de Oliveira, que corresponde ao solar onde hoje se encontra a Biblioteca Municipal.
Mas o rescaldo político ainda não devia estar bem feito, ao nível das bases, pois o cronista da vila desse tempo ainda acrescentou este remoque, sobre um colega seu:
" - O snr. Thomaz de Maçores, amanuençe [sic] desta ademinstração tem 20 costelas no corpo, 19,5 são progressistas e outra meia é regeneradora, e esta não é toda" - uma nota de ironia e de sarcasmo bem à Moncorvo, de onde se depreende que o dito Justiniano de Castro devia ser simpatizante dos Regeneradores, como se nota ao longo de outros assentos da dita caderneta.

Entretanto, o Dr. Margarido deve ter ido avistar-se com membros do gabinete ministerial a Lisboa, tendo chegado a 29 de Outubro:
" - Dia 29 de Outubro de 1900 chigou ...... [truncado na transcrição original] villa, vindo de Lisboa, o Exmº ..... Antonio Joaquim Ferreira Margarido... Doutor, e forão a esperá-lo os Exmºs. Senhores Dr. João José Dias Gallas e o Dr. Alberto Charula e Dr. Abilio da Costa Pontes e António Caetano de Oiveira, Eduardo Lopes Pereira e José Meirelles."
A nível mais baixo, as consequências da vitória eleitoral de 1900 continuaram a repercutir-se pelo ano de 1901:
"Dia 5 de Fevereiro, butarão o Victorino fora de jardineiro e de cuveiro[coveiro] e introu o Almendra. / Também butarão fora o lampianista... José Truvões e meterão o António.... " - o cargo de lampianista consistia em acender e apagar os lampiões de petróleo que havia nas esquinas das ruas principais, nessa época. Eram estas as consequências, naquele tempo, de se apostar no cavalo errado... Esperamos que esses tempos tenham definitivamente passado.

Fonte: Caderneta de Lembranças, de Francisco Justiniano de Castro, publicada por Dr. Águedo de Oliveira, ed. dos "Amigos de Bragança", 1975.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Resultados eleitorais do concelho de Torre de Moncorvo

Em resultado das eleições autárquicas que ontem tiveram lugar, registaram-se as seguintes votações (resultados provisórios, cf. dados oficiais divulgados pela imprensa, nomeadamente pelo Jornal de Notícias):
- PS (Partido Socialista) - 3.258 (48%);
- Coligação PSD (Partido Social Democrata)/CDS (Centro Democrático Social) - 3.095 (46,27%);
- CDU (Coligação Democrática Unitária) - 113 (1,69%).
Votaram 6.689 cidadãos; estavam inscritos: 10.148. percentagem de votantes: 65, 91%
De acordo com o sistema representativo em vigor, conclui-se que para o executivo Municipal, o PS obtém 4 mandatos (Presidente + 3 vereadores), ficando a coligação PSD/CDS com 3 vereadores. O Engº. Aires Ferreira, no poder há 24 anos, tem por diante o 7º. mandato como Presidente da Câmara, que deverá ser o último, de acordo com a nova lei eleitoral.
A nível de freguesias, a coligação PSD/CDS ganhou nas freguesias de Adeganha, Larinho, Lousa, Maçores, tendo-se registado um empate em Mós. Nas restantes 12 freguesias ganhou o PS.

Os resultados da freguesia de Mós foram reanalisados, sem possibilidade de validação de eventuais votos nulos, pelo que o acto eleitoral vai ser repetido no próximo dia 25 de Outubro. Ver: http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?section_id=12&id_news=415594

Para saber mais sobre as eleições autárquicas de 11 de Outº., clicar sobre este endereço electrónico: http://www.autarquicas2009.mj.pt/#
Novo mapa autárquico nacional - fonte JN: http://jn.sapo.pt/multimedia/infografia.aspx?content_id=1388434

domingo, 11 de outubro de 2009

Dia de eleições autárquicas para 2009-2013

Edifício dos Paços do Concelho de Torre de Moncorvo, na acrópole do "Castelo", obra dos anos 60 do séc. XIX (foto de N.Campos)

Hoje, dia 11 de Outubro, é dia de eleições autáquicas para o mandato de 2009 a 2013.
No concelho de Torre de Moncorvo apresentam-se três candidaturas para o executivo municipal e assembleia municipal, designadamente do PS, coligação eleitoral PSD/CDS e CDU (PCP/Verdes). Para as juntas de freguesia do concelho, as candidaturas apresentadas são maioritariamente do PS e do PSD/CDS.
Os cabeças de lista para o executivo municipal são os seguintes: Engº Aires Ferreira (PS); Dr. Nuno Gonçalves (PSD/CDS) e Sr. Sidónio Fernandes (CDU).
As secções de voto abrem às 8;00h da manhã e encerram às 19;00h.

Aproveitamos este ensejo para referir as fortes tradições municipalistas da vila de Torre de Moncorvo, desde a sua fundação, através do foral de 12.04.1285, concedido pelo rei D. Dinis. O governo da vila, nesses tempos medievos, pertenceria a um conjunto de "homens bons" (o Conselho), que seriam necessariamente cavaleiros-vilãos. A presença do poder real seria feita, ao longo dos tempos, através de "povoadores" ("pobradores") com mandato régio, almoxarifes e juízes de fora com funções administrativas. Aliás, essa confusão entre o poder judicial e o administrativo haveria de funcionar por todo o tempo da monarquia até ao Liberalismo. Assim, não é por acaso que, em Torre de Moncorvo, o Tribunal, Casa da Câmara e Cadeia, era tudo num mesmo edifício (demolido nos anos 30 do séc. XX) e que se localizava onde agora está o Tribunal da Comarca.
Todavia, pela documentação existente no nosso Arquivo Histórico, sabe-se que o concelho da Torre continuava a possuir no séc. XVIII um órgão colegial, a que chamavam o Senado da Câmera, composto por diversos vereadores, o qual era presidido pelo vereador mais velho, que serviria de juiz. As freguesias tinham também os chamados Juízes do Povo.
Com a monarquia constitucional (a partir de 1820), dá-se a separação dos poderes judicial e administrativo. Com a reforma de Mousinho da Silveira (1832) surge, em cada município, a figura do Provedor do concelho, substituindo o antigo juiz de fora como magistrado administrativo. Este viria a ser substituído, mais tarde, pelo Administrador do Concelho, igualmente uma espécie de representante da Coroa, a par do Presidente da Câmara, que era eleito entre os vereadores.
Já no período da República, com a Lei nº 88 de 7.08.1913, as câmaras passaram a ter dois órgãos: a Comissão Executiva da Câmara Municipal (poder executivo local) e o Senado Municipal (deliberativo). Havia, assim, um Presidente da Comissão Executiva da Câmara, voltando a haver o Administrador do concelho, com funções administrativas.
Com o "Estado Novo" (código administrativo de 1936), dá-se novamente a fusão de funções de Administrador e de Presidente do órgão representativo do município, ao mesmo tempo que aumentava o vínculo de dependência dos presidentes de Câmara relativamente ao poder central (o Estado).
Após o 25 de Abril, a Constituição de 1976 voltou a retirar aos presidentes de Câmara o estatuto de magistrado administrativo, voltando a ser apenas chefes do executivo municipal, escolhidos a partir dos cabeças de lista do partido mais votado, em escrutínio directo, através do método de d'Hondt. Pela mesma Constituição foram criadas Assembleias Municipais, também eleitas directamente (em vez dos antigos Conselhos Municipais), com poderes reforçados. A nível das freguesias, foram extintos os antigos cargos de Regedores, passando a ser eleitos também directamente por voto universal os representantes dos órgãos das freguesias (executivo e assembleia de freguesia). As eleições para os três órgãos (Câmara, Assembleia Municipal e Juntas de Freguesia) realizam-se de 4 em 4 anos, sendo o sistema vigente e para a qual se realizam as eleições de hoje.

Se há escrutínio que diga mais directamente respeito à vida das pessoas/cidadãos, é o das eleições autárquicas, pelo que aqui fica o nosso apelo ao exercício deste direito de cidadania.

Fonte: para uma parte deste "post" baseámo-nos em informação colhida na Wikipedia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Presidente_da_c%C3%A2mara_municipal) além de investigação própria.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A Prova de Ferro - III (conclusão)

Ossadas de animais no interior da mina abandonada da Carvalhosa (foto de A.Botelho)
Com combinação de véspera, aproveitámos a liberdade de não termos escola ao sábado e pespegámo-nos desde a aurora à entrada da mina, muito colados à parede e sem rumores para não afugentarmos os seus actuais moradores. Numa rapidez sem asas, perseguimos os pequenos morcegos munidos pelo mesmo radar que servia aos quirópteros para procurar alimento. A ecolocação dos mamíferos voadores precipitava-nos também a nós na proximidade do rumor mais lento e esmorecido da concavidade donde o desgraçado do quadrúpede expiava há vários dias os castigos da fome, da sede, do abandono e da crueldade.
- Mal posso acreditar!... É o Farrusco, o velho Farrusco da Ti Prazeres!
- Coitado!, livraram-se dele. Quem comprou o rebanho não o quis levar.
- Pois foi! – lembrou a Candinha que estivera, até então, muito calada.
Parece que ele também só dava mostras de nos conhecer pelo júbilo da cauda. Os olhos semicerrados pareciam os dos morcegos que, um a um, se iam filando, pendurados pelas patas, no emparedado lateral escuso e no tecto da caverna alheados do rumor a que se tinham vindo a habituar desde a visita forçada daquele intruso. Imperturbáveis, digeriam a enchente de insectos, que se avizinharam das águas estagnadas da represa, ou algum anfíbio rugoso e desprevenido, durante a sua acostumada romaria por aquelas bandas. Escanzelado, as costelas do Farrusco desenhavam-se-lhe no ventre e as patas traseiras recusavam-se a suster-lhe em pé a pele e os ossos. No fundo da cova onde se tinha despenhado faziam-lhe companhia outras carcaças antigas completamente descarnadas. À sua volta, estas apenas alumiavam melhor a sua magreza!
- O Farrusco está ferido. Reparem no sangue empastado na perna bamboleante, do lado direito!...
Ao evedenciá-lo, Candinha quase se precipitava no buraco.
- Vamos tirá-lo já dali! – disse o Júlio decidido.
O rapaz tinha-se esquecido do ressentimento do animal perante a desumanidade dos homens e antes que se aproximasse dele foi preciso que as suas palavras doces lhe aquietassem o temor de uma nova traição, quando este lhe arreganhou os dentes em atitude defensiva.
- Deita, Farrusco! Deita! Eu vou buscar-te.
Com o Zé a pegar-lhe nos membros da dianteira e o júlio a segurar-lhe a parte detrás, puseram-no dentro do vagão desconjuntado, no qual se tinha dado o primeiro embate da queda. Depois, içaram-no em braços e galgaram o fosso. As raparigas apaparicaram-no com muitas festas e o cibo de pão guardado no bolsa da saia.
Em sinal de cooperação, o velho Farrusco queria parecer dizer-nos que se aguentaria serra abaixo. Afinal, palmilhara-a vezes sem conta! E, por causa disso, a Josefina olhou-o enternecida.
- Só podemos fazer isto de duas maneiras: descermos a encosta, num saltinho, e falarmos com o Professor ou irmos serra abaixo, um estirão, com ele ao colo. – opinou o Zé.
A Josefina achou muito melhor que nos encaminhássemos para o povoado. A Ti Betrenária lá daria conta do recado.
Assim se fez, para bem do Farrusco e alegria de nós todos!

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

A Prova de Ferro - II

Alto da serra, na zona das minas, onde a vegetação recuperou os seus direitos. Ao fundo, o Alto de Felgueiras.

O itinerário da próxima visita guiada empurrou-nos desta vez serra acima, em direcção à Ferrominas. Galgámos o estreito carreiro, que conduzia ao cume do monte, e aí iniciámos a exploração na nossa aula de Ciência Viva. Era evidente aos olhos de todos que o matagal começava a abondar por entre o esquecimento da exploração mineira. Por isso, as feridas abertas no ventre da montanha estacavam e iam cicatrizando em circunscrição mais apertada. Talvez por essa razão o som cavernoso que soou do subsolo nos tivesse atingido os tímpanos e a alma num clamoroso sofrimento.
- Donde vem este gemido?
- Será o latido de um cão ou o uivo de um lobo?
- A mim parece-me um cão!
Cada elemento do grupo tentava assim clarificar a situação, mas o esclarecimento do Professor não nos deixou na dúvida. Aquela era outra das formas encontradas de se livrarem do animal indesejado por velhice, doença ou algum acidente cinegético. Acorremos curiosos ao local donde provinha o barulho. Espreitámos, em vão, pela estreita abertura, rodeada por pequenos tufos de erva e vergônteas de giestas à mistura. Dali não se vislumbrava o mais pequeno clarão, nem se podia adivinhar a dimensão da profundidade da galeria. Não era só o cão que supostamente se encontrava encurralado, também nós pressentíamos a impotência de poder chegar perto do bicho.
O Professor, conhecedor daqueles domínios, meteu-nos encosta abaixo e abriu-nos a cavidade de uma grande caverna. O terreiro ao seu redor permanecia um queixo limpo e de lisura irrepreensível de fêmea. Enfiámo-nos por ela adentro com os ossos enregelados da frescura íntima das entranhas de fraguedo e terra. Sem atavios que nos iluminassem e protegessem de alguma iminente derrocada, o Professor ordenou-nos que não avançássemos. Seguindo as pisadas dos velhos carris abandonados, sem vagões que os transportassem a eles ao fundo longínquo do túnel ou a nós de volta até à saída como dantes acontecia com o minério, ficámos ali especados e completamente imbuídos na semi-escuridão. Num repente, o brado do pobre animal chegou-nos novamente tal e qual o refluxo instantâneo e veloz de uma combustão explosiva de gases. Escutado de dentro da caverna, o bramido tornava-se lancinante.
- Vamos seguir o eco e procurar o pobrezinho! – implorou a Josefina.
- Impossível! Nunca o encontraríamos…
- Mas porquê?
- Olha além mais para a frente! Temos já ali duas narinas que nos conduziriam a sítios muito distintos e distantes…
- Vamos tentar! Vamos…
Sem perder a paciência, mas com visível consternação, diz-lhe para tomar atenção ao respiradouro; uma espécie de chaminé esguia, que ligava o interior da galeria à impoluta respiração de fora. Explicou-lhe que havia vários daquele género na continuidade do subterrâneo e que nem todos estavam tapados como este. Em seguida, olhou-a nos olhos, com firmeza, e disse-lhe:
- Pode ter sido empurrado por qualquer um destes respiradouros, não percebes?
Avizinhava-se a tarde e quando o pôr-do-sol descaía no horizonte banhado de montanhas escuras, passou um morcego que fustigou, com as suas asas abertas, o rosto de Josefina. Aquele roçar inesperado das membranas das mãos volantes petrificou-a. Felizmente, o Mestre exclamou a tempo:
- Quando eles regressarem, pela manhã, do seu esconderijo diurno, lá para os lados da barragem de Vale de Ferreiros, serão o melhor guia para chegar até ao covil!
Ia Josefina perguntar se havia mais, mas ficou queda e muda: uma revoada de microquirópteros deslumbrou-nos a vista, ao mesmo tempo que nos fez baixar instintivamente as cabeças.
- Mas temos de ir andando, que se faz muito tarde! – avisou o Professor mais assustado pelo adiantado da hora do que pelos morcegos.
(continua)

Por: Maria Isabel Fidalgo Mateus
Fotos: N.Campos

A Prova de Ferro - I

Recebemos, para postagem, mais um conto recente e inédito, da nossa parceira de blogue, Isabel Mateus. Tem por cenário as minas de ferro de Moncorvo, que se avistam nesta foto, ao longe:

Cenário do conto. Ao fundo, do lado esquerdo, a serra do Roboredo, onde se localizam as minas de ferro da Carvalhosa; ao centro a ribª. de Santa Marinha (foto de N.Campos)

O nosso professor levava-nos, uma vez por outra, por montes e vales e esgalgados ribeiros. Dizia ele que era importante conhecermos o sabor daquela beleza com os demais sentidos. O relancear dos olhos não lhe bastava. Mais tarde, a nós também não!
Pela manhã, calcorreávamos as redondezas, descíamos os desfiladeiros com as solas dos sapatos presas ao cascalho e depressa mergulhávamos as mãos nos regatos cristalinos que irrompiam pelas pedrinhas xistosas, puídas, muito finas e lisinhas. Mas num desses passeios deparámos, subitamente, com um cachoeirão de água funda. Este estava encavalitado sobre conchas enormes de rocha e rodeado por uma profusão de silvas-machas, cujo veludo verde-claro dos fetos alcatifava e o escuro das junças pontiagudas de novo espicaçava. As águas jorravam barulhentas, em redemoinhos numa reflexibilidade distorcida da harmonia do azul do ar, da brancura dos novelos de lã do céu e do canto dos pássaros. Foi ali sentados que descansámos da longa caminhada. Nisto, o Júlio não se conteve e perguntou:
- Qual é a serventia deste poço?
- Então não se vê logo que é para o gado beber?! – reclamou o Zé, muito seguro da sua resposta.
- Mas para isso bastava o ribeiro! Assim até as cabras e as ovelhas lá podem cair e depois não conseguem sair – retorquiu de novo o Júlio.
- E se ninguém as tirar a tempo, podem afogar-se – observou conscienciosamente a Candinha.
- É verdade, sucede o mesmo aos cães grandes quanto mais aos cachorrinhos!...
Esta sentença de morte veio da parte do Professor. Aí nós, os garotos, não nos contivemos:
- Os cachorrinhos?
O Professor, com a calma que pôde e a que já nos habituara, contou-nos que as cadelas pariam muito. No tempo em que havia mais ovelhadas e cabradas a mortandade era menor, porque se precisavam de mais patas e ladradelas para juntar as reses tresmalhadas por algum pasto muito apetecido, se bem que proibido, para as conduzir às cortes e caçar alguma lebre ou caçapo e levantar alguma perdiz. Agora estas continuavam a procriar e não se sabia o que fazer a tanta cria! Em vez de andarem cheios de fome, porque os montes estavam cada vez mais secos e a caça e o soro diminuíam, decidiam botá-los ao lago. Traziam-nos à socapa, quando a mãe sacudia as tetas moles e sem leite, após a mamada da manhã. Abafados os ganidos de recém-nascidos num saco de lona grossa para não saberem o caminho de volta, transportavam-nos assim às costas e ali os deixavam. Arrepiava-os o primeiro contacto com a limpidez fria das águas, contudo o instinto abria-lhes os olhos e movimentava-lhes as patas ao encontro coordenado do ritmo ondulado da queda de água. Frágeis e pequeninos, o mesmo impulso inato imobilizava-os com a desculpa da fadiga. Se a progenitora não os tivesse seguido, o que por milagre esporadicamente tinha lugar, morreriam afogados. Não havia outro fim possível à vista!
O regresso à escola para a hora do almoço arrastou-se penoso devido àquele relato arrepiante, pelo cansaço das pernas encosta acima e a fome, que também não transmitia força a nenhuma parte do corpo. Excepcionalmente guicha e iluminada, a imaginação de cada um de nós não parava na tentativa de rememorarmos a cena dos pequenos caninos. Muitas versões flutuavam nas nossas cabecitas, coincidindo quase todas no final feliz do salvamento, até que o povoado e a própria casa da aula se nos meteram pela frente.
(Continua)

Por: Isabel Maria Fidalgo Mateus

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Vindima no Larinho

No seguimento do "post" sobre a "Códiga do Larinho" recebemos algumas fotografias gentilmente enviadas pelo nosso Amigo Dr. Armando Gonçalves, larinhato de gema, ilustrando a vindima deste ano. Aqui fica o registo, com os nossos agradecimentos:

O trato da vinha, outrora muito trabalhoso já que tinha que se fazer a "escava" e a "redra", tudo a força de braço, com sachos ou "ganchas", é agora facilitado com recurso ao tractores. Aqui vemos o Sr. Manuel Gonçalves lavrando a sua vinha, nos arredores do Larinho. Em terras de sairinho.

Aproxima-se o grande momento da colheita. Uma criança percorre os geios, meditando sabe-se lá no quê... Estará a contar os cachos? estará a aperceber-se das diferenças das castas? ou entretém-se apenas a pisar o carreiro das folhas secas?...

O "rancho" ao ataque!... os pequenos produtores recorrem ainda ao sistema de entreajuda de amigos e familiares. Vagas reminiscências de um comunitarismo de outros tempos... No fim, há patuscada e convívio pela certa!...

Alguém está a ficar para trás!... é preciso dar uma ajudinha. Já aí vai o Armandinho! O sol ainda aquenta bem. Alguém canta uma cantiguinha? Olha qu'hoje não s'achega aqui a raposa...

S'tá a descarregar os baldes! Noutros tempos eram cestas de vime, feitas pelo ti cesteiro de Carviçais (ou de outros lados, mas agora só resta o Sr. Celestino, carviçaleiro); tal como eram os cestos vindimos, enormes e pesados para "homes valentes" de outras eras. Decididamente, rendemo-nos à Era do Plástico (preto, como da cor do pitróil)...

E lá vão as uvas a caminho da Adega, onde se transformarão no nosso outro petróleo... Ouro líquido, sol engarrafado e sei lá que mais, lhe chamou Torga, o nosso vate. O mesmo que cantava: «Vinde à terra do vinho, deuses novos! / Vinde, porque é de mosto / O sorriso dos deuses e dos povos / Quando a Verdade lhes deslumbra o rosto»... A Verdade... palavra vã em tempos de tanta falsidade. Se, como diziam os romanos, "in Vino Veritas", hoje nem mil mililitros chegariam para se arrancarem tantas máscaras...
Desejo-te um bom pingato, Armando Amigo, que és dos de certo! E conta comigo pelo S. Martinho, ao menos para me redimir de ter faltado à vossa vindima. Cumprimentos à malta do rancho do tio Manel.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Bicentenário do Nascimento do Visconde de Vila Maior



O Agrupamento de Escolas de Torre de Moncorvo em parceria com a Câmara Municipal assinalou hoje o 2º centenário do nascimento do Visconde de Vila Maior – Júlio Máximo de Oliveira Pimentel.


O local escolhido foi a escola que o adoptou como patrono e que tomou o nome de Escola Visconde de Vila Maior. As comemorações iniciaram-se às 9h30 com a abertura de um Concurso Literário sobre a vida e obra do Visconde, que estará aberto até 15 de Outubro.

Por volta das dez horas, depois de uma breve alocução proferida pelo Director do Agrupamento,dr. Alberto Areosa, a Biblioteca Municipal de Torre de Moncorvo apresentou, nas pessoas da drª Helena Pontes e drª Mª João Moita algumas passagens da vida e obra do Visconde.






Em seguida o grupo de Teatro Alma de Ferro dramatizou uma entrevista imaginária com o Visconde.
A finalizar, o Vereador António Olímpio Moreira, responsável pelo pelouro da educação e o Director do Agrupamento descerraram junto ao busto do Visconde uma placa comemorativa da data.


Ainda o Visconde de Vila Maior

Júlio Máximo de Oliveira Pimentel, 2º Visconde de Vila Maior
(1809-1884)


Nasceu em Torre de Moncorvo em 5 de Outubro de 1809 (segundo a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, ed. anos 50 do séc. XX). Alguns autores dizem ter sido em 11 de Outubro de 1809 (Dicionário Bibliográphico Portuguez, 1860; revista Ocidente, 1884; etc.). Filho de Luís Cláudio de Oliveira Pimentel (a quem Júlio Máximo pretendeu que fosse atribuído o título de 1º. Visconde de Vila Maior) e de D. Angélica Teresa de Sousa Pimentel Machado; neto paterno de João Carlos de Oliveira Pimentel (capitão-mor de Torre de Moncorvo, cavaleiro da Ordem de Cristo, donatário das barcas do Douro e administrador-geral dos tabacos e sabões) e de sua mulher, D. Violante Engrácia da Silva.

Gravura de capa da revista Occidente, nº. 211, de 1.11.1884

Estudos: estudos preparatórios no Colégio da Lapa, no Porto; ingressou na Universidade de Coimbra, em 1826, no intuito de cursar leis, acabando no entanto, por se matricular em Matemática, onde obteve o grau de bacharel, em 1837.

Vida Política: Liberal convicto, foi como tal um dos bravos do Batalhão Académico. Finalizada a Guerra Civil em 1834, regressou a Coimbra, acabando por se alistar novamente no Exército, na conjuntura da Revolta dos Marechais. Desempenhou, mais tarde, as funções de vereador da câmara de Lisboa, ocupando a presidência no biénio de 1858-1860. Deputado às Cortes em várias legislaturas. Par do Reino.

Vida Académica: Leccionou Química, desde 1838, na Escola Politécnica de Lisboa, tendo-se dirigido a Paris, a fim de cursar essa ciência. Regressou a Portugal anos depois, e conseguiu no Instituto Industrial, o lugar de professor de Química, onde se dedica ao estudo das águas minerais (Gerês, Caldas da Rainha, etc.) e redige o primeiro tratado químico, em português. Em 1857, ocupa o cargo de director do Instituto Agrícola, sendo posteriormente designado pelo bispo de Viseu para a reitoria da Universidade de Coimbra, cargo que ocupou até à sua morte. Aí, desenvolveu actividades de grande interesse, como p. exemplo as comemorações do centenário da Reforma Pombalina; elaborou uma notícia histórica-descritiva da Universidade, apresentada na Exposição de 1878, de Paris (tendo já sido o Comissário Geral da delegação Portuguesa, na Exposição de 1858); criou uma escola ampeleográfica (vitivinícola). Foi-lhe também cometida, em 1883, a elaboração de um plano de reestruturação do Ensino Superior, pelo que teve de visitar várias escolas superiores, em França, Itália, Inglaterra e Espanha, não obstante a sua já adiantada idade, a que a morte viria a pôr termo, um ano depois, quando trabalhava no relatório dos resultados da viagem.

Casa solarenga da família Oliveira Pimentel, em Torre de Moncorvo, onde terá nascido o visconde de Vila Maior (foto N.Campos)
Títulos e condecorações: Visconde de Vila Maior (1858); Fidalgo-Cavaleiro da Casa Real; sócio e Presidente da primeira classe da Academia Real das Ciências de Lisboa; sócio do Instituto de Coimbra; da Society of Arts de Londres; da Academia de Agricultura de Florença; Grã-cruz da Ordem de Carlos III de Espanha; Grande Dignatário da Ordem da Rosa do Brasil; Comendador da Ordem de Cristo, da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, da Ordem de Leopoldo I da Bélgica, e da Ordem de S. Maurício e S. Lázaro de Itália; Cavaleiro da Ordem de Avis, da Ordem da Torre e Espada, e da Legião de Honra de França.
Artigo de Henique de Campos, no jornal escolar "Folha Académica", ano I, nº 3 (19.03.1979), policopiado a stencil - clicar sobre o documento para o ampliar.

Obras principais: Lições de Química Geral (1850); Memória e estudo químico da água mineral de S. João do Deserto, em Aljustrel (1852); Elogio histórico do sócio efectivo Luiz da Silva Mousinho d’Albuquerque: recitado na sessão pública da Academia Real das Ciências… (1856); Relatório sobre a Exposição Universal de Paris: Artes Químicas (1857); Preliminares de Ampelografia e Enologia do País Vinhateiro do Douro (1865); Tratado de Vinificação para Vinhos Genuínos (1868); Relatório sobre a classe LXXIII da Exposição Internacional de 1867 (1868); Discurso pronunciado pelo Reitor da Universidade de Coimbra … por ocasião da festa comemorativa da reforma da mesma universidade em 1772 (1872); Manual de Viticultura Prática (1875); O Douro Ilustrado (1876); Exposição sucinta da organização actual da Universidade de Coimbra… (1877); Memorial Biográfico de um militar ilustre, o General Claudino Pimentel (1884). Foi também colaborador das seguintes revistas: Revista Contemporânea de Portugal e Brasil; Revista Universal Lisbonense; Memórias da Academia; Actas das Sessões da Academia Real das Ciências de Lisboa; Anais das Ciências e Letras; Arquivo Universal; Arquivo Rural, Comptes Rendus de l’Academie des Sciences, entre outras.
R.Leonardo /N.Campos

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

2º Centenário do Nascimento de Visconde de Vila Maior


Comemora-se hoje, para além do 99º Aniversário da Implantação da República e o 886º Aniversário do Tratado de Zamora, o 2º Centenário do nascimento do moncorvenese Júlio Máximo de Oliveira Pimentel, Visconde de Vila Maior e um dos maiores vultos da cultura, do ensino e da ciência portuguesa no séc. XIX.

(fonte da imagem: Biblioteca Nacional Digital)

sábado, 3 de outubro de 2009

IV Mostra de Vinhos, Amêndoa e Stocks

Foi ontem (dia 2 de Outubro) inaugurada a IV mostra de Vinhos, Amêndoa e Stocks de Torre de Moncorvo, a qual ficará patente até final de Domingo no pavilhão Gimnodesportivo do Largo da Corredoura.

Esta feira é organizada pela ACIM (Associação de Comerciantes e Industriais de Moncorvo), em parceria com o município.
Encontram-se patentes vários expositores relacionados com produtos regionais do nosso concelho e concelhos vizinhos, com especial para o sector dos vinhos e confeitaria da Amêndoa.

Há ainda expositores de outros produtos, modas e confecções do comércio local, a bons preços.
Os visitantes poderão ainda provar aqui a gastronomia regional numa esplanada montada no interior. Aproveite este fim de semana e visite este evento, ajudando o comércio e os produtores da nossa terra!

Fotos: N.Campos

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Oficina Vinária/Museu do Vinho da Qtª. das Aveleiras

Pátio da Oficina Vinária/Museu do Vinho (foto de Miguel P. Félix)

Da parreira ao vinho, da vindima à mesa, vai um longo percurso. De permeio, o trabalho do Homem, celebrado nas sacrossantas palavras da Eucaristia, que terminam no Vinho da Salvação, sangue de Cristo para uns, néctar dos deuses (pagãos) para outros. Poucos sabem, no entanto, que este percurso nos é contado, em Torre de Moncorvo, num espaço museológico de iniciativa privada, que vai em breve comemorar dez anos. Estamos a falar da Oficina Vinária/Museu do Vinho (ou, para melhor compreensão do público "camone", o Wine Museum).

Secção dedicada à Viticultura (foto de Miguel P. Félix)

A "Oficina Vinária" é assim denominada porque essa era a designação que, no séc. XIX, se dava aos locais onde se fabricava o vinho em maior escala, tirando partido do declive do terreno. Assim, na parte superior localizavam-se os lagares onde se pisavam as uvas, enquanto num espaço situado em cota inferior ficava a Adega, onde estavam os tonéis (ou os grandes balseiros, mais para a zona da Régua, a capital do país vinhateiro). Não raro o mosto corria do piso superior (Lagar) para o inferior (Adega) através de um canal, ou caleira, ao longo da parede, escorrendo depois para os tonéis através de umas bicas. Isto mesmo se pode apreciar ainda no interior de um restaurante em Moncorvo, ao lado do núcleo museológico da Oficina Vinária, que, em rigor, se deveria chamar Adega.

Esmagador mecânico (em 1º plano) e manequins representando pisadores tradicionais (foto Miguel P. Félix)

Assim descreve estes espaços o nosso ilustre conterrâneo Visconde de Vila Maior (cujo duplo centenário se completa dentro de poucos dias): "A maior parte das officinas vinarias do Douro - lagares e adegas - acham-se edificadas sobre os terrenos inclinados das encostas (...). Formam ordinariamente estas officinas um unico edifício rectangular dividido em duas grandes casas contiguas, mas occupando os seus pavimentos niveis differentes (...). A casa que occupa o plano inferior é a adega, e a do nivel superior contém os lagares" (in O Douro Illustrado, 1876).

Outro aspecto do interior da Oficina Vinária (foto de Miguel P. Félix)

Neste núcleo museológico (com acesso pela travessa das Amoreiras, junto da igreja matriz), mostram-se uma série de objectos e fotografias relacionados com a viticultura e a vinificação, num cuidado arranjo gráfico (de autoria de Miguel P. Félix). Num espaço lateral encontra-se instalado o sistema de produção de aguardente, com um pote montado sobre a fornalha, cilindro do bagaço, serpentina (dentro do reservatório de arrefecimento). Todos os objectos estão fora de uso e destinam-se apenas a ser vistos. A colecção, na sua quase totalidade, deriva de objectos recolhidos na Quinta das Aveleiras.

A grande casa agrícola do Sr. A. Montenegro integrava, além destes lagares, a Quinta das Aveleiras e muitas outras propriedades. As Aveleiras e as instalações da Oficina Vinária pertencem hoje à família Pinto Félix, a quem se deve a ideia e a concretização do museu do vinho da Quinta. Esta continua a ter uma vertente agrícola, com processos modernos, a par de um complexo de turismo rural (com casas de alojamento, piscinas, corte de ténis, jardins, percurso hípico, etc.) na escosta a norte da Serra do Roboredo, sobranceira à vila de Torre de Moncorvo.
Musealização da destilaria (foto N.Campos)

A Oficina Vinária /Museu do Vinho da Quinta das Aveleiras possui uma funcionária atenciosa que, com eficiência, faz a visita guiada ao espaço expositivo e fornece todas as informações aos visitantes, em português e inglês. Possui ainda um folheto desdobrável de onde retiramos este resumo informativo para o público estrangeiro, em língua inglesa:
"Situated in the heart of the historical center of Torre de Moncorvo this museum is installed in a old press, and it shows through the remains of Quinta das Aveleiras some aspects of the process of the wine making".
Contactos: tel. 351 279 25 22 85 ; fax: 351 279 258282

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Códiga do Larinho


Cachos de Códiga do Larinho, fotografada na freguesia do Larinho (foto do Dr. Armando Gonçalves)

Parece terem terminado as vindimas e o môsto vai fervilhando pelas adegas das nossas terras durienses. Como toda a gente por aqui sabe, ele há muitas e variadas castas de uvas, sendo as mais conhecidas, no Douro, no grupo das Tintas, a tinta Roriz, Tinta Barroca, Tinta Francisca, o Tinto Cão, as Tourigas (franca e nacional), o Mourisco Tinto, etc; no grupo das Brancas: o Donzelinho Branco, Esgana-Cão, Malvazia fina, Rabigato, a Códiga, etc. - muitas das designações variam de região para região, mesmo de um concelho para outro, ou de uma freguesia para outra.
Estas castas são transversais a muitos dos concelhos do Douro, sendo difícil determinar a sua origem, pois estão aqui enraizadas algumas delas desde há séculos.
Todavia, há uma que, dada a sua especificidade, foi identificada com uma freguesia do concelho de Torre de Moncorvo: a códiga do Larinho (ver foto acima). Segundo alguns especialistas, será uma sub-casta, ou variedade da casta Códiga. O certo é que é a única que é específica do nosso concelho, embora naturalmente se possa ter já disseminado por outras terras do Douro.
Em tempo de vindimas aqui fica este apontamento (no seguimento do dos "arrotchos"), dedicado aos meus amigos Larinhatos, para que sintam ainda um bocadinho mais de orgulho na sua terra!

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Arrocho

Dois exemplares de "arrotcho".

Uma pequena achega à função do "arrotcho" - servia para apertar a carga transportada pelo macho ou burro. Neste caso, a sua dimensão é maior do que a dos exemplos anteriores.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Uma nota de etnografia

Enquanto me encontrava a arquivar uns papéis em casa, reencontrei este artigo que me parece oportuno partilhar convosco. O seu autor é o eminente investigador, etnógrafo, historiador e arqueólogo Vergílio Correia, tendo sido publicado em 1937, numa colectânea de artigos de sua autoria denominada "Etnografia Artística Portuguesa", em Barcelos. É particularmente conhecido pelo seu trabalho desenvolvido na mais conhecida estação arqueológica do período romano em Portugal, Conímbriga. A grafia do texto é a original salvo o uso dos tremas que não consegui colocar.

Para Dra. Casimira Machado Leonardo, que do alto dos seus mais de 90 anos, muito me continua a ensinar sobre a históra, costumes e tradições da sua terra mater, o Larinho.


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"Arrôchos" de Larinho e Felgar (Moncorvo)

"Larinho e Felgar são duas boas aldeias do concelho de Moncorvo, cuja visita a nova, inacabada, linha ferroviária do Pocinho a Miranda já tornou fácil e, relativamente rápida.

E interessante, embora um tanto enigmática, a paisagem desta região de terras esbranquiçadas, onde os vales, largamente desdobrados, entestam com cabeços escuros e pedregosos, salpicados de arvoredo miúdo. Região de centeios e trigos onde raro se alteia uma bandeira verde ou amarelecida de milhão, aqui, peor que no Alentejo - onde os montes alegram de manchas brancas a solidão das charnecas e dos montados -, raramente o largo espaço que medeia de povo para povo é habitado. A população concentra-se quási exclusivamente nas aldeias.


Ora nestas duas terras de Larinho e Felgar encontra-se localizado um costume etnográfico digno de referência. Por ocasião das ceifas, não são os homens que atam, em fachas, os molhos de palha, como sucede em tôda a parte; é a mulher a encarregada dêsse serviço. Mas como, por menos forte, ela não pode, à simples fôrça de braço, apertá-los conveniente, serve-se do arrôcho para êsse fim.

Atando duas ou três hastes de centeio, trigo ou cevada - conforme o cereal ceifado -, pelas espigas, com um nó de tecedeira, passa a cinta assim preparada sob o molho, reune as extremidades que ficaram com nova laçada com a varinha levemente recurva do arrôcho, consegue o desejado apêrto.

Como êste utensílio é, portanto, de uso exclusivamente feminino - um homem teria vergonha de empregá-lo, menosprezando a fôrça do seu braço -, aparece adornado de rústicos entalhes que os pegureiros e os namorados nas horas vagas se entreteem a gravar, à navalha, sôbre troncos afeiçoados de freixo ou buxo.

Os exemplares reproduzidos na figura junta, a um têrço do seu tamanho, dão bem a impressão da rudeza decorativa dos arrôchos que, algumas vezes, aparecem também pintados de verde, vermelho e azul. O seu comprimento regula entre 0,25 e 0,30 [metros].

Outubro de 1916.

(desenhos de A. Correia)"

domingo, 27 de setembro de 2009

SOPAS DE CAVALO CANSADO

SOPAS DE CAVALO CANSADO

Ora, em maré de galináceos, de poleiros e de eleições, aí vai mais uma estorinha de burros.

Era uma vez um belo burrico ruço, já não muito novo , mas que ainda trabalhava no duro, porque percebia perfeitamente que, se nem sempre a manjedoura era de primeira, isso só acontecia, porque a dona velhota não podia dar-lhe melhor. A dona nova esfalfava-se a trabalhar e ele, Ruço, alombava com carradas de lenha para fazer “andar o forno”, carregava enormes sacos de pinhas para vender na Vila e, no verão quando todas as aldeias estavam em festa,
o Ruço sabia que, Sábados e Domingos, em vez de descansar como manda a lei e a Santa Madre Igreja, lá tinha ele de carregar os cestos de amêndoa coberta - arrobas de amêndoa coberta - mais a tábua e as pernas da mesa que as donas armavam no largo da capela, para as bandas do coreto e, de há dois anos para cá, ainda tinha de carregar o cestinho onde dormia a dona mais pequenina. Mas essa nem contava como peso. Era só um contrapeso...
Os caminhos é que eram carreiros de cabras e não sendeiros para burros. E léguas a calcorrear, que trotar já não era com ele .
- Amanhã vamos partir bem cedinho, para não apanharmos a força do calor. Eu já ando tão devagar , filha...
- E eu também - dizia o Ruço e a menina ria para ele. Só ela é que entendia o que o burrico dizia.
- Estás a rir-te? É que tu não vais à pata – dizia a mãe, feliz por ver a filhita a rir.
- Pois não. Vai às minhas cavalitas – o Ruço piscava o olho e a menina , que, no seu caminhar ainda bamboleante, vinha fazer-lhe uma festinha . Só lhe chegava ao joelho. As carícias daquela mãozita eram mimos que o Ruço agradecia com o olhar e ficava muito quieto, com receio de mexer alguma pata e ferir a miúda.

- Vá, senta-te para eu te lamber a mão. Eu sei que tu gostas. – Com uma risada a pequenita sentava-se.
- Aqueles dois até parece que se entendem. – comentava a avó.
- Elas nem sonham que nós nos entendemos. Dá cá a mão. Vamos à lambidela. E agora dormir, que amanhã são cinco léguas até ao Cabeço. É longe p’ra burro, salvo seja, que eu já devia estar a gozar a minha mais que merecida reforma.
A avó ia-se lamentando enquanto se deitava : - Eu já sou um estorvo.
- Não diga isso, mãe. Bem sabe que preciso de si, para tomar conta da menina.
- Pois é, filha...Vamos lá dormir umas 4 ou 5 horitas.

(Ler mais...)
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sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Verão prolongado por Outono adentro...


Não sei por que cargas d'água (ou falta dela), ocorreu-me ontem que já estávamos no Outono, se bem que continue a parecer Verão, com o caloraço que se continua a fazer sentir. E veio-me à cabeça aquilo do "verão dos marmelos", que costumava ser sempre antes do "verão do S. Martinho", só que já não me lembrava se era no final de Setembro, ou em Outubro. Nas dúvidas, veio-me à lembradura uma publicação que costumava esclarecer este tipo de "mistérios" e que já aqui foi falada uma vez, num comentário do nosso amigo "Felgar", se não estou em erro. Pois é, o velho "Seringador" que se comprava pelo início do ano, nas feiras (outros preferiam o Borda d'Água). Agora arranjo-o numa das livrarias cá do sítio e mantenho a velha tradição familiar de fazer esta aquisição. Não encontrei a referência que pretendia ao dito "verão dos marmelos", nem sequer soube quando é que se colhem os marmelos (embora saiba que é por agora). Mas dei conta que o dito Seringador conjuga elementos de actualidade com informação verdadeiramente "archeológica": por exemplo, soube que no dia 16 de Setembro foi o Dia Internacional para a Preservação da Camada de Ozono, que no dia 21 foi o Dia da Doença de Alzheimer, que a 22 foi o Dia Europeu Sem Carros e que a 27 vamos ter o Dia Mundial do Turismo (tudo assuntos muito actuais); em contrapartida, o Seringador inclui uma curiosa nota histórica sobre a consideração que se tinha pelos forasteiros em Bragança, no tempo de D. Sancho I, além de dar os costumeiros conselhos para as sementeiras do fim de Setembro. Nestas ainda inclui o linho, o trigo, o centeio, etc., culturas mediévicas ou vindas de tempos neolíticos, e que hoje podemos considerar praticamente extintas, ao menos nas nossas terras...
O resto, para estes dias, podem ler no recorte que aqui postamos (em cima), a combinar com as galinhas do Vasdoal e para fazer concorrência ao noticiário de Curral de Moinas. Ah, aproveita-se uma informação: dia 29 de Setembro é dia de S. Miguel, o verdadeiro padroeiro do Felgar. Pergunto aos "Pucareiros": continua a fazer-se a festa? no dia próprio, ou em fim de semana? - aguardamos o convite!

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Dos animais

A galinha desconfiada.

por João Pinto

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