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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Morreu o Arnaldo

Numa das passadas quinta-feiras, dia três de Dezembro, morreu no Porto, o Arnaldo Gonçalves, ou o Arnaldo Electricista como era conhecido em todas as aldeias do concelho. Foi uma figura de Moncorvo que marcou várias gerações ( e a mim particular e intensamente) pela sua generosidade, pelo chiste, pela reinvinção do pícaro, pela exploração de situações caricatas, pela criatividade única nas "partidas que pregava".
Estava já há bastante tempo acamado com a lucidez intermitente. Num dos seus últimos gestos de generosidade e desprendimento doou o corpo, para estudo, à Faculdade de Medicina do Porto (tem outro nome, creio que Ciências Médicas de Abel Salazar).
O Arnaldo era uma das últimas lendas de uma certa crítica social em que Moncorvo é um espaço privilegiado. Com ele perdem-se, pelo menos, duas décadas de memória, a não ser na lembrança dos seus amigos, nos quais com muita honra, me incluo.
Das últimas palavras que disse ao padre antes de morrer, consta, segundo me disse o seu cunhado, este desejo, ele que até era de Vilarelhos: "Ainda quero ir a Moncorvo"

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Mais um conto de Júlia Biló: O ZÉ LEITINHO

Não sei se alguém em Moncorvo se lembrará ainda do Zé Leitinho, José Leite de seu nome oficial.
Magrinho, de altura mediana, pele macilenta, cabelo preto liso, risco ao meio e empastado de brilhantina para se manter fixo no seu devido lugar. Sempre vestido de fato preto, lustroso de tão coçado, pastinha preta debaixo do braço.
Creio que era funcionário menor da Câmara, talvez cobrador.
Também lhe calhava ir à Corredoura. Então aí, à roda do Zé Leitinho, juntavam-se as meninas da Corredoura que, ao tempo, eram as filhas da Sra. Camila Miranda, da Sra. Rosalina Mesquita, a Menina Alcina, jovem esposa do Sr.Todu, a Menina Gininha Galo (já não muito jovem) , as filhas da Sra. Delmina Terceira, a Menina Natalina, a Menina Idalina e ... não sei se me esqueci de mais alguma. Depois a roda alargava-se com mais algumas mulheres e , obviamente, a canalhada não podia faltar.
Nesta última faixa encontrava-me eu. Furávamos entre as pernas das pessoas (já uma pequena multidão) para chegarmos à frente e não perder pitada.

As filhas da Sra. Rosalina e da Sra. Camila pediam, suplicavam ao Zé Leitinho que lhes cantasse o “Passarinho da Ribeira”. E insistiam : “A sua voz é maravilhosa” , “Canta que nem um rouxinol” . “ Não , não canto. Por favor, não peçam mais” . “Se for preciso, peço-lhe de joelhos” . E uma mais atrevida pôs logo os joelhos em terra e, de mãos postas : “ Por favor, cante. Não nos faça sofrer mais “ .
E o Zé Leitinho atrapalhado - até o cabelo começava a fugir do seu arrumadinho lugar - queria sair dali, mas a roda apertava-se à sua volta.
Finalmente cedia em cantar “Só uma. Só uma e mais nada”. Fazia-se silêncio e o Zé Leitinho esticava o pescoço, pigarreava, olhava para o céu, fechava então os olhos e soltava a sua voz : “Passaaaarinho da Ribeira / Não seeeejas meu inimiiiiigo ... “ Aqui começava uma das Meninas a ficar sem forças, encostando-se a outra e mais outra que começava a desmaiar... e o Zé Leitinho, embebido na canção que existia na sua cabeça e não sabendo que a desafinação era completa, continuava “...Empreeeeesta-me as tuas aaaasas / Deixaaaaa-me ir voaaaaar contiiiigo...” Por esta altura, tinha de abrir os olhos , porque os “ais” das Meninas eram já muitos e os desmaios tantos que algumas iam a correr buscar água para deitar na testa das que haviam desmaiado e estavam nos braços de outras que fingiam chorar .
A aflição estampava-se na cara do Zé Leitinho que, em lágrimas verdadeiras, dizia confuso: “ Eu não queria cantar. Eu sei que a minha voz provoca este efeito nas jovens. Oh, Deus me valha! “ Lá conseguia que lhe abrissem o cerco e, tirando o lencinho branco que espreitava do pequeno bolso do casaco, fugia limpando a testa e a cara.
As Meninas em desmaio recuperavam de imediato e as lágrimas que agora lhes assomavam aos olhos eram das gargalhadas que o Zé Leitinho já não ouvia.
Eu era muito pequenita e até sentia pena do Zé Leitinho . Mas tenho de confessar que nunca ouvi voz tão desafinada. E mais, em alguém que não tinha a mais leve ideia da sua desafinação.

NOTA – Penso que o Lelo sabe outras estórias do Zé Leitinho.

Por: Júlia de Barros Guarda Ribeiro (Júlia Biló)

domingo, 17 de maio de 2009

Morreu o Sr. Joaquim dos Chibos!

Há poucos dias (2009.05.07) aqui noticiámos o lançamento de um livro que incorporava dois poetas populares da nossa terra – o tio António Bento Morgado e o tio Joaquim Martins (mais conhecido por Joaquim dos Chibos). Uma publicação “in limine”, em que, contrastando com a vitalidade do tio Bento Morgado, o Sr. Joaquim dava já alguns sinais de cansaço e esforço nesta sua longa caminhada da Vida. Uma vida que se finou no passado dia 15. Infelizmente.

Joaquim Marcelino Martins nasceu em 31 de Agosto de 1926 na Quinta dos Chibos, no termo da freguesia de Torre de Moncorvo, quinta essa mencionada numa das novelas de Campos Monteiro, creio que “A Rebofa”, in Ares da Minha Serra. Aí nasceu e aí viveu a sua juventude, nas velhas casas de xisto, hoje completamente arruinadas, mesmo ao lado da nova estrada de ligação de Torre de Moncorvo ao troço do IP-2. Um local árido e desolado nas proximidades do fértil vale da Vilariça, sendo este uma espécie de “Promised Land” onde o Sr. Joaquim gastou a existência para arrancar o seu sustento, e de sua família, às terras ricas mas pesadas, trabalhosas, calcinadas por temperaturas de 40º C à sombra, no Verão, sujeitas às “rebofas” invernais, e em que a humidade fomentava mosquitagens que eram fontes de sezões de tipo tropical.
Conheci o Sr. Joaquim dos Chibos nos idos dos anos 70, quando meu pai com ele negociava os afamados melões do vale. Homem íntegro, de boas contas, de palavra, trabalhador incansável, um dos últimos grandes lavradores antigos do vale da Vilariça que fez a transição da era dos bois para a dos tractores.
Lembro-me de alguns destes grandes heróis do Vale - a costela agrícola da Torre de Moncorvo (que nem só de ferro aqui viveu o Homem): o Sr. Júlio "Ferrador" (pai do Sr. Beto Castelo), com o seu velho tractor vermelho desbotado, o Sr. José Inácio, o Sr. Abel Vilela, …….. e o Sr. Joaquim dos Chibos (além de muitos outros lavradores e jornaleiros da Corredoura, que faziam esse trajecto quase diário para as courelas do vale, ao mesmo tempo rico e adverso). Temos ainda, graças a Deus que o mantenha (e que Ceres o abençoe), o Sr. Aníbal “Espanhol”, dono de uma ilha no Sabor e o último abencerragem destes lavradores da Ribeira.
Infelizmente, este lado “agrícola”, ancestral, de Torre de Moncorvo, está a acabar… E hoje, dia 16 de Maio, foi a enterrar, com o Sr. Joaquim, uma boa parte da alma da Vilariça que eu conheci, da Torre de Moncorvo profunda. Ficou dela, da sua vida, um pequeno mas eloquente testemunho: “Histórias da minha vida”, de que retiramos os excertos que se seguem, recomendando a sua leitura na íntegra. Uma escrita simples mas que condensa uma vida de lavrador honrado, de Homem de trabalho.
Chorando a sua morte, penitencio-me por não ter cumprido a promessa que lhe fiz de registar em vídeo a sua voz e a sua presença, declamando os seus versos junto dos pardieiros dos Chibos que lhe serviram de berço… Fica entretanto aqui uma foto de um momento muito bonito, em que nos leu alguns dos seus versos no Dia Mundial da Poesia, em 25.03.2005, no auditório do Museu do Ferro/Moncorvo. Tem a palavra o Senhor Joaquim Marcelino Martins:

Quinta dos Chibos

Oh, velha Quinta dos Chibos!
Estás toda derrubada
Tuas casas já velhinhas
Não podes ser habitada.

Lá nasci e me criei
Nesse velho casarão
Não tinha quartos nem sala
Amplo sem nenhuma divisão.

As janelas sem vidraças
Já podres do temporal
A porta não tinha chave
Mas não fazia mal.

Os terrenos “ladeirosos”
De cabeços e canadas
E nos grandes “fragaredos”
As terras eram cultivadas.

Tinha umas oliveirinhas
E um pequeno amendoal
Que não davam rendimento
Para contratar o pessoal.

Tinha bois e tinha vacas
Com que lavram as ladeiras
Para estarem preparadas
Para o tempo das sementeiras.

Às cinco da madrugada
Tínhamos que nos levantar
Para tratar dos bois
E irmos trabalhar.

Andávamos quase às escuras
Pouco se via ou nada
A candeia do azeite
Quase não alumiava.

No tempo das sementeiras
Era da escravidão
Não haveria mais nada
Mas comia-se bom pão.

Levava-se uma côdea no bolso
Para comer e andar
Em tempo de sementeiras
Não se podia parar.

Não havia hora certa
Mesmo a hora de jantar
Comer a côdea à pressa
Era comer e andar.

Era uma vida de amargura
No tempo da escravidão
Não haveria mais nada
Mas comia-se bom pão.

Havia sempre umas sardinhas
Para se “apeguilhar”
Que era muito boa e fresquinha
A sardinha de Ovar.

Havia umas mulheres
Que andavam a apregoar
Quem quer? Sardinha
Fresquinha de Ovar…

Joaquim Martins, Histórias da minha vida, Edição da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo, Abril de 2009, pág.18

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