torredemoncorvoinblog@gmail.com

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Coisas de Moncorvo! III

Intervenções do deputado Ferreira Pontes

A legislatura de 1848 a 1851 terá sido uma das mais polémicas da nossa história parlamentar. Nela se discutiram a aprovaram, por exemplo, as bases da organização administrativa territorial que ainda hoje permanece baseada nos distritos.

A província transmontana era então representada por 7 deputados, entre eles pontificando João Pedro d´Almeida Pessanha (de Mirandela) e José Marcelino Sá Vargas (de Bragança).

A grande figura transmontana naquele Parlamento foi, no entanto, um deputado eleito pelo círculo de Braga, natural da aldeia de Peredo dos Castelhanos, concelho de Torre de Moncorvo – o cónego Joaquim Rodrigues Ferreira Pontes.

As actas das sessões são testemunho eloquente da sua “garra” parlamentar. Algumas vezes ele ficou sozinho e viu a generalidade dos deputados votar em bloco contra os seus projectos de lei. Vamos apresentar apenas dois exemplos, como prova dessa “garra” e da sua clarividência política.

Debatia-se, em determinada altura, a extinção de alguns concelhos (no actual distrito de Bragança ainda ficaram 17), a reorganização das comarcas e a criação dos distritos, bem como a nova lei eleitoral e a consequente definição dos círculos, assim como um novo plano rodoviário nacional. Em momentos diferentes, naturalmente e tratando projectos de lei diversos,

Em todos estes debates participou o deputado bracarense Ferreira Pontes, enquanto os outros ilustres deputados transmontanos guardavam silêncio. Em todos os debates, a sua linha de actuação foi idêntica e pode resumir-se assim:

1º Para que querem criar os distritos? Nos termos da proposta governamental, não servem para nada. Se querem retalhar as províncias, isso é muito mau. Se querem apenas mudar-lhe o nome, então deixem-nos com o distrito de Trás-os-Montes e estabeleçam a sua sede em Mirandela, que é o ponto mais central.

2º Como é que podem sobreviver tantos concelhos? Tenhamos a coragem de extinguir todos os que não têm verdadeira razão de ser e que não geram receitas para sustentar as despesas.

3º Porque não há-de a divisão judicial (as comarcas) coincidir com a divisão administrativa (os concelhos)? E porque não há-de o mapa eleitoral (círculos) coincidir com o mapa administrativo e judicial? Não ficavam os deputados mais ligados aos eleitores, mais conhecedores dos problemas das regiões?

4º Postos estes considerandos, entendia o deputado Ferreira Pontes que, na área do actual distrito de Bragança, deveriam ficar apenas 6 concelhos, que corresponderiam a igual número de comarcas judiciais e de círculos eleitorais.

Passados mais de 150 anos, digam lá os adeptos transmontanos da Regionalização se encontram melhor fórmula do que a criação de uma região de Trás-os-Montes e Alto Douro com a capital em Mirandela!

E digam lá os politicólogos transmontanos se não puxaríamos melhor as orelhas ao deputado eleito pelo nosso círculo mais pequeno? Digam lá se a divisão judicial de hoje é muito diferente? E digam lá se é razoável a existência de concelhos com menos de 5000 habitantes?

Um outro debate parlamentar em que Ferreira Pontes foi vencido (curiosamente contra ele votaram todos os deputados transmontanos) ilustra bem o seu conhecimento profundo das realidades locais. Veja-se:

A Câmara de Lisboa queixou-se ao Parlamento que as suas posturas não eram cumpridas e as multas não eram pagas, pedindo aos deputados que legislassem da seguinte forma:

- Quando alguma postura fosse violada, devia chamar-se o guarda de serviço e o escrivão e este lavrar p respectivo auto, que seria também assinado por duas testemunhas. O auto seria remetido ao juiz que avaliaria o processo e fixaria a respectiva coima.

Os deputados anuíram logo à proposta da câmara de Lisboa e transformaram-na em lei geral para ser aplicada em todo o País. Ferreira Pontes bem se esforçou por alterar a lei, propondo aditamentos, alterações, etc. Nada conseguiu, apesar de explicar tão terra-a-terra o descrédito com que seria recebida entre as populações rurais e a impossibilidade prática de aplicar semelhante lei. Dizia ele mais ou menos o seguinte:

1º Na minha região, como em tantas outras, existem matas concelhias, pastos comuns e folhas dos pães (terras onde a cultura dos cereais e o pastoreio de gados se fazem em rotação anual). A maior parte das posturas municipais respeitam à regulamentação do uso dessas matas, desses pastos e dessa folhas, para além da defesa da propriedade privada. A grande maioria das multas acontece exactamente pela transgressão dessas posturas.

2º Imaginem agora que uma cabra ou um burro se escapam e comem umas couves ou uma oliveira. O proprietário tem de ir chamar o guarda e o escrivão da justiça à sede do concelho que dista (na minha aldeia) mais de 20 quilómetros, para lavrarem o auto. Depois terá de perder um ou dois dias, ele e as testemunhas para a organização do processo e julgamento. No fim… as custas do guarda, do escrivão, das testemunhas, do tribunal e do juiz… serão bem maiores do que o tostão fixado para a coima na postura municipal, ou até superiores ao valor do próprio animal que causou o prejuízo.

3º Esta lei não é apenas odiosa para o povo, mas é também lesiva dos interesses do Estádio que verá os seus tribunais atulharem-se de processos e obrigará à multiplicação dos escrivães da justiça.

Diga-se que nem assim Ferreira Pontes conseguiu impedir a aprovação de tal lei, apesar de ter utilizado vários recursos, como o de apelar ao testemunho dos seus colegas transmontanos (ficaram mudos) e o de propor que, em tais julgamentos, os juízes não recebessem qualquer remuneração extra. Não adiantou ainda a sua proposta para retardar em 15 dias a discussão e votação da lei, a fim de poderem ser consultadas as restantes câmaras municipais. A maioria foi inflexível.

Não será de estranhar que esta legislatura tenha terminado com um golpe militar e revolução política que passou à história com o nome de Regeneração.

António Júlio Andrade

Sem comentários:

Add to Google Reader or Homepage Subscribe in NewsGator Online Add to My AOL Add to netvibes Subscribe in Bloglines Add to Excite MIX Add to netomat Hub Add to Pageflakes

eXTReMe Tracker