[Continuação do post de 12.01.2010]
Para tentar atar todas estas pontas ou, pelo menos, algumas delas, haverá que responder a algumas perguntas:
Quem foi a mãe de Violante Gomes? Não há mais do que um leve indício, ainda que os intervenientes em Geneall–Forum, insistam neste ponto: Marta de Évora, filha de D. Diogo, Duque de Viseu, seria a mãe de Violante Gomes. Todavia, ao lado de opiniões equilibradas, ponderando documentos, indícios, sinais, acontecimentos históricos, penso que surgem neste debate ideias peregrinas que, por vezes, quase atingem as raias do delírio.
Onde nasceu? Três terras se reclamam de ser seu berço:
> Torre de Moncorvo, hipótese sustentada por Vilhena Barbosa e por Pinho Leal, citados pelo Abade de Baçal, e pela tradição da vila, onde é voz corrente que aqui nasceu a “bela Pelicana” e nos é apontada a casa em que terá nascido. Também na ficha biográfica de Violante Gomes que se encontra em Geneall (Web), aparece Torre de Moncorvo como o lugar do seu nascimento.
A breve nota sobre Violante que Pinho Leal nos apresenta no seu “Portugal Antigo e Moderno” é demasiado vaga para poder ser considerada como prova histórica. Mas, se à luz da História está longe de poder ser aceite como prova, vem, no entanto, corroborar a tradição.
O PARM (Património Arqueológico da Região de Moncorvo) e o site sobre Moncorvo fazem-se eco destes informes.
Há, também, uma interessante versão romanceada num artigo do jornal "Terra Quente", que segue a tradição e acompanha o artigo uma fotografia da casa onde terá nascido a Pelicana.
Quanto às minhas pesquisas, lamento dizer que apenas encontrei uma Violante Gomes ligada a Moncorvo pelo casamento de uma filha com Francisco de Arosa Pinto, desta vila. Outros Arosas Pinto de Moncorvo surgem nessas páginas. Nada têm a ver com Violante Gomes, a Pelicana. A obra em causa intitula-se “Pedatura Lusitana”.
Todavia, a História diz-nos que D. Manuel I, apaixonado pela viúva do Príncipe D.Afonso, D. Isabel, filha dos Reis Católicos, decidiu casar com ela. Para comprazer os sogros, mandou expulsar os judeus e confiscar-lhes os bens, investigar , prender e torturar cristãos-novos que, às escondidas , continuariam a praticar os seus ritos religiosas, e queimar os relapsos. Por isso, julgo que não poderá excluir-se a hipótese, bem plausível, de que precisamente devido a essa vasga de perseguições, Marta de Évora e seu marido Pedro Gomes, tenham procurado refúgio junto de parentes ou amigos, no norte do país, e por que não, em Moncorvo? Aqui terá nascido Violante Gomes.
> Évora, é a terra onde vive seu pai, Pedro ou Pero Gomes, e onde, sua suposta mãe, Marta de Évora, terá sido criada por D. Briolanja Henriques, filha de D. Fernando Henriques, 2º senhor das Alcóçovas e de Branca de Melo, senhora de Barbacena, casada com Aires de Miranda, alcaide-mor de Vila Viçosa. O Infante D. Luis era Duque de Beja e muito se alongava pelo Alentejo, até porque a corte também pousava com frequência por terras de Montemor, Évora, Beja...
Por outro lado, parece que toda a família de Violante era de Évora e/ou vivia em Évora. (Violante Gomes teria uma irmã, Clara Gomes, e sobrinhos, entre os quais Frei Diogo Carlos, teólogo e orador, que acompanhou o primo D. António no exílio e, em Paris, lhe redigiu o testamento).
Esta hipótese, historicamente, até pode ser convincente. Mas, obviamente, não é a única.
> Covilhã, ao que tudo indica, fundamenta a sua pretensão no facto de D. Luís ser senhor da Covilhã, como era senhor de Moura, Serpa , Seia e Marvão. Não parece, pois, ser essa base suficientemente forte para apoiar a sua pretensão.
Seria Violante Gomes judia, cristã-nova, cristã-velha, cristã? É tão difícil responder com certezas a esta pergunta como às anteriores. Não podemos perder de vista que todos os documentos referentes a D. Luiz, incluindo o original do próprio testamento, desaparecido da Torre do Tombo, (V. Veríssimo Serrão, op. cit. p.LIV), bem como os respeitantes ao filho D. António e, naturalmente, os que mencionassem Violante Gomes, desde que o seu teor fosse contrário aos interesses de Filipe de Espanha, foram todos bem rebuscados e destruidos, como nos diz este historiador. Transcreve cartas e partes delas entre Cristóvão de Moura e Filipe de Espanha que provam a busca (até o roubo) e a destruição sistemática dos documentos que não favoreciam o rei espanhol. De igual maneira procedeu o cardeal-rei reduzindo a cinzas tudo o que favorecesse o sobrinho António, a quem votava um ódio de morte. Este ponto: espionagem, roubo e destruição de documentos é, não só de grande importância para a História, como também para a ficção, pelo mistério envolvente e de que o leitor sente fortemente o apelo.
Teria Violante Gomes casado, de facto e canonicamente, com o Infante D. Luís, ou isso não terá passado de uma tentativa de logro por parte do Prior do Crato para fazer valer a sua candidatura ao trono como filho legítimo, como admitem alguns historiadores e estudiosos da nossa História, incluindo o probo Alexandre Herculano?
Ou o casamento, a ter existido um casamento, tal acto não passou de uma farsa, como quer Camilo? Sofreu a ludibriada Violante realmente a terrível humilhação de saber que o seu “marido”, falso como Judas, a enredara numa mentira medonha durante dez anos?
Ou a bela Pelicana foi, por sua vontade, a apaixonada amante do seu Príncipe?
O que levou Violante Gomes a separar-se de D. Luis e, antes dos 30 anos, enterrar-se num convento?
Também aqui, pela falta de documentos, é impossível dar respostas definitivas, sejam elas afirmativas ou negativas, embora cada um de nós tenha já, porventura, posto de lado algumas conjecturas e guardado outras no bolso, porque pendendo para um lado ou para outro, todos formamos os nossos juízos. E tudo leva a crer que a personagem, Violante Gomes, será capaz de atrair sentimentos profundos.
Então o que nos resta sobre a bela Pelicana?
Penso que, para a História, a não aparecerem documentos que comprovem estas ou aquelas hipóteses, resta pouquíssimo. Tudo o que sabemos com certeza, caberá em um ou dois curtos parágrafos.
E o que resta para a Literatura?
Aqui o caso muda de figura. Um escritor, romancista, homem de teatro, poeta, pegando na situação, que é riquíssima, com a sua liberdade de ficcionar episódios e criar diálogos em volta de alguns núcleos de accção reais e verdadeiramente dramáticos, terá certamente abundante material para nos dar uma visão não muito distante nem muito desfocada do que terá sido a vida da “fermosa Pelicana”, no enlevo do seu grande amor, nos seus sonhos, alegrias e ilusões e depois, jovem mulher mirrando na solidão de uma cela, atada no nó da sua amargura, procurando abafar o grito rouco da desilusão.
BIBLIOGRAFIA
A - HISTÓRIA:
Alves, Francisco Manuel, Abade de Baçal , “Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança – Os Notáveis “ , Tomo VII, pp. 208-212, Edição da Câmara Municipal de Bragança/ Instituto Português dos Museus - Museu do Abade de Baçal - Bragança, 2000.
António de Portugal Faria (Visconde de Faria, “D. António, Prieur de Crato, XVIII Roi de Portugal et sa descendence”, 1917, pp.5-7.
Carlos Jokubauskas , As jornadas de um bastardo: guerras antoninas pela coroa portuguesa (1580-1589), in Anais do XVIII Encontro regional de História – O historiador e o seu tempo, Univ. de S. Paulo/Assis, 24 a 28 de Julho de 2006 , cd-rom.
Garcia de Resende, Vida e Feitos de El-Rey Dom João II, Texto da edição crítica por Evelina Verdelho, CELGA, Fac.Letras, Univ. de Coimbra, 2007.
Marques, João Francisco, “Frei Miguel dos Santos e a luta contra a União Dinástica” - “O Contexto do Falso D. Sebastião de Madrigal”, in Revista da Fac. de Letras do Porto, ed. online, s/d, http://ler,letras,up,pt,/ficheiros/2084, pdf., pp.331-384, notas 102 e 106.
Moraes, Cristóvão Alão de , “Pedatura Lusitana”, in Nobiliário de Famílias de Portugal, Tomo V, Vol.IIl , Livraria Fernando Machado, Porto, s/d , ed. online, pp. 31-32.
Leal, Pinho, “Portugal Antigo e Moderno”, in Portugal Antigo e Moderno, vol. V, Manuel Amaral (coord.), ed. online, 2000-2009, 1875, pp. 381-390.
Serrão, Joaquim Veríssimo, O Reinado de D. António, Prior do Crato (Tese de Doutoramento), Coimbra, 1956, pp. XV-LXVII.
Serrão, Joaquim Veríssimo, “O Século de Ouro (1495-1580)”, in História de Portugal, vol. III, Verbo, Lisboa, 1978.
Sites de: Covilhã, Évora e Moncorvo
PARM: “Torre de Moncorvo – a Tradição e a Casa da Pelicana”, 20 de Março de 2008
WEB: GENEALL (Famílias e Costados)
GENEALL-FORUM (Debate sobre a legitimidade de D. António, Prior do Crato )
B - LITERATURA:
As obras registadas no corpo do texto e:
Cândido, António, Noções de Análise histórico-literária, Associação Literária Humanista, São Paulo, 2005.
Cardoso, Patrícia, “Um Rei não morre – Poder e justiça em duas tragédias portuguesas”, in Revista Letras, Curitiba, nº 68, Jan/Abr, 2006, pp. 101-114.
Menegaz, Ronaldo, “O Indesejado”, de Jorge de Sena: “O rei que foi apenas um homem” in, Revista Semear, nº 6, Cátedra Padre António Vieira de Estudos Portugueses, Rio de Janeiro, Março, 2006
Entrevista a Urbano Tavares Rodrigues, feita por Ricardo Paulouro e António Melo, in A.23 online,
n º 4, 01.06.2009, Associação Cultural da Guarda, Guarda, pp. 32-33.
Por: DRª. JÚLIA DE BARROS GUARDA RIBEIRO
Fim.