torredemoncorvoinblog@gmail.com

Mostrar mensagens com a etiqueta Livros e escritores. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Livros e escritores. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Júlia e o Constantino

Sendo-me de todo impossível estar no encontro dos blogueiros a seis de Junho por razões que já expliquei em domu próprio, não quero, contudo, de deixar de dar o meu contributo, por pequeno que seja, para o ágape e tertúlia que creio vão frutificar no dia seis. Alguns apontamentos: o José Manuel Remondes, cujos versos têm sido publicados, é meu amigo de infância e fui eu (generosidade sua) que apresentei o seu livro em Moncorvo. Quero dizer do Zé Manel, meu amigo de infância, que é das pessoas mais puras que conheço a par de outro grande amigo que a morte ceifou (deixem-me usar o lugar comum que não é do meu hábito mas que neste caso, falando de um técnico do MAP se ajusta, o AAA Beto como nós dizíamos, por que era gago, o Beto Castelo). Foi em casa do Zé Manel (e eu já era amigo do seu pai, o Zé Emílio que, a trabalhar na Holanda saltou um dia para o campo de futebol para abraçar o Eusébio, como se pôde ver na televisão) que eu comi até hoje as melhores e mais saborosas sanchas, cozinhadas pela sua mulher (uma exímia cozinheira). Recebeu-me com uma hospitalidade que eu não esqueço. Posto isto, vamos ao que interessa. Tem-se falado muito da Júlia Barros na sua vertente ficcionista. Não sendo injusto é uma visão incompleta. Com efeito, o seu livro “Constantino, o Rei dos Floristas, uma Quasi-Biografia, é um trabalho de investigação que só uma formiguinha como a Júlia poderia levar a cabo. Coube-me a honra de ser eu a apresentar o livro nos Paços do Concelho de Moncorvo. Gostaria de partilhar convosco a introdução que eu fiz ao livro, mais como uma pista para a leitura do que outra coisa. Palavras que vou recolhendo do baú informático, onde ainda não encontrei, na desordem em que me ordeno, o texto sobre os versos do Zé Manel. Como em seis de Junho vai estar na minha terra muita gente que não conhece o livro, seria bom adquiri-lo na Biblioteca se é que ainda existem exemplares. É, porventura, uma faceta (a de investigadora) que não conhecem da Júlia. Se lerem o livro vão ficar impressionados, pensando como é que uma fraca figura é tão forte.
Deixo-vos com o texto que na altura escrevi.

Constantino, o Rei dos Floristas

Falar de Constantino é falar de flores artificiais, tão belas que pareciam mais naturais do que as naturais.
Ao contrário do que finge que é dor a dor que deveras sente, o cúmulo do artifício é esconder o próprio artifício.
Sinal dos tempos que, por vezes, hoje se repete de outra forma, de um modo a que não resisto citar.
Trata-se de uma história de uma senhora que estava na bicha de uma grande superfície, acompanhada de uma filha, uma criança muito bela. Enquanto não chegava a hora de pagar entabulou-se conversa e uma outra senhora exclamou: “Tem uma filha muito bonita”.
E a visada respondeu: “E ainda a senhora não viu a fotografia”.
Constantino José Marques, o menino da Roda, a quem na glória, na hipocrisia tão característica desta terra, ofereceram mais de três linhas de ridículos mas sonantes nomes, o florista, mais do que um produto de Moncorvo, o que o conformaria a não passar de criado grave de uma família nobre, de arroto fácil mas cabedal exíguo, é produto da guerra civil que transformou o país e com a vitória do liberalismo questionou a nossa individualidade histórica e colectiva (entre a pimenta da Índia e o ensino dos jesuítas), é fruto do cosmopolitismo apreendido e desenvolvido em 40 anos de Paris e França, com viagens pela Europa.
Constantino, de 1802 a 1873, do seu nascimento à morte, viveu uma das épocas mais ricas, na criatividade e no paradoxo, na ruptura com modelos seculares e na afirmação de um pensamento que haveria de revolucionar o mundo e numa industrialização que havia de extremar as classes, desenvolvimento e progresso ao mesmo tempo que aumentava a miséria.
O século XIX é o século em que tudo é posto em causa.
Provavelmente Constantino morreu sem ler “O Vermelho e o Negro” de Stendhal (1830); gostaria que não houvesse aqui pessoas a imitá-lo. Morreu provavelmente sem ouvir a Nona Sinfonia (1824) de Beethoven, sem apreender o significado e a magnitude do Manifesto Comunista de Engels e Marx (1848), ano em que foram construídas em Portugal as primeiras estradas macadamizadas e milhares de operários morreram na Comuna de Paris; sem se aperceber que “As Origens das Espécies” (1859) de Charles Darwin revolucionou o conhecimento secular e empírico das nossas origens e da nossa evolução.
No ano da sua morte foram escritos outros dois monumentos da arte e da literatura e da utopia do século XIX: “Ana Karenina” de Tolstoi e “A Volta ao Mundo em 80 Dias” de Júlio Verne.

Contemporâneo de Vítor Hugo e Balzac, situemos, contudo, Constantino. Andava por outras paragens em que o artifício, a coqueterie e a camélia branca na botoeira davam distinção.
Sucederam-se as guerras de conquista e hegemonia, os operários foram escorraçados para as periferias, onde criaram cinturas vermelhas, onde se avolumaram miséria e revolta. É obrigatório ler Dickens e Zola.
A burguesia prospera. Tem a banca e a usura. É historicamente confirmado que entre o povo e a nobreza, a burguesia escolhe sempre esta. Por vezes casa os seus filhos e filhas com fidalgotes arruinados e pelo dinheiro que entrega como dote recebe um penduricalho nobiliárquico.

Já vai longe o intróito ao livro de Júlia de Barros, “Constantino, Rei dos Florista, Uma Quasi-Biografia”.
Pela primeira vez, se faz uma abordagem à vida de Constantino, suportada num acervo documental e numa paciência de santa e numa procura em arquivos e terras remotas do sul de França, para aclarar esta presença, brilhante mas efémera que foi a de Constantino, requisitado pelas grandes casas reais da Europa, para tornar bela e convincente a ilusão que há em todo o artifício.
Esta quasi-biografia é enriquecida pela contextualização histórica, no tempo português e no tempo francês, desde a guerra civil entre os liberais e miguelistas, até à Comuna de Paris, com barricadas, metralhadoras e fuzilamentos de todos os homens que vestiam as blusas de operário até à queda de Paris pelos exércitos de Bismarck, em que os partidários da Comuna são chacinados. Morrem mais de 20 mil homens. São presos mais de 50 mil. É neste tempo histórico e neste lugar de luta que Constantino apura as suas flores artificiais, tão enganadoras que a francesa Rainha Dona Amélia lhe dirá um dia (frase que os jornais espalham em primeira página): “As suas flores são tal e qual as naturais. Com a única diferença que estas murcham e as vossas não”.
Júlia de Barros, após uma lúcida – e porque não? – comprometida descrição do tempo histórico em que foi dado viver Constantino, divide a obra em quatro partes: Constantino criança, rapaz, soldado, florista e Rei dos Floristas.
Enjeitado, casado, viúvo aos 25 anos de mulher de 60, miguelista, exilado, adulado por Paris e por uma apoteótica viagem a Portugal, com brinde e elogio de Garrett e banda de música de Moncorvo, Constantino acaba por morrer, isolado, praticamente abandonado, na pequena aldeia de Tercis-Les-Bains, a 800 quilómetros de Paris.
Algo o consolaria na sua certidão de óbito, se a pudesse ter lido, se a morte fosse uma flor artificial: pela primeira vez não é o enjeitado, mas filho de fulano e fulana tal, com um nome que a sua incomensurável vaidade e a não menos incomensurável hipocrisia da suposta nobreza de Moncorvo e arredores lhe deram. Aqui vai, até que o fôlego me falte: Constantino José Marques de Marialva Lopes Pinto e Moutinho Sequeira Coutinho Freire de Sampaio e Mello de Araújo Borges Pereira Costa Bacellar Teixeira de Magalhães e Lacerda.
Obrigado pela obra à dra. Júlia de Barros. Obrigado a vós pela paciência. É tudo, meus amigos.

Rogério Rodrigues

quinta-feira, 14 de maio de 2009

"Versos da minha terra", de José Manuel Remondes

Considerando o interesse despertado pelos versos do Sr. Remondes, aqui postados por Leonel Brito, e porque alguns participantes mostraram vontade de conhecer melhor este nosso conterrâneo Poeta, do melhor que cá temos, aqui fica alguma informação sobre o seu livro "Versos da minha terra", editado pela Câmara Municipal de Torre de Moncorvo e apresentado no 25 de Abril de 2005 (embora a impressão seja de Novembro de 2004, com design gráfico e paginação de "Da Companhia, Design de Comunicação, Ldª.").


Grande parte dos poemas que compõem o livro são quadras populares (quatro versos), predominando os heptassílabos, embora também se encontrem outro tipo de rimas. A temática gravita em torno de Torre de Moncorvo e seu concelho - pessoas, situações, topografia e toponímia local, mas também reflexões pessoais - com grande sentido crítico e fineza da análise. Muitas das quadras foram sendo publicadas num jornal regional, sendo aqui depois compiladas.
Sobre o autor, há a dizer que o Sr. José Manuel Remondes é um moncorvense do melhor que há, que escolheu viver e trabalhar na sua terra, depois de noutros tempos ter tentado a sorte pela mítica "Europa civilizada", mais concretamente pela Holanda. Homem que não tem medo ao trabalho, é um artista exímio de construção civil, com um jeito especial para a recuperação de edifícios antigos (veja-se p. exemplo, a casa dos Britos, no largo Dr. Balbino Rego, ou o antigo armazém do Barca Velha, na Qtª. do Vale do Meão, Foz Côa), e ainda arranjando ainda tempo para os amigos, bebericando o seu copito aos fins de tarde nos cafés mais típicos de Moncorvo, de onde lhe vem a informação e a inspiração para a sua poesia. Ah, e a cantar o fado, enquanto trabalha, de talocha na mão, não há outro igual!
Porque acho que se coaduna com o poema dedicado à Pensão Marrana, aqui fica um outro, do livro que referimos, neste caso sobre a antiga Rua da Rapadoura (actual rua Dr. Ferreira Margarido, que é a que fica atrás do Jardim Dr. Horácio de Sousa):
RUA DA RAPADOURA
Ó rua da Rapadoura
És varanda do jardim.
Com saudades reconheço
A lembrança que és para mim.
Agora és diferente:
Não mostras tanta pobreza.
Já não tens aquela gente
que te dava a natureza.
Tiveste Grémio da Lavoura
Também tiveste a prisão.
Ó Rua da Rapadoura,
tiveste ainda a pensão.
Essa pensão tinha fama
De os viajantes bem servires.
Na época eras galante;
chamavas-te Pensão Pires.
Quantas saudades eu tenho
E muitas vezes eu penso
Na tia Olímpia, coitada,
E no pedreiro Lourenço.
Lembro também com saudade
De quando era menino.
Reconheço que é verdade
Que cada um tem o seu destino.
Lembro-me da Praça Nova
Com os teus montinhos de terra;
Era ali que eu brincava
Eu e o Almada Guerra.
Ali minha mãe trabalhava;
Era ali que amassava o pão.
E era ali que eu olhava
Por a minha irmã e meu irmão.
Morava lá muita gente.
Agora já lá ninguém ralha
Só aquele homem inteligente
Que chamavam de Horácio Espalha.
Rua doutor Margarido,
Tiveste Grémio da lavoura.
Sempre serei teu amigo,
Ó rua da Rapadoura.
Para lá ia o peneireiro
Também o amola-tesoura;
Lá parava o chapeleiro
Na rua da Rapadoura.
Ó Rua da Rapadoura,
És varanda do jardim
Cheiras a rosa e a cedro
A loureiro e alecrim.
Nota: este livro pode ser consultado na Biblioteca Municipal de Torre de Moncorvo e adquirido no Posto de Turismo.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Estórias de burros: O 91 - um conto de Júlia Biló

Evocando os velhos tempos da Corredoura (ou Cordoira, ou Querdoira), outrora uma espécie de aldeia satélite da vila, aqui fica um conto (inédito) da nossa distinta colaboradora Júlia de Barros Guarda Ribeiro (para os moncorvenses Júlia Biló), a propósito de um jerico muito guitcho, que teve o tio Noventa:

Que os burros – que são teimosos, mas não são burros – tenham direito às suas histórias, ninguém põe em dúvida. Mas o desta estória tem direito redobrado, pois era um burro muito especial.

O Tio Noventa apareceu um dia com um burrico todo catita: vivaço (o burro), olhos marotos, orelhas sempre em movimento que nem radares, o rabo mais parecia um pêndulo doido desafiando as leis da isocronia dos ditos.

Era pela tardinha, já no final da feira dos 23. Namorara o burrico desde que o vira pela manhã. Passou duas , três vezes, apreçou não só o que lhe enchia o olho mas mais três ou quatro, desdenhou, pôs defeitos .... Mas o cigano topou-o logo.

O tio Noventa voltou de tarde, quase ao desfazer da feira e ficou de longe a apreciar os vai-véns do burrico. Já não estava preso pela corda: viu-o a espolinhar-se na terra debaixo das faias no Canefechal, viu-o a beber água no chafariz ao fundo da capela de S. Sebastião, viu-o brincar como um garoto, escoicinhando a torto e a direito, gozando o sol e zurrando de alegria e de liberdade .
O Tio Noventa sorria. O cigano observava. “Se julgas que o vais levar mais barato agora no fim da feira, estás bem enganado. Estás caídinho d´amores pelo burro”.
O Tio Noventa dizia com os seus botões: “O diacho do burro é mesmo fadista. Vale bem mais os 30 mil réis do que os outros. Mas juro que só o levo se partirmos os 30 marrecos ao meio.”

Feira de gado na Corredoura, anos 40? Capela de S. Sebastião, ao fundo, à esquerda. O Canafechal era do lado esquerdo, onde agora se encontram o ginásio e a clínica.

O cigano, lentamente, começou a aparelhar a mula e a atrelá-la à carroça. Depois preparou a mortalha, tirou a bolsa tabaqueira do bolso do colete, pôs a pitada de tabaco na mortalha, enrolou-a com a arte que a prática dá, passou a língua pela beirinha do papel de seda, colou-a com um levíssimo movimento dos polegares e levou o cigarro à boca. Voltou a tirá-lo e gritou para o Tio Noventa:
- Eh, homem, ou quer ou não quer . Mas não é de longe que se faz o negócio.
- Só se fecharmos a conta como eu disse.
– Nem como você disse nem como eu disse. O que agora se decidir é que é.
- Então partimos os 30 ao meio .
- Feito. Leve o burro. Não vai arrepender-se.
- Oxalá que não. Ele é pigarço como a minha mulher. Teimosa que nem uma burra.
E o tio Noventa e o cigano riram às gargalhadas.

Foi assim que o Fadista passou a fazer parte dos animais com que a canalhada brincava na Querdoira, pois andavam todos à solta pelo largo, terreiro e ruelas: garotos, cães e gatos, porcos, perus e patos, galos e pitas e os burricos enquanto pequenos. A garotada brincava com eles todos naquele terriço. Empedrado? Isso era coisa da Vila. Ali, naquela terra que até dava para desenhar, demarcava-se com riscos a nossa propriedade e não havia zaragatas, porque o território era grande. Zaragatas, só com os da Vila. Até os animais nos conheciam e faziam barreira do nosso lado.

Mas voltemos ao Fadista. Foi este o nome que o Tio Noventa pôs ao burrico, mas ele tratava- o como se fora mais um filho e os garotos começaram a chamar-lhe 91. E foi o nome que pegou. O 91 era mesmo brincalhão. No auge da brincadeira, fincava as mãos na terra, baixava a cabeça e escoicinhava. A canalhada, que já lhe conhecia a manha, desatava a gritar : “Fujam, que o 91 vai começar aos pinotes”. E faziam uma enorme roda, todos à gargalhada, assistindo àquela dança maluca, que era depois seguida de um zurrar de felicidade que só visto. Após o baile e o concerto vinha a exibição final: levantava o beiço superior, mostrava os dentes num riso de prazer imenso e desatava num arraial de peidos que os miúdos marcavam a compasso, dizendo em coro: “Um para o dono; dois para a mulher do dono; três para a Adelina Chavé (que nunca nos dava nada no Dia de Todos os Santos); quatro para a Grila (a criada da Sra. Adelina Chavé que não nos deixava ir aos figos na Rua da Fonte) , quatro para.... ” e iam nomeando as pessoas contra as quais tinham um pedregulho nos socos.

O 91 gostava de todos os garotos, excepto de mim. Eu tinha um desgosto enorme, mas ele não gostava de mim e pronto.
Parece que tal se devia ao facto de a minha avó não me deixar sair de junto dela porque, como já não andava, todas as tardes era trazida para o soalheiro, onde ficava 3 ou 4 horas sentada, até a minha mãe vir do trabalho.
Ora, quando o 91 se aproximava, a minha avó ameaçava-o com a bengala. Ele parava, baixava a cabeça e espinoteava. A minha avó ameaçava-o novamente e ele, de olhos zangados (eu sabia quando ele tinha os olhos zangados), ia embora às arrecuas, a acenar com a cabeça, como quem diz: “Um dia cá te apanho...”

Era Primavera e havia dias de sol quente. A minha mãe comprou-me na feira um chapéu de palha com fitas vermelhas e cerejas bordadas a fios de lã nas abas. Era o chapéu mais lindo que eu já alguma vez tinha visto. E o mais lindo da minha vida de criança de 4 anos.
Estava eu a brincar junto da minha avó, ela dormitava e, como não se via sinal do 91, devo ter-me afastado um pouco. Não o vi, nem ele fez barulho. Só senti que o chapéu me voava da cabeça. Olhei para trás e fiquei paralizada de susto e de desgosto: o 91, levantava o beiço superior e, com riso escarninho, mastigava o meu chapéu de palha. Eu via o chapéu ir desaparecendo, já só restavam as fitas vermelhas que lhe pendiam da boca e que ele, com um lento e irritante revirar de língua, engoliu. Ficámos a olhar um para o outro: ele cheio de gozo, até me piscou o olho e eu, de certo a imagem da tristeza, comecei então a chorar.

Acordou a minha avó, vieram as vizinhas, o 91 afastou-se com todos os vagares e, de longe, deu início ao seu famoso espectáculo.
Leiria , Dezº de 2006
Júlia Guarda Ribeiro (Biló)
Autoria das Fotos que ilustram o texto: 1 - Burros, de N.Campos, 2009 (Arquivo particular); 2 - Feira de gado na Corredoura, de autor desconhecido (Arquivo do Museu do Ferro & da Região de Moncorvo).

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Novos livros de autores da nossa terra, apresentados no 25 de Abril

Embora com alguns dias de atraso, aqui fica o registo sobre o lançamento de novos livros, em Torre de Moncorvo, na Biblioteca Municipal e no Centro de Memória, no dia 25 de Abril.

O primeiro é um duplo-livro, visto que metade é de autoria do Sr. António da Conceição Bento (ti Bento Morgado, do Felgar), e, outra metade, do Sr. Joaquim Martins (conhecido por tio Joaquim dos Chibos, numa alusão à quinta onde nasceu e viveu, perto de Torre de Moncorvo).

Os dois livros (dois em um) são apresentados em edição invertida, reunindo um apreciável acervo de poesia popular destes nossos conterrâneos de provecta idade, onde desfiam as suas experiências de vida (selecção e organização da Biblioteca Municipal, edição do município de Torre de Moncorvo). - Brevemente aqui "postaremos" alguns dos seus versos, aconselhando, entretanto, os nossos leitores a procurarem o(s) livro(s) na Biblioteca Municipal ou no Posto de Turismo.

Outra obra que foi objecto de apresentação, no dia 25 de Abril, foi "Fantasmas de uma revolução", de António Sá Gué, com a chancela da Papiro Editora. De certa maneira esta obra (que ainda não lemos porque não pudemos estar presentes ao lançamento e, entretanto, esgotou-se cá pelo burgo), vem na continuidade das "Duas Faces da Moeda", do mesmo autor. Enquanto nas "Duas faces" (Papiro Ed., 2007), se versa a realidade rural dos anos 60, a emigração e a guerra colonial, neste último romance é a realidade do pós-25 de Abril que transparece (a liberdade, o Prec, descolonização e o que nos conduziu à actualidade). Vamos ter de ler, até porque o Sá Gué é um visitante e parceiro aqui do nosso blogue (ver: http://antoniosague.blogspot.com/)


Momento da apresentação do livro de A. Sá Gué, na Biblioteca Municipal - o Sr. Presidente da Câmara no uso da palavra.

domingo, 3 de maio de 2009

Staline e a igreja

Peço desculpa por esta insistência, mas os últimos acontecimentos, do Primeiro de Maio e outros, levaram-me a uma reflexão cuja publicação ponho à consideração do administrador do blogue. Qualquer que seja a decisão que ele tome, aceitá-la-ei de bom grado, ainda que pense esta reflexão pode ser útil nos tempos que correm. Aqui vai:

Sem me querer envolver na polémica sobre o stalinismo - pensando eu que a existência e defesa do dogma não são boas conselheiras - sempre me apetece dizer que o estalinismo e - porque não?- o leninismo, têm na sua prática similitudes com o catolicismo. Têm os seus mártires, seja do nazismo e fascismo, seja dos imperadores romanos, têm as suas certezas como absolutas e que hão-de vencer no futuro, mesmo que o presente seja de derrotas. Staline estudou para pope (padre), a Passionaria (santa maria das Astúrias que deu o nome de guerra a Dolores Ibarruri) era uma devota até à sua reconversão já próximo da idade adulta; Cunhal teve, por parte da sua mãe, uma esmerada educação católica. Ambas as crenças ou dogmas admitem que a principal razão lhes pertence. Mataram em nome da razão e da fé (fosse ela 'revolucionária' ou apenas religiosa), na Inquisição e no Goulag, acreditaram-se sempre como vanguardas, seja na luta contra os infiéis, seja no combate a todos aqueles que acreditam e acreditaram que as "liberdades colectivas", "amplas liberdades" no eufemismo, não podem de modo algum esmagar, como esmagaram, as liberdades individuais. Milhões de mortos seja nas fogueiras dos torquemadas ou nos nos campos de concentração estalinistas, retiram a qualquer um deles (Igreja ou comunismo que nunca chegou a haver) qualquer superioridade moral, qualquer dimensão ética, enquanto colectivos e instituições. Não ponho eu em causa que na Igreja Católica, quer nos partidos comunistas, não haja excelentes pessoas, de irrepreensível conduta. O que está em causa não é qualidade do indivíduo, o que está em causa é uma ideologia que, em seu nome, pode levar um homem bom a matar outro homem bom. Um carrasco pode ser um pai exemplar, que não significa que deixe de ser carrasco; um homem livre, vítima do carrasco, pode não ser um pai exemplar, o que não significa que deixe de ser um homem capaz de ser livre. Ao nazismo e ao fascismo, na sua barbárie, devemos acrescentar o "comunismo" de Staline, na sua necessidade de matar os outros, em nome de uma utopia em que ele próprio não acreditava. Podemos acrescentar Pol Pot, a Coreia de Norte, a China e tantos e tantos atentados à dignidade humana. Penso que os pedidos de perdão sobre um passado não são suficientes se não forem claramente condenados por uma prática presente. Que me interessa que se condene Staline se se continuam a utilizar métodos stalinistas (não obviamente com o terror e a morte, que os tempos são outros e o poder é outro); que me importa que o Papa peça desculpa por Galileu, pelos queimados na Inquisição, pelas guerras que fomentou, se, nos seus métodos, já sem Inquisição nem poder temporal, continua, porém, a tentar impor valores morais (tão dogmáticos que não permitem a dúvida), a sociedades profanas, seja ela qual for a sua ideologia, e a condicionamentos e restrições das liberdades individuais? Vivemos um tempo de inquietação e dúvida, sem certezas, apenas com algumas convicções, com a necessidade de um aprofundamento ideológico em que o religioso não esmague o laico, ainda que a espiritualidade aprofunde o conhecimento do homem. As religiões inquietam, sejam elas quais forem, no Médio Oriente, nos USA ou, mesmo na Europa, porque querem condicionar a política e servir de freio e constrangimento à liberdade do homem, ao seu pensamento e ao seu protesto.

domingo, 19 de abril de 2009

Apresentação de livros - 25 de Abril

No dia 25 de Abril serão lançados em Torre de Moncorvo três novos livros. Entre eles está "Fantasmas de uma revolução" de António Sá Gué.

Não resisto a transcrever alguns parágrafos do livro "Contos dos Montes Ermos", que ando a ler:
"Nas levadas, as meruges e rabaças, ensopadas em água, como se matassem uma sede mirífica, dificultavam a defluxão, construindo pequenos, açudes, onde o passaredo se espojava. O richa-cavalinhos, nas manhãs frias de geada, quando a terra codilhada range debaixo dos botins, e se arreganha a mostrar dentes de velha, vinha relinchar enquanto voava, anunciando mudança de tempo. Um melro de bico amarelo repotreava-se na figueira do Toino Varal, que tinha os melhores figos pingo-de-mel que aqueles vergéis aluviais davam.
Um casal de vaidosos pintassilgos vinha construir o ninho entre as frondes de uma rescendente malapeira, que os ganapos já haviam descoberto, pelo que o desvelo posto na vigilância do ninho fora tanto ou tão pouco que a pintassilgo acabara por enjeitá-lo. Os láparos desciam das lorgas que tinham lá no alto e vinham derriçar os talos carnudos das tronchas galegas que orlavam as hortas e haviam de ser ceia na noite de consoada. Os tourões fedorentos, pela calada da noite, esgadanhavam as abóboras porqueiras, acabando por estragar mais do que comiam. Os javalis, no tempo da castanha, desciam do moitedo e não havia ouriço que não fosse esventrado, quando embicavam pelas hortas, levando tudo a eito: a rodriga do feijão era tombada, o cebolo arrancado, os tomateiros pisados - parecia que o diabo se havia espojado ali."

quinta-feira, 16 de abril de 2009

"Outros Contos da Montanha", de Isabel Maria Fidalgo Mateus


No seguimento da notícia "postada" pelo nosso colega e amigo Vasdoal (directamente de Vila Real), sobre o lançamento da obra "Outros Contos da Montanha" de Isabel Fidalgo Mateus, ontem, numa iniciativa do Grémio Literário Vilarealense, aqui apresentamos a capa do livro, em cuja dobra se inclui um apontamento biográfico da autora.
Isabel Maria Fidalgo Mateus é mais uma nova escritora nossa conterrânea, curiosamente também nascida nas terras agrestes de Trás-da-Serra (designação moncorvense para os povos da outra banda do Roborêdo), tal como Vítor da Rocha e A. Sá Gué. Sabemos que estudou na Escola Secundária de Torre de Moncorvo e daqui enfunou as velas e partiu para o Mundo, tendo ancorado, ao presente, na Universidade de Liverpool (Inglaterra), onde é professora de Língua e Literatura Portuguesa.
Tendo por base contos e memórias do povo de uma zona específica do nosso concelho, o livro é a prova de uma grande vitalidade literária moncorvense, por parte de intelectuais que, embora fora da terra por razões profissionais, jamais esquecem o seu rincão sagrado!
Aqui fica um pequeno excerto dos "Outros Contos da Montanha", que, seguramente, Torga não deixaria de apreciar (aliás, a obra do nosso grande escritor transmontano foi objecto da tese de doutoramento de Isabel Fidalgo Mateus):

“Já a conheci de cabelos muito finos e brancos. Os mais de sessenta anos denunciavam-se pelas fundas rugas do seu rosto, que mais pareciam socalcos, e apenas o brilho negro dos seus olhos exibia ainda triunfante a eterna lutadora. Com aquele fitar educara os filhos, sem nunca precisar de vender os terrenos que granjeara ainda em vida do marido. Pelo contrário, pagou os que ainda não tinha saldado na totalidade e comprou outros. O seu lema de ‘quem não trabalha não come’, que tentara desde cedo inculcar no lar, regulou-lhe para sempre os passos na vida.
“Sentada no vão da sua porta ou à soalheira da casa da filha mais nova, no Verão, passava amiudadamente em revista a sua longa via-sacra. Primeiro, as dificuldades e os entraves do seu pai postos à concretização do casamento, sem esquecer toda a sua mocidade a amanhar a terra, a semear, a mondar. Depois, a viuvez precoce, o encargo dos filhos e, mais tarde, o dos netos, que a emigração lhe legara. Tudo suportara com valentia, num esforço desmedido!
“Mas e a solidão?! (…)” - In: Outros Contos da Montanha

Nota: sabemos que está prevista a apresentação deste livro também em Torre de Moncorvo, na Biblioteca Municipal, durante o mês de Agosto (em data a anunciar). Entretanto o mesmo pode ser adquirido no Museu do Ferro & da Região de Moncorvo.

domingo, 5 de abril de 2009

Haverá uma Literatura Transmontana? (2)

O Rogério, no seu excelente post de 28 de Março, intitulado “Haverá uma Literatura Transmontana?”, entre vários nomes de grande importância para a cultura, referiu três de incontestada relevância: Raul Rego, Paulo Quintela e Abade Baçal, destacando o seu extraordinário labor e, sobre eles, terminou com as seguintes palavras “...estas três figuras honram a cultura portuguesa, como transmontanos”. Palavras justíssimas e mais que merecidas.
Tive a honra e, neste caso, também o proveito de ter sido aluna de Paulo Quintela de finais de 1955 a 1961. Foram mais de 5 anos de convivência diária, se às aulas acrescentarmos o TEUC (Teatro dos Estudantes de Coimbra) de que Paulo Quintela, com um grupo de estudantes, foi fundador em 1938.
A literatura alemã, nos longínquos anos 50 era quase totalmente, senão totalmente, desconhecida em Portugal. Paulo Quintela traz até nós génios, grandes lutadores, grandes solitários, resistentes, perseguidos: Goethe, Hölderlin, Rilke, Nietzsche, Brecht, só para citar os seus preferidos. Mas, para mim, era no teatro medieval inglês que se via o grande Mestre: conduzia-nos ao cenário vivo, víamo-nos no meio dos verdadeiros actores, ouvíamo-los falar... Era algo tão espantoso que não arranjo palavras para o expressar.
Isto é apenas uma nota, em jeito de introdução, ao que quero dizer-vos. Chegou-me às mãos no início da semana um livro “Homenagem a Paulo Quintela no Centenário do seu Nascimento”. Trata-se de um conjunto de comunicações, poemas e depoimentos sobre a personalidade e a obra do eminente professor, tradutor, poeta e lutador que foi Paulo Quintela. O livro é editado e publicado pela FLUC (Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra) e traz a data de 2008, embora a homenagem tivesse tido lugar em Março de 2006. (Na verdade, Paulo Quintela nasceu em Bragança em 24 de Dezembro de 1905. Porém, nestas lides de organizar homenagens, recolher textos e documentos, proceder à edição e publicação, passam, por vezes, largos meses.) Mas o livro aqui está e valeu bem a pena a espera.
De entre as várias comunicações destacarei apenas duas, uma porque nos dá a ideia deste grande vulto da cultura portuguesa, a outra porque foca directamente o homem transmontano.
Dele diz o Presidente do Conselho Directivo da FLUC, Prof. Lúcio Cunha:

“Um dos mais brilhantes vultos da nossa Faculdade, Paulo Quintela, Professor, investigador, poeta, tradutor, homem de teatro, resistente e lutador pela liberdade, foi, porventura, um dos mais completos, produtivos e prestigiados Mestres desta Escola”.(Obra cit. p.20 ).

Por sua vez, António de Sousa Ribeiro diz na sua intervenção:

“Paulo Quintela não detinha apenas a firmeza das convicções, mas também a coragem de as assumir publicamente. [...] e o orgulho com que sempre cultivou a lembrança das suas origens humildes. ‘Não passo de um pobre homem de Bragança, filho de um pedreiro e de uma padeira e neto de um almocreve’“. (Obra cit. p.60).

E termino deixando aqui um poema de Paulo Quintela onde o homem transmontano se revela por inteiro:

Ar não-condicionado

Ar que eu respire há-de ser
-Quente ou frio, não faz mal
–Ar livre. Quero morrer
Respirando ao natural.

Ar do mar ou ar da serra,
Ar de jardim ou de praça,
Ar que nenhum muro encerra
-Livre, que o dá Deus de graça.

Digo:
-Não me condicionem
O ar da respiração!
E mais:
-Não me solucionem
O que não tem solução!

Nem me queiram ajudar
Com oxigénio em balões.
Já disse:
-Quero acabar
Com ar livre nos pulmões.

E em vida não me racionem
Água, vinho, ar livre e pão.
Ar livre! Não condicionem
Minha livre condição.

Abram portas e janelas
Quando estiver pra morrer
Quero ver árvores, estrelas,
E depois apodrecer.

Que quem nasceu como eu
Entre montes de ar lavado
Vai pro Inferno ou pro Céu
-Mas sem ar condicionado.

(Poema inédito de Paulo Quintela)

Leiria, 5 de Abril de 2009-04-05
Júlia Ribeiro

sábado, 28 de março de 2009

Haverá uma literatura transmontana?

Desculpem insistir, mas como provavelmente vou estar algum tempo sem escrever (preparo-me para uma semana em Moncorvo onde vou mais para conviver e aprender do que escrever) publico este texto, lido e debatido na última feira do livro de Lisboa em que fomos convidados pela direcção da Feira para falar sobre literatura transmontana: o Bento da Cruz, o Amadeu Ferreira, o Vitor Barros, o Ernesto Rodrigues e eu. Foi um debate muito interessante, com a tenda/auditório repleto. Não defendi nenhuma tese. Apenas levantei algumas questões. Aqui vão elas:

"Cultura e literatura transmontanas

É complicado falar ou escrever sobre cultura e literatura transmontanas, como se fossem dois espaços distintos de uma realidade nacional. Além disso, tirando os particularismos, ora revivalistas ora acentuadamente regionalistas, só no campo da subjectividade é que poderemos reflectir sobre a magna questão, para nós, transmontanos: há ou não há uma cultura e literatura transmontanas?
Por muito que gere debate, é minha convicção de que não há uma literatura transmontana. Quanto à cultura lá iremos, em tempo próprio. Quanto muito, há uma temática regionalista (com expressão diferente, por exemplo, entre o Barroso e a Terra Quente), sobretudo em termos linguísticos, mas abrangente às Beiras interiores e às faldas do Minho, contíguo a Trás-os-Montes, a Aquilino e a um Camilo. As literaturas exigem uma língua própria e, mesmo aqui, o conceito é discutível. Começa a haver uma literatura mirandesa, porque tem língua própria, mas a sua temática e o espaço onde mergulha, não é diferente do universo dos escritores transmontanos de língua portuguesa. Mas sobre esta questão o Amadeu Ferreira poderá falar muito melhor do que eu. Regressando à língua: há uma literatura americana escrita em inglês como há uma literatura belga escrita em francês. Este facto poderia contradizer a minha afirmação, não fora que países, geografias e culturas diferentes assumem e funcionam em universos diferentes.
A temática regionalista pode ter uma dimensão nacional e internacional. No caso mais recente vemos A.M.Pires Cabral; no mais paradigmático, Miguel Torga. Mas lá iremos. O que existe são escritores, oriundos de Trás-os-Montes e Alto Douro que, não sendo esta posição porventura pacífica, são os divulgadores e investigadores de literatura assente numa dita cultura transmontana, seja ela passada, seja presente.

Até à década de 70, Trás-os-Montes era um espaço distante, um sítio onde se nasce mas de que nunca se sai, mesmo quando regressamos. Era um universo fechado. Falar a um citadino de Trás-os-Montes era como se falássemos de algo longínquo e inacessível. No princípio da década de 80 havia ainda o hábito de, na véspera do Natal, proporcionar alguns dias extra àqueles que tinham que ir à terra, uma expressão comum que deu o título a um livro do Modesto Navarro, para aqueles que não nasceram em Lisboa. Aproveitando dessa benesse, o meu amigo Vítor Bandarra, hoje na TVI e então no “Portugal Hoje”, pediu ao director do jornal para ir à terra. Concedido o pedido, no dia seguinte o Vítor passou pelo jornal. E o director perguntou-lhe: ‘Então não foste à terra?’ E ele respondeu: ‘Já fui e vim’. É que morava em Sintra.
Isto significa o quê?
O espaço geográfico era determinante, pelo isolamento que provocava e pela identidade cultural que se sedimentava, à falta de outros horizontes e alternativas. Uma identidade cheia de equívocos, por vezes, mas assente numa forte tradição oral e num conservadorismo de valores (vivia-se então, ainda numa economia comunitária, já cheia de brechas pelo fenómeno da emigração), cujo rigor iria marcar as nossas vidas, quando soltos ou presas aparentemente fáceis, no aglomerado urbano, volúvel e com outros conceitos bem mais flexíveis que os nossos.
O nosso sotaque sendo motivo de alguma troça, mas sobretudo de suspeitas e invejas mal contidas, foi-se perdendo com a normalização linguística dos media, uma normalização pela simplificação e poupança vocabular, num português standard e pobre, asséptico, sem sotaque, tendo como padrão não se sabe que normas linguísticas ou fonéticas.
Por outro lado, deixamos de ser um sítio longínquo, povoado de agressividade e violência (uma metáfora fácil para o forasteiro), mas também de pundonor, para nos transformarmos numa espécie de reserva de índios ou laboratório antropológico, com a explosão das auto-estradas e outras vias de comunicação. O que nos pareceu um recomeço de chegada, transformou-se no reinício de partida.
Não estou de modo algum a contestar os benefícios; estou apenas a constatar factos que diminuíram e continuam a adulterar os alicerces de uma eventual cultura transmontana, se é que ela existe, a não ser na perturbação e afirmação oral e nos restos, ruínas e destroços de civilizações que por aqui passaram e nos marcaram.

Quando me convidaram para este debate, não me impuseram nem sequer sugeriram que fosse idólatra.
Falemos então de literatura de escritores transmontanos. Em primeiro lugar, ainda que seja escassa a geografia transmontana da sua obra (muito embora nos reconheçamos no seu linguajar, mas também nos podemos reconhecer em Aquilino) temos Camilo, tão imitado e tão mal imitado, por escritores transmontanos. “O Santo e a Montanha” é um seu romance que acaba e começa em Moncorvo (na Serra do Roboredo), passando por Vila Flor, Braga e a Madeira. “A Queda de um Anjo”, relata a história de um morgado de Caçarelhos (Miranda do Douro) que é eleito para deputado e, depois de considerar Lisboa como Sodoma e Gomorra, se deixa levar pelos seus encantos e se apaixona por uma brasileira a quem monta casa. O romance, publicado em 1865, continua de uma actualidade extrema, seja para deputados transmontanos, seja para outros deputados.

Não temos, em quantidade, grandes escritores transmontanos, como, aliás, não temos grandes escritores portugueses, em qualidade. Escritores que ultrapassem a região, as bibliotecas municipais, os patrocínios regionais e uma glória efémera e muito localizada.
Sabendo que, porventura, vou pecar por injustiça (mas não de acinte) ou por omissão (mas não propositada), gostaria de sublinhar a existência e a permanência de Miguel Torga, Pires Cabral e Bento da Cruz entre os reconhecidos; Miguel Torga na sua universalidade, Pires Cabral porque conseguiu reconhecimento nacional, Bento da Cruz porque tem feito uma obra injustificadamente esquecida, um filho do Barroso alérgico ao marketing e que, exceptuando o “Hiram e Belkiss” (um espaço simbólico na construção do Templo de Salomão ou na construção do nosso próprio templo interior), tem erigido as terras do Barroso, a um espaço universal da luta do homem com as fronteiras, sejam as suas, sejam as da geografia imposta. Entre os esquecidos, vale salientar e recordar esse grande prosador, o homem que escreveu com tolerância e bonomia sobre a vulnerabilidade e corrupção dos corpos dos sofridos durienses, o médico João semana, João Araújo Correia.
Nesta onda memorialista não podemos deixar de lembra um escritor transmontano como Campos Monteiro, prolífero, autor de revistas e dramalhões, com sucesso garantido na época (lembrando alguns sucessos de hoje), urbano, com temática de classe média ou burguesia portuense, mas que escreveu, já no fim da vida, duas novelas, com acção e trágica acção na sua terra, Torre de Moncorvo. Dono de uma prosa camiliana, nascido em Trás-os-Montes, a sua temática (à excepção do livro citado), é perfeitamente urbana.
Temos também outros autores que, de origem transmontana, ultrapassam os limites da região.
Estou a lembrar-me de Eduardo Guerra Carneiro, de Chaves, um dos grandes poetas portugueses, mas sem proximidade temática, à sua terra (ao contrário do seu pai que escreveu os “Poemas Transmontanos”), embora se assumisse transmontano por inteiro.
Ainda a velhice não chegara, quando, por vontade própria, se despediu da vida.
Estou a lembrar-me do Vasco, o cartoonista que, ainda hoje, refugiado em Fontanelas, ausente há mais de 40 anos de Vila Real, mantém intacto o sotaque da “bila”. Os seus cartoons, de consagração internacional, não retratam nem lembram Trás-os-Montes. E, no entanto, continua transmontano.
Estou a lembrar-me do meu amigo Afonso Praça, também amigo de muito boa gente que aqui está. Escreveu dois livros (tirando as gastronomias com Maria de Lurdes Modesto e as receitas afrodisíacas, ilustradas por Francisco Simões), em que Trás-os-Montes é a presença e a saudade da ausência: “O Coronel morreu de Sentido” (novela cuja acção decorre, em pleno PREC, na sua aldeia, Felgar, concelho de Moncorvo) e “Um pouco de Ternura e Nada Mais” ( crónicas sobre Trás-os-Montes visto do Campo Pequeno).
Prolífero, mas com uma visão mais redutora da realidade transmontana, confinada a enredos assentes em lutas de classe e um certo neo-realismo já ultrapassado, temos a obra de Modesto Navarro, obra que se estende também ao Alentejo e mergulha mesmo no policial, sob o pseudónimo de Artur Cortez.
Por último, alguma literatura de Francisco José Viegas, natural do Pocinho, em que o Douro está presente. Mas a sua geografia narrativa é mais diversificada, ultrapassando os limites de Trás-os-Montes e as suas particularidades linguísticas.
Não falo de Ernesto Rodrigues. Ele está aqui presente e, melhor do que eu, falará sobre este tema e vários subtemas que lhe vêm agarrados.
Por último não quero deixar de sublinhar a utilidade ( não sei se a importância) de obras como a de Vitor Barros, sobre os transmontanismos ou de Barroso da Fonte sobre os transmontanos que ele considera (ou se consideram) ilustres.
Não podemos esquecer nestas andanças da memória, traiçoeira, por vezes, selectiva noutras, a existência de Trindade Coelho, Rentes de Carvalho e António Cabral. De Trindade Coelho, de quem se recorda este ano o centenário do seu suicídio, ficou-nos a marca do cidadão, mas também do homem bom e do animal bom, patente em “Os Meus Amores” e que um melhor conhecimento da criatura viria a dar ao escritor do Mogadouro o desencanto que o levou ao trágico passamento na Rua da Misericórdia. Rentes de Carvalho é outro caso curioso, nascido em Gaia, a sua memória mergulha em Trás-os-Montes ( Estebais do Mogadouro) com tal intensidade que ninguém acreditará que vive há mais de 40 anos na Holanda. Registem-se como sinais das férias da sua infância e da sua aprendizagem transmontana, “Montedor” (o primeiro romance), “O Rebate” e, por último “Ernestina” e “Coca” com pertinência autobiográfica.
Por fim, António Cabral, recentemente falecido, um poeta do Douro (Castedo de Alijó), com algumas peças de teatro e, sobretudo, um rigoroso prospector da cultura popular transmontana.

Uma palavra final sobre três vultos incontornáveis da cultura ( expressão em moda, mas que me saiu, pelo que peço desculpa por este pecado jornalístico-urbanófilo), nados e criados em Trás-os-Montes: Raul Rego, Paulo Quintela e Abade Baçal.
Um, na recolha de memórias etnográficas do Nordeste transmontano, num trabalho de sísifo de meio século; outro, na tradução, ainda hoje inexcedível, de Holderlin, Rilke, Brecht, entre outros poetas alemães, e na criação de um verdadeiro teatro de autores clássicos portugueses, em Coimbra; outro, pela sua intervenção política, pela sua importância no jornalismo de oposição e na investigação da Inquisição em Portugal e na divulgação do processo de Damião de Góis.
Estas três figuras honram a cultura portuguesa, como transmontanos.
E acabo esta charla que já vai longa, com a pergunta a que não respondi e que reconheço tenho dificuldade em responder: haverá uma cultura transmontana?
Haverá uma cultura transmontana com a televisão a uniformizar os gostos, os valores, os hábitos e os gestos?
Haverá uma cultura transmontana com aculturação dos emigrantes naifs e com expressões kich na imitação ( seja na arquitectura, seja nos comportamentos) dos países em que trabalham?
Haverá uma cultura transmontana quando os seus últimos transmissores morrem ou vão morrendo em lares?
Haverá uma cultura transmontana, quando somos cada vez menos, para a assimilar, perpetuar e transmitir?
Falando em cultura transmontana: Não é sábio o que muito sabe, mas o que continua a aprender.
E quem nos ensina?
Disse.

Rogério Rodrigues

Júlia Ribeiro retirada do armário

Soube hoje pelo Nelson que faleceu o Jaime e soube do Peredo onde decorreu o funeral que teve uma pequena multidão de saudade e afecto, que o Jaime bem merecia. Era um homem bom, como honrada e boa é a sua família. E, falando em homens bons, fui ao rebusco na minha arca informática e encontrei o texto que escrevi e li sobre os dois livros e contos e crónicas da minha amiga Júlia Barros (já lá vão, pelo menos três anos, será?). Como vai estar algum tempo separada de nós, aproveito a ocasião para publicar o texto. Estou mais descansado que assim não me vai "perturbar" com os seus comentários que, sendo de tamanha tolerância, nos fazem sentir mais pequenos. Creio que muita gente do blogue não conhece este texto, pelo que me atrevo a publicá-lo. Aqui vai:


"Excma senhora Júlia de Barros, sr. presidente da Câmara, minhas senhoras e meus senhores

Sinto-me honrado pelo convite que me foi endereçado por Maria Júlia de Barros que literariamente se assina Júlia de Barros Biló, para apresentar o seu último livro “Contos ao Luar de Agosto”, volume II, em boa hora patrocinado pela Câmara Municipal da nossa terra. Em simultâneo é apresentado outro livro, de crónicas e contos, “De Olvido e Silêncio”, retratos do imaginário social e da memória afectiva do bairro da Corredoura e de Moncorvo.
Trata-se, quanto a mim, de duas obras fundamentais, como registo de memória e reconhecimento da sociedade moncorvense, da década de 50 à década de 70, ainda que algumas das histórias se reportem ao final do século XIX, se tivermos em conta o diário de então de um funcionário administrativo, Francisco Justiano de Castro que deixou para a posteridade a sua caderneta de lembranças. Este manuscrito foi anotado pelo doutor Águedo de Oliveira e seria publicado, em Setembro de 1975, no Boletim do Grupo “Amigos de Bragança”. A história das onze castanhas, dos tiros no soto do Aníbal Lobo, da ausência de endoenças para os presos, do administrador Ramiro Guerra que mandou prender o Abade, fazem parte, são apontamentos sucintos deste diário que Júlia Barros Biló terá certamente conhecido e que, com rara mestria, transformou, dando-lhes corpo literário.

Os moncorvenses com a minha idade encontram aqui muitas das referências da sua infância, dos seus medos e sonhos.
Desde o pícaro ao trágico, numa linguagem depurada, mas a que não falta a fertilidade poética, a metáfora e o risível em que as gentes de Moncorvo são ricas e temíveis, desde a short story de que “Por Onze Castanhas” é a máxima expressão, pelo domínio da linguagem e do diálogo, até encontramos ao nosso lado, como se ainda o estivéssemos a ouvir e nos respingasse a cara, e nos pegasse no queixo, embrulhado na sua gabardina sebenta, o Horácio Espalha, o paradigma do reviralhista isolado em terras do interior, uma exacerbada consciência crítica. Até ouvimos a banda da Miranda tocar, em Duas Igrejas, o “Bandiera Rossa”, um dos grandes hinos internacionalistas que empolgou gerações, cantado num mirandês de múltiplos sabores. Estes dois livros espelham, mais do que qualquer estudo sociológico, a índole moncorvense, a sua matriz proletária centrada na Corredoura e a sua tendência para o pícaro ( tendência que se manteve provavelmente até aos dias de hoje e de que o Arnaldo, por exemplo, é a expressão mais apurada) e a crítica ácida aos senhores da Praça. Neste livros, os sábios são o povo. Os doutores são a tola arrogância, o convencimento fácil e a estupidez sem culpa formada.

A criação da atmosfera em Júlia Barros Biló assenta num espaço real, que não a lareira como é comum a quase todos os regionalistas e cultores do conto rústico, mas ao ar livre, em Agosto, na Corredoura, na geometria xistosa dos balcões.
Júlio Dinis, um dos grandes representantes do romance moderno, de convalescença na Madeira de uma tuberculose que haveria de o minar aos 30 e tal anos, ia reflectindo sobre a criação literária, em textos que, mais tarde, já depois da sua morte, foram condensados e publicados nos seus “Inéditos e Esparsos”.
O diálogo, um dos segredos da obra de Júlia Barros Biló, merece uma larga reflexão do autor da “Morgadinha dos Canaviais”. Escreve Júlio Dinis: ”O diálogo, sobretudo, não deve distanciar-se do linguajar falado na época, em que o autor escreve, sob pena de dissipar o vestígio da verdade da narração. É necessário acomodá-lo à índole, à posição social e especialíssimas condições do indivíduo que fala, para que na leitura dele a alma vibre como se assistisse a uma cena real (...) Para que o diálogo interesse e iluda, é mister que o autor se esconda o mais possível e, para isso, tem de abdicar do seu estilo próprio e expor na boca dos actores da sua narração palavras que fossem esperar deles por quem os tivesse previamente conhecido”.
Já Garrett defendia que o diálogo devia recorrer à linguagem oral e simples e não escrita e retórica.
Este conceito justo no tempo em que Garrett o enunciou, e justo ainda hoje, é, no entanto, diariamente ultrajado pelos guiões e diálogos da maioria das telenovelas portuguesas, por um desconhecimento profundo da língua e do abuso do adjectivo, como lugar comum, como mera escória da pepita que não se encontra. Mas este tema levar-nos-ia muito longe e creio não ser este o momento para sobre ele reflectir.
Continuando: já Trindade Coelho, cujos contos, repassados de realismo e assentes em costumes rurais, confessava, na sua “Autobiografia”, serem “talvez saudades”, motivadas pela distância, porque se vivesse na sua terra talvez os não tivesse feito.
A longa ausência de Júlia Barros Biló permitiu-lhe uma aproximação mais profunda, passe o paradoxo. Na sua memória, recriou o imaginário e estabeleceu os arquétipos. E conseguiu a síntese feliz, pela voz do povo, da condição social de Moncorvo, após a II Grande Guerra.
Ao lado rústico dos seus contos, na esteira de contistas transmontanos como Trindade Coelho, Araújo Correia e Miguel Torga, e algum Camilo, devemos acrescentar um certo imaginário, entre a superstição e a lenda e a fatalidade de alguns escritores latino-americanos. Moncorvo é a sua Macondo (espaço mítico e obsessivo de Gabriel Garcia Márquez).

A Corredoura aparece como o espaço umbilical, não o espaço central, da vila. A Corredoura assume-se como o reservatório, não só de uma memória colectiva, mas também como o epicentro da crítica social, da força do trabalho e da solidariedade vicinal, na dor e na alegria, que os tempos e as migrações foram, com muita pena, apagando.
Como que é na Corredoura que se reserva e preserva a cultura profunda, a mais profunda, de um povoado, servindo a Praça, não só como instrumento de vaidade de doutores, terreno de funcionários públicos, mas sobretudo, como o centro do Poder, opressor e gratuito. E a Corredoura é do contra.
E não deixa de ser curioso que, à minha semelhança, muitos dos que aqui estão presentes, tenham aprendido as primeiras letras na Corredoura. Na minha infância chamávamos-lhe os índios, ainda a distinção social dos bairros era tão acentuada e a Corredoura uma reserva de homens pobres mas livres.
Nos intervalos das aulas mijávamos no plátano que estava à beira do “canafechal”, na esperança de o secarmos. Não conseguimos. Mas na infância, o sonho é mais importante que o sucesso.


Júlia de Barros Biló confere ao diálogo um grande espaço discursivo. O manejar linguístico torna a sua prosa extremamente visual. Sente-se melhor, é visível no primeiro volume dos contos, quando o narrador é uma mulher. Ela própria o confessa quando afirma que os contos dos homens “ não tinham para mim aquele poder encantatório, aquela magia das histórias das velhas”
Neste volume que hoje é apresentado, o Ti Serafim Galego aparece com um dos grandes contadores em torno de feiticeiras, uma das quais, com dois cornos bem gravados na sola do pé esquerdo, se transforma em parreca nos sábados de lua cheia, após colocar erva dormideira no vinho do homem. A carga judaica do sabath e a importância da lua cheia em toda a literatura hermética e esotérica são constantes nas histórias de Moncorvo.
Já “A Pedra do Mundo”, no fabulário poético dos contares, tem um lugar à parte, onde a poesia se mistura à parábola e a magia quase alquímica do tesouro e dos encantamentos percorre muito do universo do romanceiro português e também moncorvense, na confluência de duas culturas que enformam o imaginário popular: a cultura árabe e judaica.
“Cornudo de si mesmo”, outro conto, entra noutra categoria em que o pícaro, a malícia e a maledicência, tão caras a Moncorvo, ocupam um espaço profano por excelência. A história é o retrato quase desbragado de alguma sociedade machista moncorvense. É contada por Zé Sangra, um homem bom e que, por bem, gostava de arreliar os garotos, oferecendo-lhes em seguida uma moeda para irem comprar rebuçados ao Basílio. Foi assim que o conheci na minha infância. Ao contar da história, também ela com uma conclusão cheia de beleza e poesia, a que o útil se junta ao agradável, assiste o Álvaro Chalaça, “um mulherengo encartado”, como ironiza a autora.
“Mesmo depois de morto...” é outra história pícara contada pelo Todu que eu ainda conheci e que na minha adolescência e juventude deu muitas boleias para Mogadouro e Vila Flor, num tempo em que ele tinha um café e era agente de automóveis.
Relata a história do Tio Tónio Calvo, tocador de bombo na banda de música que, até na morte, foi capaz de pregar uma partida aos vivos.
Depois há histórias mais trágicas onde é visível a passagem da I Grande Guerra por Moncorvo. Luis Malhógrão, desapareceu em combate na guerra de 14. Laura, a sua mulher, de 19 anos, vestiu de preto, mas jamais acreditando que ele tivesse morrido. Um dia imaginou que o seu Luís regressara e que intensa e longa fora a noite de amor. E assim viveu os últimos 20 anos da sua vida, numa pulsão erótica que a mergulhou no espaço trágico do Eros/Thanatos.
Cabe aqui também o registo da história de uma violação, assunto praticamente tabu, ao contrário dos zorros, na memória descritiva de Moncorvo. Houve em seguida o lavar da honra e o menos útil dos três irmãos, por deficiência física, ofereceu-se ao sacrifício, como personagem grega, dando-se ele como o único culpado, de modo a que os dois irmãos válidos ficassem a proteger a mãe e a irmã. Degredado para a
África regressa rico, ainda que com ares de pobre, com um saquinho cheio de diamantes.
Também neste livro vamos encontrar outro degredado de África, que partiu pobre e pobre regressou. Trata-se de João Caramês, o herói da novela “Ares da Minha Serra” de Campos Monteiro. O conto tem a particularidade de jogar com tempos diversos, de intrometer na narrativa o narrador e o herói, o narrador antes de escrever a narrativa e o herói já depois da punição do acto de heroísmo. Ou seja, João Caramês, o jovem da novela de Campos Monteiro, é o mesmo João Caramês, que já cumprido o castigo vai buscar o então ainda jovem Campos Monteiro ao Pocinho. As virtualidades do conto são imensas e o desfazamento dos tempos, entre o narrador e a narrativa e o novo contador da história dariam campo fértil para uma exegese do tempo na ficção.
Em “A Caixa de Rapé”, a autora regressa ao fantástico. Trata-se do relato de uma caixa de rapé pertença de Miguel Malafaia, cheia de diabinhos que ele de quando em quando soltava e que faziam todo o trabalho por ele.
Já “A cidade da Babilorna...” expressa um forte conteúdo social, determinado pela revolta dos escravos, uma história que seria recebida como uma clara alusão às condições de vida na Corredoura em relação a outros sectores burgueses e pequeno-burgueses da vila.
E outras histórias e outros contos mereceriam uma mais alargada análise. Deixo esse prazer para os leitores, porque a partir de agora, os livros já não pertencem a Júlia Barros Biló. Os livros são do leitor, ele próprio os reescreve, a seu modo e à sua memória.
Já vai longa esta reflexão de aprendiz. Não queria deixar, contudo, de lhes ler a história mais curta e no entanto, quanto a mim, a mais intensa e justa e perfeita dos dois livros agora apresentados: “Por Onze Castanhas”.
...........................................................
.........................................................
Muito obrigado.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Jornada de apresentação de “A primeira comunhão”, de Júlia Guarda Ribeiro


Como aqui foi anunciado, decorreu, no passado sábado, dia 14 de Março, a apresentação pública, em Torre de Moncorvo, do livro de Júlia Guarda Ribeiro (cá na terra conhecida por Júlia “Biló”, o outro nome literário com que costuma assinar as obras mais referentes à nossa região), intitulado: “Primeira Comunhão”.
Depois de um excelente almoço-convívio num restaurante cá da vila, entre familiares e amigos/as (incluindo alguns “blogueiros”) a sessão de apresentação decorreu na biblioteca municipal, perante numeroso público.
Estiveram na mesa, além da Autora, o Presidente da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo, Engº. Aires Ferreira, a Presidente da Junta de Freguesia de Torre de Moncorvo, Milú Pontes, o Dr. Adélio Amaro (editor), Doutora Graça Abranches (professora universitária e amiga da autora), e Drª. Lucinda Antunes (colega de infância da autora).
O Presidente da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo, Engº. Aires Ferreira, gracejando, principiou por referir que estava ali, com o sr. editor, a “servir de jarra”, apenas para cumprir as quotas de presença (masculina, neste caso). Anunciou, de seguida, a reedição dos anteriores livros de Júlia Biló, “Contos ao luar de Agosto” (por já se encontrarem esgotados), e outros passos da política cultural do município para os próximos tempos.
Por sua vez, o editor, Adélio Amaro, replicou que o facto de “servirem de jarra”, significava que estavam rodeados de “lindas flores”, referindo-se às senhoras que estavam na mesa, suscitando a hilaridade e aplauso dos presentes. Fez, de seguida, uma apresentação geral do livro, a qual foi aprofundada por Graça Abranches, contextualizando-o na época em que a “acção” decorre (período do “Estado Novo”, finais dos anos 40), sendo a autora, juntamente com sua mãe, as principais protagonistas, sobrelevando o moralismo eclesial da época, os preconceitos sociais, as mentalidades e o enquadramento político (ditadura). Referiu-se ainda à capacidade “contística” da autora, já patente nos seus livros anteriores, fazendo uma análise intelectual, citando teóricos da literatura (que estudaram a literatura oral e, sobretudo, a arte de “contar” histórias) e da sociedade, mormente no aspecto da estética, como Walter Benjamin.
A Drª. Lucinda Antunes, que foi colega de Júlia Biló, na sua infância e adolescência passada em Torre de Moncorvo, referiu-se a esses tempos de companheirismo, enaltecendo as suas qualidades e recordando algumas peripécias.
Por fim, a autora, agradecendo as palavras dos intervenientes e das pessoas que quiseram estar presentes, explicitou melhor o contexto e a história de vida (pessoal) que foi objecto deste livro, assim como de outros, como os contos recolhidos junto das mulheres da Corredoira, analfabetas, mas carregando toda uma literatura (oral) e histórias de vida fantásticas. Evocou, por exemplo, a história do homem daquele bairro, que gostava de a ouvir ler histórias, e que muito se admirava por aquilo que ela dizia estar contido nos “risquinhos” que eram as linhas e as letras que estavam no livro: “ - A minha alma está de joelhos!”, foi a exclamação do velho homem, que Júlia Biló nunca mais esqueceu. Tendo lido alguns excertos do livro, terminou com uma referência ao nosso blogue e a alguns amigos que através deste espaço conheceu ou reencontrou, como foi o caso de Leonel Brito, Rogério Rodrigues e Daniel de Sousa, moncorvenses que estão longe da sua terra, mas que dela não se esquecem. Do Dr. Daniel de Sousa, médico cirurgião algures na região de Lisboa, leu a bela mensagem que fez questão de enviar e dois poemas, da sua colectânea “Café Il Greco”; de Rogério Rodrigues, jornalista e escritor, leu um poema intitulado “Femina, Femina”, dedicado à Mulher.
Houve, a encerrar, uma concorrida sessão de autógrafos e um Porto de Honra, servido no ambiente aprazível dos jardins da biblioteca, em ambiente de convívio e descontracção até ao fim da tarde.

Sobre a autora e o livro “Primeira Comunhão”, ver:
http://livros.paravenda.net/produtos/932-j%C3%BAlia_guarda_ribeiro_primeira_comunh%C3%A3o.aspx

Texto: N. Campos
Fotografias: Xo_oX

sábado, 14 de março de 2009

Saúde e Fraternidade

Muito se tem falado e escrito sobre Campos Monteiro. E muito pouco sobre o seu livro de maior êxito, "Saúde e Fraternidade". Publicado em 1923 ainda sem as caricaturas de A. (Américo) Amarelhe que só aparecerão na capa na versão definitiva da sátira, não sei se na segunda ou terceira edição, o "Saúde e Fraternidade" chegou a vender 40 mil exemplares, a ponto de Aquilino Ribeiro reconhecer que foi um dos livros de maior êxito no primeiro quartel do século XX. Após um longo esquecimento, só em Dezembro de 1978, nas Edições Templo, é que saiu a última edição da "Saúde e Fraternidade ", baseada na sétima e décimas edições, incluindo ilustrações de Amarelhe. Contudo, numa edição pouco cuidada, enganam-se na data do preâmbulo dos editores. Onde, na primeira edição, Campos Monteiro escreve 1993, eles erram escrevendo 1939.
Tanto a primeira edição com a última (eu tenho ambas) serviram para uma consulta de que vou dar alguns apontamentos neste post.
"Saúde e Fraternidade (História dos Acontecimentos Políticos em, Portugal desde Agosto de 1924 a novembro de 1926), Livraria Civilização Editora, Rua das Oliveiras, 75, Porto)" é um libelo contra os últimos anos da República e um sonho, jamais realizado, da reintauração do regime monárquico através do levantamento popular dos camponeses do Minho e e Trás-os-Montes contra um Estado Bolchevique. Já lá iremos. Escreve Campos Monteiro, numa espécie de advertência preambular: "Este livro há-de ser escrito daqui a 70 anos. Por um processo especial de adivinhação, já conhecido de resto, pelos que se dedicam ao estudo do Iluiminismo, conseguiu quem o dá a lume saber a maneira como os historiadores do século XX hão-de encarar os sucessos políticos a que nós, homens de agora, vamos assistindo (...) Publica-se a obra tal como saiu dos lábios do Vidente, da nossa pena de simples secretário seu, tal como há-der sair dos prelos de uma imprensa do Porto, em certo dia de Outubro de 1993".
O prefácio serve para criticar Afonso Costa, um dos alvos predilectos de Campos Monteiro, a par de Júlio Dantas e Lopes Cardoso.
Com uma capacidade satírica notável, ridiculariza, ao jeito da "Queda de um Anjo", de Camilo, o Parlamento e o anticlericalismo dos primeiros anos da República. A título de exemplo critica e diverte-se com o facto de o deputado (mais tarde primeiro ministro) Sá Pereira, se rebelar contra a Igreja, considerando casus belli a erecção do Coração de Jesus no morro do Corcovado (Rio de Janeiro). Júlio Dantas, o cortesão médico/ escritor da "Ceia dos Cardeais" é dado por Campos Monteiro como o exemplar, por excelência, dos adesivos. De monárquico chegará a Comissário dos Sovietes, mas quando estes são derrotados começa a escrever a história de Ilustre Casa de Bragança... O Almada (Negreiros) é que o topou. E o Mário Viegas também, declamando o "Manifesto Anti-Dantas".
Como Vidente, ou seu secretário, imagina um Governo revolucionário em que "não houve soldado que não ficasse sargento". São encerrados os centros políticos que não sejam radicais ou socialistas, redobra o "velho ódio às crenças cristãs", o Dente d'Ouro, o sargento Olímpio, da Marinha é libertado do forte de Elvas e trazido em apoteose para Lisboa. Diga-se que o Dente d'Ouro, era natural da Cardanha e esteve na Noite Sangrenta em que foram mortos António Granjo, primeiro-ministro, natural de Chaves, Machado dos Santos, o herói da Rotunda, e Carlos da Maia. O Dente d'Ouro seria o matador, encomendado e pago pelo padre Lima, também da Cardanha como mais tarde terá confessado a Berta Maia, viúva de Carlos da Maia que, com frequência, visitava na cadeia o assassino do seu marido, numa investigação quase heróica. O livro de Berta da Maia só saiu em 1926, exactamente na altura de "revolução do 28 de Maio", o que deu a que tenha ficado na penumbra durante todos estes anos. Espero que o centenário da República seja a data ideal para uma reedição digna.
Continuando: segundo as profecias de Campos Monteiro teria sido também libertado, Júlio Costa, o assassino de Sidónio Pais. Não deixa de ser curioso que o regicida Alfredo Costa seja da mesma terra, Garvão (Alentejo) que o assassino de Sidónio Pais, ainda que, com o mesmo nome, não fossem nada um ao outro.
Mas é o ministério de Procópiode Freitas que é alvo da grande sátira (é obrigatório reconhecê-lo), ainda que de um reaccionarismo incomodativo, no mínimo. Salienta que o nacionalismo lusitano onde navegavam os monárquicos sob a tutela ideológica do integralista António Sardinha sonhavam com o fascismo de Mussolini.
Não resisto a transcrever a demissão de três ministros de Procópio de Freitas. Textual:"... O País estava descontente com o ministério; e não só o país: o próprio partido,-sem reparar em que , se o governo nada fizera, fora porque o partido o não deixara. Nesta condições, o gabinete punha nas mãos do chefe do Estado a solução da crise, oferecendo-lhe desde já a sua demissão.Bernardino Machado continuava anediando a pêra e cofiando o bigode. Os seus olhos, agora, cravavam-se no ministro das Finanças.
- Suponho não ser preciso tanto - disse depois de uma pausa. - São três apenas os ministros que desgostaram a opinião pública: o das Finanças e Trabalho, o da Instrução e o da Guerra. E não será necessário apelar para a sua dedicação ao regime quando se reconhecer a impossibilidade...
Aragão e Brito, Camilo de Oliveira e Veiga Simões ergueram-se, depondo as suas pastas sobre a secretária presidencial.
- Muito bem! - disse Bernardino Machado, com o mais amável dos seus sorrisos. - Nem outra coisa seria de esperar da isenção e inteireza de carácter que sempre me aprouve reconhecer em vossas excelências.
E chamando o seu secretário, antes que os três se arrependessem ou algum dos presentes alvitrasse qualquer outra solução:
- Meu caro Ângelo! Faça aí a nota oficiosa de que os ministros das Finanças, Instrução e Guerra solicitaram a sua exoneração, e mande-a já para a Imprensa.
Ângelo Vaz ia retirar-se, ajeitando as lunetas, quando Bernardino Machado tornou:
- Ouça. Não se esqueça de pôr que Sua Excelência o Presidente insistiu com os ilustres estadistas para que retirassem o seu pedido, sem conseguir demovê-los da resolução tomada.
E voltando-se para Procópio de Freitas:
--O senhor presidente do ministério terá a bondade de mandar lavrar imediatamente os decretos, sem esquecer as palavras sacramentais, que desta vez são de absoluta justiça: "serviram com zelo, comprovada dedicação e acendrado patriotismo".
Os três ministros demissionários iam a retirar-se quando se abriram de par em par as batentes de uma porta e por ela entraram dois criados com bandejas de prata na mão. E o presidente cordialíssimo:
- Então já se retiram? Não tomam uma chávena de chá? Um cálice de vinho?
Como os outros recusassem, agradecendo, e marchassem para a saída, o chefe de Estado terminou, de chávena na mão e roendo uma torrada:
- Que pena terem tanta pressa! Mal imaginam como estão deliciosas estas torradas, com manteiga da minha fábrica de Coura...
***
A notícia da demissão dos três ministros acalmou o país. Ninguém lamentou a sua queda, salvo eles próprios, que deram um cavaco medonho com a história. Aragão e Brito, então, estava furioso. Aquela piada presidencial da manteiga provava-lhe que fora especialmente o monopólio desse produto, altamente prejudicial para a a indústria dos lacticínios do norte, quem o deitara a terra. E comentava para os companheiros de desgraça, no automóvel que os reconduzia ao centro da cidade:
- Todos os ministros caem escorregando numa casca de laranja. Nós escorregamos num pacote de manteiga.
- Escorregássemos fosse no que fosse, a questão é que caímos - respondeu o tenente-coronel Camilo de Oliveira.
- Mas não ficaremos assim!Eu pelo menos! - disse Veiga Simões. - Amanhã corro a filiar-me no partido sindicalista.
- E dois! - fez Aragão e Brito.
- E três - concluiu o ex-ministro da Guerra.
Assim foi, de facto. Dois dias depois os jornais noticiavam a adesão dos três estadistas ao anarquismo."

Poderá parecer excessivamente longo este excerto narrativo de Campos Monteiro. Mas exemplifica bem o estilo de Campos Monteiro, a sua capacidade de "inventar" situações e recriar diálogos, não fosse ele um homem que escrevia muitas obras para o teatro e operetas. E depois tem o registo do que ele chama as trouvailles. Ainda o francês era a língua nobre.
Recorda, salivando de satisfação, os dias turbulentos do Parlamento, em que havia pancadaria a sério, deputados ferrabrás, para quem estes Eduardo Martins e Afonso Candal não passavam de meninos de coro. Não deixa de brincar com os nomes dos ministeriáveis. E não faz por menos quando sabe que o ministro de Guerra é o Manuel Maria Coelho e o do Interior, Alfredo Gusado. Escreve ele que a má língua lisboeta chamou logo a este ministério o "ministério do coelho guisado".
Diverte-se com a questão do amor livre, em que cada deputado poderia votar "segundo a sua consciência ou o seu temperamento"
Noticia que Trindade Coelho aderiu ao partido monárquico.
Mas a sua sanha vai para Lopes Cardoso, conterrâneo seu, cuja casa, segundo me dizem, seria aquela da Rua do Cano, actualmente na posse do meu amigo Chico Sendas. Seria interessante saber as causas desta aversão a Lopes Cardoso.
Afirma Campos Monteiro que o acordo dos radicais e conservadores para uma lista não agrada a Lopes Cardoso " com o fundamento de que sendo o bolchevismo uma criação da grande judiaria europeia, e pertencendo ele à raça judaica, não lhe ficava bem combater os sindicalistas".
Esta ideia de bolchevismo ligado à judiaria do grande capital, alastrou e chegou mesmo à Alemanha de Hitler com uns apócrifos "Protocolos de Sião", escritos no princípio do século XX, justificativos de alguns pogroms e que teriam chegado a Paris pela mão de uma duvidosa condessa russa.
Ter-se-á então desenvolvido um grande movimento grevista, enquanto a fome alastrava pelo país. Campos Monteiro dramatiza ao máximo a situação. Seria interessante ( e é pena que agora não tenha oportunidade e sobretudo tempo) cotejar a verdade histórica com a "invenção" de Campos Monteiro.
Assim, o proletariado, os camponeses, numa remake da ocupação do Palácio de Inverno e mais tarde, já em 1975, do cerco e momentânea ocupação da Assembleia Constituinte pela Cintura Industrial de Lisboa, Campos Monteiro imagina o Parlamento nas mãos dos populares com um deputado, Moura Pinto, ainda a reagir, exclamando: " Estamos aqui por mandato do povo e só sairemos desta sala na ponta das baionetas.
- Vocês saem mas é na ponta dos nossos sapatos, respondeu um popular juntando o gesto à palavra".
Bernardino Machado foge de Belém e refugia-se no quartel do Carmo. Procópio de Freitas desfralda o pavilhão da república social no topo do navio. A marinha revolta-se. São criados os comissários do povo e o Alto Conselho dos Sovietes. Os jornais deixam de existir. Os estrangeiros fogem do país. A marinha mercante abandona os nossos portos. São cortadas relações diplomáticas e comerciais. Portugal fica entregue a si mesmo. o Governo russo reconhece a "república sovietista (sic) portuguesa". O Diário da República começa a chamar-se "Monitor da República dos Sovietes". É adoptado como hino a Internacional. É proibido qualquer culto religioso. São extintos todos os bancos. É decretada a pena de morte. O país é dividido em seis províncias. A província de Trás-os-Montes começou a chamar-se Kropotkine, o príncipe russo anarquista que pouco ou nada teve a ver com o leninismo, diga-se de passagem, o que parece Campos Monteiro não saber, não entender ou não querer entender.
Segundo o Vidente de que Campos Monteiro é secretário, no Verão de 1925 "havia fome em todo o país". E de novo vem Lopes Cardoso à baila. " O delegado adstrito ao corpo militar enviado a pacificar Trás-os-Montes foi Lopes Cardoso, antigo monárquico, ministro democrático, reconstituinte, nacionalista e radical, enfim tornado bolchevista. Era sua e da sua gente a província que pisava agora, à frente de uma coluna do Exército Vermelho (...) Era bem o homem que tendo sido católico ao ponto de não faltar a uma procissão em Bragança e realista ao ponto de conspirar contra Paiva Couceiro, desatar a desterrar padres e a transferir juízes apenas se viu ministro da Justiça".
Muito mais haveria ainda a dizer sobre este ficcionado regime bolchevique por Campos Monteiro. As marquesas e condessas montaram um restaurante, Alfredo da Silva, o homem mais tarde da CUF, era empregado de mesa, o Teatro Nacional foi transformado em Teatro Lenine e Júlio Dantas começou a escrever peças de "realismo socialista".
Paiva Couceiro revolta-se, mas não tem apoios e regressa á Galiza. Até que o povo do Minho e de Trás-os-Montes começando em Alijó bate o Exército Vermelho e proclama em S. Pedro do Sul a monarquia. E Campos Monteiro, pelos vistos, fica feliz com uma ilusão que nem em 1993 (como se fora um serôdio Orwell) a monarquia vingou. É um livro divertido, para não ser levado a sério mas que de qualquer modo se aprecia pelo talento satírico, pelo reconstruir de situações em que Campos Monteiro é exímio.
Peço desculpa por esta escrita tão apressada, sem jeito nenhum. Quis apenas deixar o registo de um livro que, hoje é tão pouco conhecido.

quarta-feira, 11 de março de 2009

"Contos dos Montes Ermos", de António Sá Gué

Num comentário a um “post” anterior ficou referência a mais um livro de contos, para além do de Vítor da Rocha, também recentemente editado (Dezembro de 2007). Trata-se de “Contos dos montes ermos”, de autoria de António Sá Gué, obra editada pela arteEscrita.
Para além desta obra, Sá Gué publicou ainda o romance As duas faces da moeda (Papiro, 2007) e participou na antologia Mimos e contos de Natal (também com a chancela da Papiro, em 2007) - ver nota bibliográfica na badana da capa, em baixo.

Os Contos dos montes ermos são 11, a saber: o velho; o eucalipto; o comboio; o colégio; a feira; o desertor, a procissão; o desmancho; a banda; a ignorância; o formigueiro. Como o título indica, o cenário desses contos são as terras transmontanas “grosso modo”, adivinhando-se alguns contornos de povoados aqui bem próximos de nós. Tal como o comboio é o da defunta linha do Sabor… Até mesmo a fábula da formiga do último conto, acaba por ganhar, no final, a marca da região: tratava-se de uma “aluda” (confesso que a primeira vez que ouvi esta palavra, era eu um chavalo, foi em Carviçais… - fui ver à Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, e não é que constava lá, com a indicação: "regionalismo, da região de Torre de Moncorvo"?).


A apresentação deste livro, em Torre de Moncorvo, foi realizada no ano transacto (2008), na Biblioteca Municipal.


Capa do livro Contos dos Montes Ermos e biografia do autor (clicar em cima para aumentar)

Para aguçar o apetite, aqui fica um excerto:

“…dava dó ver os possantes catrapilas desenraizar as centenárias oliveiras e carregá-las para serem vendidas por essa Europa fora, a alindarem algum jardim de alguém endinheirado. Até os muros de pedra solta foram veniaga. Como é possível?..., perguntam-se alguns. Não estou a falar de pedra, não, estou a falar de muros, muros de pedra solta,
muros que contam história,
peças de património,
molduras da paisagem,
Não! O dinheiro tem mais peso… Qual património, qual memória de povo!... As máquinas precisam de entrar à vontade.
Morreu de pasmo, quando os charruões, capazes de arrancar fraguedos, esventram sem dó nem piedade o olival da Ferraria”.

- A que atentado ao Património se estará a referir o autor?

Para o saberem, procurem o livro, pedindo-o para Biblioteca Municipal de Torre de Moncorvo, ou para: artEscrita Editora Ldª. , Rua Comendador António Augusto da Silva, 127, r/c, 4435-193 Rio Tinto; e-mail: editora@artescrita.com

- Chamamos ainda a atenção para o "site" (ou sítio) parceiro deste blogue, intitulado "Palavras ao Vento" (na coluna do lado direito, em baixo); aí poderão ler mais textos de António Sá Gué e conhecer melhor este nosso conterrâneo. Ou, se preferirem, podem clicar já sobre este endereço: http://antoniosague.blogspot.com/

"Na andadura do tempo", de Vítor da Rocha

Porque nos comentários ao "post" anterior veio a propósito o nome do nosso conterrâneo, o escritor Vítor da Rocha e o seu livro Postigo Cerrado (Círculo de Leitores, 2002), aqui apresentamos o autor (ver nota biográfica na contracapa, em baixo), assim como um excerto do seu primeiro livro Na andadura do tempo (contos), de 1997 (ed. Campo das Letras).
Este último teve já uma reedição em 2007, sendo alvo de uma apresentação, com sessão de autógrafos, em Outubro desse ano, na Biblioteca Municipal de Torre de Moncorvo.

Capa da 2ª. edição, da editora ArtEscrita (2007)

Contra-capa da 2ª. edição (clicar para aumentar - ver currículo)

Como vem a talhe de foice, no seguimento do "post" anterior sobre a escola primária do Peredo, pois aqui fica também este testemunho sobre a vida escolar de outros tempos, noutro lugar, quiçá Carviçais, terra do autor:
"Mais remediada que pobre é a família onde o Eusébio nasceu. Até à idade da escola andou sempre agarrado às saias da mãe, filho único, sem se saber se ruim era a semente de seu pai ou o campo da mãe, sem estrume, de modo que os primeiros contactos com os outros rapazes foram dolorosos. Uns pontapés nas canelas, socos nas costas, foram os primeiros cumprimentos dos mais velhos e ao verem que se encolhia e não devolvia o troco tomaram o gosto ao bombo da festa. Contudo, nas letras revelou-se mais vivo que os outros juntos, e foi a sua salvação, por tal se livrando de mais bordoada, pois que para que ele os deixasse copiar ou lhes fizesse os deveres meteram a mão no bolso e abandonaram o massacre. Mas, fora essa precisão, puseram-no de lado, incapaz de atirar pedras a distância que se preze, de subir a árvore, de acertar com o mijo no formigueiro a um metro de lonjura, de se espolinhar no pó do chão agarrado aos cabelos do inimigo. Humilde, disse o professor Dinis para o pai, no fim da quarta classe, um dos poucos que chegou ao termo da escola, e logo com umas provas dignas de doutor, a maioria desistiu e outros reprovaram, humilde e inteligente, senhor Óscar, o seu filho tem uma rica cabecinha, é pena se não seguir adiante. Mais adiante para onde, senhor professor?, não tenho posses para pô-lo a estudar, mesmo para deixá-lo andar até à quarta já foi o arco da velha, com precisão do rapaz nas leiras, que é o único braço com que eu e a mulher podemos contar, e o trabalho de menino é pouco mas quem o rejeita é louco. Cofiou a barba o professor Dinis, barba bem aparada, barba de senhor de letras e saber, pintalgada de branco de longe em longe, pois é, senhor Óscar, tem razão, mas olhe que é uma pena, tem ali um filho que podia ser doutor, ou talvez um padre. // Doutor ou padre, senhor professor?, com respeito do senhor, não me faça rir, que até me dá vontade de chorar, ora vejam lá, nascido no meio de porcos e dos machos, rumelento e ranhoso, sem direito para lhe comprar uns sapatos, e o senhor professor vem-me com essa de pô-lo a estudar pra doutor ou padre. Não alcanço tão alto, senhor professor, saber ler já é mais do que o que eu tive, e agora daqui para a frente é aprender a vida, os trabucos que ela nos dá, e ser um homem honrado, que não é pouco nos tempos que correm".
- O que terá acontecido ao Eusébio? será que continuou a sina milenar da sua gente, na gleba transmontana, ou terá seguido outros voos? > para o saber, terá de ler o primeiro conto de Na andadura do Tempo, intitulado: "O anjo e a puta".
- Para aquisição, pode contactar a Biblioteca Municipal de Torre de Moncorvo, ou fazer o pedido "on line" através do seguinte endereço: http://www.wook.pt/Authors/detail/id/37127
Boas leituras!!
Nota: logo que possível, será "postado" também aqui algo sobre o "Postigo Cerrado".

segunda-feira, 2 de março de 2009

O Roboredo e a paisagem circundante, pelos olhos de Campos Monteiro

Deixámos, há dias, o escritor Campos Monteiro, sem apetite, à hora do jantar, depois da sua chegada a casa, na Rua da Misericórdia, segundo nos relata na primeira das suas cartas em verso (ver post de 25.02.2009). Estes poemas em forma de carta foram escritos em Torre de Moncorvo, pelos inícios do século XX (não se sabe a data com rigor, pois o próprio autor, na edição original, escreveu em rodapé: “Moncorvo, primavera de 19…”).



Vista da serra do Roborêdo, a partir do "Castelo".


As referidas poesias, sob o título “Cartas da Minha Terra” (dedicadas a Heitor de Figueiredo), estão incluídas na colectânea Versos Fora de Moda, obra datada de 1915. Portanto, dado o esquecimento da data precisa por parte do autor, é natural que se tivesse passado um bom par de anos entre a sua escrita e a compilação no dito livro.
A primeira carta-poema aqui transcrita, tinha por título, como vimos, “Em viagem”, relatando o trajecto entre a estação do Pocinho e a sua morada, no bairro do Castelo.
A segunda, parece relatar o dia seguinte à sua chegada, e intitula-se: “II – O Roboredo”. É uma saudação à serra que o viu nascer e à paisagem envolvente. Dada a sua extensão, tal como fizemos anteriormente, vamos apresentar apenas partes do poema, para não maçar os nossos visitantes.

Aqui fica:

II – O Roboredo.

Levantei-me da cama muito cedo
E, sentindo a alegria de viver,
Fui abrir as janelas em segredo,
Para cumprimentar o Roboredo,
Um velho amigo, que me viu nascer.

Da varanda que dá para a montanha,
Com um gesto amigável, saudei-o.
Que linda serra, de beleza estranha!
Que pena que ela seja assim tamanha
E t’a não possa eu mandar pelo correio!...

Não sei de mais formoso anfiteatro
Nem de mais calmo, doce e cândido vergel.
É o panorama que eu mais idolatro.
Lembra o pano de fundo d’um teatro
No terceiro acto do “Guilherme Tell”.

Calcula: Ao fundo, as vinhas verdejantes,
Vetustos olivais e amendoeiras esguias.
Depois, florestas de árvores gigantes,
E, de onde em onde, as manchas rutilantes
De estevas, urzes, arreçãs, peonias…

Tudo isto tão polícromo e tão vivo,
N’uma tão justa orquestração de côr,
Que a mim mesmo pergunto, Heitor(1), porque motivo
Na linda vila de onde sou nativo
Nunca nasceu um único pintor!

(continua)

Nota 1 – o destinatário desta carta é o seu amigo Heitor de Figueiredo, também poeta, a quem dedica este capítulo das cartas.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Em Viagem II - continuação do poema de Campos Monteiro

Foto da entrada da vila de Torre de Moncorvo (às Aveleiras), no tempo de Campos Monteiro (in Ilustração Trasmontana, 1908-1910)
Olha agora à direita, e vê: parece um cromo.
No sopé da montanha uma sé colossal,
e em volta cinco ou seis centos de casas, como
Ao redor de um castelo um burgo medieval.
É Moncorvo! Está perto o termo do caminho ...
Lá vejo a casa em que eu à luz do mundo vim;
paira-lhe sobre o tecto um fumo cor de arminho,
tão branco, que parece um lenço de alvo linho
Posto ali a acenar, para chamar para mim !
Às Aveleiras, desço e sigo a pé. É perto...

Trajecto que o escritor seguiu, desde a Rua do Cabo, até à sua casa, na rua da Misericórdia -foto de N.Campos (clicar sobre a foto para a ampliar)
Estavam d’antes aqui a esperar-me - era certo!
- meu pai e minha irmã, ambos a par.
Mas a morte passou, e levou-os consigo.
Vê-se d’aqui, porém, o seu jazigo,
e é p’ra eles que mando o meu primeiro olhar,
agora, preparar! Vamos calcar a argila
da rua que conduz mesmo ao centro da vila,
e há caras conhecidas nas janelas
e às portas, a tomar o fresco. E em todas elas,
mal eu desponto, surge um clarão de alegria.
Tenho de saudar, dizer se passo bem,
e perguntar depois como eles vão, também.
E n’esta via-sacra atroz da Cortesia,
vou seguindo e parando ... Até findar o dia.
Aqui tens, logo à entrada, as senhoras Botelhos,
o Daniel e a mulher ... Coitados! Estão velhos,
mas sempre amigos: Dáfnis e Cloé.
Depois, no Lageado, a gente que passeia
n’este cair-de-tarde idílico de aldeia.
Caio em pleno triunfo! É a hora do café,
e o botequin do Ernesto está au grand complet!
E na Rua das Flores, e na Praça
toda a gente que está me saúda e me abraça.
N’um banco do Castelo, o ti’Zirra, ceguinho,
- santo velho! Cegou de tanto trabalhar!
- levanta-se, a sorrir: - «Deus o traga, vizinho!»
E a sua mão tremente de velhinho
Procura a minha mão, a tactear!
Meus bons patrícios, cheios de virtudes!
Honesta, digna, hospitaleira gente!
Como eu me sinto bem entre os seus braços rudes,
E como folgo em vê-los novamente!

Casa onde nasceu Campos Monteiro, em lamentável estado de degradação - foto de João Pinto V. Costa

Ao penetrar na minha rua, todos
Saem de casa para me abraçar.
Recebo beijos... Efusões a rodos...
E a Lídia, à porta, grita com maus modos:
- «Deixem-n’o em paz, que há de querer jantar!»-
Porém, sentado à mesa, tão contentes
Sinto os olhos, a alma o coração,
Que nem toco nos pratos excelentes
Cozinhados por minha devoção.
E a minha mãe - coitada! - a sorrir e a dizer:
- «Come, meu filho! Vais adoecer
Se começas assim a jejuar!» -

Como há de ter vontade de comer
A boca que só tem desejos de beijar!
Campos Monteiro, in “Versos Fora de Moda” (1915)

eXTReMe Tracker