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terça-feira, 3 de novembro de 2009

O Chacim - um poema de Campos Monteiro

E para fecharmos o assunto, algo funéreo, do "post" anterior, não resistimos a deixar aqui um belo poema que é um misto de evocação, veneração e saudade do nosso poeta Campos Monteiro, em relação a um velho amigo de Moncorvo, que entretanto falecera:

O CHACIM

Entre os velhos que esconde a sepultura,
um me recorda agora. Era o Chacim,
alma cheia de paz e ternura,
que tinha imensa adoração por mim.

Domingos de manhã, no Lageado(1),
era certo, passeando, satisfeito.
E ao ver-me aparecer -alvoroçado
vinha apertar-me contra o largo peito.

- "Então por cá!?... Um pouco macilento...
É de escrever... Comédias p'ra o teatro...
versos... artigos... o diabo a quatro!" -
E aos outros, baixo: - "Aquilo é que é talento!" -

-"Cá tenho visto nos jornais. Pois não!
Eu leio tudo quanto o amigo escreve!"
E a sua longa barba côr de neve
tremia de entusiasmo e de emoção.

- "Isto dá glória à terra! É uma vergonha
que a vila em que nasceu não retribua!
Hei-de propôr à Câmara que ponha
o seu nome na esquina de uma rua!" -

Eu protestava. Mas o sino à missa
chamava os crentes... E estendendo a mão:
- "Não se faça modesto, que é justiça!
Deve-lhe a vila esta consagração!" -

Passaram anos. Muito tempo estive
sem vir aos montes que eu adoro tanto.
Chego, e indago: - O Chacim? ainda vive? -
- "Mudou de casa, para o Campo Santo!" -

Parti de novo. E o tempo, decorrendo,
- como a neve às pegadas de um pastor -
foi na minha memória dissolvendo
a imagem do meu velho admirador.

Enfim, um livro publiquei. Só este...
Primeiro e derradeiro, é bem de ver.

- Meu pobre amigo! para que morreste?
Quanta alegria, se o pudesses ler!

Campos Monteiro, Versos fora de Moda (capº. Cartas da Minha Terra), 1ª. ed. - 1915.

(1) O "Lageado" era no adro da igreja matriz [nota do postador]

domingo, 1 de novembro de 2009

Cemitério de Moncorvo em dia de finados

Portão da entrada principal do cemitério de Torre de Moncorvo, ladeada por velhos ciprestes
«O Dia dos Fiéis Defuntos, Dia dos Mortos ou Dia de Finados é celebrado pela Igreja Católica no dia 2 de Novembro, logo a seguir ao dia de Todos-os-Santos.
Desde o século II, alguns cristãos rezavam pelos falecidos, visitando os túmulos dos mártires para rezar pelos que morreram. No século V, a Igreja dedicava um dia do ano para rezar por todos os mortos, pelos quais ninguém rezava e dos quais ninguém lembrava. Também o abade de Cluny, santo Odilon, em 998 pedia aos monges que orassem pelos mortos. Desde o século XI os Papas Silvestre II (1009), João XVII (1009) e Leão IX (1015) obrigam a comunidade a dedicar um dia aos mortos. No século XIII esse dia anual passa a ser comemorado em 2 de novembro, porque 1 de novembro é a Festa de Todos os Santos. A doutrina católica evoca algumas passagens bíblicas para fundamentar sua posição (cf. Tobias 12,12; 1,18-20; Mt 12,32 e II Macabeus 12,43-46), e se apóia em uma prática de quase dois mil anos.» - Fonte: Wikipédia.
Um belo monumento dedicado à memória de uma jovem moncorvense, por seu padrinho Alexandre Ferreira de Carvalho, em Janeiro de 1880

Outrora os enterramentos faziam-se no interior das igrejas e nos adros das mesmas. Esta prática, em Portugal (e, consequentemente, em Torre de Moncorvo) vinha desde a Idade Média. Com a implantação do Estado Liberal, motivações ideológicas e sanitárias levaram à constituição de locais próprios para os enterramentos dos cadáveres humanos: os cemitérios. Em Portugal, isso vinha sendo tentado desde 1835, culminando num decreto do governo cabralista de 28.09.1844, o qual viria a gerar, em regiões mais conservadoras, como o Entre-Douro-e-Minho, múltiplas resistências por parte da população. Ficou célebre o episódio da revolta da Maria da Fonte, que, para além de causas mais profundas, teve como rastilho uma situação de uma tentativa de enterramento numa igreja (em Fonte Arcada), o qual foi impedido pelas autoridades.
Plataforma inferior do cemitério de Torre de Moncorvo, sombreada por cupressos

Como forma de amenizar esta resistência popular e atenuar o impacto psicológico de enterramentos que não fossem em igrejas, procuraram-se lugares que fossem já tradicionalmente "campos santos", ou seja, que fossem assinalados por alguma capela ou igreja antiga, isto quando não era possível constituir-se o cemitério mesmo ao lado da igreja, como se vê em muitas da aldeias do nosso concelho e concelhos vizinhos.
No caso da vila de Torre de Moncorvo, o novo cemitério acabaria por se fazer no local da capela de Santo Cristo (antiga igreja de Santiago), a qual viria a ser sacrificada já nos finais do séc. XIX por um alargamento do dito cemitério, para o lado nascente. O belo portão da entrada, em ferro forjado e fundido, ostenta a data de 1869, mas a determinação para os enterramentos se realizarem neste espaço deve ser anterior.
Capa do Regulamento do Cemitério Municipal de T. de Moncorvo, 1880

Em todo o caso, só em 1886 é que foi impresso, na Imprensa Académica de Coimbra, o Regulamento do cemitério municipal de Moncorvo, aprovado em sessão de Câmara de 10 de Abril de 1886, sendo assinado por Augusto Duarte Areosa, António Marcelino Durão, Joaquim António da Silva, Marcolino Márcio Ferreira Margarido, Manuel Joaquim Diniz Pontes. O dito regulamento foi posteriormente aprovado em sessão da comissão executiva realizada em Bragança, a 20 de Agosto do mesmo ano, com assinaturas de José António Pereira de Almeida e José Henriques Pinheiro. Este último era natural de Moncorvo, sendo professor no liceu de Bragança e arqueólogo notável.
Lê-se na abertura deste Regulamento do Cemitério Municipal de Torre de Moncorvo, no capítulo I, artº 1º: "O cemitério de Moncorvo, situado ao S. Christo, é destinado especialmente para os enterramentos dos finados nas freguesias da villa". No entanto, em parágrafo único dizia-se ainda que "Nelle poderão também ser enterrados os cadaveres de pessoas fallecidas noutras freguesias do concelho onde não haja cemitério". Quanto ao pessoal, especifica o artº. 2º: "O pessoal do cemiterio compõe-se de um capellão, um administrador, um guarda, um coveiro e dos trabalhadores que a Camara julgar necessarios". O artº. 3º. diz que "O capellão e o administrador estão immediatamente subordinados á inspecção do vereador de respectivo pelouro, e o pessoal restante á do administrador". Os capítulos seguintes (II a V) refere-se às atribuições e obrigações do pessoal; o capº. VI é sobre as Inumações, o VII sobre os jazigos, o VIII sobre as exumações, terminando com Disposições Gerais, no capº. IX, e ainda uma tabela de vencimentos dos empregados, dos emolumentos da capela, valores de inumações e de exumações.
Custava, nesses tempos, um enterramento em jazigo municipal de depósito perpétuo, a elevada quantia de 50$000 (5o mil réis); se fosse por 2 anos, eram 10$000 (dez mil réis), e até 3 meses, 1$500 (mil e quinhentos), sendo de estranhar que houvesse inumações apenas por 3 meses, que leva a crer que as solicitações, em termos de espaço, seriam muitas. Estes valores eram iguais para jazigos particulares. Já as sepulturas razas eram mais baratas: "sepultura raza para finado maior de 7 anos, sem caixão: 500 réis; idem, com caixão: 800 réis; (...) sepultura raza para menor de 7 anos, sem caixão: 200 réis; idem, idem, com caixão: 400 rs. (...) Vala geral para maior de 7 anos: 300 rs.; idem, para menor de 7 anos: 100 rs." - Tinham sepultura gratuita, conforme o artº. 13, os finados nos hospitais e os que ali tivessem tratamento gratuito; os finados nas misericórdias, asilos e cadeias, quando nas guias que os acompanhassem se declarasse a sua pobreza; do mesmo beneficiavam os finados no domicílio, desde que acompanhados de atestado de pobreza, passado pelo respectivo pároco ou pelo sub-delegado de saúde".
O Regulamento tem ainda outras curiosidades, como a de não se poderem plantar, dentro do cemitério, quaisquer árvores de fruto ou outro vegetal que pudesse servir de alimento, ou ainda quanto ao impedimento de entrada de cães e outros animais.
È um documento que vale a pena ler, nesta ocasião, em que a tradição nos obriga à visita dos nossos entes queridos já falecidos.
Como dizia há dias, em programa radiofónico, a Drª. Clara Saraiva, profª. da Univ. Nova de Lisboa, e especialista nesta temática das atitutes e representações humanas quanto à morte, nos tempos que correm e na civilização ocidental, a Morte tornou-se um tabu e uma "coisa feia", algo de que desviamos a cara, de que evitamos falar, ou que procuramos "enfeitar" (como na tradição recente norte-americana). No entanto, ao lermos a magistral obra de Phillipe Ariès, O Homem perante a Morte (ed. Europa-América), vemos que nem sempre foi assim. Na Idade Média as pessoas frequentavam alegremente os locais de enterramento, junto das igrejas, aí fazendo festas e feiras, comendo e até dançando, junto dos seus mortos. Coisas que não nos passariam hoje pela cabeça, mas nada perderíamos se visitássemos com mais regularidade estes espaços, sobretudo para termos a noção da nossa finitude, e de como nada vale sermos tão ambiciosos e desrespeitadores do nosso semelhante. Tudo acaba ali.

sábado, 31 de outubro de 2009

Como se vestiam os moncorvenses no final do século XIX e início do séc. XX

No seguimento do "post" anterior aqui deixamos duas fotos antigas, uma dos anos 80 do século XIX (a da praça) e outra talvez dos inícios do séc. XX (igreja da misericórdia) > clicar sobre as fotos para as ampliar:

Tudo indica que as pessoas vestem fatos domingueiros, havendo um personagem masculino de calças brancas e sombrinha, muito janota, talvez algum "brasileiro" (o uso de fatos ou peças de roupa brancas, parece que era, noutros tempos, atribuído a emigrantes que vinham do Brasil, pois lá se usavam mais as peças claras, devido ao clima e a outros padrões estéticos, em contraste flagrante com os padrões mais conservadores dos portugueses da Europa, sobretudo os do meio rural).
Nesta bela foto da igreja da misericórdia, vê-se ainda o púlpito oitavado em forma de cálice no exterior da mesma, hoje resguardado no interior. Atente-se na roupa (domingueira) destes moncorvenses de outros tempos: o modelo dos chapéus masculinos, a casaca à pistoleiro do far-west, camisa e colete, e as calças, talvez de "pana". O homem do lado esquerdo parece ter também uma gravata. embora não dê para se saber a cor das vestes femininas, nota-se que as blusas claras (brancas) são usadas pelas mais jovens, tal como o vestidinho da menina que está do lado direito.
Fica o conselho ao grupo "Alma de Ferro": se pretendem organizar um bom guarda-roupa para as vossas representações, deverão começar por organizar um álbum de fotos antigas, além do recurso à informação oral dos mais antigos, como é óbvio. Esperamos que outros moncorvenses ajudem nesse trabalho, remexendo os baús dos panos antigos, ou as caixas de fotografias ou álbuns que tenham lá por casa.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Sobre o trajo regional

No seguimento da Partidela da Amêndoa realizada no museu de Moncorvo, o nosso amigo Carlos Manuel Ricardo (Camané), actor do grupo Alma de Ferro, enviou-nos uma fotografia das actrizes Esperança Moreno e Marilú Brito, trajadas respectivamente de “brecheiro” e de apanhadora da amêndoa. Para quem não sabe, os “brecheiros/as” eram os que andavam “à brecha”, actividade ilícita que se traduzia no roubo da amêndoa, colhendo-a directamente da amendoeira, antes de a mesma ter sido apanhada pelos donos, ou pelo rancho de apanhadores/as, a soldo dos donos.

Ao mesmo tempo, o Camané sugeria que se investigasse se havia um trajo tradicional da nossa zona, ou do Douro em geral, visto que o grupo de teatro havia improvisado, para este efeito, um guarda-roupa inspirado no modo de vestir que os nossos lavradores usavam até há uns anos atrás, mas, ao que percebi, pretendia um pouco mais de rigor, até para se compreender a evolução do trajo campesino ou outro.

Quanto a nós, não é fácil definir-se um trajo tradicional da nossa região. Ao que sabemos, essa questão já se colocou há uns largos anos (década de 70) quando se constituíu um rancho de dançarinos(as) na associação do Santo Cristo, os quais actuaram na respectiva festa, em 1979, num palco junto aos prédios do Fundo de Fomento de Habitação, então acabados de construir. Segundo informação que então recolhemos junto dos dinamizadores (era então presidente dessa associação o Sr. João Evangelista) parece que se tinham baseado em algumas informações de pessoas de Moncorvo, mas também com qualquer coisa de "criativo" (com as cores amarelo e preto a condizer com as cores da associação).

Durante o Estado Novo, a preocupação em arranjar especificidades turísticas regionais, levou a que o SNI de António Ferro e outras estruturas análogas, como as Casas do Povo ou serviços de promoção turística, se dedicassem à dinamização do que então se chamava o "folclore", criando (ou inventando) trajos para certas regiões (as “Nazarés”, as “Minhotas”, etc).. Sobre o próprio trajo dos pauliteiros de Miranda há quem considere ser também uma invenção.

Mas, à parte estes trajos folclóricos, é evidente que as pessoas se vestiam de alguma maneira. E a melhor forma de saber como só pode ser através de fotografias ou gravuras, estas mais raras (e, para a nossa região - Moncorvo - praticamente inexistentes). Mesmo com base na análise fotográfica, há que ter um certo cuidado, uma vez que, muitas vezes, as pessoas se “preparavam” para a fotografia. Se, por um lado, há fotógrafos eventualmente mais espontâneos na fotografia de campo, como Emílio Biel, ou os registos da Foto-Beleza, já o grande fotógrafo Alvão (anos 40 do séc. XX), trabalhando muito para a Casa do Douro, procura dar uma imagem “retocada” das personagens da região duriense, com belas vindimadeiras apresentadas como se fossem estrelas de Hollyhood, muito limpinhas e arranjadinhas (eram fotos para cartazes publicitários, postais ou calendários).
Fotografias do povo, no trabalho, ao natural, são raras, pois as pessoas quando sabiam que era para a fotografia metiam logo o fato domingueiro, "para não parecer mal". É preciso saber distinguir o fato domingueiro do fato de trabalho, reparando, desde logo, se está remendado ou não, já que as pessoas dos extractos sociais mais humildes, ou até certos proprietários, usavam a roupa do campo com uma série de remendos.

É muito difícil (senão impossível) que alguém tenha alguma peça de vestuário de trabalho de há mais de 50 anos, em casa, pois esses trapos eram normalmente deitados fora, ou queimados, ou reciclados para panos do chão, etc.. E, com a melhoria das condições de vida, urgia apagar tudo o que lembrasse esses tempos de miséria. Mas é bem possível que se tenham conservado camisas ou casacos do tempo do avô, ou algum vestido mais elaborado da avó (refiro-me aos fatos domingueiros, ou então de extractos sociais mais altos, como funcionários públicos, comerciantes, advogados, médicos, etc.). Uma coisa que as idosas até há bem pouco tempo ainda usavam (ou ainda usam) é o xaile, sobretudo no Inverno, além do lenço preto na cabeça, peças normalmente pretas, sobretudo ao enviuvarem.

Embora sabendo que não é fácil fazer este tipo de investigação, com o intuito de ajudarmos o grupo Alma de Ferro a definir o seu guarda-roupa, aqui apelamos a quem tenha fotografias antigas (anteriores aos anos 80 do séc. XX), onde estejam representadas pessoas em fainas agrícolas ou do dia-a-dia, ou até mesmo em fatos mais “finos” que as digitalizem e as enviem para o nosso endereço do blogue (torredemoncorvoinblog@gmail.com) que aqui as postaremos e/ou encaminharemos para os elementos do grupo de teatro, depois de as copiarmos.

Foto de Camané Ricardo

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

A TORMENTA DOS MOGADOURO NA INQUISIÇÃO DE LISBOA


Foi enorme a minha satisfação ao encontrar, na livraria Bertrand do Centro Comercial Twin,o livro do António Júlio. Comprei-o ,li-o e associei-o ao texto do Rogério- Junot e Saramago.A hierarquia da igreja ,com palavras,exaltava os portugueses a obedecer Napoleão.No drama da família Mogadouro ,a Igreja e a sua Santa Inquisição utilizaram a tortura, a fogueira e o saque.

Da editora:

Autor(es):

António Júlio de Andrade

Maria Fernanda Guimarães Género(s):

História

Editora Vega Colecção Sefarad

Formato 20 x 13 cm 152 páginas

Ano 2009 1ª edição

Preço 14,00 € ISBN 9789726999256

A Tormenta dos Mogadouro na Inquisição, segundo título da colecção SEFARAD, tem como base uma investigação profunda de um corpus de processos na Inquisição de Lisboa. Através desses processos, os autores reconstituíram a história da família Mogadouro, proprietária da nau Jerusalém, que se ocupava predo-minantemente do transporte de judeus portugueses que fugiam da Inquisição e de judeus que vinham de Itália para Portugal disfarçados de comerciantes. Á excepção de uma filha que era casada, todos os membros do clã dos Mogadouro conheceram, em simultâneo, os horrores das cadeias da Inquisição de Lisboa.

António Júlio de Andrade, natural de Felgueiras, con-celho de Torre de Moncorvo, estudou nos Seminários de Vinhais, Bragança e Braga e na Faculdade de Filosofia da Universidade do Porto. Possui o curso de Técnico de Turismo Cultural ministrado no Centro Nacional de Cultura em Lisboa. Foi professor do Ensino Secundário e actualmente trabalha na Câmara Municipal de Torre de Moncorvo como Técnico de Bibliotecas, Arquivos e Documentação. Durante 10 anos foi Director do Jornal Terra Quente, quinzenário que se publica em Mirandela.

Maria Fernanda Guimarães é investigadora na área dos estudos sefarditas, nomeadamente nas comunidades de cripto-judeus transmontanas. É colaboradora da Cátedra de Estudos Sefarditas “Alberto Benveniste” desde as suas primeiras actividades, tendo contribuído com investigação para o Dicionário Histórico dos Sefarditas Portugueses – Corpo prosopográfico de mercadores e gente de trato. Colabora ainda com o quinzenário Terra Quente, onde é responsável pela página Entre o Cristianismo e o Judaísmo desde 1999.

Colecção SEFARAD

Tomada de Posse dos Orgãos Autárquicos

Na passada segunda-feira, dia 26 de Outubro, tomaram posse os novos órgãos autárquicos - Assembleia Municipal, Câmara Municipal e Juntas de Freguesia, para o mandato entre 2009-2013. A sessão teve início pelas 16.00 horas, no salão nobre dos Paços do Concelho.

Os orgãos da autarquia ficam constituídos pelos seguintes elementos:

Assembleia Municipal: António Almada Guerra (Presidente; PS), Maria de Lourdes Girão (PSD/PP), António Alves Salema (PS), João Carlos Evangelista (PSD/PP), Beatriz Souza Fernandes (Ind./PS), Orlando Jorge Mesquita (PSD/PP), Fausto Edmundo Tiago (PS), Liliana de Sousa Bernardino (PSD/PP), José Martins Fevereiro (PS), Nuno Martins Costa (PSD/PP), Maria Vitória Lázaro (PS), Adalberto Covas Miguel (PSD/PP), António Faria Sota (PS), Viviana Leonardo Teixeira (PSD/PP), Ismael Joaquim Ferreira (PS), António Manuel Capela (PSD/PP), Altina Lopes Pinto (PS), António Júlio Andrade (PSD/PP), Luís Silva Ferreira (PS), Liliana Fidalgo Fernandes (PSD/PP), António Barbosa Filipe (PS); e todos os Presidentes de Junta do concelho, com assento por inerência do cargo.

Câmara Municipal: Fernando Aires Ferreira (Presidente; PS), Nuno Rodrigues Gonçalves (PSD/PP), José Manuel Aires (PS), António José Salgado (PSD/PP), Alexandra Filipe de Sá (PS), Maria da Piedade Menezes (PSD/PP), António da Silva Moreira (PS).

Presidentes das Juntas de Freguesia: José Carlos Cordeiro (Açoreira, PS); Guilhermino Soares (Adeganha, PSD/PP), Altino Miranda Sá (Cabeça Boa, PS), José Manuel Moreiras (Cardanha, PS), José Manuel Teixeira (Carviçais, PS), Armando da Cruz Ferreira (Castedo, PS), António Manuel Gonçalves (Felgar, PS), Maria do Rosário Patrício (Felgueiras, PS); Luís António Carvalho (Horta da Vilariça, PS), Manuel José Dinis (Larinho, PSD/PP), Francisco Tavares Varela (Lousa, PSD/PP), Luís Amadeu Gaspar (Maçores, PSD/PP), Paulo Evangelista Bento (Mós, PS), Basílio Mário Lázaro (Peredo dos Castelhanos, PS), António Miguel Mendes (Souto da Velha, PS), Maria de Lurdes Pontes (Torre de Moncorvo, PS), Afonso Henrique Alagoa (Urros, PS).

Foto gentilmente cedida por A. Bento/Foto Bento

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Mós - em resultado da repetição do acto eleitoral

Lembrando o "senado" dos "homens-bõos" de outros tempos, à sombra do pelourinho (foto de João Pinto V. Costa, 2008)

Depois do empate verificado nas eleições autárquicas realizadas no passado dia 11 de Outubro, para a Assembleia de Freguesia de Mós (por 110 votos para cada uma duas listas oponentes, respectivamente do PS e coligação PSD/CDS), o acto eleitoral foi repetido no passado Domingo, tendo resultado na vitória do PS, por 127 votos contra 109 do PSD/CDS. Segundo apurámos, a coligação PSD/CDS conseguiu uma vantagem de 2 votos na sede da freguesia (Mós) mas acabou por perder pela margem de 18 votos no final, depois de se saberem os resultados de um lugar da freguesia, as Centeeiras, que constitui outra secção de voto. É preciso não esquecer que a freguesia de Mós possui algumas quintas anexas, tais como as Centeeiras (já perto de Ligares) e Odreira, além de outras actualmente desertas. Reminiscências de um antigo concelho medieval (com foral doado pelo rei D. Afonso Henriques, em 1162), que incluía ainda o termo de Carviçais. Esse concelho viria a ser integrado no de Torre de Moncorvo por volta de 1836.

Após a reunião da Assembleia de Apuramento Geral, realizada ontem, foi deliberado que os resultados definitivos são 126 pelo PS e 108 pelo PSD/CDS, tendo sido considerados nulos 2 votos, um para cada lado.Fonte de mergulho talvez do final da Idade Média (foto de João Pinto V. Costa, 2008)

Em consequência da vitória eleitoral do PS para a Assembleia de Freguesia, é reeleito o actual Presidente da Junta, Sr. Paulo Evangelista Bento, depois de um renhido combate eleitoral em que teve como opositor o Sr. Belarmino de Deus. Os nomes dos restantes candidatos da lista vencedora (de onde sairão os elementos que vão compôr o órgão executivo) podem ler-se no blogue de Mós: http://fg-mos-vila-antiga-medieval-tmoncorvo.blogspot.com/2009/10/freguesia-de-mos-torre-de-moncorvo.html

A todos os eleitos, quer da Junta, quer da Assembleia de Freguesia (lembramos que neste órgão têm assento também elementos da lista oponente) , desejamos um bom desempenho na sua missão, não sendo necessário lembrar-lhes a importância histórica dessa antiga vila e a necessidade de preservação e valorização do rico património arquitectónico e arqueológico que ainda resta desses gloriosos tempos.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Globo, Torre de Moncorvo - a tipografia da Resistência

Tivesse sido através de post's colocados neste blogue (7.09.2009) ou blogue do PARM (em 20.02.2008), ou pela reportagem saída no Mensageiro de Bragança ainda no ano passado (de autoria de Carla Gonçalves), ou, mais recentemente (Setº. 2009), por outra reportagem na LocalVisão/Bragança (de autoria de Lígia Meira e Marcos Prata), a verdade é que a Tipografia Globo, sedeada na Rua Visconde de Vila Maior, em Torre de Moncorvo, começa a ficar famosa.
Uma fama que talvez chegue tarde, mas que, mesmo que não traga um acréscimo de trabalho por aí além, o que seria essencial para uma vida condigna dos nobres profissionais que aí laboram e para a sobrevivência deste património técnico, pelo menos é um suplemento de alma e o reconhecimento da sua gesta resistente.

Vem este arrazoado a propósito do excelente artigo que abre o nº. 25 da revista Nós (projecto da revista do jornal "i"), saída no passado sábado.
Esta publicação, sob a forma de revista, resulta de um projecto da empresa Netsonda e da revista do "i", em que se solicitou a um número considerável de leitores (por amostragem), que indicassem adjectivos que gostassem de ver tratados. Coube ao último número (o 25º) a palavra "Resistentes", precedido do genérico "Nós". Aqui se apresentam diversos tipos de Resistentes (ao vício da droga, à resistência política, em histórias de vida), mas quem teve a honra de abertura foi a tipografia do Manel Barros e do Morais, uma empresa quase familiar.
Sónia Morais Santos (texto) e Gonçalo F. Santos (fotografias) assinam o artigo que assim começa, em "leed": "Em Torre de Moncorvo a Tipografia Globo resiste ao tempo e imprime quase como no tempo de Gutemberg: letra a letra. Em chumbo e níquel, numa escrita em espelho que faz confusão a quem não é do ofício. O proprietário diz que o seu tempo está a acabar. Mas entretanto a impressão continua".
Apesar de algumas teimosas gralhas - que aconteciam mais frequentemente no tempo da impressão tipográfica - e que o corrector automático do computador lhes deixou passar, como "carácter" por "caracter", o texto é interessante e de leitura obrigatória.
Só nos resta apelar, mais uma vez, para o interesse em classificar-se este património industrial ou técnico (alíneas i e j do artigo 21º. do recentíssimo Decreto-lei nº 309/2009 de 23 de Outubro) se não como de interesse público, pelo menos de interesse municipal, conferindo-se uma tença aos artistas-tipógrafos para que possam manter o mais possível esta "resistência", com a contrapartida de aceitarem visitas de alunos das escolas que aqui, poderiam ver, ao vivo, uma sobrevivência de um sistema parecido ao de Guttemberg, o alemão que no séc. XV inventou a primeira prensa tipográfica. Fica a ideia.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

A partidela de amêndoa

Repórter não sou, mas, porque ontem estive num museu vivo, um museu que tenta preservar não só o espólio arquitectónico e cultural da região, mas também e a solidariedade da alma transmontana, apetece-me escrever sobre ela.

Ontem, foi o melhor dia da partidela, era o último, o dia das filhoses, o dia em que se terminava a safra anual e dava direito a ceia reforçada.
Ontem, fiz “serão” em casa do Ti Chico Sá, estava cheia, toda a vizinhança apareceu. Ontem voltei à minha meninice, aos anos setenta, voltei a ouvir aquele martelar constante: tac… tac… taaac… voltei a escutar as conversas de adulto que nem percebia. Soaram em mim vozes que, num linguarejar de outros tempos, pediam, com insistência, a luz da candeia para catar o grão que saltou e se esconde no meio do cascabulho. Ontem, maldisse a vida quando bati involuntariamente no indicador, ontem, entorpeceram-se-me novamente as pernas pelo longo tempo de imobilidade e voltaram-me a arder os olhos pela fumaça das cascas que tardavam a acender.
Ontem, não sei porquê, voltei aos gambozinos, vi-me de fachoqueiro na mão, afouto, noite dentro, à hora dos lobisomens, a arrepiar-me nas encruzilhadas, percorrer o empedrado irregular e húmido da Rua da Fonte-do-Prado.
Ontem vi os burros, atados pela arreata no cimo do amendoal, a rabejar incessantemente, a escarvar no chão, como que a pedir socorro do ataque continuado do regimento de moscas que, apoiados por uma bataria de moscardos artilheiros, voejavam em seu redor. Ontem vi muitas almas varonis ao longo da riba das Arcas. Iam de amendoeira em amendoeira, atentos às irregularidades do terreno, sempre a ver onde punham os pés e a varejar para o chão o fruto já bem seco. Vi as mãos calejadas do mulherio que apanhava desembaraçadamente amêndoa a amêndoa, no meio dos cardos, e despejava às mancheias nas cestas de vime asadas, mudadas à medida que se avançava encosta acima, com muito cuidado, não fossem esbarrondar-se e obrigar a nova e forçada apanha.
25.10.2009

Por: António Sá Gué
Fotos de: Camané Ricardo e de Rui Leonardo/PARM

Ainda sobre a VI Partidela da Amêndoa realizada no Museu do Ferro, ver: http://parm-moncorvo.blogspot.com/2009/10/vi-partidela-tradicional-da-amendoa_26.html

AMATORRE atrai bastante público

Cena de "O consultório", pelos Alma de Ferro (foto cedida por Camané Ricardo)

Como aqui noticiámos (ver post de 21.10.2009), teve início no passado dia 23 de Outubro o festival de teatro amador - AmaTorre - centrado no teatro do Celeiro, ao lado da antiga estação da CP. No dia da abertura foi estreada a peça "O consultório", escrita por A.M. Pires Cabral, pelo grupo de teatro Alma de Ferro, de Torre de Moncorvo, cuja representação teve um excelente acolhimento da parte do público, que acorreu em massa ao espectáculo.

Cena de "Mulher com marido longe", por Grupo de Teatro de Lordelo (foto cedida por Camané Ricardo)
No sábado à noite, o grupo de Teatro de Lordelo apresentou "Mulher com marido longe", uma comédia de costumes, em que se satiriza uma certa classe média com desmesurada ambição de progressão social, numa espécie de vale-tudo, mas em que a morte do pretendente (aliás, pretendido) supostamente rico, troca as voltas ao destino. O público também não regateou aplausos a estes experimentados actores, apesar de, como fizeram questão de frizar, serem também um grupo amador, aliás, no espírito deste Encontro.
O festival continua no próximo dia 31 de Outubro, com mais duas peças: às 15;30h, "A Lenda de Torre de Moncorvo", de novo com os Alma de Ferro; e às 21;30h, "A birra do morto", pelo grupo Casca de Nós.

domingo, 25 de outubro de 2009

A Tuna do Peredo

A Tuna do Peredo

Recorri de novo ao meu baú informático e fui encontrar alguns elementos dispersos sobre a Tuna do Peredo que tocou e encantou ( excepto em Felgueiras onde foi corrida a nabos) as várias aldeias do concelho ( sobretudo Açoreira e Maçores) Era seu maestro Zé Martins que também organizava sessões de teatro no Peredo num antigo palheiro decorado com colchas. Muitos dos músicos da Tuna iam trabalhar para o Zé Martins, na Azenha, no Rio Douro e regressavam ao Peredo a tocar. Todos tocavam por música. Aqui ficam alguns nomes ( com alcunhas) que fui recolhendo: Artur Rodrigues (Carriço) tocava guitarra e cantava; Fernando Gil, guitarra; Manuel Quitério, bandolim; Mário Ferreira ( Panato), meio irmão do professor Ferreira, irmão da Ti Isolina, violão; Ângelo Campos (Chocalho); professor Ferreira, violino; António Gil( da Constância); António Rodrigues (Carró), bandolim; José Pestana ( Grilo), guitarra; António Dias (Russo).
Estes alguns dos nomes. Doutros, desconheço o instrumento que tocavam. Gente mais velha do Peredo pode completar esta memória.
Recolhi também alguns versos, ainda que incompletos, que a Tuna cantava. Aí vai um exemplo:

“Eu tenho um chapéu novo
Que me custou um cruzado
Não tem copa nem tem aba
Está todo roto de um lado.

Tenho uma camisa nova
Coisa assim nunca se viu
Nem tem mangas nem colar
A fralda já lhe caiu.


Tenho um casaco novo
Do mais fininho cotim
Remendo sobre remendo
O fato é todo assim.”

Havia ainda mais versos sobre meias, calças e sapatos mas que não consegui recolher.
Por último uma despedida que me é muito cara. O Fernando Gil, que era gago mas cantava muito bem, pai do nosso estimado Gil T., um dia partiu para o Brasil, onde esteve muito pouco tempo. E fez uma serenata à sua namorada, depois mulher, ainda viva, a Grata, com estes versos que não sei se são da sua autoria:
“Um adeus de despedida
É a coisa mais sentida
Que comove o coração.
Dizer adeus é tristeza
Pois nunca se tem a certeza
Se voltarei cá ou não.”

Junot e Saramago


Peço desculpa pelo atrevimento,mas, recusando-me a falar ou escrever sobre a questão Saramago-Igreja ( Saramago que não é meu autor preferido), gostaria de recordar neste segundo centenário das Invasões Francersas, que ainda está a decorrer, papel da hieraquia da Igreja católica portuguesa, afinal a sua superestrutura, face ao Poder de Napoleão e Junot. Qualquer semelhança com a discussão entre Saramago e a Igreja é lamentável coincidência ou mero acaso... O Poder é afrodisíaco. Se nem sempre corrompe, sempre deforma. Desculpem o texto( talvez longo demais) as almas mais sensíveis e, porventura mais católicas do que patrióticas, ou, pelo menos, tão católicas quanto patrióticas.


Andoche Junot
Andoche Junot entrou com as suas tropas em Lisboa. Vai fazer ou já fez 200 anos. Napoleão tinha sido coroado imperador pelo Papa da Igreja Católica, Apostólica e Romana. Maçon, Junot quis ser grão-mestre da maçonaria portuguesa, o que lhe foi recusado pelos maçons portugueses. Futuro rei de Portugal, como esperava e declara vir a ser, quis que na Maçonaria o retrato de D. João VI fosse substituído pelo retrato de Napoleão. A maçonaria portuguesa recusou. E que fez a Igreja Católica, Apostólica e Romana, perante este jacobino? Deu-lhe laudas e em pastorais dos seus bispos, aconselhou os fiéis a aclamaram-no, ajudando-o, denunciando e o mais que aprouvesse à hierarquia da Igreja. É Luz Soriano, na sua lucidez e rigor, que regista para o futuro as pastorais da ignomínia dos bispos-chave da hieraquia da Igreja Católica em Portugal. Recordemos alguns extractos. O cardeal patriarca de Lisboa, José Francisco de Mendonça, apela, na sua pastoral, a ler em todas as igrejas da cidade de Lisboa: "Não temais, amados filhos, vivei seguros em vossas casas e fora delas; lembrai-vos de que este exército é de sua majestade o imperador dos franceses e rei de Itália, Napoleão o Grande, que Deus tem destinado para amparar e proteger a religião e fazer a felicidade dos povos: vós sabeis, o mundo todo sabe. Confiai com segurança inalterável neste homem prodigioso, desconhecido a todos os séculos; ele derramará sobre nós as felicidades da paz, se vós respeitardes as suas determinações, se vos amardes todos mutuamente, nacionais e estrangeiros, com fraternal caridade".É raro ler um texto com tanta hipocrisia, quando todo um povo começava a ser violado e violentado e as igrejas saqueadas.Também o bispo do Porto, António José de Castro ( embora mais tarde se arrependa da pastoral da ignomínia e adira à Junta Patriótica do Porto), divulga entre os fiéis do seu rebanho: "Estas tropas que aqui vedes entrar, são nossas aliadas e pacíficas, e quem as manda entrar tem sido prevenido e armado por Deus de poder e sabedoria para as fazer entrar e para as saber dirigir a fim da nossa felicidade, e devemos seguramente confiar no mesmo Senhor que não seja outro o seu destino. Sim, o Imperador dos franceses e Rei de Itália, o Grande Napoleão, não poderia de outro modo servir-se de nós para aumentar a sua glória verdadeira, senão fazendo-nos felizes. Não é crível que na grandeza sem igual do seu coração, no ardente desejo da sua glória, pudesse entrar em Portugal para outro fim. Este grande imperador, elevado sobre o trono dos seus triunfos, tem unido a eles a glória de fazer dominar a nossa santa religião nos seus estados (...)Os templos estão cheios destes militares que edificam, e que por tudo nos poem interiormente na necessidade de os amarmos como próprios filhos, e exteriormente na obrigação de darmos este testemunho público da nossa satisfação e do seu merecimento. Esperamos que este testemunho fundado já na experiência e conhecimento destas tropas religiosas, pacíficas e bem disciplinadas, vá servir não só para desvanecer aos vossos ânimos qualquer receio que vos pudesse causar a sua entrada, mas também para mostrar a obrigação em que estamos todos de praticar com elas todos os bons ofícios da caridade e de hospitalidade, como se fossem nossas próprias, e ainda mais por se acharem fora do seu país".Trata-se é certo de uma encomenda de Roma, vinda do Papa que consagrara Napoleão como Imperador. Mas também não era necessário tanto exagero...Por último, leiamos a pastoral de inconsútil patriotismo do bispo titular do Algarve, José Mátia de Melo, confessor privativo da louca D. Maria I : " É necessário ser fiel aos imutáveis decretos da divina providência e, para o ser, devemos, primeiro que tudo, com coração contrito e humilhado, agradecer-lhes e tantos e tão contínuos benefícios que da sua liberal mão temos recebido, sendo um deles a boa ordem e quietação com que neste reino tem sido recebido um grande exército, o qual, vindo em nosso socorro, nos dá bem fundadas esperanças de felicidade. Este benefício igualmente o devemos à actividade e boa direcção do general em chefe que o comanda, cujas virtudes são por ele há muito tempo conhecidas. Lembrem-se que este exército é de sua majestade o imperador dos franceses e rei de Itália, Napoleão o Grande, que Deus tem destinado para amparar e proteger a religião e fazer a felicidade dos povos. Confiai com segurança neste homem prodigioso, desconhecido de todos os séculos; ele derramará a felicidade da paz, se respeitarem as suas determinações, e se amarem todos, nacionais e estrangeiros, com fraternal caridade. Deste modo a religião e os seus ministros serão respeitados, não serão violadas as clausuras de esposas do Senhor, e todo o povo será feliz, merecendo tão alta protecção".O bispo do Algarve estava preocupadíssimo com a virtude das 'esposas do senhor' ( freiras em linguagem corrente). A substância das três homilias tem uma raiz comum: a directriz do Papado para não molestar Napoleão, mesmo que Napoleão molestasse nações inteiras. A real politik do Vaticano consegue conciliar a conciliação com o Poder profano à hipocrisia da justificação do poder sagrado. Hoje como ontem...

sábado, 24 de outubro de 2009

Recorte - sobre o nosso blogue

O jornal "Nordeste", que se edita em Bragança, possui uma secção intitulada "Tecnologa & Internet", a qual é dedicada aos "sites" e "blogues" que mais se destacam no distrito de Bragança. Na sua edição de 20.10.2009 (e sem ser a nosso pedido - note-se!), fomos destacados, tal como o recorte acima testemunha. Os nossos agradecimentos ao "Nordeste" e a todos aqueles que nos acompanham neste objectivo de divulgar a nossa terra, da melhor forma que sabemos e podemos.
"Não perguntes o que a tua terra pode fazer por ti, mas sim o que tu podes fazer pela tua terra" - é o nosso lema, com a devida vénia do Sr. J. F. Kennedy.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Memorando

É só para lembrar - começa hoje:

(clicar em cima da imagem, para a ampliar)

Relembrando o Padre Rebelo

Correspondendo a um apelo feito em comentário ao post anterior, é um prazer (re)lembrar aqui o Padre Joaquim Manuel Rebelo, nosso saudoso mestre, já mencionado neste blogue a propósito da Encomendação das Almas, um ritual bem trasmontano que foi por ele estudado nos anos 60 e 70.

O Padre Rebelo, como era simplesmente conhecido, foi um distinto professor e investigador, além de sacerdote, nascido em Vila Nova de Foz Côa a 13 de Março de 1922, embora tivesse devotado grande parte da sua vida ao concelho de Torre de Moncorvo, onde viria a ser sepultado, após a sua morte, ocorrida em Coimbra, a 19 de Junho de 1995.
Frequentou o Seminário de Bragança e foi ordenado em 1945, fazendo parte de uma linha ilustre de padres eruditos formados por aquela instituição religiosa, em que pontuam nomes como o Abade de Baçal, Pe. José Augusto Tavares, Pe. António Maria Mourinho, que se celebrizaram no estudo da Etnografia, Arqueologia e Linguística da região trasmontana.
Como tal, o Padre Joaquim Rebelo, que ainda chegou a conhecer os dois primeiros e privou com o Pe. Mourinho, interessou-se também pela Etnografia e Linguística, tendo participado em diversos congressos da especialidade e publicado diversos artigos e livros relacionados com estas áreas.
Outro dos seus interesses era a dialectologia regional e o estudo dos regionalismos, tendo publicado uma série de contributos para o glossário de Trás-os-Montes e Alto Douro, na revista Tellus, de Vila Real, no início dos anos 90.
No entanto, a sua maior obra foi, talvez, como formador, tendo deixado grande saudade entre muitos dos que tiveram o privilégio de ter sido seus alunos. Leccionou as disciplinas de Português, História Universal, Religião e Moral, nas seguintes escolas: Externato de N. Srª. de Fátima (Carviçais), Escola Industrial de Torre de Moncorvo, depois Escola Secundária, e Escola Preparatória Visconde de Vila Maior (Torre de Moncorvo), entre 1964 e 1992.
Enquanto sacerdote, paroquiou as aldeias de Múrias (Mirandela), Castedo , Vide, Felgar, Souto da Velha e Larinho (estas no concelho de Torre de Moncorvo). Foi também capelão da Fundação Francisco Meireles e do Carmelo da Sagrada Família, em Torre de Moncorvo.
Era membro das seguintes instituições: Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia, Sociedade de Língua Portuguesa e Associação Port. dos Amigos dos Castelos.
Principal bibliografia. Destacamos entre os vários trabalhos e inúmeros artigos de imprensa, os seguintes títulos: Achegas para o estudo do Romanceiro de Trás-os-Montes e Alto Douro (separata da Revista de Etnografia, nº 5); Pequeno subsídio para uma paremiologia teológica ou um quadro vivo de Trás-os-Montes e Alto Douro (separata de Actas do Congresso Internacional de Etnografia de Santo Tirso, J.I.U., Lisboa, 1965); O culto dos mortos no Nordeste de Trás-os-Montes e Alto Douro (separata do Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, 1965); A encomendação das almas nos concelhos de Torre de Moncorvo e Freixo de Espada à Cinta (Cadernos culturais do Núcleo Cultural de Vila Real, Maio 1978; Resenha histórica de Torre de Moncorvo (conferência proferida em 21.02.1987); Para a história da imprensa de Trás-os-Montes e Alto Douro (in Brigantia, 1989); O convento de S. Francisco de Torre de Moncorvo (edição da Escola Preparatória de T. de Moncorvo, 1992); A terra trasmontana e alto-duriense. Notas etnográficas (ed. Câmara Municipal de T. de Moncorvo, 1995)
Haveria ainda a acrescentar outros títulos, resultantes da participação, com comunicação, em diversos colóquios e congressos, tal como ainda colaboração diversa (e dispersa) pela imprensa local (A Torre, O Fozcoense), regional (p. ex. Mensageiro de Bragança, Voz do Nordeste) e nacional (Comércio do Porto, Diário Popular), etc.
Reconhecimento e Homenagens. Ainda em vida, o Padre Rebelo foi alvo de uma homenagem por parte do município de Torre de Moncorvo, que lhe conferiu o título de Cidadão Honorário em 20.02.1995. Antes disso, um considerável grupo de moncorvenses promovera um almoço de homenagem em sua honra. Postumamente (em 1998) a Escola Secundária de Torre de Moncorvo deu o seu nome à Biblioteca Escolar, considerando o facto de o Padre Rebelo ter sido, responsável pela biblioteca, quando aí foi professor.
Em 2004 o município de Torre de Moncorvo atribuiu o seu nome a uma nova artéria da vila.

Em 2006, o Dr. António Manuel Pimenta de Castro, antigo colega e amigo do Padre Rebelo, igualmente professor na Escola Secundária denominada Dr. Ramiro Salgado, hoje Agrupamento Vertical de Escolas, escreveu um pequeno livro intitulado: “Subsídios para uma biografia de Joaquim Manuel Rebelo, Sr. Padre Rebelo” (edição da Escola, com apoio do município).

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

"Mandamentos" populares (sobre o Amor)

(Continuação do "post" anterior: o ti' Cara-Linda, a pedido da tia Xica Neiva, ensina às moças os Mandamentos do Amor, durante uma "partidela de Amêndoa", segundo uma recolha do Padre Rebelo, algo ficcionada, talvez dos anos 70):

- Os Mandamentos do Amor,
eu vos vou explicar:
São dez, minhas meninas,
Tratem de os decorar.

- E decorem-nos bem, - berravas tu!

1º. Amar a Deus sobre tudo quanto há.
Eu amo a Deus no Céu,
Mas amo-te a ti cá.

2º. Não jurar o Seu Santo Nome em vão.
Eu cá por mim fiz a jura
de te dar a minha mão.

3º. É guardar domingos e dias santos.
eu deixo de os guardar,
por causa dos teus encantos.

4º. É honrar nosso pai e nossa mãe.
Bastante os tenho honrado,
mas honro-te a ti, também.

5º. É não matar.
Eu nunca matei ninguém,
Só matava, se pudesse,
saudades que meu peito tem.

6º. É guardar castidade.
Bastante tenho guardado.
Só para te guardar respeito,
bastante tenho pecado.

7º. Não furtar o que a outrém pertencer.
Só te furtava a ti,
se acaso pudesse ser.

8º. Não levantar falsos testemunhos a ninguém.
Eu por mim não os levanto.
A ti só te quero bem.

9º. Não desejar a mulher do nosso semelhante.
Só te desejo a ti,
Se tu me fores constante.

10º. Não cobiçar as coisas que alheias são.
Só te desejo a ti,
com todo o meu coração.

- Estes 10 Mandamentos
encerram-se em dois:
Amo a Deus no Céu,
Mas amo-te a ti despois".

in: "A Terra Transmontana e Alto Duriense. Notas etnográficas", por Joaquim Manuel Rebelo (Padre Rebelo), ed. Câmara Municipal de Torre de Moncorvo e Associação Cultural de Torre de Moncorvo, 1995.

"Partidela" da Amêndoa

"- Ai quanto me custa morrer, ó Xica Neiva!
- Olha que Deus não é de brinquedos senão às vezes dava castigos, não achas?
- O que nós fazíamos quando éramos solteiros!
- Não te recordas daquelas noites de inverno, quando íamos ajudar a partir a amêndoa para a casa da tia Arminda Fanega?
- Primeiro cantávamos a vozes, ao som do martelar, o canto do Cravo Rijado.
- As costas e os pés estavam frios, mas os corações até deitavam fogo.
- Olha que tu tinhas mesmo uma voz de respeito, mas eu, também, não ficava atrás.
- Vamos tentar cantar uns versos desse cântico? Recordar é viver, home. Ora vamos lá ver se ainda acertamos.

E os nossos idosos, numa voz ainda firme, repassada de saudades, lembrando aquelas noites frias e o pum, pum, pum do partir da amêndoa e, as conversas chistosas do grupo das partideiras, começaram a cantar:

Fala-me, ó cravo rijado,
Fala-me fora da rama,
Fala-me sem cobardia, ó ai,
quem é cobardo não ama.

Quem é cobardo não ama,
Quem ama não é cobardo,
Fala-me ó meu amorzinho, ó ai,
Fala-me ó cravo rijado.

Fala-me aonde me vires,
Não te escondas de ninguém,
Eu na fama já sou tua, ó ai,
Por esse mundo além.

Acabada a cantiga, o ti Cara Linda atalhou logo:
- E quando tu dizias: Ó Cara Linda, ensina lá a doutrina a estas moças casadouras, senão o senhor padre não as casa.
- E eu então começava: Raparigas, ouvam lá o catecismo d'hoje" [continua]

in: "A Terra Transmontana e Alto Duriense. Notas etnográficas", por Joaquim Manuel Rebelo (Padre Rebelo), ed. Câmara Municipal de Torre de Moncorvo e Associação Cultural de Torre de Moncorvo, 1995.
Foto: Padre Rebelo? Legenda: "Partidela da Amêndoa" no Peredo dos Castelhanos.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

AMATORRE - Festival de Teatro em Torre de Moncorvo

Vai realizar-se nos dias 23, 24 e 25, com continuidade em 30 e 31 de Outubro, no espaço do Celeiro (ao lado da antiga estação de caminho de ferro de Moncorvo) um novo festival de teatro amador designado AMA.TORRE. A organização é da Associação Cultural de Torre de Moncorvo com apoio da Câmara Municipal e Junta de Freguesia de Torre de Moncorvo.
Nesta primeira edição vão participar quatro grupos de teatro, entre os quais os nossos "Alma de Ferro", que vão estrear duas peças (o Consultório e a Lenda de Torre de Moncorvo).
(Clicar no cartaz acima, para ampliar)

terça-feira, 20 de outubro de 2009

VI Partidela Tradicional da Amêndoa, no Museu do Ferro

(foto do cartaz, de A.Basaloco)

Realiza-se no próximo dia 24 de Outubro (sábado), a partir das 15;30h, a 6ª Partidela Tradicional de Amêndoa, organizada pelo Museu do Ferro & da Região de Moncorvo.
Como já informámos em edições anteriores, a “partição” ou “partida” da amêndoa, consistia na reunião das famílias, vizinhos e amigos, para, ao serão, durante as noites frias de Outono ou Inverno, se “entreterem” a quebrar a casca lenhosa das amêndoas, a fim de venderem o produto em grão, pois assim era mais bem pago pelos negociantes de frutos secos. Era um momento de trabalho, mas também de confraternização e de amena cavaqueira.
Este sistema de entreajuda, um pouco na linha do comunitarismo transmontano, era sobretudo usado pelos pequenos e médios proprietários. Os grandes proprietários, por seu lado, chamavam gente à jeira, normalmente mulheres, para executarem esse trabalho, o qual era pago consoante os alqueires que enchiam, completamente a transbordar.
É preciso recordar que boa parte do concelho de Torre de Moncorvo se situa na chamada Terra Quente Transmontana, com um microclima mediterrânico, onde se dão bem a vinha, a oliveira e a amendoeira. Esta última cultura, que é também responsável pelo cartaz turístico da Amendoeira em Flor, tem conhecido uma certa regressão nas últimas décadas, razão pela qual as “partidas” da amêndoa deixaram de se verificar. Já antes disso, as máquinas britadeiras tinham começado a substituir a mão humana. No entanto, as memórias persistem, e o Museu do Ferro, querendo recuperar estas tradições e, simultaneamente, desenvolver uma certa “museologia de proximidade”, envolvendo pessoas de todas as idades e de diversas proveniências (habitantes locais e visitantes de outras paragens) volta a reeditar esta actividade, que já é um cartaz habitual, nesta época do ano, sempre com assinalável êxito!

Aceitam-se inscrições até ao fim do dia 22 de Outubro, para o tlf. 279252724.

domingo, 18 de outubro de 2009

Poesia - "Janela Indiscreta", de Paula Salema

Em tempo de Outono, a Poesia apetece, ganha outro sentido. E, como apelo aos sentidos, recomendamos vivamente um livro recentemente editado, de autoria de uma jovem moncorvense, que consideramos uma revelação no campo da Poesia:

Capa de autoria de Emanuel Bessa Monteiro
A autora, Paula Cristina Reis Salema é licenciada em Românicas, variante Português e Francês, com pós-graduação em Cultura Portuguesa, pela UTAD (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro). Depois de uma breve passagem pela Sorbonne (Univ. de Paris), onde desenvolveu competências ao nível da língua francesa, leccionou na Escola Secundária de Mirandela, acabando por vir a integrar (desde 2001) um projecto da UTAD em parceria com autarquias da região de Trás-os-Montes, com vista à implementação de Novas Tecnologias de Informação e Comunicação (Internet) nas zonas rurais, trabalhando presentemente no município de Torre de Moncorvo. Alia a sua actividade profissional ao gosto pela literatura, pelas línguas e pela escrita.
Janela Indiscreta é o seu primeiro livro de poesia, o que não desmerece - bem pelo contrário! - a sua alta qualidade. Alguns poemas revelam já uma maturidade de poeta consumada. Dela escreveu a sua amiga Drª. Lourdes Girão (médica e também poeta), no Prefácio do livro: "Mulher/menina, Menina/mulher? Qual delas nos dá a conhecer a sua riqueza interior? / No seu dualismo sensitivo utiliza o saltitar de palavras cadenciadas no seu ritmo para se libertar de grilhetas sociais que lhe encarceram os sentidos. / E é, na liberdade de expressão que os sentimentos aparecem, quer aflorando o onírico quer embriagando-se e aturdindo-se nas nebulosas dos destroços da menina que já cresceu".
Ou ainda, como a autora adverte em nota introdutória, Janela Indiscreta/livro de poesia, pretende ser um apontamento de Olhares e de viagens, que se explanam numa sucessão de binómios: confronto/confissão, intimidade/evasão, realidade/fantasia, equilíbrio/desequilíbrio, Amor/Vida, reflectindo "a intensidade transportada por todos os momentos vividos na primeira pessoa (...), sempre com a sensação de que se é aprendizagem, e sobretudo, cada vez mais, necessidade de escutar a voz dos outros e do mundo num estado de luta e doação permanente".
Compõem o livro 58 poemas em português (apesar de alguns levarem título em inglês), dois em francês e um em língua castelhana, num total de 74 páginas.
Dá título à obra - "Janela indiscreta" - um longo poema dividido em três partes, belíssimo e inquietante, de ressonâncias simbolistas, de que apenas transcrevemos a primeira parte:
"Noites garças de relógios partidos
Folhas espaços de palavras desabrigadas
E assim corre o sangue nas veias escangalhadas.
Paredes, espelhos em momentos
Íntimos, fechados como aortas.
Reflexos dos mundos que faltam desenhar.
Lá fora, cães vadios a chorar a
Solidão dos desorientados.
Um olhar lunar
Uma pedra rubra no chão
Um gato no telhado
- Alvíssaras aos descrentes -
Um fruto colhido pela metade na chuva.
Dois namorados a escrever o tempo
O sussurro da terra aos bêbados solitários
O desespero dos sonhadores em terras de capitães
A dor enterrada de doentes nas casas brancas
As janelas do teu quarto sempre
E só as janelas do teu quarto
Que esperam por mim.
As almofadas que acolhem segredos
Medos partidos, enrufados no licor dos sonhos.
As palavras párias ao desejo embargado, envenenado.
As casas que recebem a força da história
Os dons adormecidos pelo torpor das estações
As silvas enroladas nos meus pensamentos
A tristeza montanha que se quer em vão superar
A velhice amarga, escondida no sono das horas
O tédio que pegou em reticências...
E, ainda as ruas cansadas, purpúreas
Passos volvidos em desânimo
Passos agarrados aos vazios estridentes,
à soberba de destinos ignorados.
As janelas do teu quarto sempre
e só as janelas do teu quarto
Que esperam por mim.
A tua existência alheia ao meu cansaço.
Uma voz amante que chora o fim do amor.
A lava da tua imagem a queimar a noite
é pistola, munição, trompetes verdes
A matar toda e qualquer ideia de Morte.
(...)
Fenomenal ainda o belo poema em prosa da pág. 24 - "Ao fundo dos Homens" - que assim principia: "Ao fundo do teu nome vejo a solidão em reflexo dos teus sonhos escondidos. Há uma qualquer realidade púrpura que ameaça subir ao lugar onde depositas a tua tranquilidade, onde habita, como águia-real, uma paz fictícia que vive para além da tua imagem, desprega-se das tuas palavras; ela parece mobilizar-te, paralisar-te. A missão última do indivíduo tornou-se a sua evolução interna, recriação e renovação de si mesmo para não sucumbir ao outro lado da vida (...)".
Ou ainda a certeira advertência do poema "Vice-versa": "Um louco pisa os teus pés / Não te mexas /Não te voltes /Não o olhes /Poderias cair na sua loucura. / Curiosamente / Acontece aos dois".
Obrigado, Paula. Parabéns e continua!
Em tempo: depois da apresentação deste livro, há meses, no Clube Literário do Porto, aguardamos a sua apresentação também em Torre de Moncorvo. Vale?

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