torredemoncorvoinblog@gmail.com

domingo, 20 de setembro de 2009

Um livro, dois filmes e uma festa

Como foi agendado e anunciado, dia 19 de Setembro foi dia de acontecimentos culturais.
Talvez porque Setembro é tempo de vindima e de colheitas.
Logo pela manhã, cerca das 11horas, teve lugar a apresentação do livro Torre de Moncorvo, Março de 1974 a 2009, de autoria de Fernando Assis Pacheco, Leonel Brito e Rogério Rodrigues, numa edição da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo.

Capa do livro Torre de Moncorvo, Março de 74 a 2009

Este livro, com prefácio de Rogério Rodrigues, inclui as reportagens sob o título “Moncorvo –zona quente em terra fria”, saídas no jornal “República" em Março de 1974 (com assinatura de F. Assis Pacheco e fotos de Leonel Brito), assim como “Terras de Moncorvo – o futuro não tem pressa” (de autoria de Rogério Rodrigues, agora com fotografias de Leonel Brito) e a reportagem mais recente de Rogério Rodrigues, intitulada “Moncorvo: o Presente, ao menos. 25 anos depois”. Este texto foi escrito para a exposição “Moncorvo de Março a Junho - de 1974 a 2009”, inaugurada no Centro de Memória no passado dia 20 de Junho, como aqui se noticiou (ver: http://torredemoncorvoinblog.blogspot.com/2009/06/20-de-junho-sabado-jornada-cultural-no.html)

O Sr. Governador Civil do distrito, Dr. Victor Alves, no uso da palavra

O livro condensa todo o material patente na referida exposição, sendo agora enriquecido com alguns textos, tais como uma evocação de Afonso Praça (jornalista natural do Felgar e colega dos autores), que, por sua vez, havia escrito uma outra reportagem marcante sobre Torre de Moncorvo, em 1972, publicada no “Notícias de Trás-os-Montes” (nº 20, 9.09.1972), com o título “Moncorvo: a vila que parou”. Inclui-se também o texto do discurso de Rogério Rodrigues no dia da inauguração da exposição atrás referida, poemas e textos de Assis Pacheco dedicados a Afonso Praça e ao Rogério, o poema “Biografia” de Tiago Rodrigues, mais duas notas biográficas dos co-autores Rogério Rodrigues e Leonel Brito, insignes colaboradores deste blogue.

Os autores durante a sessão de autógrafos
Depois das palavras de circunstância, na abertura da sessão, pelo Sr. Presidente da Câmara de Torre de Moncorvo, Engº Aires Ferreira, e pelo Sr. Governador Civil do distrito de Bragança, o historiador Victor Alves, coube a apresentação da obra ao Dr. José Albergaria, amigo e colega de Rogério Rodrigues em vários jornais (conheceram-se no exílio, em Paris, em 1968), que enalteceu as qualidades dos autores e a importância desta obra como uma importante síntese da história contemporânea de Torre de Moncorvo. O apresentador não quis deixar de se referir ainda ao conhecimento que tem haurido sobre a nossa terra através deste blogue, de que é visitante assíduo.

Momento da projecção de Gente do Norte, no Cine-teatro de Torre de Moncorvo
Da parte da tarde, já no Cine-teatro, seguiu-se a apresentação dos filmes “Gente do Norte” (de 1977), o documentário há muito por nós esperado, bem como “Encomendação das Almas” (1979), ambos realizados por Leonel Brito, com textos de Rogério Rodrigues.
Num cine-teatro quase repleto, com presença de muitas das pessoas que figuraram nos filmes e seus descendentes, este foi um momento pleno de emoção pela imagem que nos deu da vila e de um concelho de Torre de Moncorvo bastante diferentes, de há mais de 30 anos.
“Gente do Norte” abre com uma imagem impressiva da Vilariça, com um plano do vale dominado pelas ruínas da Vila Velha, fazendo-se, a partir daí, a transição para a actual vila, numa viagem ao Presente de 1977, hoje já História. A par de uma forte crítica social relativamente aos senhores da terra, o documentário mostra o pulsar da vida quotidiana, desde as actividades rurais aos primórdios da escolaridade obrigatória, os ritmos da vila com as célebres passeatas na praça, a religiosidade, com suas procissões e ritos de passagem (casamentos e baptizados), a arquitectura tradicional em transformação pela construção emigrante, o problema dos “retornados”, as festas tradicionais já com ritmos de "merengue", as feiras já com megafones, ainda bastantes animais de carga e gados além de (poucos) carros, carrinhas e tractores, as minas de ferro paralizadas em maré de expectativas, etc., etc.. Todo o filme é um caleidoscópio onde perpassam imagens de um mundo em mutação que desembocou no que conhecemos hoje. Salientamos ainda, da banda sonora, a canção "Moncorvo, terra e gente", de José Mário Branco.
Como escreveu o Rogério no folheto de apresentação: “Ao escrever estas palavras passam-se já 32 anos que não vejo o filme. Mas sinto-o na pele. O Leonel e eu quisemos identificar e memorizar uma ruptura social e económica como a que então se deu em Moncorvo. Muitas das imagens que vão ver fazem parte do passado, mas a sua sombra já espreita o presente. Ou seja, não era mais possível o passado. Mesmo com mitos desfeitos, esperanças abandonadas, a Moncorvo só lhe restava o futuro. Gente do Norte é a carta que terá chegado ao destinatário”.

Momento de convívio no jardim da Biblioteca, com a nossa colaboradora Júlia Biló em conversa com o Sr. Carlos Evangelista (o "Pobre Rico") e seu filho Sr. João Carlos.

Quanto à “Encomendação das Almas”, documentário também recentemente resgatado aos arquivos da RTP, a sua projecção em écran de cinema deu-lhe uma outra amplitude relativamente à apresentação feita na Quaresma, no pequeno auditório do Museu do Ferro (ver: http://parm-moncorvo.blogspot.com/2009/04/apresentacao-do-filme-encomendacao-das.html). Trata-se de outro documento extraordinário, de grande interesse antropológico e etnográfico, pelo que o realizador o quis dedicar à memória do Padre Joaquim Manuel Rebelo, investigador que foi o consultor científico, além de participante, deste filme.
Momento de actuação da Tuna Popular da Lousa
A jornada cultural terminou com um concerto ao ar livre e uma merenda nos jardins da Biblioteca Municipal e Centro de Memória, onde se distribuíram várias cópias dos filmes apresentados, com forte presença dos idosos dos Lares do concelho.
Fotos: N.Campos

sábado, 19 de setembro de 2009

O coração da vila- II

Este “post” vem no seguimento de dois comentários feitos ao “post” anterior, sobre a praça Francisco António Meireles, pelo que aqui tentaremos fazer um breve historial e algumas reflexões sobre este espaço da vila.

Fotografia da Praça Central de Torre de Moncorvo nos anos 80 do séc. XIX (foto de aut. desconhecido, impressa em postal comemorativo edit. pela Assoc. Cultural de T. de Moncorvo, nos anos 80 do séc. XX)

Como é de esperar em áreas habitadas, os espaços evoluem, transformam-se (mais, ou menos) e conhecem dinâmicas diferentes consoante os tempos. Assim, podemos considerar que a antiga praça central de Moncorvo (que foi depois Praça da República e finalmente Praça F. Meireles) teve três grandes momentos, quer em termos urbanísticos, quer de função. O primeiro, da Idade Média até ao final do séc. XIX, foi basicamente um terreiro diante do castelo, onde temporariamente se fazia a feira e em que, em dado momento, se colocou um chafariz (séc. XVII) e uma espécie de larga passadeira de granito (em momento indeterminado). Inclusive era espaço de tourada, em momentos festivos, à maneira do que ainda acontece em algumas povoações espanholas. No final do séc. XIX, de acordo com a política dos melhoramentos, foi removido o chafariz, por se encontrar algo excêntrico em relação ao conjunto do largo, e apostou-se num empedrado de contorno oval, com desenho geométrico, raiado e com uns anéis concêntricos, construído com seixos (quartzo) e pedra ferrenha (hematite). Foi autor deste projecto o Engº José Ferro de Madureira Beça, nos anos 80 do séc. XIX. Era clara a intenção de se definir uma área de circulação, tipo placa giratória, distribuindo o trânsito (ao tempo de diligências, carroças, carros de bois, e animais de transporte) preservando o centro para o passeio recreativo da burguesia "fin de siècle", na continuidade de uma tradição decerto há muito arreigada.
Praça Francisco Meireles nos anos 30, em pleno Estado Novo (arquivo particular, cedida ao PARM)
Manteve-se ainda e por muito tempo, a utilização da função-feira, além de se reforçar a sua componente comercial, com a implantação de importantes casas comerciais em redor. Com o aparecimento do trânsito automóvel foi ligeiramente reduzida a placa central, a fim de se dar mais espaço à área de circulação dos novos transportes. Isto deve ter ocorrido já nos anos 30 do séc. XX, não alterando sobremaneira o fácies da praça e suas funções.
Com a sobrecarga do trânsito automóvel ao longo do séc. XX e sobretudo a partir da 2ª metade dos anos 70, num tempo em que ainda não havia o troço do IP-2 de Pocinho à ponte do Sabor, nem as variantes urbanas, todo o trânsito era "despejado" na praça, a partir de ruelas estreitas como a Rua das Flores (de que ainda me lembro ser de dois sentidos!), para aqui convergindo os autocarros, ao início e ao fim do dia, quando vinham trazer e buscar os estudantes para as aldeias e até vilas das redondezas. Quem tivesse estudado em Moncorvo pelos finais dos anos 70 e inícios de 80 (antes da estação de camionagem na variante), lembrar-se-á bem do ritual de ir ver partir as carreiras, ao fim do dia, sobretudo para verem ou despedirem-se das moças das aldeias.
Praça em dia de feira, nos anos 60? (foto enviada por Drª. Júlia Biló)
O que aconteceu entretanto? - 3º. momento: construção das variantes urbanas, sobretudo a avenida João Paulo II, onde está a estação de camionagem, e a variante do Prado; o troço do IP-2, que fez desviar de Moncorvo o trânsito que vinha do Sul do Douro (Lisboa, Coimbra, Foz-Côa) com destino a Bragança e que outrora era obrigado a subir, pela estrada do Pocinho, e passar por Moncorvo com destino a Bragança, passando obrigatoriamente pela praça; mais recentemente, desenvolveu-se a zona do largo da Corredoura e, já nos finais dos anos 90, arranjou-se o largo General Claudino, embora este tardasse a conhecer alguma animação, que só agora se verifica, sobretudo no Verão, em período de festas. Este facto talvez tenha tirado algum protagonismo à praça Francisco Meireles, mas a verdade é que esta nunca foi propriamente um lugar de estar, afora uma esplanada de um café que lá continua, na zona dos táxis. A praça F. Meireles foi sempre, ao longo da sua história, um ponto de convergência de pessoas que vinham tratar de assuntos à vila, ou simplesmente comprar/vender mercadorias, sobretudo em dias de feira. Era inevitável que daqui se retirasse a feira, embora concorde com a ideia de se poder organizar aqui, em certas ocasiões (ou em dias de feira de ano), algum tipo de certame, talvez de produtos regionais (embora para este efeito me pareça mais acolhedora a praça da igreja - a General Claudino). Era também inevitável que se retirasse daqui o trânsito pesado. Não me parece mal que se tivessem criado outras centralidades, como a Corredoura e a praça da igreja, ou a zona do Jardim Horácio de Sousa. Neste quadro, e até para compensar a relativa "desertificação" da praça F. Meireles, creio que a recolocação de um elemento monumental (que já lá havia estado) como é o caso do chafariz filipino (utilizando peças originais e outras reconstituídas), foi uma boa ideia. Para quem se aproxime da praça F.Meireles por qualquer das vias que lhe dão acesso (note-se que é uma praça quási rádioconcêntrica) aquele elemento arquitectónico faz-se notar, atraindo a atenção e o olhar e, como tal, reforçando no subconsciente de quem nos visita, a ideia de uma vila com bastante património.
Praça Francisco Meireles, nos inícios dos anos 80 (foto de N.Campos)
Conciliar este elemento com a oval do séc. XIX também me parece bem, pois a praça ainda não perdeu de todo (nem deve perder) essa função de redistribuir algum trânsito automóvel (já aliviado da pressão de outrora), para as necessidades do dia-a-dia. Pior seria querer transformar-se esta praça numa vasta zona de peões e de esplanadas (a ideia chegou a constar de um certo plano de salvaguarda do Centro Histórico), que naturalmente redundaria em catástrofe, até pela razão que E.L. apontou: aparecimento de outras centralidades e "falta de gente". Quanto a este aspecto, alguns responderão que é uma falsa questão, pois a vila nunca teve tanta população na sua história como agora! (à custa do despovoamento das aldeias, mas isto é outra estória). No entanto há que ter em conta que houve uma certa alteração ao nível dos costumes. Quem e quantos ainda cumprem aquele ritual de passear na praça (de palito no canto da boca e trocas automáticas de lugares no extremo de cada giro, sem nunca se virar as contas aos parceiros - a tal "arte de bem passear na praça")? Pois...
Torre de Moncorvo sempre foi uma vila de serviços, com muitos funcionários públicos, magistrados e bastante comércio. Hoje, com as políticas de redução do funcionalismo, mas sobretudo, com a alteração dos hábitos sociais (como esse do passeio depois de almoço, a "fazer horas" para entrar ao serviço, ou depois de jantar), é natural que o centro da praça se tenha despovoado, sem que disso o chafariz tenha culpa. A decadência desse hábito já vinha de trás, talvez com a entrada nos anos 90, e, mesmo que se quisesse manter, ainda sobrava espaço dos lados do dito chafariz. Os bancos da mesma praça, em certas horas, ainda se conservam povoados de reformados e se não o estão mais, tal se deve aos novos bancos que se colocaram do lado do tribunal onde as árvores são mais frondosas, no verão, e para onde os idosos se foram transferindo preferencialmente. E aqui se conserva outra das funções tradicionais da praça, a má-língua, naturalmente.
Exposição sobre Ambiente, patente no meio da praça, em Junho de 2008
Outra função essencial desta praça, de desde sempre, continua a ser mantida: a de atravessadouro e cruzamento dos caminhos do dia-a-dia, seja para se ir tratar de assuntos à Câmara, ou ao Tribunal, ou meter o correio (pois, com o correio electrónico já se sobem menos as escadas do castelo), ou para se ir a alguns comércios - este, infelizmente, é outro dos factores do esmorecimento da praça, pois as grandes casas comerciais de outrora foram decaindo.
Concordo que se devem pensar iniciativas de animação da praça (para além dos conjuntos musicais nas festas do verão ou da Flor da Amendoeira). É uma questão de imaginação e boa vontade. E para não me alongar mais, termino com um repto: que ideias para animar a praça Francisco Meireles? Por motivos óbvios, penso que é uma boa altura para que os cidadãos apresentem ideias e sejam construtivos e participativos.
Nota final: só para terminar e a propósito, era na Àgora (praça) que os Atenienses do séc. V a.C. (inventores da Democracia) discutiam as suas ideias sobre o que era melhor para a Cidade. "Cidade" que, em grego, se dizia "Polis". Daqui surgiu a palavra "política", para designar a arte de bem governar a Polis (Cidade), ouvindo-se a opinião de todos os cidadãos. Que este espaço (blogue) seja também uma extensão da Àgora moncorvense, a praça Francisco Meireles, são os nossos votos.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O coração da vila

Praça Francisco Meireles, Outono de 2006 (foto N.Campos)

Se a igreja matriz é o ex-libris por excelência, o coração da vila é a praça Francisco Meireles, ou, simplesmente, a Praça.
Nesta vista, captada do miradouro do Castelo, vê-se ao centro o chafariz filipino (datado de 1636) depois da sua reconstituição e reposição na referida praça em 1999, mais de um século depois de ter sido daí removido (foi em 29.07.1890, conforme anotou o autor da "Caderneta de Lembranças").
Pegando no título de "post" anterior e ainda no seguimento do "Cultural Dream" esta foi, seguramente, a cereja no cimo do bolo da intervenção realizada no Centro Histórico da vila, nos finais dos anos 90.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

"Cultural Dream" (1997)

Na esteira do "post" anterior (texto de Rogério Rodrigues, com fotos de Leonel Brito), ocorreu-me ir às gavetas do fundo e acabei por desenterrar um velho poema de Henrique de Campos, de 1997. Trata-se de um escrito datado, produzido num momento em que se contestava a criação de algumas zonas de peões no centro histórico cá da vila, bem como o fim do estacionamento automóvel na antiga “praça das regateiras”. Mas acabou por ser, ao mesmo tempo, um verdadeiro manifesto cultural. Ainda se discutia então a reposição do chafariz filipino na Praça Francisco Meireles (que viria a ocorrer em 1999); o Arquivo Municipal estava em perspectiva mas ainda não havia sido inaugurado; as esplanadas na praça General Claudino eram uma mera sugestão, pois não havia cafés nesse largo; a Orquestra do Norte talvez já se tivesse estreado na igreja matriz, mas o órgão barroco permanecia mudo (tal como ainda hoje, embora se perspective para breve a sua compostura). Ao cabo de 12 anos, a “crítica corrosiva” a estas coisas das “pedrinhas” também se parece ter esbatido, apesar de alguns beliscões da rapaziada à nossa igreja, creio que mais resultantes de efeitos etílicos do que de actos conscientes ou relacionados de uma clara atitude anti-património.
Por isto, pode-se considerar que este poema de H.C. se encontra em grande medida ultrapassado (e ainda bem!), sendo uma espécie de “check-list” que se foi completando. O que não se conseguiu sem algum esforço, sobretudo no plano da transformação das mentalidades. Se houve mérito das instituições nesta consecução, também não se pode esquecer a atitude pedagógica e de consciencialização junto das pessoas menos receptivas a estas coisas, desenvolvida por alguns (poucos) carolas que, através da sua opinião, contribuíram para que se concretizassem coisas que em 1997 eram ainda utopia. A cidadania também é isto.

Grupo de pintores compondo uma tela, na praça General Claudino, num dia de feriado municipal (2008)
Aqui fica então o velho poema:

CULTURAL DREAM
Tal como Luther King
também eu tive um sonho.
E sonhei que a minha terra
era uma espécie de Atenas cultural
povoada por cidadãos letrados e instruídos,
amigos das artes e do património;

sonhei que na minha terra
me havia cruzado com F. Pessoa
e bebido copos com o A. Aleixo;

sonhei que na minha terra,
à sombra de uma grande e secular igreja
havia feiras de artesanato e de iguarias
fazendo jus a uma antiga tradição medieval
exarada num velho pergaminho
guardado religiosamente no Arquivo Municipal;

sonhei também aí esplanadas à italiana
com pintores e cavaletes
e julguei estar em Florença;
fotógrafos com máquinas “de caixote”,
e julguei-me no Quais d’Orsai;
com o sol e granito num largo quadrado
com muitas vozes e sem automóveis
quis-me na plaza mayor de uma qualquer cidade
da meseta espanhola!

Sonhei que a minha terra
havia sido promovida a Cidade Cultural,
com direito a grandes cartazes pelo mundo fora,
por causa dos seus encantos e das suas gentes
e que cada cidadão, embevecido,
contava a cada forasteiro a sua História gloriosa,
e lhe falava do antigo castelo destruído
que aos seus olhos existia ainda
e da imponente catedral onde se ouvia,
diariamente, uma música barroca de fundo,
e nos dias festivos, concertos de órgão majestosos,
e o Rei dos Floristas, trajado a rigor,
oferecia rosas-púrpura à esquina de uma rua
que, por acaso, também se chamava das Flores.

Sonhei que jorrava um chafariz recuperado, na praça,
e os meus concidadãos, cultos e orgulhosos
de pertencerem à mais bela terra do mundo,
não eram críticos corrosivos deste cenário,
mas sim os seus principais defensores;
não eram pseudo-filósofos de café,
maldizentes e provocadores,
recalcitrando frustrações,
para serem notados e chamar atenções,
- eram, antes, interessados e construtivos.

Sonhei que, depois deste arrazoado,
não houvesse quem dissesse: “mais um poeta!”,
em termos irónicos e depreciativos.

Sonhei ainda que a escola da minha terra
ganhava prémios mundiais
a promover as coisas culturais
e a ajudar a crescer uma multidão de meninos
que nunca viriam a ser velhos… do Restelo!

Sim, eu tive um sonho hoje,
olhando o mundo em frente
do alto de uma montanha de ferro.
e esse Sonho era a certeza
de que o futuro é nosso.
e que a Utopia,
mesmo irrealizada,
mesmo amputada, castrada…
essa, nunca morrerá!

Henrique de Campos, 24.VI.1997
(public. in Mensageiro de Bragança, 25.06.1999)

MONCORVO,Março de 74 a 2009

A cereja no bolo

A cultura, na generalidade das autarquias, não sendo uma prioridade, fica sempre bem, como cereja no topo de um bolo recheado.

E Moncorvo não foge à regra, com equipamentos culturais de boa qualidade.

Em 1997, o então Presidente da República, Jorge Sampaio, acompanhado pelo dirigente socialista Lopes Cardoso, já falecido e com origens em Moncorvo, inaugurou a Biblioteca Municipal, com pompa e circunstância, sedeada em solar de brasão picado.

Hoje, cataloga cerca de 20 mil livros e conserva os acervos documentais, parcelares na maior parte dos casos, entre outros, de Santos Júnior e Armando Martins Janeira. Também algum espólio, não tanto como seria desejável, do padre Joaquim Rebelo e doações do jornalista Afonso Praça, natural do Felgar, nomeadamente a colecção do semanário “O Jornal”, e ainda a colecção do quinzenário regional “A Voz do Nordeste” entregue pelo seu primeiro director, César Urbino Rodrigues.

Mas a Biblioteca não se esgota nos livros e na preciosa documentação de séculos de vida do município. Tem também uma ludoteca informática e computadores para trabalhos escolares, além de acesso gratuito à Internet.

Uma vez por semana, agentes da Biblioteca organizam leituras para idosos e, mediante o Plano Nacional de Leitura, tem saídas diárias para todas as escolas durante os três períodos lectivos.

Em Março de 2008, também em edifício recuperado, contíguo à Biblioteca, foi inaugurado o Centro de Memória, onde repousam, justamente, muitos dos fundos, doados ou adquiridos, que fazem parte da riqueza patrimonial e intelectual do município.

Ainda na composição do bolo e na sua decoração foi lembrada ao repórter a recuperação do Cine-Teatro, com uma programação heterogénea para públicos vários, a reconversão de um antigo Celeiro num espaço para manifestações teatrais, um Museu do Ferro, com um trabalho notável de recolha e divulgação de um município, cuja identidade assentou, durante muito tempo, na cultura do ferro. Por fim, foi criada uma companhia de teatro residente, amadora, a “Alma do Ferro”, um projecto de que já se vinha falando desde 2001.








Nota: texto de Rogério Rodrigues
fotos de Lelo Brito
do livro MONCORVO, Março de 74 a 2009

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Forro


Forro de passas
licor do suor
congelado no tempo
sensações atadas
à mãe natureza
a vida aqui está
servida à mesa
Nota à margem do poema : Quantos forros de madeira já não conhecem este costume?

domingo, 13 de setembro de 2009

Convite - 19 de Setembro


Livro: "Torre de Moncorvo 1974-2009" (no seguimento da exposição inaugurada em Junho, no Centro de Memória)
Filmes: "Gente do Norte" (1977); "Encomendação das Almas" (1979).


Excerto do filme "Gente do Norte" in http://www.youtube.com/watch?v=3vm4qMtCZf0

sábado, 12 de setembro de 2009

Poemas e outros

As Quintas são o meu Deserto.
Deserto onde me encontro,
Quando me sento na soleira
Da rústica casa centenária de xisto
Da avó paterna,
Com telha-vã,
Lajes a ladrilhar o chão
E uma frescura imanente,
Que se imiscui no corpo
E na alma se enrodilha.
Deserto que se expande
No colorido das sécias
dos hortos do Tourão,
desde tempos imemoráveis
a crescerem como papoulas
por entre cebolo e manjericos.

Sou neste Deserto o peregrino do Ser…



Isabel Mateus
Deixo-vos algumas fotos saudosas da partida, para que qualquer outro Peregrino se perca nelas. É um convite!
Casa típica quinteira de xisto, com quase todas as características originais intactas.

A prima Irminda, a actual proprietária e zeladora desta ancestralidade viva, e a sua amiga Giulia, durante as férias do Verão.

Por último, o núcleo do pequeno “Reino Maravilhoso” onde qualquer turista se converte em peregrino, quer à luz do dia, quer sob o estrelado cintilante.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Gente do Norte



Gente do Norte, que percorreu mundo, foi realizado numa situação particular do País, em 1977. Em consequência do 25 de Abril tinha havido um decréscimo de emigração e um delicado processo de descolonização. A par do abrandamento da emigração, deu-se o regresso ou o retorno de portugueses das ex-colónias, sobretudo de Angola e Moçambique. Esta nova realidade vinha alterar profundamente o tecido social português, em geral, e a sociedade de Moncorvo, em particular. Os chamados “ retornados” traziam novas ideias e horizontes mais vastos. Porventura revoltados ou ressentidos, foram-se integrando e moldando o muicrocosmos moncorvense.
O Gente do Norte é um documento dessa mutação, mas é um pouco mais: um olhar sobre Moncorvo que, quer o realizador, Leonel Brito, quer o autor do texto, Rogério Rodrigues, iam perdendo e que, com o filme, começavam a recuperar.
Nota: O filme Gente do Norte passa no Cine-teatro de Torre de Moncorvo no próximo dia 19 de Setembro, às 14,30 horas, com a presença do realizador Leonel Brito e de Rogério Rodrigues, autor do guião.

Protocolo para recuperação da Linha do Douro, do Pocinho a Barca d'Alva

Foi hoje (dia 10 de Setembro) formalmente assinado um protocolo entre várias entidades públicas, a saber, MOPTC (Ministério das Obras Públicas Transportes e Comunicações), REFER, CP, IPTM, CCDR-Norte e Estrutura de Missão do Douro, para Reabilitação do troço Ferroviário da Linha do Douro entre o Pocinho e Barca d'Alva, contando com a presença de altos representantes destas entidades, nomeadamente a Srª. Secretária de Estado dos Transportes, Engª. Ana Paula Vitorino. A cerimónia começou pelas 11;00h na presença de autarcas (tanto de Portugal como de Espanha), representantes de várias instituições, empresários (sobretudo do sector turístico) e numeroso público.
" - Hoje está um lindo dia. Hoje é um lindo dia... para o Douro" - assim começou a sua intervenção o Chefe da Estrutura de Missão do Douro, Engº. Ricardo de Magalhães, um dos paladinos por esta causa da reabertura da linha do Douro com fins turísticos, entre o Pocinho e a Barca. Palavras que foram retomadas pela Secretária de Estado dos Transportes, que manifestou a sua confiança no investimento e também nas entidades espanholas, para voltar a levar o combóio até Salamanca. Nesta fase, para se recuperar o troço em causa (Pocinho-Barca), serão investidos 25 milhões de Euros. Foi destacada a importância deste investimento para toda a região, em articulação com outras valências que se estão a afirmar, nomeadamente o turismo fluvial.

É preciso recordar que a linha do Douro foi uma obra arrojada da engenharia do século XIX, pela quantidade de túneis e "obras de arte" (pontes e viadutos) que foi necessário construir. Na sua extensão total, entre o Porto e a Barca d'Alva, eram 200 km, marginando na quase totalidade do seu percurso um rio Douro ainda bravio, que só alguns afoitos barcos rabelos iam vencendo, a muito custo e à custa de muitos naufrágios. O combóio só chegaria à Barca em 1887, depois de 11 anos de intensos trabalhos, do Pocinho para montante - a parte mais bravia do Douro, de calor intenso no verão e grandes geadas no Inverno. Nos anos 80 do século XX, depois do encerramento do troço espanhol de Salamanca a La Frejeneda, acabaria por fechar também, do lado de cá, o troço de Pocinho a Barca d'Alva.

Esta obra foi sobretudo impulsionada pela Associação Comercial do Porto e o consórcio denominado “Sindicato Portuense”, tendo-se também empenhado nisso as entidades de Salamanca, a quem interessava garantir o escoamento das suas mercadorias para um porto de mar. Um dos paladinos da ligação entre a Barca d’Alva e Salamanca foi Ricardo Pinto da Costa (1828-1889), banqueiro e homem de negócios portuense, que presidiu à referida Associação Comercial do Porto aquando da constituição da Compania del Ferrocarril de Salamanca à la Frontera Portuguesa. Viria a receber o título de Conde de Lumbrales, outorgado pelo rei espanhol Alfonso XII (na vila espanhola de Lumbrales localiza-se uma casa apalaçada do séc. XIX, conhecida por casa do Conde deste título).

A história da construção da linha do Douro e, em particular do troço que agora se pretende valorizar, esteve patente num conjunto de painéis, expostos nesta data na estação do Pocinho (ver foto acima), tendo sido igualmente enfatizada ao longo dos discursos.

Foi ainda recordado pelo Presidente da Câmara de Vila Nova de Foz Côa que os pilares para o desenvolvimento do Douro, enunciados pelo Primeiro Ministro em 2006, foram, para além da Paisagem, do Vinho, do Turismo, também a Cultura. Esta valorização, a par de uma série de investimentos que o município fozcoense está a realizar no Pocinho (e que longamente enumerou), são também Cultura - disse.
Assim sendo, dizemos nós, não se compreende como é que nesta mesma estação do Pocinho se encontre a apodrecer, às vistas de todos, uma velha locomotiva a vapor da primeira metade do séc. XX, além de outras que se encontram nos armazéns da “Manutenção”. Até estes dias, a referida máquina estava rodeada de uma cortina de vegetação, cortada à pressa nas vésperas do acto solene de hoje. Além disso, tivemos notícia de que recentemente foi levada para a Alemanha mais uma locomotiva que se encontrava arrecadada na dita manutenção!

Mais uma: segundo noticiou o Jornal de Notícias, em coluna esconsa, no dia 21.08.2009, foi outra locomotiva a vapor levada para as Ilhas Baleares (ver o recorte acima), seguramente para servir objectivos de turismo. Tratava-se de uma máquina alemã que sempre trabalhou em Portugal, pelo que a sua historicidade nas referida ilhas é nula! – Ou seja, se fazia sentido ela estar em algum lugar, era aqui, na linha do Douro. Infelizmente não se ouviu um protesto de ninguém! – Pelo que fica a pergunta: depois de recuperada a linha, entre a Régua e a Barca, para fins turísticos, como se pretente, será que se vai voltar a comprar aos estrangeiros o que se lhes vendeu entretanto? E a que preço? E será que quem comprou e recuperou este património para os fins que se sabe, estará algum dia interessado em desfazer-se do que cá veio buscar, certamente a preço da uva-mijona? Responda quem souber.
No entanto, não podemos deixar de nos congratular com a assinatura deste protocolo, pois é um bom princípio para voltarmos a acreditar que o combóio votlará a apitar pelas encostas do Douro até Barca d'Alva. E escusado será dizer da importância e do benefício que este projecto também trará para o nosso concelho, Torre de Moncorvo, a meia dúzia de quilómetros do Pocinho!
Texto e Fotos: N.Campos

DOURO FILM HARVEST - uma antestreia no Cine-teatro de Torre de Moncorvo

Um feérico jogo de luzes envolveu o nosso Cine-Teatro num efeito espectacular

Pode ler-se na Agenda Cultural de Torre de Moncorvo (pág. 22): "O Douro Film Harvest é um encontro internacional de cinema que tem lugar na região do Douro Vinhateiro. Organizado pelo Turismo do Douro, com o apoio do Instituto dos Vinhos do Douro e Porto e a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte/Estrutura de Missão do Douro, tem como um dos principais objectivos dirigir os holofotes do cinema para os cenários desta região vinícola, classificada como Património MUndial pela UNESCO". Assim, foram selccionados vários filmes românticos, de alguma maneira associados ao tema dos vinhos (Wine Films) a ser exibidos durante 5 dias por terras do Douro.
O público acorreu em massa para assistir à anteestreia de Julie & Julia

Quiseram os organizadores começar este ciclo de cinema pelo velhinho Cine-teatro de Torre de Moncorvo (cuja construção se iniciou na década de 40 do séc. XX), hoje com excelentes condições depois das grandes obras de remodelação realizadas entre 2002 e 2005. Pela primeira vez na sua história, o nosso Cine-teatro conheceu uma antestreia nacional! - Foi o caso do filme Julie & Julia, da realizadora Nora Ephron, com Meryl Streep (Julia Child) e Amy Adams (Julie Powell) nos principais papéis.

O Presidente do Turismo Douro, António Martinho, e Ricardo Trêpa, no momento da apresentação

Este Encontro de Cinema tem um carácter descentralizado, decorrendo entre Vila Real (Teatro Municipal), Lamego (Teatro Ribeiro da Conceição), Torre de Moncorvo (Cine-teatro) e Santa Marta de Penaguião (Auditório Municipal). Nesta primeira edição será homenageado o realizador o checo Milos Forman (vencedor do Óscar de melhor realizador com o célebre filme Voando Sobre um Ninho de Cucos), que receberá o galardão CastaDouro Carreira, a 13 de Setembro, no Teatro Ribeiro da Conceição, em Lamego, às 17h30.
Cartaz do evento Douro Film Harvest (Colheita de Filmes para o Douro)

Também a actriz Andie MacDowell marca presença para receber o prémio CastaDouro Convidada Especial, em cerimónia marcada para o dia 10 de Setembro, às 22h00, no Teatro Municipal de Vila Real, seguida da projecção do filme The Last Sign. Os actores nacionais Ana Padrão e Ricardo Trêpa são os anfitriões da primeira edição do Douro Film Harvest, cabendo a este último o papel de Apresentador do evento no Cine-teatro de Torre de Moncorvo. Acrescente-se, a título de curiosidade e como o mesmo fez questão de referir, que Ricardo Trêpa é neto do grande realizador português Manoel de Oliveira, um dos homens que mais tem divulgado o Douro através da sua Obra.

Resumo do filme, retirado do programa

Quanto ao filme estreado em Portugal no Cine-teatro moncorvense, baseia-se em duas histórias verídicas, passadas em tempos diferentes. Julie Powell é uma jovem mulher que, por volta de 2002, trabalha num centro de apoio psicológico por telefone a pessoas traumatizadas pela tragédia das Torres Gémeas de Manhattan/Nova Iorque. Como forma de se libertar do stress do dia-a-dia resolve criar um blogue dedicado à gastronomia, baseado num livro e numa série televisiva que a apaixonara, de autoria de uma consagrada "chef de cuisine", Julia Child. Esta, por sua vez, era uma grande apreciadora da cozinha francesa que aprendeu aquando de uma estadia em França, nos anos 40, onde seu marido era dilomata de carreira. Bem, o resto só vendo o filme, que é bastante divertido (tipo comédia).
Recomenda-se aos apaixonados da boa mesa e... ah, também da blogosfera! -depois perceberão porquê.

Nota: o filme foi apresentado nos E.U.A. no passado dia 7 de Agosto. No Brasil só a 16 de Outubro.

Fotos de N.Campos

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Mote e Glosa

Mote e glosa


Esta amêndoa, vida dura de casca
e um miolo - coração terno
mas tantas vezes partido


no teu rosto vejo e sinto
tanta mágoa tanto pranto
que no teu gesto desminto
por me parecer peso tanto
o feliz e breve encanto
do momento e da ternura
da mão que nesta amêndoa
descobre a vida dura de casca

dos teus sonhos já desfeitos
na tua vida revolta
revejo um imperfeito mundo
cruas dores mortes e mágoas
rios de antigas águas
terras mares tempos sem nome
mas no teu peito duro e simples
um miolo coração terno

olhando o teu rosto penso e sei
mais que silêncios mais que a bruma
que da serra desce e avoluma
mistérios segredos uivos cantos
ritos antigos de esquecidas forjas
danças de roda misteriosos prantos
que renasce uma vez mais o teu querer
e amigo irmão refazemos aqui o nosso sonho
tantas vezes partido


7 de Setembro de 2009

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Tipografia Globo

Recentemente, alguns elementos do PARM, em colaboração com a Local Visão, efectuaram um registo sobre a histórica Tipografia Globo, situada na R. Visconde de Vila Maior, em Torre de Moncorvo. Já no ano passado (02/2008), tinha sido efectuada uma primeira abordagem, em colaboração com o Jornal "Mensageiro Notícias" (ver post no Blog do PARM).

Aqui fica um pequeno excerto do presente registo/reportagem, com uma das máquinas de impressão em funcionamento.

(video de N. Campos/PARM)

domingo, 6 de setembro de 2009

Epígrafe de Setembro

Nos últimos olmos,
os que a tristeza não secou,
ainda chilreiam pássaros
ao entardecer.

sábado, 5 de setembro de 2009

Moncorvo em 1972

Folhear jornais antigos é um bom exercício para compreender como o País mudou nestes últimos 30 anos. Maior justiça social, outros cuidados de saúde e sobretudo liberdade. Para alguma memória, muita amnésia.
Vejamos pois, tendo como fonte, exclusiva neste caso, o “Notícias de Trás-os-Montes”, como a nossa região mudou, ainda que muitos dos temas e necessidades se mantenham.

Grupo Desportivo de Moncorvo -- O “Notícias de Trás-os-Montes” publica a um de Julho de 1972, em grande destaque, a subida do Grupo Desportivo de Moncorvo à III Divisão. Ganhara o último jogo da distrital contra o Macedo de Cavaleiros. A subida do GDM foi abrilhantada no jardim de Moncorvo com um grupo musical que fazia a sua estreia, “Teorema”. Tempos depois tomaram posse os novos corpos gerentes. Vale a pena referi-los: Almiro Sota, presidente; Fausto Catalão, vice-presidente; secretário, Eduardo Leite; segundo secretário, José Cavalheiro Paiva; vogais, António Teixeira, Manuel Tristão e Arnaldo Gonçalves.
Vale a pena lembrar a equipa inicial: Eurico; Sílvio (actual treinador do GDM), Amadeu, Custódio e Morais; Favorino e Paçô; Miranda, Vaz, José Manuel e Mateus.
Mas a equipa não funcionava bem. À quarta jornada levou 8-0 do Lourosa e ainda não tinha ganho um jogo, nem sequer marcado um golo. À sexta jornada o GDM conseguiu marcar um golo, ainda que tenha perdido com o Leça por 4-1.O golo do Moncorvo foi marcado pelo Zé Manuel. O Lourosa liderava a classificação.
Na jornada seguinte o GDM perdeu com o Limianos por 4-2. Os golos foram marcados pelo Miranda e pelo Santos. Sílvio já não jogava no GDM.
Na 11ª jornada o GDM continuava com um ponto apenas. Já não havia nada a fazer.

Saúde-- No segundo semestre de 72 entrou em funcionamento, na dependência do Hospital da Santa Casa da Misericórdia de Moncorvo, o Centro de Saúde do concelho, constituído por dois médicos e respectivo pessoal de enfermagem, pelo que deixou de funcionar a subdelegação de Saúde que estava instalada no edifício do Tribunal. Registe-se que, na altura, a população era superior e os médicos eram apenas dois. Vale a pena lembrar que então o acesso à saúde tinha muito pouco a ver com as exigências de hoje.

Combóios-- As linhas do Corgo, Tua e Sabor acabaram por fechar. Mas o problema não é novo. Há 30 anos, pelo menos, que os poderes se manifestavam contra o encerramento das linhas. Titula o “Notícias de Trás-os-Montes” (29.7.72): “Trás-os-Montes opõe-se à supressão dos combóios”. Já um colunista deste semanário, informa, meses depois, que para vencer os primeiros 12 quilómetros do Pocinho a Moncorvo, são necessários 49 minutos, sendo 40 para o percurso e 9 para o serviço e toma de água, o que dá 15 quilómetros à hora como velocidade.
Nos 22 quilómetros de percurso -- do Carvalhal ao Pocinho -- havia 124 curvas. É obra. Mas as linhas acabaram. Quem as frequentou, sente nostalgia.

Emigração-- Se não fosse a emigração, a população portuguesa teria sido em 1981 de 9660.000 habitantes, segundo o INE. Diga-se que só em 1971 (já com a emigração em baixa) são registados mais de 151 mil emigrantes, dos quais 100.797 clandestinos.

Emprego -- Na sua edição de 21.10.72, alicerçado em fontes oficiais, o “Notícias de Trás-os-Montes” informa que o Serviço Nacional de Emprego, através do seu Centro de Castelo Branco, oferecia trabalho para homens (mais de 14 anos) a sete escudos à hora e para mulheres (mais de 14 anos) a quatro escudos, podendo fazer, homens e mulheres, mais de 10 a 12 horas diárias. O trabalho era garantido apenas por três meses. Ou seja, para usufruir 70 escudos por dia, e apenas durante três meses, um homem tinha que trabalhar 10 horas diárias. Desconheciam-se as horas extraordinárias. Como hoje se quer desconhecer o que foi este país e como neste país eram tratados os seus filhos.

Cultura -- Hoje seria um acontecimento nacional, com direito a televisões. Mas hoje seria difícil reunir em Mirandela, como foi reunida em Julho de 1972, uma mostra dos grandes nomes da pintura portuguesa. Sigamos o despacho do “Notícias de Trás-os-Montes” que nos dá conta de uma exposição em Mirandela com o patrocínio da Câmara e a colaboração da Galeria Alvarez do Porto.
Antes da exposição, houve uma palestra sobre o “Romance Moderno e a sua evolução”, pelo escritor António Rebordão Navarro, cujo romance “Um Infinito Silêncio”, é o retrato de uma comarca de Trás-os-Montes (Vimioso) onde esteve colocado.
Na exposição podiam ver-se, entre outros, quadros de Almada Negreiros, Ângelo de Sousa, Armando Alves, Arpad Szenes, Artur Bual, Dórdio Gomes, Espiga Pinto, João Hogan, José Rodrigues, Jorge Pinheiro, Júlio Pomar, Júlio Resende, Manuel Cargaleiro, Nadir Afonso, Nikias Skapinakis, Noronha da Costa, Francisco Relógio, Vespeira e Vieira da Silva.
Seria hoje possível uma exposição desta grandeza? E quem seria a grande mente de Mirandela que na altura foi capaz de organizar ua exposição única, não só a nível do Nordeste Transmontano, mas a nível nacional? Gostaria de saber quem foi só para profundamente lhe agradecer.

Arte sacra ­­--- A reportagem é escrita por Afonso Praça na edição de quatro de Novembro de 1972 no “Notícias de Trás-os-Montes”, semanário de que o repórter era director-adjunto. Trata-se da história do retábulo flamengo de Moncorvo. Escreve o nosso conterrâneo: “Cerca de sete dezenas de naturais de Moncorvo ou ali residentes, deslocaram-se a Lisboa e visitaram o Instituto Dr. José de Figueiredo, anexo ao Museu.
A excursão foi feita a convite do director do Instituto, dr. Abel Moura, foi organizada pelo delegado local da Junta Nacional de Educação, dr.Horácio Brilhante Simões. Para muitos, foi uma revelação; para outros, apenas um passeio a Lisboa; para todos uma certeza: o retábulo está efectivamente no Instituto Dr. José de Figueiredo, entregue aos cuidados da pintora Ana Paula Abrantes, diplomada pelo Instituto Real do Património Artístico de Bruxelas. Pelo sim, pelo não, os moncorvenses acharam que era melhor vir a Lisboa: é que o retábulo já foi roubado uma vez e encontrado, meses depois, num antiquário de Guimarães. História que os jornais contaram e os moncorvenses não esquecem...”
Apó este super lead, Afonso Praça desenvolve a notícia: “Seja como for, a referida obra de arte recebeu, na altura, tratos de polé: dizia-se que os ladrões pretendiam enviá-la para os E.U.A. De certeza sabe-se que foi pintada no intuito de a disfarçar. É desde então que muita gente pensou em mandar restaurar o retábulo, mas havia um problema: o povo não queria que o “quadro” saísse de Moncorvo. Há três anos o dr. Horácio Simões, na sua qualidade de delegado da Junta Nacional de Educação, fez um pedido formal ao Instituto Dr. José de Figueiredo, e no ano passado apareceram na vila funcionários desta instituição para procederem ao transporte da obra. Qual quê! O retábulo lá ficou, como acontecera uma vez, perante a reacção dos moncorvenses que se reuniram junto da igreja, dispostos a tudo. Recentemente, um carro foi a Moncorvo, carregou o tríptico e trouxe-o para Lisboa, sem ninguém dar conta. Mas logo a notícia se espalhou pela vila, como uma bomba. E foi então que surgiu a excursão, cuja finalidade principal foi de esclarecimento: moncorvenses de várias profissões e categorias sociais (professores do ensino secundário, comerciantes, trabalhadores rurais, funcionários públicos) entraram esta manhã no Instituto Dr.José de Figueiredo com um peso no peito. E o repórter ouviu várias vezes: “Afinal o quadro volta ou não volta para Moncorvo?” Todos os moncorvenses sabem hoje que o quadro voltou a Moncorvo e pode ser visto na sua igreja matriz.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Provérbio chinês

Permite que a ave da tristeza pouse na tua cabeça, mas nunca aceites que faça ninho nos teus cabelos.

O gesto do tempo


Esta amêndoa
Vida dura de casca
e um miolo - coração terno
mas tantas vezes
partido

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Ainda as festas de Verão

Igreja Matriz do Larinho (foto dos anos 30, arquivo Dr. João Leonardo)


Na senda das festas de verão, é importante referir que no último fim-de-semana de Agosto, ocorrem no concelho de Moncorvo várias festas e romarias. No Larinho, com a romagem à capela de Santa Luzia, que não é a padroeira, mas uma bela suplente, e que tinha uma bela capela com pinturas murais que foi quase totalmente demolida, já na segunda metade do séc. XX. Como curiosidade, na actual capela existem duas representações de Santa Luzia, mas a mais recente não pode sair na festa porque faz, segundo o povo, com que haja sempre trovoada.
Na zona "de trás da Serra" havia neste fim de semana a importante peregrinação ao Santo Apolinário de Urros, que este ano retrocedeu um fim de semana. Como sabem, no santuário existe o túmulo do Santo que, segundo a tradição, foi bispo de Ravena, e veio morrer àquele local. Esta festa foi das mais importantes do Sul do distrito, tendo ainda alguma participação.
Também neste fim-de-semana se comemora a festa a Santa Bárbara, na mui antiga vila de Mós, padroeira dos mineiros e das trovoadas. Recorde-se que no limite desta freguesia existiram alguns locais de fundição, sendo o último caso de fundição na Chapa Cunha, junto à ribeira de Mós. Daí a grande devoção por esta mártir da Igreja.
Na zona do vale existe outra romagem, à Nossa Senhora do Castelo (Adeganha), no local onde existiu povoamento antigo (pré-histórico, castrejo e romano), e cuja peregrinação, outrora, teria alguma importância. Recomenda-se a visita a este local, particularmente ao topo na capela de S. João, donde se pode desfrutar uma vista magnífica sobre o vale da Vilariça.
Faltou referir também, festa da Lousa que ocorre no terceiro fim de semana do mês, dedicada a Nossa Senhora dos Remédios, que teve algum relevo, já que esta já foi uma povoação com alguma importância. É de recordar que possuiu um convento de Trinitários, e é a única freguesia do concelho que é parcialmente classificada como Património da Humanidade pela UNESCO.

Torre de Moncorvo - Agenda Cultural - Setembro- Outubro

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Recordando a Póvoa

Há cinco/seis anos escrevi esta crónica para o Jornal de Notícias, numa rubrica semanal que tive durante mais de dois anos na edição de Lisboa deste jornal. Porque penso que tem alguma actualidade, contextualizando-a no tempo, penso que ainda tem alguma actualidade. Por isso e também por preito ao Nélson, achei que a devo republicar, depois de a retirar da minha arca informática. Aqui vai, tal como foi escrita há cinco/ seis anos.

"De novo, as gravuras
ou
Ao Sabor das gravuras

Encontramo-nos no quiosque da Praça a comprar jornais. O Público anunciava, em chamada de primeira página, a descoberta de novas gravuras rupestres no Sabor, com 20 mil anos de idade.
Encontrámo-nos eu e o Nélson Rebanda, o arqueólogo que descobriu as primeiras gravuras do Côa e que tão injustiçado foi nos anos seguintes. Foi uma espécie de Cristóvão Colombo das gravuras.Viriam mais tarde os conquistadores. A notícia, assinada por Pedro Garcias, um homem cá de cima, dava ao Sabor da minha infância um sabor novo.
No dia anterior tinha ido comer peixes à Foz ( do Sabor), num ritual que se repete sempre que rumo a limpezas de olhar interior. Também nesse dia me embrenhara nas fragas da Póvoa onde, já lá vão perto de 25 anos, levei o Assis Pacheco que, perante uma professora primária vestida para nos receber como se se preparasse para uma ida ao S. Carlos, numa casa sem luz nem água, com o caldeiro dos grelos à lareira, escreveu um belíssimo poema, posteriormente publicado na Vértice.
Hoje na Póvoa vivem 22 pessoas, bem contadinhas, quase todas com idade superior a 60 anos. As casas, com se o tempo não passasse por ali, mantêm-se de pedra, em construção tosca mas robusta de granito. E desabitadas, na maioria.
E fomos tomar café. O Nélson Rebanda estava excitado pela descoberta e era referido no texto como o criador da expressão do Côa, Santuário Sagrado.
Mas que importância tem descobrir que há 20 mil anos já se sonhava por aqui, nos desfiladeiros inóspitos, quando o sonho é considerado hoje, pelo pragmatismo crescente, um dos sintomas do desfazamento da realidade e um obstáculo ao nacional-situacionismo, mediático e político, para quem o efémero e o supérfluo são os grandes promotores de energias e desenvolvimento?
Vejo o Nélson desencantado, por vezes excessivamente auto-crucificado, num jogo de incompreensão que o isolamento potencia.
Mas como é que não se sentirá alguém que, durante infindáveis dias, foi desbastando de roçadoura na mão, os arbustos que escondiam as pedras, o xisto sólido do chão sagrado?
E leio também que, após 23 anos de serviço à causa pública, Diana Andringa se despede da RTP. Como não se há-de sentir ao ver o estado a que a televisão (pública e privada) chegou.
E leio A Bola. Um jogador atinge os 20 milhões de contos. Outros menos milhões, mas ainda milhões.
A Igreja em vez de abençoar Deus, preocupa-se mais em criticar César. Esquece o sagrado e sacia-se no profano.
A remodelação e os seus rumores inventam analistas e suportam ajustes de contas. Resultados de sondagens, sempre relativos, são absolutizados.
Ouvem-se pelo interior as sirenes. Começaram os incêndios. A seu tempo virá a remodelação.
E os jornais em vez de picotarem na rocha um auroque (boi selvagem), preferem pintar em papel um cenário de um país dissolvente, em que tanto governo como oposição servem de arbusto e ocultação ao grande auroque gravado na pedra do tempo.

Rogério Rodrigues

Apresentação de Outros Contos da Montanha, por Isabel Mateus

Ainda no passado dia 29 de Agosto, depois de inaugurada a Exposição sobre o felgueirense Armando Martins Janeira, teve a palavra uma outra felgueirense: Isabel Maria Fidalgo Mateus, natural das Quintas do Corisco, presentemente professora de Português na Universidade de Liverpool, após a conclusão do seu doutoramento pela University of Birmingham (Reino Unido).

Após a apresentação deste mesmo livro – Outros contos da Montanha – ocorrida há meses na Biblioteca da Escola Secundária de Torre de Moncorvo e no Grémio Literário de Vila Real (onde teve o patrocínio do escritor A.M. Pires Cabral e da presidente do Círculo Miguel Torga, Doutora Assunção Anes), chegou a vez de também a Biblioteca Municipal de Torre de Moncorvo dar a conhecer a obra desta nossa conterrânea.
Após as palavras do Sr. Presidente da Câmara, a apresentação da autora esteve a cargo de uma sua antiga colega do Secundário, que frequentaram em Torre de Moncorvo, a jornalista Glória Lopes, que enalteceu as suas qualidades, bem como do livro em causa.
Por fim, Isabel Mateus falou da temática dos diversos contos que compõem o livro. Por aqui perpassam a emigração, a desertificação humana, a dureza do trabalho no campo, hoje como no Passado, mas também muito da Cultura popular, tudo caldeado num grande telurismo, bem digno do conterrâneo Armando Martins Janeira (o homem que andava sempre com três pedras de minério do Roborêdo), ou ainda de Miguel Torga, de quem a autora colheu inspiração para o título desta obra. “Eu afirmo as quintas, as quintas são a minha raiz” – disse Isabel Mateus, a dado passo da sua intervenção. Congratulou-se pelo facto de os seus contos serem lidos em lares de idosos, além da sua apresentação em diversas escolas, como no Agrupamento Vertical de Torre de Moncorvo. Mas não só: em Inglaterra, na University of Liverpool, onde existe um grupo de Português, já se organizou uma semana de cultura lusófona (Lusophone Culture Week), tendo um dos seus contos sido traduzido para inglês.

A finalizar, Isabel Mateus levantou ainda um bocadinho a ponta do véu do seu novo livro, que terá por título: O trigo dos pardais e versará sobre a relação das crianças com a natureza, nomeadamente com brinquedos e brincadeiras a partir de elementos naturais, um tema bem do agrado do nosso colega blogueiro Vasdoal.
No auditório da biblioteca, aquando da apresentação do livro, esteve patente ainda uma exposição de desenhos aguarelados, de autoria de Cristina Borges, que serviram de base às belas ilustrações incluídas no livro.
Aqui deixamos as nossas felicitações à nossa colega de blogue, Isabel Mateus, e também à autora das ilustrações, por este belo livro, que tanto pode ser adquirido na Biblioteca Municipal ou no balcão do Museu do Ferro e da Região de Moncorvo.
Texto e Fotos de N.Campos

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Dia 29 de Agosto, inauguração da Exposição sobre Armando Martins Janeira

Conforme anunciado oportunamente, foi inaugurada no passado dia 29.08.2009, a exposição: sob o título “Armando Martins Janeira ou a busca do Homem Universal”.

Momento inaugural da Exposição, após os discursos do Sr. Presidente da Câmara e da Embaixatriz D. Ingrid Bloser Martins (foto da Biblioteca Municipal de T. de Moncorvo)
Esta mostra apresenta uma série de objectos pessoais, livros e documentos que pertenceram ao Sr. Embaixador Armando Martins Janeira, integrando alguns o espólio do Centro de Memória e outros a colecção particular da família, embora se perspective que alguns destes venham a ser doados também ao Centro de Memória.
A visita guiada à Exposição esteve a cargo da Srª. Embaixatriz, D. Ingrid Bloser Martins, que salientou os principais passos da vida e obra do Sr. Embaixador Armando Martins (1914-1988), natural de Felgueiras (concelho de Torre de Moncorvo). Tendo principiado a sua carreira diplomática no antigo Congo belga (mostra-se na exposição o uniforme que usava, à época), desta fase se apresentam alguns objectos de Arte Africana, que o nosso conterrâneo recolheu nessas paragens. Todavia, o que viria a cativar verdadeiramente o seu interesse foi a Cultura Japonesa, de que se tornou um estudioso emérito. Esse interesse vinha fermentando desde muito jovem, ao tomar contacto com a obra de Wenceslau de Moraes (n. Lisboa, 1854; m. Tokushima,1929), o português que se “japonizou” por completo entre o séc. XIX-XX. Numa das vitrinas ilustra-se esse contacto, com livros e imagens de e sobre Wenceslau de Moraes, alguns de autoria de Armando M. Janeira, como o “Peregrino” (recentemente reeditado pela editora Pássaro de Fogo).

O numeroso público seguiu atentamente as explicações sobre o significado dos objectos patentes, no contexto da vida e obra do embaixador Armando M. Janeira (foto da Biblioteca Municipal de T. de Moncorvo)

Fotografias da família imperial do Japão, estampas, kimonos e outras peças têxteis, colecções de bonecas japonesas, objectos do ritual do chá, alguns “kompeitos” (palavra japonesa de origem portuguesa para designar “confeitos”) similares às nossas amêndoas cobertas de Moncorvo (só que sem o grão de amêndoa no interior do açúcar, outros livros de Armando M. Janeira, como as Figuras de Silêncio, O impacto português sobre a civilização japonesa, Japão, a Construção de Um País Moderno ou, simplesmente, peças de teatro, como Linda Inês, tudo associado a objectos coleccionados com muita dedicação e carinho, como faianças e porcelanas, nesta mostra se encontra sintetizada uma vida que foi uma busca e um Encontro com o Outro, todavia sem nunca perder o sentido das suas raízes, como bem sintetizou a sua viúva, Srª. D. Ingrid.

Outro momento da visita guiada à Exposição (foto da Biblioteca Municipal de T. de Moncorvo)
Para melhor se ilustrarem alguns aspectos da obra e do pensamento de Armando Martins Janeira, foram lidos alguns textos de sua autoria, encenando-se alguns diálogos, por elementos do grupo de teatro Alma de Ferro, de Torre de Moncorvo (Américo Monteiro, Marilú Brito e Esperança Moreno).
A concepção da exposição teve o apoio do Sr. Arquitecto Carlo Maria Bloser, tendo a montagem sido apoiada pela equipa da Biblioteca/Centro de Memória. A decoração floral, integrando formosos arranjos de Ikebana, esteve a cargo da Srª. Embaixatriz D. Ingrid Bloser, assim como alguns conteúdos do Catálogo, que contou com a colaboração da Drª. Paula Mateus, especialista da obra de Armando M. Janeira, e da equipa da Biblioteca Municipal.
Esta Exposição fica patente no Centro de Memória de Torre de Moncorvo até ao mês de Outubro, podendo ser visitada durante o horário da Biblioteca Municipal de Torre de Moncorvo.
Para saber mais sobre o Embaixador Armando Martins Janeira, ver neste blogue:

E ainda o "site" próprio: http://www.armandomartinsjaneira.net/

NOTA: A título de mera curiosidade, informamos que foi no decurso de uma outra exposição sobre a Vida e Obra do Embaixador Armando Martins Janeira, realizada em 1997 no Museu do Ferro & da Região de Moncorvo, que surgiu a ideia de se constituir um Centro de Memória destinado a conservar e a divulgar os espólios dos mais ilustres concidadãos naturais ou identificados com Torre de Moncorvo. Isto porque a Srª. Embaixatriz D. Ingrid Bloser Martins, logo nessa ocasião manifestou a intenção de oferecer uma série de documentos, livros e objectos pessoais ao Museu. Como o espólio em causa não se enquadrava bem no âmbito temático do Museu, para além da manifesta falta de espaço para se incorporarem outros espólios que eventualmente viessem a ser propostos (como era o caso do do Professor Santos Júnior, de que então também já se falava), o responsável do Museu do Ferro e da Região de Moncorvo propôs então à autarquia a criação de um Centro de Memória, o que viria a ser aceite e se concretizou no espaço actual anexo à Biblioteca.

domingo, 30 de agosto de 2009

Rostos Transmontanos

Fui na passada sexta-feira ver de novo ( já a vira em Moncorvo) a exposição fotográfica "Rostos Transmontanos" de Paulo Patoleia. Eu e o Lelo e bemmequero ( o filho do "apita abílio" ,que tem na net o "forum de Carviçais") e gostamos. A Júlia Ribeiro é que veio de propósito de Leiria a Lisboa e se perdeu. Penso que deve ter ido parar às antigas instalações do Museu da República e Resistência na Estrada de Benfica, no que se chama o Casal do Grandele. A exposição está patente até 10 de Setembro e qualquer transmontano que se preze e tenha algum tempo não a pode perder. Daqui envio os meus parabéns ao Paulo Patoleia. Foi pena que não estivesse ninguém da Câmara, já que era uma das patrocinadoras. Sei que havia outras actividades naquele dia, mas de qualquer modo... Enfim

sábado, 29 de agosto de 2009

Felgar - Festa NSA 2009

Felgar - Festa de Nª Sª do Amparo.
Domingo, 23 de Agosto de 2009, cerca das 9h30.
Como de costume a Banda do Felgar recebe a Banda de Música convidada, este ano a Banda de Mirandela. No Largo da Santa Cruz trocam cumprimentos.

Chamo a atenção para a evolução que a nossa banda teve desde Janeiro até hoje. Veja-se a mesma música tocada na Festa de S. Sebastião, também aqui colocada, e compare-se com a execução de hoje. Sente-se que tem sido realizado um trabalho de aperfeiçoamento notável. Estão de parabéns o regente, os músicos e a direcção da SFF.






Nota: Os mais atentos ouvem um som de fundo contínuo. Eu mostro já o que é...

Trata-se do agradável som da água a correr no chafariz.

Só não coloco aqui o cheiro matinal dos jardins do Cimo do Lugar porque é muita mão de obra...


sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Mais um conto de Júlia Biló: O ZÉ LEITINHO

Não sei se alguém em Moncorvo se lembrará ainda do Zé Leitinho, José Leite de seu nome oficial.
Magrinho, de altura mediana, pele macilenta, cabelo preto liso, risco ao meio e empastado de brilhantina para se manter fixo no seu devido lugar. Sempre vestido de fato preto, lustroso de tão coçado, pastinha preta debaixo do braço.
Creio que era funcionário menor da Câmara, talvez cobrador.
Também lhe calhava ir à Corredoura. Então aí, à roda do Zé Leitinho, juntavam-se as meninas da Corredoura que, ao tempo, eram as filhas da Sra. Camila Miranda, da Sra. Rosalina Mesquita, a Menina Alcina, jovem esposa do Sr.Todu, a Menina Gininha Galo (já não muito jovem) , as filhas da Sra. Delmina Terceira, a Menina Natalina, a Menina Idalina e ... não sei se me esqueci de mais alguma. Depois a roda alargava-se com mais algumas mulheres e , obviamente, a canalhada não podia faltar.
Nesta última faixa encontrava-me eu. Furávamos entre as pernas das pessoas (já uma pequena multidão) para chegarmos à frente e não perder pitada.

As filhas da Sra. Rosalina e da Sra. Camila pediam, suplicavam ao Zé Leitinho que lhes cantasse o “Passarinho da Ribeira”. E insistiam : “A sua voz é maravilhosa” , “Canta que nem um rouxinol” . “ Não , não canto. Por favor, não peçam mais” . “Se for preciso, peço-lhe de joelhos” . E uma mais atrevida pôs logo os joelhos em terra e, de mãos postas : “ Por favor, cante. Não nos faça sofrer mais “ .
E o Zé Leitinho atrapalhado - até o cabelo começava a fugir do seu arrumadinho lugar - queria sair dali, mas a roda apertava-se à sua volta.
Finalmente cedia em cantar “Só uma. Só uma e mais nada”. Fazia-se silêncio e o Zé Leitinho esticava o pescoço, pigarreava, olhava para o céu, fechava então os olhos e soltava a sua voz : “Passaaaarinho da Ribeira / Não seeeejas meu inimiiiiigo ... “ Aqui começava uma das Meninas a ficar sem forças, encostando-se a outra e mais outra que começava a desmaiar... e o Zé Leitinho, embebido na canção que existia na sua cabeça e não sabendo que a desafinação era completa, continuava “...Empreeeeesta-me as tuas aaaasas / Deixaaaaa-me ir voaaaaar contiiiigo...” Por esta altura, tinha de abrir os olhos , porque os “ais” das Meninas eram já muitos e os desmaios tantos que algumas iam a correr buscar água para deitar na testa das que haviam desmaiado e estavam nos braços de outras que fingiam chorar .
A aflição estampava-se na cara do Zé Leitinho que, em lágrimas verdadeiras, dizia confuso: “ Eu não queria cantar. Eu sei que a minha voz provoca este efeito nas jovens. Oh, Deus me valha! “ Lá conseguia que lhe abrissem o cerco e, tirando o lencinho branco que espreitava do pequeno bolso do casaco, fugia limpando a testa e a cara.
As Meninas em desmaio recuperavam de imediato e as lágrimas que agora lhes assomavam aos olhos eram das gargalhadas que o Zé Leitinho já não ouvia.
Eu era muito pequenita e até sentia pena do Zé Leitinho . Mas tenho de confessar que nunca ouvi voz tão desafinada. E mais, em alguém que não tinha a mais leve ideia da sua desafinação.

NOTA – Penso que o Lelo sabe outras estórias do Zé Leitinho.

Por: Júlia de Barros Guarda Ribeiro (Júlia Biló)

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Exposição sobre Armando M. Janeira e livro de Isabel Mateus

"O local é o universal sem paredes", disse um dia o grande escritor transmontano Miguel Torga.
Pois se conjugarmos os temas da Exposição sobre o Embaixador Armando Martins Janeira que será inaugurada no próximo dia 29 de Agosto, pelas 11;00h, no Centro de Memória, com a temática do livro de Isabel Fidalgo Mateus, sobre a nossa Montanha (o Roboredo), ou, mais propriamente sobre o mundo de trás-da-serra, de onde partiram tanto o Embaixador como esta sua prima afastada, natural das Quintas de Felgueiras, temos a frase de Torga consumada na sua plenitude.
É que tanto a busca do Homem Universal intentada por Janeira, como esta demanda do local procurada por Isabel Mateus, têm como referência sempre o "locus" de onde partiram.
Ambos embaixadores, cada qual à sua maneira, pois a Doutora Isabel Mateus é, presentemente, professora na Universidade de Liverpool, onde muito bem representa a nossa terra (e de onde nos envia as suas crónicas para o blogue), ambos tiveram percursos similares embora em contextos cronológicos distintos: o jovem Armando frequenta aqui aprende as primeiras letras nos anos 20 do séc. XX, enquanto a pequena Isabel por aqui andou à escola nos anos 70 e 80.
Todavia, ambos devem ter subido um dia ao alto da Serra e imaginado que havia mais mundo, e partiram. Também Armando Martins Janeira passou por Inglaterra, antes de se fixar por mais tempo no Japão e na cultura japonesa. A Isabel deambulou por Portugal e Europas (o marido é italiano, passo a inconfidência), antes de se fixar (ao presente) no Reino Unido.
Em suma, dois felgueirenses (do concelho de Moncorvo), que sentiram a tal pulsão de evasão e se projectaram no mundo exterior, buscando a universalidade, mas que nunca esqueceram as suas raízes. Um cumpriu já o seu destino e é a personalidade de excepção que se conhece. A nossa contemporânea está a concretizar também o seu percurso, e daqui lhe desejamos um futuro à medida dos seus desejos - mas tendo sempre presente o magneto do Roboredo a orientar a sua bússola.
Sábado, a partir das 11;00 h no Centro de Memória.

Para saber mais, ver os seguintes post's, no nosso blogue:

  • sobre Armando M. Janeira:
http://torredemoncorvoinblog.blogspot.com/2009/02/biblioteca-iii-peregrino-de-armando.html
http://torredemoncorvoinblog.blogspot.com/2009/02/biblioteca-iv-ainda-armando-martins.html
  • Sobre Isabel Mateus:

http://torredemoncorvoinblog.blogspot.com/2009/04/outros-contos-da-montanha-de-isabel.html

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Ponto final


-Avô, a Terra tem ponto final?
Esta a pergunta que o meu neto António me fez ao olhar para o céu onde eu lhe mostrava o quarto crescente lunar.
Pergunta que me deixou boquiaberto de espanto e também eu próprio cheio de perguntas.
Não tanto pela certa finitude do espaço físico terreno, mas pela forma sob a qual a conhecemos na sua biodiversidade, o clima, os oceanos, as próprias civilizações. Mas por tudo o que o homem tem transgredido, violando a suprema regra do equilíbrio da natureza. Sem olhar aos seus custos. Sem pensar nos que, como o meu neto, virão depois de nós e depois da sua geração.
Ponto final, talvez prolongado terá se assim tudo continuar.
Mas será apenas um fim de frase?
Ou, pior do que isso, um ponto final de parágrafo? Ou até um fim de texto?

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Festa de Senhora do Amparo (Felgar)

Aconteceu este fim de semana a festa de Nª. Senhora do Amparo do Felgar.
A história do culto da Senhora do Amparo e da respectiva festa, começou com um barco em risco de naufrágio, no alto mar, num certo dia do século XIX, entre Portugal e o Brasil. O barco era de pavilhão inglês e chamava-se Iteamer.


Réplica do barco Iteamer, evocando a atribulada viagem do Comendador Pires (foto N.Campos)

Ia a bordo um felgarense, que viria a ser comendador, chamado Francisco António Pires (nascido em 29.06.1837; falecido em 7.03.1901), que, no meio da aflição geral, fez uma promessa de edificar uma capela e celebrar uma festa em honra da Senhora do Amparo, se se salvassem, o que veio a acontecer. E a promessa foi cumprida.


Imagem da Senhora do Amparo, no interior do Santuário (foto N.Campos)

Esta história, com uma réplica antiga do barco, e muitas fotografias de beneméritos, e todo o tipo de “souvenirs” e “ex-votos” podem apreciar-se na Casa dos Milagres do santuário.
A festa do Felgar enraizou-se ao longo de todo o século XX, sendo das romarias mais concorridas de todo o Leste do distrito de Bragança.

A devoção popular acende velas à Senhora, talvez uma reminiscência dos fogos sagrados, dos templos de Roma (foto N.Campos)
A devoção dos felgarenses pela sua Senhora do Amparo aumentou durante o período da guerra do ultramar (1961-1974), em que os soldados desta freguesia levavam consigo um pequeno retalho do manto da Senhora. Dizem que nenhum morreu durante essa guerra, apesar de alguns terem sido atingidos.

Procissão da Senhora do Amparo, em 1972 - o militar fardado, segurando o pendão, em promessa pelo seu regresso são e salvo, é César Rebouta (arquivo particular de Agripino Paredes, a quem agradecemos)
Mas, para mais detalhes e fotos, aqui fica a deixa para os colaboradores e amigos felgarenses.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Alpendre cultural II

Este curto filme( versão revista e aumentada) é um registo de alguns momentos deste "Alpendre Cultural"que me alberga o espírito e até a alma ( não fosse estar resguardado pela Catedral), nas minhas investidas a Moncorvo.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Arte Sano

A plenitude também se busca no "nada" da Natureza. Talvez aí nos reencontraremos. Estas curtas imagens serão prova disso e possibilitam, de alguma forma, uma breve panorâmica da Exposição "Flora de Brincadiras" acolhida há tempos no Museu do Ferro & da Região de Moncorvo.

As Fontes

Canto esquecido

E outra vez os dedos nodosos, que pareciam cobertos de neve, se enterravam naquele aglomerado de concreções alvacentas; agitando-as, trazendo ao de cima as que jaziam na profundidade, fazendo mergulhar as que se encontravam à superfície e pondo de lado aquelas em que já avultavam grandes granulações opalinas»
Campos Monteiro, Novelas Transmontanas – Ares da Minha Serra



Canto esquecido


Pego nas tuas mãos, desfolho os teus dedos um a um,
Lenta e suavemente
Os acaricio contra os meus lábios
Como se jamais os pudesse voltar a tocar

Descubro mil gestos de ternura, mil memórias
Nas tuas mãos que o tempo não pára
Num antigo rito de fogo que os dedos dançam
Em formas e sentidos, eterno fluir de mágica função

Destino e tempo, sem tempo,
Mãos eternas que revolvem o fruto da terra sobre o cobre
E o revestem de glórias inventadas
No calor de uma secreta medida

Pego nas tuas mãos que me afagam o rosto
Agora silencioso
Sinto os teus dedos sobre os meus olhos maravilhados
E já não sei se adormeci, se sonho, ou se apenas choro

20 de Agosto de 2009

Em homenagem às cobrideiras de amêndoa de Moncorvo, artesãs de um ofício quase esquecido . Com a minha gratidão .

Isqueiro da crise


Isqueiro dos tempos em que era obrigatório pagar licença. Este modelo permitia a fuga a esse peso no orçamento. Era constituído por um elo de cana com um leve corte em diagonal, na ponta. O combustível era formado a partir de um pouco de tecido queimado. A ignição fazia-se ao percutir um objecto de aço numa pedra encostada à boca da cana. Aceso o cigarro, poupava-se o combustível, tapando-o com uma rolha de cortiça.

Talvez não fosse má ideia adoptar novamente este modelo. Assim se evitariam muitos incêndios, porque não haveria paciência para pôr a engenhoca a funcionar, Além disso, poupar-se-ia mais combustível !

Este exemplar foi identificado em V.N de Foz Côa, mas tenho a confirmação de que em Moncorvo também se utilizava esta "boca incendiária".

Por curiosidade, já fiz uma réplica, mas não resultou. Talvez seja por isso que não fumo!!!!

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

A Igreja

Nestes dias de procura interior em Moncorvo, sempre que passo pela Igreja vem-me à memória uma frase de Goethe: "A arquitectura é música petrificada". Ao Grande Arquitecto do Universo que nos transcende e limita a nossa condição humana: todos podíamos ser deuses, mas os homens abdicaram da partilha. E deus morre quando um homem morre, e deus nasce quando uma criança nasce.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Felgar - Festa NSA 2009

Realiza-se no próximo fim de semana a Festa em Honra de Nª Sª do Amparo.

Aqui fica o programa.

eXTReMe Tracker