A propósito do Dia de Finados
IX
Há rios claros, há povoados abertos mesmo que desertos, há água
que lave esta inquieta vontade de nada? Há cordas que amarrem a alma
ao poste da memória e te obriguem a confessar a tua profunda
amnésia? Há tempo para amar ainda quando o resto é tudo
tão breve? Há olhares que nos procuram quando a cegueira alastra?
E há algum sentido para o sentido que isto tem? Há ruas para andar
por onde andaste, com a soleira das portas cheias de sombras?
Há navegações ocultas de que nem tu suspeitas no último adeus
em que acordaste? Há o Homem por trás da cortina da tua casa
desabitada? Há gritos repartidos pela vontade de gritar, quando calas
o próprio silêncio? Há fontes e nascentes e cavalos e portos
quando a condição de ser te prende? Há canções ao fim do dia? Há
que tempos te procuras e não sabes que só a morte não é Interrogação?!
Pedro Castelhano
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Nove poemas de Novembro
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4 comentários:
Tendo lido há bastante tempo os Poemas de Novembro de Pedro Castelhano, que sabia extraordinários, já não me recordava plenamente das palavras exactas deste "Canto IX". Simplesmente fabuloso! Gostei de o reler. E fosse pelo tempo, pelos contextos, pelos desencantos de entretanto, ou por tudo somado, este pequeno texto assumiu, ao relê-lo agora, uma dimensão verdadeiramente sublime. Enquanto esperamos os restantes (do fim para o princípio?), Obrigado e Parabéns ao Pedro Castelhano.
n.
Amigo Rogério:
Não conheço os seus Poemas de Outono, mas este, que de interrogação em interrogação, cada uma mais dorida que a anterior , culminando na não-interrogação que é a morte, deixou-me ... sem fôlego.
Para quando a publicação dos seus poemas?
Um abraço imenso
Júlia
Moncorvo tem nevoeiro, humus quanto baste, está visto e mais que visto. Chamamos Moncorvo àquelas dezassete feguesias e umas tantas quintas anexas a que a vila, no bom sentido, vai deitando mão.
Temperar o emocional de lua e de sol e, nestes, ou nesta, de uma face escondida, batida pelo calor que se não vê, pode vir a ser um destino comum cimentado e sedimentado por têmpera de liga ferro-carbónica caldeada frequentemente no exterior daquelas paragens que agarram os que lá viram a luz do dia por assim dizer pela primeira vez.
Destemperar o emocional pode ser um (não) destino para quem julgue que é nas cidades e só nas cidades que o mundo «pula e avança». Sucede porém que para se ver melhor de um lado e de outro é de toda a conveniência pernoitar e permanecer de um lado e de outro. Isto, que forja o carácter, é um paradoxo do arco da velha, uma antinomia da qual, depois de nela nos vermos projectados, dificilmente se sai.
Um dos modos de carrear felicidade para dentro é procurar vivenciar o momento que passa, sem dor. É cruel? Sê-lo-ia, por certo, se houvesse lugar a um gesto dirigido ao coração de alguém, no sentido de lhe procurar alterar o ritmo, irremediavelmente.
Matar, sim, mas só o tempo que porventura nos arrefeça clamorosamente a alma, enebriando-nos por dias e noites em sequência (de que saudade?).
Ferir, sim, mas só a sotura do que já lá estava, a fim de melhor remédio se alcançar.
Cismar só nas serras abrigadas da ventania - nunca perto dos oito metros de diâmetro das eólicas.
E, por vezes, o melhor é não pensar, ser apenas o lugar do (dis)pensado.
Carlos Sambade
Caro Rogério,
também tive o privilégio de ler os poemas de Novembro de Pedro Castelhano. São de uma beleza e profundidade extraordinária; não deveriam estar na gaveta; deveriam ser partilhados e lidos. Não se trata de capricho, mas de uma obrigação moral a sua publicação.
Os meus cumprimentos para si.
P.Salema
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