segunda-feira, 17 de agosto de 2009
P'rà Júlia
O meu nome é Júlia.
Desde os romanos
que o meu nome é Júlia.
Podia ser Augusta
porque nasci em Agosto.
Mas o meu nome é Júlia.
Desde os romanos
que o meu nome é Júlia.
Nasci quando até a brisa era quente
e nada corria a não
ser o tempo na Corredoura.
Mas desde os romanos
que o meu nome é Júlia.
Não sei se há flores com este nome
ou sirocos ou tempestades
ou tsunamis ou tufões
com o meu nome.
Talvez haja.Mas insisto:
desde os romanos que
o meu nome é Júlia.
Cairam inpérios
nasceram impérios,
o Tempo brincou com o Tempo,
mas digo-vos:
o meu nome é Júlia
desde os romanos que é Júlia.
Não insistam: dizem que
escrevi livros
que abracei netos
que soube que há
sofrimento e morte,
mas não insistam.
Por favor não insistam.
O meu nome é Júlia.
Desde os romanos que o meu nome é
Júlia.
Amores sem tempo,
ternuras sem medida,
esperanças sem espera,
utopias leves para não
incomodar o vizinho,
a corredoura mátria,
as ruas pequenas
que a memória tornou maiores.
Não insistam que eu repito:
sou a Júlia
Júlia desde os tempos dos romanos,
quando ser Júlia
era olhar o Mundo
sem ter medo dele.
Júlia, nada mais tenho para lhe oferecer, além deste momento de terna amizade. Parabéns.
Às Cobrideiras de Amêndoa de Moncorvo
Um dos ex-libris de Torre de Moncorvo é a famosa "amêndoa coberta", isto a par do trabalho do ferro e, em termos monumentais, da igreja matriz da vila. A confeitaria da "amêndoa coberta" está enraizada nesta terra talvez há mais de 200 anos, com referências documentais desde há cerca de século e meio.
Assim, e ainda em jeito de homenagem à Drª. Júlia de Barros Guarda Ribeiro, para os moncorvenses Júlia Biló, aqui vai mais um poema, este de sua autoria, dedicado às cobrideiras de amêndoa de Torre de Moncorvo:
À COBRIDEIRA DE AMÊNDOA DE MONCORVO
(à memória de minha mãe e de todas as cobrideiras de amêndoa)
Ninguém sabe nem pressente
Que de teus dedos ardidos
Brota o tom luminescente
Do açúcar feito flor
Das doces rosas-amêndoas.
Ninguém sabe nem pressente
Que de tuas mãos fortes e hábeis
Brotam as pétalas-bicos
Brotam as pétalas frágeis
Das doces amêndoas-rosas.
Ninguém sabe nem pressente
Que de teus gestos sofridos
Repetidos, sempre iguais
De incompleto remar
Brotam como espuma do mar
As doces rosas-amêndoas.
Horas sem minutos,
Dias sem nomes,
Anos que teu ventre calcinaram
No teu corpo dolorido.
Do teu salgado suor
Do teu esquecido labor
Nasceram as amêndoas-rosas
As doces rosas-amêndoas
Amêndoas do teu amor.
Júlia de Barros Biló (1954), in: Somos poeira, somos astros, Magno Edições, 2000, págs. 52-53
Parabéns Júlia!...
Permitam-nos os nossos leitores e visitantes que aqui felicitemos a nossa Colaboradora e Amiga, a professora e escritora Drª. Júlia Biló, por ocasião da celebração do seu aniversário (hoje, 17 de Agosto), com um grande abraço dos Amigos Blogueiros, que lhe desejam as maiores felicidades e muitos anos de vida!... Os nossos sinceros Parabéns!
I
As doceiras de Moncorvo
Tinham fama em todo o lado
Nas festas de povo em povo
Moncorvo estava representado
II
Eram as doceiras nas festas
Uma forte tradição
Vendendo amêndoas cobertas
Que se compravam como recordação
III
Onde houvesse romarias
Lá estavam as doceiras
Com as suas doçarias
Para servir as romeiras
IV
Bom era o licor de canela
Bebido pela garrafinha
Acompanhando com ela
Uma súplica docinha
V
Económicos e rebuçados
As amêndoas e o licor
Pelos romeiros eram comprados
Por ser bom o seu sabor
A toalha que cobria a mesa
Branquinha e bem passada
Sujava-se na certeza
Quando a festa estava animada
VII
Também tinham o seu pregão
Que tinha a sua piada
A tia Antónia Biló então
De todas era a mais engraçada
Toda a gente se ria com ela
Como ela também se ria
Vendendo o seu licor de canela
E os bons doces que fazia
IX
Moncorvo tinha doceiras
Alegres e divertidas
Honradas e trabalhadeiras
Que não podem ser esquecidas
X
As doceiras vão acabando
Nas festas não se vêem mais
Mas é bom ir recordando
Coisas que eram boas demais
Autor: J. M. Remondes
domingo, 16 de agosto de 2009
15 de Agosto - Festas da Vila e do Concelho
15 de Agosto. Dia de Festa na vila, a qual se pretende representantiva de todo o concelho. Que de todo o concelho, de toda a região, e de toda a "estranja" convergem os povos para verem a procissão passar, e, no fim, para se divertirem até horas tardas.
Aqui fica uma brevíssima reportagem de momentos processionais, aguardando outros contributos mais:
Pela Avenida Engº Duarte Pacheco (antiga rua do Cabo), não poderia nunca faltar o andor de Santo Isidro, padroeiro dos campos da Vilariça, outrora transportado num carro puxado por uma junta de bois, o qual foi substituído há já uns bons anos por um tractor. O tabuleiro onde pousa a imagem do Santo é semeado com cereal (é uma sementeira natural, nada de plástico!), evocando as antigas searas da Vilariça, que cabia ao Santo proteger, desde a sua capelinha, situada na Qtª. da Portela.
O Orgulho de ser Moncorvense... - Na cartela da direita, levada por um anjinho, lê-se: "Rainha dos Céus, padroeira de Torre de Moncorvo". E à esquerda, a menina assume: "Eu sou Moncorvense"! As cores azul e branco das crianças-anjos evocam as cores celestiais da Senhora da Assunção, que vem já atrás, em grande andor, puxada por mais um tractor.
Já passaram os outros andores, mais pequenos, levados pelos devotos em promessa. Passa a multidão, enquanto outros assistem, até se integrarem no cortejo. Rostos devotos, compenetrados, carinhas larocas também, eis que aqui estão, cumprindo a tradição, passando, ou vendo passar a procissão...
Duas horas depois, um longo circuito que já torneou a vila - Rua do Cabo, avenida dos Combatentes, Avenida João Paulo II, R. Vasco da Gama, R. Constantino Rei dos Floristas, Praça, Rua dos Sapateiros, R. Tomás Ribeiro, Praça (de novo, mas pelo outro lado), Rua das Flores, e chegada apoteótica ao Adro. A multidão reune-se em redor da sua Padroeira.
Nossa Senhora da Assunção, junto ao seu templo, a grandiosa igreja matriz de Torre de Moncorvo. Os mordomos começam a recolher os andores. O da Senhora é o último, ficando em apoteose no adro, enquanto dos devotos colhem flores e deixam ainda alguns donativos, promessas cumpridas, ou pedidos para mais um ano de boa sorte, boa saúde, para cada um e para os seus...Depois dos acordes finais, também os músicos se despedem. Cai a noite e a Rainha dos Céus despede-se dos fiéis que a vieram venerar. Mais um ano. Mais uma vez a Tradição se cumpriu.
Finda a procissão, fica a igreja e o antigo Rossio de Torre de Moncorvo (hoje Largo General Claudino), com as suas esplanadas já preparadas e à espera do cumprimento de outra tradição - esta, mais de cariz nocturno...
sábado, 15 de agosto de 2009
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
Mostra-me ( sobre su ave)
Mostra-me o mundo que se estende das tuas mãos
Porque há certamente mundos para além das tuas mãos
Desvenda-me os segredos, os silêncios, as coisas
Ensina-me a olhar para lá dos meus olhos
Que já não vêm mais do que o imperfeito
A sombra inacabada dos montes e o ocaso
De algumas tardes que guardo nos meus desenhos
Uma fresta de luz na portada, nada mais
Uma ave que se despede ao anoitecer
Um choro, uma palavra, um canto
Um breve frio no rosto, diria uma memória, talvez
Mostra-me os recantos habitados
A minha casa, o fogo da lareira,
O riso dos meninos, a larga praça por onde se abrem as vozes
Que por vezes ainda julgo ouvir
Mostra-me a curva fluvial e os salgueiros
Que se debruçam sobre o meu corpo
Agora e aqui
Mostra-me
Para que eu possa partir outra vez
14 de Agosto 2009
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
Capela da Senhora da Teixeira (Frescos)
Aqui fica um olhar fotográfico que nos foi enviado por Leonel Brito (autor das fotografias e da apresentação) sobre as pinturas a fresco do ermitério de N. Sª. da Teixeira, próximo de Sequeiros (freguesia de Açoreira).
terça-feira, 11 de agosto de 2009
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
Aconteceu no Museu: palestra em jeito de balanço sobre o Património concelhio
Como foi anunciado, realizou-se no sábado passado, dia 8 de Agosto, no auditório do Museu do Ferro e no contexto da Exposição "VESTÍGIOS...", a palestra sobre o Património Arqueológico e Arquitectónico do concelho de Moncorvo. A sessão foi presidida pelos representantes do município (Sr. João Rodrigues, em representação do Sr. Presidente da Câmara) e do PARM (Engº. Afonso Calheiros e Menezes, Presidente da Direcção), tendo-se seguido as intervenções do Sr. Prof. Doutor Adriano Vasco Rodrigues, Sr. Norberto Santos e Drs. Nelson Campos e Rui Leonardo.
Tendo presente o Inventário Arqueológico do Concelho de Torre de Moncorvo revisto e actualizado, o qual foi entregue ao Município para inclusão no capítulo respectivo do novo PDM, o objectivo essencial desta sessão foi o de se fazer um balanço (ainda que necessariamente breve e muito preliminar) do estado dos conhecimentos sobre o património arqueológico e arquitectónico existente (e identificado até à data) no nosso concelho. A partir daí, tentou-se traçar um quadro da ocupação humana do território em que nos situamos (que obviamente não se confina às fronteiras artificiais do concelho), pelo menos nos últimos 5.000 anos, já que os dados para épocas anteriores são bastante escassos.
Assim, a palestra visava dar um pouco mais de substância à Exposição "VESTÍGIOS...", funcionando como seu complemento, ou como outra face de uma mesma moeda, tendo em vista a organização de uma futura sala de Arqueologia & História, prevista desde o início, nos espaços do Museu do Ferro & da Região de Moncorvo.
Para saber mais, ver: http://parm-moncorvo.blogspot.com/2009/08/palestra-sobre-patrimonio-do-concelho.html
domingo, 9 de agosto de 2009
Luar-dos-Montes
Momento registado enquanto um cãozito, encostado à máquina fotográfica, ladrava à Lua. Não conseguiu os seus intentos, mas emprestou ao cenário uma musicalidade magnífica.
sábado, 8 de agosto de 2009
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
Em tempo de férias, comece por aqui!...
Algures em Trás-os-Montes, a Norte do Douro, próxima do rio Sabor e do extenso vale da Vilariça, aninhada junto à serra do Roborêdo (em cuja extensão jazem milhões de toneladas de minérios de Ferro), fica a nobre villa da Torre de Moncorvo.
Uma terra cheia de tradições e de História, à cabeça de um concelho composto por 17 freguesias onde há muitos pontos de interesse para descobrir! Eis a nossa proposta para as suas férias.
Deverá começar a sua visita pelo Posto de Turismo, situado na antiga Casa da Roda dos Expostos, onde outrora se metiam as crianças enjeitadas. Ali lhe poderão explicar melhor esta história dramática, a que a legislação social do século XIX em boa hora pôs fim. A partir desse local, no centro do bairro do Castelo (o burgo medieval), o visitante poderá explorar o resto da vila e partir à descoberta do concelho...Festas da vila e do concelho, com o ponto alto no dia 15 de Agosto.
Não se esqueça: neste Verão, visite Torre de Moncorvo e sua região!
(fotos de N.Campos e João Pinto V. Costa)
Palestra sobre o património do concelho de Torre de Moncorvo
Realiza-se no próximo dia 8 de Agosto (sábado), pelas 16;00 horas, uma palestra sobre o património arquitectónico e arqueológico do concelho de Torre de Moncorvo, a qual terá lugar no auditório do Museu do Ferro & da Região de Moncorvo, sendo oradores os membros do PARM Nelson Campos (também encarregado do Museu) e Rui Leonardo. Serão oradores convidados os Senhores Professor Doutor Adriano Vasco Rodrigues e Norberto Santos (em representação de seu pai, Professor Doutor J.R. dos Santos Júnior). Deverão presidir à sessão o Senhor Presidente do Município, Engº. Aires Ferreira e o Senhor Engº. Afonso Calheiros e Menezes.
Os interessados poderão aproveitar para visitar a exposição "Vestígios..." patente no mesmo local das conferências.
terça-feira, 4 de agosto de 2009
Café com Sabor Artes regressa no Verão de 2009
A Escola Sabor Artes promove durante o Verão “ Café com Sabor Artes”. Este ano a iniciativa começa na primeira segunda-feira do mês de Agosto, dia 3, com o espectáculo “ Fado a duas Vozes” de João Chora e Elsa Gomes e termina na última segunda-feira, dia 31 de Agosto, com um espectáculo apresentado pelas classes da Escola Sabor Artes. No dia 17 Agosto vão subir ao palco “ As Divas”, Lyana, Silvana, Rute e Inês e no dia 24 de Agosto actuam os “Lucky Duckies” que vão trazer ao público moncorvense os clássicos dos anos 50 e 60.
“Café com Sabor Artes” realiza-se no Jardim Dr. Horácio de Sousa e os concertos iniciam-se à 22 horas. Uma iniciativa diferente que promete animar as noites de Verão em Torre de Moncorvo.
Programa:
3 Agosto – “Fado a Duas Vozes” - João Chora e Elsa Gomes
17 Agosto – “Las Divas” – Lyana convida Silvana, Rute e Inês
24 Agosto – “Lucky Duckies” – Clássicos dos anos 50 e 60
31 Agosto – “Classes da Escola Sabor Artes”
Fonte: Câmara Municipal de Torre de Moncorvo
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
Tuna Popular da Lousa brilhou em Sendim (terras de Miranda)
Foi um verdadeiro sucesso a actuação do grupo de cordas conhecido por "tuna popular da Lousa", no passado sábado, ao fim da tarde, em Sendim (terras de Miranda), no contexto do programa do 10º festival intercéltico.
O concerto, inicialmente previsto para o largo da igreja matriz de Sendim, acabaria por se realizar no pavilhão conhecido por "Taberna dos Celtas", por receio de aguaceiros.
Os compenetrados músicos das terras moncorvenses estiveram no seu melhor, executando com mestria o seu repertório e trazendo a este festival um tipo do sonoridades aqui pouco habituais - é que enquanto o mundo do Alto Trás-os-Montes se manteve arreigado às flautas pastoris e gaitas de foles, as tunas rurais ou populares, se bem que disseminadas um pouco por toda a parte nos finais do século XIX-inícios de XX, parecem ter-se fixado mais na orla duriense, pelo menos em termos de sobrevivência, num arco que abrange os contrafortes do Marão (Baião, Amarante, Vila Real), tombando depois para o Douro, nomeadamente Régua, Santa Marta de Penaguião (Carvalhais), etc., como se sabe pelo magistral estudo de José Alberto Sardinha ("Tunas do Marão", 2005) e outros trabalhos de investigação, tais como o "Grande Cancioneiro do Alto Douro" (vol. 2) de Altino M. Cardoso e J.Pierre Silva.
Como já se disse, a música das tunas rurais ou populares (também por vezes denominados orquestras populares, orquestras típicas, conjuntos típicos), situa-se num território cultural em que o tradicional ("popular") e o erudito se cruzam, com alguns músicos que sabem escrever/ler pautas e outros que, em outros tempos, compunham alguns temas ("música de autor").
E para que conste, aqui ficam os nomes dos músicos presentes em Sendim, com indicação dos respectivos instrumentos:sábado, 1 de agosto de 2009
Ainda se colhe cereal na Vilariça
Tendo em conta a feritilidade dos terrenos da Vilariça, é de supor que desde tempos imemoriais este vale tivesse sido o grande celeiro regional. A quantidade de vestígios romanos que aí se encontram são um indício disso mesmo, sendo possível que daqui saísse muito cereal para alimentar as legiões romanas estacionadas noutras paragens.
Também sabemos que a base da alimentação medieval, até ao séc. XIX (antes do incremento da batata), foi o cereal - trigo ou centeio. E se este era confinado às terras mais pobres, já o trigo era semeado nas terras boas, mais férteis, como era o caso da Vilariça.
Aquando do famoso "alardo" promovido pelo mestre de Avis (D. João I) nos campos da Vilariça, já depois de Aljubarrota, diz o cronista Fernão Lopes que o vale estava repleto de "pães" (designação genérica dada ao cereal) já quase amadurecidos. Foi no mês de Maio de 1386.
Uma máquina ceifeira-debulhadora ao fundo e os fardos já prontos a carregar... (foto N.Campos)Ainda no séc. XIX e XX o cereal ocupava uma boa parte das terras do vale, tendo vindo a perder terreno, nos últimos decénios, em favor do plantio da vinha e de algumas árvores fruteiras. Hoje praticamente não se vê uma seara no vale, pelo que nos despertou a atenção e curiosidade ver uma ceifeira-debulhadora em acção, nos inícios de Julho, nas proximidades das Cabanas de Baixo, entre a estrada municipal e o rio Sabor. O lavrador era das Cabanas, e diz que só ainda faz por cereal sobretudo por causa da palha. Que o grão dá pouco e cada vez menos... Encontrámo-lo a carregar os fardos na sua carroça, ainda puxada pelo fiel e tradicional "matcho"... Uma imagem rara nestes princípios de séc. XXI. Esperemos que com esta "crije" sem fim, este meio de transporte ecológico não venha a ser mais utilizado (atendendo ao preço dos combustíveis) e não tenhamos que voltar a ver o crescimento das searas, se quisermos o pão para a bucha!....
quarta-feira, 29 de julho de 2009
Incêndio na Serra do Roboredo
terça-feira, 28 de julho de 2009
A Aldeia
domingo, 26 de julho de 2009
Fundador da República do Brasil era oriundo de Moncorvo!
Quem sabia que Benjamin Constant Botelho de Magalhães (1836-1891), militar, político, ensaísta, o pai da República do Brasil, autor da divisa “Ordem e Progresso” da bandeira brasileira (1890), era oriundo da vila de Torre de Moncorvo, por parte de seu pai, Leopoldo Henriques Botelho de Magalhães?
Este Leopoldo Henriques era seguramente descendente de um sargento-mor de Torre de Moncorvo que viveu no séc. XVIII e que tinha o mesmo nome (houve vários homónimos nesta família de morgados). Esse primeiro Leopoldo Henriques (talvez nascido nos finais do séc. XVII) casou com uma senhora espanhola (mais precisamente catalã), e foi quem iniciou a construção de um casarão situado na actual Rua Tomás Ribeiro, nesta vila, o qual pretendia ser um vasto solar mas que nunca seria acabado, apesar dos descendentes terem chegado a celebrar um contrato com um mestre de obras para a sua conclusão no ano de 1800. Depois de um longo processo de ruína na segunda metade do séc. XX e tendo corrido o risco de uma demolição integral, o que restou desse casarão em boa hora foi recuperado e alberga hoje a agência de um Banco e um jardim-escola.
Longe estávamos de saber, no entanto, que desta casa sairia um dos grandes vultos da história do Brasil. A informação chegou-nos através de um alerta do Google, em que se dizia:
“Benjamin Constant veio ao mundo no porto do Meyer, freguesia de S. Lourenço do Município de Niterói, no dia em que a Igreja Positivista comemora Duclos, o moralista adjunto do grande pensador que resume o glorioso movimento espiritual no século XVIII - Diderot (18 de Outubro de 1836). Seu pai, Leopoldo Henrique de Magalhães Botelho [sic-apelido trocado], natural da Torre de Moncorvo, assentara praça voluntariamente, com vinte anos de idade, no regimento provisório de Portugal em 21 de novembro de 1821. (...)
Português por seu pai, Benjamin Constant já era brasileiro por sua mãe, D. Bernardina Joaquina da Silva Guimarães, natural do Rio Grande do Sul. Em 1836 quando nasceu o futuro Fundador da República na raça portuguesa, dirigia seu pai [Leopoldo Henriques] uma escola particular, onde ensinava primeiras letras, gramática portuguesa e latim. Escassos sendo os recursos que daí auferia, porque a maior parte dos discípulos era pobre, viu-se obrigado a procurar outra profissão, apesar da verdadeira satisfação com que seguia o magistério. A proteção da família da Viscondessa de Macaé proporcionou ao 1° tenente Botelho de Magalhães a tentativa de um estabelecimento na cidade desta denominação (Macaé), onde ainda entregou-se ao professorado. Aí foi batizado o seu primogênito em 26 de março de 1837, dando-lhe o pai por patrono subjetivo Benjamin Constant, o célebre publicista do constitucionalismo de quem era entusiasta. (...)”
Recentemente foram descobertos, num espólio familiar, uma série de apontamentos de autoria de Bernardina Botelho de Magalhães, filha de Benjamin Constant, onde a jovem então com 16 anos (por volta de 1889) anotou as reuniões e relações de seu pai com outros conspiradores que ajudaram ao derrube da monarquia imperial. No seguimento da instauração da República, viria a ser Ministro da Guerra e posteriormente Ministro da Instrução Pública, Correios e Telégrafos no governo provisório. Tendo sido amigo da família imperial brasileira, fez questão de que nada lhes acontecesse após a instauração do novo regime.
As disposições transitórias da Constituição de 1891 consagraram-no postumamente como Fundador da República do Brasil. Morreu em 22 de janeiro de 1891.
Para saber mais, consulte os seguintes links:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Benjamin_Constant_Botelho_de_Magalh%C3%A3es
http://www.pantanalnews.com.br/contents.php?CID=31040
http://www.brasilescola.com/biografia/benjamin-constant-botelho.htm
http://www.correaneto.com.br/noticias/07/24_7_09benjamin.htm
Felgar - Noites no Prado
sábado, 25 de julho de 2009
Luís Represas ao vivo em Torre de Moncorvo
Depois do êxito da peça de Teatro “ As Calcinhas Amarelas” com Tozé Martinho, a Câmara Municipal de Torre de Moncorvo promove, ainda no mês de Julho, um concerto com Luís Represas.O espectáculo realiza-se dia 31 Julho, sexta-feira, e tem início às 22 horas no Cine-Teatro de Torre de Moncorvo.
O artista sobe ao palco acompanhado por Luís Fernando na guitarra e Hélder Godinho no piano.
Luís Represas, com 20 anos, junta-se a João Gil, Nuno Represas, Manuel Faria e Artur Costa e formam os Trovante. Foram dezasseis anos de carreira com a popular banda, com a qual gravou dez álbuns. Só depois da separação dos Trovante, em 1992, é que o artista inicia a sua carreira a solo. Desde então tem somado inúmeros êxitos com os seus nove discos editados.
Em Torre de Moncorvo, Luís Represas apresenta um espectáculo acústico onde revisita a sua carreira de muitos anos de música portuguesa.
Fonte:sexta-feira, 24 de julho de 2009
Tuna Popular Lousense
(continuação do “post” sobre o Intercéltico de Sendim)
Mas quem são estes músicos e como surgiram?
Como eles próprios se apresentam, são um grupo de amigos da freguesia da Lousa, residindo alguns no concelho de Torre de Moncorvo e outros bem longe daqui (como por ex. em Sintra), o que os faz percorrer longas distâncias para ensaiarem e tocarem. Tendo alguns já tocado juntos na sua juventude (é preciso que se note que são “jovens” hoje com idades superiores a 60 anos), resolveram, em dado momento, rememorar os seus bons velhos tempos, e, por volta de 1988-89, três elementos do grupo começaram de novo a tocar em conjunto. A estes associaram-se outros três elementos de outros grupo (entretanto dissolvido) e passaram a seis membros, aos quais se juntou um sétimo, tocador de viola. É preciso dizer que todos os instrumentos eram cordofones a que se juntou um tocador de ferrinhos, entretanto falecido e substituído por outro. Tocavam em ambientes familiares, como festas de aniversários. A sua primeira actuação pública parece ter ocorrido em 2001. E, a partir daqui, começaram a actuar em festas de Lares de Idosos, por todo o concelho de Torre de Moncorvo. Em 2007 estiveram na inauguração dos jardins da biblioteca municipal de Torre de Moncorvo, a convite da Câmara, e assim sucessivamente.
No repertório da tuna popular da Lousa (estes músicos tiveram alguma dificuldade em acertar com a sua própria designação porque não se consideram bem uma Tuna, que habitualmente tem mais elementos), constam melodias tradicionais da região Duriense, e há outras que foram inspiradas no repertório das bandas de música, inclusive militares (um dos membros participou na banda militar de Infantaria nº1 e na Banda da Carris, de Lisboa). Todavia, alguns são temas bastante antigos, talvez criados no século XIX. Parece que um padre da Lousa também terá composto alguns temas. Ou seja, quer pela temática, quer pelo instrumental, podemos situar este género musical entre o popular e o erudito, lembrando um pouco a riqueza da música popular da Europa central (Baviera, Àustria) muito influenciada (ou seria o contrário?) pela música de salão. Assim se explica a grande música vienense… Hoje, infelizmente, as tunas populares que tiveram grande sucesso no passado, também se encontram à beira da extinção. Este é o único grupo de que temos conhecimento no Douro Superior (se exceptuarmos os Fiarresgas de Foz-Côa, mais de tipo “rancho”). Por isso merecem todo o nosso carinho e apoio, para que não esmoreçam.Para que conste, aqui ficam registados os seus nomes e respectivo instrumento:
Armando Cesário Moutinho – Bandolim baixo;
José Joaquim Pestana – Viola portuguesa;
Modesto Augusto Moutinho – Violino;
Orlando Espírito Santo Félix – Bandolim requinta;
Reinaldo Reto Queijo – Ferrinhos;
Samuel Santos Barbosa de Sousa – Bandola;
Serafim Sebastião Sousa – Viola portuguesa;
Vasco Espírito Santo – Guitarra portuguesa.
Até Sendim. - Compareça para ouvir e apludir os representantes da nossa terra: os músicos da Tuna Popular Lousense!
Tuna Popular da Lousa, presente no 10º Intercéltico de Sendim
«Na demanda dos sons da terra, rumámos para onde a paisagem entra nos olhos e não sai mais (Miguel Torga) e as pessoas se tornam amigas e não mais se esquecem. Mirandeses d'las arribas, gente que se confunde com a própria natureza, numa simbiose tão profunda como impenetrável, da qual emerge uma cultura de seculares origens que é seiva intemporal de uma identidade resistente que a memória colectiva oralmente transmitiu ao longo dos tempos». – MÁRIO CORREIA (Raiç e tradiçon)
Mercê do labor persistente de Mário Correia (um homem do litoral que veio construir uma utopia no interior mais remoto) que resolveu trazer a música dita “céltica” dos grandes palcos do Porto para o lugar onde ela fazia mais sentido: o terriço de um “cú de judas”, onde o pó se levanta à mistura com o cheiro do restolho na comunhão mística com a Mãe-Terra, sob as estrelas coriscantes do planalto da nossa Celtécia mirandesa.
E o trabalho do Mário não se ficou pelo festival. Uma vez aí, como um verdadeiro garimpeiro, foi joeirando e arrancando do esquecimento grupos de cantares (como os das segadas de Caçarelhos), cantadeiras como Clementina Rosa Afonso, inúmeros gaiteiros, muitos deles já falecidos há muitos anos, deles descobrindo registos antigos, como os do alemão naturalizado americano Kurt Schindler (1882-1935), autor das primeiras recolhas fonográficas de música mirandesa (1932),com tudo isto, paulatinamente, M. Correia foi constituindo um acervo colossal que hoje conta com dezenas de CD’s, com a chancela da editora Sons da Terra, por si fundada. Mas há mais: além da revista Trad i Folk (10 números, sendo cada um o catálogo anual do festival de Sendim), tem ainda publicado alguns importantes livros para a história da música tradicional mirandesa, tais como Bi benir la Gaita (contributos para a história dos gaiteiros mirandeses) e Pauliteiros de Miranda (Cércio) – Viagem a Londres (sobre a actuação dos pauliteiros mirandeses no Royal Albert Hall, Janeiro, 1934, com edição de CD), além de vários artigos em revistas e “sites” da especialidade (quanto a “sites”, ver: http://www.attambur.com/OutrosSons/Portugal/SonsdaTerra/sons_da_terra.htm
http://www.attambur.com/Noticias/20022t/centro_de_musica_tradicional_sons_da_terra.htm

Mas a sua obra maior, quanto a nós, foi a criação do Centro de Música Tradicional Sons da Terra (sedeado em Sendim), onde se reúne uma Biblioteca especializada e a Fonoteca (Arquivo sonoro) com um importante acervo de música tradicional sobretudo transmontana. Aí se administram cursos de iniciação de instrumentos tradicionais do Planalto Mirandês" (gaita de foles, flauta pastoril, caixa e bombo), salvando as sonoridades que se estavam em risco absoluto de se perderem com a morte dos velhos gaiteiros das terras mirandesas. Há já alguns anos, a câmara de Miranda, numa tentativa bem intencionada de não deixar perder a música tradicional, chegou a transportar jovens para Espanha (Aliste), para aprenderem gaita de foles, tendo muitos deles entretanto desistido. Agora basta irem a Sendim.
Como sempre acontece, este labor não esteve nem está isento de escolhos, sendo, muitas vezes, as questiúnculas locais também um resultado das dinâmicas e da diversidade e do crescimento entretanto surgidos (só nos charcos e nos desertos não há polémicas). Todavia não se podem esquecer os contributos de associações locais como a Mirai Qu’Alforjas, os exímios Galandum Galundaina, os divertidos Picä Tumilho (inventores do rock mirandês), os SangriSulta, além dos famosos grupos de pauliteiros que continuam a pontuar nestas terras. Todos eles têm ajudado também a construir este Festival Intercéltico, concorrido por milhares e milhares de pessoas, vindas de toda a Península Ibérica, e até do resto da Europa. Aliás, o Intercéltico de Sendim é, desde há anos, uma referência no mapa dos festivais congéneres da Europa e por aí têm passado grandes grupos como os Oyesterband, Dervish, Hedningarna (este ano repetentes), os Musgaña, Hevia, Ultreia, Milladoiro, Gaiteiros de Lisboa, etc.. (para o corrente ano -ver o programa acima).
Entretanto, Mário Correia há já bastante que começou a alargar a sua área da acção e de recolhas para além das terras de Miranda, e além das gaitas de foles e do mundo das sonoridades mais rústicas. Assim, desta feita, abeirou-se do Douro e chegou a Torre de Moncorvo, o que nos encheu de satisfação. Conheci o Mário há cerca de 10 anos, talvez um pouco antes do 1º intercéltico, numa jornada etnomusicológica promovida pela Câmara Municipal de Miranda do Douro. Tornei-me num aficcionado dos festivais de Sendim e não perdi nenhum, chegando a acampar nos restolhos (ainda antes daquele improvisado parque de campismo).
Fomos conversando de longe a longe e, no ano passado, após uma actuação do grupo de músicos da Lousa/planalto a Oeste da Vilariça, aqui no Passeio da Pascoela promovido pela Junta de Freguesia de Torre de Moncorvo (com colaboração do PARM), convidei o Mário a vir cá. Não deu nessa ocasião, mas ficou para a Partidela da Amêndoa que se fez no Museu do Ferro em Outubro de 2008. O Mário ficou muito bem impressionado, tendo tirado algumas fotografias e feito um registo videográfico preliminar. Era uma “coisa” diferente, outras sonoridades, outros reportórios.Já em 2009 (30 de Maio), o Mário voltou a Torre de Moncorvo com a sua equipa e com sofisticado equipamento de gravação, tendo feito um registo profissional, com objectivo de edição de um Cd. Ficou entretanto combinada uma actuação na presente edição do Intercéltico de Sendim, que vai acontecer entre os dias 31 de Julho e 1 de Agosto.
A participação da Tuna Popular da Lousa está prevista para o dia 1 de Agosto (sábado), ao final da tarde (a partir das 17;00 horas).
Professor Josino Amado
Do baú de escritos e outros papéis de meu Pai, que muitas vezes gosto de abrir e remexer, vou tirando coisas que me evocam figuras e situações que, sendo passado, não deixam por vezes de me emocionar .
Outro dia encontrei um pequeno opúsculo poético, designado Portugal, da autoria de Josino Amado, com dedicatória ao meu Pai como seu ex-aluno na escola primária em Urros.
Muitas vezes ouvi falar em minha casa do Professor Josino Amado, sempre com uma grande veneração e respeito.
Nasceu em Urros em 1894 e faleceu em 1968, estando sepultado segundo creio no cemitério da aldeia. Partiu muito jovem para Macau, onde frequentou o liceu. Regressado a Portugal, formou-se na Escola do Magistério Primário do Porto e iniciou a sua actividade docente. Revelou-se um grande pedagogo e veio a ser condecorado anos mais tarde pelo Presidente da República Craveiro Lopes.
O seu primeiro livro de poemas, Emigrado, foi publicado em 1929. Publicou depois outras obras poéticas: As Mondas, Miséria, O Semeador da Luz ( Memórias dum professor primário), Colori Gravuras e Fixai Conceitos, Os Meus Sonetos, Velhas e Novas Fábulas, Manes de Portugal, Rimas Educativas e Trás-os-Montes.
Nelas se revela um homem de grande cultura e elevação espiritual e que por toda a sua vida foi exemplo para muitas gerações.
Nunca o tendo conhecido pessoalmente, sempre o ouvi evocar como uma referência nesses recuados tempos.
Desse opúsculo, no qual se juntam alguns poemas dos anos 30, transcrevo parte do final de Portugal , evocando Timor, de Fevereiro de 1934. Poema obviamente datado, de um nacionalismo épico de matriz camoneana, não deixa de revelar uma linguagem poética de grande ritmo interior e um notável domínio da palavra e da imagem.
Aqui fica a minha homenagem ao Professor Josino Amado.
Para muitos os filhos de Caim,
És feral círculo infernal de Dante,
Filha longínqua, amada, és para mim,
Que mãe não esquece o filho seu distante!
Filhas queridas, da minha alma vidas,
Feitos dos meus heróis, luz do meu ser,
Em vós eternamente revividas
Da Pátria lusa as glórias hão-de ser!
Por vós eu mostrarei ao mundo inteiro,
Quanto é que vale a civilizadora
Acção dum povo heróico, marinheiro,
Que no mundo espargiu luz redentora!
(…)
Do fundo do mar ressurgirão ossadas
Das caravelas, naus e dos galeões,
Por defender-vos filhas adoradas,
De heróis repletas, armas e canhões!
Nasci pequena, mas não temo o imundo
Furor da hostil expoliação atroz,
Não é pequena quem descobre o mundo,
Quem tem Camões e filhas como vós!
quarta-feira, 22 de julho de 2009
António Alberto de Carvalho e Castro
O Sr. António Alberto de Carvalho e Castro publicou no Jornal “Terra Quente” de 1 de Julho de 1998, uma notícia sobre um seu parente homónimo, que animou Moncorvo na transição do séc. XIX para o XX. Aqui fica o extracto desse artigo.
“PORTUGUESA DE DESPORTOS
(…)
Desfolhava as páginas de “A Bola” no longínquo ano de 1950 quando deparei com uma local que rezava assim: - ‘No próximo número entrevista com António Alberto de Carvalho e Castro’.
Que diabo… Ninguém me contactou! Só que… mercê dum esforço inaudito na gestão dos “parcos” subsídios paternos com tendência para o superlativo absoluto de inferioridade … Lá comprei a dita Bola e me deparei com uma entrevista com o meu homónimo e, pasme-se, Moncorvense.
Tratava-se nem mais nem menos dum filho do meu tio avô – de igual nome – nascido em Moncorvo por volta dos anos 80 e muitos do século passado [XIX], conhecido pelo “sobriguet” de Carvalho Marmeleiro, nome duplamente arbóreo, resultante de ser neto do Visconde do Marmeleiro, e famoso pelas suas façanhas mais ou menos rocambulescas feitas em parceria com a rapaziada durante aquele tempo.
Num dos Carnavais dos idos desse fim de século, dedicava-se a percorrer os diversos sotos da nossa vila, sempre falando em prosa rimada repleta de espírito e em que aludia a acontecimentos sociais sucedidos na vila.
Mas o motivo próximo da sua emigração forçada para o Brasil baseou-se no facto de naqueles tempos todos os dias circular ao anoitecer por Moncorvo uma pipa de ferro que recebia os dejectos das várias casas do burgo.
Essa pipa em seguida era despejada na zona do Prado e a graça popular pôs ao local o nome de “Jasmineira”.
Pois certa noite de pândega, o grupo apoderou-se da pipa e despejou-a em plena praça de Moncorvo o que constituiu um grande pastelão…
Logicamente as autoridades de então, zelosas dos bons costumes da terra, quase restauraram a Inquisição e apodaram de heresia tal procedimento… E os bons antecedentes do dito senhor quase o levaram à prisão.
Nesta eminência, a família achou por bem proceder à sua evacuação compulsiva para terras de Santa Cruz.
Perderam-se certamente momentos de alegre patuscada, mas ganhou-se um Presidente de um grande Clube [Portuguesa de Desportos].
terça-feira, 21 de julho de 2009
Poemas e outros II
Em seguida, o trabalho de Júlia Biló acerca do “Dicionário de Transmontanismos” incentivou-me a uma repetida leitura do respectivo conto. Ao longo do corpo do texto não são só as palavras transmontanas que tocam o leitor do “Reino Maravilhoso” ou qualquer outro, é também a sua disposição na frase, a sintaxe que, apesar de familiar e de “sair da boca do povo”, soa tão bem e tudo diz. Frases lúcidas, expressivas e belas, muito belas: “ – Umas quartãs que me tiveram mondada!”; “ – Uh lá, Rosária, eu mesmo! Guarde-te Deus, pimpona!”; “ – Tanto é que tirava da frauta as cantigas que ela lhe tinha ensinado.” Quer seja o narrador, quer sejam as personagens, das “palavras de pedir pão” se compõe a prosa que só lembra poesia!...
A cena que se segue resulta desta súmula, da qual não se despega o subjectivismo do narrador. Por isso, o idílio dos dois pastorinhos, o Gonçalo e a Rosária, é de indescritível beleza por essa simplicidade e pela pureza de sentimentos. A infância em plena liberdade e responsabilidade atingem ali o seu clímax e quase que nos atreveríamos a acrescentar que a ausência de mácula lhe advém da inteireza do solo:
“Até que por fim chegaram, tinha anoitecido havia instantes. Gado dentro e toca a merendar; o que era de um era de outro: ele ainda trazia azeitonas, um naco de queijo, pão. Mal acabaram de comer, o Gonçalo apontou para a cabana que ficava ali perto, e propôs que se deitassem: estavam moídos da soalheira de todo o dia e da caminhada agora.
Quando o Gonçalo e a Rosária entraram na cabana e se deitaram sobre o colmo, cobrindo-se com as mantas, e achegando para a cabeça um do outro os bornais que faziam de travesseiro, cerrara de todo a noite, e formigueiros de estrelas cintilavam vivezas de prata polida no azul indefinido do céu.
- E os lobos? – perguntou a Rosária com medo.
- Não há perigo – tranquilizou-a o Gonçalo. – Isso é lá com os cães. “ (“Idílio Rústico”, in Antologias Universais - Conto)
Boa leitura de “Os Meus Amores”, de Trindade Coelho!
Exposição "Vestígios" - inauguração
Conforme anunciado, foi inaugurada no passado sábado, dia 18 de Julho, a exposição VESTÍGIOS... - Património Arqueológico e Arquitectónico da região de Moncorvo, organizada pelo Museu do Ferro & da Região de Moncorvo em articulação com o PARM, e patrocinada pelo município através da dotação orçamental para o Museu.
Esta mostra comporta 10 painéis fotográficos, organizados cronologicamente, desde os Tempos Pré-históricos, passando pelo mundo "Castrejo", o período da Romanização (com uma agricultura intensiva, a mineração/metalurgia e a difusão da Escrita), a Idade Média (com as características necrópoles de sepulturas escavadas na rocha, povoados fortificados e aldeias, a arquitectura românica com vestígios na desaparecida capela de S. Mamede do Baldoeiro e a igreja matriz de Adeganha, o castelo e vila de Torre de Meem Corvo), a Idade Moderna (com a igreja matriz de Torre de Moncorvo, a igreja da Misericórdia, a ponte do Sabor, o eremitério da Srª. da Teixeira com os seus frescos, fontes e chafarizes, solares, etc.), os antigos caminhos lajeados (praticamente todos destruídos nos últimos 20-3o anos!), o património rural, a arqueologia industrial e mineira...
Este acervo fotográfico resulta na quase totalidade dos Arquivos do PARM, com bastantes fotografias a preto & branco, com mais de 20 anos. Não são imagens de profissionais da fotografia mas sim de jovens arqueólogos (ou candidatos a tal) que, com entusiasmo, em boa hora registaram valores patrimoniais que hoje não são mais que meros "Vestígios", em alguns casos já desaparecidos.

Logo no início é feita uma evocação dos pioneiros que estão na base dos primeiros reconhecimentos arqueológicos realizados na região, desde há mais de 100 anos: Abade José Augusto Tavares (1868-1935), Professor Santos Júnior (1901-1990), Professor Adriano Vasco Rodrigues, entre outros, culminando no aparecimento do PARM em 1983, no seguimento dos primeiros trabalhos individuais e incipientes de um dos elementos do grupo. Este grupo informal só viria a adquirir a fórmula jurídica de associação sem fins lucrativos (que ainda hoje mantém), por escritura pública celebrada em finais de 1986.
A última grande exposição sobre Arqueologia e Património edificado da região foi organizada pelo PARM em 1986 (sendo reeditada em 1987, a pedido do município, por ocasião de uma visita do então Presidente da República, Dr. Mário Soares). Algumas imagens agora patentes foram aproveitadas dessa mostra, obviamente noutro tipo de suporte. A ideia da exposição surgiu no início do ano de 2009, após a entrega do relatório e ficheiro do inventário arqueológico do concelho para o novo PDM. Após se terem revisitado os Arquivos e ficheiros da associação, entendeu-se pertinente voltar-se a fazer um novo balanço dos conhecimentos, até porque se poderia constituir um embrião da sala de Arqueologia e História que desde sempre esteve prevista no âmbito do Museu do Ferro & da Região de Moncorvo.
A razão de ser neste período do ano prende-se com o impacto que se pretende dar ao evento, uma vez que durante o Verão é sempre maior o número de visitantes, quer sejam moncorvenses que se encontram a trabalhar fora e que "vêm à terra" nesta época, quer sejam turistas de outras paragens, interessados em alternativas ao "sol e praia".
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Caracterização de Homem e Mulher à luz do "Dicionário de Transmontanismos” de Adamir Dias e Manuela Tender* II - por Júlia de Barros G. Ribeiro
(continuação do post anterior e conclusão)
Então, vejamos: de acordo com as listagens, o pior que pode chamar-se a um homem é: “chavelhudo, cornampas, galheiro, panacho”, ou seja, “cornudo”.
Ora, se tal acontece, a culpa é da mulher. E se o homem está amantizado , dir-se-á que é “aputado”, sendo ainda a mulher a ter de carregar com esta culpa… vocabular.
De resto, (exceptuando o termo “azeiteiro”, há uns 50 ou 60 anos o pior insulto que se podia lançar a um homem), epítetos como: “mandongueiro, mantilheiro, mentrasteiro, saioleiro” isto é, “mulherengo”, eram tidos quase como elogios, ainda que , por vezes, um tanto velados.
Vemos pela presente listagem que o homem é essencialmente “labrego, vadio, aldrabão, preguiçoso, lorpa…” . (almanicha, cerdo, chambas, lafrau, zorrão… etc. etc.) .
Mas, se bem repararmos, não há homem “de má nota” nem “de mau porte”. Isso é reservado à mulher: em 57 ocorrências negativas, a mulher é mais de uma dúzia de vezes apodada de “Mulher de má nota” e “de mau porte” (azagal, bornal, calandrina, calhau, coldre, etc. etc. ). Se a estes mimos acrescentarmos o ferrete de “rameira, meretriz, concubina, prostituta, putéfia, vagabunda, desprezível, muito reles, desavergonhada…” ( calatrão, castelã, cóia, estardalho, franjosca, ganirra, juco, etc. etc. ) então chegamos às três dúzias dos piores insultos. Com “alcoviteira, mentirosa, preguiçosa…” (belbroteira, merondeira, zopeira… etc. ) teremos a lista completa.
Daí, poder inferir-se que, apesar de menor número de características morais negativas atribuídas à mulher, a sua carga pejorativa é muito mais pesada.
Mas, nem tudo é mau: quanto ao aspecto físico, a nota, altamente positiva, pertence às mulheres: contra 1 “mancebo forte” (azagal) – repare-se que ainda nem é homem feito - , há 8 “mulheres elegantes, atraentes, bem feitas, jeitosas” (adengada, janguista, repolhaça, seitoira …) .
No respeitante a características físicas negativas, não há diferenças muito acentuadas entre homens e mulheres: elas são “altas e magrizelas, lingrinhas, féias , desajeitadas…”
(estauta, canoa, galdrapa, lusmeia…) ; eles são: “atarracados, gordos, balofos, grosseiros…” (alforgeiro, bazulaque, charrasco, porcho…) .
Gostaria de terminar com umas palavras que, um dia, Mark Twain escreveu : “Nunca procurei, em caso algum, tornar cultas as classes cultas. Não estava equipado para o fazer. Faltavam-me os dotes naturais e a preparação”.
Tal como Twain, também não pretendi escrevinhar “coisas cultas”. Tive em vista, sobretudo, as pessoas comuns que, como eu, gostam de rever algo que faz parte do seu imaginário e da sua herança cultural.[1]
[1] Mark Twain, 1889, em carta a Andrew Lang. Cit. por Italo Calvino, in “Porquê Ler os Clássicos?”, Ed. Teorema, Lisboa, 1994, p. 159.
Um ramo de aromas 









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