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terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Violante Gomes, a "Pelicana" - III

[Continuação do post de 11.01.2010]

Vejamos agora a obra Príncipes de Portugal, Suas Grandezas e Misérias, de Aquilino Ribeiro.
(Na sua nota de advertência ao leitor, os editores informam que o critério de Aquilino Ribeiro foi o do romancista: interessou-lhe tudo o que não é comum).
Revisitado o seu ensaio : António I, Rei Efémero, verifica-se de imediato que Mestre Aquilino não foi nada meigo para com os progenitores do Prior do Crato. Logo de entrada e sem mais delongas, mimoseia D. Luís com os epítetos de:
“(…) medíocre de entendimento, sagaz no viver, piedoso mas com boa dose de hipocrisia, acrescentando:
“(...) ele é o perfeito filho segundo de monarcas, tipo acabado de parasita nacional”.
É com fina ironia que remata , dizendo o que dele ficou para a História :
“(...) era pessoa de muito saber, amador de música (...)” e pouco mais.
Sobre Violante Gomes não é muito mais brando. No entanto, na voz de Aquilino perpassa um certo tom de pesar pelo que o destino reservou à bela e infeliz Pelicana: “(...) uma Violante Gomes, judia bonita e salerosa, alcunhada no bairro de Pelicana e ainda de Pandeireta, que [D.Luis] fez claustrar no Convento de Santa Maria de Almoster, quando se saciou dela e para atalhar ao engulho dos reais parentes que não podiam levar à paciência ter-se metido com uma criatura tão baixa e para mais rescendendo todos os ranços da Sinagoga”.

Quanto à tragédia, O Indesejado (António, Rei) de Jorge de Sena, obra grande no cenário da Literatura Portuguesa, buscaremos as palavras que o autor escreveu no Pós-Fácio: Esta peça é uma tragédia, uma tragédia histórica. Uma tragédia em verso. (…) Sendo a tragédia a representação simbólica de uma crise dialética … (p.153)
Qual a crise dialética nesta tragédia? Os gregos chamavam hamartia à culpa que o herói carregava sobre si, mas que herdara dos antepassados. D. António é o filho bastardo, o filho de D. Luis, sim, mas também o filho da Pelicana, da Pandeireta. Ele é, pois, o bode expiatório do pecado dos pais. É o próprio Jorge de Sena quem nos diz:
O Prior do Crato sofre as consequências de seu nascimento, da legitimidade duvidosa de sua pretensão. (p.154)
A explicação surge logo no 1.º Acto, em diálogo entre D. António e o Bispo da Guarda, seu fiel seguidor:
D. António: (...) E eu sou um homem. Que sou mais que um homem?
Que uma ambição lutando contra tudo (…).
Bispo : (...) Se tivéssemos
Com que comprar todas as memórias,
todos se lembrariam de nós.
Perdão, senhor, de vós, do vosso nome.
D. António: Qual? O que minha mãe não me concede?
E tantos me contestam?
Bispo: Esse ou outro.
Ninguém, senão a Igreja nos baptiza.
O resto: alcunhas, quando não são títulos.
D. António: Alcunhas (... ) “Pelicana” ( ...) ” Pandeireta” (...)
Bispo : Nomes de vossa mãe (... )Deixai que falem!
Judeu, bastardo – tudo vos chamaram. (pp.23-24)
D. António, o bastardo, o não legitimado, sente que tem de salvar o seu povo. É essa a sua missão. Mas é, ao mesmo tempo, um homem indeciso, inseguro.
D. António: (...) E sou tão frágil eu, nesta aventura.
Que só por ambição ainda flutuo ... (p.24)

Olhando para o Homem que carrega, qual cruz, a culpa legada por seus pais e que se move entre a ambição e a fragilidade, sentimos que é aí que reside o trágico. Portanto, o fado, a moira terá de cumprir-se: derrotado, não será rei.
Muito, muito mais há a dizer sobre esta obra imensa, mas que não cabe no objectivo nem no âmbito deste pequeno escrito.

Temos agora na nossa frente a peça de teatro de Jaime Gralheiro, A Longa Marcha para o Esquecimento.
À minha pergunta se classificaria a Longa Marcha como farsa ou como tragi-comédia, o autor respondeu-me sem hesitar: tragi-farsa.
E porque introduzi esta tragi-farsa, justamente a seguir à tragédia de Sena?
A obra foi escrita a propósito de grandes homens que deixaram obra notável e hoje estão totalmente esquecidos. Para concretizar este objectivo, o autor lançou mão da crise dinástica de 1580, com os seus traidores, os vira-casacas do tempo, o seu herói, D. António, e a sua ascendência, particularmente sua mãe.
O autor considera que a nobreza atribuiu tão pouca importância à mãe do Prior do Crato que produz o seguinte diálogo entre um nobre – que nem sabe ao certo o nome da mãe de D. António - um mercador e um clérigo, ou seja, os representantes das três classes sociais. As franjas, isto é, a plebe também está em cena, mas não dialoga. Escuta e dá vivas:
Real! Real! Por D. António, rei de Portugal! (p.4)
Nobre: Bom! D. António, Prior do Crato, é filho do Infante D. Luis, irmão do sr. Rei D. João III, que Deus guarde, e de uma tal Guiomar...
Clérigo: Filho do pecado!...
Mercador: Eu diria... filho do amor...
Nobre: Não! Não! Filho do pecado... Diz bem o Sr. Padre Francisco: filho do pecado.
Mercador: Pronto! Fica filho do pecado. E depois?...
Nobre: Como filho ilegítimo que é, está impedido de ser rei de Portugal...
Mercador: Ah! Quer dizer: os filhos da puta não têm lugar neste país . (pp.5-6)
Depois de o Nobre e o Clérigo se terem escandalizado com tal linguagem, ao que o mercador responde: “É a linguagem da gente da minha terra” (p.6) continua perguntando aquilo que realmente lhe interessa: se o Prior do Crato tem dinheiro para aguentar o comércio das Indias, para a guerra contra Filipe II, para a crise em que o país está ... Todos se calam, mesmo os que aclamavam D. António como rei. Chega então Cristóvão de Moura que distribui moedas de ouro às mancheias a toda a gente e logo o grito de todos passa a ser:
Real! Real! Por D. Filipe, rei de Portugal! (p.20)

Talvez o leitor se pergunte se esta peça tem lugar neste trabalho, ou se terá sido trazida aqui para chocar pela linguagem. Primeiro, esta linguagem hoje não choca ninguém. Segundo, que querem dizer sábios historiadores e doutos investigadores ao apodarem Violante Gomes de “concubina, amante, mulher ignóbil, criatura baixa, mulher de vida incerta”? Nem mais nem menos do que aquilo que Jaime Gralheiro pôs na boca do mercador.
Por outro lado, Gralheiro escreveu a Longa Marcha mantendo um pé na crise de 1580 e o outro na crise (ou na sequência de crises) que o país vem atravessando. Relembremos ainda que na crise de 1383-85, D. João I, apesar de filho ilegítimo de D. Pedro I, fora eleito rei de Portugal. A questão da legitimidade nunca então foi posta, nem houve aproveitamento da origem social da mãe para a cobrir de insultos e, por essa via, denegrir o futuro rei. Contudo, se o caso era rigorosamente paralelo, em termos pessoais, ao de D. António, era muito diferente em termos conjunturais.

Por: JÚLIA DE BARROS GUARDA RIBEIRO
[continua]

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Violante Gomes, a "Pelicana" - II

[continuação do post de 2010.01.09]

> Retrato de D. António, prior do Crato, filho de Violante Gomes, numa gravura posterior que o apresenta como D. António I, rei de Portugal e dos Algarves.



Quanto ao Quadro Histórico (1601-1660) que nos é apresentado por Camilo ( já D. António havia morrido em 1595, no exílio em Paris, na mais triste pobreza ), ainda está bem vivo o ódio do Escritor não só pelo derrotado Prior do Crato, mas por toda a sua descendência e ainda pelo Infante D. Luís, seu pai, a quem apoda de vil, infame e pérfido, ao contrário dos historiadores que consultei e que tecem rasgados elogios a este príncipe.

Porém, é Camilo quem, numa longa nota de rodapé (pp.112-119) nos dá uma assaz convincente opinião sobre a Pelicana e o seu casamento com D. Luís. Ouçamos, pois, o escritor: “Violante Gomes (...) Digo suposta judia, porque apesar da quase unanimidade dos historiadores, creio que Violante Gomes era christã velha. O pae de Violante era Pêro Gomes que residia em Évora em junho de 1554. (...). Os que dizem que Violante professou em Almoster e ao mesmo tempo a reputam judia, não reparam na incompatibilidade da profissão com o sangue inquinado. É certo, porém, que Violante nunca professou.
Esteve alguns anos em Vairão, e d’ahi passou para Almoster, onde morreu [em 1568], sobrevivendo quatorze anos ao infante.
Para muita gente está ainda indeciso se D. Luiz casou ou não casou com a mãe de D. António. Os documentos officiaes convencem de que não houve um casamento canonicamente válido; mas eu pendo a crer que houve um casamento simulado, uma fraude pouco menos de infame, uma perfídia para remover as dificuldades que Violante punha a deixar-se possuir. As minhas suspeitas esteiam-se em um documento coevo em que Pedro ou Pêro Gomes, pai de Violante, é nomeado sogro do Infante D. Luiz. No livro dos baptizados de uma freguezia de Évora lê-se o seguinte assento:
"Em 15 de julho de 1544, baptizou o bacharel della (da parochia, o Padre Diogo VidaL, a Luiz filho de uma escrava de Pêro Gomes sogro do infante D. Luiz, foram padrinhos (…), e por verdade assigneij. Diogo Vidal Cura (…)" [1].
Se aqui não há falsificação contemporânea a fim de fortalecer as pretensões de D. António à legitimidade em 1580, este documento tem grande valor para justificar a desmoralização do infante e a resistente virtude de Violante, enganada vilmente pelo aparato de um casamento em que também foi enganado o pai da atraiçoada e o cura que baptizou o filho da escrava. (…). Estes casamentos com falsos padres clandestinamente não eram extraordinários na sua sociedade”.
(Fim da citação da longa Nota de Camilo).


O mesmo assento de baptismo é transcrito de Camilo pelo Abade de Baçal que na sua obra “Memórias Arqueológico-Históricas do distrito de Bragança - Os Notáveis”, (Tomo VII, p.212), dele faz leitura bem diversa: “Este documento constituirá uma prova esmagadora a favor da legitimidade de D. António se realmente não foi forjado para reforçar as pretensões de D. António ao trono português”.
É esta também a opinião de Veríssimo Serrão e de vários investigadores. Aliás, este historiador, a começar pela a sua tese de doutoramento, tem procurado, com o seu labor, pesquisa e estudo aturado de documentos da época em Portugal e no estrangeiro, muitos deles inéditos, dar continuidade àquilo que o Visconde de Faria começara e a que podemos chamar a reabilitação da figura de D. António, muito denegrida durante a dinastia filipina, pois poucos historiadores se tinham interessado verdadeiramente por trazer luz a esta figura que tanto tempo permaneceu obscura, desgarrada e de tal modo esquecida que os seus ossos ainda repousam fora da Pátria.
Todavia, esta questão foi aqui trazida, não para confirmar ou infirmar historicamente da legitimidade do Prior do Crato, mas porque, do ponto de vista literário, é sempre essencial aclarar ideias sobre o carácter e o modo de ser das personagens. Neste caso, os heróis, infelizes e trágicos, seriam D. António e sua mãe, Violante Gomes.

Passemos a Júlio Dinis e ao seu Escrito Incompleto. Trata-se apenas de um esquema, nada mais que 16 páginas, orientadas talvez para novela, talvez para teatro. Júlio Dinis, nesta mancheia de páginas, é o único escritor a mencionar o nome de Marta de Évora, de quem há remotas suspeitas que possa ter sido a mãe de Violante Gomes. Historicamente nada se sabe da mãe da Pelicana e na Geneall está representada por um N, o que significa "Não Conhecida, Incógnita".

A ter Júlio Dinis concluído a obra em mente, qual teria sido a acção principal? Quais as acções secundárias? Como se teria desenvolvido o enredo? É que, para além da existência de Marta de Évora (supostamente filha bastarda de D. Diogo, duque de Viseu, irmão da rainha D. Leonor e de D. Manuel, assassinado por D. João II), criada como filha por Briolanja Henriques - personagem esta que é referida por Garcia de Resende na sua Crónica “Vida e Feitos de El-Rei D. João II”, e que poderá ser extremamente importante em todo o enredo e talvez mesmo na vida de Violante Gomes - o autor sugere que Marta estaria destinada pelo rei a casar com Antão de Figueiredo, seu camareiro, mas que, por oposição da Rainha a tal casamento, acabaria a donzela por casar com Pedro ou Pero Gomes, que foi pai de Violante Gomes.
Porém, para além desta história, há ainda outro mistério a desvendar: o rapto de uma judia de nome Ester pelo Infante D. Afonso, filho de D. João II e herdeiro da coroa, o qual veio a morrer da queda de um cavalo junto da Ribeira de Santarém. O que teria acontecido a Ester, raptada e violada pelo príncipe herdeiro e, ao que tudo indica, logo oferecida a Antão de Figueiredo?
E não são os únicos estes dois núcleos de acção. Outros parecem delinear-se, como o destino de D. Jorge, filho bastardo de D. João II, criado por sua tia, a Infanta D. Joana de Aveiro. Por morte desta, seu pai, o rei, não sem oposição da rainha D. Leonor, decidiu trazê-lo para a corte.
Bem como o destino de D. Afonso, outro filho bastardo do mesmo D. Diogo, Duque de Viseu, portanto irmão de Marta de Évora, e criado em Pinhel às escondidas do rei.
Ou o destino de uma outra criança, D. Beatriz, filha do Duque de Bragança, decapitado em Évora, e que a rainha D. Leonor protegia.
Todos estes fios e estas vidas parecem entrelaçar-se, só não sabemos como Júlio Dinis o teria feito.
Mas que têm estas dramáticas intrigas a ver com Violante Gomes? Apenas o seguinte: se todas as personagens e factos descritos e sugeridos por Júlio Dinis são verdadeiros ou têm a sua base histórica, porque o não seria Marta de Évora?
Assim, pelo menos a Literatura poderia ter um nome para atribuir à mãe de Violante, e um nome de linhagem real, além de uma alcunha.[2]
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[1] Peço desculpa por colocar esta nota num post do Blog. Mas penso que aqui impõe-se o esclarecimento seguinte:

Este assento de baptismo, de que muito se tem falado ultimamente, como tendo sido descoberto por Luís de Mello Vaz de São Payo e apresentado em um estudo recente (?): D. António, Prior do Crato e Outros Cavaleiros da Ordem de S. João, 1997, e que seria importantíssimo para provar a legitimidade do Prior do Crato, não parece ser uma descoberta assim tão recente. Deste estudo não achei rasto. Mas o mais curioso é que Veríssimo Serrão nos diz que o documento em causa foi descoberto por António Francisco Barata que dele falou a Camilo, tendo sido divulgado em primeira leitura por este escritor. Afirma que nele não consta (…) Pero Gomes sogro do Iffante dom Luís (…), mas sim (…) Pero Gomes sobrinho do Iffante dom Luis (…). Francisco Barata sustenta que no séc. XVI viveram muitas famílias de apelido Gomes na cidade de Évora e poderá tratar-se de um sobrinho de Violante Gomes, o qual seria também sobrinho por afinidade de D. Luís. Veríssimo Serrão não crê que o documento tenha sido forjado, mas admira-se que, escondendo D. Luís o seu casamento com a Pelicana para não ferir D.João III, o Piedoso, como permitiu que o seu nome figurasse naquele papel? Remata dizendo: A menos que D. Luis não se encontrasse presente na cerimónia do baptismo. Cf. Veríssimo Serrão em: O reinado de D. António, Prior do Crato, Coimbra, 1956, pp. LXIII-LXIV. Este assento não só está no livro competente, mas também se encontra copiado na Biblioteca de Évora no Códice CIII /1-17, fl. 56.

[2] Desculpem mais outra Nota. Prometo que não haverá mais:

Inúmeras vozes vêm sugerindo que D. Briolanja Henriques, que terá criado Marta de Évora, a terá ensinado a tocar pandeiro tendo, por isso, a menina recebido a alcunha de “Pandeireta” e terá passado essa alcunha a sua filha Violante. ( Ver: «Marta de Évora - Debate sobre a “Legitimidade de D. António, Prior do Crato”», in Geneall-Forum - Geneall.pt/Geneall.net/ Fórum/ Guarda-Mor/Livraria).

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Por: JÚLIA DE BARROS GUARDA RIBEIRO
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[CONTINUA]

Etarras detidos em Torre de Moncorvo encontram-se em Lisboa


> Recorte de notícia de 1ª. página do jornal "i", de hoje (11.01.2010)

Os dois suspeitos "etarras" capturados em Torre de Moncorvo, ao início da noite de 9.01.2010, encontram-se desde ontem em Lisboa, para onde foram conduzidos a fim de serem ouvidos no Tribunal Central de Instrução Criminal. Sabe-se agora que os referidos suspeitos são Garikoitz García Arrieta e Iratxe Yañez Ortiz de Barron, sendo esta considerada "a mais perigosa" e tida como suspeita de participação nos atentados de Burgos (Julho de 2009) e de Maiorca.

A perseguição terá começado em Bermillo de Sayago (Zamora), quando a Guardia Civil espanhola achou suspeita uma carrinha de matrícula francesa (a qual se verificou depois que transportava componentes para fabricação de explosivos), pelo que a mandou parar. Nessa ocasião o condutor (García Arrieta) apoderou-se da viatura da Guardia Civil e escapou-se rumo à fronteira portuguesa onde entrou por Bemposta. A Guardia Civil entrou em comunicação com a GNR e a perseguição continuou do lado de cá, com meia-dúzia de viaturas a seguirem os suspeitos a grande velocidade, tendo culminado à entrada da vila de Torre de Moncorvo, onde foram disparados tiros de intimidação contra um dos fugitivos. A mulher logrou escapar e acabaria detida já no concelho de Vila Nova de Foz Côa, na zona do Pocinho, segundo se comentou em Moncorvo.
É de esperar que os suspeitos, uma vez cumpridas as formalidades da lei portuguesa, venham a ser extraditados para Espanha, o que já foi solicitado pelo Ministro do Interior espanhol, Alfredo Pérez Rubalcaba. Esta decisão é contestada pela Associação de Solidariedade com Euskal Herria (País Basco), uma organização portuguesa de simpatizantes com o movimento separatista basco.

Para mais informação sobre este caso, ver:
Agência LUSA: http://www.google.com/hostednews/epa/article/ALeqM5jbSrHqJenHbPYkEcWyeUSLNi5PFg

RTP (Rádiotelevisão Portuguesa):
http://tv1.rtp.pt/noticias/index.php?t=GNR-confirma-prisao-de-dois-presumiveis-terroristas-da-ETA.rtp&article=309241&layout=10&visual=3&tm=8

TSF online (Rádio):
http://tsf.sapo.pt/PaginaInicial/Portugal/Interior.aspx?content_id=1466340

"Correio da Manhã":

domingo, 10 de janeiro de 2010

Moncorvo é notícia: capturado casal de "etarras"

Foi hoje notícia de abertura de telejornais: um casal de alegados membros da organização separatista basca ETA entrou em Portugal pela fronteira de Bemposta e, tendo passado por Mogadouro, viriam a ser capturados pela GNR de Moncorvo, depois de comunicações com a Guardia Civil espanhola. O caso deu-se pela hora de jantar do dia de ontem, e, segundo alguns testemunhos locais, chegou a haver troca de tiros. Houve que dissesse que o "etarra" trazia uma metralhadora, o que afinal não era verdade (os boatos, nestas circunstâncias, propagam-se logo!)
Falou-se numa viatura com explosivos que teria sido abandonada ainda em território espanhol, após o que os operacionais da ETA teriam fugido, um deles numa viatura da própria Guardia Civil espanhola (a fazer fé num dos relatos), e a mulher noutra viatura ligeira com matrícula francesa, que viria a ser detida no Pocinho.
Segundo os noticiários dos principais canais de rádio e TV portugueses, o casal detido foi encaminhado para Lisboa, onde será interrogado e, naturalmente extraditado para Espanha.
Para saber mais: http://tv1.rtp.pt/noticias/?headline=46&visual=9&tm=7&t=ETA-queria-criar-uma-infraestrutura-em-Portugal-desde-2007-explica-imprensa-espanhola.rtp&article=309449
(e ver na coluna do lado direito a secção: "Notícias sobre Torre de Moncorvo no Google")

Este caso faz-nos lembrar a detenção, também em Moncorvo, em 1968, dos membros da LUAR, que se dirigiam para o assalto ao quartel de Castelo Branco, liderados pelo célecre operacional Palma Inácio. Depois de uma fuga para a zona da "fragada" dos Estevais/Cardanha a GNR local (e dos concelhos vizinhos), empreenderam uma verdadeira "caça ao homem", tendo capturado os chamados "terroristas", os quais foram entregues à polícia política (PIDE), que os encaminhou para Lisboa. Palma Inácio faleceu em Julho do ano passado, tendo sido lembrado aqui no blogue pelo colaborador Rogério Rodrigues - ver: http://torredemoncorvoinblog.blogspot.com/2009/07/morreu-palma-inacio.html

Nevão pinta de branco toda a região

A vaga de frio também chegou às terras de Moncorvo. Depois de dois dias/noites de tiritar, com fortes geadas, hoje, pouco depois do meio-dia principiou a nevar fortemente. Pelo meio da tarde o espectáculo era o que se vê na fotos (clicar sobre as mesmas para ampliação):


Torre de Moncorvo - vista do lado Nascente, na tarde deste dia (foto de Camané Ricardo)
Vista a partir das Aveleiras, hoje à tarde (foto de Engº Afonso Calheiros e Menezes)

Praça Francisco Meireles, com chafariz filipino (foto de N.Campos)

Praça F. Meireles, Tribunal (foto N.Campos)

Paços do concelho (foto Afonso Calheiros)

Crianças e jovens, brincando na neve no adro da igreja (foto N.Campos)

Adro da igreja e largo Dr. Balbino Rego, com edifício do Museu do Ferro & da Região de Moncorvo (foto de Afonso Calheiros)

Solar de Santo António (foto de N.Campos)
E.N. 220 de T. de Moncorvo para Mogadouro, na curva da Quinta d'Água (foto de Afonso Calheiros)

Um trecho de Mós, zona da Travessa, no dia 10 de Janeiro do corrente (foto de Dr. Carlos Sambade, a quem se agradece a sua cedência). Comentário do autor da foto: "desde 1966 que não se via nevão assim [em Mós]"

sábado, 9 de janeiro de 2010

Quem foi Violante Gomes, a Pelicana? - I

Durante anos e anos ouvimos a tradição segundo a qual uma moncorvense de rara beleza, de seu nome Violante Gomes, de alcunha "A Pelicana", chamara a atenção do infante D. Luís, que por ela se perdera de amores, mal a vira, ao passar pela nossa vila, num belo dia de feira, das famosas e grandiosas feiras que então se faziam em Torre de Moncorvo, pelos idos do séc. XVI. O príncipe levou-a para a corte, para ser aia de sua mãe, a rainha, e, desses amores nasceu um filho, que viria a ser D. António, Prior do Crato, candidato a rei na conjuntura que sucedeu à morte (ou desaparecimento) de D. Sebastião, defrontando o todo-poderoso Filipe II de Espanha. O povo até indica a casa onde nasceu e viveu a dita Pelicana (talvez filha de cristãos-novos). E, por esse facto, um dia, a Câmara Municipal de Torre de Moncorvo, já no séc. XX, resolveu renomear a antiga Rua de Trás, designando-a por Rua de D. António Prior do Crato, que assim se mantém, tal como a dita casa (apesar de já rebocada com cimento, desde há muitos anos), onde se impunha uma placa evocativa. - O que há de verdade nesta tradição? Era mesmo daqui a dita Violante Gomes? Terá Moncorvo a glória de ser o berço da mãe de um rei (já que D. António chegou a ser aclamado como tal, em Santarém, e até cunhou moeda, tendo resistido nos Açores, depois de perder a batalha de Alcântara)? Para nos responder a estas questões, aqui damos início a um conjunto de "post's", de autoria da Drª. Júlia de Barros Guarda Ribeiro, ilustre colaboradora deste Blogue, revelando o que até agora conseguiu apurar sobre esta matéria:
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Comecei a pensar em escrever sobre Violante Gomes, a Pelicana, há certamente mais de 10 anos, em resposta ao desafio do Sr. Engenheiro Aires Ferreira, Presidente da Camara Municipal de Moncorvo, pois reza a tradição que ela terá nascido nesta vila transmontana. Para além da tradição, há ainda alguns indícios que tendem a apontar no sentido de algo mais do que a simples tradição.

Pinho Leal (mais tarde citado pelo Abade de Baçal) escreve na sua obra “Portugal Antigo e Moderno” – “Moncorvo ou Torre de Moncorvo- Vol. V, p388, 1875, o seguinte:
“Consta que era natural de Moncorvo, a célebre Violante Gomes (a Pelicana) amante (alguns dizem mulher) do Infante D. Luis, filho do rei D. Manuel, e mãe do infeliz e mal aconselhado D. António I, o prior do Crato”.
E em “GENEALL-Famílias e Costados”, Violante Gomes é dada como natural de Moncorvo:

Geneall.pt Geneall.net Índice Fórum Guarda-Mor Livraria

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Violante Gomes, a "Pelicana"

* Torre de Moncorvo, Torre de Moncorvo c. 1510 + Almoster 16.07.1568

Pais

Pai: Pedro Gomes
Mãe:
N

Casamentos

Évora?
D. Luis, infante de Portugal, 5º duque de Beja * 03.03.1506

Filhos

D. António, prior do Crato * 1531

Notas Biográficas

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Seria interessante para Moncorvo conseguir provar-se que a bela Pelicana aqui nasceu e, mais interessante ainda, conseguir desenrolar-se o fio de tão enredada meada e ir puxando uma ponta até termos na mão, se não todos, pelo menos, alguns dos factos que marcaram a sua vida e que pudessem levar-nos à sua biografia.

Porém, a expressão de Pinho Leal: “consta que”, não é prova válida e quanto à “Nota Biográfica” in “GENEALL.pt” impõe-se uma pesquisa muito aturada.

Entretanto, venho lendo estudos, capítulos e páginas de historiadores, investigadores e estudiosos e descubro que, nas suas obras e escritos vários, apresentam apenas uma ou duas linhas sobre Violante Gomes e ainda o fazem sempre indirectamente, uma vez que a figura estudada é seu filho, D. António, Prior do Crato e, menos frequentemente, o Infante D. Luis, pai do mesmo D. António. O denominador comum entre todos esses historiadores e estudiosos é o complexo processo da legitimidade ou ilegitimidade do Prior do Crato. Daí dependeria a razão de ser da sua candidatura ao trono de Portugal, deixado vago após Alcácer-Quibir e, pouco depois, a morte do Cardeal D. Henrique. Só a este propósito se lêem algumas palavras, às vezes, uma breve anotação sobre a bela Pelicana.

Ora, a curiosidade aguça-se justamente porque Violante Gomes é por uns ignorada, por outros apelidada de judia, cristã-nova, cristã-velha, por aqueloutros de mulher de vida incerta, plebeia, concubina, e até prostituta. (Deparei com este insulto em alemão, escrito por um soldado mercenário bávaro, Franz Hunnerisch, que lutava com as tropas do rei Filipe, contra D. António: “Don Athoni.../Kham von khoniglichen stamen her/ Von einer Judiam in uneher/ Aus hurnerey kham er auff (…)“. Em português : “D. António/ vem de tronco real/ de uma judia amancebada/de prostituição ele vem (...)”. - “Über die Eroberung Portugals durch Philipp II, im Jahre 1580” [“Acerca da conquista de Portugal por Filipe II no ano de 1580”], in Revista da Universidade de Coimbra, vol. XII, p. 927. Se os soldados de Filipe II até cantavam esta toada, é porque o insulto corria livremente).

Outros lhe chamaram dama da pequena nobreza, cristã, esposa, Pelicana, Pandeireta...

Perante este cenário, decidi escrever um pequeno artigo para a revista do nosso velhinho Colégio, focando o olhar não nos escassíssimos e contraditórios dados históricos sobre a “fermosa Pelicana”, mas sim no que sobre ela pudesse encontrar na Literatura.

Para além do facto de, na História de Portugal, Violante Gomes não passar da obscuridade nas margens dessa mesma História, há outra razão pela qual dei outro enfoque a esse escrito. Razão simples mas muito forte: não tendo eu formação específica em História, em vez de meter a foice em seara alheia, voltei-me para uma seara que me é mais familiar: a Literatura.

Porém, após leitura e/ou releitura das obras que, em seguida, vou registar, observei que também no campo literário, Violante Gomes surge figura nebulosa e, em muitos aspectos, contraditória. Há obras em que nem como figurante ela nos aparece. Sobre seu filho D. António há volumes e volumes em português, francês, italiano, espanhol. Sobre a Pelicana, como figura central, rigorosamente nada.

São estes os títulos das obras que li/reli e sobre as quais procurarei tecer algumas considerações (no final, se for caso disso, tentarei inferir algumas ilações):

- Virginia de Castro e Almeida , A História Mais Triste de Tôdashistória infanto-juvenil, n.º 35 da Coleccção Pátria, editada pelo S.P.N., ( Secretariado Nacional de Propaganda),1943.

- Camilo Castelo Branco, D. Luis de Portugal, neto do Prior do Crato, Quadro Histórico (1601 -1660), Livraria Chardron, Lello & Irmão, 2.ª ed., Porto, 1896.

- Júlio Dinis, Inéditos e Esparsos, Secção: “ Escritos Incompletos”, Porto, 1910, pp. 580-596

- Aquilino Ribeiro, “António I, o Rei Efémero”, in Príncipes de Portugal – Suas Grandezas e Misérias, Lisboa, Livros do Brasil, 1952, pp. 195-217.

- Jorge de Sena, O Indesejado (António, Rei), tragédia, Edições 70, 3ª ed., Lisboa, 1986. (escrita entre Dez. de 1944 e Nov. de 1945, publicada em 1951; representada em Portugal em 1986).

- Jaime Gralheiro, A Longa Marcha para o Esquecimento, tragi-farsa, publicada e representada em 1988/89 pelo Círculo Experimental de Teatro de Aveiro.

- Fernando Campos, O Lago Azul, romance histórico, DIFEL, Lisboa, 2007.

- Urbano Tavares Rodrigues, Os Cadernos Secretos do Prior do Crato, novela, Lisboa, Ed. D. Quixote, 2007.

Julgo que a amostra apresentada, ainda que reduzida, comporta uma razoável variedade de géneros literários e abarca um período de mais de 100 anos, o que me parece tempo suficiente para se terem apaziguado paixões, diluído ódios e amores e aclarado ideias.

Comecemos pela pequena história infanto-juvenil que li pelos meus 9 anos. Chamava-se A história mais triste de todas e falava-nos das lutas do Prior do Crato pelo trono de Portugal contra Filipe II de Espanha, depois Filipe I de Portugal, e da sua derrota frente ao poderoso exército comandado pelo Duque d’Alba.

(Estes livrinhos, que enalteciam determinadas figuras históricas, eram enviados às Escolas Primárias e distribuídos gratuitamente pelos alunos da 4ª. classe. A história mais triste de todas”, tinha o n.º 35, da Colecção Pátria, ed. S. P.N. [Secretariado de Propaganda Nacional] 1943).

Da autoria de Virgínia de Castro e Almeida, o nome de Violante Gomes é aqui simplesmente omitido. D. António é o herói, o rei que a Pátria desejava e que o povo aclamava. Mas havia questões legais a ultrapassar. Ora, tendo a escritora assumido que esse herói não era filho de um legítimo matrimónio, o nome da mãe é escondido. Assim, a autora, não vê outra saída airosa senão escrever que D. António era filho natural do grande, mui culto e generoso Infante D. Luís. O nome do pai, porque príncipe, estava ali, engrandecido. Nem outra coisa seria de esperar, pois estava-se em pleno Estado Novo e a nova trindade era Deus, Pátria e Família. Família legítima, entenda-se. Portanto, de Violante Gomes, nem uma palavra.

(Para mim, como para qualquer outra criança de 9/10 anos, era absolutamente claro que o filho de D. Luís fosse natural. Simplesmente desconhecíamos o sentido tão camuflado da palavra. E não é para admirar: no Grande Dicionário de Morais, só à 20ª entrada do adj. “natural” é que vem o sentido de “filho ilegítimo”; no Houaiss nem aparece esse sentido e, buscando num dicionário corrente, o Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora, 5ª Edição, s/d, tal sentido também não aparece. As crianças não compreendiam por que razão o Prior do Crato não podia ser rei).

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Por: Júlia de Barros Guarda Ribeiro

[CONTINUA]

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

A Parábola dos três desejos

Suponhamos que o génio é Bruxelas, que a velha decrépita é Portugal, que a cama são os fundos comunitários e que o gato é o nosso futuro muito mal acautelado pelo passado. É uma parábola e todas estas suposições são susceptíveis de ser contrariadas ou mesmo interpretadas de modos muito diferentes. A minha leitura da parábola não passa de uma interpretação altamente subjectiva, muito motivada pelas previsões do professor Karamba. Aí vai então a parábola:


Ainda não há muito tempo, havia uma velha muito decrépita, quase tão secular como o país, que vivia com um gato, a sua única e desinteressada companhia. Um dia o gato, por distracção, destapou um jarro na sala de jantar. E do interior do jarro saiu um génio libertador que disse à velha decrépita: “Pede-me três desejos e eu conceder-tos-ei”. A velha, perturbada, pediu: “ Faz-me jovem e bela”. E assim se fez. “O teu segundo desejo”. “Uma cama, uma grande cama, como espaço de prazer”. E assim se fez. “Pede-me o último desejo”. E a bela jovem reclinada no leito a rescender a sensuais penumbras, pediu: “ Transforma o meu gato num jovem belo”. E assim se fez. E o génio libertador deixou para sempre o jarro destapado na sala. E nessa noite o quarto estava enfeitado de sonho e memória de longos e havidos anos.
Deitaram-se os dois jovens na cama. E já com a luz apagada e quando cometas brilhavam nos olhos, o belo jovem desatou à gargalhada. “De que te ris?”, estranhou a bela jovem. “Querida, esqueceste-te que me tinhas castrado enquanto gato”.

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