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sábado, 31 de maio de 2008

Madressilva - Lonicera implexa


Madressilva - Lonicera implexa (?), na Serra do Reboredo (24-05-2008).

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Postigo

Pormenor numa porta, na Rua da Misericórdia, em Torre de Moncorvo.

terça-feira, 27 de maio de 2008

O antigo combustível


Mesmo fardado, há que enfardar, porque o tractor fica cada vez mais caro...
Fotografado em Sequeiros- Torre de Moncorvo

Flora " maldita"

Xanthium spinosum
Planta espinhosa, comum em locais húmidos e quentes. As suas sementes são uma praga que se prende ao pêlo dos animais.
Fotografada junto à Fonte de Canelas - Açoreira - Torre de Moncorvo.


Cebola albarrã; cebola almarrã; cebola chilra (Uirginia maritima).
Planta muito comum nas ladeiras, entre fragas, mas em terra fértil. Outrora fora colhida para ajudar à economia familiar, à semelhança do sumagre e do cornelho ( fungo do centeio mais evidente nas colheitas de centeio na Serra do Reboredo). Esta cebola era aberta e posta a secar, durante muito tempo. Posteriormente era vendida. Essa procura dever-se-ia com certeza a propriedades medicinais. O seu líquido, apesar de "corrosivo", era utilizado no tratamento dos ferimentos sofridos pelos burros ou machos nas lavras.

Segundo um testemunho, esta cebola fora utilizada para curar uma picada que um "alacrário" fizera a uma besta, em Freixo de Espada à Cinta.

(Fotografadas em Sequeiros - Torre de Moncorvo).

Maleiteira (Euphorbia characis)

Esta planta apresenta um líquido leitoso que, de certa forma, afasta de si pessoas e animais. Aconselha-se a lavar bem as mãos , caso se mexa na planta.
Fotografada em Sequeiros - Açoreira - Torre de Moncorvo.

Cardo amarelo ( nome científico? e popular?). Os seus picos poderão ser agressivos, mas não lhe conheço outra" maldição". Poderá fazer companhia à popoila amarela.
(Fotografado em Sequeiros- Torre de Moncorvo)

Unha Gata ( Ononis spinosa)

Planta rasteira e espinhosa temida pelos trabalhadores do campo. Chegam a dizer que os seus espinhos são tão terríveis que crescem dentro da carne ( local da informação: Sequeiros - Torre de Moncorvo, onde foi registada esta fotografia).

Trovisco ( Daphne gnidium)

Planta arbustiva utilizada em métodos de pesca furtiva, através da utilização de um engodo preparado com as suas raizes .
(Fotografia tirada em Sequeiros- Torre de Moncorvo)

À espera que alguém entre



Na Rua do Castelo
, em Torre de Moncorvo.

domingo, 25 de maio de 2008

Lampaça







(Echium Vulgare)

À semelhança de outras plantas,
as crianças, brincavam com estas plantas
arrancando a flor para lhes" chupar o mel".

Torre de Moncorvo.

papoila Amarela



É preciso estar atento...

para as descobrir.

visite: http://www.antoniobasaloco.org/user.htm

Contos de rodapé

Uma vez que a edição de "Contos de Rodapé" de João P. V. Costa está esgotada, pedi autorização ao autor para publicar aqui alguns dos textos que, de alguma forma, possam fazer referência a Moncorvo. Com a utorização obtida, passaremos a contar com mais esta temática, embora, tal como garantiu o autor, possam ocorrer alguns retoques no texto e imagem originais. Mas também poderão surgir alguns inéditos...




Verbasco

Passaram os ciganos por Açoreira e, por engano, levariam de arrasto os arreios de um macho e uma charrua de ferro. Fosse lá como fosse, sumiram as alfaias necessárias à labuta diária de Jaquim Manel e de Manel Jaquim, irmãos de um ventre, que teimavam em não deixar entrar os tractores no seu prédio. É que a força e o mau jeito das máquinas arrebunham oliveiras e amendoeiras, chegando mesmo a assassiná-las! Sem esta ferramenta, ficava a lavra por fazer, enquanto as ervas iam comendo as árvores.
Simão vigiava o rebanho por ali e viu realmente passar a caravana dos ciganos. Mal soube do desaparecimento dos objectos dos vizinhos, correu a informá-los dos suspeitos que àquela hora já estariam acampados perto da Meda. Os homens que acabavam de arrear da jeira largaram o cabanal e carregaram a fundo no sentido do acampamento. Pelo caminho, a raiva era tão forte que não sentiam os pés de sola natural, apesar de muitos atalhos serem a galgar paredes e espinheiros.
Já perto das tendas, enquanto as rondavam, foram interceptados pelo chefe que lhes pediu a razão de tanta espreitadela.
- Queríamos ver se tinham por aqui umas coisas para vender!
- E que coisas, meus senhores ?
- Uma charrua boa para lavrar, como nos disseram por aí!
- Não temos nada disso e podem ver à vossa vontade!
Com o anoitecer, a fome e o frio começaram a roer a roupa colada às costelas e o pescoço desconfiado de Jaquim Manel ia vendo cada vez menos o acampamento deixado há um bom naco de tempo.
Juliana vivia sozinha num casebre, desde que o marido tinha partido. Nessa noite, veio cá fora apanhar uma roupa esquecida no arame. Teve a impressão de ver mais duas sombras do que as que tinha estendido a secar, ao meio dia e um arrepio de sincelo percorreu-lhe a espinha até ao cabelo mais branco.
- Boa noite, minha senhora. Não se assuste connosco! Já vimos de muito longe, sempre a pé e gostaríamos que nos deixasse dormir por aí num canto. Pensávamos que os ciganos nos tinham roubado umas ferramentas, mas afinal os desgraçados não têm nada e nós nada temos!- disse Manel Jaquim a tiritar de frio, ao mesmo tempo que o nariz se ia reduzindo a uns pingos a quem o braço cortava a trajectória.
- Como me parecem ser boas pessoas, entrem cá e cheguem-se às brasas porque o frio ainda vos tempera de uma vez por todas! Também devem vir com fome?
- Se nos desse uma buchita para a barriga deixar de roncar!..
- Eu tenho ali um pedacito de peixe de molho...Se quiserem uma punheta de bacalhau...
- Ficamos muito agradecidos !
Os setenta e nove anos de Juliana limaram-lhe a maior parte dos dentes e deram aos dedos das mãos uma espécie de ferrugem, assim o bacalhau era desfiado com as mós e com as gengivas. Jaquim Manel ficou agoniado e desmontou uma desculpa para não comer o bacalhau. Ficou-se por um bocado de pão. A dona do casebre também lhes arrumou um enxergão de palha e uns cobertores, num canto da cozinha.
O pedaço de pão de Jaquim não durou para calar o estômago e por isso levantou-se durante a noite para fazer um rebusco completo. Não podia acender a candeia, por isso teve de contar só com a luz dos olhos. E foram estes que viram tremeluzir alguma coisa numa fresta da parede xistosa. Embicou para lá o nariz e engoliu um troço de toucinho semi-oculto por um rasgo de folha de couve. Serviu, ao menos, para calar o rato que parecia sair pela garganta.
De manhã, já a senhora os fazia levantar com uma canecada de café e ia perguntando se tinham passado bem a noite. A resposta foi a de um agradecimento enorme. Repararam então que, de repente, a senhora se sentiu um pouco entristecida.
- A senhora parece triste ? Não é por irmos embora ?!
- Não, não. É que eu já não tinha mais barbasco para pôr nas minhas almorródias e arranjei um pouco de toucinho que estava guardado ali na parede. Agora estou muito sentida com os senhores, porque ele desapareceu.
A agonia de Quim Manel parecia descolar-se de dentro das tripas e regar todo o caminho até casa.
Os arreios e a charrua nunca mais foram vistos e a carne de toucinho era interdita no prato de Jaquim.

Gala Crista


Os pós de Maio eram sempre um ataque aos olhos claros de Angélica. O remédio andava num bolso do avental, na carteira feita lenço da mão. Com um nó se guardavam as sementes de gala crista que eram a vassoura daquele olhar. Com outra ponta do lenço colavam-se as moedas que iriam comprar o pão.
Na véspera do dia de feira, a freima foi enorme em arranjar a carga para o burro. Toda aquela lenha das Quintas até Freixo seria mais uma bicada para alimentar o ninho. Porque o seu António herdara aquela doença, na primeira grande guerra, em África, era ela, agora, que mais lutava. E, pelo longo caminho até à vila, com as passadas de cor, fazia o rol das trocas que aquela carga lhe iria dar. Ia recordando os tempos em que o António, pelo trilho de Mazouco, contrabandeava com o outro lado do rio. A lenha, nessa altura, escondia a farinha espalmada no lombo do burro, não fosse o olho de algum guarda dilatar o tempo da fome.
Lá estava a Torre e a Matriz. Já faltava pouco para aliviar o animal daquele ganha-pão. O local de descarga foi mesmo ali ao lado de uma feirante que calcetava o chão com os barros cozidos. Angélica atou o burro e, depois de esfriar o bolso de moedas pelo despacho da mercadoria, foi dar uma espreitadela pela feira. Havia ali muita coisa que apeteceria levar para casa, mas o dinheiro pesava sempre menos que as gotas de suor. Comprazia-se, assim, em deixar que toda a feira lhe ferisse o azul do olhar.
Junto de uma banca com sacas, o cobre da lenha acabara por se desfazer em farinha. Desta forma, ficaria a semana preenchida com o pão.
De repente, a feira parecia estar entornada. Um remoinho de braços e berros alastravam à volta do burro. Ora nem mais! O animal acabara de fisgar uma parceira e resolvera pôr a conversa em dia. Afinal nem só aqueles que os levavam à rédea tinham na feira um dia de encontros, como de um Domingo se tratasse. Esticou a ânsia e levou pela frente púcaros, bilhas, alguidares e todo o resto da artilharia de barro que o impedia de chegar à aparição daquele pêlo. Foi o cabo dos trabalhos! Angélica nem queria acreditar, mas a dona dos barros não se ficou pelos berros. Queria tudo pago!
Aquilo que o burro desperdiçou em pão arregalava, agora, os olhitos das crianças. Nunca tinham visto tanto caco para brincar. A penúria dos mais velhos partiu-se em fartura para os mais novos.
Ao deitar, Angélica desfez um dos nós do lenço da mão e retirou duas sementes de gala crista. Colocou-as, depois, nos olhos, para que aquela poeira da má sorte fosse expulsa durante a noite e permitisse um dia seguinte mais azul.
AZEDA

O carro de praça já está à porta e ainda é preciso colher uma mão cheia de azedas para meter no tapar o ar de plástico. Os chouriços de ossos, os de mel e amêndoa há muito que estão enroupados dentro da mala. As alheiras para lá caminham, talvez a rechear um qualquer par de meias de lã de ovelha.
No aeroporto, dá-se algum aos funcionários já conhecidos para que estes extintores da saudade possam entrar numa casa portuguesa no Canadá. Durante o voo, Adelaida parece levar um novelo na garganta de tão preocupada com a separação dos bocados da terra que lá vão noutro local do avião, mas o sono chama-a por umas horas.
De repente, o estômago subiu-lhe aos lábios numa velocidade incontrolável e foi então que ficou a conhecer a utilidade daquele saquito que tinha no banco. A turbulência do avião transitou logo para uma preocupação angustiante. Se as alheiras tivessem saltado do aparelho? Seria um caso sério o embate de um enchido destes na cabeça de um possível presidente do país sobrevoado nessa altura. Não havendo qualquer indisposição diplomática, poderia o turismo rural agradecer a sua expansão internacional, caso o produto levasse consigo o certificado de qualidade e proveniência.
Calíbio! Tudo não passou de um susto. Segundo uma voz que rebentava do tecto do avião, tinha sido um poço de ar o responsável por toda aquela saraivada de solavancos e abanicos. Com esta explicação, a mulher segredava ao tecido do banco uma outra descoberta:
- Se há poços de ar que soltam o vento, também os deve haver de água que destapam a chuva...e, em tapando essa mina, muita enxurrada acabará lá em baixo!
Com estas considerações, o avião até se despachava mais, só para se livrar do passageiro que dialogava com o banco. Daqui a pouco estaria na posse dos comandos do aparelho...
Estava, finalmente, a chegar a viagem ao seu extremo. Não tinha graça nenhuma andar tanto tempo suspensa no ar! Por um postigo do avião já se via muita gente no aeroporto. De certeza absoluta que estavam à espera!
Depois do enorme pássaro já estar pousado há uma boa meia hora, aparece Adelaida, pintada de uma alegria azeda.
- Ó mãe, que é que lhe fizeram para demorar aí dentro tanto tempo?
- Oh! Valha-me Santo António! Vamos mas é imbora!...
Fez-se serão para arrumar as malas, pôr a conversa em dia sobre a terra e contar os segredos da viagem. No fim do relambório todo saiu o mais azedo:
- Quando ia buscar a trouxa, ouvi um aparelho a apitar. Disseram que era o detonador de metais e que a mala tinha qualquer coisa. Abriram-ma e desfizeram-me uma alheirinha toda. Era aquela mesma que tinha o focinho do reco caseiro, ainda com o arganel.
- Ó mãe, tem cada uma que nem duas!
As outras que não tinham estômago de lata escaparam ao detector, mas também não passaram desse dia, tal como as azedas que as acompanharam.
Afinal, o recheio de um bom produto é o próprio rótulo de qualidade.


in Contos de Rodapé, 2001

1 dia passado em Moncorvo

No dia 24 de Maio foi dia de - À Descoberta - no concelho de Torre de Moncorvo. A desculpa foi a sessão de Birdwatching, organizada pelo Museu do Ferro & da Região de Moncorvo, mas, o meu passeio, começou antes e prolongou-se até ao final da tarde, quando os últimos raios de sol se infiltraram nas encostas da Vilariça.
Tinha esperança que o dia não trouxesse chuva, a fim de permitir a realização das actividades previstas. Ao início da manhã havia muitas nuvens, mas os raios de sol iluminavam a Junqueira que parece atraí-los. Encostada entre o vale e as fragas, parece atrair a luz que a torna visível mesmo de longas distâncias, como quando vou à aldeia abandonada do Gavião, em Vila Flor.
Não me demorei muito, às 10 horas estava a chegar ao Museu do Ferro onde iria decorrer o encontro ornitológico. Já se montava no pequeno jardim que existe nas costas do museu, uma rede para apanhar aves.

Para ser sincero, e apesar da ornitologia ser uma das minhas paixões desde sempre, não costumo frequentar encontros deste género. Às vezes é por dificuldade em conciliar interesses, outras vezes é porque exige despesas que não estou disposto a suportar. Para quem estiver interessado neste tipo de actividades, a Associação Aldeia, costuma organizar, na região, encontros sobre este tema.
A sessão foi orientada pelo Eng. Afonso Calheiros e Meneses. Com o apoio de uma apresentação electrónica mostrou as principais espécies de aves agrupando-as por habitats. O grupo de pessoas presentes, muito heterogéneo em idades, mostrou grande interesse e interveio sem grandes formalismos.
A localização do sala não podia ser melhor, porque, à medida que os slides iam passando, chegavam até nós os melodiosos cantos de estorninhos (Sturnus vulgaris) e de rouxinóis (Luscinia megarhynchos), que desafiavam em riqueza tónica e melódica todas as espécies de aves que povoam os quintais em redor de Moncorvo.
Seguiu-se depois uma amostra do material usado na anilhagem de aves, feita pelo sr. Joaquim Norberto dos Santos, que foi mesmo levada à prática, com a anilhagem de um chamariz ou milheiro (Serinus serinus), que entretanto ficou preso na rede colocada. Foi grande o entusiasmo nesse momento.
O almoço foi no restaurante O Lagar. Escolhi este restaurante porque é um ambiente familiar para mim, onde sempre gostei de comer e onde sou muito bem atendido. Acompanharam-me no almoço alguns familiares e amigos, de Moncorvo. Eu pedi entrecosto, que como neste restaurante há mais de uma década, e não me arrependi. Acabei por deixar esquecidas as batatas fritas e servi-me de arroz de feijão, da travessa destinada a outra pessoa. Adorei o almoço.
Para facilitar a digestão e enquanto não chegava a hora para o passeio pedestre pela Serra do Reboredo, fiz uma visita à igreja, acompanhando os meus familiares que nunca ali tinham estado.

Caiu uma boa bátega de água, mas não foi suficiente para demover os afoitos observadores de aves, que, sem medo, partiram serra acima. Com o Eng. Afonso na parte da flora e fauna, e o Dr. Nelson Rebanda na geologia e história, cedo se percebeu que não ia ser um simples passeio de observação de aves.
Não vou descrever em pormenor o que se passou, porque, em contacto com a natureza, todos os sentidos são estimulados. É difícil descrever os sons, as cores, os odores, a euforia ou a fadiga.
O percurso seguiu pelo limite inferior da Mata Nacional do Reboredo, passando pela capela da Senhora da Conceição em direcção à Quinta do Mendes. Cortámos à esquerda em direcção à Quinta Diogo Vaz e descemos depois à estrada N220 perto do convento, no Larinho. Apanhámos depois a Ecopista junto à Quinta da Água, de regresso a Torre de Moncorvo. Percorremos aproximadamente 8 quilómetros.

Já em Torre de Moncorvo, e depois do grupo se ter separado, aproveitei ainda para fazer algumas fotografias pela vila. A chuva que nos atormentou quase o dia todo, deu lugar a um céu com boas abertas de uma luz quente num céu azul.
De regresso a casa, ainda me senti tentado a uma rápida passagem na Foz do Sabor a admirar a calma das águas a invadirem o Rio Douro, num cenário magnífico.
Foi um dia em cheio: deslumbrantes paisagens; aves de rara beleza com cantos mais doces que os melões da Vilariça; uma almoço memorável; uma mistura de estações com oscilações constantes entre a Primavera e o Inverno; uma igreja omnipresente, de que de certeza voltaremos a falar. E, para temperar tudo isto, a companhia de amigos que partilham o mesmo gosto e respeito pela natureza quer sejam aves, plantas ou rios.

O mapa do percurso pedestre pode ser visto aqui.
Mais reportagem no Blog do PARM.

sábado, 24 de maio de 2008

X Encontro Internacional de Teatro, de Torre de Moncorvo


Vai realizar-se, entre 25 de Maio e 2 de Junho a X edição do Encontro Internacional de Teatro de Torre de Moncorvo como habitualmente uma realização conjunta da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo e Teatro em Movimento.

De salientar a importância do evento, que tem surgido ininterruptamente ao longo da última década.
Estarão como parceiros, nesta décima edição, o FITEI e A ANTA (Associação Nacional de Teatro Amador).
Para esta edição vai ser lançado um catálogo sobre os 10 anos de existência do Festival que conta, este ano com presenças portuguesas de Tomar, Amadora e Coimbra, além da própria companhia organizadora que apresentará três espectáculos em estreia, dois deles com elementos provenientes das duas acções de formação desenvolvidas ao longo do ano anterior.

A nível internacional teremos companhias de teatro da Austrália, Espanha (2) e Brasil. Paralelamente haverá recitais de poesia e a apresentação de Estado de Excepção o vídeo comemorativo dos 50 anos do Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra (CITAC).

PROGRAMA:
Dia 25.05.2008 (Domingo):

16;00h - actuação do Grupo Folclórico do Agrupamento de Escolas de V. N. de Foz Côa, na Praça Francisco Meireles;
21;30h – O Senhor Ibrahim e as flores do Corão, realização de Produções Margarida F. Silva (Coimbra), no Celeiro;
23;00h – Recital de Poesia Teatro, por Leandro Vale, no Auditório do Museu do Ferro;

Dia 26.05.2008 (Segunda-feira):
21;30h – La fiesta del Anerno, por NMS (Alicante, Espanha), no Largo da Corredoura.

Dia 27.05.2008 (Terça-feira):
18;00h – A Debulha, por Teatro em Movimento (Leitura teatralizada do conto de Florêncio terra, integrada nos 150 anos do autor), no Celeiro;
21;30h – Anjos e Demónios, por Pandora (Brasil), no Celeiro;

Dia 28.05.2008 (Quarta-feira):
16;00h – Citac, (Coimbra) – Estado de Excepção (Vídeo) – Documento histórico dos 50 anos do Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra, na Biblioteca Municipal;
21;30h – Nut Teatro, por Psicose (Galiza), no Celeiro;

Dia 29.05.2008 (Quinta-feira):
21;30h – Meridith Kitchen, por Disappeaning Acts (Austrália),

Dia 30.05.2008 (sexta-feira) – Dia Mundial da Criança
10;00h – Artonus, (Tomar), Danças com Mozart, na Escola Visconde Vila Maior;
21;30h – Artonus, (Tomar), O Jardim dos Sortilégios, no Largo da Corredoura;

Dia 31.05.2008 (Sábado):
21;30h – Passagem de Nível, por Fatos de fogo, no Celeiro;

Dia 01.06.2008 (Domingo):
21;30h – Uma Alma Gémea, por Teatro em Movimento, no Celeiro

Dia 02.06.2008 (segunda-feira):
21;30h – O Clown que não sabia fazer rir, por Teatro em Movimento, no Celeiro.

Aqui vem a janta

Primeiro, uma sopinha de legumes, feita à lareira (fogueira com toros de amendoeira e cascas de amêndoa tradicional), em pote de ferro.


Depois, umas moelinhas, também feitinhas à lareira, embaladas no pote de ferro.




Finalmente, este "brasume" lembrando que " Em Maio, comem-se as moelas ao borralho".

Bom apetite!

Sequeiros, Torre de Moncorvo

Não sei quando

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Em louvor do dr. Ramiro

Era apenas por dr. Ramiro que conhecíamos o dr. Ramiro Salgado. Era um modo de manifestarmos respeito, mas sobretudo afecto.
O meu irmão mais velho tinha sido um aluno do dr. Ramiro, um grande aluno, marrão e de altas notas. E um dia surgi eu qual ovelha ranhosa, rebelde, libertário, indisciplinado, em suma, mau aluno. Dizem as más línguas – que as há sempre em todo o lado e em grau maior – que eu tinha um razoável coeficiente de inteligência, mas tão desaproveitado! Não sei o que a vida veio provar, se o meu QI, se o seu desaproveitamento.
Mas o dr. Ramiro simpatizou comigo. Hoje fala-se muito em empatia, conceito que, na altura, só funcionava entre os iniciados ou nos que adormecem com Homero à cabeceira.
Quando entrei no Colégio Campos Monteiro éramos todos rústicos a que a vida concedeu ou condicionou, de bom ou mau grado, caminhos distintos.
O dr. Ramiro era um homem de afectos e respirava sensualidade. Estava-lhe na massa do sangue. Era um apreciador de mulheres.
Tinha eu então por colegas de turma o Simão do Larinho, um barra em Matemática, o António Grande de Felgueiras que já na altura tinha barba enquanto em nós a penugem penava em fortalecer, o Adérito Camelo, de Açoreira, discreto, silencioso, sorrateiro, olhar de caçador furtivo para fêmea passante, o Humberto Pires Dias ( e leia-se Pirés no seu sotaque ligarês) que punha gravata sempre que o dinheiro se lhe acabava, o Eduardo Reis, o Jorge Calijão, cunhado do sr. Braga, vindo de Macedo e que usava sempre dois pentes, um esmero de elegância, e tantos outros de que a memória se vai fatigando. Reincido: fui sempre um mau aluno. Acabei por ser expulso, para mágoa do dr. Ramiro, por um empurrão que dei ao dr. Sobrinho, então presidente da Câmara e professor de Português. Era um professor medíocre, por muito que isto custe dizer de alguém que já faleceu e de cujos filhos ( sobretudo do Zé) sou amigo. O dr. Sobrinho tinha por hábito esbofetear com o seu anel de curso de Filologia Românica, os alunos. Eu não permiti. Agredi-o com alguma violência, mas vivia na revolta, na procura e na inquietação interior, estados que nunca mais me abandonaram ao longo da vida, apaziguado que estou com os outros, mas em guerra constante comigo mesmo.
Moncorvo era então uma sociedade fechada, entre a pesporrência e o caciquismo. O café do Basílio era um espaço metafórico da “luta de classes”. No reservado, chamado a ONU, juntavam-se os que se consideravam senhores da terra e alguns serventuários que julgavam os eflúvios da ONU lhes concederiam um maior estatuto social.
Honra lhe seja feita, que o dr. Ramiro não respeitava nem frequentava estes conciliábulos de sabedoria galinácea. Na ONU jogava-se às cartas por vinho verde rasca.
No centro do café reunia-se a alma, a verdadeira alma de Moncorvo. Jogava-se dominó, bilhar e damas. Nas damas brilhava imbatível o Álvaro Reis, tendo como adversários temíveis o Álvaro Mateus e o Manuel Relojoeiro ( não lhe sei outro nome, mas na altura era a única expressão de convívio social que se lhe conhecia). No dominó brilhava o Chico do Porto, também um exímio bilharista, o Preto de Freixo de Espada à Cinta, o Abel da Venatória, o Renato. O tenente de Urros, viciado no dominó, mas com pouco jeito, era o bombo da festa. Chegava a perder grades de cerveja, enquanto os clientes desesperavam que os levasse para Urros.
Mas regressemos ao Colégio e ao dr. Ramiro.

Fazia parte do nosso imaginário – e ainda hoje não sei se há verdade ou lenda no episódio – o confronto entre o dr. Ramiro e o dr Sobrinho. No auge da discussão, o dr. Sobrinho terá gritado, na sua voz apiflautada: “Olhe que eu tenho nervos”. E então dr. Ramiro, erguendo-se, encostou-lhe a sólida barriga, levantou os braços, cerrou as mãos em punho e, com voz de gigante, clamou: “E eu tenho nervos e força”.
Nunca mais pude esquecer esta cena que, real ou hipotética, entrara no nosso caderno de lembranças, numa elevação do dr. Ramiro que era generalizada entre os alunos.
Por vezes, em pleno Inverno, obrigava-nos a levantar cedo (uma vez entrou mesmo no meu quarto e destapou-me) para uma sessão de ginástica, antes de começarem as aulas; por outras, acompanhado do César Espanhol, contínuo, ia-nos buscar ao Jardim onde ouvíamos música da juke box ( a malhadeira como nós lhe chamávamos na nossa ruralidade mal assumida) do Norberto Moreira, em vez de estarmos nas aulas.
Passou então pelo Colégio, a dra. Túlia, de Alfândega da Fé, professora de Inglês, com um ténue buço a sugerir mulher grega. A dra.Túlia também fazia parte dos nossos sonhos eróticos de adolescente. Tinha um olhar triste. Não sei se a vida lho cativou.
Vivíamos no rame-rame de uma sociedade fechada, sem comunicação, poucos sonhos, mas alguma solidariedade.
Quando o devaneio e a sedução passavam as marcas, ainda que fossem manifestações canhestras de que qualquer Casanova urbano se envergonharia, entrava o dr. Ramiro na sala de aulas e, entre o raspanete e uma certa compreensão e olhar cúmplice, perguntava, para não obter resposta: “Julgais que isto é alguma Ilha dos Amores?”

Um dia, eu decidi fugir à guerra colonial. O dr. Ramiro foi das poucas pessoas a quem o revelei. Não comentou. Apenas escreveu uma carta de recomendação para o seu colega de Faculdade no Porto, o professor Emídio Guerreiro, que estava exilado em França.
(Creio valer a pena abrir aqui um pequeno parêntesis, como um regato da memória paralelo à turbulência da narrativa. O professor Emídio Guerreiro foi preso pela polícia política ---creio que ainda então se chamava PVDE, no Aljube, donde fugiu de uma forma algo rocambolesca. Chegou a Espanha ( Galiza) no auge da Guerra Civil. Esteve para ser fuzilado pelas tropas franquistas. Com a ajuda do consulado inglês, ligado à Maçonaria, conseguiu chegar a Gibraltar, donde rumou para França. Entretanto, rebentara a guerra com a Alemanha. Entrou para a Resistência e no maquis chegou a capitão. Hélio se chamava. Conquistou a cidade de Montauban. Herói da Resistência francesa, ficou com a dupla nacionalidade, foi condecorado por De Gaulle e dava aulas de Matemática num liceu de Paris.
Entreguei-lhe a carta e fui encaminhado para um Centro de Refugiados Políticos. Mas isso é outra história que não vem para o caso. Já muito, mas muito mais tarde comecei a conviver com o prof. Emídio Guerreiro. Estive, em Guimarães, na celebração dos seus 105 anos. Morreria uns meses depois).

Ia, de Paris, escrevendo poemas sobre poemas, com nítidas influências do Paul Élaurd e de Aragon, bem como de Brecht cujos oito volumes de obra completa lera na Biblioteca de Montreuil, que enviava ao meu amigo Paulo Salgado. Ainda então não sabia que o sussurro é por vezes mais estridente que o grito. Poemas menores, datados, mas de aprendizagem.
Um dia regressei clandestino a Portugal. Contactei o Paulo que informou o pai. O dr. Ramiro disse para me irem buscar à Guarda. Foram o Ramiro e o Paulo. Creio que num mini do Ramiro, já não estou bem certo. Era o último dia do ano. Fui directamente para o Colégio Campos Monteiro. Onde celebramos o fim de ano. Fui dormir a casa e, ainda antes de amanhecer, parti numa carreira para seis meses de clandestinidade, repartidos pela Guarda, Tortosendo, Coimbra e Lisboa.

Contas de outro rosário. Regularizada a minha vida, não normalizada, que sempre fui renitente em relação a normas e normalização, um dia encontramo-nos eu e o dr. Ramiro, professores-colegas na Escola Secundária de Moncorvo. Senti-me muito mal. O dr. Ramiro estava triste, o fulgor que sempre vira nos seus olhos, feito de paixão e futuro, estava baço. Os amigos eram menos. Quase me lembrava o soneto de Camilo. Tomávamos quase todos os dias café ( eu creio que o dr. Ramiro, nescafé) no Martinho, quase em frente à igreja. E um dia propôs-me como mote “ o rio que transborda as margens”, com umas ressonâncias brechetianas que não me eram estranhas. Glosei o mote e entreguei-lhe o poema. Não sei se ele ainda existe.
Um ano depois de ele morrer, já eu padecia das desumanidades de Lisboa, a família pediu-me que lhe fizesse o elogio fúnebre numa romagem ao cemitério do Larinho. Amigos não havia muitos. Mas eu estava lá. Não fiquei com o texto que entreguei à família, não sei se ao Paulo se ao Ramiro.
Eu sei que “recompensa mal o Mestre quem se contenta em ser discípulo” ( F. Nietszche). Mas o dr. Ramiro que me perdoe porque ainda não consegui recompensá-lo.

RR

Varandas II

Varandas, na Rua Manuel Seixas, Torre de Moncorvo.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Morreu o Manel DJ

Não resisti a publicar este texto, que já saiu na altura da morte deste meu amigo no Jornal de Notícias ( edição de Lisboa,na rubrica Passeio Público), como uma homenagem a muitas das figuras de Moncorvo que vão desaparecendo. O texto é conhecido de algumas pessoas, mas gostaria que fosse conhecido por muitas mais, em nome do Manel que foi um homem notável. Gostaria também que para esta galeria de ausentes escrevessem outras pessoas. Por exemplo o Gil do Peredo merecia bem uma prosa e um lamento. Aqui fica a sugestão ou o desafio se quiserem.

Morreu o Manel

Mal cheguei à terra, o olhar cheio de urzes e estevas floridas, de maias e giestas pujantes e flocos de sabugueiro, a primeira notícia que me deram soou a raios, trovões e águas turvas na memória: "Sabes?, o Manel morreu".
Não ouvi o dobrar dos sinos do alto da torre por este meu amigo, um quasimodo franzino, com um curto respirar de pássaro.
"De que morreu?"
A resposta é vaga, não sabem por inteiro.
"Talvez dos pulmões". O corpo deformado, a corcunda, iam-no asfixiando aos bocadinhos. É o que se diz sem nenhum rigor científico, apenas com alguma fatalidade poética.
Há muitos anos entrei, já a noite ia longa, num bar, o primeiro que abrira na terra. Chamava-se o Noitibó.
A um canto, numa espécie de aquário de vidro, um dj frágil, como um peixe triste, ia servindo música. Com o seu olhar, como que entendia as necessidades de momento de cada cliente. Era sábio na sua administração.
Conheci então o Manel.
Nas noites seguintes quando o bar fechava e no cheiro intenso a fumo flutuava uma suave melancolia, eu, o patrão e o Manel tomávamos a última bebida.
Num gesto de ternura escondida, colocava o último lp, expressamente para mim, da Maria Bethânia a cantar, num álbum de parceria com Caetano Veloso, o "Leãozinho", o "Meu primeiro amor" e o "Adeus, meu tempo de chorar".
Saíamos para a madrugada, havia silêncio na rua íngreme, da Cal se chama, e só muito ao longe se ouvia o ladrar de algum cão.
Era um tempo sereno e medido.
O Manel não conheceu a paixão e eram ignorados os seus subterrâneos de afecto.
Mas um sonho houve que o acompanhou durante longos anos: cursar engenharia.
Depois de muitas e inúmeras noites de dj num aquário de sons, num bar de rua estreita, conseguiu matricular-se em engenharia.
Terminava este ano o curso.
Faltavam poucos meses para realizar o sonho, o único que tinha de seu, além da casa herdada dos pais.
Era a família que lhe custeava os estudos.
Só agora soube que o Manel, o meu amigo quasimodo franzino, se chamava Manuel Mota e já tinha 43 anos.
Nunca o vi sem gravata e duas mangas. Receava o vento e algum resfriado.
O funeral passou ao lado do jardim. Mas no jardim já não havia amoras negras.
Ontem à noite regressei ao Noitibó. O aquário já desapareceu. Estava o patrão, completamente sozinho. A um canto do balcão, velhos lp's amontoados. Comecei a procurar a Maria Bethânia. O patrão pôs o álbum no gira-discos e serviu três bebidas, para nós e para o ausente.
A lágrima furtiva não se percebeu na penumbra do bar.
Porra, o Manel morreu.

Rogério Rodrigues.

domingo, 18 de maio de 2008

18 de Maio - Dia Mundial dos Museus

Hoje, dia 18 de Maio, é o Dia Mundial dos Museus. Aproveite para fazer uma visita ao Museu do Ferro & da Região de Moncorvo.
Inauguração de exposição sobre "Trabalhos do Museu, 2002-2008" (às 15 horas).
Neste dia a entrada é gratuita.

Sentinelas


Sentinelas que me olhais
Do alto dessa igreja
Revestidas de silêncios
- De que crimes me acusais?
Há séculos que aqui estais,
E eu ainda agora cheguei!
Já vos olhei ao sol pôr,
Recortei-vos contra o céu,
Com o ouro me ceguei.
Não sei ...
Será que é olhar de amor
E a sentinela sou eu?

sábado, 17 de maio de 2008

a alma da terra


"Torre de Moncorvo onde o ferro é a alma da terra"... mas o granito também brilha.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Campos Monteiro

Desculpem a insistência no Campos Monteiro, mas com este pequeno texto, de aditamento, relativo à homenagem que lhe foi prestada em Moncorvo, parece-me que dou mais alguns elementos pouco conhecidos para quem um dia queira fazer algum trabalho sobre este escritor transmontano.
Rogério Rodrigues


Notícia do Primeiro de Janeiro

Moncorvo homenageia Campos Monteiro

Dez anos após a sua morte, em 1943, Carlos de Passos, amigo de Campos Monteiro prepara e edita uma “Homenagem a Campos Monteiro. Miscelânea de estudos em honra do escritor e do cidadão--1876-1933”. O livro com uma tiragem apenas de 500 exemplares é editado pela Livraria Tavares Martins, Porto, 1943.
Além de vários depoimentos, constantes do livro, na generalidade de escritores e jornalistas de direita e extrema-direita, homens do Estado Novo e monárquicos, o in memoriam trás a notícia do Primeiro de Janeiro dando conta da homenagem que lhe foi prestada em Moncorvo, a 21 de Janeiro de 1934, um mês e meio, sensivelmente, após a sua morte em S. Mamede de Infesta.
Pelo seu interesse, aqui a publicamos na íntegra, com a devida actualização ortográfica:

“MONCORVO, 22 - Na sala de Leitura do Dr. Campos Monteiro, do Club Recreativo Moncorvense, efectuou-se ontem uma sessão solene de homenagem à memória daquele grande escritor, sendo nesse acto descerrada a fotografia daquele conterrâneo ilustre. Assistência numerosa, onde se encontravam as individualidades de maior categoria social desta vila.
Presidiu à sessão o sr. Dr. José de Abreu, digno notário desta comarca e presidente da assembleia geral, secretariado pelos srs. Julião Serra e Alfredo de Sousa, membros da direcção do mesmo Club.
O sr. Presidente abriu a sessão e no seu discurso, que foi cheio de frases eloquentes, focou com brilho admirável a grande figura que foi Campos Monteiro.
Falou em seguida o representante da Direcção Sr. Julião Serra que em palavras singelas pôs em relevo algumas da obras do grande mestre.
Fala depois um novo que promete --o Sr. Telmo da Fonseca --, que num discurso brilhante, cheio de beleza e frases arrebatadoras, enaltece o grande valor moral e intelectual de Campos Monteiro, pedindo no final um minuto de silêncio como homenagem à memória daquela figura que tanto enriqueceu as letras pátrias.
Fala a seguir o Snr. Alcino Alves, digno Inspector da Companhia de Ferro, que num esplêndido discurso pôs em relevo o poeta ilustre que foi Campos Monteiro, além de prosador incomparável e médico distinto.
O retrato, obra admirável da Fotografia Medina, dessa cidade, estava coberto com a bandeira da Municipalidade de Moncorvo, sendo descoberto pela interessante filhinha do membro da Direcção, Sr. Adriano Fernandes e sobrinha do homenageado, Maria Adelaide da Silva Fernandes.
Na biblioteca, em princípio, há 400 volumes, encontrando-se ali representados os maiores escritores, tanto nacionais como estrangeiros, a qual vai ser enriquecida brevemente, com a obra do saudoso morto.
Campos Monteiro que tanto amava a terra em que nasceu, merece uma homenagem mais alta e grandiosa. O nome numa rua, é pouco. Uma lápide na casa onde soltou os primeiros vagidos ainda não é o bastante.
Campos Monteiro, essa distinta figura da literatura portuguesa, merece uma homenagem maior, muito maior, e que mostre às gerações vindouras esse grande vulto que enriqueceu as letras pátrias, foi o orgulho da terra que lhe serviu de berço.
Nota -- Essa homenagem maior está em vias de realização, pois brevemente na sua terra natal se inaugurará o justo monumento comemorativo da nobre figura intelectual que foi o Dr. Campos Monteiro. A iniciativa e a realização do mesmo devem-se a uma comissão de bairristas, formada pelos Exmos Srs: Engenheiro Guilherme de Castro Leandro, Dr. António Joaquim Marrana, Alferes António Augusto Serra, Amadeu Ferreira d’Andrade, Claudino d’Oliveira Pereira e António José Martins”.

Era esta a notícia do “Primeiro de Janeiro”, provavelmente de um correspondente local. Em 1939, da autoria de Sousa Caldas, foi erguida a escultura de Campos Monteiro frente à Câmara Municipal.

o ferro... e a alma


Digitalis purpurea

A abelhinha da ASAE, a ver se o mel é puro.

Açoreira, Torre de Moncorvo.

Cravo-romano


Cravo-romano (Armeria pseudarmeria), fotografado junto ao rio Sabor.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Zoom à Teixeira





Frescos no exterior.
Capela da Nª Sª da Teixeira , Sequeiros
Torre de Moncorvo, Março de 2005.

Peredo dos Castelhanos (1)

Quando tropeçamos nas pedras do tempo nem sempre nos magoamos. A entrada de Moncorvo, vindo das Aveleiras, com o cavaleiro, em ladrilhos, a anunciar o nitrato do Chile, quase sempre me remete para a minha infância e para a casa dos meus avós na aldeia, casa que hoje não existe, demolida e transformada em mais uma nova e atípica casa de emigrantes. Era térrea e dela via as eiras onde, descalços, jogávamos a bola, entre cardos secos e algumas agudas pedras, enquanto a “trilhadeira” e os “rolheiros” de trigo não ocupavam aquele nosso espaço privilegiado da infância. Perto, havia o tronco, onde o velho Marcelino de Urros, alto, esguio, de preto vestido, mas muito dado aos copos valhó Deus, ferrava as bestas e os homens jogavam ao ferro, com um caldeiro de água fria ao lado. Eram conceituados os de Maçores neste jogo, de força e rigor. Os homens jogam também à raiola com patacos pesados e já cobertos da patina do tempo. E em Setembro ripava-se o olmo para a vianda do porco. O chilrear dos pássaros irritava o silêncio pacato e quente do crepúsculo. Éramos porventura felizes? Porventura sim porque os nossos desejos e necessidades eram muito limitados. A minha avó fazia-me a marrafa em cabelo crespo e rebelde. Tínhamos a mão afoita à pedra e sabíamos onde se escondiam os ovos das perdizes. O Ângelo Chocalho guardava, com desvelo sem fim, o pinheiro manso junto à Nossa Senhora da Glória, não fosse a canalha roubar os pinhões do patrão. O ti Ifigénio, um santo homem, levava-nos com ele a guardar as ovelhas. Mas vistos hoje os dias à distância de meio século, a miséria era muita. Corrijo, não digo miséria. Prefiro antes pobreza.

Pedro Castelhano

(Em breve os próximos capítulos)

Afonso Praça

Gostaria de escrever mais alguns textos (alguns deles já escritos, passe a redundância) sobre o Afonso Praça, ou seja, escrever sobre alguém que teve um amor sem fim por Trás-os-Montes

Carta ao Afonso Praça
Caro Afonso Emílio:
escrevo-te depois de uma longa ausência, que cada vez será mais longa a ponto de se considerar interminável. Não me tens telefonado e não te tenho telefonado porque, se porventura te encontrares em algum lado, será num lado onde não há telefones. E agora vamos às notícias: amigos teus deixaram um rasto de saudade e ternura pelos jornais, espalharam a cinza das suas lágrimas por muitas palavras que resistiram à pressão do efémero. Tenho seguido com atenção este caminho de reconhecimento e afecto. E nas suas palavras renasces, retirada a escória profana. E surges como sempre te conheci: sem inimigos declarados, incapaz de levantar a voz, não sujeito aos pecados da cólera e da inveja, bem mais tolerante em relação à gula e à luxúria.E há quem lembre os teus sofrimentos no seminário e na tropa. Mas registam com alguma surpresa que sempre mantiveste relações privilegiadas com gente da Igreja católica e da instituição militar.Com algum sentido de humor, a tua sogra disse um dia: “Imaginem com quem as minhas filhas haviam de casar—com um Praça (Afonso) e um Tropa (Alfredo)”. Conheci-te mal acabaras de sair do seminário e eras falado por todo o distrito de Bragança como o jovem que dominava o Latim qual Cícero e o Português como um padre António Vieira.Era eu então um imberbe adolescente e mal imaginávamos que mais tarde, durante anos e anos, viveríamos juntos tantas horas e tantas noites.De quando em quando atacava-nos a melancolia. A tua, mais suave e disfarçada; a minha, mais crua e descarnada.Jantávamos e almoçávamos na Casa Transmontana, às Escadinhas do Duque. Mandávamos vir as alheiras de Moncorvo e tínhamos convencido a Teresa a ter também a ementa em mirandês. Por vezes cansada, deixava-nos a chave e ficávamos até de madrugada a esmoer histórias, numa prolongada digestão de afectos, com alguma crítica, pouca, de permeio. Sabes? a Teresa está mal, vive com o Chico em Álvaro, uma aldeia da Beira Baixa, tem uma casa toda em granito, há muito abandonou o restaurante e a cidade, mas a Teresa está mal. Telefonou-me há dias e chorava de tanta solidão e doença.E que saudades tínhamos nas longas noites do Snob e outros ínvios bares, esconsos, de africanidade –tu sempre tiveste uma sedução particular pelas mulatas – do nosso Trás-os-Montes que nos foi tão padrasto, mas que amámos tanto.Tu ainda conseguiste arrumar as contas. Vendeste a casa no Felgar e fomos buscar a tua mãe a Poiares, para vir morrer junto de ti. Depois, compraste uma casa na Alentejo, na Igrejinha. Tu sempre foste o transmontano mais alentejano que conheci, até no modo como cortavas o pão, tasquinhavas o queijo e o presunto e contavas histórias, no ondular lento e melodioso da palavra, com o acento transmontano que nunca perdeste. Que o diga o Manuel da Fonseca, o teu dilecto parceiro de fins de tarde, nos tempos do República.Mesmo a cidade está muito diferente, Afonso, desde que os teus amigos não conseguiram impedir que tu partisses. Mas nós fizemos-te algum mal para partires assim? A cidade, Lisboa que tu amavas tanto, fez-te algum mal? O teu Campo Grande que tu olhavas olhando os montes e as pedras bem mais longe mas tão perto, o próprio Campo Grande já deu pela tua falta. Já nem sei como está a Feira Popular, nem sei se o restaurante Mirandela ainda existe. Fomos lá uma vez, a primeira em que a médica te obrigou a fazer dieta, porque a pele da tua cara, parecia um tambor. Sentamo-nos. Era a tua última refeição antes de entrares em dieta. “Não achas que se deixar de ser gordo, perco a graça toda?” Confessaste-me já nos últimos dias antes da partida que estavas a preparar um conjunto de cartas românticas para mulheres sós. Escritas em linguagem adaptável à condição social e cultural de cada mulher imaginada. Estou a ver o teu apego à ternura, o teu passar de mãe gorducha e lenta pelos cabelos cansados das mulheres sós.Tinhas tanta capacidade e necessidade de pensar nos outros que às vezes te esquecias de ti próprio. Vai longa a carta. Não quero que canses a vista. O teu coração está forte, como sempre. E mordo-to. Prometo-te que na próxima feira irei comprar uma corneta de barro. Se ainda houver oleiro na tua aldeia que faça cornetas de barro. Eu também quero ser o rapaz da corneta de barro. Um abraço do Rogério.

*Este texto foi publicado num opúsculo da responsabilidade da Câmara Municipal de Lisboa, em edição do Museu da República e Resistência, em homenagem a Afonso Praça.

Mon-COR-vo


Torre de Moncorvo, Rua das Flores.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

do outro lado do tempo

Até quando esta porta de Mós estará voltada para nós.
Esta(Mós) à espera!

Mós , Torre de Moncorvo

Com as Mãos ...

As mãos na "partidela" da amêndoa.
Sequeiros, Torre de Moncorvo.


Enxerto de amendoeira, através do processo de "anel". Assim se vão ainda mantendo algumas espécies tradicionais.
Sequeiros, Torre de Moncorvo.

Preparação do queijo de ovelha. Apesar da folha de flandres e do plástico terem subtituído a madeira, na bacia, nos aros e na francela, o gesto continua ancestral, de preferência vindo de umas mãos frias.
Sequeiros, Torre de Moncorvo.

Itinerários - A Linha do Douro

As carruagens são poucas e obsoletas e vermelhas, num fim de Verão, numa estação de comboios, na margem direita do Douro, em Campanhã, no Porto, onde todas as viagens começam para o espaço mais sofrido de Portugal.
É sempre uma aventura interior mergulhar no xisto, lavar os olhos no Rio e sentir como a memória se fere nas escarpas ao longo de 200 quilómetros.
As montanhas trepam por nós adentro.
Há séculos que se venera e teme o Rio. Não há outro Rio para além do Douro, diz-se do Porto à raia. O sentido do sagrado permanece. A história dos naufrágios passa de boca em boca, de gerações sobre gerações, são quilómetros e alturas não mensuráveis de socalcos que mais parecem construídos pelos escravos ressuscitados das pirâmides do Egipto.
Mas não. Foram cavados e dinamitados por sísifos sem história, desprezados pelos deuses, abjurados pelos homens, foram os galegos e os transmontanos e os beirões que trabalhavam sol a sol, robustos e telúricos, por uma mão quase vazia de moedas, meia sardinha e um copo de aguardente.
Miguel Torga, o grande poeta ibérico, chamou-lhe Reino Maravilhoso, a este universo agreste aonde vamos entrar, a partir do Porto até ao Pocinho com um bilhete de comboio ainda de baraço e papel-cartão.
“Douro, rio e região, é certamente a realidade mais séria que temos. Nenhum outro caudal nosso corre em leito mais duro, encontra obstáculos mais encarniçados, peleja mais arduamente em todo o caminho; nenhuma outra nesga de terra possui mortórios tão vastos, tão estéreis e tão malditos” (Miguel Torga - Portugal).
A viagem demora quatro ronceiras horas.
A primeira paragem acontece em Valongo. Mas o tempo alterou a estação. Já não se ouvem os pregões das ‘regueifas’ (uma espécie de pão espanhol em rosca), já se não vendem as bilhas de barro com água fresca, para atravessar montanhas de xisto que refulgiam e fulminavam.
Os passageiros ainda trazem o garrafão de vinho, mas já não usam os cestos de vime, de cores vermelhas e ocre, para a merenda: salpicão, presunto, bolos de bacalhau, queijo e sardinhas fritas, das pequenas, a encherem a carruagem e a memória de intensos cheiros e aromas.
Cabe na geografia sentimental, como um espaço de repouso, como antecâmara de intermináveis vinhedos da epopeia do “fine wine”, a estação do Pinhão, coberta, como uma galeria ao ar livre, de azulejos de azul celeste, que contam ladrilhada a faina da vindima. Azulejos que se perdem no tempo, peças raras do nosso imaginário.
Os WC ainda se chamam retretes e os depósitos ferroviários são em matéria enegrecida pelo tempo e pelo fumo das velhas locomotivas movidas a carvão ou hulha, que se alongam, negras, ao abandono, como sinais de um tempo já passado, em velhos e ferrugentos carris cobertos pela erva.
Nesta viagem sentimental, neste reencontro com as raízes da terra em que fui parido, vêm-me aos lábios, como sons musicais, os nomes das quintas de que se contavam histórias na minha infância: amores realizados e desavindos, facadas, violência e morte, mas sempre miséria.
E ouço-as e vejo-as enquanto começam a surgir, nas margens do Rio, laranjais, amendoeiras, chorões, salgueiros e olivais. E os nomes em casas baixas, teimosamente serenas nas encostas dos vinhedos a tocarem o céu – a Quinta Velha, a Quinta da Vacaria, Valbom, Ventozelo, S. Luís, Pego, a Casa do Castelinho na Alegria, a Ferradosa, já com vinha nova, com plantio à UE, comunitária apenas nos fundos e nos subsídios, com compasso obrigatório.
E a memória de que aquele reino pertenceu aos ingleses. E lê-se pela montanha acima: Cockburn, Taylors, Sandeman.
E a memória repete-se, após longos anos de ausência de viagem na Linha do Douro: porque é que o comboio pára onde não há sequer uma casa, muito menos uma estação ou alguém que toque a corneta para ordenar que retome a marcha?
Estabelece-se um silêncio de plenitude na chegada à Valeira, outrora local maldito pelos seus açudes e pela sua raiva. Foi aqui, nos seus cachões, que morreu o barão de Forrester. Por trazer um cinturão cheio de libras de ouro, que lhe pesavam no seu corpo de inglês e o empurraram para o fundo. Mais à frente, no Vesúvio, foi a vez de D.Antónia, a Ferreirinha, se salvar, boiando, com as saias rufadas em balão. Ao naufrágio só ela sobreviveu. É o que ouço desde a infância. É o que hoje se continua a ouvir. Mas também D. Antónia se salvou de ter como compadre o todo poderoso duque de Saldanha que tentou arrematar casamento do seu filho com a filha da proprietária. Mas D.Antónia não foi no engodo. E quando se passou para o outro lado, aos 85 anos, além de bens em nota, moeda e ouro, no seu pecúlio constavam 24 quintas no Douro.
Do Tua parte outra linha para Mirandela. Esta placa giratória é também um espaço quase mítico na memória transmontana. Durante tempos, zona de paludismo, de calores tão intensos que, conta-se, os trabalhadores no Verão assavam as sardinhas nos carris.
Ao darmos a curva para entrarmos no Pocinho , o fim da Linha, o começo de outro mundo, a escassos quilómetros do Parque Arqueológico de Foz Coa, ensaiamos o olhar na Quinta do Monte Meão, que fecha um ciclo e onde se tem produzido o melhor e mais caro vinho português: Barca Velha, da Ferreirinha.
O Pocinho tem um ar decadente. Dali partiam duas Linhas, já extintas, para a Barca d’Alva ( a ligação com a Espanha, através de Lumbrales) e para Duas Igrejas, o sítio ferroviário mais a norte do Nordeste transmontano.
É a hora do crepúsculo no Pocinho.
É aqui o princípio e o fim da epopeia do vinho do Porto.
Em finais de Setembro, princípios de Outubro, começam as vindimas.
Rogas de transmontanos e beirões descem até à região dos socalcos. Mulheres e crianças ou homens mais fracos cortam os cachos; os mais robustos, carregam as uvas em cestos altos (60 a 70 kgs) para os carrinhas e tractores ou, directamente, para os lagares. A estas rogas juntam-se hoje, entre legais e ilegais, ucranianos, moldavos, bielo-russos. Podem nunca ter visto uma uva, mas ao fim da colheita conhecerão já, por certo, o intenso cheiro do mosto.
Bem vindos ao Reino Maravilhoso do Alto Douro e Trás-os-Montes, o único reino onde os lobos ainda uivam e as velhas de preto esperam sempre por alguém que deve estar a chegar, nem que seja aquele viajante que um dia perguntou: “Então velhinha, diga lá se não gostava de ir a Lisboa”. “A Lisboa?” “Sim, a Lisboa” “Estou farta, estou farta de Lisboa” “Mas já foi alguma vez a Lisboa?” “Tenho lá seis filhos”.
Terra de emigração, Trás-os-Montes está quase deserta de transmontanos.
Reino Maravilhoso? Só de passagem e pela janela de um comboio.
“Venham, venham ver o Rio”, diz a mãe com sotaque do Porto, para as duas crianças da cidade.

Do Pocinho a Miranda

Do Pocinho, o entreposto ferroviário onde nasceu Francisco José Viegas, figura da televisão e autor da “Morte no Estádio”, em autocarro ou automóvel de amigo partimos em direcção a Moncorvo. São 11 quilómetros, sempre a subir, e com mais de 300 curvas, entre o enjôo e árida paisagem.
Chegamos a Moncorvo e frente ao edifício da Câmara deparamos com o busto de Campos Monteiro, o escritor consagrado da terra, um médico que, fazendo a sua vida na periferia do Porto, não esqueceu as suas origens. Nos anos 20 teve algum sucesso e notariedade com “Saúde e Fraternidade”, sátira de monárquico reaccionário à República anárquica, com “Miss Esfinge”, um dramalhão camiliano, com “Ares da Minha Serra”, duas novelas que retratam, com fidelidade e alguma nostalgia, a vida de Moncorvo do princípio do século XX.
Se fizermos uma pequena paragem, para jantar que seja, podemos ir até ao restaurante das piscinas, o Dom Mendo, ou ao Artur de Carviçais, já com a encomenda feita de amêndoas cobertas e enchidos, sobretudo alheiras (galinha do campo, peças de caça, tudo amassado no pão regional, com azeite e alho silvestre), a chouriça da resistência dos cristãos-novos aos esbirros da Inquisição, como bem escreveu Manuel Mendes, o eterno conspirador com raízes em Mogadouro.
Deixámos para trás a mastodôntica igreja que levou 100 anos a construir e onde espirra, dentre granitos, um raquítica figueira que dá dois ou três figos todos os anos.
Deixamos para trás o Museu de Ferro, o único no país. No concelho, na serra do Roboredo( bosque de carvalhos numa pertinência latina), estavam e ainda estão em recato as maiores jazidas de ferro da Europa.
Ao nosso lado direito, fica a aldeia do Felgueiras, terra de Armando Martins Janeira, o embaixador que se apaixonou pelo Japão, crítico literário nas horas vagas e com interessante espólio em Cascais; terra de onde partiu o bisavô de Jorge Luís Borges, em andanças militares e outras que desaguaram na Argentina. Ao lado esquerdo, fica o Felgar, onde nasceu e calcorreou caminhos, o Afonso Praça, jornalista e autor de “O Coronel Morreu de Sentido” (noveleta satírica com assento na sua terra) e “Um Momento de Ternura e Nada Mais”, crónicas de saudade de Trás-os-Montes visto do Campo Grande (Lisboa). Homem de saberes, comeres e beberes, publicou “Receitas Afrodisíacas”, com desenhos de Francisco Simões, e, em parceria com Maria de Lurdes Modesto, publicou, na Verbo, dois volumes das “Festas e Comeres do Povo Português”.
Avançamos até tomarmos a decisão de cortar à direita para Freixo de Espada à Cinta. São sem dúvida os piores 15 quilómetros de estradas transmontanas. Mas vale a pena o sacrifício. Entramos na vila portuguesa com mais casas manuelinas e com pinturas de Grão Vasco na Igreja da Misericórdia. Se queremos comer alguma coisa, já fruto de ser terra de fronteira, podemos encaminharmo-nos para o Cinta de Ouro, com carne espanhola, fresquíssima e tenra, entradas espanholas e presunto aparentado com o pata negra.
Terra do interior, estamos em terra de marinheiros, aventureiros e missionários. Daqui houve Jorge Álvares ( com direito a estátua em Macau), companheiro de peregrinação de Fernão Mendes Pinto e o primeiro português a chegar ao Japão; daqui houve Sarmento Rodrigues, o almirante ( indo ao Turismo o leitor pode comprar uma biografia de Sarmento Rodrigues, com muitas surpresas e novidades, da autoria de Nuno de Sotto-Mayor Quaresma Mendes Ferrão); daqui houve Basílio de Sá, autor do primeiro dicionário de tetum-português, prisioneiro dos japoneses em Timor; daqui houve o padre Manuel Teixeira, considerado dos maiores sinólogos vivos.
Para fazer a digestão, nada melhor que subir ao Penedo Durão,donde avista terras de Espanha e o céu parece estar mesmo à beira da sua mão; ou então, desce até à Congida e repousa os olhos no Rio, numa serenidade semelhante à que haveria no Paraíso, não fosse a gulodice da maçã.
Meta-se de novo a caminho até Mogadouro. Entrou no planalto, viu em Castelo Branco a casa das 365 janelas e portas, já a ser recuperada após longos anos de ruína.
Entrou no reino da posta mirandesa, tem muito por onde escolher. Ou siga até Miranda e ouça o linguar estranho de uma língua (o mirandês), um dialecto do leonês, hoje falado por cerca de 15 mil pessoas e que já tem expressão escrita e literária em Francisco Niebro (Amadeu Ferreira) com os “Cebadeiros” e “L Ancanto de l Arribas de l Douro”.
A Língua mirandesa foi descoberta há mais de 100 anos pelo prof. Leite de Vasconcelos e foi aprovada como segunda língua oficial pela Assembleia da República em 1999.
Visite o Menino Jesus da Cartolinha, já bem fornecido da posta mirandesa na Gabriela das Duas Igrejas e lembre-se do padre Mourinho, o resistente dos Pauliteiros de Miranda, da gaita de foles, das danças celtas e compre uma Palaçoulo, com cabo de bucho que medra nas margens do Sabor.
Se quer chegar a tempo a Bragança pode internar-se em Espanha. É o caminho mais cómodo para a capital do distrito e durante três dias, da diáspora transmontana.
De regresso a casa pode passar por Macedo de Cavaleiros, almoçar na estalagem, comprar Vale Pradinhos e a caminho do Pocinho fazer um desvio até Vila Flor comprar o seu queijo e as Portas de D. Dinis, um vinho único. Se ainda tiver tempo, pare na Foz do Sabor e coma uns peixes do rio no Chico Barbas ou no Zé da Branca. Pode comprar vinho da Quinta da Silveira ( se ainda o houver), Fraga do Facho, Cistus ou Montes Ermos que, por certo terá bebido em Freixo. Quantos aos queijos escolha os da Cardanha ou da Quinta Branca.
O comboio já apita. Mal chegue ao Porto, visite o Nuno Canavez, de Mirandela, a cuja biblioteca tem dado muito do seu precioso espólio da palavra transmontana, caçador inveterado e avô que todos os netos gostariam de ter.

Rogério Rodrigues

Campos Monteiro

Mando estes textos que escrevi um dia sobre a obra de Campos Monteiro mais próxima de Moncorvo. Foi um pequeno trabalho a que me dei, embora não seja dos admiradores do escritor. Mas acho que vale a pena estudar melhor Campos Monteiro, sobretudo na vertente linguística. Penso que seria um trabalho muito interessante, em nome de uma certa autonomia curricular, estudar Campos Monteiro e outros autores transmontanos como João Araujo Correia, Miguel Torga, Rentes de Carvalho ( sobretudo no Montedor), A. M.Pires Cabral (ex-director da Escola Secundária de Moncorvo), António Cabral e mesmo algum Camilo, como o do Santo da Montanha cuja trama começa e acaba em Moncorvo.
Rogério Rodrigues

Moncorvo no início do século XX

Nomes, lugares e expressões

O livro de Campos Monteiro (“Ares da Minha Serra”), não sendo de grande qualidade literária, respeitando embora os cânones da época, tem, no entanto uma virtude única: dá-nos a conhecer não só o linguajar, bem como a topografia e os costumes de Moncorvo no princípio do século passado.
A descrição da amêndoa coberta, a partição da amêndoa, a pisa das uvas, a descrição da Corredoura são textos que deviam ser estudados pelos alunos de Português da Escola Secundária de Moncorvo, Dr. Ramiro Salgado. Seria benvindo professor que houvesse capaz de reflectir no porquê das alterações da arquitectura da vila, sobretudo a partir da descrição da Corredoura, e também nas especificidades linguísticas de um meio rural que se transformou num meio de serviços.

Nomes

Alguns dos nomes presentes no livro, sobretudo na primeira novela, ainda têm ressonâncias familiares no Moncorvo de hoje.
Uma das personagens mais conseguidas de Campos Monteiro é sem dúvida o Canafrecha.
Campos Monteiro dominava o diálogo com a mestria de quem muito teatro já escrevera.
Diga-se que os “Ares da minha Serra” com o “Raio Verde”, livro de poemas, são os últimos livros de Campos Monteiro, publicados em 1933, ano da sua morte.
A definição de Canafrecha: “Olá, Canafrecha! Vens p’ra o rebusco?”
O Canafrecha era “zorro”, filho de pai incógnito. Dormia “nos bancos do Castelo sob a umbela das acácias”. (Já não há acácias no Castelo).
“Era o único ratoneiro da vila--uma povoação de três mil almas que desconheciam o roubo e cujas portas se patenteiam sempre abertas, de par em par”.
Ainda a propósito do Canafrecha, Campos Monteiro lembra “ a mata do sr. Baltazar onde havia medronhos de trás da orelha” (no Roboredo).
Diz o João Caramês, o herói da novela, p’ra o Canafrecha: “Olha que podes emborrachar-te”
“--Melhor! Alguma vez hei-de fingir de rico”.
Já tinha ido à consulta do Hospital. “Disse-me o doutor Ramiro que era do coração e pôs-me a leites” . Pelo menos em 1933 havia Hospital em Moncorvo.
Ainda o saboroso linguajar do Canafrecha: dizem que “fiz o ranfa de um corte de saragoça à senhora Filomena Granzina. Mas são inzonices das más línguas (...)Surripiei na loja do Marrana uma folha de papel e um vidrinho de tinta e fui-me lá p’ra a serra, p’ra do dr. Bernardo, a escrever tudo o que tinha visto”.
Há ainda o personagem da desgraça, o Tomazinho Montenegro que encomendou duas músicas para a festa da Nossa Senhora da Esperança: “a do Peredo e a do Mogadouro”. Existe também uma D. Clemência Montenegro, de Felgueiras. E uma tal D. Clotilde Paredes, em cuja casa se partia a amêndoa e que “possuía vasto amendoais, lá para as arribas do Felgar e nas pedregosas encostas que, da Cornalheira e da Ventosa, descem a buscar o Douro”.
E encontra-se, como vinhateiro, em Moncorvo, um tal William Copperfield, cuja mulher “fora certa menina do Peredo, magríssima e quase sem sangue”. Ainda os barcos chegavam à Foz. A descrição: “Todos os dias chegavam barcos-rabelos ao Rego da Barca, com os mais diversos artigos, fabricados no Porto e no estrangeiro. Em troca, partiam as pipas de vinho generoso, os cascos de azeite, os fardos de lã, os sacos de amêndoa e de milho”.
Também outra das personagens mais vincadas da novela de Campos Monteiro, é Armoges, o usurário que foi morto por Tomazinho Montenegro e que levou à prisão de João Caramês. A descrição da personagem denota da parte do autor de Moncorvo, a leitura dos chamados naturalistas do último quartel do século XIX. Armoges “que só escogita em apedoirar dinheiro, esse birbante (...) se já não está a espernear na forca, é porque enterraram o pelourinho que havia ali na Praça (...) Avaro trampolineiro (...) o cochino(...) o somítico (...) Esse fome-laricas que passava muitas vezes sem janta, só para amealhar mais 10 tostões (...) Armoges (Hermógenes) habitava um casebre no fundo da rua dos Sapateiros”. Tinha um estabelecimento “mixto de prego e casa bancária” na Praça Municipal.
Para quem conhece Moncorvo, passados quase 70 anos sobre a publicação do livro há situações familiares, usos e linguajares que nos vêm á memória e nomes que perduraram até hoje embora em condições sociais distintas. Por exemplo, o Tomé Cantés, “pobre carpinteiro”. Escreve Campos Monteiro: “Iam levar o Tomé para o hospital e que o sr. Abílio Pires oferecera o palheiro da rua das Amoreiras para eles morarem”.
Na novela aparecem ainda outros nomes a merecerem, bem como outros de tempos sequentes, uma biografia social de uma vila que foi importante, como Moncorvo. Algumas referências:” O lagar de vinho do Júlio Gonçalves à rua da Misericórdia(...) Ao torcerem para o Prado, avistaram à porta da taberna do Cachiço”.
O Roberto Caiador, Moncorvo já na altura tinha dois polícias, o 25 e o 18, havia o António Enxamblador, o Joaquim Loureiro, o Chico de Ligares, oficial de diligências, o dr. Areosa. “A rapariga (Madalena Caixeiro) saía acompanhada pela Silvina do Ferrador”.

Ruas e bairros

Moncorvo era então uma vila essencialmente rural e administrativa. Campos Monteiro, muito embora oriundo de Moncorvo, desde a infância que se dividia entre Douro e Minho, tendo na cidade do Porto os seus interesses sociais e culturais. Alguém o classifica como o “grande escritor do burgo portuense”. De qualquer modo, no crepúsculo da vida, Campos Monteiro espalha um olhar entre o distante e o nostálgico, num disfarce de ternura, sobre as suas origens. E, além das pessoas, recorda os sítios.
A Corredoura é vista por João Caramês dos calabouços da cadeia (traseiras do tribunal ou rua do Cabo?). Pelo olhar de Caramês:” “Ali em baixo, por detrás da capela de S. Sebastião, devia ser do Manuel Tenreiro. A outra, mais para a direita, do Miguel Mesquita e a que se divisava lá ao fundo, no extremo oeste da vila, se não fosse a da ermida de S. Paulo, era concerteza a do António Cabrela”.
Também a rua do Poço merece uma descrição pormenorizada de Campos Monteiro, interessante de comparar com o seu estado actual. “A rua do Poço era uma congosta estreita e soturna, com o pavimento sempre recoberto de palha e terra solta, onde o sol penetrava pouco porque não havia casas de andar. O pardieiro da rapariga tinha a vantagem de ser o último; e do pequeno terreiro que lhe servia de quintal descortinavam-se as ladeiras da Costinha, a exígua várzea do Vale das Latas, o maciço granítico, onde raras leiras verdejavam, da serra de além-Sabor”.
Aparecem ainda mencionados a rua do Quebra-Costas, o Val da Perdiz, a curva da Barbatona, o canavial, na esquina da casa do Arco o nicho da Nossa Senhora Mãe dos Homens, o Vale do Marmeleiro, a Fraga do Facho, os cerros do Larinho, a montanha dos Estevais, a serra de Sambade.

Expressões e regionalismos

Moncorvo sempre foi muito fértil em colocar alcunhas às pessoas e a sua veia crítica, por vezes sarcástica, e um linguajar muito próprio, a par de alguma prosápia domingueira, transformam aquela vila num microcosmos social e cultural que quase apetece estudar.
Dou aqui aos leitores algumas das expressões e termos mais comuns do linguajar de Moncorvo ainda não há muitos anos, quando não se temia a massificação e a uniformização linguística, por baixo, através da televisão e da mensagem audiovisual, cada vez mais simplificada, em nome da eficácia, mas alheada de referências.
Dizem os seus contemporâneos que Campos Monteiro tinha uma memória prodigiosa. Pode-se acrescentar que não sendo o linguajar das classes mais sacrificadas da vila a sua herança cultural, social e mesmo económica, Campos Monteiro soube captar no entanto toda a riqueza que se armazenava na linguagem e na sabedoria populares. Sem pretendermos ser exaustivos, alguns exemplos dos “Ares da minha Serra”: a taleiga da merenda; meu enxalmo, molanqueiro, bardino, benairo da esfrega, meu alma de cântaro; andar na gandaia; cortelho de recos; este meco (não em sentido pejorativo, como hoje); cada mocho p’ra o seu souto; terrincando os dentes; quando se via aganada; e regressava sem um gaipo; era capaz de as empontar; um fraca-chicha, um salamurdo que mal a gente lhe aparece acrucha logo o casaco; toda arreguichada; podes ir preparando a vèdalha ( a propósito do casamento); catixa! que chambego de café; lábia tem ele, o fistor; não faz minga, sr. João; p’ra espertar o apetite; tenho andado bem assafiado por via disso; acobardei-me, com um bocado de fajeco; não me salvo se a não gomito; com estes dois que a terra há-de gualdir; acogulou a burra; deitou aparvado pela rua fora; é hoje que despejo o canastro. E vim aqui num esfregante; qualquer dia, trape: lá vai um pobre diabo p’ra o Maneta; e nem farfalha, caladinho que nem um murganho; as ruas acoguladas de neve; o aloquete; até te podia dar um pleuriz; um tanto avelhentada; estomagado a pesar seu; na gorja; soprava um larinhato frígido; que me deitaram os gadanhos; introduziram a yale na fechadura.
E mais expressões e termos poderíamos ainda buscar em Campos Monteiro. Seria muito interessante um estudo linguístico, acompanhado de um estudo sobre a realidade social de Moncorvo e de alguns valores básicos que hoje se vão perdendo, como o valor de honra que enformam as novelas de Campos Monteiro, esta espécie de hino crepuscular à vila onde nasceu, que são as novelas dos “Ares da minha Serra”.

Rogério Rodrigues

Apontamentos bio-bibliográficos

Nascido a sete de Março de 1876, Abílio Adriano Campos Monteiro faleceu aos 57 anos de idade, a 4 de Dezembro de 1933, em S. Mamede de Infesta, nos arredores do Porto, onde casou e viveu a maior parte da sua vida.
A sua infância e adolescência foram passadas em Viana do Castelo, Ponte de Lima, Ponte da Barca e Arcos de Valdevez.
A propósito deste período da vida de Campos Monteiro, recomenda-se a brochura de António Pimenta de Castro, limiano de origem, residente no Mogadouro e professor em Moncorvo, “A Fase Limiana de Campos Monteiro” (Torre de Moncorvo 2001).
Começa a escrever aos 15 anos no “Moncorvense”, mais tarde no “Jornal de Viana”, no “Pontos e Vírgulas” do Porto, no trissemanário vianense “A Vida Nova” e no “Aurora do Lima”, onde escreveu também Camilo Castelo Branco, de que Campos Monteiro era um discípulo.
Médico em 1902, antes da implantação da República foi administrador do concelho da Maia.
Católico e monárquico, “alto e magro, de feições rudes e vincadas” (Carlos de Passos), Campos Monteiro foi deputado em 1918, na câmara sidonista, “ no hemisfério da extrema-direita”, como recorda outro deputado da altura, Adelino Mendes.
Serviu como capitão-médico miliciano na reserva territorial, função de que seria demitido, por motivos políticos, já graduado em major, em 1919.
Escreveu 30 livros originais, 100 prefácios e colaborou em muitos diários e revistas.
Recolheu algum êxito editorial na altura. Os seus livros tiveram bastantes reedições e sabe-se que pelo menos três operetas suas, ainda que representadas, nunca chegaram a ser editadas: “O Segredo da Morgada”, representada no Teatro Carlos Alberto, no Porto, também em Lisboa, no Rio de Janeiro e em S. Paulo; “A Rainha da Lacónia”, representada no Teatro Sá da Bandeira no Porto (1910) e no Rio de Janeiro em 1912; “O Ramo de Perpétuas”, representado no Brasil.
Dirigiu ainda as revistas “Civilização” e “Argus”, ambas do Porto e foi um dos promotores da publicação “Maria Rita”, um semanário humorístico.
Polígrafo fecundo, cultivou com maior sucesso a crónica. Colaborou na “Época”, no “Primeiro de Janeiro” e no “Jornal de Notícias”, cujas crónicas editadas em livro, “A oito dias de visita”, tiveram na altura um assinável êxito de vendas.
O livro contudo que o tornou conhecido do grande público, num período conturbado da vida política portuguesa, foi “Saúde e Fraternidade” (1923), violenta sátira política às personalidades e governos republicanos. Em seis meses, tiraram-se sete edições. Em 1925, teve a décima, atingindo qualquer coisa como 30 mil exemplares vendidos. Em 1978, sob a chancela das Edições do Templo, com caricaturas de Amarelhe, acaba por sair outra edição baseada na sétima e décima edições.
Sobre este fenómeno escreveu Aquilino Ribeiro: “ Saúde e Fraternidade de Campos Monteiro foi, com as “Cartas de D. Carlos”, o livro que em Portugal alcançou maior êxito de livraria no primeiro quartel do século (...) Quando se fizer um estudo da literatura política destes tempos revoltosos encontrar-se-á este nome saudoso”.
Outras das suas obras tiveram algum sucesso na época, mantendo-se hoje praticamente ignoradas do público e da própria terra que o viu nascer. Sem a pretensão de sermos exaustivos, apenas a enumeração de alguns títulos mais conhecidos: “O crime de uma mulher honesta” (1913), “Versos fora de Moda” (1915), “Miss Esfinge” (1921), obra emblemática do autor, “Camilo Alcoforado” (1925), “As duas paixões de Sabino Arruda” (1929), “Ares da minha Serra” (1933) e, finalmente, o seu testamento poético, “Raio Verde, últimos versos” (1933).
Escreveu Campos Monteiro, como seu epitáfio político: “Sou monárquico e morrerei impenitente, se erro na preferência do regime (...) Com homens sérios é indiferente para o povo o governo monárquico ou o governo republicano”.
Como epitáfio poético, este dorido poema do “Raio Verde”:

Não mais, lira, não mais! Emudecida
vais imergir no plácido letargo
do perpétuo abandono;
não porque tenha “a voz enrouquecida”,
mas porque sinto perto o rio largo
“do negro esquecimento e eterno sono”.


Dorme. Descansa. Terminou a lide.
Tal como o alfanje de Harun-Al-Raschid,
ganhaste jus a repousar também.
Se era débil a mão que te tangia,
foi sempre nobre o impulso que a movia:
“serviste mal, mas só serviste o Bem”!

P. S. Parte dos elementos aqui coligidos, foram estudados e recolhidos no livro “Homenagem a Campos Monteiro”, editado em 1943 pela Livraria Tavares Martins do Porto. O seu a seu dono.

Rogério Rodrigues.

Ares da Minha Serra

A última edição (1995) de Ares da Minha Serra, porventura a obra mais conhecida de Campos Monteiro, é da responsabilidade da Câmara Municipal de Moncorvo, com uma tiragem de mil exemplares.
O livro consta de duas histórias e um apontamento, quase jornalístico, de uma viagem de barco rabelo, do Rego da Barca até ao Tua, onde se apanhava o comboio para o Porto.
A primeira história, “A tragédia de um coração simples”, bem ao ritmo camiliano, em escrita eivada de regionalismos, Campos Monteiro conta a história de um jovem moncorvense, João Caramês, cortador de lenha na serra do Roboredo e que se perdeu de amores – e pelos amores se deixou perder—por Madalena Caixeiro, sua vizinha. Tinham sido criados praticamente juntos, como irmãos.
Mas a Madalena caiu nas graças do fidalgote Tomazinho Montenegro que a seduziu.
O Bento Armoges, “um unhas de fome”, como escreve o autor, é o usurário da vila. Tem uma pequena zanga com João Caramês, durante a pisa da uva.
Nessa noite, o Bento Armoges aparece morto. São deitadas as culpas a João Caramês que é preso. Mas Canafrecha ( uma das personagens mais conseguidas da novela), um pobre diabo, sem eira nem beira, sabe quem matou o Bento Armoges. Fora o Tomazinho Montenegro.
Madalena Caixeiro diz ao João Caramês que está grávida de Tomazinho Montenegro.
João Caramês foge da cadeia por uma escassas horas, vai ter com Tomazinho Montenegro e conta-lhe que sabe quem matou o usurário. Tomazinho confessa e garante que se vai entregar no dia seguinte. João Caramês, porém, diz-lhe que se confessará culpado do homicídio, com uma condição: que case com Madalena Caixeiro. E antes do julgamento. E assim é feito.
O advogado acha que não há provas contra o João Caramês. A própria população acredita na sua inocência. Mas João Caramês não falta à palavra, considera-se culpado e é degredado para as Áfricas.

Amores alentejanos
A segunda história, “A Rebofa” ( as cheias da Vilariça), é ainda mais trágica. Trata-se de uma história de ódios velhos que não cansam entre dois abastados lavradores que, desde pequenos, tinham vivido como irmãos, até que, um pouco à aventura mais do que por necessidade, partiram para as ceifas do Alentejo. Aí, ambos se apaixonaram pela mesma mulher, também ela abastada, mas que só um amava. O ciúme destruiu os dois. E destruia-a a ela que, escorraçada pelo pai, começou a andar de terra em terra, em trabalhos do campo.
Eles regressaram a Moncorvo e puseram muros entre as casas contíguas, para que nunca se vissem um ao outro. Tornaram-se mesmo rivais na política. E nasceram-lhe um filho e uma filha que acabaram por se apaixonar, e casar com a sua maldição e viver na miséria até que, desesperados, se suicidaram na “rebofa”, deixando uma criança aos cuidados da caseira da Quinta do Chibos.
Quando souberam da tragédia, os dois velhos inimigos encontraram-se, pela primeira vez, diante do berço do neto. E abraçaram-se, com a caseira na penumbra vertida em lágrimas.
Diga-se que a caseira, que não fora reconhecida, era o antigo amor alentejano dos dois velhos.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Vamos lá descansar um pouquito

Os Pés da Flor
Cadeira em espigas de setaria verticillata.
Fonte: " Flora de Brincadeiras" de João P. V.Costa
Utilização: Mobília indispensável para quem dorme a conversar.


Setaria Verticillata
Local: jardins do Museu do Ferro
e da Região de Moncorvo.

Mais brincadeiras em: http://florabrin.blogspot.com/

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