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sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Matança do porco

Matança do porco, em Mós (foto Artimagem, autor: António Basaloco, 2004?)
«... enxotou o porco para fora e os homens pegaram-no, estenderam-no de lado sobre o banco, apertaram as cordas de carro em volta do corpo e do focinho, para que grunhe menos.
O Zé ajoelha-se a meter a faca e o sangue espicha, aparam-no num alguidar até às últimas golfadas. Tiram as cordas. Com molhos de palha começam a chamuscar-lhe os pêlos, a pele estala aqui e ali, acastanhada, e de repente, com um urro formidável, o porco abala rua abaixo, cego, esbarrando contra as paredes».

Rentes de Carvalho, O Rebate, ed. Círculo de Leitores, 1973

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Coisas de Moncorvo! II

HISTÓRIAS POLÍTICAS

Por: António Júlio Andrade

Duarte Areosa e Ferreira Pontes

Da “rapaziada alegre” transmontana da universidade de Coimbra “in illo tempore”, um dos mais castiços era o António Joaquim Ferreira Pontes, natural de Urros, concelho de Torre de Moncorvo, e que ali foi baptizado com o nome de “cara estanhada”.

Ficou célebre uma aventura que, em tempo de aulas, o levou a passear de Coimbra para o Porto. Na cidade invicta, passeando com os amigos, saiu-lhe pela frente, em plena rua, próprio pai, que ali fora comerciar. Apanhado em flagrante, quando o pai vinha direito a ele, não se desmanchou e, virando-se para os amigos, comentou:

- Querem ver que aquele homenzinho me está a confundir com o filho dele!

O pai avançava para o filho e este, sem pestanejar, desarmou-o logo e tão lindamente que deixou embatucado, atirando-lhe:

- Oh! Bom homem! Está-me a confundir com alguém, algum filho seu, é?! Ele é parecido comigo?!

De volta a Coimbra, no dia seguinte, escrevia ao pai, para Urros, uma linda carta em que lhe dizia que, no dia anterior, estivera a fazer exames, que lhe correram muito bem, e que lhe mandasse o dinheirinho da mesada, que estava necessitado.

Do seu perfil como político liberal, falou-se já em crónica anterior. Hoje vou relatar um episódio da administração de uma câmara municipal de Torre de Moncorvo presidida por Ferreira Pontes. O outro protagonista é o dr. Duarte Augusto Areosa, igualmente um “alegre rapaz” da coimbrã república de transmontanos.

Estava-se em 1878. Ferreira Pontes era presidente da câmara que integrava ainda os vereadores António Augusto Sampaio e Melo, António Augusto Carvalho e Castro, Bernardino Cândido Gomes e Manuel António Pires de Gouveia.

Duarte Areosa era então professor da Escola Municipal de Latim e Francês e um dos vultos do partido regenerador de Moncorvo, chefiado pelo dr. Ferreira Margarido e por Caetano de Oliveira.

Fixemo-nos então em Dezembro de 1869, altura em que o jovem advogado Augusto Areosa foi nomeado pela câmara professor daquela escola. Como a câmara não dispunha de uma casa própria para as aulas, deliberou que a escola funcionasse na casa alugada pelo professor para residência sua e de sua família, pagando o município metade da renda.

Assim funcionaria a escola quando, em Janeiro de 1878, Ferreira Pontes tomou posse do cargo de presidente da câmara, sucedendo a António Caetano de Oliveira. E logo na primeira ou segunda reunião do executivo, foi deliberado:

- Pôr à disposição do professor uma sala no edifício dos Paços do Concelho, para funcionar como escola.

O professor não gostou, continuou a dar as aulas em sua casa, queixou-se ao Comissário dos Estudos e recorreu para o Conselho de Distrito, argumentando que a sala não servia porque no edifício da câmara se amontoavam já muitos serviços e a entrada e saída de munícipes fazia os alunos distraírem-se. Ouvida a câmara sobre o assunto, esta respondeu:

- Exactamente para que os alunos não sejam distraídos é que se transfere a aula para os Paços do Concelho, uma vez que, na casa do dr. Areosa, os alunos são perturbados não apenas pelas pessoas da casa, mas também pelos clientes do advogado Areosa, pois que, a sala de aulas é também escritório de advogado.

O Conselho de Distrito acabou por julgar o caso e dar razão ao professor Areosa e, no seu acórdão, proferido em Fevereiro de 1879, obrigava a câmara ao pagamento das rendas da casa que a câmara tinha, entretanto, deixado de pagar, ou seja, 8$240 réis.

Ferreira Pontes e câmara a que presidia não se deixaram convencer e recorreram para o Supremo Tribunal Administrativo, acrescentando um novo argumento:

- Em cada um dos 8 anos de câmaras amigas do professor Areosa, o município pagou 17$240 réis (a casa estava arrendada por 18$000 réis) e ele $760 réis! Não era a câmara que lhe devia 8$240 réis, mas ele é que devia à câmara qualquer coisa como 65$920 réis, ou seja a metade da renda da casa durante aqueles 8 anos.

O resultado de tudo isto foi que, em 1880, o governo mandou encerrar a Escola.

Na mesma reunião de 20 de Fevereiro de 1879, em que recorreu para o Supremo, o executivo de Ferreira Pontes aproveitou para fazer o lançamento das contribuições municipais para o ano económico de Julho de 1878 a Julho de 1879. Nos termos de uma lei promulgada em Dezembro de 1878 aconteceu que as contribuições dos funcionários públicos e das “partes de fora” (ou seja as pessoas que residiam fora do concelho mas nele tinham propriedades) subia para o dobro, enquanto as dos proprietários e industriais baixavam muito.

Augusto Areosa e 10 outros funcionários públicos municipais logo reclamaram contra este abuso, apresentando duas ordens de argumentos. Por um lado, havia ilegalidade, porque, começando o ano económico em Julho de 78, não podia a contribuição correspondente ser regulada por uma lei promulgada em Dezembro seguinte, a meio do ano económico. Em segundo lugar, tratava-se de uma injustiça porque as contribuições eram lançadas aos proprietários e industriais com base nas matrizes que estavam subavaliadas, enquanto aos funcionários eram lançadas com base nos salários auferidos e que não podiam ser escondidos.

Mais uma vez o recurso não foi atendido pela Câmara de ferreira Pontes. Mais uma vez o Duarte Areosa e outros 10 empregados recorreram para o Conselho de Distrito, que lhes deu razão. Mais uma vez Ferreira Pontes recorreu para o Supremo…

Entretanto… aproximava-se o fim do mandato daquela câmara e nova luta política ia estalar antes dessas eleições, em Dezembro de 1879, a propósito das mesas eleitorais.

Ferreira Pontes e a câmara fixaram 4 mesas de voto, assim distribuídas: Moncorvo, Carviçais, Urros e Horta da Vilariça. O administrador do concelho e o partido do dr. Areosa, Margarido e Oliveira não concordavam com esta distribuição e queriam apenas duas mesas de voto: uma em Moncorvo e outra em Felgueiras. Argumentaram que assim se fizera nas últimas eleições para deputados. Recorreram naturalmente para o Conselho de Distrito e Ferreira Pontes contestou, dizendo que os eleitores aumentaram de 1600 para 3000 e que o único interesse dos adversários na mesa de Felgueiras era “contarem ali com todos os seus arruaceiros e homens de mão”. E dava o exemplo:

- Na penúltima eleição camarária, não contentes com chapelada que deram na sua aldeia, os de Felgueiras, à uma hora da madrugada, ainda se dirigiram à Horta da Vilariça a fim de roubarem a urna eleitoral!

Mas… esta é uma história para outra crónica. Por hoje, diga-se que Ferreira Pontes permaneceu mais dois anos à frente da câmara e Duarte Areosa seria eleito para o quadriénio seguinte, de 1882 1 1885, Presidente da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo.

Pocinho II

«Quando vem o Inverno, por estes sítios, o frio é uma emanação das águas do rio, o vento vem de todos os lados e aqui se junta na baía formada em redor da ponte de ferro, ao bater nas águas, é frio apenas, entre as árvores cresce o vento. Como hei-de eu dizer isto de outro modo?, apenas frio, frio apenas vindo do fundo do rio, do fundo da água, um estranho silêncio de árvores assustadas e sombras, pequenas sombras, agitam-se no litoral do rio, essas sombras, ondulam como a água, como os socalcos, sei que é frio e escuro, e o silêncio até, mas algo mais existe nisso de ser frio e silêncio, e o fio do rio ser límpido, alguma coisa me escapa e eu não vejo, nem aqui o trago definido ou não. Um universo inteiro de silêncio apenas rompido pela madrugada, os tons da alva, rosa e azul, violeta, uma cor intensa, imensa, nenhum tédio, o cheiro do bagaço da fábrica. Ver amanhecer o rio é assistir ao nascer do mundo, o ar clareia, e a água, desaparecem os ventos que a descem desde Espanha, e quando o Sol, fogo, ilumina o quarto elemento, que é a Terra, é como se uma angústia grande como o mundo começasse a desaparecer lentamente, espantosamente, parece um ciclo completo, os anjos vindos do infinito, ou da claridade apenas anunciando o dia, o calor vegetal, em toda a aldeia, em todas as janelas que se abrem para a luz do mundo, as sardinheiras nos seus vasos, sei que tudo está no lugar certo, no sítio perfeito, as laranjeiras quietas à espera da vingança do sol, alguém que caminha nas ruas da aldeia.»

Francisco José Viegas, Regresso por um rio. Ed. Europa-América, 1987, p. 78-79.

Foto de A. Botelho, 2009.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Coisas de Moncorvo!

HISTÓRIAS POLÍTICAS

Coisas de Moncorvo!

Na segunda metade do século XIX e, durante cerca de 20 anos, o dr. António Joaquim Ferreira Pontes e António Caetano de Oliveira foram dois grandes vultos políticos da região de Torre de Moncorvo. Eram duas personagens completamente diferentes, com uma formação cultural, cívica e política diametralmente opostas.

Ferreira Pontes era filho de um homem público, um liberal das primeiras horas, que esteve preso nas cadeias Miguelistas. Caetano de Oliveira era filho de um mestre oficial de Foz Côa que veio para Moncorvo como capataz de uma fábrica de sabão.

Ferreira Pontes pertencia a uma família de tradições aristocráticas e na política gastava a legítima paterna. Caetano de Oliveira “veio do nada” e construiu um imenso império comercial e financeiro espreitando oportunidades políticas.

Ferreira Pontes tinha formação universitária e, como deputado, sentava-se no parlamento ao lado do grande tribuno, seu amigo e companheiro nas lutas e no exílio, José Estêvão de Magalhães. Caetano de Oliveira aprendera apenas escrituração comercial, mostrara grande jeito para contas e um incrível “faro” para os negócios.

Ferreira Pontes estava na política por convicção, servindo os cargos de administrador, presidente da câmara, deputado, e vestiu a farda de soldado para tomar posse do cargo de governador civil do distrito. Caetano de Oliveira começou a fazer fortuna comprando os bens de famílias da nobreza derrotadas nas lutas liberais e que abandonaram a região, vendendo ao desbarato.

Ferreira Pontes recusou-se a receber o título de Visconde da Alegria (recebeu-o a mulher após a sua morte) com que o governo o quis agraciar, por razões de natureza política. Caetano de Oliveira casou em grande, conseguiu ser agraciado como Par do Reino e casou a filha com o Marquês de Ponte de Lima. Mas recusou o título de Marquês da Vilariça, no tempo da monarquia e de Comendador, no tempo da República, por suspeitar que em troca do título teria de financiar com dinheiro líquido o poder político. Quando lhe lembravam que fora Par do Reino e tinha um brasão na esquina da casa, mandou-o picar.

Ferreira Pontes era o líder incontestado do partido Progressista e Caetano de Oliveira era chefe local do partido Regenerador.

Não sabemos como eram as relações pessoais entre os dois homens. Conhecemos é histórias incríveis de lutas políticas e chapeladas eleitorais fabricadas por um e outro. E chegou até nós a notícia de uma cena algo cómica, acontecida entre ambos. Vamos contá-la.

Estava-se aí por 1870. Travava-se mais um daqueles renhidíssimos combates eleitorais, como era de norma naquele tempo. E como também era usual, a Mesa de voto, em Moncorvo, era na igreja matriz. Nesse tempo, os boletins de voto já os levavam preenchidos os eleitores. Ferreira Pontes era o presidente da Mesa. Caetano de Oliveira fiscalizava as eleições, como representante do seu partido. Com autoridade, sempre que algum eleitor se apresentava na Mesa, Ferreira Pontes pegava no papel do voto e lia, bem alto, o nome do candidato do seu partido, antes de introduzir na urna o boletim. E fazia isso com todos os eleitores, quer fossem do seu partido ou dos adversários. A certa altura, Caetano de Oliveira não se conteve com esta iniquidade e contestou:

- Senhor doutor! Eu protesto porque esse não é o nome que está na lista!

Ferreira Pontes, olhando com sobranceria o seu adversário político, respondeu-lhe secamente:

- Eu não admito que você saiba ler! Vinte passos atrás, conforme manda a Ordenação!

Uma outra cena, digna do anedotário político, aconteceu nas eleições de 1900. O chefe do partido Regenerador era então o dr. Ferreira Margarido, que sucedeu a António Caetano de Oliveira. E era também ele o candidato a deputado pelo mesmo partido no círculo de Moncorvo. Essas eleições viriam a ser anuladas (por 3 vezes!), tantas foram as provas de falcatrua eleitoral apresentadas.

Uma dessas provas respeitava a um dos homens de mão do dr. Margarido, um daqueles pobres homens que ficam maluquinhos na altura das campanhas e são capazes de tudo para agradar aos chefes. Pois o nosso homem (um matulão – rezam as crónicas) fartou-se de andar de porta em porta a pedir votos, amedrontando e espancando até alguns adversários, mesmo na própria assembleia de voto. Acabou por ser preso e… lá foi a julgamento.

Não sabemos se por artes da política ou da magistratura, a verdade é que o juiz foi o médico do partido municipal e chefe dos Lazarões (assim chamavam aos regeneradores), o dr. Ferreira Margarido, na sua qualidade de substituto do juiz de direito da comarca.

Ignoramos como decorreu o julgamento, as alegações dos advogados e os depoimentos das testemunhas. Conhecemos apenas o texto da sentença que foi mandada lavrar no processo. Ela é bem clara e exemplar:

- Considerando que o réu, comparativamente comigo julgador, é verdadeiramente imaculado, absolvo o mesmo por equidade.

Imaginem agora a reacção do dr. João Galas, sobrinho de Ferreira Pontes e herdeiro de seus bens e da chefia local dos Penicheiros (eram assim chamados os do partido progressista). Com aquela grandeza de alma que sempre o norteava, passeando na praça do Município, comentou simplesmente:

- Coisas do Margarido!

António Júlio Andrade

Pocinho

Ponte do Pocinho em dia inverniço (foto de António Botelho, 2009)
«Volto agora à aldeia e agora me recordo, ao olhar o rio, que antes havia patos no rio, murmúrio de laranjeiras nas margens verdes que se estendiam até às falésias da Lousa, pequenos barcos, conto isto à medida que vejo ou que revejo ou que sonho, já não sei, exactamente, o que vêem os meus olhos, e vejo pouco, vejo as coisas inscritas em tudo, este lugar estendido a todos os lugares do mundo. Trouxeram agora a notícia e eu não estava ainda preparado para ela, embora soubesse que mais cedo ou mais tarde isso viria a acontecer. Estava inscrito nas águas do rio que vejo através da janela. Mas fica para depois a notícia. Agora recordo os patos, os caçadores que vinham às quintas-feiras, metiam-se nos barcos brancos e avançavam pela neblina dentro, as espingardas luzidias, oleadas, limpas por dentro e por fora, coronhas brilhantes ao ombro, quando o sol rompia, se é que chegava a romper, tão bela era a imagem dos caçadores, já ninguém sabia deles, desapareciam nos caminhos de água, tinham ido procurar os patos na altura em que havia patos no meio do rio, no interior do rio, era bonito vê-los, aos patos, e, quando surgia um rasgo de ruído no céu, um caçador apontava a sua arma e ele caía, isolado no seu voo em queda, a dignidade de um pato no meio da baía rodeada de choupos que rebentavam em flor quando chegava a Primavera que aqui mora mais cedo, soava então um tiro, dois tiros mais tarde, o pato caindo com solenidade, a solenidade de um pequeno deus, molhado de sangue e de céu, era bonito vê-los, ao patos, quando ainda havia patos no meio do rio, rompiam o isolamento da aldeia porque vinham de todos os lugares, chegavam de Barca d'Alva carregados de luzes, mistérios e nevoeiro, dependuravam-se nas águas do rio entre limos à flor da corrente, espalhavam-se, mergulhavam a cabeça na água, levantavam voo, erguiam-se mais alto, para o céu, chegavam às nuvens, aos anjos, aos deuses que andavam mais em baixo, soava um tiro, era um pato que descia do céu, um brilho de olhos no meio do rio, na ilha já desaparecida, vinham de longe e de perto, os patos, tão brancos e polidos na sua penugem, hoje vêm de vez em quando, diz-se na aldeia quando vem um pato, agitam-se-me os olhos e viro-me para o rio, uma mancha branca voando e estilhaçando as colinas de amendoeiras e vinhas, poisam nos olivais à beira da água, eram bonitos os pássaros, os patos, todas as aves que invadiam o rio pela Primavera e com os choupos em flor, traziam gotas de nevoeiro dependuradas nas asas, vinham do norte, iam para o sul, mais para o sul, abeiravam-se das aldeias, brancos, brincavam, eram bonitos, os patos.»

Francisco José Viegas, Regresso por um rio. Ed. Europa-América, 1987.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

1640

Francisco de São Payo, Fronteiro-Mor e Governador das Armas de Trás-os-Montes, Comendador na Ordem de Cristo, Alcaide-Mor da Torre de Moncorvo, X Senhor de Vila-Flor, de Chacim, de Anciães, de Vilarinho, foi um dos quarenta conjurados de 1640.

TORRE DE MONCORVO

Praça de Torre de Moncorvo, vista da varanda do "Castelo" (foto de N.Campos)

«Espero ainda que o correr de Outono se torne mais lento e que as árvores se dispam devagar. Se os perfumes e silêncios forem prolongados viverei mais, antes do Inverno que já se anuncia por detrás daquelas colinas talhadas em degraus onde pousaram vinhas. A luz era amarela e à tardinha havia uma névoa ligeira que indefinia os contornos e enchia as veredas de mistérios. Um passo lento, de regresso, de saudade, a bater nas calçadas, a ecoar nos portões. As luzes a surgir, a desenhar figuras, a iluminar desejos. Tanto amava aquele viver!
Estendia os braços e cantava velhas canções esquecidas.
Era o tempo de voltar às águas donde parti.»

Jacinto de Magalhães, 1985.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

A "SANTA" INQUISIÇÃO EM MONCORVO - II



Continuação do texto NA RUA DOS SAPATEIROS EM 1599, da autoria de António Júlio de Andrade e Maria Fernanda Guimarães.


Por lapso, não foi mencionado o nome da co-autora no primeiro texto .As minhas desculpas.


Leonel Brito



UM TUMULTO EM TORRE DE MONCORVO


NA RUA DOS SAPATEIROS EM 1599



"Não sabemos quem saiu deste episódio a cantar vitória. Mas sabemos que, em simultâneo, Diogo Monteiro apresentou perante o vigário geral, representante do arcebispo de Braga, uma denúncia em forma acusando-o de práticas judaicas, como fossem: guardar o sábado por dia santificado, deixar os candeeiros acesos na noite de sexta-feira, comer carne na Quaresma e em outros dias proibidos pela igreja, jurar “pelas tripas de Deus e dos santos”, mostrar desprezo pelos ritos católicos, etc. E juntamente apresentou uma relação de 15 pessoas que podiam testemunhar tudo isso, escolhidas entre pessoas cristãs-velhas que, em algum tempo e de qualquer modo tivessem entrada na casa dos Isidros, em geral antigas criadas e serviçais.


Algumas das testemunhas foram logo recusadas pelo vigário geral pois se confessaram inimigas declaradas de Manuel Isidro. Outras disseram que não sabiam de nada mas, ainda assim, foram recolhidos depoimentos que lhe pareceram suficientes para incriminar Manuel Isidro por judaizante e pedir a sua prisão, bem como a de sua mulher Alda Cardoso, a sogra Maria Vaz, o irmão Vasco Pires, a meia-irmã Francisca de Sousa e a mãe desta Jerónima Fernandes. Dos autos constava ainda que já os avós e outros parentes de Manuel Isidro tinham sido presos e penitenciados pelo Santo Ofício.


O sumário foi enviado para o arcebispo de Braga e a carta que o acompanhava, assinada pelo vigário Gregório Rebelo de Abreu é, só por si, um documento de enorme interesse para o estudo das relações entre as comunidades cristã-nova e cristã-velha de Torre de Moncorvo naquela época. Com efeito, escrevia o vigário que a gente da nação andava nesta terra tão “favorecida” que todos lhe tinham medo ou eram por eles subornados, tornando-se quase impossível arranjar quem fosse a um tribunal depor contra eles. E, além de ameaçarem e corromperem as testemunhas e impedirem a execução da justiça, os cristãos-novos até traziam subjugados alguns dos cristãos-velhos mais nobres e prestigiados da terra, pois lhe abonavam o dinheiro e deles dependiam em termos financeiros.


Por entender que as culpas respeitavam a matérias da fé, próprias da alçada do Santo Ofício, o arcebispo de Braga remeteu os autos para o tribunal de Coimbra, “serradoa e selados”, em 19 de Agosto de 1600.


Entretanto, Manuel Rodrigues Isidro não ficou à espera, logo apresentando no mesmo tribunal um “dossier” onde mostrava que tudo não passava de uma “conjuração” que tinham montado contra ele, contando nomeadamente os episódios atrás narrados e provando a inimizade dos seus detractores com os despachos obtidos na Corte de Madrid. E indicou mais de duas dezenas de testemunhas, entre elas sobressaindo o homem de mais nobreza e prestígio em Torre de Moncorvo (o dr. António Madureira, que foi o deputado às Cortes que elegeram Filipe II para rei de Portugal) e homens do tribunal da Relação do Porto.

Queixava-se também que o vigário geral recebera a denúncia de Diogo Monteiro e fizera os autos de inquirição das testemunhas, mas a ele o não quis ouvir.

Escrevia, finalmente, que as testemunhas arroladas contra ele não mereciam crédito, apresentando-as assim:

Ana Rodrigues é “mulher miserável, alcoviteira e do mundo e como tal já esteve presa”.

Isabel Rodrigues, sua irmã é “mulher muito pobre, miserável e rota e esfarrapada (…) e é público e notório que, por qualquer coisa que lhe dêem, dirá o que não sabe”

Maria, “mulher que morou com a Rabita” é solteira e “vagabunda de seu corpo” e também já esteve presa e degredada por ser alcoviteira e “depois de testemunhar pediu perdão a ele suplicante diante de algumas pessoas” que ele nomeou, em prova.

Isabel Vaz é outra que “por dar alcouce e alcovitar e ser devassa do seu corpo, está presa”.

O mesmo se diga da filha do Capadinho, “devassa de seu corpo e mundana grande” que era companheira de Ana Rodrigues e por ela foi induzida a dar falso testemunho.

Filipa Álvares, forneira, era manceba de Lucas de Castro, um dos seus inimigos.

A lista vai a meio mas o retrato feito por Manuel Isidro acerca dos que contra ele foram depor continua igual até ao fim e o único homem arrolado como testemunha vivia no Felgar, era alcunhado de “malas carnes” e “não possui nada nem tem bens alguns de seu e foi induzido a testemunhar contra ele” por ser seu inimigo declarado pois já em tempos Manuel Isidro ripara da espada e o mataria se o não tivessem impedido.

O processo não tem qualquer procedimento ou despacho do tribunal de Coimbra, depreendendo nós que os Inquisidores não encontraram nele matéria para prender Manuel Rodrigues Isidro. Contudo, 20 anos depois, mercê de uma única denúncia, por “crime” bem menos grave e com base em um único depoimento, o mesmo viria a ser preso por aquele tribunal que lhe instaurou um outro processo (nº 448) e, de forma igualmente estranha o libertaria sem qualquer pena, ao cabo de 5 anos!"


Nota dos autores – A história de Manuel Rodrigues Isidro e seus familiares na Inquisição, ao longo de mais de 200 anos e várias gerações, foi estudada pelos autores e esperam seja brevemente publicada.


FONTE – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo nº 5151.


Maria Fernanda Guimarães e António Júlio Andrade

Ainda há machos em Moncorvo!

Ao ver, há dias, este simpático solípede retrouçando umas ervitas junto ao velho caminho de pé posto que vai do Canafichal para o S. Paulo, ao longo da Nória, não pude deixar de notar: "olha, parece que ainda há matchos em Moncorvo!" Na verdade, estes animais desempenharam um papel importantíssimo desde tempos mediévicos, como transporte e força de tracção. Antes do vapor e dos motores de explosão, durante os últimos milénios, vigorou o que se convencionou chamar a "energia a sangue". Quase extintos, hoje, é motivo de admiração (e cliché) registarmos ainda algum espécime como este, sobretudo nas imediações da vila.
Para quem não sabe, a mula e o macho (chamado gado muar) são animais híbridos de cavalo e burra, ou de burro e égua (neste caso, chamam-se éguariços), sendo estes mais fortes. De uma maneira geral os animais muares são mais fortes que os cavalos e do que os burros, razão pela qual se promovia a sua hibridização, pois não procriam entre si.
A presença de muares na região de Moncorvo está patente na toponímia desde tempos remotos, sendo disso exemplo o célebre cabeço da Mua (onde se encontra o principal jazigo de ferro, no termo do Felgar).

Texto e foto: N.Campos

domingo, 29 de novembro de 2009

Nove Poemas de Novembro

Pedro Castelhano

I

Vens vazio, sem possibilidade de voltar ao futuro,
carregado de bíblias, suspeitas e sangue escorrido
com os amigos em partida e um acre aceno de azedume
no início da onda que ignora onde começa ou acaba.
Vens vazio sem deuses enquanto o vento liberta vozes
na noite aguda que te absorve na penumbra muda.
Vens vazio a ponto de sonhares acender fogueiras na memória
para louvar o que perdeste, a sonoridade do riso,
a mão ligeira e portadora de mel, o aconchego
da rosa no silêncio.Vens vazio de mim, também de ti.
Vens vazio até ao recolhimento.
Vens vazio, mas nesta noite havemos de chorar juntos
com os olhos fustigados pelos mistérios das giestas, semáforos
destes caminhos e terreiros de bruxas e duendes,
que nem o álcool amacia, nem o sacrílego medo da vida.
Já não temos tempo para reencontrar a plenitude, ou inventar
caravelas sem mar. Se não vencermos as bruxas que será da manhã?
Vens vazio, com o olhar recolhido de cão mal afagado. Com leituras
clandestinas, com meio século de cinzas a marcar a página.
Mesmo vazio pensas que a mala ainda trás o que inventar,
a obsessiva presença dos ausentes, a naftalina dos verdes anos
quando ignorávamos que havia idades e na face luminosa da noite
/cantávamos.
Ai! tão vazio que tu vens, como esperma seco na paisagem estéril
que escolhemos para o final. Já não há poemas de amor desesperados
porque já não há poemas de amor. Apenas um vago violoncelo
e um sorriso súbito, sem sentido, de nostalgia ou lenço negro.
Vens vazio, com recomendações das almas para ignorar
a alegria e te libertares dos efeitos da luz. Não toques na carne
e que o teu sorriso seja de cilício. Que punja e amargue
e que te afaste das cidades e das tentações mais baixas
de ser feliz. Para que queres ser feliz se estás vazio e não és idiota?
Há rumores de que sons se aproximam como sereias.
Com acenos verdes e frutos mágicos à beira do olhar.
São suspeitas. São seduções. Também o deserto cansa
os eremitas. E tu és presa fácil, inábil e intranquila.
E tu vens vazio, portador de bagagens sem valor comercial.
Ignora os ritmos, a prosódia, a melodia, ignora-te
e parte para a procura do fim, despede-te da esperança,
não penses mais em construir a casa ou alterar o leito
aos rios. Deixa-os correr que o teu tempo já correu.

Vens vazio, fica vazio. A plenitude é uma maçada.

Boas práticas

Câmara Municipal de Torre de Moncorvo retoma tradição das “Quintas-Feiras do Reboredo”


O Município de Torre de Moncorvo pretende revitalizar a antiga actividade em que os habitantes da vila, às quintas-feiras, se dirigiam à Mata do Reboredo a fim de extraírem uma determinada quantidade de lenha. Para isso, promoveu as “Quintas-Feiras do Reboredo” em que os habitantes locais podem usufruir gratuitamente da lenha de carvalho ardida que se encontra no Perímetro Florestal da Serra do Reboredo.

Para maior segurança e acesso aos locais, a autarquia procedeu à execução dos caminhos de modo a facilitar as operações de extracção.

A extracção do material faz-se às Quintas-feiras e Sábados acompanhada e supervisionada por um funcionário do município. A quantidade máxima a extrair por munícipe é de 5m3 de lenha e deve ser exclusivamente para consumo próprio.

O primeiro dia das “Quintas-Feiras do Reboredo” decorreu no passado dia 19 de Novembro, quinta-feira, e permitiu a retirada e transporte de aproximadamente 20m3 de lenha.

Os munícipes interessados devem apresentar um pedido, através de formulário disponibilizado na secção administrativa do Gabinete Técnico Florestal.

Enviamos em anexo fotografias do primeiro dia das “ Quintas-feiras do Reboredo”.

Texto e foto de "Notícias do Nordeste", de 28 de Novembro de 2009

sábado, 28 de novembro de 2009

É lançado hoje novo livro de Vítor da Rocha - "Nina, mina de ouro"

Os escritores moncorvenses estão muito activos!
Como que a prová-lo, além dos lançamentos recentes (ou ainda a realizar, como o de Júlia Guarda Ribeiro no próximo Sábado), é apresentado HOJE um novo livro do nosso conterrâneo (de Carviçais) Vítor da Rocha, no salão nobre do Clube dos Fenianos do Porto (ao lado da Câmara Municipal). Trata-se do romance "Nina mina de ouro", editado pela Mosaico de Palavras, cuja apresentação estará a cargo do Dr. Àlvaro Santos.
É agora, às 17;00h, despache-se!

Aqui fica um resumo do conteúdo do livro:
Em Nina Mina de Ouro seguimos a vida da suburbana Nina, que, graças à mais-valia dos seus dotes físicos, consegue alcançar o éden moderno – carro topo de gama e conta bancária robusta. Ainda que pelo caminho se vá despindo de tudo – ideais, marido, filha, mãe, amigos, simples objectos sem valor que só atrapalham a subida. É todo um modo de vida, ritmado pelos humores das coisas, das terras e das casas e pelas vozes dos vizinhos, que vai ficando para trás das costas da personagem, na sua impávida cavalgada para um objectivado além dourado.
Na verdade, sempre houve destes crentes (in)felizes e afortunados no percurso da Humanidade. Mas eram apenas minúsculos grãos de areia no meio do enorme e amorfo oceano composto de honesta e desventurada arraia-miúda. Hoje, são mais que as mães, a ponto de se terem constituído em ideologia ou religião (não) oficial dos povos – satisfazer o umbigo, ainda que sobre o cadáver do outro. Ou o seu próprio…
Uma violenta condenação da modernidade urbana, onde a condição de ter suplantou irremediavelmente a de ser.

Sobre Vítor da Rocha, já referido neste blogue a propósito de outras obras suas, aqui deixamos este apontamento biográfico:

Professor e escritor, natural da freguesia de Carviçais, no concelho de Torre de Moncorvo, em Trás-os-Montes, e residente na área do Grande Porto. Estreou-se na escrita em 1997, com a publicação da obra Na Andadura do Tempo (contos) (1997, 2ª edição em 2007), pela Editora Campo das Letras, obra que foi seleccionada para apoio pelo IPLB – Instituto Português do Livro e das Bibliotecas, do Ministério da Cultura, a que se seguiu o romance Postigo Cerrado (2002), pelo Círculo de Leitores. Entretanto, em 2004, faz a primeira incursão no domínio da literatura infanto-juvenil, ao lançar a obra Contos com Bicho (Gailivro), obra actualmente incluída no Plano Nacional de Leitura do Ministério da Educação. Em 2006, é co-autor da obra Cinco Enterros do João (colectânea de cinco contos escritos por cinco autores naturais ou residentes em Rio Tinto, Gondomar), pela Arca das Letras.
Publicou ainda AIMMAP – 50 anos de história (monografia, 2007), João Moura – do Barroso ao Porto (biografia, 2007), pela Artescrita Editora, Jorge Casais – da vontade se fez obra (biografia do Eng. Jorge Casais, vice-presidente da AIMMAP, 2007) e A Arte pela Escrita Dois (co-autor) (colectânea de poesia e prosa, 2009), pela Mosaico de Palavras Editora.
Em 2009, dá à estampa o seu último título, Nina mina de ouro (romance, 2009), pela Mosaico de Palavras Editora. Tem ainda desenvolvido actividades de revisor de imprensa, tradutor e redactor em vários jornais e editoras no Porto.

Nota: Agradecemos a colaboração de Rui Carvalho (do Forum de Carviçais), que nos enviou a informação supra.

Novo livro de Júlia Guarda Ribeiro, no próximo Sábado, dia 5 de Dezembro

Desde já (e atempadamente) aqui fica o convite para o lançamento de mais um livro (só aparentemente para os mais novos), de autoria da nossa colaboradora e Amiga Drª. Júlia Guarda Ribeiro:

(Clicar sobre o convite para o ampliar)

Uma boa prenda de Natal - por isso não falte!

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Tertúlia com fado no Celeiro - é hoje!

Um xaile, uma guitarra, uma voz e muito sentimento. Tudo isto é Fado. Venha ouvi-lo de perto. De certeza que já ouviu falar do Fado, a canção que representa a alma portuguesa e canta o seu destino. O sentimento, os desgostos de amor, a saudade de alguém que partiu, o quotidiano, as conquistas, os encontros e desencontros da vida são um tema infinito, que continua a inspirar quem canta com emoção.

Por isso, o grupo de teatro "Alma de Ferro"/Associação Cultural de Torre de Moncorvo, com apoio do Município, tem o prazer de convidar todos os interessados a participarem numa pequena tertúlia, que terá lugar hoje, no dia 27 de Novembro pelas 21,00h, no teatro do Celeiro, nesta vila (Rua da Estação).
Com a participação dos guitarristas moncorvenses Manuel Pestana e José Pestana, que acompanharão a fadista Matilde Larguinho.

Aqui fica o recado dos Alma de Ferro: comparece e traz um amigo também!

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Douro outoniço

«...em todos os livros eu procurei o significado para essa luz que erra pelas águas como se pelos céus fosse...» - Francisco José Viegas, Regresso por um rio, ed. Europa-América, 1987.

Outoniça a luz, estira-se sobre o rio, salientando o amarelo das folhas das árvores que o marginam. Eis o Douro em plenitude, espraiando aquela majestade indiferente diante da qual tudo é pequeno. Oleografias perfeitas cujo verniz não estala.
Pelo fim da tarde destes dias frios, vale a pena descer até ao rio, espreitá-lo junto à Foz do Sabor, meditar um pouco sobre a beleza do mundo e a pequenez dos homens e acabar jantando numa das típicas tascas do peixe frito, canjirão cheio, e com verdadeiros Amigos em redor.
Porque não na Aurora? - fica a sugestão.
Fotos de Elisabete Almeida

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Trás-os-Montes - por Rentes de Carvalho

Vale da Ribeira das Arcas, entre os Estevais e Carviçais. Estevas (cistus ladanifer) em primeiro plano (foto de Marisa Carloto, 2009)

«Trás-os-Montes. Perto da raia. Terras de pedra, de pão, calcinadas, oliveiras que os anos retorceram, pinheiros sombrios, fios de água que correm nos vales e não acodem à seca.
Abutres circulando no ar, vindos ao cheiro da ovelha morta que a aragem espalhou, vagarosos, à espera que o rebanho se afaste, chocalhos fúnebres, montes sem alegria, o fumo pairando sobre a aldeia, sete da tarde, sol bárbaro, o carro de bois chia na ladeira, lamento que se espalha, canção triste.
A torre quadrangular e escura da igreja, a casa do Capitão - com sentina - alvejando, a nossa derreada na encosta, pintada de amarelo.

Cumeada sobranceira à ribª. do Medal (foto de Marisa Carloto, 2009)

Ninguém sabe que voltei e enquanto aqui estou escondido entre os pinhos, animal do monte, é o passado que desliza, sardinhas que a minha avó fritou na tarde em que o tio Serafim subiu à figueira e eu atravessei o riacho a vau, gritando, certo que morria no meio metro de fundo e que a correnteza me levaria até ao Sabor, perdido, nu, repelente como o afogado que tinha visto no Douro, uma corda passada ao pescoço, preso à barca, azulado.

À esquerda o cemitério, os sobreiros em volta, caminho da Figueireda, andanças de menino. Meu pai plantou pessegueiros e laranjeiras que não dão, culpa das pedras. Mais longe o Cabeço. O nosso tio António morreu lá com uma ferida ruim. Ameaçava de navalha quando lhe chamavam ti Maricas.
Cheiro a estevas queimadas no forno, pão centeio ainda quente, bolas de azeite, mulheres enfarinhadas, cargas de lenha.
Domingo. Burras à espera do ferrador. O macho do Peleiro é enorme, aliviam-no da carga, dão-lhe sopas de vinho num alguidar e as galinhas, sem medo, depenicam também.
À porta da taberna Zé Cigano, o Zé do senhor João e o Fidalguinho tocam guitarra, maravilha, música que nunca mais hei-de ouvir, pasmo de criança».

RENTES DE CARVALHO, "Anotações", in O rebate. Edição Círculo de Leitores, 1973.

Rentes de Carvalho, conversando em Vila Real

Rentes de Carvalho (foto de João Pinto V. Costa)
Rentes de Carvalho foi o mais recente convidado do ciclo Conversas no Museu da Vila Velha, em Vila Real, que se realizou no passado dia 21 de Novembro. Este encontro com o escritor foi promovido pelo Museu da Vila Velha em coordenação com a Direcção Regional do Norte do Ministério da Cultura.
Professor Rentes de Carvalho, entre a Drª. Helena Gil e Dr. João Luís, da D.R. Cultura do Norte (foto de João Pinto V. Costa)

Rentes de Carvalho, embora nascido em Vila Nova de Gaia tem raízes trasmontanas em Estevais de Mogadouro, sendo um "cliente assíduo" de Torre de Moncorvo. Aliás, os seus avoengos mais remotos seriam oriundos de Mós e das Quintas do Cabeço, entre os concelhos de Moncorvo e Mogadouro. Sua mãe, a Srª. Ernestina, faleceu há poucos anos no Lar de Carviçais, tendo sido uma das personagens centrais do seu célebre romance "Ernestina".
Ainda nos anos 40, José Rentes de Carvalho saíu de Portugal por motivos políticos e, depois de passar pelo Brasil, Nova Iorque e Paris, acabaria por se fixar na Holanda, em 1956, onde trabalhou inicialmente no departamento comercial da embaixada brasileira. No Brasil deixou colaboração diversa em jornais como o Correio Paulistano, O Estado de S. Paulo, O Globo e revista O Cruzeiro. Já na Holanda licenciou-se na Universidade de Amsterdão, com uma tese sobre "O povo na obra de Raúl Brandão". Ingressou posteriormente como professor na mesma Universidade (1964) aí ficando a leccionar Literatura Portuguesa até 1988.
No âmbito da sua actividade universitária e como escritor, na Holanda, deu a conhecer vários autores clássicos da literatura portuguesa (p. ex. Eça de Queiroz e Raúl Brandão), e aí escreveu obras que foram "best-sellers", tais como os livros Com os Holandeses (1ª. ed. de 1972, com sucessivas reedições até hoje) e Ernestina (1ª. ed. holandesa de 1988 e várias reedições), para já não falar em Portugal: um guia para amigos (Portugal, een gids voor vrieden, ed. De Arbeiderspers, 1ª. ed. 1989), livro que obteve múltiplas edições em Holandês, mas que nunca teve versão portuguesa. Não raro aparecem na nossa região alguns turistas holandeses com este guia na mão.
Depois de ter passado por ser um "ilustre desconhecido" em Portugal (apesar de ser um escritor "best-seller" na Holanda), parece que finalmente o nosso conterrâneo Rentes de Carvalho começa a ser (re)conhecido pela imprensa de referência intelectual das urbes tugas: em 6.02.2009 o suplemento do Público "Ípsilon" recenseou a primeira edição portuguesa de Com os holandeses, sob a chancela da Quetzal (havia uma impressão em português, mas feita na Holanda); depois, em 18 de Abril do corrente ano o suplemento "Actual" do Expresso dedicou-lhe duas páginas, sob o título: "Um meridional nos Países Baixos - história de um best-seller português na Holanda que Portugal até hoje desconheceu"; ainda em Abril, "descobriu-o" a revista Ler dedicando-lhe também quatro páginas. Todavia, já antes, outra imprensa mais marginal o houvera "descoberto", como o Primeiro de Janeiro (Porto), sobretudo pela mão de Gonçalves Guimarães, um dos obreiros da Confraria Queirosiana (sedeada no Solar dos Condes de Resende, V.N. de Gaia) de que Rentes também faz parte.

Aspecto do auditório durante a sessão (foto de João Pinto V. Costa)

De uma ironia cortante, tanto em alguns dos seus escritos como na oralidade, em que um sentido de humor cáustico cativa e provoca o público, assim foi Rentes de Carvalho no passado sábado em Vila Real. Depois da apresentação efectuada pela Directora Regional da Cultura do Norte, Drª. Helena Gil, e respondendo a uma pergunta do Dr. João Luís Rodrigues sobre a sua vivência entre dois pólos (Holanda e Portugal), Rentes de Carvalho disse que não havia pólos, pois que se definia como um turista, aqui como lá, pois este jornadear fazia parte da sua vida como faz da de todos nós: "sou um turista que veio a esta vida para andar por aqui". Definiu-se depois como um observador: "olho, vejo, observo... e escrevo".
Uma das afirmações (ou provocações) mais polémicas que fez foi a de que gostaria de nascer holandês numa hipotética reencarnação. Isto tudo depois dos defeitos que apontou aos holandeses: hipócritas, sem sentido de humor e com grandes preocupações relativamente ao "politicamente correcto". Um sentimento ambivalente, pois admitiu a sua trasmontaneidade ao afirmar que nunca se conseguiu libertar das suas origens, ou antes, talvez não se tivesse querido libertar. Mais: se se tivesse "libertado", não teria havido um ganho, mas sim uma perda.
Poliglota, começou por dizer que desde criança, ainda em V. N. de Gaia, sendo vizinho da famosa família Cockburn (ligada ao Vinho do Porto), desde cedo aprendeu Inglês; depois teve a fase do Francês, até chegar ao Holandês. Por um certo receio de "perder a língua materna", mais tarde procurou regressar ao Português, língua em que habitualmente escreve: "Eu só funciono bem na escrita em Português", disse.
Referindo-se ao futuro negro das nossas aldeias trasmontanas, disse ironicamente que nem tudo é mau: ficarão como espaços de lazer e de recreio "de uns quantos ricaços que aqui viriam para passear, ou para escrever sobre isto, em passeios de fim de semana".
Sobre a actividade da escrita, e respondendo a mais uma das várias questões que lhe foram postas, considerou que "escrever é um trabalho árduo" e que se sente uma outra pessoa quando escreve, como se o acto de escrita fosse algo exterior a si, admirando-se até, posteriormente, de certas frases escritas, de que não se lembrava de as ter escrito. Dissertou, a propósito, sobre o problema da sinceridade/invenção do autor sobre aquilo que escreve.
Muitas outras questões foram abordadas, num convívio franco e aberto com um dos maiores escritores portugueses da actualidade, que oscila entre o mundo cosmopolita da Europa mais vanguardista (que o enche de perplexidade) e as suas raízes trasmontanas profundas em que procura ser mais um resistente num mundo em extinção. Por isso, num movimento pendular, qual ave de arribação, vai oscilando entre cá e lá, consoante as épocas do ano. Por cá fixa-se na sua tebaida dos Estevais, sendo frequente encontrá-lo, com sua esposa ou amigos holandeses, a almoçar no restaurante Lagar (Torre de Moncorvo), Artur (Carviçais), ou Lareira (Mogadouro).
Ou seja, em terras algo distantes das élites cultas das Lísbias ou dos Portos...
Sobre esta notícia, ver também: http://www.mensageironoticias.pt/noticia/2346

Blog de Rentes de Carvalho: http://tempocontado.blogspot.com/

por: N.Campos e Vasdoal

domingo, 22 de novembro de 2009

ABÍLIO DO NASCIMENTO MARTINS DENGUCHO

Leio:baptizado a 6 de Agosto de 1809,na igreja matriz de Torre de Moncorvo;baptizado a 6 de Junho de1670 na igreja matriz.Duas datas de dois moncorvenses ilustres.Um ,Júlio Máximo de Oliveira Pimentel , Visconde de Villa Maior, presidente da câmara municipal de Lisboa,reitor da univerdidade de Coimbra ,autor de vários livros :”Douro Ilustrado “,”Tratado de Enologia”,”Manual de Viticultura”,etc..,é talvez a maior figura de Moncorvo.O outro é Francisco Botelho de Morais e Vasconcelos ,escritor membro da Real Academia Espanhola.Visito a igreja ,dirigo-me à pia baptismal ,olho e comovo-me a pensar que em Maio de 41 fui aí baptizado.É este sentimento de partilha da “pátria chica” que me invade e me leva às lágrimas .Eu também nasci em Moncorvo . É o orgulho que grita.

Leio numa revista de Macau uma entrevista com o Abílio Dengucho .Ele, o Abílio ,director geral do Banco do Oriente, com a sua assinatura nas notas de Macau ,emitidas pelo Banco Nacional Ultramarino, também é de Moncorvo. Quando termino , regresso à pia baptismal.Os outros foram ilustres dos séculos XVII,XVIII e XIX;o Abílio vive entre nós ,almoça no Jardim,janta no Lagar ,cruzamos com ele na rua. Abílio do Nascimento Martins Dengucho é uma das grandes figuras do séc.XX da nossa pátria moncorvense.

Lelo Brito




sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Nove Poemas de Novembro

III

Vens descobrir o lugar dos mortos, onde recomeça
a memória. Contas o espaço e tu não tens lugar.
Acendem as velas, numa vila a morrer é negócio vivo.
Olhas e são rostos de noite sem lágrimas os que secam os troncos
dos ciprestes. O jazigo tem grades, ferrugem e duas fotografias.
Olhas o lugar que só hoje descobriste. É Novembro e Deus
não o sabe. Os vivos passeiam-se entre os mortos
com os carros à porta e os cães procurando osso velho
na terra ressequida. Porque a terra dos mortos é sempre
terra ressequida.

Não vale falar dos últimos dias,
das madrugadas acordadas em mágoa e lágrimas de cansaço.
Vens descobrir que não tens lugar entre os teus mortos.
Um dia alguém recolherá as tuas cinzas e dará nome a um limoeiro.
A fogueira apaga-se, na noite limpa e gelada, com os cães adormecidos.
E os deuses e os gregos e os normandos e demais bárbaros
todos confraternizam neste culto de mortos com requiem
cheirando a cera, com voz de mocho sugando a alma.
A morte é universal e hoje mal vivo vens descobrir o lugar
dos mortos. Não tens lugar quando a morte te habita.

Hoje há teatro - no Celeiro, às 21;30h

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