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segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Às Cobrideiras de Amêndoa de Moncorvo

Um dos ex-libris de Torre de Moncorvo é a famosa "amêndoa coberta", isto a par do trabalho do ferro e, em termos monumentais, da igreja matriz da vila. A confeitaria da "amêndoa coberta" está enraizada nesta terra talvez há mais de 200 anos, com referências documentais desde há cerca de século e meio.
Assim, e ainda em jeito de homenagem à Drª. Júlia de Barros Guarda Ribeiro, para os moncorvenses Júlia Biló, aqui vai mais um poema, este de sua autoria, dedicado às cobrideiras de amêndoa de Torre de Moncorvo:

À COBRIDEIRA DE AMÊNDOA DE MONCORVO

(à memória de minha mãe e de todas as cobrideiras de amêndoa)

Ninguém sabe nem pressente
Que de teus dedos ardidos
Brota o tom luminescente
Do açúcar feito flor
Das doces rosas-amêndoas.

Ninguém sabe nem pressente
Que de tuas mãos fortes e hábeis
Brotam as pétalas-bicos
Brotam as pétalas frágeis
Das doces amêndoas-rosas.

Ninguém sabe nem pressente
Que de teus gestos sofridos
Repetidos, sempre iguais
De incompleto remar
Brotam como espuma do mar
As doces rosas-amêndoas.

Horas sem minutos,
Dias sem nomes,
Anos que teu ventre calcinaram
No teu corpo dolorido.
Do teu salgado suor
Do teu esquecido labor
Nasceram as amêndoas-rosas
As doces rosas-amêndoas
Amêndoas do teu amor.

Júlia de Barros Biló (1954), in: Somos poeira, somos astros, Magno Edições, 2000, págs. 52-53

5 comentários:

Anónimo disse...

Belíssimo poema este, que associa os gestos ancestrais da cobrideira de amêndoa com um incompleto remar. O milagre das mãos que criam, que inventam o próprio gesto, que acariciam a matéria e a transfiguram num doce rosa. Gestos esquecidos, num mundo que já não consegue ver.
Daniel

Anónimo disse...

Julinha: Não sabia que tinha escrito estes versos à sua mãe e a todas as cobrideiras de amêndoa de Moncorvo . Até me vieram as lágrimas aos olhos quando o meu filho me leu os versos tão lindos. A minha mãe também foi cobrideira e tinha a barriga toda queimada de tantas e tantas horas passadas encostada ao caco das brazas. Venha cá e escreva histórias sobre muitas coisas que ainda se não escreveram.
Muita saude e felecidades .
Conceição.

Júlia Ribeiro disse...

Amigo Daniel:
Eu nunca tive qualquer talento, nem sequer jeito, para poesia. Isso foram fogachos, ou antes, fumos de adolescente . Depois, quando realmente me apercebi do que era, do que é, poesia , achei que era melhor meter a viola no saco. Alguns desses ditos "poemas" só saíram porque a família insistiu e havia mais recolha do que coisas escritas por mim .
O pouco que talvez, à minha maneira, saiba fazer é contar umas "estórias de vida" e é tudo.

Obrigada e um abraço imenso
Júlia

Júlia Ribeiro disse...

Amigo Daniel:
Eu nunca tive qualquer talento, nem sequer jeito, para poesia. Isso foram fogachos, ou antes, fumos de adolescente . Depois, quando realmente me apercebi do que era, do que é, poesia , achei que era melhor meter a viola no saco. Alguns desses ditos "poemas" só saíram porque a família insistiu e havia mais recolha do que coisas escritas por mim .
O pouco que talvez, à minha maneira, saiba fazer é contar umas "estórias de vida" e é tudo.

Obrigada e um abraço imenso
Júlia

Júlia Ribeiro disse...

Amiga Conceição:
É exactamente como diz. Uma vida duríssima, a da cobrideira de amêndoa: horas e horas sentada sempre na mesma posição - os pés inchavam muito - a barriga contra o "caco" que escaldava, os dedos sempre queimados, apesar dos dedais que só resguardavam as pontas. Milhentas vezes o mesmo movimento de costas e braços, sem poder parar ...
Eu devia ter escrito um conto em vez de uma poesia tosca .
Obrigada pelas suas palavras e um grande abraço,
Júlia

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