terça-feira, 1 de dezembro de 2009
TORRE DE MONCORVO
«Espero ainda que o correr de Outono se torne mais lento e que as árvores se dispam devagar. Se os perfumes e silêncios forem prolongados viverei mais, antes do Inverno que já se anuncia por detrás daquelas colinas talhadas em degraus onde pousaram vinhas. A luz era amarela e à tardinha havia uma névoa ligeira que indefinia os contornos e enchia as veredas de mistérios. Um passo lento, de regresso, de saudade, a bater nas calçadas, a ecoar nos portões. As luzes a surgir, a desenhar figuras, a iluminar desejos. Tanto amava aquele viver!
Estendia os braços e cantava velhas canções esquecidas.
Era o tempo de voltar às águas donde parti.»
Jacinto de Magalhães, 1985.
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
A "SANTA" INQUISIÇÃO EM MONCORVO - II
Continuação do texto NA RUA DOS SAPATEIROS EM 1599, da autoria de António Júlio de Andrade e Maria Fernanda Guimarães.
Por lapso, não foi mencionado o nome da co-autora no primeiro texto .As minhas desculpas.
Leonel Brito
UM TUMULTO EM TORRE DE MONCORVO
NA RUA DOS SAPATEIROS EM 1599
"Não sabemos quem saiu deste episódio a cantar vitória. Mas sabemos que, em simultâneo, Diogo Monteiro apresentou perante o vigário geral, representante do arcebispo de Braga, uma denúncia em forma acusando-o de práticas judaicas, como fossem: guardar o sábado por dia santificado, deixar os candeeiros acesos na noite de sexta-feira, comer carne na Quaresma e em outros dias proibidos pela igreja, jurar “pelas tripas de Deus e dos santos”, mostrar desprezo pelos ritos católicos, etc. E juntamente apresentou uma relação de 15 pessoas que podiam testemunhar tudo isso, escolhidas entre pessoas cristãs-velhas que, em algum tempo e de qualquer modo tivessem entrada na casa dos Isidros, em geral antigas criadas e serviçais.
Algumas das testemunhas foram logo recusadas pelo vigário geral pois se confessaram inimigas declaradas de Manuel Isidro. Outras disseram que não sabiam de nada mas, ainda assim, foram recolhidos depoimentos que lhe pareceram suficientes para incriminar Manuel Isidro por judaizante e pedir a sua prisão, bem como a de sua mulher Alda Cardoso, a sogra Maria Vaz, o irmão Vasco Pires, a meia-irmã Francisca de Sousa e a mãe desta Jerónima Fernandes. Dos autos constava ainda que já os avós e outros parentes de Manuel Isidro tinham sido presos e penitenciados pelo Santo Ofício.
O sumário foi enviado para o arcebispo de Braga e a carta que o acompanhava, assinada pelo vigário Gregório Rebelo de Abreu é, só por si, um documento de enorme interesse para o estudo das relações entre as comunidades cristã-nova e cristã-velha de Torre de Moncorvo naquela época. Com efeito, escrevia o vigário que a gente da nação andava nesta terra tão “favorecida” que todos lhe tinham medo ou eram por eles subornados, tornando-se quase impossível arranjar quem fosse a um tribunal depor contra eles. E, além de ameaçarem e corromperem as testemunhas e impedirem a execução da justiça, os cristãos-novos até traziam subjugados alguns dos cristãos-velhos mais nobres e prestigiados da terra, pois lhe abonavam o dinheiro e deles dependiam em termos financeiros.
Por entender que as culpas respeitavam a matérias da fé, próprias da alçada do Santo Ofício, o arcebispo de Braga remeteu os autos para o tribunal de Coimbra, “serradoa e selados”, em 19 de Agosto de 1600.
Entretanto, Manuel Rodrigues Isidro não ficou à espera, logo apresentando no mesmo tribunal um “dossier” onde mostrava que tudo não passava de uma “conjuração” que tinham montado contra ele, contando nomeadamente os episódios atrás narrados e provando a inimizade dos seus detractores com os despachos obtidos na Corte de Madrid. E indicou mais de duas dezenas de testemunhas, entre elas sobressaindo o homem de mais nobreza e prestígio em Torre de Moncorvo (o dr. António Madureira, que foi o deputado às Cortes que elegeram Filipe II para rei de Portugal) e homens do tribunal da Relação do Porto.
Queixava-se também que o vigário geral recebera a denúncia de Diogo Monteiro e fizera os autos de inquirição das testemunhas, mas a ele o não quis ouvir.
Escrevia, finalmente, que as testemunhas arroladas contra ele não mereciam crédito, apresentando-as assim:
Ana Rodrigues é “mulher miserável, alcoviteira e do mundo e como tal já esteve presa”.
Isabel Rodrigues, sua irmã é “mulher muito pobre, miserável e rota e esfarrapada (…) e é público e notório que, por qualquer coisa que lhe dêem, dirá o que não sabe”
Maria, “mulher que morou com a Rabita” é solteira e “vagabunda de seu corpo” e também já esteve presa e degredada por ser alcoviteira e “depois de testemunhar pediu perdão a ele suplicante diante de algumas pessoas” que ele nomeou, em prova.
Isabel Vaz é outra que “por dar alcouce e alcovitar e ser devassa do seu corpo, está presa”.
O mesmo se diga da filha do Capadinho, “devassa de seu corpo e mundana grande” que era companheira de Ana Rodrigues e por ela foi induzida a dar falso testemunho.
Filipa Álvares, forneira, era manceba de Lucas de Castro, um dos seus inimigos.
A lista vai a meio mas o retrato feito por Manuel Isidro acerca dos que contra ele foram depor continua igual até ao fim e o único homem arrolado como testemunha vivia no Felgar, era alcunhado de “malas carnes” e “não possui nada nem tem bens alguns de seu e foi induzido a testemunhar contra ele” por ser seu inimigo declarado pois já em tempos Manuel Isidro ripara da espada e o mataria se o não tivessem impedido.
O processo não tem qualquer procedimento ou despacho do tribunal de Coimbra, depreendendo nós que os Inquisidores não encontraram nele matéria para prender Manuel Rodrigues Isidro. Contudo, 20 anos depois, mercê de uma única denúncia, por “crime” bem menos grave e com base em um único depoimento, o mesmo viria a ser preso por aquele tribunal que lhe instaurou um outro processo (nº 448) e, de forma igualmente estranha o libertaria sem qualquer pena, ao cabo de 5 anos!"
Nota dos autores – A história de Manuel Rodrigues Isidro e seus familiares na Inquisição, ao longo de mais de 200 anos e várias gerações, foi estudada pelos autores e esperam seja brevemente publicada.
FONTE – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo nº 5151.
Maria Fernanda Guimarães e António Júlio Andrade
Ainda há machos em Moncorvo!
Ao ver, há dias, este simpático solípede retrouçando umas ervitas junto ao velho caminho de pé posto que vai do Canafichal para o S. Paulo, ao longo da Nória, não pude deixar de notar: "olha, parece que ainda há matchos em Moncorvo!" Na verdade, estes animais desempenharam um papel importantíssimo desde tempos mediévicos, como transporte e força de tracção. Antes do vapor e dos motores de explosão, durante os últimos milénios, vigorou o que se convencionou chamar a "energia a sangue". Quase extintos, hoje, é motivo de admiração (e cliché) registarmos ainda algum espécime como este, sobretudo nas imediações da vila.
Para quem não sabe, a mula e o macho (chamado gado muar) são animais híbridos de cavalo e burra, ou de burro e égua (neste caso, chamam-se éguariços), sendo estes mais fortes. De uma maneira geral os animais muares são mais fortes que os cavalos e do que os burros, razão pela qual se promovia a sua hibridização, pois não procriam entre si.
A presença de muares na região de Moncorvo está patente na toponímia desde tempos remotos, sendo disso exemplo o célebre cabeço da Mua (onde se encontra o principal jazigo de ferro, no termo do Felgar).
Texto e foto: N.Campos
domingo, 29 de novembro de 2009
Nove Poemas de Novembro
Pedro Castelhano
I
Vens vazio, sem possibilidade de voltar ao futuro,
carregado de bíblias, suspeitas e sangue escorrido
com os amigos em partida e um acre aceno de azedume
no início da onda que ignora onde começa ou acaba.
Vens vazio sem deuses enquanto o vento liberta vozes
na noite aguda que te absorve na penumbra muda.
Vens vazio a ponto de sonhares acender fogueiras na memória
para louvar o que perdeste, a sonoridade do riso,
a mão ligeira e portadora de mel, o aconchego
da rosa no silêncio.Vens vazio de mim, também de ti.
Vens vazio até ao recolhimento.
Vens vazio, mas nesta noite havemos de chorar juntos
com os olhos fustigados pelos mistérios das giestas, semáforos
destes caminhos e terreiros de bruxas e duendes,
que nem o álcool amacia, nem o sacrílego medo da vida.
Já não temos tempo para reencontrar a plenitude, ou inventar
caravelas sem mar. Se não vencermos as bruxas que será da manhã?
Vens vazio, com o olhar recolhido de cão mal afagado. Com leituras
clandestinas, com meio século de cinzas a marcar a página.
Mesmo vazio pensas que a mala ainda trás o que inventar,
a obsessiva presença dos ausentes, a naftalina dos verdes anos
quando ignorávamos que havia idades e na face luminosa da noite
/cantávamos.
Ai! tão vazio que tu vens, como esperma seco na paisagem estéril
que escolhemos para o final. Já não há poemas de amor desesperados
porque já não há poemas de amor. Apenas um vago violoncelo
e um sorriso súbito, sem sentido, de nostalgia ou lenço negro.
Vens vazio, com recomendações das almas para ignorar
a alegria e te libertares dos efeitos da luz. Não toques na carne
e que o teu sorriso seja de cilício. Que punja e amargue
e que te afaste das cidades e das tentações mais baixas
de ser feliz. Para que queres ser feliz se estás vazio e não és idiota?
Há rumores de que sons se aproximam como sereias.
Com acenos verdes e frutos mágicos à beira do olhar.
São suspeitas. São seduções. Também o deserto cansa
os eremitas. E tu és presa fácil, inábil e intranquila.
E tu vens vazio, portador de bagagens sem valor comercial.
Ignora os ritmos, a prosódia, a melodia, ignora-te
e parte para a procura do fim, despede-te da esperança,
não penses mais em construir a casa ou alterar o leito
aos rios. Deixa-os correr que o teu tempo já correu.
Vens vazio, fica vazio. A plenitude é uma maçada.
Boas práticas
Câmara Municipal de Torre de Moncorvo retoma tradição das “Quintas-Feiras do Reboredo”
O Município de Torre de Moncorvo pretende revitalizar a antiga actividade em que os habitantes da vila, às quintas-feiras, se dirigiam à Mata do Reboredo a fim de extraírem uma determinada quantidade de lenha. Para isso, promoveu as “Quintas-Feiras do Reboredo” em que os habitantes locais podem usufruir gratuitamente da lenha de carvalho ardida que se encontra no Perímetro Florestal da Serra do Reboredo.Para maior segurança e acesso aos locais, a autarquia procedeu à execução dos caminhos de modo a facilitar as operações de extracção.
A extracção do material faz-se às Quintas-feiras e Sábados acompanhada e supervisionada por um funcionário do município. A quantidade máxima a extrair por munícipe é de 5m3 de lenha e deve ser exclusivamente para consumo próprio.
O primeiro dia das “Quintas-Feiras do Reboredo” decorreu no passado dia 19 de Novembro, quinta-feira, e permitiu a retirada e transporte de aproximadamente 20m3 de lenha.
Os munícipes interessados devem apresentar um pedido, através de formulário disponibilizado na secção administrativa do Gabinete Técnico Florestal.
Enviamos em anexo fotografias do primeiro dia das “ Quintas-feiras do Reboredo”.
Texto e foto de "Notícias do Nordeste", de 28 de Novembro de 2009
sábado, 28 de novembro de 2009
É lançado hoje novo livro de Vítor da Rocha - "Nina, mina de ouro"
Os escritores moncorvenses estão muito activos!
Como que a prová-lo, além dos lançamentos recentes (ou ainda a realizar, como o de Júlia Guarda Ribeiro no próximo Sábado), é apresentado HOJE um novo livro do nosso conterrâneo (de Carviçais) Vítor da Rocha, no salão nobre do Clube dos Fenianos do Porto (ao lado da Câmara Municipal). Trata-se do romance "Nina mina de ouro", editado pela Mosaico de Palavras, cuja apresentação estará a cargo do Dr. Àlvaro Santos.
É agora, às 17;00h, despache-se!
Na verdade, sempre houve destes crentes (in)felizes e afortunados no percurso da Humanidade. Mas eram apenas minúsculos grãos de areia no meio do enorme e amorfo oceano composto de honesta e desventurada arraia-miúda. Hoje, são mais que as mães, a ponto de se terem constituído em ideologia ou religião (não) oficial dos povos – satisfazer o umbigo, ainda que sobre o cadáver do outro. Ou o seu próprio…
Uma violenta condenação da modernidade urbana, onde a condição de ter suplantou irremediavelmente a de ser.
Sobre Vítor da Rocha, já referido neste blogue a propósito de outras obras suas, aqui deixamos este apontamento biográfico:
Professor e escritor, natural da freguesia de Carviçais, no concelho de Torre de Moncorvo, em Trás-os-Montes, e residente na área do Grande Porto. Estreou-se na escrita em 1997, com a publicação da obra Na Andadura do Tempo (contos) (1997, 2ª edição em 2007), pela Editora Campo das Letras, obra que foi seleccionada para apoio pelo IPLB – Instituto Português do Livro e das Bibliotecas, do Ministério da Cultura, a que se seguiu o romance Postigo Cerrado (2002), pelo Círculo de Leitores. Entretanto, em 2004, faz a primeira incursão no domínio da literatura infanto-juvenil, ao lançar a obra Contos com Bicho (Gailivro), obra actualmente incluída no Plano Nacional de Leitura do Ministério da Educação. Em 2006, é co-autor da obra Cinco Enterros do João (colectânea de cinco contos escritos por cinco autores naturais ou residentes em Rio Tinto, Gondomar), pela Arca das Letras.
Publicou ainda AIMMAP – 50 anos de história (monografia, 2007), João Moura – do Barroso ao Porto (biografia, 2007), pela Artescrita Editora, Jorge Casais – da vontade se fez obra (biografia do Eng. Jorge Casais, vice-presidente da AIMMAP, 2007) e A Arte pela Escrita Dois (co-autor) (colectânea de poesia e prosa, 2009), pela Mosaico de Palavras Editora.
Em 2009, dá à estampa o seu último título, Nina mina de ouro (romance, 2009), pela Mosaico de Palavras Editora. Tem ainda desenvolvido actividades de revisor de imprensa, tradutor e redactor em vários jornais e editoras no Porto.
Nota: Agradecemos a colaboração de Rui Carvalho (do Forum de Carviçais), que nos enviou a informação supra.
Novo livro de Júlia Guarda Ribeiro, no próximo Sábado, dia 5 de Dezembro
Desde já (e atempadamente) aqui fica o convite para o lançamento de mais um livro (só aparentemente para os mais novos), de autoria da nossa colaboradora e Amiga Drª. Júlia Guarda Ribeiro:
(Clicar sobre o convite para o ampliar)
Uma boa prenda de Natal - por isso não falte!
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Tertúlia com fado no Celeiro - é hoje!
Um xaile, uma guitarra, uma voz e muito sentimento. Tudo isto é Fado. Venha ouvi-lo de perto. De certeza que já ouviu falar do Fado, a canção que representa a alma portuguesa e canta o seu destino. O sentimento, os desgostos de amor, a saudade de alguém que partiu, o quotidiano, as conquistas, os encontros e desencontros da vida são um tema infinito, que continua a inspirar quem canta com emoção.
Por isso, o grupo de teatro "Alma de Ferro"/Associação Cultural de Torre de Moncorvo, com apoio do Município, tem o prazer de convidar todos os interessados a participarem numa pequena tertúlia, que terá lugar hoje, no dia 27 de Novembro pelas 21,00h, no teatro do Celeiro, nesta vila (Rua da Estação).
Com a participação dos guitarristas moncorvenses Manuel Pestana e José Pestana, que acompanharão a fadista Matilde Larguinho.
Aqui fica o recado dos Alma de Ferro: comparece e traz um amigo também!
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Douro outoniço
«...em todos os livros eu procurei o significado para essa luz que erra pelas águas como se pelos céus fosse...» - Francisco José Viegas, Regresso por um rio, ed. Europa-América, 1987.
Outoniça a luz, estira-se sobre o rio, salientando o amarelo das folhas das árvores que o marginam. Eis o Douro em plenitude, espraiando aquela majestade indiferente diante da qual tudo é pequeno. Oleografias perfeitas cujo verniz não estala.terça-feira, 24 de novembro de 2009
Trás-os-Montes - por Rentes de Carvalho
«Trás-os-Montes. Perto da raia. Terras de pedra, de pão, calcinadas, oliveiras que os anos retorceram, pinheiros sombrios, fios de água que correm nos vales e não acodem à seca.
Abutres circulando no ar, vindos ao cheiro da ovelha morta que a aragem espalhou, vagarosos, à espera que o rebanho se afaste, chocalhos fúnebres, montes sem alegria, o fumo pairando sobre a aldeia, sete da tarde, sol bárbaro, o carro de bois chia na ladeira, lamento que se espalha, canção triste.
A torre quadrangular e escura da igreja, a casa do Capitão - com sentina - alvejando, a nossa derreada na encosta, pintada de amarelo.
Ninguém sabe que voltei e enquanto aqui estou escondido entre os pinhos, animal do monte, é o passado que desliza, sardinhas que a minha avó fritou na tarde em que o tio Serafim subiu à figueira e eu atravessei o riacho a vau, gritando, certo que morria no meio metro de fundo e que a correnteza me levaria até ao Sabor, perdido, nu, repelente como o afogado que tinha visto no Douro, uma corda passada ao pescoço, preso à barca, azulado.
À esquerda o cemitério, os sobreiros em volta, caminho da Figueireda, andanças de menino. Meu pai plantou pessegueiros e laranjeiras que não dão, culpa das pedras. Mais longe o Cabeço. O nosso tio António morreu lá com uma ferida ruim. Ameaçava de navalha quando lhe chamavam ti Maricas.
Cheiro a estevas queimadas no forno, pão centeio ainda quente, bolas de azeite, mulheres enfarinhadas, cargas de lenha.
Domingo. Burras à espera do ferrador. O macho do Peleiro é enorme, aliviam-no da carga, dão-lhe sopas de vinho num alguidar e as galinhas, sem medo, depenicam também.
À porta da taberna Zé Cigano, o Zé do senhor João e o Fidalguinho tocam guitarra, maravilha, música que nunca mais hei-de ouvir, pasmo de criança».
RENTES DE CARVALHO, "Anotações", in O rebate. Edição Círculo de Leitores, 1973.
Rentes de Carvalho, conversando em Vila Real
Rentes de Carvalho, embora nascido em Vila Nova de Gaia tem raízes trasmontanas em Estevais de Mogadouro, sendo um "cliente assíduo" de Torre de Moncorvo. Aliás, os seus avoengos mais remotos seriam oriundos de Mós e das Quintas do Cabeço, entre os concelhos de Moncorvo e Mogadouro. Sua mãe, a Srª. Ernestina, faleceu há poucos anos no Lar de Carviçais, tendo sido uma das personagens centrais do seu célebre romance "Ernestina".
Ainda nos anos 40, José Rentes de Carvalho saíu de Portugal por motivos políticos e, depois de passar pelo Brasil, Nova Iorque e Paris, acabaria por se fixar na Holanda, em 1956, onde trabalhou inicialmente no departamento comercial da embaixada brasileira. No Brasil deixou colaboração diversa em jornais como o Correio Paulistano, O Estado de S. Paulo, O Globo e revista O Cruzeiro. Já na Holanda licenciou-se na Universidade de Amsterdão, com uma tese sobre "O povo na obra de Raúl Brandão". Ingressou posteriormente como professor na mesma Universidade (1964) aí ficando a leccionar Literatura Portuguesa até 1988.
No âmbito da sua actividade universitária e como escritor, na Holanda, deu a conhecer vários autores clássicos da literatura portuguesa (p. ex. Eça de Queiroz e Raúl Brandão), e aí escreveu obras que foram "best-sellers", tais como os livros Com os Holandeses (1ª. ed. de 1972, com sucessivas reedições até hoje) e Ernestina (1ª. ed. holandesa de 1988 e várias reedições), para já não falar em Portugal: um guia para amigos (Portugal, een gids voor vrieden, ed. De Arbeiderspers, 1ª. ed. 1989), livro que obteve múltiplas edições em Holandês, mas que nunca teve versão portuguesa. Não raro aparecem na nossa região alguns turistas holandeses com este guia na mão.
Depois de ter passado por ser um "ilustre desconhecido" em Portugal (apesar de ser um escritor "best-seller" na Holanda), parece que finalmente o nosso conterrâneo Rentes de Carvalho começa a ser (re)conhecido pela imprensa de referência intelectual das urbes tugas: em 6.02.2009 o suplemento do Público "Ípsilon" recenseou a primeira edição portuguesa de Com os holandeses, sob a chancela da Quetzal (havia uma impressão em português, mas feita na Holanda); depois, em 18 de Abril do corrente ano o suplemento "Actual" do Expresso dedicou-lhe duas páginas, sob o título: "Um meridional nos Países Baixos - história de um best-seller português na Holanda que Portugal até hoje desconheceu"; ainda em Abril, "descobriu-o" a revista Ler dedicando-lhe também quatro páginas. Todavia, já antes, outra imprensa mais marginal o houvera "descoberto", como o Primeiro de Janeiro (Porto), sobretudo pela mão de Gonçalves Guimarães, um dos obreiros da Confraria Queirosiana (sedeada no Solar dos Condes de Resende, V.N. de Gaia) de que Rentes também faz parte.
De uma ironia cortante, tanto em alguns dos seus escritos como na oralidade, em que um sentido de humor cáustico cativa e provoca o público, assim foi Rentes de Carvalho no passado sábado em Vila Real. Depois da apresentação efectuada pela Directora Regional da Cultura do Norte, Drª. Helena Gil, e respondendo a uma pergunta do Dr. João Luís Rodrigues sobre a sua vivência entre dois pólos (Holanda e Portugal), Rentes de Carvalho disse que não havia pólos, pois que se definia como um turista, aqui como lá, pois este jornadear fazia parte da sua vida como faz da de todos nós: "sou um turista que veio a esta vida para andar por aqui". Definiu-se depois como um observador: "olho, vejo, observo... e escrevo".
Uma das afirmações (ou provocações) mais polémicas que fez foi a de que gostaria de nascer holandês numa hipotética reencarnação. Isto tudo depois dos defeitos que apontou aos holandeses: hipócritas, sem sentido de humor e com grandes preocupações relativamente ao "politicamente correcto". Um sentimento ambivalente, pois admitiu a sua trasmontaneidade ao afirmar que nunca se conseguiu libertar das suas origens, ou antes, talvez não se tivesse querido libertar. Mais: se se tivesse "libertado", não teria havido um ganho, mas sim uma perda.
Poliglota, começou por dizer que desde criança, ainda em V. N. de Gaia, sendo vizinho da famosa família Cockburn (ligada ao Vinho do Porto), desde cedo aprendeu Inglês; depois teve a fase do Francês, até chegar ao Holandês. Por um certo receio de "perder a língua materna", mais tarde procurou regressar ao Português, língua em que habitualmente escreve: "Eu só funciono bem na escrita em Português", disse.
Referindo-se ao futuro negro das nossas aldeias trasmontanas, disse ironicamente que nem tudo é mau: ficarão como espaços de lazer e de recreio "de uns quantos ricaços que aqui viriam para passear, ou para escrever sobre isto, em passeios de fim de semana".
Sobre a actividade da escrita, e respondendo a mais uma das várias questões que lhe foram postas, considerou que "escrever é um trabalho árduo" e que se sente uma outra pessoa quando escreve, como se o acto de escrita fosse algo exterior a si, admirando-se até, posteriormente, de certas frases escritas, de que não se lembrava de as ter escrito. Dissertou, a propósito, sobre o problema da sinceridade/invenção do autor sobre aquilo que escreve.
Muitas outras questões foram abordadas, num convívio franco e aberto com um dos maiores escritores portugueses da actualidade, que oscila entre o mundo cosmopolita da Europa mais vanguardista (que o enche de perplexidade) e as suas raízes trasmontanas profundas em que procura ser mais um resistente num mundo em extinção. Por isso, num movimento pendular, qual ave de arribação, vai oscilando entre cá e lá, consoante as épocas do ano. Por cá fixa-se na sua tebaida dos Estevais, sendo frequente encontrá-lo, com sua esposa ou amigos holandeses, a almoçar no restaurante Lagar (Torre de Moncorvo), Artur (Carviçais), ou Lareira (Mogadouro).
Ou seja, em terras algo distantes das élites cultas das Lísbias ou dos Portos...
Para saber mais sobre Rentes de Carvalho, ver:
Palestra no Museu do Ferro & da Região de Moncorvo, 5 de Abril de 2008:
http://parm-moncorvo.blogspot.com/2008/04/conferncia-do-prof-rentes-de-carvalho.html
http://parm-moncorvo.blogspot.com/2008/04/palestra-do-prof-rentes-de-carvalho.html
Entrevistas importantes:
http://www.trasosmontes.com/eitofora/numero19/questionario.html
http://www.mensageironoticias.pt/noticia/237
Blog de Rentes de Carvalho: http://tempocontado.blogspot.com/
por: N.Campos e Vasdoal
domingo, 22 de novembro de 2009
ABÍLIO DO NASCIMENTO MARTINS DENGUCHO
Leio:baptizado a 6 de Agosto de 1809,na igreja matriz de Torre de Moncorvo;baptizado a 6 de Junho de1670 na igreja matriz.Duas datas de dois moncorvenses ilustres.Um ,Júlio Máximo de Oliveira Pimentel , Visconde de Villa Maior, presidente da câmara municipal de Lisboa,reitor da univerdidade de Coimbra ,autor de vários livros :”Douro Ilustrado “,”Tratado de Enologia”,”Manual de Viticultura”,etc..,é talvez a maior figura de Moncorvo.O outro é Francisco Botelho de Morais e Vasconcelos ,escritor membro da Real Academia Espanhola.Visito a igreja ,dirigo-me à pia baptismal ,olho e comovo-me a pensar que em Maio de 41 fui aí baptizado.É este sentimento de partilha da “pátria chica” que me invade e me leva às lágrimas .Eu também nasci em Moncorvo . É o orgulho que grita.
Leio numa revista de Macau uma entrevista com o Abílio Dengucho .Ele, o Abílio ,director geral do Banco do Oriente, com a sua assinatura nas notas de Macau ,emitidas pelo Banco Nacional Ultramarino, também é de Moncorvo. Quando termino , regresso à pia baptismal.Os outros foram ilustres dos séculos XVII,XVIII e XIX;o Abílio vive entre nós ,almoça no Jardim,janta no Lagar ,cruzamos com ele na rua. Abílio do Nascimento Martins Dengucho é uma das grandes figuras do séc.XX da nossa pátria moncorvense.
Lelo Brito


sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Nove Poemas de Novembro
III
Vens descobrir o lugar dos mortos, onde recomeça
a memória. Contas o espaço e tu não tens lugar.
Acendem as velas, numa vila a morrer é negócio vivo.
Olhas e são rostos de noite sem lágrimas os que secam os troncos
dos ciprestes. O jazigo tem grades, ferrugem e duas fotografias.
Olhas o lugar que só hoje descobriste. É Novembro e Deus
não o sabe. Os vivos passeiam-se entre os mortos
com os carros à porta e os cães procurando osso velho
na terra ressequida. Porque a terra dos mortos é sempre
terra ressequida.
Não vale falar dos últimos dias,
das madrugadas acordadas em mágoa e lágrimas de cansaço.
Vens descobrir que não tens lugar entre os teus mortos.
Um dia alguém recolherá as tuas cinzas e dará nome a um limoeiro.
A fogueira apaga-se, na noite limpa e gelada, com os cães adormecidos.
E os deuses e os gregos e os normandos e demais bárbaros
todos confraternizam neste culto de mortos com requiem
cheirando a cera, com voz de mocho sugando a alma.
A morte é universal e hoje mal vivo vens descobrir o lugar
dos mortos. Não tens lugar quando a morte te habita.
JÚLIO DENGUCHO

O influente jornal "Tribuna de Macau" publicou no dia 13 de Novembro de 2009 um extensa entrevista com o nosso conterrâneo Júlio do Nascimento Dengucho. Os assuntos tratados são, naturalmente, as relações entre Portugal e Macau. A entrevista é ilustrada com várias fotos, entre as quais a de uma nota com a assinatura do entrevistado que foi administrador do Banco emissor da moeda que circulava em Macau. Dela retiramos apenas uma curta passagem, que é uma espécie de desabafo. Vejam:
- Raramente intervenho em conversas sobre Macau sem delas sair mal disposto com a ignorância revelada por quem não faz a mínima ideia do que Macau é, do papel que ocupa na nossa história e do que poderia (poder?a) ocupar no nosso futuro. Quanto á actuação das entidades públicas portuguesa, conheço o que vem na imprensa e parece-me muito pouco. Eu julgo saber como Portugal deveria olhar para macau, muito especialmente perante a crise que o mundo atravessa e que não tem afectado tanto a RPC. Mas é sina nossa os políticos de Portugal preocuparem-se mais com problemas paroquiais, com campeonatos de futebol e claro, com a manutenção do poder a qualquer custo.
António Júlio
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Novos professores, em ronda por detrás da Serra
Na passada semana, tendo em vista dar a conhecer a realidade paisagística, social, económica e patrimonial do concelho de Torre de Moncorvo, a direcção do Agrupamento Vertical de Escolas de Torre de Moncorvo promoveu uma visita guiada aos novos professores que aqui foram colocados.
Aspecto do altar-mor da capela do ermitério de Senhora da Teixeira, em mau estado de conservação e a reclamar obras de restauro urgentes.
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Drª. Lourdes Rocha Girão
Drª. Lourdes Girão recitando um poema, no auditório do Museu do Ferro, em 25.03.2006 (foto de A. Basaloco/Arquivo do Museu)
Se há pessoas que passam pela vida sem que o mundo delas se aperceba, tal não foi, decididamente, o caso da Drª. Lourdes Girão. Médica conceituada, albicastrense por nascimento, veio para Torre de Moncorvo por via do seu casamento com o advogado Dr. Carlos Girão, natural do Felgar. Foi directora do Centro de Saúde local, escreveu e publicou livros (poesia e prosa), cantava o fado de forma exímia e tocante, pintou quadros, teve intervenção política, foi esposa dedicada e mãe extremosa. Mulher lutadora, chegou a vencer a doença, tendo criado uma associação de apoio a doentes de foro oncológico, mas chegou o dia em que o mal foi mais forte. Aconteceu no passado dia 16, tendo-se realizado a última homenagem no dia de ontem, na igreja matriz de Torre de Moncorvo, perante uma numerosa multidão. Fica em perpétuo descanso na aldeia do Felgar, terra de seu marido, a quem endereçamos sentidos pêsames, bem como a seus filhos João e José, e toda a família enlutada.
terça-feira, 17 de novembro de 2009
SERMÃO DO BOM LADRÃO
Suponho finalmente que os ladrões de que falo não são aqueles miseráveis, a quem a pobreza e vileza de sua fortuna condenou a este género de vida, porque a mesma sua miséria, ou escusa, ou alivia o seu pecado, como diz Salomão: Non grandis est culpa, cum quis furatus fuerit: juratur enim ut esurientem impleat animam. O ladrão que furta para comer, não vai, nem leva ao Inferno; os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são outros ladrões, de maior calibre e de mais alta esfera (...) Não são só ladrões, diz o santo, os que cortam bolsas ou espreitam os que se vão banhar, para lhes colher a roupa: os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. - Os outros ladrões roubam um homem: estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco: estes sem temor, nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam. Diógenes, que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de varas e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões, e começou a bradar: - Lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos. - Ditosa Grécia, que tinha tal pregador!
Padre António Vieira - Sermão do Bom Ladrão, 1655
"O silêncio das cegonhas" - exposição no Centro de Memória
Foi inaugurada no passado dia 7, no Centro de Memória de Torre de Moncorvo, a exposição fotográfica intitualada "O silêncio das cegonhas", de autoria de Carlos Inácio e Pedro Inácio, numa co-organização da Direcção Regional da Cultura do Norte/Ministério da Cultura e Câmara Municipal de Torre de Moncorvo.
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
"O relógio mentiroso" - um conto de Isabel Mateus
- Ó avó, não se esqueça da minha encomenda!
- Não me esqueço, não te aflijas! Só se não os houver… – respondia-lhe a avó pela milésima vez.
O dia de Feira requeria aos habitantes das Quintas uma jornada pensada de véspera e, mormente, muitas horas de preparação para o bom sucesso de tal evento. A Serra apenas olhava para o Vale, tentava-o e espreguiçava-se na sua inércia. Ela só convidava com as suas curvas proeminentes, depois quem quisesse que se esforçasse para descobrir os mistérios que vedava. Do outro lado, demasiado ao fundo para as patas das bestas e dos homens, só bem no seu cume se antevia a azáfama dos camponeses e do seu gado.
A subida pelos lados da olga do Paralta, por entre os soberbos castanheiros a ladearem o carreiro, tinha-lhes tirado o fôlego a eles e às animálias, ou a ambos. Não seria certamente apenas pelo ar puro da alva, mas pelo esforço de uma boa hora de caminhada. A partir do alto do Reboredo tudo era muito mais simples! “Pra baixo águas correm e todos os santos ajudam”, expressão que saía amiudadamente da boca da avó, não sei se para se animar, se para insinuar que ir à Feira a pé ainda custava muito mais do que aos homens escarranchados na cavalgadura e às mulheres sentadas de lado, num equilíbrio periclitante de saias. De pulmões cheios do bafejo da Serra e olhos postos na torre da igreja, o pensamento desviava-se para o apregoar da Corredoura. O caminho de terra batida da floresta, com manchas de cores variegadas na folhagem do arvoredo, refreava-lhes a descida e quase embatia no imponente Asilo, onde se resguardavam da aragem e dos lobos as freiras, o capelão e as meninas. Quando aqui se apeavam dos burros, machos, éguas, mulas ou cavalos e os deixavam com o rabeiro comprido, dependurado de ramo forte ou tronco rijo, e a regozijarem-se no fenasco, os iminentes negociantes largavam definitivamente as arreatas. Depois, matavam a sede nas grichas do fontanário de Santo António e refrescavam as frontes, se o calor já apertasse, como faziam lá na fonte lajeada ou poço bravio da sua terra. Levavam ao lado deles, pelo seu pé, os leitõezinhos que haviam transportado no aconchego dos cestos vindimeiros, à moda de cangalhas, e bem travados no seu baloiçar pela meia-lua do arrocho. Cada um fazia a sua entrada triunfal e ocupava o lugar que lhe estava destinado. Afinal era um fórum comercial com regras e demarcações: porcos e bestas de carga arrumados de costas voltadas para a escola primária, mesmo em frente da capela do Mártir São Sebastião e a toda a extensão do lado oposto do largo espraiavam-se ovelhas e cabras e também alguns tendeiros e jogadores de caricas, que fariam agora companhia ao busto do Embaixador A. M. Janeira. Mas havia, inclusivamente, quem não largasse os transportadores dos fardos, de quinteiros e do vivo, entenda-se, e se atrevesse, por ruas mais esconsas, como as do actual Museu do Ferro, a penetrar acompanhado aquele espaço comunal. Junto à feira dos porcos, o Porteiro camarário recebia as cavalgaduras, alguns tostões pelo zelo que punha na sua guarda e na manutenção da ordem entre a bicharada quadrúpede de grande porte, quantas vezes só conseguida à custas dum potente e nodoso varapau. Ao gado ovino e caprino estava-lhe inteiramente destinado o estrelato, deslocando-se sempre a pé pela imensa passadeira áspera desde que de manhãzinha os donos lhes tinham descerrado as cortes . Sem outro aparato que não fosse o balido manso e o suave tilintar dos chocalhos, as ovelhas caminhavam pachorrentamente por entre aquela mansidão harmoniosa, que se misturava na massa dos feirantes, em ondas lanudas, no Inverno, ou desnudadas e singelas, por alturas da Primavera e do Verão. Destacava-se tão somente daquela amálgama o berreiro esquivo das cabras ou a correria desesperada das crias à procura do leite das progenitoras. A Tasca das Trevonas alojava-se sobranceira às paredes da casa da aula e distribuía, ao longo do dia, peixes fritos ou sardinhas assadas em moletes e pataniscas de bacalhau, tudo regado a bom vinho para afrouxar a rouquidão que o pregão contínuo e o pó do grande afã avivavam. Para refrescar não faltava ainda o pucarinho aguadeiro da Cachopa, de cântaro ao quadril a bambolear gotas por chamariz entre a multidão.
Na altura em que se deu o acontecimento de que aqui falamos, os tempos já eram outros. Naquela manhã, a avó sumiu-se no cordão estreito de terra castanho-avermelhada que conduzia Valente acima. Alcançou o topo das Minas, desceu o desfiladeiro e prendeu o Ruço ao tronco do castanheiro, a uns bons metros da estrada nacional do Carvalhal. Sacudiu o pó dos sapatos com uma giesta e apanhou a camioneta da carreira. Os anos já não lhe permitiam as duas horas de ida e as duas horas de volta da expedição, quando não vendia a mercadoria que outrora levava. E isso não raras vezes acontecera! Com os porquinhos assim a grunhir dentro dos cabazes pela exposição ao frio do longo do dia, limitava-se a seguir a andadura do burro, também mais lenta pelo cansaço acumulado. Refastelada no seu assento, a sua preocupação era, presentemente, outra. Tudo aquilo lhe vinha como se fossem meros “Farrapos de Memória”.
Tinha prometido à netinha que lhe levaria o relógio. Antes que tivesse tempo de congeminar o plano para mercar o que desejava, já o veículo penetrava um dos estreitíssimos acessos que conduziam à praça. Apeou-se ao cheiro das buganvílias, muito enroscadas ao sol e aos muros do Castelo, e dirigiu-se ao local da feira. Ali não havia empedrado e a proximidade do chão de terra ganhava-lhe a sua confiança telúrica. Afoita e bem decidida, quis saber se o dono da primeira tenda tinha a mercadoria que ela procurava.
- Ó senhor homem, tem relógios mentirosos?
- Relógios mentirosos?! – inquiriu ele muito espantado. Os meus relógios não mentem, dão sempre horas certas, desde que não lhe falte a corda. Ó mulher, eu não vendo gato por lebre!...
- Não se zangue! É para a minha neta, para brincar! – respondeu de cara alegre e de riso escancarado nos lábios.
- Ah!, desses!
E o feirante, sorrateiro, foi entrando na conversa da velhota.
- Tinha. Até tinha muitos, mas veio aí o senhor da farmácia e levou-os por junto.
Num repente, tudo se iluminara. Mal agradeceu e se despediu, subiu de novo a rua íngreme, infiltrou-se por uma das artérias da praça, rumou em frente e cortou à direita. Estava às portas do velho edifício da botica. Entrou e, como acontece normalmente em dias como este, o estabelecimento estava à pinha. Teve que esperar pacientemente, até que a sua vez de ser aviada também chegou.
- Diga lá o que precisa de nós!
Muitas pessoas já tinham sido atendidas, mas o vaivém era contínuo.
- Disseram-me que têm relógios mentirosos. Quero um!
A empregada, pasmada, não acertava no que havia de dizer, até que por fim lá balbuciou:
- Ó Srª Candinha, quem lhe disse tal coisa não foi a sério!
Na sua inocência, a aproximá-la de novo da infância, deu uma risada e atirou num tom de caçoada íntima:
- Bem me admirei que vendessem relógios na farmácia, mas saiba que é para a minha netinha. Bem vê, não lhe posso aparecer de mãos abanar…
A empregada limitou-se a finalizar com um “tenho muita pena” e continuou na senda da sua avultada clientela. Por sua vez, em forma de desforra, a velhota saiu decidida na perseguição da sua busca, resmungando para os seus botões, aliviada, que ela não precisava para nada daquelas mixórdias medicinais.
Com este intuito, volveu à confusão do mercado. Passou de novo pelo mesmo vendedor ambulante e, sem dar a mão à palmatória, foi percorrendo com o olhar quantas barracas a abarrotar de mercadorias encontrou montadas e parou naquela que mais lhe pareceu, ao primeiro impacto, interessar – uma pequena bancada de brinquedos. Por entre ferrinhos de engomar de latão reluzente, com tampos de plástico colorido e aferrolhados por galinhos de cristas romanas, utensílios de cozinha e de regadores de crivos perfilados, o seu olhar negro, brilhante e inquiridor fixou-se em sete ou oito daqueles relogiozinhos multicolores, onde balançavam dois grandes ponteiros no mostrador redondo, igualmente garridos, e no qual se percebiam os desenhos indistintos de uns bonecos. Também tinha o tal roquete para dar corda e acertar as agulhas de que a neta lhe falara. A bracelete azul cintilante seria o contraste perfeito com a alvura do pequeno bracito, onde esta permaneceria noite e dia. Maravilhada e sem se questionar acerca do preço, coisa invulgar para a sua natureza de negociante de talho, de fruta, de feijões e tudo o que pudesse dar lucro, pagou e abalou. Ainda deu uma olhadela à procura de merino preto para fazer um avental novo, mas nem para isso teve paciência! Sem hesitações, regressou outra vez à praça, foi à Repartição pagar a contribuição dos prédios e voltou a montar na camioneta. O Ruço esperava-a coberto de poeira, por se ter espojado depois que escarvou a terra. Fora esta a maneira mais eficaz que encontrara para enxotar as moscas e os moscardos que lhe sugavam o sangue. Àquela hora adiantada do dia o préstimo do rabo e as abanadelas das orelhas teriam sido insuficientes e, como tal, recorreu ao instinto, rebolando-se no solo arado. Mais protegido do mosquedo, melhor consentiu o peso da proprietária que o conduziu, carreiro acima e monte abaixo, ao descanso e ao punhado de trigo da manjedoura.
- Traz-me o que lhe encomendei, avó?
- Não. Afinal, não encontrei o que tu querias…
- Está a brincar comigo!? Eu sei muito bem que mo trouxe!Os montes cobriam-se de sombras, a penumbra começava a habituar-se ao vento fresco da noite, que já soprava forte, e as duas sentaram-se ao lar na companhia dos estalidos das cascas dos pinhos. A avó mostrou-lhe o relógio mentiroso quando o último rebentamento do revestimento húmido da lenha se soltou no ar e originou um estrondo magnífico.














