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quarta-feira, 6 de maio de 2009

Um poema sem repetição

Tinha-me prometido a mim mesmo não publicar no blogue qualquer poema meu (além do do Horácio Espalho que já tem mais de 37 anos e está pulicado em livro). Mas como fazemos um ano e a melhor forma para mim de celebrar o aniversário é revelar aquilo que, porventura, me é mais íntimo e caro, a chamada tortura poética, a escrita mais inútil, mas a mais importante que eu conheço, glosando o Jorge de Sena um dos meus poetas de referência. Li alguns poemas de que sinceramente não gostei, por falta de oficina e de um certo amadorismo que a chamada e muito controversa "iluminação poética" difilmente aceita. Espero que não me levem a mal, mas garanto-vos que é a primeira e última vez que vos aborreço com um poema meu. Aqui vai, então.

CARTA À NETA

( para a Beatriz ler só daqui a 10 anos)

Natal 2008, celebrado em Palmela


Naquele tempo tinhas sete anos
mais velha do que os pássaros
mais forte do que as flores
mas voavas como os pássaros
e eras mais bela que a beleza.

Naquele tempo tinhas sete anos
alguns enganos e nenhuns desenganos
e os barcos perdidos andavam à procura
das margens ainda por encontrar.
O sol não era luz mas secura
e tão sofrido era o deserto que por perto
nem areia havia para o nomear. Ninguém
conhecia ninguém e os frutos recolhidos
na noite sabiam a estrelas amargas.
Os deuses devoravam deuses, mas tu
caminhavas. Pequena e bela, caminhavas
em estradas que não havia, a futurar.

Naquele tempo tinhas sete anos
e o céu mal cabia no inferno
tão cheio que estava de lamentos
de quem se recusa a acreditar.
E os pássaros enlouqueciam
e as flores frágeis adormeciam.



Passaram as estações como se tivessem passado
e os limoeiros da lembrança foram cortados
a mando dos dias ocultos que nos devastaram.
Nas manhãs calcinadas da alegria, com a quimera
amarrotada na algibeira, penso em ti, como
se o teu futuro fizesse parte do meu passado.
Olho-te amanhã olhando-te hoje, ainda
que a cegueira esteja tão próxima que só sinto
que te estou a olhar sem te ver. Trago
pedras que muito pesam mas não liberto.
Trago feridas, o caos e ternura deserdada
porque para tudo dou nada e a noite sangra
só de me conhecer. Dá-me um gesto para te agradecer.

Naquele tempo tinhas sete anos
e nada havia que não tivesses:
uma lua, um anel de brilho sagrado,
um riso sem mácula, que a madrugada
te acompanhava, amiga e alada
até ao último transporte da alegria.

No crepúsculo da tristeza, lembra-te
dos dias luminosos, quando caminhavas
com as mãos coloridas e lenços brancos
como velas de um navio que tu eras.
Mas o tempo corrupto corrói-nos até secar o osso.
Como te hei-de dizer que fiquei sempre
à porta do infinito com a chave errada?
Se um dia te disserem que passei na vida
como ausência, acredita. E o ausente se diluiu
como fertilizante na terra de ninguém, acredita.
E que dos teus lábios floresçam palavras
sinais de que o voo da borboleta procura
a harmonia e que nas terras altas do castigo
o sofrimento ensaia melodias sem sentido.
Voltarás um dia como folha limpa e branca
para desenhar sonhos que já não posso acompanhar.
Dói-me ter alma e não há segredos para revelar
nem heranças nem destinos. Apenas um viajante
sedentário que sabe nunca chegou a nenhum lugar.
Que os teus olhos não se cansem a olhar a tristeza
mas que as tuas palavras amansem a amargura
e tragam nas suas letras a explicação do silêncio.

Quando passeares na cidade, não te esqueças das montanhas.
Ali se escondem os espíritos, os abandonados pelo tempo,
os banidos ladrões falhados do assalto à alegria.
Serei uma sombra, um nome vago, um morrer
sem memória. Não serei. Obscuro nulo de nada. Talvez um grão.
Estou de abalada para dentro de mim, sem bornal nem seguro.
Mas como eu sonho que um violino me toque como
se eu fosse o violino e a sua melodia. Flor,
deixa-me os espinhos e respira. Sinto que é brisa.

O poço da frescura vai secando. A metáfora sofre
de artrite, o verbo iluminado esmorece, os filamentos
do sonho fundem-se e Deus chegado a esta idade já não me habita.
E a ternura é um lenço sujo que escondo no bolso roto.

Naquele tempo tinhas sete anos
e ainda havia guerras e povos
e gente mal vista que pedia
esmola como sentinela em riste
com granadas de dor prestes a explodir
e nós sem dó ouvíamos cantos e não prantos.

Abertas as pétalas da memória lembro-te como se fosse amanhã
e a chuva no seu ciciar em chão translúcido
não conseguisse apagar as tuas pegadas. Na primeira hora da noite
o caracol voltou a casa e noutros lugares de infância acenderam
a lareira. Há dores que se queimam nestes incêndios antigos.
Retomo a mão que não aguenta o movimento. E recolho-te
à distância, como se jogássemos às escondidas, para enganar
o tempo. Não me vês mas eu vejo-te e mal a mão sossega
num aceno que ninguém aceita. As palavras são tão breves
que não chegam até ti. São tão surdas que ninguém pára
para as ouvir. Descarrego sombras e melancolias, no vício
de julgar que o barro se transforma em ouro e quando
te acenar todas as sirenes do Mundo começam a soar.

O corpo está cheio de apelos, coberto da cinza do vulcão
luz do Mal em áridos campos de erva queimada.
Mas tu voaste sobre a cratera e soubeste histórias
de um vulcão que morreu de tristeza ao ver que o trigo não crescia
e os animais pujantes fugiam da lava fria. Um dia vais saber
o que estava no interior do vulcão: pedras, fogo
proibido e roubado aos deuses, ameaças e ventos com grilhetas.
Hoje é dia de nada e os bêbedos encostam-se aos lugares
mais estranhos da terra, falsas sibilas de hálitos falhados.
Olho-te amanhã como se fosse ontem, no ludíbrio de espelhos
que nos iludem como habitantes do País das Maravilhas
e a Utopia e o Futuro fossem duas aves bem-vindas
no precipício, sedutoras como a Morte que se esquece.

Naquele tempo tinhas sete anos
mais que ter eras o tempo de ser
e não havia flores que te não cheirassem
nem pássaros que te não cantassem.
E os passos que davas eram mais
do que passos: longa viagem sem terminar.

Escrevo-te esta carta como se o tempo já tivesse passado
sobre ti e parado em mim. Não acredites no tempo
e na sua ilusão. Amanhã julgarás que ontem não foi diferente
do que julgas. Mas foi. Na penumbra a música
começa a chover com remos ao fundo
para viagens sem destino até ao quebrar
da quilha ou o rio transbordar das margens.
Olha como são antigos os mitos e bebemos sangue
fartos das promessas de mel e leite e água pura.
Queria que soubesses que o Mundo não vai acabar
que só acaba quando nós acabamos, um a um,
flores pisadas quando todos correm em direcção ao terror.
Amanhã já o braço me pesa para te dizer adeus
já os olhos te confundem com uma flor boiando no lago.

Escrevo-te esta carta para leres quando já não existirem cartas
e se acreditares na Idade do Ouro eu também acredito
ainda que não acredite. Mas tu és a crença e a minha
senha para qualquer outro lugar. Deixemos que os mortos
nos esqueçam e com os teus olhos contempla os vivos
e com as tuas mãos liberta o vento e exalta os dias.
As trevas aproximam-se. Ouvem-se no silêncio.
Trazem contas para ajustar. Não temas. Canta e
ilumina as trevas e embala o silêncio
até ele morrer. E canta, canta com paixão
e compaixão pelos que já estão proibidos de cantar.
Escrevo-te esta carta à beira do cais, à espera
de um barco que não há meio de chegar.

Naquele tempo tinhas sete anos
que ninguém mais pode inventar.
Os dias eram curtos para tanto sonho.
O tempo que demoraste aqui chegar!
Já demos a volta ao mundo
está na hora de regressar. Os
que já entardecem, saúdam-te.
Vá, acorda, começa a madrugar.

Rogério Rodrigues
26/28 de Dezembro de 2008.

domingo, 3 de maio de 2009

Queixas de D. Quixote

Este texto é exclusivamente dedicado ao Ángel e a todos aqueles que ainda acreditam que o Sancho não ganhou a Quixote. Lembrei-me de Abril e de tudo o resto.


Sancho, Sancho, vendeste o burro e compraste um Mercedes. Disseram-me que casaste com a Dulcineia*. Como eu, o burro é um animal em vias de extinção. Eu injectei-me nas veias, no Casal Ventoso, enquanto tu passavas férias em Palma de Maiorca. Eu suicidei-me, exausto de tanta utopia, enquanto tu prosperavas na Bolsa. Eu fui sem-abrigo no Martim Moniz, enquanto tu passavas por mim sem nunca me teres reconhecido. Eu fui operário na Expo, enquanto tu especulavas nos terrenos da construção. Eu, atropelado na Avenida, esperei longa e sofridamente nos corredores do S. José, enquanto tu tinhas médicos e flores e enfermeiras e sorrisos para uma operação plástica. Eu escolhi o fundo do bar, o mais fundo do bar, a lança perdida no autocarro, com as feridas do sonho por cicatrizar. Tu sulcavas ondas e compravas tudo em volta: políticos de amanho e gente de passagem. Tu que nunca pensaste, eras o único pensador. E a tua mão trocava afagos por anéis. Enquanto eu protestava contra a Nato, tu vendias armas nas ruínas de Kosovo. Enquanto eu resistia na montanha, tu praticavas o indonésio em Jacarta. Eu fui preso enquanto tu jantavas com os que me prenderam. E quando a utopia estava no auge, num tempo breve em que os moinhos de vento eram o nosso maior património cultural, também tu, até tu, desceste à rua a defender a utopia, com o Mercedes escondido na garagem. E então deste-me um abraço, Sancho.Iríamos ter a nossa ilha que tu já tinhas comprado. Comprado só para ti. Eu abandonei os moinhos de vento para combater o betão, o betão com que tu enriquecias. O betão cresceu, matou a paisagem e a minha lança de tantas batalhas vãs, mal cabe em duas assoalhadas. Quis oferecer às crianças o sonho, mas as crianças preferiram os teus jogos de computador. Enquanto eu tinha o senso do amanhã, tu tinhas o bom senso de hoje. Olhámo-nos tantas vezes nos campos de La Mancha e eu sem nunca ter entendido que o teu burro era mais veloz do que o meu cavalo. Ai! Sancho, Sancho, Deus gosta mais de ti do que de mim.

*(Nota de Pedro Castelhano: Relatos apócrifos informam que Sancho matou Dulcineia por ciúmes dos moinhos de vento)

terça-feira, 28 de abril de 2009

Medo(s)


Vivi numa casa, com outros Colegas Estudantes,
Onde teve que se esconder alguém que,
Apenas por querer ser livre
Num país amordaçado pelo regime,
Estava a ser perseguido pela polícia política.

É verdade que havia
Prisões políticas, tortura e mortes.
Era assim que a morte saía à rua.
Como o sabias tu, Zeca Afonso!

Sem medo,
Muitos estudantes e professores ousaram lutar
E, naturalmente, vencer.
Quem sabe faz a hora,
Não espera acontecer...

Passados trinta e tal anos,
Vivo numa sociedade formalmente livre,
Mas terrivelmente amordaçada
Por cada um de nós, dentro de nós.
Sociedade amordaçada por todos nós,
Mesmo por quem antes,
Na convicção do vencer,
Ousou lutar e, naturalmente, vencer.

Pobre de ti, Universidade,
E pobre de ti, País,
Que vives, que nos fazes viver,
Neste mundo diluído,
Difuso,
Politicamente correcto,
Que te convém, que nos convém,
Onde tudo é nada, onde nada é tudo.

Onde estão, Universidade,
Os Princípios e os Valores que te geraram,
Que tu geraste,
Que são a semente, a flor, o fruto
E, de novo, a semente?
Já reparaste, Universidade,
Que os Princípios são o que está
Necessariamente no princípio?
Cito de cor S. João Evangelista:
"No início era o Verbo.".
E já reparaste que os Valores
São o que perenemente vale,
Mantendo-se,
Sem princípio nem fim,
Fazendo do homem o Homem?
E já reparaste também que as coisas
Verdadeiramente sábias, fortes e belas
São sempre simples?

Lembras-te,
Por exemplo tu, Albert,
Da tua incrivelmente simples
Fórmula da energia e da massa?
Não, Albert,
Não me refiro à "massa" de hoje,
Que essa não cria energia,
Apenas dependência, dependências...
Que, por inércia, nos matam.

Te matam, Universidade,
No teu próprio princípio,
Criando ao mesmo tempo
Pequenos saberes e grandes ignorâncias.
E uma grande riqueza e uma imensa fome...

Estás, estamos, no meio da ponte.
Aquando de Bolonha,
Fugiste para a frente.
Agora parece que te queixas...

Que agora não fujas para trás,
Renegando no teu próprio Ser
Os Princípios e os Valores,
Amordaçando-nos dentro de nós.

Sê tu
E sê livre!

Seremos livres
E seremos Universidade!


J. Rodrigues Dias
2008-02-15

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Descobrir


Mestre,
Ideias novas não surgem,
Apesar de tanto pensar!

Apesar de tanto pensar,
Ideias não emergem,
Mestre!

Olho de um e de outro lado,
Como me tens tanto ensinado,
Olho o caminho já caminhado,
E nada, nada de novo vislumbrado!

Que problema, mestre!

Estou cansado, olhos sem ver, enraivecido,
Quase tudo me parecendo ter esquecido;
Mas lembro-me de ti a dizer
Que solução há-de haver!

Dizes-me que talvez este ainda não seja
O tempo para o meu fruto colher,
Por tempo ainda o fruto não ter
Para, naturalmente, amadurecer.
Dizes-me ainda que tranquilo esteja
E a reflexão ao sol deixe a aquecer.

Olhos semi-cerrados,
Abertos e fechados,
Vendo sem ter de ver,
Por profundo saber,
Em sábio gesto de mundo abarcar
Dizes-me ainda para descansar e olhar!


Olha!

Olha a borboleta lá fora,
A chamar-te,
A voar na primavera,
Voando de flor em flor,
Em hino ao amor.

Olha,
Faz isso, vai com ela,
Procura a luz,
Olha o céu,
Voa, voa, voa,...
E volta,
Tranquilo!

Volta então à tua reflexão.
Fixa bem os pressupostos,
Define bem os objectivos
E parte, decidido, a caminhar,
À procura da certa solução
Que decerto vais encontrar.

Minimiza o duro caminho,
Que é duro o caminho
E, quantas vezes, difuso,
Em nevoeiro escondido.

Chora quando tiveres que chorar!

Vê os desvios do caminho,
Assinala-os com raminhos de acácia
Mas não te desvies do traçado primordial.

Talvez a eles possas voltar mais tarde,
Quem sabe se para muita sede
Poderes então saciar em inesperadas fontes
Que neles poderás então encontrar,
Para novas lágrimas poderes chorar!

Mas não te deixes agora inebriar.
Olha os pressupostos e os objectivos;
Olha apenas o caminho principal,
O caminho principal!

Ao caminhar,
Faz como o vedor,
Mesmo que nele não acredites;
Sente os sinais,
Mesmo que sinais
Não te pareça encontrar.

Há sempre sinais!

Vai caminhando,
Pára de vez em quando,
Refresca a mente,
De lágrimas eventualmente,
E sente!

Há sempre sinais!

Sente o pulsar do coração
E o pular do pensamento!

Caminha e sente,
Que há sempre sinais!

Há sempre sinais!

....

Sim, mestre,
Estou a sentir,
A ver afloramentos,
A fazer acontecimentos,
A descobrir!

Obrigado,
Mestre!

2009-02-20
J. Rodrigues Dias

1.ª Fotografia - Pormenor lateral da Igreja Matriz de Torre de Moncorvo.
2.ª Fotografia- Pormenor numa Capela de Felgueiras.

domingo, 5 de abril de 2009

Haverá uma Literatura Transmontana? (2)

O Rogério, no seu excelente post de 28 de Março, intitulado “Haverá uma Literatura Transmontana?”, entre vários nomes de grande importância para a cultura, referiu três de incontestada relevância: Raul Rego, Paulo Quintela e Abade Baçal, destacando o seu extraordinário labor e, sobre eles, terminou com as seguintes palavras “...estas três figuras honram a cultura portuguesa, como transmontanos”. Palavras justíssimas e mais que merecidas.
Tive a honra e, neste caso, também o proveito de ter sido aluna de Paulo Quintela de finais de 1955 a 1961. Foram mais de 5 anos de convivência diária, se às aulas acrescentarmos o TEUC (Teatro dos Estudantes de Coimbra) de que Paulo Quintela, com um grupo de estudantes, foi fundador em 1938.
A literatura alemã, nos longínquos anos 50 era quase totalmente, senão totalmente, desconhecida em Portugal. Paulo Quintela traz até nós génios, grandes lutadores, grandes solitários, resistentes, perseguidos: Goethe, Hölderlin, Rilke, Nietzsche, Brecht, só para citar os seus preferidos. Mas, para mim, era no teatro medieval inglês que se via o grande Mestre: conduzia-nos ao cenário vivo, víamo-nos no meio dos verdadeiros actores, ouvíamo-los falar... Era algo tão espantoso que não arranjo palavras para o expressar.
Isto é apenas uma nota, em jeito de introdução, ao que quero dizer-vos. Chegou-me às mãos no início da semana um livro “Homenagem a Paulo Quintela no Centenário do seu Nascimento”. Trata-se de um conjunto de comunicações, poemas e depoimentos sobre a personalidade e a obra do eminente professor, tradutor, poeta e lutador que foi Paulo Quintela. O livro é editado e publicado pela FLUC (Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra) e traz a data de 2008, embora a homenagem tivesse tido lugar em Março de 2006. (Na verdade, Paulo Quintela nasceu em Bragança em 24 de Dezembro de 1905. Porém, nestas lides de organizar homenagens, recolher textos e documentos, proceder à edição e publicação, passam, por vezes, largos meses.) Mas o livro aqui está e valeu bem a pena a espera.
De entre as várias comunicações destacarei apenas duas, uma porque nos dá a ideia deste grande vulto da cultura portuguesa, a outra porque foca directamente o homem transmontano.
Dele diz o Presidente do Conselho Directivo da FLUC, Prof. Lúcio Cunha:

“Um dos mais brilhantes vultos da nossa Faculdade, Paulo Quintela, Professor, investigador, poeta, tradutor, homem de teatro, resistente e lutador pela liberdade, foi, porventura, um dos mais completos, produtivos e prestigiados Mestres desta Escola”.(Obra cit. p.20 ).

Por sua vez, António de Sousa Ribeiro diz na sua intervenção:

“Paulo Quintela não detinha apenas a firmeza das convicções, mas também a coragem de as assumir publicamente. [...] e o orgulho com que sempre cultivou a lembrança das suas origens humildes. ‘Não passo de um pobre homem de Bragança, filho de um pedreiro e de uma padeira e neto de um almocreve’“. (Obra cit. p.60).

E termino deixando aqui um poema de Paulo Quintela onde o homem transmontano se revela por inteiro:

Ar não-condicionado

Ar que eu respire há-de ser
-Quente ou frio, não faz mal
–Ar livre. Quero morrer
Respirando ao natural.

Ar do mar ou ar da serra,
Ar de jardim ou de praça,
Ar que nenhum muro encerra
-Livre, que o dá Deus de graça.

Digo:
-Não me condicionem
O ar da respiração!
E mais:
-Não me solucionem
O que não tem solução!

Nem me queiram ajudar
Com oxigénio em balões.
Já disse:
-Quero acabar
Com ar livre nos pulmões.

E em vida não me racionem
Água, vinho, ar livre e pão.
Ar livre! Não condicionem
Minha livre condição.

Abram portas e janelas
Quando estiver pra morrer
Quero ver árvores, estrelas,
E depois apodrecer.

Que quem nasceu como eu
Entre montes de ar lavado
Vai pro Inferno ou pro Céu
-Mas sem ar condicionado.

(Poema inédito de Paulo Quintela)

Leiria, 5 de Abril de 2009-04-05
Júlia Ribeiro

domingo, 22 de março de 2009

TRANSMONTANYA

DIA DA POESIA

Ontem, dia 21 de Março, foi também dia da POESIA. Parabéns a todos os nossos poetas blogueiros (Nelson, Angel, Júlia, Rogério, Daniel, Wanda, …) e não só (Maria da Assunção Carqueja, …).
De parabéns estamos igualmente todos pelo que estes nos oferecem e ofereceram outros no passado, nossos conterrâneos (Campos Monteiro, Afonso Praça, …).



TRASMONTANYA
Cumpro um ritual, uma litania.
Embrenho-me por montes, matagais,
Atravesso os vales e os ribeiros,
Percorro velhos caminhos e carreiros,
Por eles vou carpindo estes meus ais,
Trasmontânia, Pátria minha, Trasmontânia...


Terra de fadas, demónios, duendes,
Bosques de carvalhos imersos em brumas,
Musgos e líquenes donde pende o sinceno,
Como me acolhes quando o sol ameno
Transforma a neve em suaves espumas
E devolve a vida aos corações doentes...


Aquém dos últimos montes da Lusitânia
Estendem-se as serras do meu país.
Terras que a garra alheia não alcança,
São os cabeços onde espeto a minha lança,
Reino da corça, do javali, da perdiz,
Oh Transmontânia minha, Transmontânia...



H.C.
Torre de Monc., 6.03.2003






sábado, 21 de março de 2009

Versos amendrucais



Tenho as veias nas fragas
e os olhos no Reboredo,
à cotovia dou asas
e ao homem este segredo:
Depois do estoirar das cigarras
e do cortar da geada,
ofereço meu leque de vida
e em troca não quero nada.

Jardim da Primavera

21 de Março, para além de Dia da Árvore, é também o Dia Mundial da Poesia.
Assim sendo, aqui fica um poema a assinalar e a festejar a data:
JARDIM DA PRIMAVERA
Arábigo jardim
de socalcos suspensos
que amendoeiras florescem
laranjeiras perfumam
e romãzeiras espalham
de preciosos rubis
e onde pomos diversos
de várias árvores são versos:
cerejeira, ameixoeira,
pereira, macieira,
figueira, nespereira,
oliveira, amoreira,
entre outras cantam
seus hinos à terra.
Da terra e das paredes
de xisto antigo
brotam flores
de cores silvestres:
vermelho-papoila,
branco, lilazes,
do verde se desprendem
num festival de aromas.

Insectos zumbindo
são violinos,
pássaros trinando
serão clarinetes;
o resto da orquestra
que a imagine o poeta,
que está cheio de acordes
o Jardim da Primavera.

Tragam alaúdes,
almofadas e versos,
tragam odaliscas,
néctares, essências,
e vinde cantar o Amor
no Perfumado Jardim!...

Poema e fotos de Henrique de Campos

sábado, 7 de março de 2009

Ainda “O Roboredo” de Campos Monteiro…

Completam-se hoje 133 anos sobre o nascimento de Campos Monteiro.


O nosso escritor nasceu em 7.03.1876 e faleceu em 4.12.1933. Como forma de assinalar o seu 133º. aniversário, aqui deixamos os restantes versos do capítulo “O Roborêdo” das Cartas da Minha Terra (in “Versos Fora de Moda”). Aqui faz uma evocação do trabalho dos jornaleiros que trabalhavam nas encostas da serra, dos pastores (“pegureiros”) com os seus gados, da paisagem serrana de onde emerge a Fraga do Facho e de cujas vertentes escorriam as águas que iam dar de beber à vila...
Torre de Moncorvo, o trabalho e os dias, nos inícios do século XX:

(…)
“E vejo agora na cortinha em frente
uma brigada de trabalhadores.
Cavam a terra estéril… lançam-lhe a semente…
Crispam-se o húmus, dolorosamente…
Ninguém pode ser mãe sem sofrer as dores!

Nos pedregosos, húmidos carreiros,
passam rebanhos chocalhando. Atrás,
precedidos dos cães, os pobres pegureiros
chamam por eles, para que os rafeiros
deixem as aves e os reptis [sic] em paz.

Pende-lhe’a negra taleiguita ao lado,
por uma fita de bezerro presa:
um pão centeio petrificado,
um pedaço de porco mal curado,
quatro medronhos para a sobremesa…

Se a fome aperta, ou sentem o perigo
dos escorpiões e víboras subtis,
o mesmo naco de toucinho antigo
lhes serve de alimento e de presigo
e sara as mordeduras dos reptis.

Horas de almoço… O chefe da brigada,
fazendo um gesto à gente que moureja,
- “Louvado seja Jesus Cristo!” – brada.
E num momento, abandonando a enxada,
todos respondem – que bendito seja!

Levanto os olhos mais. Vejo a Fraga do Facho,
talhada a pique, como uma parede,
com o seu manto de musgo e heras e escalracho.
Dela dimana e corre serra abaixo
a àgua pura que nos mata a sede.

Emergindo da rocha, a todo o custo e receiosa,
deita a fugir da vila em direcção.
E na carreira louca e temerosa
traz sobre o dorso pétalas de rosa,
raminhos de alecrim e de serpão.

Pelas caleiras de granito é vê-la
cantarolar, correr, cheia de pressa!
E os castanheiros curvam-se sobre ela,
fazem-lhe sombra com a sua umbela
para que o sol do estio a não aqueça.

E as ovelhinhas bebem à vontade…
Voando, as pombas vêm matar a frágoa…

- Minha terra natal! Como há-de
ser cheia de pureza e bondade
a gente que depois bebe esta água!...”~

(continua)

quarta-feira, 4 de março de 2009

“O Roboredo” de Campos Monteiro (continuação)

O poeta evoca aqui, bucolicamente, as paisagens que se divisam da serra do Roboredo, a partir de uma casa onde afirma que passou a sua infância (será que viveu mesmo aí, ou seria uma casa de campo onde a família ia amiúde? - era interessante determinar qual). Decerto não seria muito longe da capela de N. Srª da Conceição, a outra “casa” (que se imagina próxima) onde diz que mora “a Virgem Mãe de Deus”.
Fala ainda de um surto de febre-amarela, ocorrido nos meados do séc. XIX, que vitimou muita gente (sendo muitos enterrados junto da dita capela). Prolongando as pestes medievas, estas epidemias, tais como pneumónicas, tuberculoses, carbúnculos, tifos, febres palúdicas (ou sezões), etc., eram frequentes, de tempos a tempos, provocando grandes mortandades, tendo chegado ainda aos inícios do século XX – só a generalização das vacinas a partir dos anos 40-50 foi debelando esse problema.

"Ouvia-se na vila o toque das trindades..." - ao fundo as "ribas do Sabor" (foto N.Campos)

Mas passemos a palavra ao Dr. Campos Monteiro, então um jovem médico de férias na terra natal:
(…)
São léguas de terreno. E em tal distância,
só duas casas sob o azul dos céus!
- Duas casas banais, pobres, sem importância…
N’uma delas passei a minha infância.
Na outra mora a Virgem Mãe de Deus.

Velha Casa da Serra! Que saudades!
Do teu balcão, que lindo era o sol-pôr!
Ouvia-se na vila o toque das trindades,
e o fumo que subia das herdades
envolvia num véu as ribas do Sabor!

Nas montanhas da Lousa o sol caía,
'inda toucando de oiro o Cabeço da Mua…
A Vilariça, exangue, adormecia…
Vinha o crepusc’lo… terminava o dia…
- silêncio enorme!... e despontava a lua…

Lá vejo ao lado a mancha verde luzidia
Das figueiras do cimo-do-pomar,
às quais, quando criança, impávido subia,
enquanto em baixo meu avô fingia
que dormitava, pr’a não me ralhar.

Dentro do souto vejo ainda o bardo
Para o rebanho à noite se acolher.
D’aquele sítio que lembranças guardo!
Foi ali mesmo que meu tio Eduardo,
Quási brincando, me ensinou a ler!

Da Conceição, ao fundo, eis a capela,
com ar de mágoa e de desolação.
Há meio séc’lo já que houve a febre amarela.
Enterravam-se os mortos junto dela,
e ficou assim triste desde então…

Quando eu passava no caminho em frente,
a minha mãe mandava-me ajoelhar,
- e de mãos postas, fervorosamente,
rezava ainda pela pobre gente
que a epidemia veio ali matar!

O sol já vai em meio da subida,
e o meu olhar, ansioso, não descansa.
A saudade é uma dúlcida bebida!
Recordar é viver de novo a vida,
e eu sinto-me hoje inda uma vez criança!

(continua)

Peredo dos Castelhanos, 28 de Fevereiro de 2009

A minha escola era bonita.
Foi nela que descobri as palavras
Os números, os jogos, as cores,
Amigos, amigas ... amores.
Nela não havia tempo,
Porque o tempo era infinito.
Nela não havia espaço
Porque era todo o espaço
Necessário para ser feliz.
Havia flores todo o ano!
No Inverno, de amendoeira,
Mas também de lírios, lilases,
E mil pétalas de roseiras.
Hoje a minha escola está bonita
Brilha de tão caiada
Mas o silêncio é grande...
Ninguém fala, ninguém corre,
Falta-lhe a garotada.
Fecho os olhos...
Lá estão eles, muitas faces a sorrir!
Há muita vida na escola,
Sempre que eu quiser cá vir.
A minha escola é a mais bonita do mundo.

Carlos Santos

segunda-feira, 2 de março de 2009

O Roboredo e a paisagem circundante, pelos olhos de Campos Monteiro

Deixámos, há dias, o escritor Campos Monteiro, sem apetite, à hora do jantar, depois da sua chegada a casa, na Rua da Misericórdia, segundo nos relata na primeira das suas cartas em verso (ver post de 25.02.2009). Estes poemas em forma de carta foram escritos em Torre de Moncorvo, pelos inícios do século XX (não se sabe a data com rigor, pois o próprio autor, na edição original, escreveu em rodapé: “Moncorvo, primavera de 19…”).



Vista da serra do Roborêdo, a partir do "Castelo".


As referidas poesias, sob o título “Cartas da Minha Terra” (dedicadas a Heitor de Figueiredo), estão incluídas na colectânea Versos Fora de Moda, obra datada de 1915. Portanto, dado o esquecimento da data precisa por parte do autor, é natural que se tivesse passado um bom par de anos entre a sua escrita e a compilação no dito livro.
A primeira carta-poema aqui transcrita, tinha por título, como vimos, “Em viagem”, relatando o trajecto entre a estação do Pocinho e a sua morada, no bairro do Castelo.
A segunda, parece relatar o dia seguinte à sua chegada, e intitula-se: “II – O Roboredo”. É uma saudação à serra que o viu nascer e à paisagem envolvente. Dada a sua extensão, tal como fizemos anteriormente, vamos apresentar apenas partes do poema, para não maçar os nossos visitantes.

Aqui fica:

II – O Roboredo.

Levantei-me da cama muito cedo
E, sentindo a alegria de viver,
Fui abrir as janelas em segredo,
Para cumprimentar o Roboredo,
Um velho amigo, que me viu nascer.

Da varanda que dá para a montanha,
Com um gesto amigável, saudei-o.
Que linda serra, de beleza estranha!
Que pena que ela seja assim tamanha
E t’a não possa eu mandar pelo correio!...

Não sei de mais formoso anfiteatro
Nem de mais calmo, doce e cândido vergel.
É o panorama que eu mais idolatro.
Lembra o pano de fundo d’um teatro
No terceiro acto do “Guilherme Tell”.

Calcula: Ao fundo, as vinhas verdejantes,
Vetustos olivais e amendoeiras esguias.
Depois, florestas de árvores gigantes,
E, de onde em onde, as manchas rutilantes
De estevas, urzes, arreçãs, peonias…

Tudo isto tão polícromo e tão vivo,
N’uma tão justa orquestração de côr,
Que a mim mesmo pergunto, Heitor(1), porque motivo
Na linda vila de onde sou nativo
Nunca nasceu um único pintor!

(continua)

Nota 1 – o destinatário desta carta é o seu amigo Heitor de Figueiredo, também poeta, a quem dedica este capítulo das cartas.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

“Em viagem”, um poema de Campos Monteiro

Em tempo de amendoeiras em flor, é oportuno recordar um belo poema do nosso escritor Campos Monteiro (1876-1933), julgamos que escrito na sua juventude, em forma de carta, para uma amada (que só poderá ser a mulher de sua vida, Olívia, a quem dedicou também um dos seus primeiros escritos, intitulado “Violia”, anagrama de seu nome).

O poema-carta, publicado em Versos Fora de Moda (1915), tem várias partes, começando pelo desembarque do autor na estação do Pocinho; a seguir, este atravessou o Douro, talvez ainda na velha barca de passagem, uma vez que afirma que a diligência estava à espera do outro lado do rio; logicamente não estava construída a linha do Sabor, pois o percurso para Moncorvo é feito na diligência (também chamada mala-posta); segue-se a ascensão pela vertente da Quinta do Campo até à linha de cumeadas por onde corria o velho caminho, em direcção à Ventosa. Julgamos que seria este o trajecto, devido à descrição que o autor faz da paisagem que dele se avista (talvez ainda não estivesse construída a Estrada Real que coincide com a E.N. 220 (agora algo abandonada, depois da construção da recente ligação de Torre de Moncorvo ao I.P.-2).

Para não alongar muito o “post”, dividimos este primeiro poema em duas partes. Esta é dedicada ao trecho da viagem, antes de chegar à vila de Torre de Moncorvo. Colocaremos depois o trecho referente à sua entrada na vila e o percurso que faz até a casa de seus pais, na Rua da Misericórdia.

Nota 1 – actualizámos a ortografia, pois na edição original (que nos foi disponibilizada para consulta pela Biblioteca Municipal), dos anos 20, ainda se escreve “schisto” em vez de xisto; “scintilações” em vez de “cintilações”, etc.

Nota 2 – Sobre Campos Monteiro, ver os “posts” de Rogério Rodrigues, neste blog, datados de 14 e 16 de Maio de 2008 (para melhor facilidade de procura, clicar sobre a etiqueta Campos Monteiro, na coluna do lado direito).

Nota 3 – As fotografias que ilustram este “post” são de autoria de João Pinto Vieira Costa, a quem agradecemos a sua cedência (agradecemos também que sejam respeitados os seus direitos autorais).



I. - EM VIAGEM

Parto p’ra a terra. Sinto-me doente,
e é tal o amor que tenho ao meu cantinho,
que eu creio que melhoro de repente
ao avistar as veigas do Pocinho.
Salto às duas da tarde na estação,
e meto encosta abaixo em direcção ao rio.
O ar é tépido e brando: uma consolação.
Vê tu: no Porto faz ainda frio,
na minha terra já parece v’rão.
Do outro lado do rio a diligência espera
- e começa a ascensão. Nem sequer imaginas
quão pitorescas são estas ravinas
agora, ao começar da primavera!
Como um cortejo, mal organizado,
de donzelas coquettes e palreiras,
todas de branco, as amendoeiras,
descendo em grupos as ladeiras,
dão-nos a sugestão de irem p’ra um noivado.
E cada encosta é um tapete apenas de lírios,
arreçãs, malmequeres, verbenas ...
sulcada de carreiros e de trilhos,
casa-se ao verde intenso dos tremoços
o amarelo vibrante dos pampilhos.
Passam cachoeiras rindo: esse riso impudente
dos rapazes que veem a sair d’uma escola;
e em volta os lótus de húmida corola
tomam seu banho, consoladamente.
Aos raios de oiro pelo sol vibrados,
os xistos e os granitos dos montados
lançam cintilações de lantejoulas.
Corre um filete d’água lá no fundo.
E os trigos riem para o céu profundo
pelos lábios vermelhos das papoulas...
A quatrocentos metros de altitude
o Amâncio pára o carro, a descansar o gado.
E agora o quadro é outro e muito mais variado.
Dize-me se não dá mesmo saúde
olhar este horizonte dilatado!
O que temos subido ! Olha o Monte-Meão,
há pouco inda tão alto, e agora n’um fundão!
Por de sôbre ele vê-se uma faixa amarela
de montanhas, ao longe: é a Serra da Estrêla.
Da Burga, ao norte, a massa informe.
Serras ao poente. A Leste o Roboredo infindo.
E este caixilho sumptuoso, enorme,
que lindo quadro ele emoldura! ... Lindo! ...
Pela vertente das encostas,
co’a rigidez d’uma muralha,
as oliveiras, em cordões dispostas,
lembram soldados, de mochila às costas,
ordenados em linha de batalha.
E há vinhedos sem fim ... Imensos laranjais ...
E na toalha verde-escura
dos azevéns e cereais
põe uma intensa nota de frescura
as pinceladas brancas dos pombais.
Da Vilariça, em baixo, a multicor alfombra,
tão fértil que sustenta três concelhos.
A parte ocidental mergulha já na sombra,
mas nos casais de Leste há reflexos vermelhos.
Corre a meio o Sabor, todo apressado,
porque sabe que o Douro o está a esperar;
E ao chegar junto d’ele, fatigado,
fundem-se n’um abraço demorado,
descansam, dão a volta - e largam para o mar!
Dependurados pela serrania,
lugarejos, torreões, flechas de igreja.
Nos altos picos, d’um verniz de oleografia,
ainda a neve à luz do sol alveja.
Que variedade, d’uma e de outra banda!
Como isto é grandioso, e ao mesmo tempo ameno!
São a Suíça, a Itália, e a própria Holanda
em dez léguas quadradas de terreno!

(continua)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Livro - "Jardim da Alma", de Maria da Assunção Carqueja

Procurando dinamizar a Biblioteca do blog (secção "Livros e Escritores") apelamos a que se coloquem na "montra" as novidades bibliográficas (ou mesmo obras saídas há algum tempo) que sejam de autoria de moncorvenses ou de autores que, embora não sendo daqui originários, versem sobre este rincão.
Porque alguém nos desafiou, há pouco tempo atrás, a postar aqui algo mais de autoria de Maria de Assunção Carqueja, iniciamos esta secção com o seu mais recente livro, de poesia, neste caso, intitulado: "Jardim da Alma".


Maria da Assunção Carqueja nasceu no Felgar, no nosso concelho, licenciou-se em Ciências Histórico-filosóficas na Universidade de Coimbra, tendo exercido a actividade docente, primeiro no ensino liceal, depois orientando estágios para formação de docentes do Ensino Secundário. Autora de diversos trabalhos de investigação, alguns em parceria com seu marido, o Prof. Doutor Adriano Vasco Rodrigues, como por exemplo o estudo das ferrarias do concelho de Torre de Moncorvo (1962), trabalhou no Instituto de Investigação Científica Tropical e, mais tarde, como técnica da União Europeia (Bélgica), no âmbito da metodologia para o ensino da Filosofia. É membro da Associação Internacional dos Professores de Filosofia, sendo autora de livros e artigos nesta especialidade. No que respeita à investigação histórica sobre o nosso concelho, destacamos a sua tese de licenciatura, intitulada "Subsídios para uma monografia de Torre de Moncorvo" (Coimbra, 1955), recentemente revista e publicada, com o título Documentos Medievais de Torre de Moncorvo (ed. da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo, 2007), e a monografia do Felgar (2006), em parceria com o Prof. Adriano Vasco Rodrigues. No domínio da poesia, escreveu:
- Versos do meu diário (sob o pseudónimo de Miriam), publicado em 1978,
- Porquê mais que nada, 2002
- Os tempos do tempo, 2005, e, finalmente:
- Jardim da Alma, saído em Dezº de 2008.
Estes últimos livros têm como editor Adriano Vasco Rodrigues e o patrocínio da empresa Carqueja Almonds (exportadora de frutos secos), gerida por Jorge Carqueja Rodrigues, filho da autora.

O prefácio de Jardim da Alma coube ao escritor Mário Cláudio (que, para quem não sabe, tem raízes no concelho de Freixo de Espada à Cinta). Sobre a temática e expressão poética de Assunção Carqueja assim escreveu o ilustre prefaciador:"As linhas de poesia que Maria da Assunção Carqueja Rodrigues nos propõe, privilegiando o soneto como forma comunicante por excelência, decorrem do padrão das grandes inquietações do ser, com o qual historicamente se tece a manta de letras mais duradoura em que nos inserimos"(...) E, mais precisamente sobre este livro, diz: "o fresco ramalhete de afectos que o livro nos oferece, entrelaçados na recorrência da obsidiante reflexão metafísica, cobra acrescidas energias do exercício de uma memória que revisita os lugares de infância, e os converte em sinais tranquilizantes, a marcar o caminho dos 'peregrinos perdidos em qualquer lado'. São as lucilações de uma certa ruralidade transmontana, avistadas no plano em que, 'fundindo-se presente com passado', se experimenta a proximidade de uma infinitude, postulante da vitalíssima fonte onde medos e fracassos se consumam. Também aqui o que se pensa e o que se sente se congregam no casulo em que a alma exulta, princesa acontecida no meio do seu jardim".
Poderíamos seleccionar algum poema mais de índole filosófica, de reflexão pessoal sobre o devir, ou inquietações pessoais da autora, que fosse mais ilustrativo da sua "poiesis". Optámos, no entanto, por razões óbvias, por este preito de homenagem à nossa vila:

MONCORVO
Com seu denso arvoredo
era uma linda serra,
a serra do Roboredo...
E que fértil era a terra!

Entre o monte e o Sabor
cedo se organizou
um povo trabalhador
que Moncorvo se chamou!

O corvo, Deus dos ferreiros
tornou-se o Deus do castelo,
foi bandeira dos guerreiros
que vieram defendê-lo!

Feiras francas se faziam
protegidas pelos reis
que, na vila, bem sabiam
terem vassalos fiéis...

Aos trabalhos dos louceiros,
aos vinhos e cereais
juntavam-se os dos ferreiros
e ainda muitos mais!...

Corria água das fontes
nas encostas e caminhos
e sempre vinha dos montes
a música dos passarinhos!


A bela capa do livro Jardim da Alma, é de autoria de Isabel Rodrigues Konrad, filha da autora.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Visita ao Horácio Espalha

Vão já quase 40 anos, publiquei um livro de poemas, "Livro de Visitas" em que faço uma "visita" ao Horácio Espalha. Durante anos partilhámos, diariamente, muitas horas, muitas histórias e outras tantas palavras. Também falava muito com outra figura esquecida, o Álvaro Inês, taxista, picado de bexigas ( ai! estas reminiscências camilianas...), sempre de óculos escuros, fumador de boquilha que fora preso e torturado pela Pide no Porto. Ele e o Horácio Espalha (Horácio Morais com tias que tinham uma pensão onde hoje é o Bom Amigo, ou mesmo ao lado, não estou certo). Não sei por que não se falavam. Mas penso que tinham "ciúmes" um do outro, porque cada um queria reivindicar para si a "instrução revolucionária" ou, pelo menos, subversiva, de alguma juventude de Moncorvo.
O Horácio Espalha morreu já depois do 25 de Abril, andava eu longe de Moncorvo, em contencioso com a Vila e comigo mesmo. Só mais tarde, após um processo lento, em que a aprendizagem da tolerância terá sido a melhor ferramenta, me reconciliei com a Vila, ainda que não comigo mesmo.
Após o 25 de Abril, o Horácio Espalha terá sido um pouco utilizado pela juventude do MRPP que surgiu pujante em Moncorvo, sob a direcção desse homem bom que foi o Toni Americano, infelizmente para todos nós, já falecido. E desiludido, tanto quanto me é dado saber pelas visitas que me fazia em Lisboa,vindo da América, com os seus antigos camaradas.
As minhas relações com o MRPP não eram agradáveis. Meses antes de morrer, o Horácio Espalha escreveu-me uma carta, uma longa e dolorosa carta, cheia de queixas, algumas contra mim, mas reatando uma amizade que, da minha parte, nunca tinha sido desatada.
Quando escrevi este poema, que vou copiar, tinha eu 20 e poucos anos, incluído num livro editado em 1972. Poderá ferir pela sua aparente crueza. Engano, na minha perspectiva, porque sempre apreciei a inutilidade dos deuses, sejam eles da Grécia ou de Moncorvo. E sempre me escondi de manifestações de ternura, para que houvesse ternura.
Prefiro a inutilidade dos deuses à vulgaridade dos homens. Aqui vai o poema, sem correcções, tal qual foi publicado. Espero que não se escandalizem e perdão a um jovem de então que tropeçava na escrita, insultava a metáfora e ainda não sabia que a poesia( como diz Jorge de Sena com outras palavras) é o que de mais inútil há, mas não conheço nada mais importante.

Visita ao Horácio Espalha

Tinha nervos de banha o velho azul olhos de
fogo concentrado em cinzas quentes. Pelas mãos
lhe escorriam os ócios ou as palavras eram
franjas de saliva suja ou os sons eram incómodos
arrítmicos no pasmo. Tinha o velho a dimensão
do pedincha centauro instalado na Vila, pus
que só a morte esguichará par as grandes
planícies do silêncio em que ele não crê, azul e fogo.

Abanava trapos pela violência nas mesas caricaturais
do espaço deposto. Apostava o corpo crueldade obesa
aos olhos educados das gentes decentes que mais decentes
não se viram.Vira vai vem vaia o velho veloz
nervos de banha cinzas quentes. Os dentes desistiram do
dia são os sons bolhas as folhas outonais da
eternidade. Verrugas e rugas unhas sujas prisão de fome
ócios lhe escorrem escorrem palavras palavras pus morrem.

As mãos são ovais como cordas de gestos enforcando a luz.
Domador das estradas que ouviu britar até à silicose
roer os homens, estratega do inútil, do inútil vivendo
sabe de cór a dor, da dor conhece a cor dos gritos,
dos gritos cria a pedra, das pedras soterra a Vila na
morte ---ele o pus, a oratória sangrada, o nada.
ele nada--caminhando pelas fezes pétreas
agrestes rudes que consomem os espaços...

Tinha nervos de banha o velho azul olhos de
chama ou concentração de fome, centauro
a petiscar a morte nos que dela próximos estão
cantor da memória, centauro tagarela e inútil
mito roto, deambula pelo plástico hirto
da dimensão comercial da nossa Vila,único
sobrevivente do tempo dos deuses, esperando
que chuva ou névoa o venha desenterrar da pedra.

Livro de Visitas ( 1972)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Felgar ainda... de "Outros Tempos"

Não tenho dúvidas que a autora deste belo poema tinha o Felgar em mente (um Felgar talvez dos anos 40), quando o escreveu... Importa dizer que a Drª. Maria da Assunção Carqueja foi, também, a autora do hino da sua terra natal ("És tão linda, oh minha aldeia...")

Por isso aqui fica, do seu mais recente livro (saído pelo Natal de 2008), com a devida vénia:

OUTROS TEMPOS...

Aldeia de Trás-os-Montes
com seus palheiros e fontes,
suas casas de granito
dezenas d'anos atrás...
Tantas saudades me traz...
Como tudo era bonito!...

As portas, de par em par,
marcavam o começar
da faina do novo dia...
... e as crianças da escola
levando sua sacola
lá iam em correria!

Brincadeira e gargalhada
pulando pela calçada
tudo dava p'ra brincar,
procurando violetas
nos cantinhos das valetas
ou charcos para saltar!...

Era tudo feito à mão
as meias de algodão,
as botas do sapateiro,
até os linhos vestidos
bordados e coloridos
sem marca de costureiro!

Galinhas com pintainhos,
cavalos e burriquinhos
e carros de bois jungidos
... Tanto me vem à ideia
da vida da minha aldeia
dezenas d' anos volvidos!

Maria da Assunção Carqueja
In Jardim da Alma, poemas.
Dezº. 2008.

domingo, 11 de janeiro de 2009

O Tempo, essa noção...

Os comentários têm sido fecundos em relação ao passado e à importância do passado nas nossas vidas, individuais e colectivas. O tempo, em suma. Muitos post e outros tantos comentários, mais do que passado, estão a desenhar uma identidade de Moncorvo. Numa busca desordenada de papéis velhos vou encontrando, tempos próprios, porventura datados: uma carta de Monteiro de Barros de 1976, descrevendo a situação política da época em Moncorvo; uma carta do Horácio Espalha já quase de despedida e influenciado pelo voluntarismo (mais do que utopia) do MRPP; o primeiro livro de Pires Cabral, com 25 exemplares, feito a stencil na Escola Secundária de Moncorvo, em Junho de 1974, com capa de Horácio Simões(dr.), um velho com chapéu de aba larga e barba de oito dias. É a primeira obra editada por Pires Cabral, hoje um dos grandes poetas portugueses. E depois leio a Primeira Comunhão da Júlia Guarda Ribeiro, um testemunho precioso, ainda que em linguagem grácil mas de conteúdo sofrido, que revela, embora com a tolerância que lhe é peculiar, os preconceitos de uma vila, a moralidade de sacristia, preconceitos e moralidade que ainda não foram de todo afastados. E todas estas leituras me obrigaram a uma reflexão sobre o Tempo. Espero a vossa benevolência a par das críticas. Falar do Tempo é falar de uma abstracção que só existe enquanto nós existimos. Ou se existe é apenas no nosso pensamento. Com a nossa morte, para quem não acredita na eternidade, o tempo deixa de existir. De qualquer modo, para quem acredita na eternidade, não tem sentido a existência do tempo, pois a eternidade pressupõe o infinito. Mas vamos às origens mitológicas do Tempo antes que a inquietação me perturbe o raciocínio. Chronos, com h, para distinguir do outro Cronos, o que engoliu os filhos ao nascerem, com o medo de ser destronado por um deles, Chronos, com h, repito, é entre os gregos e os romanos, nestes sob o nome de Saturno,a personificação do Tempo, criado por si mesmo. Era um ser incorpóreo e serpentino, com três cabeças, de homem, touro e leão. Permaneceu deus do tempo remoto e sem corpo. A minha reflexão dificilmente aceita a linearidade, porque o tempo não é linear, embora seja contínuo na nossa descontinuidade, no depois de nós outros vêm.
Há vários tempos: o mítico, o histórico, o simbólico. entre outros. O tempo simbólico só é possível num espaço simbólico, como no ritual da Igreja e na Bíblia, sobretudo no Pentateuco (os cinco livros da Tora judaica) em que os predestinados, como Matusalém, por exemplo, chegam a ter a provecta idade de 600 anos. Na rua, em relação à missa na igreja de Moncorvo, por exemplo, o espaço é outro e outro é o tempo. Em Kant o tempo é sempre espacializado. É o tempo simbólico subjectivo? É. Todo o tempo pessoal e o tempo na relação com o Outro são subjectivos. A definição mais comum do tempo e a que menos inquietação provoca: período que vai de um acontecimento anterior a um posterior. Ou seja, uma espécie de ponte invisível entre o passado e o futuro (este blogue é paradigma disso).
É minha profunda convicção de que não há tempo absoluto, porque o Homem e a Humanidade só sobrevivem nos seus limites. (Lembra-me uma Ode de Píndaro, que serviu de epígrafe ao Mito de Sisifo de Albert Camuns: "Ó minha alma, não aspires à vida imortal/ Mas esgota o campo do possível")
É impossível instituir uma medida única do Tempo. A simultaneidade de acontecimentos distantes no espaço não tem senão um sentido relativo. Para uns os acontecimentos não são o que são para os outros. Cada sistema de referências tem o seu tempo próprio.
O tempo histórico, também chamado " a ciência dos homens no tempo", podemos dividi-lo em três subsistemas: o tempo curto, de acontecimento circunstancial; os ciclos económicos, por exemplo, como um tempo conjuntural; e o tempo de longa duração, este estrutural.
O tempo mítico refere-se a um tempo primordial que tem muito pouco a ver com a história real. É o tempo, entre outras idades, da Idade do Ouro, tão bem poetizada nas Metamorfoses de Ovídio ou no milenarismo do Apocalipse e do calendário Maia (no primeiro, o Mundo acabava aos mil anos para surgir o Mundo melhor, guiado por Messis; no segundo, termina em 2012, em 21 de Dezembro, com a última passagem do planeta Vénus, no século XXI, também para vir um mundo melhor).
Entremos agora no campo das interrogações, das dúvidas e da perplexidade do ser.
Através da distância do tempo, que não é mensurável, o definitivo não é o definitivo; o ser, embora sendo, não o é ainda. A estrutura da temporalidade em que se produz o ser está ligada a um gesto elementar do ser que rejeita a totalização. O ser não consegue ultrapassar os limites do possível.
Trazemos connosco um armazém da memória e o aceno das recordações. Na memória, não seleccionamos o passado pela importância real dos factos. É possível lembrarmo-nos da primeira vez que nos fomos banhar ao Rio Sabor e esquecermos o dia do nosso casamento. Não fomos nós que seleccionámos. Não houve repressão consciente. A memória não é repressiva. Ou é? Quanto às recordações, são sempre como um lenco frágil à procura do tempo perdido, que nos proporcionam sonhos, mas não nos devolvem as ocasiões perdidas. Mas a recordação surgida a cada novo instante não nos dará já ao passado um sentido novo? (Estou-me a lembrar de algumas fotografias editadas no nosso blogue).
Na paternidade em que o Eu através do definitivo de uma morte inevitável (uma certeza que nós todos comungamos) se prolonga no Outro, o tempo triunfa, pela sua descontinuidade, da velhice e do destino.
A paternidade, no meu sentir, é a maneira de ser Outro continuando a ser o próprio.
Regressemos ao instante, à recordação que, de tão intensa, pode ser tão duradoura como o nosso derradeiro limite. É a própria obra do tempo.
Em contrapartida, o esquecimento anula as relações com o passado. E aqui entramos no capítulo da culpa e do perdão. Citando uma expressão comum: perdoo tudo, mas não esqueço nada. O perdão conserva o passado. Mas aqui levanta-se o problema da culpa e do sofrimento. Até que ponto podemos perdoar, quando pelo sofrimento (também outra noção do tempo) nos quiseram e por vezes conseguiram reificar? Estou-me a lembrar de Auschwitz e de todos os Goulags de todo o Mundo, estou-me a lembrar da banalização do mal (vidè Hanna Arendt), estou-me a lembrar da vulgarização da violência, do conformismo face à corrupção, da falta de indignação face ao indigno. Esquecer, como já disse, é anular todas as relações com o passado; mas perdoar é assumir, já no presente, o sofrimento futuro.
Por fim, para os que crêem na eternidade (ausência de tempo e ausência de espaço), lembro a descida aos Infernos de Dante e a subida ao Paraíso. E interrogo-me sobre o sentido da culpa e o sentido da recompensa. Tanto o céu como o inferno não dão oportunidades de redenção ou pecado: o que está no céu não pode pecar; o que está no inferno, não pode fazer o bem. Neste maniqueísmo, não há lugar para segundas oportunidades.
Ou seja, transmutados para uma abstracção sem tempo, não têm a possibilidade de se redimir da culpa, nem, em sentido contrário, de cometer algum acto que provoque o sentido da culpa. A eternidade não é só a negação do tempo. É também a negação da liberdade.
Ponto final: os homens já roubaram todo o fogo aos deuses; eu contento-me com menos: roubo-vos um pouco do vosso tempo.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Una copa de oporto



O Assis faleceu a 30 de Novembro de 1995 e o poema do Rogério lembrou-me que tinha nos meus papeis este belo poema, em castelhano, que lhe foi dedicado.

Leonel Brito

domingo, 30 de novembro de 2008

Cartão de Boas Festas

Como sou alérgico a cartões, não quero deixar, contudo, de dar as Boas-Festas a todos os autores do blogue e aos seus frequentadores, assíduos ou circunstanciais que sejam, pelo que resolvi enviar estes toscos versos antes que o Natal chegue e nos consumamos em lugares comuns. Espero que não levem a mal.

Quando o Natal chegar...

Quando o Natal chegar
liberta o pirilampo e liberta a Luz
arruma a ternura e arruma a casa.
E areja o sótão da tua infância.
Quando o Natal chegar
dá música aos surdos
e palavra aos mudos
afaga laranjas nas mãos frias
e figos secos ao luar
e amêndoas de Agosto a quem chegar
e limões, e ácidos limões, em teu lugar.


Quando o Natal chegar
à beira do rio olha a outra margem
cheia de sombras, pedras e perdas
e abre os braços, colunas e pontes
e começa a tocar a alma qual piano
na translúcida mágoa de nada tocar.


Quando o Natal chegar
Jesus já passou sem passar
na barca do tempo, entre margens
sem rio, mas à beira de naufragar.
Quando o Natal chegar
não leves granadas para casa
nem bombas para qualquer lugar.
Caça pombas ao anoitecer, morcegos
da tristeza, olhares cegos, vazios e frios.


Quando o Natal chegar
olha os filhos como se só então nascessem
e os dias fossem cristais
partindo grãos de romã,
tão sensíveis ao ouvido
mas sem pena nem sentido.


Quando o Natal chegar
adormece à beira dos violinos
com a loucura dos deuses
e a tristeza de Mozart.
Que os deuses devem estar loucos
porque a lareira está-se a apagar.


Quando o Natal chegar
cuida das prendas e ofertas
aos que nunca mais vão chegar.
Entre pedras e perdas
guarda o amor de guardar
que a face da mãe ondeia
e o pai adormece a lacrimejar.

Quando o Natal chegar
a nordeste de tudo, mais vale
encher o saco de Nada
e percorrer a noite, até ao abrigo
dos campos da quimera calcinada.
Com o saco cheio de Nada
visita a Índia e o Afeganistão.
Toca às portas da Palestina
e canta dor às portas da prisão.


Quando o Natal chegar
enche o saco de Nada.
Pode ser que por tanto Nada
algo te queiram dar:
um filho, um sorriso, talvez luar.


Quando o Natal chegar
talvez amor e amar.
Dádiva por dádiva,
aceita, é de aceitar.


Rogério Rodrigues

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Gente

Moncorvo, com a camioneta de estudantes, era passagem.
Depois, a Sé, com a figueira, fez a aliança. Ainda bem que a fez.
Neste entretanto, a sul, em terras da planície,
com templos feitos de pedras com história, em eternas aprendizagens, trabalho, aprendendo a Vida.
Agora, nesta lonjura da doce planície, recordo,
porque passagem já pouca há,
o que o tempo não deixou, não deixa, esquecer.
Recordo o Rogério, um dia, num bairro de Lisboa, com simbologia.
Recordo os padrinhos, bons, na ourivesaria, na Praça;
um reconhecimento merecido, grato, daqui.
Obrigado.
Recordo os pais do Rogério, ao lume, na casa junto à Praça.
Não sei se partiram;
sei que ficaram.
Ei-los aqui!

J. Rodrigues Dias

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