Foi hoje notícia de abertura de telejornais: um casal de alegados membros da organização separatista basca ETA entrou em Portugal pela fronteira de Bemposta e, tendo passado por Mogadouro, viriam a ser capturados pela GNR de Moncorvo, depois de comunicações com a Guardia Civil espanhola. O caso deu-se pela hora de jantar do dia de ontem, e, segundo alguns testemunhos locais, chegou a haver troca de tiros. Houve que dissesse que o "etarra" trazia uma metralhadora, o que afinal não era verdade (os boatos, nestas circunstâncias, propagam-se logo!)
Falou-se numa viatura com explosivos que teria sido abandonada ainda em território espanhol, após o que os operacionais da ETA teriam fugido, um deles numa viatura da própria Guardia Civil espanhola (a fazer fé num dos relatos), e a mulher noutra viatura ligeira com matrícula francesa, que viria a ser detida no Pocinho.
Segundo os noticiários dos principais canais de rádio e TV portugueses, o casal detido foi encaminhado para Lisboa, onde será interrogado e, naturalmente extraditado para Espanha.
Para saber mais: http://tv1.rtp.pt/noticias/?headline=46&visual=9&tm=7&t=ETA-queria-criar-uma-infraestrutura-em-Portugal-desde-2007-explica-imprensa-espanhola.rtp&article=309449
(e ver na coluna do lado direito a secção: "Notícias sobre Torre de Moncorvo no Google")
Este caso faz-nos lembrar a detenção, também em Moncorvo, em 1968, dos membros da LUAR, que se dirigiam para o assalto ao quartel de Castelo Branco, liderados pelo célecre operacional Palma Inácio. Depois de uma fuga para a zona da "fragada" dos Estevais/Cardanha a GNR local (e dos concelhos vizinhos), empreenderam uma verdadeira "caça ao homem", tendo capturado os chamados "terroristas", os quais foram entregues à polícia política (PIDE), que os encaminhou para Lisboa. Palma Inácio faleceu em Julho do ano passado, tendo sido lembrado aqui no blogue pelo colaborador Rogério Rodrigues - ver: http://torredemoncorvoinblog.blogspot.com/2009/07/morreu-palma-inacio.html
domingo, 10 de janeiro de 2010
Moncorvo é notícia: capturado casal de "etarras"
Nevão pinta de branco toda a região
A vaga de frio também chegou às terras de Moncorvo. Depois de dois dias/noites de tiritar, com fortes geadas, hoje, pouco depois do meio-dia principiou a nevar fortemente. Pelo meio da tarde o espectáculo era o que se vê na fotos (clicar sobre as mesmas para ampliação):
Vista a partir das Aveleiras, hoje à tarde (foto de Engº Afonso Calheiros e Menezes)
Praça Francisco Meireles, com chafariz filipino (foto de N.Campos)
Praça F. Meireles, Tribunal (foto N.Campos)
Paços do concelho (foto Afonso Calheiros)
Crianças e jovens, brincando na neve no adro da igreja (foto N.Campos)
Adro da igreja e largo Dr. Balbino Rego, com edifício do Museu do Ferro & da Região de Moncorvo (foto de Afonso Calheiros)sábado, 9 de janeiro de 2010
Quem foi Violante Gomes, a Pelicana? - I
Durante anos e anos ouvimos a tradição segundo a qual uma moncorvense de rara beleza, de seu nome Violante Gomes, de alcunha "A Pelicana", chamara a atenção do infante D. Luís, que por ela se perdera de amores, mal a vira, ao passar pela nossa vila, num belo dia de feira, das famosas e grandiosas feiras que então se faziam em Torre de Moncorvo, pelos idos do séc. XVI. O príncipe levou-a para a corte, para ser aia de sua mãe, a rainha, e, desses amores nasceu um filho, que viria a ser D. António, Prior do Crato, candidato a rei na conjuntura que sucedeu à morte (ou desaparecimento) de D. Sebastião, defrontando o todo-poderoso Filipe II de Espanha. O povo até indica a casa onde nasceu e viveu a dita Pelicana (talvez filha de cristãos-novos). E, por esse facto, um dia, a Câmara Municipal de Torre de Moncorvo, já no séc. XX, resolveu renomear a antiga Rua de Trás, designando-a por Rua de D. António Prior do Crato, que assim se mantém, tal como a dita casa (apesar de já rebocada com cimento, desde há muitos anos), onde se impunha uma placa evocativa. - O que há de verdade nesta tradição? Era mesmo daqui a dita Violante Gomes? Terá Moncorvo a glória de ser o berço da mãe de um rei (já que D. António chegou a ser aclamado como tal, em Santarém, e até cunhou moeda, tendo resistido nos Açores, depois de perder a batalha de Alcântara)? Para nos responder a estas questões, aqui damos início a um conjunto de "post's", de autoria da Drª. Júlia de Barros Guarda Ribeiro, ilustre colaboradora deste Blogue, revelando o que até agora conseguiu apurar sobre esta matéria:
_________
Comecei a pensar em escrever sobre Violante Gomes, a Pelicana, há certamente mais de 10 anos, em resposta ao desafio do Sr. Engenheiro Aires Ferreira, Presidente da Camara Municipal de Moncorvo, pois reza a tradição que ela terá nascido nesta vila transmontana. Para além da tradição, há ainda alguns indícios que tendem a apontar no sentido de algo mais do que a simples tradição.
Violante Gomes, a "Pelicana" * Torre de Moncorvo, Torre de Moncorvo c. 1510 + Almoster 16.07.1568 Pais Pai: Pedro Gomes Casamentos Évora? Filhos D. António, prior do Crato * 1531 Notas Biográficas |
Seria interessante para Moncorvo conseguir provar-se que a bela Pelicana aqui nasceu e, mais interessante ainda, conseguir desenrolar-se o fio de tão enredada meada e ir puxando uma ponta até termos na mão, se não todos, pelo menos, alguns dos factos que marcaram a sua vida e que pudessem levar-nos à sua biografia.
Porém, a expressão de Pinho Leal: “consta que”, não é prova válida e quanto à “Nota Biográfica” in “GENEALL.pt” impõe-se uma pesquisa muito aturada.
Entretanto, venho lendo estudos, capítulos e páginas de historiadores, investigadores e estudiosos e descubro que, nas suas obras e escritos vários, apresentam apenas uma ou duas linhas sobre Violante Gomes e ainda o fazem sempre indirectamente, uma vez que a figura estudada é seu filho, D. António, Prior do Crato e, menos frequentemente, o Infante D. Luis, pai do mesmo D. António. O denominador comum entre todos esses historiadores e estudiosos é o complexo processo da legitimidade ou ilegitimidade do Prior do Crato. Daí dependeria a razão de ser da sua candidatura ao trono de Portugal, deixado vago após Alcácer-Quibir e, pouco depois, a morte do Cardeal D. Henrique. Só a este propósito se lêem algumas palavras, às vezes, uma breve anotação sobre a bela Pelicana.
Ora, a curiosidade aguça-se justamente porque Violante Gomes é por uns ignorada, por outros apelidada de judia, cristã-nova, cristã-velha, por aqueloutros de mulher de vida incerta, plebeia, concubina, e até prostituta. (Deparei com este insulto em alemão, escrito por um soldado mercenário bávaro, Franz Hunnerisch, que lutava com as tropas do rei Filipe, contra D. António: “Don Athoni.../Kham von khoniglichen stamen her/ Von einer Judiam in uneher/ Aus hurnerey kham er auff (…)“. Em português : “D. António/ vem de tronco real/ de uma judia amancebada/de prostituição ele vem (...)”. - “Über die Eroberung Portugals durch Philipp II, im Jahre
Outros lhe chamaram dama da pequena nobreza, cristã, esposa, Pelicana, Pandeireta...
Perante este cenário, decidi escrever um pequeno artigo para a revista do nosso velhinho Colégio, focando o olhar não nos escassíssimos e contraditórios dados históricos sobre a “fermosa Pelicana”, mas sim no que sobre ela pudesse encontrar na Literatura.
Para além do facto de, na História de Portugal, Violante Gomes não passar da obscuridade nas margens dessa mesma História, há outra razão pela qual dei outro enfoque a esse escrito. Razão simples mas muito forte: não tendo eu formação específica em História, em vez de meter a foice em seara alheia, voltei-me para uma seara que me é mais familiar: a Literatura.
Porém, após leitura e/ou releitura das obras que, em seguida, vou registar, observei que também no campo literário, Violante Gomes surge figura nebulosa e, em muitos aspectos, contraditória. Há obras em que nem como figurante ela nos aparece. Sobre seu filho D. António há volumes e volumes em português, francês, italiano, espanhol. Sobre a Pelicana, como figura central, rigorosamente nada.
São estes os títulos das obras que li/reli e sobre as quais procurarei tecer algumas considerações (no final, se for caso disso, tentarei inferir algumas ilações):
- Virginia de Castro e Almeida , A História Mais Triste de Tôdas – história infanto-juvenil, n.º 35 da Coleccção Pátria, editada pelo S.P.N., ( Secretariado Nacional de Propaganda),1943.
- Camilo Castelo Branco, D. Luis de Portugal, neto do Prior do Crato, Quadro Histórico (1601 -1660), Livraria Chardron, Lello & Irmão, 2.ª ed., Porto, 1896.
- Júlio Dinis, Inéditos e Esparsos, Secção: “ Escritos Incompletos”, Porto, 1910, pp. 580-596
- Aquilino Ribeiro, “António I, o Rei Efémero”, in Príncipes de Portugal – Suas Grandezas e Misérias, Lisboa, Livros do Brasil, 1952, pp. 195-217.
- Jorge de Sena, O Indesejado (António, Rei), tragédia, Edições 70, 3ª ed., Lisboa, 1986. (escrita entre Dez. de 1944 e Nov. de 1945, publicada em 1951; representada em Portugal em 1986).
- Jaime Gralheiro, A Longa Marcha para o Esquecimento, tragi-farsa, publicada e representada em 1988/89 pelo Círculo Experimental de Teatro de Aveiro.
- Fernando Campos, O Lago Azul, romance histórico, DIFEL, Lisboa, 2007.
- Urbano Tavares Rodrigues, Os Cadernos Secretos do Prior do Crato, novela, Lisboa, Ed. D. Quixote, 2007.
Julgo que a amostra apresentada, ainda que reduzida, comporta uma razoável variedade de géneros literários e abarca um período de mais de 100 anos, o que me parece tempo suficiente para se terem apaziguado paixões, diluído ódios e amores e aclarado ideias.
Comecemos pela pequena história infanto-juvenil que li pelos meus 9 anos. Chamava-se A história mais triste de todas e falava-nos das lutas do Prior do Crato pelo trono de Portugal contra Filipe II de Espanha, depois Filipe I de Portugal, e da sua derrota frente ao poderoso exército comandado pelo Duque d’Alba.
(Estes livrinhos, que enalteciam determinadas figuras históricas, eram enviados às Escolas Primárias e distribuídos gratuitamente pelos alunos da 4ª. classe. “A história mais triste de todas”, tinha o n.º 35, da Colecção Pátria, ed. S. P.N. [Secretariado de Propaganda Nacional] 1943).
Da autoria de Virgínia de Castro e Almeida, o nome de Violante Gomes é aqui simplesmente omitido. D. António é o herói, o rei que a Pátria desejava e que o povo aclamava. Mas havia questões legais a ultrapassar. Ora, tendo a escritora assumido que esse herói não era filho de um legítimo matrimónio, o nome da mãe é escondido. Assim, a autora, não vê outra saída airosa senão escrever que D. António era filho natural do grande, mui culto e generoso Infante D. Luís. O nome do pai, porque príncipe, estava ali, engrandecido. Nem outra coisa seria de esperar, pois estava-se em pleno Estado Novo e a nova trindade era Deus, Pátria e Família. Família legítima, entenda-se. Portanto, de Violante Gomes, nem uma palavra.
(Para mim, como para qualquer outra criança de 9/10 anos, era absolutamente claro que o filho de D. Luís fosse natural. Simplesmente desconhecíamos o sentido tão camuflado da palavra. E não é para admirar: no Grande Dicionário de Morais, só à 20ª entrada do adj. “natural” é que vem o sentido de “filho ilegítimo”; no Houaiss nem aparece esse sentido e, buscando num dicionário corrente, o Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora, 5ª Edição, s/d, tal sentido também não aparece. As crianças não compreendiam por que razão o Prior do Crato não podia ser rei).
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Por: Júlia de Barros Guarda Ribeiro
[CONTINUA]
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
A Parábola dos três desejos
Suponhamos que o génio é Bruxelas, que a velha decrépita é Portugal, que a cama são os fundos comunitários e que o gato é o nosso futuro muito mal acautelado pelo passado. É uma parábola e todas estas suposições são susceptíveis de ser contrariadas ou mesmo interpretadas de modos muito diferentes. A minha leitura da parábola não passa de uma interpretação altamente subjectiva, muito motivada pelas previsões do professor Karamba. Aí vai então a parábola:
Ainda não há muito tempo, havia uma velha muito decrépita, quase tão secular como o país, que vivia com um gato, a sua única e desinteressada companhia. Um dia o gato, por distracção, destapou um jarro na sala de jantar. E do interior do jarro saiu um génio libertador que disse à velha decrépita: “Pede-me três desejos e eu conceder-tos-ei”. A velha, perturbada, pediu: “ Faz-me jovem e bela”. E assim se fez. “O teu segundo desejo”. “Uma cama, uma grande cama, como espaço de prazer”. E assim se fez. “Pede-me o último desejo”. E a bela jovem reclinada no leito a rescender a sensuais penumbras, pediu: “ Transforma o meu gato num jovem belo”. E assim se fez. E o génio libertador deixou para sempre o jarro destapado na sala. E nessa noite o quarto estava enfeitado de sonho e memória de longos e havidos anos.
Deitaram-se os dois jovens na cama. E já com a luz apagada e quando cometas brilhavam nos olhos, o belo jovem desatou à gargalhada. “De que te ris?”, estranhou a bela jovem. “Querida, esqueceste-te que me tinhas castrado enquanto gato”.
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
Prémio para os pássaros
Esta peça apresenta, como matéria prima, diferentes elementos do pinheiro (Pinus pinaster), como o pinhão, a pinha, a casca, as agulhas e um excerto de madeira proveniente do tronco. Todos estes materiais foram trabalhados manualmente, com a ajuda de um pequeno serrote e um canivete opinel.
E atão já comprou o "Cheringador"?
Pelo começo do ano era habitual os lavradores comprarem o "reportório" - havia (e há!) dois: o "Seringador" e o "Borda d'agua". Vendiam-se nas feiras por módica quantia (agora podem-se adquirir nas livrarias da vila, onde só chega o Seringador). Este "reportório crítico-jocoso e prognóstico diário" leva já 145 anos de edição e continua a imprimir-se sob a chacela da Lello Editores, sedeada em Baguim do Monte (arredores do Porto). Conserva o típico grafismo arcaico, com uns bonecos ao estilo popularucho de séc. XIX, com recorte de tipo xilogravura.
Abre com um "Juízo do ano" e depois é um sem fim de informações úteis (ou inúteis), como os Eclipses previstos, fases da Lua, começo das estações, visibilidade dos planetas, eras cronológicas, feiras e mercados, e a diversa informação para cada dia do ano (santo do dia, hora do amanhecer e anoitecer, efemérides, indicações para a agricultura, como seja o amanho da terra, o que se deve semear, podas das árvores ou cepas, etc., etc.).
Por aqui ficamos a saber que estamos no ano 2010 da era cristã, que é o ano 4354 do Dilúvio bíblico, mas também o ano 2048 da era de César (esta foi seguida em Portugal como no resto da Cristandade até ao séc. XV), sendo o ano 1430 da era muçulmana, ou ainda o ano 133 após a invenção do telefone, ou seja, o ano 113 da aviação, ou o 112 da invenção da telefonia sem fios, ou o 75 da televisão, etc., etc...
Quanto às feiras e mercados, estende-se uma longa lista, com alguns desses eventos seguramente já passados à história, como sejam as feiras de Carviçais (que se realizava a 24 de cada mês), da Lousa (a 6 de cada mês) ou de Urros (7 de cada mês). Mantém-se Torre de Moncorvo, aos 8 e 23 de cada mês, como se sabe. Dão-se ainda os dias de feira de territórios além-fronteiras, como sejam da província de Ourense e Pontevedra (Galiza), Zamora e Salamanca (Castilla-León).
Quanto ao dia de hoje, 7 de Janeiro, ficamos a saber que é dia de S. Raimundo de Penhaforte, presbítero, e que vamos ter o quarto minguante lunar às 10h e 39m a 16 graus em Balança [constelação]. Anuncia-se tempo "revolto" (será o estado do mar?) e no que toca a trabalhos campestres recomenda-se: "o corte de talhadio de castanheiros, carvalhos, salgueiros, etc. e das árvores destinadas a fornecer madeiras de construção e mobiliário. Continua-se com as podas, a plantação de barbados americanos nas terras quentes, o esladroamento e desbaratamento das enxertias e as adubações nas vinhas. Uma boa poda sanitária durante o inverno é conveniente para evitar o aparecimento de certas doenças e parasitas mais tarde. O podador deve cortar toda a madeira que não lhe parecer sã." E remata com o provérbio: "Minguante de Janeiro, corta madeiro".
Fica a recomendação.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
Dia de Reis
Afinal ainda há quem mantenha a tradição de andar a "cantar os Reis" cá pela terra. Diversos alunos das escolas e de meninos dos jardins-escola, juntamente com professores e educadoras de infância, percorreram os comércios e algumas repartições, cantando e tocando. Esperemos que o peditório tenha sido compensador, apesar da tão propalada "crije".
Nas fotos em baixo, grupo de crianças e respectivas educadoras, do jardim de infância nº. 2, de Torre de Moncorvo:
"Dança dos Pretos" de Moncorvo
Hoje é dia de Reis. Desde os inícios de Janeiro que, noutros tempos, se cantavam e pediam "os Reis", de porta em porta. Nessa ocasião, pediam-se chouriças, alheiras, ou outras coisas que as pessoas quisessem dar. Em tempos mais recentes, os géneros passaram a traduzir-se em dinheiro. Se, por acaso, a porta de quem se batia não se abria, cantavam-se cantigas jocosas ao "barbas de farelo" (unhas de fome).
Esta tradição de se pedir/dar algo no dia de Reis, tem a ver com as oferendas que os Reis Magos ofereceram ao Menino Jesus, no dia da sua chegada ao Presépio. Todavia, em termos antropológicos, enquadra-se no esquema mais geral da dádiva (o dar/receber) que coincidia com o início do ano, para se propiciar e reforçar os laços de vicinidade.
Por estes motivos, a data dos Reis (ou véspera), foi também a escolhida, não se sabe quando, para se realizar uma dança, composta por vários indivíduos de cara pintada de preto, e que andavam pelas ruas da vila, tocando e dançando, pedindo para o Deus Menino. Era a "dança dos pretos", que teve lugar pela última vez, em Moncorvo, no ano de 1935, conforme regista o Professor Santos Júnior, que a estudou e que, inclusivamente, a promoveu, em 1930. Por esta altura (anos 30), a dança já estava algo decadente, ou seja, não se realizava todos os anos.
É nossa convicção que originalmente devia ter sido executada mesmo por negros e que, depois, à falta destes, fossem sendo substituídos por brancos com a cara enfarruscada. Ora sabemos que, antes da independência do Brasil, houve bastantes negros que foram trazidos para Portugal, mesmo para terras tão remotas como Moncorvo, por funcionários da administração colonial, nobres ou ricos mercadores. Seria comum as casas ricas possuírem escravos ou criados africanos, que normalmente viriam por via do Brasil, tal como se mostrou num excelente documentário produzido pela RTP, com realização de Anabela de Saint-Maurice, em que se foca bem o caso de Moncorvo e da sua Dança dos Pretos. Esta dança era aqui promovida pela confraria de Senhora do Rosário, que, à semelhança do que se passava em Lisboa, Porto, Brasil ou Cabo Verde, e eventualmente em outras partes do império português, tinha por missão o enquadramento religioso dos "homens pretos".
Ainda quanto à "Dança dos Pretos" no nosso concelho, diz Santos Júnior (in "Coreografia Popular Trasmontana", obra publicada em parceria com o Padre Mourinho e editada pela Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia, em 1980, págs. 18 e seguintes) que também se realizava em Carviçais, onde apurou que se tinha efectuado nos anos de 1881, 1896, 1909 e 1935. É de supor que a dança de Carviçais fosse já uma imitação da de Moncorvo, vila onde poderia radicar no séc. XVIII, época em tal dança (em geral) teria sido criada, pois como afirma Santos Júnior, a sua "coreografia enquadra-se nas danças de composição paralela ou de coluna, muito do gosto dos séculos XVII e XVIII, que proliferaram por toda a parte, principalmente nas confrarias de mesteirais..."
O facto de se realizar em Torre de Moncorvo, salienta o precoce carácter urbano da nossa vila, pois só uma estrutura económica e social diversificada (não exclusivamente rural), justificaria esta multietnicidade, a que não é alheia a forte ligação que desde o séc. XVIII haveria com o Brasil e, certamente, com Àfrica, uma vez passado o ciclo do Oriente.
Interrogando-nos ainda sobre o porquê da realização da referida dança nesta data, julgamos poder encontrar justificação no facto de um dos reis magos ser negro - o S. Baltazar - além de os restantes serem cada qual de sua nação. Ou seja, não há data mais apropriada para salientar o ecumenismo da religião católica, em que todos os povos da Terra deveriam vir adorar o Menino-Deus nascido em Belém.
Aqui ficam algumas quadras da Dança dos Pretos de Moncorvo (recolhidas por Santos Júnior):
Boas novas moncorvenses
Dar a vós os preta (sic) vem;
Que nasceu o redentor
que nasceu o Redentor.
Belém terra de Judá
Onde o Redentor nasceu
Sua Mãe imaculada
Que tormentos padeceu.
Eu não posso compreender
Que Jesus , tão santo e nobre,
Tivesse o seu nascimento
Num lugar tão pobre!
......................................
Nota: fica um repto aos nossos amigos do Teatro Alma de Ferro - que tal, para o ano, tentar-se uma recriação desta dança, na altura dos Reis? - A música está registada e várias quadras também. Fica a ideia.
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
Gungunhana
Folheando a sempre interessante "Caderneta de lembranças" de Francisco Justiniano de Castro, a que já aqui várias vezes aludimos, à cata de efemérides, para o dia 5 de Janeiro encontrámos esta, com as habituais calinadas ortográficas do autor:
"Janeiro, 5 [de 1896]- chegou a nutiçia de ser preso o Rei Preto, na guerra de Àfrica pellas nossas tropas e que o trazem para Lisboa a apresentalo ao nosso Rei" [D. Carlos]
Este apontamento refere-se à notícia da captura do famoso régulo Gungunhana (imperador dos Vátuas de Moçambique), cujas calças estiveram muito tempo no quartel do batalhão de Caçadores 3 de Bragança, sedeado no castelo de Bragança, onde hoje está um Museu Militar em que se mostra uma réplica da dita peça de roupa atribuída ao grande soba africano. Com efeito, militares deste batalhão participaram nas campanhas dos Vátuas, sob comando de Mouzinho de Albuquerque, razão pela qual terão ficado com o "troféu". É possível que algum moncorvense por lá tivesse também andado.
A título de curiosidade, refira-se que Gungunhana foi capturado em 28 de Dezembro de 1895, sendo transportado para Lourenço Marques (actual Maputo), onde foi desembarcado juntamente com outros prisioneiros e acompanhantes, no dia 4 de Janeiro de 1896. Só no dia 13 desse mês foi expedida a ordem de embarque, pelo ministro da Marinha e do Ultramar, chegando a Lisboa no dia 13 de Março. Gungunhana esteve temporariamente preso no forte de Monsanto, sendo em Junho deportado para os Açores, onde viria a falecer em 23 de Dezembro de 1906. Em 1985, as suas ossadas foram transladadas para Moçambique.
Para saber mais, ver: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ngungunhane
Relíquia faunística
Por vezes, deambulando pelas aldeias do nosso concelho, ainda se conseguem destes instantâneos: um belo cavalinho pastando placidamente nas imediações do "povo", neste caso, na zona dos palheiros de Felgueiras.
O "equus caballus" (cavalo) que em remotíssimos tempos paleolíticos era caçado para servir de alimento ao Homem, viria a ser domesticado após o Neolítico, e, no dealbar da Idade dos Metais, atrelado a carros de guerra, como se vê nas representações artísticas do Egipto antigo, Assíria, etc., acabando por ser utilizado na Idade do Ferro como montada dos guerreiros, sobretudo com os Celtas e povos aparentados (após o séc. V a.C.) e daí por diante, desde os romanos até aos inícios do séc. XX.
Desde a época romana generalizou-se a utilização do cavalo como transporte individual, sobretudo associado aos "senhores", pois até tempos bem recentes a maioria das pessoas do povo utilizava o burro e/ou animais muares (basta lembrar que, na literatura ibérica do séc. XVII, o fidalgo D. Quixote montava o famoso cavalo Rocinante, enquanto Sancho Pança seguia "escarrapatchado" no seu modesto jerico).
Assim sendo, apesar de alguma "democratização" do uso do cavalo, não admira que, segundo um apontamento do Dr. Horácio Simões (veterinário municipal, desde os anos 30 até anos 80), por volta de 1942 havia no concelho de Torre de Moncorvo apenas 508 cavalos, enquanto os muares (mulas e machos) eram 551 e os asininos (burros) eram 2.260!
Já agora, do mesmo registo, consta que os bovinos eram 913, os ovinos 16.899, os caprinos 7.085 e os suínos 2.029. Seria interessante obter dados actuais, para melhor podermos cotejar o extraordinário decréscimo da pecuária local e regional.
domingo, 3 de janeiro de 2010
Felgueiras
"Subir a serra e caminhar para o mar! E eram altos os montes que rodeavam aquela aldeia de pedra, difíceis os caminhos que trepavam rumo ao mundo. Sair era sempre desejado, como se fora proibida a liberdade, a fuga àqueles paredões. O vento não corria nas encostas e o ar ia pesando nos ombros dos que olhavam o tempo, a voltar sempre ao que fora.
"Subir o monte e ir ver um oceano, um barco, uma partida. Sonhar com o que havia depois, com o que ficava nas mãos.
Um cajado forte e subirei o monte que me cerca, que me isola".
- Estas são palavras de Jacinto de Magalhães (in Trás-os-Montes, 1985), que bem poderiam ter sido escritas por Armando Martins Janeira ou Isabel Mateus...
À Diáspora moncorvense.
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
Bom Ano de 2010!
À falta de imagens do belo fogo de artifício ontem lançado no momento da passagem de ano, abrimos o ano com esta foto geral da vila de Torre de Moncorvo, espreguiçando-se nas faldas do Roborêdo e esticando os seus braços como que a abraçar todo o concelho. É também este o abraço do blogue a todos os Moncorvenses e a todos os Amigos que nos seguem, a partir das quatro partidas do mundo.
Este ano não procedemos à eleição do acontecimento do ano findo, mas, a tê-lo feito, temos a certeza de que o blogue continuaria a ser um dos acontecimentos candidatos. Por volta da meia-noite tínhamos chegado a perto de 150.000 visitas (mais precisamente 149.968), de quase 60.000 visitantes, mais precisamente a partir de 59.476 computadores em todo o mundo.
Sendo certo que parte deste "score" vem do ano anterior (desde Maio de 2008), contudo o número de visitantes de 2009 foi extraordinário. O número total de "posts" foi de 408, o que dá uma média de 34 posts por mês (mais do que um por dia, em média). O blogue foi ainda visitado a partir de 46 países, sendo a esmagadora maioria dos visitantes de Portugal, como seria de esperar, com 17.070 visitantes (77,2%), seguido do Reino Unido (1.779), Brasil (1.644), Espanha (624), França (450), Estados Unidos da América (321), Suíça (215) - os restantes podem ser vistos clicando sobre o contador e escolhendo a opção "Geolocation" na opção "Visitors". Aí também poderão ver um mapa com a localização da proveniência das visitas, de onde se conclui que a maioria é do continente europeu, com duas manchas de concentração de pontos nos E.U.A. e no Brasil. Isto responde em grande medida à questão: por onde andam os moncorvenses e os seus descendentes?
Tendo presentes estes aspectos, é lícito concluir que o Blogue está a cumprir uma das metas a que se propôs, ainda na fase do "Descobrir Torre de Moncorvo": (re)unir os moncorvenses da diáspora, além de divulgar o concelho e a região.
No dealbar de um novo ano que ora começa, julgando interpretar o sentimento de todos os colaboradores do blogue, só nos resta esperar que continuem connosco, continuem a amar a nossa terra, e, da nossa parte, desejamos-vos as maiores felicidades, com Saúde, Paz, Alegria, Pão, Trabalho, e que o dinheiro chegue ao menos para viver!
Nota: fica aqui também o repto para que nos enviem as vossas mensagens de Ano Novo.
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
A Vilariça e a Foz do Sabor, lembrando as "rebofas" de antigamente
2009 despediu-se chuvoso e com fortes ventanias, alagando os campos e o vale da Vilariça, embora ainda sem atingir a dimensão das grandes "rebofas" de outros tempos.
No seguimento do post anteiror, aqui ficam algumas imagens do Vale e da Foz do Sabor, captadas hoje ao fim da manhã por um nosso conterrâneo:
Felgar - Silhades e o Sabor
Vai encorpado o Sabor. Galgou as margens e Silhades ficou mais perto. Coisas de velhos amigos que não podem estar um sem o outro. Farão uma passagem de ano juntos, como sempre fizeram.
Para memória futura.
Entretanto no tanque do Valdusso ( habitualmente seco no Verão)a água corre livre e abundante.
Sinal de ano bom no que toca a chuva, dizem os que já viram muitos Invernos.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
"O trigo dos pardais" - novo livro de Isabel Fidalgo Mateus
Saiu recentemente do prelo e em breve chegará às livrarias, o novo livro da nossa colega de Blogue, Doutora Isabel Maria Fidalgo Mateus, professora da Universidade de Liverpool.
Aqui ficam as imagens da capa e da contracapa, e respectivas badanas, onde se poderá saber mais sobre a autora e a sua obra (clicar sobre as imagens para as ampliar):.bmp)
Panorama editorial
O mês de Dezembro que ora finda trouxe-nos também duas prendas natalícias, no que respeita ao panorama editorial: por um lado, o já "antigo" (sai há cerca de 13 anos, mas com intermitências) "Mendo Corvo", um jornal escolar feito por professores e alunos, e, por outro, o "Sabor do Ferro", no seu número O (zero), de cariz mais generalista.
Começando pelo "Mendo Corvo", há a assinalar que passou do nível da tiragem em fotocópias para a edição impressa e em formato de jornal a sério. Recortamos do Editorial estas palavras do Director do Agrupamento de Escolas de Torre de Moncorvo, professor António Alberto Areosa: "este jornal do agrupamento, fruto da participação colectiva dos alunos desde o Ensino Pré-escolar aos do Ensino Secundário, docentes, representantes dos pais e encarregados de educação e parceiros plenos de um projecto maior que pretende ilustrar as expectativas mais caras à direcção e à comunidade educativa, a saber, o sucesso escolar efectivo e real, particularmente dos nossos alunos, a realização plena de todas as suas capacidades, o desenhar de um perfil de cidadão conscientemente lúcido em relação à comunidade envolvente que não poderá delegar nos outros o papel socio-cultural e humano a si destinado: aprender para saber ser (...)."Em primeira página é destacada a comemoração do bi-centenário do nascimento do Visconde de Vila Maior, que recentemente teve lugar na escola de seu nome, nesta vila (antigo ciclo preparatório). Outros títulos de capa são a comemoração do aniversário da Convenção dos Direitos da Criança, o Magusto de S. Martinho para os mais pequenos, a atribuição dos Prémios de Mérito e a Noite das Bruxas (Hallween) nas Escolas.
Os interessados em adquirir o jornal poderão contactar o Agrupamento de Escolas de Torre de Moncorvo (tel. 279 200 280).
O "Sabor do Ferro" é uma estreia que promete vir para ficar, como publicação mensal. Tendo como director João Girão e responsável gráfico José Girão, define-se no Editorial como "o jornal do concelho de Torre de Moncorvo", supra-partidário, tendo por objectivo dar a conhecer melhor realidade do nosso concelho. Espera-se ainda que esta seja, "para alguns, a oportunidade de verem os seus anseios e lamentos expostos e afirmados", concluindo de forma jocosa que "para poucos, mas decerto variados, [o jornal será também] um entretém de faladura, que a nossa praça, à falta de motivos, precisa sempre de combustível para animar os passeios e o frio deste inverno que se aproxima".Em primeira página é destacado em título: "Protocolo entre Câmara e EDP dá ambulância aos bombeiros"; "Leopoldina visita as escolas do concelho" e "GNR promove acção de sensibilização". Nas interiores, refira-se um excerto do nosso Blogue, dedicado à "Apresentação do livro 'A parábola dos Três Anéis' de Júlia Guarda Ribeiro" (pág. 5), uma "Mensagem de Natal" subscrita pelo Presidente da Câmara de Moncorvo, Engº. Aires Ferreira, "O meu relógio de bolso", crónica do Dr. Carlos Girão, "Por linhas tortas", pelo Dr. João Girão, "Curiosidade ou talvez não", por Leandro Vale; "Há pessoas que nos marcam", uma evocação da memória da Drª Lurdes Girão, pelo Dr. Nuno Gonçalves; "Pontapé na bola" (secção desportiva sobre Futsal); Mensagens de Natal pelos Padres Vicente e João de Barros; "De músico em música" (página musical) pelo Dr. Rui Rodrigues; "Cantinho do chefe Osvaldo" (Gastronomia), por Osvaldo Ferreira; "Balanço mensal de GNR" referente ao mês de Novembro; e o restante espaço dedicado a Passatempos, entrevistas de rua, publicidade diversa e um Cartoon ("O castelo de D. Mendo") assinado pelo Arqtº Paulo Afecto.
Sendo o 1º. número de distribuição gratuita, os pedidos podem ser efectuados pelos seguintes contactos: sabordoferro@gmail.com; tlm. 916623803, 932861077 ou 918680416.
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
Uma noite de Natal moncorvense, há 109 anos...
Falámos aqui há dias na "missa do galo" e "fogueiras do galo", nas noites do Natal tradicional. Todavia havia ainda outras "tradições" que felizmente se perderam. E por falar em galos, naturalmente havia quem levasse a coisa a preceito e provocasse outros "galos"... na cabeça do parceiro! Era o tempo dos famosos "índios" da Corredoura, que vinham a atacar os "cowboys" da vila, e... nada menos que na noite de Natal!!!
Mas, passemos a palavra ao impagável Francisco Justiniano de Castro (com a sua ortografia muito peculiar):
"Dia 24 de Dezembro [de 1900], à noite, na ocasião em que se intrava para a missa do gallo veio uma malta da corredoura armada de paus e foices dando vivas à rapaziada da corredoura... também andarão pelas ruas a dar os mesmos vivas feitos pimpões e no adro quando estava o abbade a dar o menino deos nacido a beijar ó altar armarão um grande barulho que athe ouve tiros de revolve, e querião matar o António da Assumpção Albardeiro que o admnistrador e o filho e o polícia nº. 8 virão-se parvos para os acomodar que athe quizerão bater ó administrador e depois na praça tornou áver outra desordem, e também tiros de revolve, os fridos que aparecerão forão o filho mais velho de Luis Patuleia que lhe abrirão a cabeça com uma arrochada, e com o jaquetão e a faixa furada por uma bala; e o filho do Sebastiãozinho Pastor da cordoura também com um tiro no braço esquerdo, e o filho mais novo do Luis Patuleia também com a cabeça rachada, o snr. Administrador mandou alevantar um auto de investigação mas as testemunhas que depuzerão nem uma viu quem deu os tiros, nem quem bateu".
in: "Moncorvo, fim de século. Caderneta de Lembranças". Transcrição dum manuscrito e notas do Doutor Águedo de Oliveira" - Edição dos "Amigos de Bragança", 1975.










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