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sábado, 2 de agosto de 2008

À memória do Urgel

Ao chegar de Agosto, fazia as malas em Lisboa e regressava à aldeia, a Peredo dos Castelhanos, sempre para o encontro marcado com o Urgel, vindo de França. Era um ritual que se repetia há anos. Trazia-me sempre um maço de cigarros Gitanes e bebíamos, ao correr do tempo, cerveja.
Até para o ano. Mas este Agosto, com ida que vou adiando, vai ser diferente. O Urgel morreu. Só muito mais tarde o soube. Hoje a sua ausência é em mim uma presença que queima. Como que a aldeia e Agosto já não são os mesmos. O Urgel é uma amizade antiga, tão amigos que ocultávamos, por pudor, também por timidez, a intensidade dos afectos. Amigos de aldeia quando, de tão crianças, ainda parecemos felizes, durante anos os nossos caminhos não se cruzaram. Soube que foi à guerra e na guerra, creio que em Moçambique, foi condecorado. Salvara da morte, abnegado e generoso como sempre foi, o seu pelotão. Nunca se julgou um herói. O que ele fez, fê-lo pelos outros, como faria pela vida inteira. Foi o solitário mais solidário que eu conheci até hoje. Os pais foram convidados pelo Governo a ir passar férias com ele a Moçambique.
Terminada a tropa, regressou à aldeia. Trazia com ele uma condecoração e nada.
O mundo diferente, a amargura e o sofrimento dos dias passados, já lhe tornavam impossível regressar à pureza inicial da aldeia. Partiu para a França. A memória, a solidão, o álcool e o desemprego às vezes, iam-no corroendo lentamente. Nunca casou nem amores se lhe conheceram.
A última vez que o vi, no Agosto passado, os cabelos brancos, mas ainda crespos, o rosto um mapa enrugado, mas sempre disponível para todos, anunciava já um fim precoce.
Este mês, Urgel, quando chegar à aldeia, beberei cerveja como se estivéssemos juntos, numa conversa cheia de silêncios, e acenderei um Gitanes. Já que não consigo ser tão solidário como tu, permite-me ao menos que recorde para sempre, com lugar cativo na minha memória, a tua bondade. A tua presença na tua ausência.

Pedro Castelhano

2 comentários:

N. disse...

Texto tocante, pelo que se relata, com o especial dote do Pedro Castelhano para o necrotério.
Não conheci o Urgel, mas, em todo o caso, o meus sinceros pêsamos ao Peredo dos Castelhanos, pela sua perda.

LA disse...

Pedro
Gostaria, em primeiro lugar agradecer, pessoalmente claro, o texto publicado, pois fez-me repensar o conceito de amizade... na mais pura essência.
Quando o estava a lêr veio-me à memória a seguinte citação, muito sábia (para mim, claro!) a qual vou partilhar,

" Para que haja uma árvore florida, é preciso haver antes uma árvore; e, para haver um homem feliz, é preciso haver em primeiro lugar um homem."
(Saint-Exupéry)

Obrigado
LA

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