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quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Dia de Reis

Afinal ainda há quem mantenha a tradição de andar a "cantar os Reis" cá pela terra. Diversos alunos das escolas e de meninos dos jardins-escola, juntamente com professores e educadoras de infância, percorreram os comércios e algumas repartições, cantando e tocando. Esperemos que o peditório tenha sido compensador, apesar da tão propalada "crije".

Nas fotos em baixo, grupo de crianças e respectivas educadoras, do jardim de infância nº. 2, de Torre de Moncorvo:

Fotos de N.Campos

"Dança dos Pretos" de Moncorvo

Hoje é dia de Reis. Desde os inícios de Janeiro que, noutros tempos, se cantavam e pediam "os Reis", de porta em porta. Nessa ocasião, pediam-se chouriças, alheiras, ou outras coisas que as pessoas quisessem dar. Em tempos mais recentes, os géneros passaram a traduzir-se em dinheiro. Se, por acaso, a porta de quem se batia não se abria, cantavam-se cantigas jocosas ao "barbas de farelo" (unhas de fome).
Esta tradição de se pedir/dar algo no dia de Reis, tem a ver com as oferendas que os Reis Magos ofereceram ao Menino Jesus, no dia da sua chegada ao Presépio. Todavia, em termos antropológicos, enquadra-se no esquema mais geral da dádiva (o dar/receber) que coincidia com o início do ano, para se propiciar e reforçar os laços de vicinidade.
Por estes motivos, a data dos Reis (ou véspera), foi também a escolhida, não se sabe quando, para se realizar uma dança, composta por vários indivíduos de cara pintada de preto, e que andavam pelas ruas da vila, tocando e dançando, pedindo para o Deus Menino. Era a "dança dos pretos", que teve lugar pela última vez, em Moncorvo, no ano de 1935, conforme regista o Professor Santos Júnior, que a estudou e que, inclusivamente, a promoveu, em 1930. Por esta altura (anos 30), a dança já estava algo decadente, ou seja, não se realizava todos os anos.
É nossa convicção que originalmente devia ter sido executada mesmo por negros e que, depois, à falta destes, fossem sendo substituídos por brancos com a cara enfarruscada. Ora sabemos que, antes da independência do Brasil, houve bastantes negros que foram trazidos para Portugal, mesmo para terras tão remotas como Moncorvo, por funcionários da administração colonial, nobres ou ricos mercadores. Seria comum as casas ricas possuírem escravos ou criados africanos, que normalmente viriam por via do Brasil, tal como se mostrou num excelente documentário produzido pela RTP, com realização de Anabela de Saint-Maurice, em que se foca bem o caso de Moncorvo e da sua Dança dos Pretos. Esta dança era aqui promovida pela confraria de Senhora do Rosário, que, à semelhança do que se passava em Lisboa, Porto, Brasil ou Cabo Verde, e eventualmente em outras partes do império português, tinha por missão o enquadramento religioso dos "homens pretos".
Ainda quanto à "Dança dos Pretos" no nosso concelho, diz Santos Júnior (in "Coreografia Popular Trasmontana", obra publicada em parceria com o Padre Mourinho e editada pela Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia, em 1980, págs. 18 e seguintes) que também se realizava em Carviçais, onde apurou que se tinha efectuado nos anos de 1881, 1896, 1909 e 1935. É de supor que a dança de Carviçais fosse já uma imitação da de Moncorvo, vila onde poderia radicar no séc. XVIII, época em tal dança (em geral) teria sido criada, pois como afirma Santos Júnior, a sua "coreografia enquadra-se nas danças de composição paralela ou de coluna, muito do gosto dos séculos XVII e XVIII, que proliferaram por toda a parte, principalmente nas confrarias de mesteirais..."
O facto de se realizar em Torre de Moncorvo, salienta o precoce carácter urbano da nossa vila, pois só uma estrutura económica e social diversificada (não exclusivamente rural), justificaria esta multietnicidade, a que não é alheia a forte ligação que desde o séc. XVIII haveria com o Brasil e, certamente, com Àfrica, uma vez passado o ciclo do Oriente.
Interrogando-nos ainda sobre o porquê da realização da referida dança nesta data, julgamos poder encontrar justificação no facto de um dos reis magos ser negro - o S. Baltazar - além de os restantes serem cada qual de sua nação. Ou seja, não há data mais apropriada para salientar o ecumenismo da religião católica, em que todos os povos da Terra deveriam vir adorar o Menino-Deus nascido em Belém.

Aqui ficam algumas quadras da Dança dos Pretos de Moncorvo (recolhidas por Santos Júnior):

Boas novas moncorvenses
Dar a vós os preta (sic) vem;
Que nasceu o redentor
que nasceu o Redentor.

Belém terra de Judá
Onde o Redentor nasceu
Sua Mãe imaculada
Que tormentos padeceu.

Eu não posso compreender
Que Jesus , tão santo e nobre,
Tivesse o seu nascimento
Num lugar tão pobre!

......................................

Nota: fica um repto aos nossos amigos do Teatro Alma de Ferro - que tal, para o ano, tentar-se uma recriação desta dança, na altura dos Reis? - A música está registada e várias quadras também. Fica a ideia.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Relíquia faunística

Por vezes, deambulando pelas aldeias do nosso concelho, ainda se conseguem destes instantâneos: um belo cavalinho pastando placidamente nas imediações do "povo", neste caso, na zona dos palheiros de Felgueiras.
O "equus caballus" (cavalo) que em remotíssimos tempos paleolíticos era caçado para servir de alimento ao Homem, viria a ser domesticado após o Neolítico, e, no dealbar da Idade dos Metais, atrelado a carros de guerra, como se vê nas representações artísticas do Egipto antigo, Assíria, etc., acabando por ser utilizado na Idade do Ferro como montada dos guerreiros, sobretudo com os Celtas e povos aparentados (após o séc. V a.C.) e daí por diante, desde os romanos até aos inícios do séc. XX.
Desde a época romana generalizou-se a utilização do cavalo como transporte individual, sobretudo associado aos "senhores", pois até tempos bem recentes a maioria das pessoas do povo utilizava o burro e/ou animais muares (basta lembrar que, na literatura ibérica do séc. XVII, o fidalgo D. Quixote montava o famoso cavalo Rocinante, enquanto Sancho Pança seguia "escarrapatchado" no seu modesto jerico).
Assim sendo, apesar de alguma "democratização" do uso do cavalo, não admira que, segundo um apontamento do Dr. Horácio Simões (veterinário municipal, desde os anos 30 até anos 80), por volta de 1942 havia no concelho de Torre de Moncorvo apenas 508 cavalos, enquanto os muares (mulas e machos) eram 551 e os asininos (burros) eram 2.260!
Já agora, do mesmo registo, consta que os bovinos eram 913, os ovinos 16.899, os caprinos 7.085 e os suínos 2.029. Seria interessante obter dados actuais, para melhor podermos cotejar o extraordinário decréscimo da pecuária local e regional.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

"O trigo dos pardais" - novo livro de Isabel Fidalgo Mateus

Saiu recentemente do prelo e em breve chegará às livrarias, o novo livro da nossa colega de Blogue, Doutora Isabel Maria Fidalgo Mateus, professora da Universidade de Liverpool.
Aqui ficam as imagens da capa e da contracapa, e respectivas badanas, onde se poderá saber mais sobre a autora e a sua obra (clicar sobre as imagens para as ampliar):



Quanto ao conteúdo deste livro, para nos aguçar o apetite, aqui fica uma sinopse:
"O livro O Trigo dos Pardais, de Isabel Maria Fidalgo Mateus, pretende mostrar, através dos seus 22 contos, geralmente curtos, como era o mundo da brincadeira de um punhado de crianças e jovens num ambiente de ruralidade (transmontana) afastado da influência directa dos grandes centros urbanos. Aqui, as brincadeiras surgiam ao sabor das estações, em plena natureza, os brinquedos construíam-se com o que a flora oferecia, também ao ritmo de cada época do ano, e os garotos brincavam em interacção com o reino mineral, animal e vegetal. Muitas vezes, o entretenimento advinha em simultâneo com o dever laboral que desde cedo era imputado à criança. As cinco mecas, jogo de forte tradição e muito popular entre meninas e meninos, tanto podia ser jogado no adro da escola durante o recreio, como no alto da serra a guardar o rebanho.
Porém, com alguns dos contos levanta-se o véu e despertam-se consciências para a evolução dos tempos e do aparecimento de outros brinquedos e formas diversas de morar. Os netos já não se divertem com os mesmos jogos dos avós ou, pelo menos, têm acesso a brinquedos confeccionados com outros materiais e de produção em série, como o testemunha o conto “O Baptizado da Judite” com as bonecas que vêm de França. Esta situação é-nos apresentada pela boneca-narradora Judite, originária do referido país e sentindo-se profundamente injustiçada pela marca do seu próprio nome.
Mas é na conciliação do modernidade com o tradicional que se soluciona o problema de Judite e dos outros brinquedos sofisticados, quando sua mãe, uma menina, a põe a ela e à sua irmã a dormir ao lado da mona de trapo, no seu leito, e a caixa dos brinquedos retoma o seu lugar debaixo da sua cama. Os contos “As Malvas “ e “A Coca” não são mais do que o apelo do regresso à elaboração do objecto de brincadeira pela própria criança. No epílogo do livro, intitulado “Sem Tempo”, recomeça-se, afinal, o ciclo que se tinha perdido, na memória do tempo e do senhor Toninho, após ter aparecido na Cidade o fazedor de brinquedos - o senhor Silveiro.
A temática deste livro de contos surge com o propósito de alertar os mais jovens para o dever de conservação do planeta Terra numa atitude pro-ecológica de respeito pelo meio ambiente, pela preservação do património natural da região e do país e, porque não, de recordar, aos menos jovens, os seus tempos de brincadeira. Pegando nestas duas gerações, avós e netos, a aprendizagem passa ainda pelo humano e pelo sócioeconómico. Cuidar do velho planeta implica fazer uso da matéria-prima que este oferece ao homem, sem que nenhum elemento se desperdice e onde tudo se transforme e recicle".
A não perder!!!
Nota: considerando a temática do livro "O trigo dos pardais", antes da sua leitura convirá dar uma olhada no seguinte blogue: http://florabrin.blogspot.com/

Panorama editorial

O mês de Dezembro que ora finda trouxe-nos também duas prendas natalícias, no que respeita ao panorama editorial: por um lado, o já "antigo" (sai há cerca de 13 anos, mas com intermitências) "Mendo Corvo", um jornal escolar feito por professores e alunos, e, por outro, o "Sabor do Ferro", no seu número O (zero), de cariz mais generalista.


Começando pelo "Mendo Corvo", há a assinalar que passou do nível da tiragem em fotocópias para a edição impressa e em formato de jornal a sério. Recortamos do Editorial estas palavras do Director do Agrupamento de Escolas de Torre de Moncorvo, professor António Alberto Areosa: "este jornal do agrupamento, fruto da participação colectiva dos alunos desde o Ensino Pré-escolar aos do Ensino Secundário, docentes, representantes dos pais e encarregados de educação e parceiros plenos de um projecto maior que pretende ilustrar as expectativas mais caras à direcção e à comunidade educativa, a saber, o sucesso escolar efectivo e real, particularmente dos nossos alunos, a realização plena de todas as suas capacidades, o desenhar de um perfil de cidadão conscientemente lúcido em relação à comunidade envolvente que não poderá delegar nos outros o papel socio-cultural e humano a si destinado: aprender para saber ser (...)."
Em primeira página é destacada a comemoração do bi-centenário do nascimento do Visconde de Vila Maior, que recentemente teve lugar na escola de seu nome, nesta vila (antigo ciclo preparatório). Outros títulos de capa são a comemoração do aniversário da Convenção dos Direitos da Criança, o Magusto de S. Martinho para os mais pequenos, a atribuição dos Prémios de Mérito e a Noite das Bruxas (Hallween) nas Escolas.
Os interessados em adquirir o jornal poderão contactar o Agrupamento de Escolas de Torre de Moncorvo (tel. 279 200 280).

O "Sabor do Ferro" é uma estreia que promete vir para ficar, como publicação mensal. Tendo como director João Girão e responsável gráfico José Girão, define-se no Editorial como "o jornal do concelho de Torre de Moncorvo", supra-partidário, tendo por objectivo dar a conhecer melhor realidade do nosso concelho. Espera-se ainda que esta seja, "para alguns, a oportunidade de verem os seus anseios e lamentos expostos e afirmados", concluindo de forma jocosa que "para poucos, mas decerto variados, [o jornal será também] um entretém de faladura, que a nossa praça, à falta de motivos, precisa sempre de combustível para animar os passeios e o frio deste inverno que se aproxima".
Em primeira página é destacado em título: "Protocolo entre Câmara e EDP dá ambulância aos bombeiros"; "Leopoldina visita as escolas do concelho" e "GNR promove acção de sensibilização". Nas interiores, refira-se um excerto do nosso Blogue, dedicado à "Apresentação do livro 'A parábola dos Três Anéis' de Júlia Guarda Ribeiro" (pág. 5), uma "Mensagem de Natal" subscrita pelo Presidente da Câmara de Moncorvo, Engº. Aires Ferreira, "O meu relógio de bolso", crónica do Dr. Carlos Girão, "Por linhas tortas", pelo Dr. João Girão, "Curiosidade ou talvez não", por Leandro Vale; "Há pessoas que nos marcam", uma evocação da memória da Drª Lurdes Girão, pelo Dr. Nuno Gonçalves; "Pontapé na bola" (secção desportiva sobre Futsal); Mensagens de Natal pelos Padres Vicente e João de Barros; "De músico em música" (página musical) pelo Dr. Rui Rodrigues; "Cantinho do chefe Osvaldo" (Gastronomia), por Osvaldo Ferreira; "Balanço mensal de GNR" referente ao mês de Novembro; e o restante espaço dedicado a Passatempos, entrevistas de rua, publicidade diversa e um Cartoon ("O castelo de D. Mendo") assinado pelo Arqtº Paulo Afecto.
Sendo o 1º. número de distribuição gratuita, os pedidos podem ser efectuados pelos seguintes contactos: sabordoferro@gmail.com; tlm. 916623803, 932861077 ou 918680416.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Uma noite de Natal moncorvense, há 109 anos...

Falámos aqui há dias na "missa do galo" e "fogueiras do galo", nas noites do Natal tradicional. Todavia havia ainda outras "tradições" que felizmente se perderam. E por falar em galos, naturalmente havia quem levasse a coisa a preceito e provocasse outros "galos"... na cabeça do parceiro! Era o tempo dos famosos "índios" da Corredoura, que vinham a atacar os "cowboys" da vila, e... nada menos que na noite de Natal!!!
Mas, passemos a palavra ao impagável Francisco Justiniano de Castro (com a sua ortografia muito peculiar):

"Dia 24 de Dezembro [de 1900], à noite, na ocasião em que se intrava para a missa do gallo veio uma malta da corredoura armada de paus e foices dando vivas à rapaziada da corredoura... também andarão pelas ruas a dar os mesmos vivas feitos pimpões e no adro quando estava o abbade a dar o menino deos nacido a beijar ó altar armarão um grande barulho que athe ouve tiros de revolve, e querião matar o António da Assumpção Albardeiro que o admnistrador e o filho e o polícia nº. 8 virão-se parvos para os acomodar que athe quizerão bater ó administrador e depois na praça tornou áver outra desordem, e também tiros de revolve, os fridos que aparecerão forão o filho mais velho de Luis Patuleia que lhe abrirão a cabeça com uma arrochada, e com o jaquetão e a faixa furada por uma bala; e o filho do Sebastiãozinho Pastor da cordoura também com um tiro no braço esquerdo, e o filho mais novo do Luis Patuleia também com a cabeça rachada, o snr. Administrador mandou alevantar um auto de investigação mas as testemunhas que depuzerão nem uma viu quem deu os tiros, nem quem bateu".

in: "Moncorvo, fim de século. Caderneta de Lembranças". Transcrição dum manuscrito e notas do Doutor Águedo de Oliveira" - Edição dos "Amigos de Bragança", 1975.

Iluminações natalícias

Ainda em tempo, aqui ficam alguns aspectos da iluminação natalícia deste ano, na nossa mui nobre villa.
Aspecto de uma "árvore de Natal" feita de luzes, no antigo Rossio da vila, actual largo General Claudino (também conhecido noutros tempos por "praça das regateiras"),
Pela rua das Flores, engalanada de luzes, a caminho da praça central - a beleza nocturna do centro histórico neste período do ano.

Chafariz filipino com edifício do Tribunal ao fundo, na praça Francisco Meireles.

Rua Constantino Rei dos Floristas, outra das vias de acesso à praça, brilhando com estrelas de luz...
Esta iluminação deverá manter-se até ao dia de Reis.
Torre de Moncorvo - uma proposta de visita, também nesta época do ano!

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Presépios de antigamente...

Fotografia de um Presépio feito pelo Sr. Júlio "Sacristão", no interior da igreja matriz de Moncorvo (foto dos anos 70?, Arquivo particular - reprod. do Arquivo do PARM)

A palavra "Presépio" vem do latim: "praesepium", que significa "manjedoura dos animais", ou, em sentido lato, o "estábulo" onde se encontra a manjedoura. Tudo isto porque, segundo a tradição, o Menino Jesus nasceu num estábulo, nos arredores de Belém, quando os seus pais, tiveram de deslocar a essa cidade da província romana da Judeia, a fim de se serem recenceados, como todos os judeus, em cumprimento de um édito do imperador Augusto.
Esse nascimento, que muitos séculos depois viria a ser considerado como o ano 1 da Era Cristã, na verdade terá acontecido antes, entre o ano 7 e o ano 4 antes de Cristo!
Quanto à representação desse momento tão especial e transcendente para os Cristãos, utilizando figurinhas esculpidas, de uma forma tridimensional, parece que tal só ocorreu em 1223, quando S. Francisco de Assis, imbuído de grande piedade cristã e fervor missionário, resolveu recriar a situação desse Nascimento, numa gruta dos arredores da cidade de Greccio (Itália), onde pregava. As figuras eram de barro, à escala natural, e a ideia era pedagógica: explicar aos camponeses da região (e atraí-los) as circunstâncias e as personagens do Acontecimento. Dado o sucesso, anualmente, por ocasião do Natal, as igrejas e catedrais, primeiro de Itália e depois do resto da Cristandade, passaram a fazer presépios nesta altura, certamente por iniciativa dos franciscanos, costume que foi seguido por reis e nobres nos seus palácios. Ver: W http://pt.wikipedia.org/wiki/Pres%C3%A9pio
O período áureo dos presépios de barro foi o Barroco (séc. XVIII), havendo barristas notáveis que fizeram presépios.

Passando para Torre de Moncorvo, dada a existência, nesta vila, desde o séc. XVI, de um convento franciscano, é bem provável que este costume se tenha introduzido, pelo menos, desde essa época (não conhecemos registos escritos tão antigos). Contudo, em tempos mais recentes, há quem bem se lembre dos presépios feitos pelo sr. Júlio Dias, mais conhecido pelo Sr. Júlio Sacristão (que era também o guarda da igreja, subvencionado pela Direcção Geral dos Monumentos Nacionais, depois IPPC), como bem nos recordou há dias o nosso amigo Carlos Ricardo (Camané), dizendo que até vinham pessoas de fora de Moncorvo para ver os famosos presépios do sr. Júlio. Neste "post" divulgamos uma foto que nos foi oferecida pelo Sr. Júlio, há mais de uma dúzia de anos, pelo que, apesar de desconhecermos a data, deverá remontar aos anos 70. Fica aqui o apelo a outras pessoas que possuam fotografias de presépios do S. Júlio, que no-las façam chegar que aqui as divulgaremos.
Aproveitamos para informar que os Presépios se continuam a fazer no interior da igreja, entre as escadas da porta do lado do alpendre e o altar do Santíssimo. Havia (e há) a cerimónia de se beijar o Menino, após a Missa do Galo.
Esta é uma boa ocasião para os moncorvenses recordarem e reviverem estas tradições e visitarem a nossa Igreja Matriz.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Hoje o dia amanheceu com neve...

Torre de Moncorvo amanheceu polvilhada de neve. A fina poalha de "açúcar" sobre os telhados e quintais da vila, um pouco mais espessa na cumeada da serra...
Entretanto o nevoeiro baixou sobre o casario esbranquiçado, recriando o reino mágico de Avalon...
As ruas húmidas, com os beirais pingando o degelo...
Enquanto em Copenhaga se discute o "Aquecimento Global", a tradição ainda é o que era na serra do Roborêdo. Caminho nevado no alto da Portela de Felgueiras, parecendo um glaciar...

Vertente da serra na zona de Lamelas.

Pelos caminhos da serra - descendo para o Calhoal.
Os blocos de hematite (minério de ferro do Roboredo), dormindo sob a coberta de neve, à espera de quem o acorde... (talvez um dia...)

A povoação do "Carvalhal City", nas faldas da serra, terra fria por excelência, aqui tiritando sob um fino véu de neblina...

Fotos de N.Campos

sábado, 12 de dezembro de 2009

Moncorvenses recentemente premiados

1 – Arquitecto João Carlos Santos, enquanto coordenador da equipa responsável pela recuperação do Mosteiro de Tibães (Braga), arrecadou o prémio da Bienal Miami Beach atribuído pelo Instituto Americano de Arquitectos + Sociedade Americana de Arquitectos Paisagistas + Federação Pan-Americana de Associações de Arquitectos, destinado a galardoar os melhores projectos de recuperação arquitectónica a nível mundial. O projecto de Tibães, liderado pelo nosso conterrâneo, recebeu recentemente a medalha de ouro deste Prémio. Os trabalhos decorrem há cerca de 20 anos, com um custo global de 15 milhões de euros, em que se adoptaram soluções arquitectónicas arrojadas, articulando o novo com o antigo, sendo o claustro do refeitório do mosteiro uma das zonas intervencionadas que mais impressionou o júri norte-americano, conforme noticiou o Jornal de Notícias (edição de 9.12.2009, pág. 15).

Varanda do claustro do refeitório de Tibães (foto de Pedro Vila-Chã, in J.N., 9.12.2009)

João Carlos Santos nasceu em Torre de Moncorvo em 1962, tendo aqui feito o ensino secundário. Cursou Arquitectura na Universidade do Porto, tendo estagiado no atelier do famoso arquitecto Siza Vieira. Entrou para os quadros do IPPAR nos anos 90, onde tem desenvolvido projectos de recuperação e reabilitação em imóveis afectos ao Ministério da Cultura, nomeadamente para o remate da fachada poente do Palácio Nacional da Ajuda (sede do M.C.). Interveio também no projecto de remodelação do Museu do Abade de Baçal (Bragança), nos anos 90. Foi também o responsável pelo projecto da Biblioteca Municipal de Torre de Moncorvo (inicialmente com o Arqtº. A. Menéres) localizada num antigo solar de que aproveitou algumas estruturas. Actualmente – ainda de acordo com o J.N. – “coordena o projecto de Recuperação e Reabilitação do Mercado do Bolhão, no Porto”.

Sobre o prémio atribuído agora ao projecto de Tibães, ver: http://jn.sapo.pt/paginainicial/pais/concelho.aspx?Distrito=Braga&Concelho=Braga&Option=Interior&content_id=1442101

http://aeiou.visao.pt/arquitectura-recuperacao-mosteiro-de-tibaes-em-braga-teve-medalha-ouro-na-bienal-miami-beach=f539535

2 – Dr. José Eduardo Firmino Ricardo, vai receber no próximo dia 14 de Dezembro, o Prémio Douro /Ensaio, instituído pela Direcção Regional da Cultura do Norte, pelo seu trabalho: "Domus Mea est Orbis Meus: Campos Monteiro (1876-1933)", que corresponde basicamente à tese de mestrado do autor, recentemente defendida na UTAD e que foi aprovada com louvor. De igual modo, foi também por unanimidade que o júri do prémio Douro/Ensaio decidiu atribuir este prémio a José Ricardo, “tendo em conta os critérios de originalidade/contributo inovador, aptidão científica e qualidade literária”, aspectos que, ainda no entender do júri, se distinguiram, “pelo seu nível ensaístico, dos restantes trabalhos a concurso”. O prémio vai ser entregue pela nova Directora Regional da Cultura do Norte, Arquitecta Paula Silva, na próxima segunda-feira (14.12.2009), pelas 15;00h, na sede do Museu do Douro, em Peso da Régua.

Obra do escritor Campos Monteiro (1876-1933), foi objecto do trabalho de José Ricardo

José Ricardo é natural de Torre de Moncorvo, tendo estudado na Escola Secundária Dr. Ramiro Salgado, antes de se licenciar em Línguas e Literaturas Modernas e ter feito a tese de mestrado pela UTAD. É professor de Português em Vila Real , colaborador assíduo de “A voz de Trás-os-Montes” e comentador atento de assuntos de actualidade, com intervenção no jornal “Público”, na secção “cartas ao director”, bem como através do seu blogue: http://rescivitas.blogspot.com/

A tese de mestrado de José Ricardo, sobre Campos Monteiro, está já disponível na Biblioteca Municipal de Torre de Moncorvo.

(Agradecemos a seu irmão Carlos Manuel, “Camané” para os amigos, a informação disponibilizada).

Aqui ficam os nossos Parabéns a estes dois nossos conterrâneos pelo trabalho que têm realizado, cada um na sua área, sendo o reconhecimento nacional e internacional que obtiveram um motivo de grande orgulho para todos os moncorvenses.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Aconteceu em Moncorvo, há mais de um século...

«1890 Dezembro, 9 - foiçe daqui o snr. Doutor Trigo.

1899 Dezembro, 9 - saiu desta villa para o Luabo, África Oriental, o Abel Adriano Gomes.

1900, Dia 9 de Dezembro, o filho Raule [Raúl] do Viçente Sugão deu sem querer um tiro de revolve na irman.»

In: Caderneta de Lembranças, de Francisco Justiniano de Castro (transcrição de Águedo de Oliveira, edição dos Amigos de Bragança, 1975).

Nota 1: foi respeitada a ortografia do autor, F.Justiniano de Castro, tal como foi transcrita por Águedo de Oliveira.

Nota 2: o Abel Gomes aqui mencionado, trabalhou (ou dirigiu?) em Moçambique, uma companhia de extração de pérolas. Regressou posteriormente a Moncorvo, onde comprou o terreno e capela de N. Srª. da Teixeira, que ainda hoje se mantém na posse da família.

Nota 3: quanto à alcunha (ou apelido?) de Sugões, note-se que aparece também um Sugão nos Ares da Minha Serra, de Campos Monteiro. Trata-se de uma família antiga de Moncorvo, de extracto popular, de que ainda há descendentes.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Grande reportagem sobre a linha do Sabor no "Público"/P.2, de ontem

Saíu ontem, dia 5.12.2009, num suplemento do jornal "Público", uma extensa reportagem sobre a extinta Linha do Sabor (do Pocinho a Duas Igrejas), e que nos atravessava o concelho, hoje parcialmente reconvertida em Ecopista.
Este trabalho tem a assinatura do jornalista Pedro Garcias, com fotos (a preto e Branco) de Paulo Pimenta. Numa dessas fotos figura o já nosso conhecido Sr. Abílio Carvalho, o último maquinista da linha do Sabor e que também conduziu a última locomotiva entre o troço da Linha do Douro entre Pocinho e Barca d'Alva. O mesmo foi já evocado neste blogue (lembram-se da expressão "Apita Abílio!"?), sendo o pai do nosso colega das blogosferas Rui Carvalho, carviçaleiro, e grande animador do Fórum de Carviçais .
Aliás, segundo declara o jornalista Pedro Garcias, foi o nosso Blogue que o conduziu até ao Sr. Abílio, tendo sido através do Torre de Moncorvo in blogue (citado na notícia) e do Fórum de Carviçais, que se obteve alguma informação para este trabalho. Vale a pena ler!

O maquinista Sr. Abílio Carvalho (foto de Paulo Pimenta, in P2-Público, 2009.12.05)
«SAUDADES DO COMBÓIO NA LINHA DO SABOR
O combóio deixou de apitar na Linha do Sabor a 1 de Agosto de 1988, mas as memórias e as ruínas parecem ser muito mais antigas. O P2 foi ver o que resta daquela via estreita que ligava o Pocinho a Duas Igrejas, junto de Miranda do Douro, e encontrou estações lindíssimas ao abandono, uma região isolada e um povo cheio de saudades. Por Pedro Garcias (texto) e Paulo Pimenta (fotos)».
in suplemento P2/Público, 2009.12.05

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

TORRE DE MONCORVO

Praça de Torre de Moncorvo, vista da varanda do "Castelo" (foto de N.Campos)

«Espero ainda que o correr de Outono se torne mais lento e que as árvores se dispam devagar. Se os perfumes e silêncios forem prolongados viverei mais, antes do Inverno que já se anuncia por detrás daquelas colinas talhadas em degraus onde pousaram vinhas. A luz era amarela e à tardinha havia uma névoa ligeira que indefinia os contornos e enchia as veredas de mistérios. Um passo lento, de regresso, de saudade, a bater nas calçadas, a ecoar nos portões. As luzes a surgir, a desenhar figuras, a iluminar desejos. Tanto amava aquele viver!
Estendia os braços e cantava velhas canções esquecidas.
Era o tempo de voltar às águas donde parti.»

Jacinto de Magalhães, 1985.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Ainda há machos em Moncorvo!

Ao ver, há dias, este simpático solípede retrouçando umas ervitas junto ao velho caminho de pé posto que vai do Canafichal para o S. Paulo, ao longo da Nória, não pude deixar de notar: "olha, parece que ainda há matchos em Moncorvo!" Na verdade, estes animais desempenharam um papel importantíssimo desde tempos mediévicos, como transporte e força de tracção. Antes do vapor e dos motores de explosão, durante os últimos milénios, vigorou o que se convencionou chamar a "energia a sangue". Quase extintos, hoje, é motivo de admiração (e cliché) registarmos ainda algum espécime como este, sobretudo nas imediações da vila.
Para quem não sabe, a mula e o macho (chamado gado muar) são animais híbridos de cavalo e burra, ou de burro e égua (neste caso, chamam-se éguariços), sendo estes mais fortes. De uma maneira geral os animais muares são mais fortes que os cavalos e do que os burros, razão pela qual se promovia a sua hibridização, pois não procriam entre si.
A presença de muares na região de Moncorvo está patente na toponímia desde tempos remotos, sendo disso exemplo o célebre cabeço da Mua (onde se encontra o principal jazigo de ferro, no termo do Felgar).

Texto e foto: N.Campos

sábado, 28 de novembro de 2009

Novo livro de Júlia Guarda Ribeiro, no próximo Sábado, dia 5 de Dezembro

Desde já (e atempadamente) aqui fica o convite para o lançamento de mais um livro (só aparentemente para os mais novos), de autoria da nossa colaboradora e Amiga Drª. Júlia Guarda Ribeiro:

(Clicar sobre o convite para o ampliar)

Uma boa prenda de Natal - por isso não falte!

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

"O relógio mentiroso" - um conto de Isabel Mateus

- Ó avó, não se esqueça da minha encomenda!
- Não me esqueço, não te aflijas! Só se não os houver… – respondia-lhe a avó pela milésima vez.
O dia de Feira requeria aos habitantes das Quintas uma jornada pensada de véspera e, mormente, muitas horas de preparação para o bom sucesso de tal evento. A Serra apenas olhava para o Vale, tentava-o e espreguiçava-se na sua inércia. Ela só convidava com as suas curvas proeminentes, depois quem quisesse que se esforçasse para descobrir os mistérios que vedava. Do outro lado, demasiado ao fundo para as patas das bestas e dos homens, só bem no seu cume se antevia a azáfama dos camponeses e do seu gado.
A subida pelos lados da olga do Paralta, por entre os soberbos castanheiros a ladearem o carreiro, tinha-lhes tirado o fôlego a eles e às animálias, ou a ambos. Não seria certamente apenas pelo ar puro da alva, mas pelo esforço de uma boa hora de caminhada. A partir do alto do Reboredo tudo era muito mais simples! “Pra baixo águas correm e todos os santos ajudam”, expressão que saía amiudadamente da boca da avó, não sei se para se animar, se para insinuar que ir à Feira a pé ainda custava muito mais do que aos homens escarranchados na cavalgadura e às mulheres sentadas de lado, num equilíbrio periclitante de saias. De pulmões cheios do bafejo da Serra e olhos postos na torre da igreja, o pensamento desviava-se para o apregoar da Corredoura. O caminho de terra batida da floresta, com manchas de cores variegadas na folhagem do arvoredo, refreava-lhes a descida e quase embatia no imponente Asilo, onde se resguardavam da aragem e dos lobos as freiras, o capelão e as meninas. Quando aqui se apeavam dos burros, machos, éguas, mulas ou cavalos e os deixavam com o rabeiro comprido, dependurado de ramo forte ou tronco rijo, e a regozijarem-se no fenasco, os iminentes negociantes largavam definitivamente as arreatas. Depois, matavam a sede nas grichas do fontanário de Santo António e refrescavam as frontes, se o calor já apertasse, como faziam lá na fonte lajeada ou poço bravio da sua terra. Levavam ao lado deles, pelo seu pé, os leitõezinhos que haviam transportado no aconchego dos cestos vindimeiros, à moda de cangalhas, e bem travados no seu baloiçar pela meia-lua do arrocho. Cada um fazia a sua entrada triunfal e ocupava o lugar que lhe estava destinado. Afinal era um fórum comercial com regras e demarcações: porcos e bestas de carga arrumados de costas voltadas para a escola primária, mesmo em frente da capela do Mártir São Sebastião e a toda a extensão do lado oposto do largo espraiavam-se ovelhas e cabras e também alguns tendeiros e jogadores de caricas, que fariam agora companhia ao busto do Embaixador A. M. Janeira. Mas havia, inclusivamente, quem não largasse os transportadores dos fardos, de quinteiros e do vivo, entenda-se, e se atrevesse, por ruas mais esconsas, como as do actual Museu do Ferro, a penetrar acompanhado aquele espaço comunal. Junto à feira dos porcos, o Porteiro camarário recebia as cavalgaduras, alguns tostões pelo zelo que punha na sua guarda e na manutenção da ordem entre a bicharada quadrúpede de grande porte, quantas vezes só conseguida à custas dum potente e nodoso varapau. Ao gado ovino e caprino estava-lhe inteiramente destinado o estrelato, deslocando-se sempre a pé pela imensa passadeira áspera desde que de manhãzinha os donos lhes tinham descerrado as cortes . Sem outro aparato que não fosse o balido manso e o suave tilintar dos chocalhos, as ovelhas caminhavam pachorrentamente por entre aquela mansidão harmoniosa, que se misturava na massa dos feirantes, em ondas lanudas, no Inverno, ou desnudadas e singelas, por alturas da Primavera e do Verão. Destacava-se tão somente daquela amálgama o berreiro esquivo das cabras ou a correria desesperada das crias à procura do leite das progenitoras. A Tasca das Trevonas alojava-se sobranceira às paredes da casa da aula e distribuía, ao longo do dia, peixes fritos ou sardinhas assadas em moletes e pataniscas de bacalhau, tudo regado a bom vinho para afrouxar a rouquidão que o pregão contínuo e o pó do grande afã avivavam. Para refrescar não faltava ainda o pucarinho aguadeiro da Cachopa, de cântaro ao quadril a bambolear gotas por chamariz entre a multidão.
Na altura em que se deu o acontecimento de que aqui falamos, os tempos já eram outros. Naquela manhã, a avó sumiu-se no cordão estreito de terra castanho-avermelhada que conduzia Valente acima. Alcançou o topo das Minas, desceu o desfiladeiro e prendeu o Ruço ao tronco do castanheiro, a uns bons metros da estrada nacional do Carvalhal. Sacudiu o pó dos sapatos com uma giesta e apanhou a camioneta da carreira. Os anos já não lhe permitiam as duas horas de ida e as duas horas de volta da expedição, quando não vendia a mercadoria que outrora levava. E isso não raras vezes acontecera! Com os porquinhos assim a grunhir dentro dos cabazes pela exposição ao frio do longo do dia, limitava-se a seguir a andadura do burro, também mais lenta pelo cansaço acumulado. Refastelada no seu assento, a sua preocupação era, presentemente, outra. Tudo aquilo lhe vinha como se fossem meros “Farrapos de Memória”. Tinha prometido à netinha que lhe levaria o relógio. Antes que tivesse tempo de congeminar o plano para mercar o que desejava, já o veículo penetrava um dos estreitíssimos acessos que conduziam à praça. Apeou-se ao cheiro das buganvílias, muito enroscadas ao sol e aos muros do Castelo, e dirigiu-se ao local da feira. Ali não havia empedrado e a proximidade do chão de terra ganhava-lhe a sua confiança telúrica. Afoita e bem decidida, quis saber se o dono da primeira tenda tinha a mercadoria que ela procurava.
- Ó senhor homem, tem relógios mentirosos?
- Relógios mentirosos?! – inquiriu ele muito espantado. Os meus relógios não mentem, dão sempre horas certas, desde que não lhe falte a corda. Ó mulher, eu não vendo gato por lebre!...
- Não se zangue! É para a minha neta, para brincar! – respondeu de cara alegre e de riso escancarado nos lábios.
- Ah!, desses!
E o feirante, sorrateiro, foi entrando na conversa da velhota.
- Tinha. Até tinha muitos, mas veio aí o senhor da farmácia e levou-os por junto.
Num repente, tudo se iluminara. Mal agradeceu e se despediu, subiu de novo a rua íngreme, infiltrou-se por uma das artérias da praça, rumou em frente e cortou à direita. Estava às portas do velho edifício da botica. Entrou e, como acontece normalmente em dias como este, o estabelecimento estava à pinha. Teve que esperar pacientemente, até que a sua vez de ser aviada também chegou.
- Diga lá o que precisa de nós!
Muitas pessoas já tinham sido atendidas, mas o vaivém era contínuo.
- Disseram-me que têm relógios mentirosos. Quero um!
A empregada, pasmada, não acertava no que havia de dizer, até que por fim lá balbuciou:
- Ó Srª Candinha, quem lhe disse tal coisa não foi a sério!
Na sua inocência, a aproximá-la de novo da infância, deu uma risada e atirou num tom de caçoada íntima:
- Bem me admirei que vendessem relógios na farmácia, mas saiba que é para a minha netinha. Bem vê, não lhe posso aparecer de mãos abanar…
A empregada limitou-se a finalizar com um “tenho muita pena” e continuou na senda da sua avultada clientela. Por sua vez, em forma de desforra, a velhota saiu decidida na perseguição da sua busca, resmungando para os seus botões, aliviada, que ela não precisava para nada daquelas mixórdias medicinais.
Com este intuito, volveu à confusão do mercado. Passou de novo pelo mesmo vendedor ambulante e, sem dar a mão à palmatória, foi percorrendo com o olhar quantas barracas a abarrotar de mercadorias encontrou montadas e parou naquela que mais lhe pareceu, ao primeiro impacto, interessar – uma pequena bancada de brinquedos. Por entre ferrinhos de engomar de latão reluzente, com tampos de plástico colorido e aferrolhados por galinhos de cristas romanas, utensílios de cozinha e de regadores de crivos perfilados, o seu olhar negro, brilhante e inquiridor fixou-se em sete ou oito daqueles relogiozinhos multicolores, onde balançavam dois grandes ponteiros no mostrador redondo, igualmente garridos, e no qual se percebiam os desenhos indistintos de uns bonecos. Também tinha o tal roquete para dar corda e acertar as agulhas de que a neta lhe falara. A bracelete azul cintilante seria o contraste perfeito com a alvura do pequeno bracito, onde esta permaneceria noite e dia. Maravilhada e sem se questionar acerca do preço, coisa invulgar para a sua natureza de negociante de talho, de fruta, de feijões e tudo o que pudesse dar lucro, pagou e abalou. Ainda deu uma olhadela à procura de merino preto para fazer um avental novo, mas nem para isso teve paciência! Sem hesitações, regressou outra vez à praça, foi à Repartição pagar a contribuição dos prédios e voltou a montar na camioneta. O Ruço esperava-a coberto de poeira, por se ter espojado depois que escarvou a terra. Fora esta a maneira mais eficaz que encontrara para enxotar as moscas e os moscardos que lhe sugavam o sangue. Àquela hora adiantada do dia o préstimo do rabo e as abanadelas das orelhas teriam sido insuficientes e, como tal, recorreu ao instinto, rebolando-se no solo arado. Mais protegido do mosquedo, melhor consentiu o peso da proprietária que o conduziu, carreiro acima e monte abaixo, ao descanso e ao punhado de trigo da manjedoura.
- Traz-me o que lhe encomendei, avó?
- Não. Afinal, não encontrei o que tu querias…
- Está a brincar comigo!? Eu sei muito bem que mo trouxe!Os montes cobriam-se de sombras, a penumbra começava a habituar-se ao vento fresco da noite, que já soprava forte, e as duas sentaram-se ao lar na companhia dos estalidos das cascas dos pinhos. A avó mostrou-lhe o relógio mentiroso quando o último rebentamento do revestimento húmido da lenha se soltou no ar e originou um estrondo magnífico.

Autora: Isabel Fidalgo Mateus
Imagem: postal ilustrado dos anos 70 do séc. XX (edição da Livraria Clássica, Torre de Moncorvo)

domingo, 8 de novembro de 2009

Um poema de juventude de Campos Monteiro

No arquivo da Casa do Rossio, propriedade da família Pinto Félix, guarda-se um precioso poema manuscrito, de autoria de Campos Monteiro, o qual foi publicado há vários anos, no “Mensageiro de Bragança”, pelo nosso saudoso mestre Padre Joaquim Rebelo. O facto de o poema estar assinado apenas como Abílio Monteiro, nome que utilizou nos primeiros escritos, situa-nos cronologicamente nos finais do séc. XIX (anos 90?). Quanto ao lugar onde foi escrito, só pode ser na serra do Roborêdo, pois do alto divisa a vila, como se depreende.
Campos Monteiro vai voltar de novo a este tema da dor perante a hipocrisia e a traição, num outro poema intitulado “Desterrado”, publicado in “Versos fora de moda” (Porto, 1915).

Vista da vila de Torre de Moncorvo, a partir da Quinta das Aveleiras, propriedade da família Pinto Félix.

O vento nos arvoredos
Geme uns íntimos segredos,
N’um confuso murmurar;
E os rouxinóis nas balceiras
Cantam as noites fagueiras
Inundadas de luar.

O doce correr da agoa [sic]
Dá um tom leve de mágua [sic]
À alma ardente dos poetas;
E a villa além, silenciosa,
Oculta-nos, receiosa [sic],
Os rostos das Julietas.

Sinto um feliz bem-estar
Quando alcanço este lugar,
Tão cheio de solidão.
Só aqui, longe do Homem,
Me não seguem e consomem
A Malvadez e a Traição.

Abílio Monteiro

terça-feira, 3 de novembro de 2009

O Chacim - um poema de Campos Monteiro

E para fecharmos o assunto, algo funéreo, do "post" anterior, não resistimos a deixar aqui um belo poema que é um misto de evocação, veneração e saudade do nosso poeta Campos Monteiro, em relação a um velho amigo de Moncorvo, que entretanto falecera:

O CHACIM

Entre os velhos que esconde a sepultura,
um me recorda agora. Era o Chacim,
alma cheia de paz e ternura,
que tinha imensa adoração por mim.

Domingos de manhã, no Lageado(1),
era certo, passeando, satisfeito.
E ao ver-me aparecer -alvoroçado
vinha apertar-me contra o largo peito.

- "Então por cá!?... Um pouco macilento...
É de escrever... Comédias p'ra o teatro...
versos... artigos... o diabo a quatro!" -
E aos outros, baixo: - "Aquilo é que é talento!" -

-"Cá tenho visto nos jornais. Pois não!
Eu leio tudo quanto o amigo escreve!"
E a sua longa barba côr de neve
tremia de entusiasmo e de emoção.

- "Isto dá glória à terra! É uma vergonha
que a vila em que nasceu não retribua!
Hei-de propôr à Câmara que ponha
o seu nome na esquina de uma rua!" -

Eu protestava. Mas o sino à missa
chamava os crentes... E estendendo a mão:
- "Não se faça modesto, que é justiça!
Deve-lhe a vila esta consagração!" -

Passaram anos. Muito tempo estive
sem vir aos montes que eu adoro tanto.
Chego, e indago: - O Chacim? ainda vive? -
- "Mudou de casa, para o Campo Santo!" -

Parti de novo. E o tempo, decorrendo,
- como a neve às pegadas de um pastor -
foi na minha memória dissolvendo
a imagem do meu velho admirador.

Enfim, um livro publiquei. Só este...
Primeiro e derradeiro, é bem de ver.

- Meu pobre amigo! para que morreste?
Quanta alegria, se o pudesses ler!

Campos Monteiro, Versos fora de Moda (capº. Cartas da Minha Terra), 1ª. ed. - 1915.

(1) O "Lageado" era no adro da igreja matriz [nota do postador]

domingo, 1 de novembro de 2009

Cemitério de Moncorvo em dia de finados

Portão da entrada principal do cemitério de Torre de Moncorvo, ladeada por velhos ciprestes
«O Dia dos Fiéis Defuntos, Dia dos Mortos ou Dia de Finados é celebrado pela Igreja Católica no dia 2 de Novembro, logo a seguir ao dia de Todos-os-Santos.
Desde o século II, alguns cristãos rezavam pelos falecidos, visitando os túmulos dos mártires para rezar pelos que morreram. No século V, a Igreja dedicava um dia do ano para rezar por todos os mortos, pelos quais ninguém rezava e dos quais ninguém lembrava. Também o abade de Cluny, santo Odilon, em 998 pedia aos monges que orassem pelos mortos. Desde o século XI os Papas Silvestre II (1009), João XVII (1009) e Leão IX (1015) obrigam a comunidade a dedicar um dia aos mortos. No século XIII esse dia anual passa a ser comemorado em 2 de novembro, porque 1 de novembro é a Festa de Todos os Santos. A doutrina católica evoca algumas passagens bíblicas para fundamentar sua posição (cf. Tobias 12,12; 1,18-20; Mt 12,32 e II Macabeus 12,43-46), e se apóia em uma prática de quase dois mil anos.» - Fonte: Wikipédia.
Um belo monumento dedicado à memória de uma jovem moncorvense, por seu padrinho Alexandre Ferreira de Carvalho, em Janeiro de 1880

Outrora os enterramentos faziam-se no interior das igrejas e nos adros das mesmas. Esta prática, em Portugal (e, consequentemente, em Torre de Moncorvo) vinha desde a Idade Média. Com a implantação do Estado Liberal, motivações ideológicas e sanitárias levaram à constituição de locais próprios para os enterramentos dos cadáveres humanos: os cemitérios. Em Portugal, isso vinha sendo tentado desde 1835, culminando num decreto do governo cabralista de 28.09.1844, o qual viria a gerar, em regiões mais conservadoras, como o Entre-Douro-e-Minho, múltiplas resistências por parte da população. Ficou célebre o episódio da revolta da Maria da Fonte, que, para além de causas mais profundas, teve como rastilho uma situação de uma tentativa de enterramento numa igreja (em Fonte Arcada), o qual foi impedido pelas autoridades.
Plataforma inferior do cemitério de Torre de Moncorvo, sombreada por cupressos

Como forma de amenizar esta resistência popular e atenuar o impacto psicológico de enterramentos que não fossem em igrejas, procuraram-se lugares que fossem já tradicionalmente "campos santos", ou seja, que fossem assinalados por alguma capela ou igreja antiga, isto quando não era possível constituir-se o cemitério mesmo ao lado da igreja, como se vê em muitas da aldeias do nosso concelho e concelhos vizinhos.
No caso da vila de Torre de Moncorvo, o novo cemitério acabaria por se fazer no local da capela de Santo Cristo (antiga igreja de Santiago), a qual viria a ser sacrificada já nos finais do séc. XIX por um alargamento do dito cemitério, para o lado nascente. O belo portão da entrada, em ferro forjado e fundido, ostenta a data de 1869, mas a determinação para os enterramentos se realizarem neste espaço deve ser anterior.
Capa do Regulamento do Cemitério Municipal de T. de Moncorvo, 1880

Em todo o caso, só em 1886 é que foi impresso, na Imprensa Académica de Coimbra, o Regulamento do cemitério municipal de Moncorvo, aprovado em sessão de Câmara de 10 de Abril de 1886, sendo assinado por Augusto Duarte Areosa, António Marcelino Durão, Joaquim António da Silva, Marcolino Márcio Ferreira Margarido, Manuel Joaquim Diniz Pontes. O dito regulamento foi posteriormente aprovado em sessão da comissão executiva realizada em Bragança, a 20 de Agosto do mesmo ano, com assinaturas de José António Pereira de Almeida e José Henriques Pinheiro. Este último era natural de Moncorvo, sendo professor no liceu de Bragança e arqueólogo notável.
Lê-se na abertura deste Regulamento do Cemitério Municipal de Torre de Moncorvo, no capítulo I, artº 1º: "O cemitério de Moncorvo, situado ao S. Christo, é destinado especialmente para os enterramentos dos finados nas freguesias da villa". No entanto, em parágrafo único dizia-se ainda que "Nelle poderão também ser enterrados os cadaveres de pessoas fallecidas noutras freguesias do concelho onde não haja cemitério". Quanto ao pessoal, especifica o artº. 2º: "O pessoal do cemiterio compõe-se de um capellão, um administrador, um guarda, um coveiro e dos trabalhadores que a Camara julgar necessarios". O artº. 3º. diz que "O capellão e o administrador estão immediatamente subordinados á inspecção do vereador de respectivo pelouro, e o pessoal restante á do administrador". Os capítulos seguintes (II a V) refere-se às atribuições e obrigações do pessoal; o capº. VI é sobre as Inumações, o VII sobre os jazigos, o VIII sobre as exumações, terminando com Disposições Gerais, no capº. IX, e ainda uma tabela de vencimentos dos empregados, dos emolumentos da capela, valores de inumações e de exumações.
Custava, nesses tempos, um enterramento em jazigo municipal de depósito perpétuo, a elevada quantia de 50$000 (5o mil réis); se fosse por 2 anos, eram 10$000 (dez mil réis), e até 3 meses, 1$500 (mil e quinhentos), sendo de estranhar que houvesse inumações apenas por 3 meses, que leva a crer que as solicitações, em termos de espaço, seriam muitas. Estes valores eram iguais para jazigos particulares. Já as sepulturas razas eram mais baratas: "sepultura raza para finado maior de 7 anos, sem caixão: 500 réis; idem, com caixão: 800 réis; (...) sepultura raza para menor de 7 anos, sem caixão: 200 réis; idem, idem, com caixão: 400 rs. (...) Vala geral para maior de 7 anos: 300 rs.; idem, para menor de 7 anos: 100 rs." - Tinham sepultura gratuita, conforme o artº. 13, os finados nos hospitais e os que ali tivessem tratamento gratuito; os finados nas misericórdias, asilos e cadeias, quando nas guias que os acompanhassem se declarasse a sua pobreza; do mesmo beneficiavam os finados no domicílio, desde que acompanhados de atestado de pobreza, passado pelo respectivo pároco ou pelo sub-delegado de saúde".
O Regulamento tem ainda outras curiosidades, como a de não se poderem plantar, dentro do cemitério, quaisquer árvores de fruto ou outro vegetal que pudesse servir de alimento, ou ainda quanto ao impedimento de entrada de cães e outros animais.
È um documento que vale a pena ler, nesta ocasião, em que a tradição nos obriga à visita dos nossos entes queridos já falecidos.
Como dizia há dias, em programa radiofónico, a Drª. Clara Saraiva, profª. da Univ. Nova de Lisboa, e especialista nesta temática das atitutes e representações humanas quanto à morte, nos tempos que correm e na civilização ocidental, a Morte tornou-se um tabu e uma "coisa feia", algo de que desviamos a cara, de que evitamos falar, ou que procuramos "enfeitar" (como na tradição recente norte-americana). No entanto, ao lermos a magistral obra de Phillipe Ariès, O Homem perante a Morte (ed. Europa-América), vemos que nem sempre foi assim. Na Idade Média as pessoas frequentavam alegremente os locais de enterramento, junto das igrejas, aí fazendo festas e feiras, comendo e até dançando, junto dos seus mortos. Coisas que não nos passariam hoje pela cabeça, mas nada perderíamos se visitássemos com mais regularidade estes espaços, sobretudo para termos a noção da nossa finitude, e de como nada vale sermos tão ambiciosos e desrespeitadores do nosso semelhante. Tudo acaba ali.

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