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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Entrudo no Felgar - a dança satírica

Dança do Entrudo (ou dança satírica) do Felgar, talvez nos inícios dos anos 70 (foto gentilmente cedida por Agripino Paredes, a quem agradecemos) 
Realizou-se na passada terça-feira de Carnaval, a famosa Dança Satírica, ou dança do Entrudo do Felgar.
O Padre Joaquim Manuel Rebelo chama-lhe a "Marcha Cantada Entrançada" (cf. A Terra trasmontano-duriense, ed. CMTM/ACTM, 1995, pág. 16), embora também utilize a palavra "Dança" para descrever o cortejo que se organiza depois em roda, a que se segue uma representação com diálogos entre as personagens, que integram um "velho" e uma "velha", quatro moços e quatro "moças" (rapazes fazendo o papel de raparigas).
O Prof. Santos Júnior, por seu lado, no estudo que dedicou a esta dança/representação entende que a mesma não se enquadra muito na designação de "marcha", preferindo a designação de "dança satírica" (Santos Júnior e A.M. Mourinho, Coreografia popular trasmontana, ed. SPAE, 1980).Todavia, é ainda este autor quem regista que os felgarenses também conheciam esta tradição como a "dança do amor à terra", devido ao facto de o cortejo, noutros tempos, levar uma tabuleta com esse escrito.
Em artigo publicado em 22.02.2002 no Mensageiro de Bragança, Mendes Corvo chama-lhe apenas "Dança do Entrudo" do Felgar. No entanto, convenhamos que (pelo menos nas representações mais recentes) também há pouco de "dança", tratando-se mais uma dramatização. No cartaz que este ano anunciava o evento, diz-se apenas: "Carnaval [porque não Entrudo?] do Felgar" e em subtítulo: "Teatro de rua". 
A origem desta representação, como a de tantas tradições, perde-se na bruma do tempo. Esteve meia perdida, mas, graças ao empenho e bairrismo da juventude do Felgar, a mesma tem vindo a ser felizmente retomada desde há uns anos a esta parte.

A "marcha" encaminha-se para mais uma representação, neste caso no largo por detrás da Junta de Freguesia.
Mas demos a palavra aos Mestres:
"Nesta 'Dança' entravam o Velho e a Velha, o Garoto e quatro ou cinco pares, todos rapazes, mas alguns vestidos de raparigas. Só podiam entrar na 'Dança' rapazes. / O texto da 'Dança' (...) era extremamente crítico, grosseiro, sobretudo em relação às raparigas que durante o ano tinham tido deslizes de ordem moral. Mas a Junta de Freguesia e o Pároco também não escapavam a estas críticas, ou então louvores" - digamos que, neste aspecto, a tradição se mantém, tendo principiado a dança de 2010 com as habituais farpas às raparigas, através dos seus referentes em presença (rapazes vestidos de raparigas, com trajos já mais em consonância com os da actualidade: mini-saias, adereços garridos e cabeleiras de madeixas coloridas).
E ele foi um "fartar-vilanagem" de "bocas" que só os felgarenses entenderão, os que estão dentro dos assuntos, e em que não faltaram os reparos aos namoros com o pessoal barrageiro que anda lá para o Sabor. Diga-se que, noutros tempos, ainda segundo o Padre Rebelo, as "bocas" iam para as que preferiam os mineiros da Ferrominas e Minacorvo, com quadras como esta: "Raparigas do Felgar, / casai com nós cá da terra, / não queirais malta de fora / que nós temos melhor tempéra".
Ah, mas o Padre, o Presidente da Junta, a Câmara, a Comissão de Festas, agora como no Passado, também não escaparam!
Tanto Santos Júnior como o Padre Rebelo se referem aos ensaios, sempre feitos no maior segredo, cerca de um mês antes do Entrudo. Iam por isso para lugares esconsos, fora do povo, "às vezes num velho e arredio palheiro" (Santos Jr., obra citada), tal como especifica o Pe. Rebelo: "fazia-se em lugares escuros - Ribeiro dos Moinhos, Abrolhal, Eirinha, etc.". Este ano sabemos que foi lá para as bandas do Sabor, julgamos que em Silhades.

Organiza-se a "roda", ora girando num sentido, ora noutro.
O texto, normalmente em verso, era da lavra de um mais inspirado criador, com acrescentos de outros membros do grupo. Há uma Entrada, mais ou menos estereotipada, tal como o Encerramento, e, de permeio os diálogos alusivos às situações que se procuram "denunciar", criticar, satirizar, ou, mais raramente louvar. O objectivo é suscitar a hilaridade da assistência (acabando por se rir, por vezes, até os próprios "actores"). O personagem do "Velho" (de chapéu, capote coçado, algo mal vestido, com uma bota de vinho a tiracolo, um pau ferrado na mão com um chocalho na ponta), com um apito comanda as operações: conduz o cortejo, organiza a roda e convoca os "visados(as)" por interpostas pessoas para o meio da roda, onde se dá uma espécie de "tribunal popular" (no fundo a "vox populi").
Entretanto há uma personagem castiça que é a "Velha", vestida de preto como manda a regra, agarrada a uma bengala, com um lenço e xaile e de tal forma curvada que não se lhe vê a cara (é a personagem-enigma). Pega normalmente nas deixas do "velho" e lança mais achas para a fogueira, com comentários acintosos. Ao contrário do que afirma Santos Júnior e em concordância com o nosso amigo Dr. Carlos Seixas (ilustre felgarense que também já escreveu sobre esta Dança), a "velha" não é uma figura apagada no contexto da representação. Talvez Santos Júnior assim o entendesse porque a Velha não toma propriamente a iniciativa e espera pelas acusações para depois "botar mais lenha" para a fogueira, como se costuma dizer.  Tal foi o caso, nesta última Dança, em que se mencionou a rotunda com uma fonte, que está em construção à entrada do Felgar: "- Deve ser pra lá buberem os buuurros!" - dizia a Velha. Muitas das vezes não se percebe bem o que que Velha diz, surgindo as suas falas mais como remoques relativamente ao que se disse.
O "Velho" toma posição no centro da roda, enquanto a "Velha" deambula pela periferia - às bocas, claro!
Refere Santos Júnior que se escolhiam para esta iniciativa "rapazes desembaraçados no falar e destemidos, isto é, capazes de aguentar qualquer reacção às críticas que vão fazer (...). A reacção de temperamentos assomadiços tem originado zaragatas, que os oito dançantes têm de aguentar e de levar a melhor", embora conclua: "a cordura, no entanto tem sido a norma" - tal como agora. O "escudo de protecção" era o tal "amor à terra", pelo que se entendiam estas críticas como construtivas, ou destinadas a "corrigir" desvios, comportamentos, ou então as iniciativas em relação às quais havia/há (alguma) discordância popular. E, em jeito de defesa, lá vinham (como continuam a vir) as desculpas finais, no momento do encerramento, como registou o Padre Rebelo: "Pois nós vamos terminar / Mas antes de acabar, / pedimos perdão de tudo. / E pedimos pelas Almas / que nos deiam muitas palmas / E passem bem o Entrudo".
Logo ao início as "raparigas" vão sendo convocadas ao centro da roda, para a descompustura, tipo "julgamento", por parte dos moços e do Velho.
Sobre o significado desta "dança", como escrevemos algures, ela insere-se no período do Carnaval (o Carnis Valerium = adeus à carne), tempo em que, como se sabe, desde a Antiguidade, tudo era permitido durante três dias de excessos, em que os prazeres da carne não eram só gastronómicos (o Santo Entrudo da carne gorda - a "tchicha do reco") e se alargavam ao mundano, à licenciosidade, à permissão social, tempo de inversão social (em que as mulheres se vestiam de homens e os homens de mulheres), numa espécie de mundo às avessas, em que as críticas e as partidas são mais ou menos toleradas ("é Carnaval, ninguém leva a mal"). No caso do Felgar, noutros tempos, não era só a Dança do Entrudo (ou dança satírica) que se fazia. Como anotou o Padre Rebelo, nas semanas próximas do Carnaval havia o costume das "cacadas": "pequenos grupos, quase sempre de jovens (rapazes e raparigas), disfarçados, pela calada da noite, quando as pessoas ceavam, abriam os postigos das portas daquelas casas cujos moradores não lhes eram simpáticos, ou ferviam em pouca água, e despejavam no átrio 'restos de louças partidas, pedras, cascos de bois, latas, pedaços de cântaros de barro e, por vezes, outras coisas menos delicadas. / O barulho provocado pelo lançamento destas 'coisas' era grande e os moradores revoltados vinham à porta, mas a escuridão da noite quase nunca lhes permitia conhecer e menos apanhar os prevaricadores". 

Continuam os "julgamentos", com muito povo ao redor e alguns fotógrafos e etnógrafos atentos.
Mas não era só: o Professor Adriano Vasco Rodrigues (que, como se sabe, casou no Felgar com a Srª. Drª. Maria da Assunção Carqueja), na monografia do Felgar publicada em parceria com sua esposa (em 2006), fala ainda do correr o Entrudo nesta aldeia, em que se punham dois rapazes nos extremos da povoação, proclamando, com auxílio de dois grandes búzios (para ampliarem a voz), o que se tinha passado ao longo do ano. Faziam ainda o Enterro do Entrudo, queimando um boneco de palha que previamente deitavam numa padiola, sendo levado numa espécie de funeral (tal como se fazia noutras aldeias trasmontanas). Quando o boneco de Entrudo era queimado, acabava o Carnaval e dava-se início ao período da Quaresma (Maria da Assunção Carqueja Rodrigues e Adriano Vasco Rodrigues, Felgar, 2006, pág. 172.).
Ui!, este é o momento em que os homens do povo atacam as instituições - nem Junta, nem Câmara, nem padre escapam!
Citando Mendes Corvo: "tal como nas antigas Festas dos Loucos medievais, cujas raízes se situam no período romano e, quiçá antes, o corpo social comprazia-se (ou avespinhava-se) nesta subversão, que seria como que uma manifestação do seu lado negro. O Carnaval corresponde, assim, a um momento de catarse colectiva, na transição do Inverno para a regeneração da Primavera que se aproxima. Um parto que não se faz sem a dor da Quaresma. / Função análoga à sátira carnavalesca do Felgar tinham as loas, colóquios, comédias, e, de certa forma, as serrações da Velha [sempre a Velha!...]. Para além do escapismo social, há nisto, por outro lado, uma associação cosmogónica decorrente dos ciclos do ano (expulsão do Inverno = Velho/Velha) e reordenação das forças do mundo [em que pontua a Juventude, não sendo por acaso que a Dança do Felgar é também um rito de iniciação da Juventude, com os seus desvarios, que os Velhos procuram corrigir e orientar, pela Crítica - o velho mundo e o mundo novo]. - São tudo velhas tradições que estiveram associadas a um modo de vida ancestral, hoje em vias de extinção. / Independentemente do fim de ciclo que deu sentido a estas manifestações, num tempo em que a televisão apareceu para exercer esse papel laudatório ou de pelourinho de uma sociedade mais alargada, urge preservar estas tradições como pergaminhos e penhor dos valores 'identitários' da 'aldeia real'."
Por isso faço minhas as palavras de M. Corvo, dando os meus parabéns à Juventude do Felgar, fazendo votos para que continuem e não deixem nunca morrer estas coisas - pelo Amor à Terra!
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Em tempo: para além dos textos citados, acrescente-se o excelente artigo de Carlos Seixas, intitulado "Felgar - As folias do Entrudo", in Terra Quente, 15.02.1998, que entretanto o autor nos entregou e a quem muito agradecemos. A par do trabalho de Santos Júnior é o registo mais completo que conhecemos sobre este costume felgarense. Porque não compilar estes estudos numa brochura? - fica o repto.
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Nota: pedimos as devidas desculpas pela extensão deste "post", mas julgamos que se impunha uma análise e uma interpretação um pouco mais alargada desta tradição, se bem que pessoal (fica aberta a discussão).

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

"Dança dos Pretos" de Moncorvo

Hoje é dia de Reis. Desde os inícios de Janeiro que, noutros tempos, se cantavam e pediam "os Reis", de porta em porta. Nessa ocasião, pediam-se chouriças, alheiras, ou outras coisas que as pessoas quisessem dar. Em tempos mais recentes, os géneros passaram a traduzir-se em dinheiro. Se, por acaso, a porta de quem se batia não se abria, cantavam-se cantigas jocosas ao "barbas de farelo" (unhas de fome).
Esta tradição de se pedir/dar algo no dia de Reis, tem a ver com as oferendas que os Reis Magos ofereceram ao Menino Jesus, no dia da sua chegada ao Presépio. Todavia, em termos antropológicos, enquadra-se no esquema mais geral da dádiva (o dar/receber) que coincidia com o início do ano, para se propiciar e reforçar os laços de vicinidade.
Por estes motivos, a data dos Reis (ou véspera), foi também a escolhida, não se sabe quando, para se realizar uma dança, composta por vários indivíduos de cara pintada de preto, e que andavam pelas ruas da vila, tocando e dançando, pedindo para o Deus Menino. Era a "dança dos pretos", que teve lugar pela última vez, em Moncorvo, no ano de 1935, conforme regista o Professor Santos Júnior, que a estudou e que, inclusivamente, a promoveu, em 1930. Por esta altura (anos 30), a dança já estava algo decadente, ou seja, não se realizava todos os anos.
É nossa convicção que originalmente devia ter sido executada mesmo por negros e que, depois, à falta destes, fossem sendo substituídos por brancos com a cara enfarruscada. Ora sabemos que, antes da independência do Brasil, houve bastantes negros que foram trazidos para Portugal, mesmo para terras tão remotas como Moncorvo, por funcionários da administração colonial, nobres ou ricos mercadores. Seria comum as casas ricas possuírem escravos ou criados africanos, que normalmente viriam por via do Brasil, tal como se mostrou num excelente documentário produzido pela RTP, com realização de Anabela de Saint-Maurice, em que se foca bem o caso de Moncorvo e da sua Dança dos Pretos. Esta dança era aqui promovida pela confraria de Senhora do Rosário, que, à semelhança do que se passava em Lisboa, Porto, Brasil ou Cabo Verde, e eventualmente em outras partes do império português, tinha por missão o enquadramento religioso dos "homens pretos".
Ainda quanto à "Dança dos Pretos" no nosso concelho, diz Santos Júnior (in "Coreografia Popular Trasmontana", obra publicada em parceria com o Padre Mourinho e editada pela Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia, em 1980, págs. 18 e seguintes) que também se realizava em Carviçais, onde apurou que se tinha efectuado nos anos de 1881, 1896, 1909 e 1935. É de supor que a dança de Carviçais fosse já uma imitação da de Moncorvo, vila onde poderia radicar no séc. XVIII, época em tal dança (em geral) teria sido criada, pois como afirma Santos Júnior, a sua "coreografia enquadra-se nas danças de composição paralela ou de coluna, muito do gosto dos séculos XVII e XVIII, que proliferaram por toda a parte, principalmente nas confrarias de mesteirais..."
O facto de se realizar em Torre de Moncorvo, salienta o precoce carácter urbano da nossa vila, pois só uma estrutura económica e social diversificada (não exclusivamente rural), justificaria esta multietnicidade, a que não é alheia a forte ligação que desde o séc. XVIII haveria com o Brasil e, certamente, com Àfrica, uma vez passado o ciclo do Oriente.
Interrogando-nos ainda sobre o porquê da realização da referida dança nesta data, julgamos poder encontrar justificação no facto de um dos reis magos ser negro - o S. Baltazar - além de os restantes serem cada qual de sua nação. Ou seja, não há data mais apropriada para salientar o ecumenismo da religião católica, em que todos os povos da Terra deveriam vir adorar o Menino-Deus nascido em Belém.

Aqui ficam algumas quadras da Dança dos Pretos de Moncorvo (recolhidas por Santos Júnior):

Boas novas moncorvenses
Dar a vós os preta (sic) vem;
Que nasceu o redentor
que nasceu o Redentor.

Belém terra de Judá
Onde o Redentor nasceu
Sua Mãe imaculada
Que tormentos padeceu.

Eu não posso compreender
Que Jesus , tão santo e nobre,
Tivesse o seu nascimento
Num lugar tão pobre!

......................................

Nota: fica um repto aos nossos amigos do Teatro Alma de Ferro - que tal, para o ano, tentar-se uma recriação desta dança, na altura dos Reis? - A música está registada e várias quadras também. Fica a ideia.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Felgar - "Fogueira do Galo" II

Complementando a reportagem anterior do "pucareiro" Tó Manel, aqui ficam mais algumas imagens (nocturnas), de uma das "fogueiras do galo" do Felgar. Nas fotos, trata-se da fogueira do largo Santa Cruz; a outra é feita no largo da igreja. O normal era fazer-se uma só fogueira, por cada povo, mas talvez o Felgar pretenda agora compensar as terras onde já não se fazem estas fogueiras natalícias, como acontece na vila de Moncorvo, onde antigamente se acendiam na Corredoura.

As "fogueiras do galo" seriam assim denominadas porque se acendiam após a "missa do galo" (pela meia-noite do dia de nascimento de Jesus). O canto do galo teria o significado de anúncio desse Nascimento, para os cristãos o acontecimento fundador de uma nova era, prenunciada pelos Profetas. Todavia, sabemos hoje que o Cristianismo ajustou o seu calendário religioso a uma religiosidade de fundo muito mais antiga, a que chamou de pagã. Assim, no tempo do paganismo já se acenderiam fogueiras por alturas do solstício de Inverno - pretendem alguns que para "chamar o sol" em agonia, no dia da noite mais longa do ano - tal como se faziam no solstício do Verão: as fogueiras do S. João.
Estamos perante reminiscências de fogos rituais, sagrados, que tinham por função reunir as tribos num contexto de celebração, organizando o Tempo e honrando as potestades intimamente associadas à Natureza, da qual dependia o calendário agrícola. Ou seja, em última instância, estamos perante ritos que mergulham as suas raízes na noite dos tempos, quiçá no Neolítico Final/início da Idade dos Metais, quando se erigiram os primeiros monumentos neolíticos que teriam o seu expoente máximo no grande "cromelech" de Stonehenge (Inglaterra).
Por todo o Trás-os-Montes se faziam estas "fogueiras do galo", na noite de Natal, e, mandava a tradição que fossem os rapazes da aldeia (tal como os jovens guerreiros da tribo) a carregar a lenha pelos diversos cantos da freguesia, utilizando para isso carros de bois, que pediam por empréstimo, mas sem utilizarem os bois, ou seja, eram puxados pela rapaziada, num misto de sacrifício, mas também de força comunitária, aplicando-se o princípio de que "a união faz a força". No fundo estava em jogo a solidariedade e a unidade da comunidade; depois era o garbo, o treino da robustez física que se expressava noutras terras através da luta da "galhofa" (agora só pelas terras de Bragança), o alarde da capacidade de fazer uma fogueira maior do que a do povo vizinho. Os carros de bois chegavam a galgar paredes, carregados com possantes troncos de castanheiros, tal era a força bruta dos "jovens guerreiros" que para ali canalizavam as suas energias, forma de combater também o frio!
Depois era o momento da confraternização, noite dentro, tendo como mágico elixir anti-frio, além do calor da fogueira (exterior), o garrafão do vinho, para aquecer as almas (o interior). Claro que tudo isto só terá resistido à ortodoxia católica, sob o argumento de que a fogueira era para aquecer o Deus-Menino.
Sobre o Menino-Deus poderíamos associá-lo ao novo ano que nasce com o solstício do Inverno, num arco de transição que vai de 22-25 até ao dia de Reis (6 de Janeiro). Por isso, também mandava a tradição que a fogueira se aguentasse acesa até aos Reis.
Analisando as fotografias, vê-se bem que a tradição, no Felgar, ainda é o que era, se bem que os gigantescos troncos de castanheiro e outras lenhas, venham agora de atrelado puxado por tractores, e que certos desencontros de opinião tenham desembocado em duas fogueiras. Afora isso há que felicitar os felgarenses por manterem acesa a chama das nossas tradições ancestrais.
Texto e Fotos: N.Campos
(Nota: clicar sobre as fotos para as ampliar)

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Felgar - Fogueira do Galo

No dia 24 de Dezembro cumpriu-se a tradição: acenderam a fogueira, aqueceram o Menino.

No dia 25 encontram-se em torno da fogueira os residentes e aqueles que "fazem pela vida" noutras paragens. Confraternizam, matam saudades.

Mas a cada ano que passa nota-se e sente-se que são cada vez menos os que regressam nas quadras festivas.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

S. Martinho de Maçores é neste fim-de-semana!

Aqui fica o cartaz das famosas festas de S. Martinho de Maçores, que terão lugar este fim-de-semana, visto que o dia próprio (11 de Novº.) calhou a meio da semana. Prometem-se muitas castanhas e vinho, alegria e animação!
Ah, e dizem-nos de Maçores que até já lá têm gaiteiro próprio (como sabem alguns o gaiteiro é presença obrigatória nesta festa, desde tempos imemoriais). Para ver, clicar sobre os seguintes endereços electrónicos:
http://www.youtube.com/watch?v=TdRLsL8L61Y
http://www.youtube.com/watch?v=cVV2ut8Hw5k

Para quem nunca lá foi, se quiser ficar com uma ideia, veja aqui como foi a festa do ano passado: http://torredemoncorvoinblog.blogspot.com/2008/11/s-martinho-de-maores.html

E para mais informações, pode espreitar o Fórum dos maçoranos: www.macores.pt.vu (obriga a registo prévio).

Então este fim de semana, não se esqueçam de fazer uma visita a Maçores!

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

A partidela de amêndoa

Repórter não sou, mas, porque ontem estive num museu vivo, um museu que tenta preservar não só o espólio arquitectónico e cultural da região, mas também e a solidariedade da alma transmontana, apetece-me escrever sobre ela.

Ontem, foi o melhor dia da partidela, era o último, o dia das filhoses, o dia em que se terminava a safra anual e dava direito a ceia reforçada.
Ontem, fiz “serão” em casa do Ti Chico Sá, estava cheia, toda a vizinhança apareceu. Ontem voltei à minha meninice, aos anos setenta, voltei a ouvir aquele martelar constante: tac… tac… taaac… voltei a escutar as conversas de adulto que nem percebia. Soaram em mim vozes que, num linguarejar de outros tempos, pediam, com insistência, a luz da candeia para catar o grão que saltou e se esconde no meio do cascabulho. Ontem, maldisse a vida quando bati involuntariamente no indicador, ontem, entorpeceram-se-me novamente as pernas pelo longo tempo de imobilidade e voltaram-me a arder os olhos pela fumaça das cascas que tardavam a acender.
Ontem, não sei porquê, voltei aos gambozinos, vi-me de fachoqueiro na mão, afouto, noite dentro, à hora dos lobisomens, a arrepiar-me nas encruzilhadas, percorrer o empedrado irregular e húmido da Rua da Fonte-do-Prado.
Ontem vi os burros, atados pela arreata no cimo do amendoal, a rabejar incessantemente, a escarvar no chão, como que a pedir socorro do ataque continuado do regimento de moscas que, apoiados por uma bataria de moscardos artilheiros, voejavam em seu redor. Ontem vi muitas almas varonis ao longo da riba das Arcas. Iam de amendoeira em amendoeira, atentos às irregularidades do terreno, sempre a ver onde punham os pés e a varejar para o chão o fruto já bem seco. Vi as mãos calejadas do mulherio que apanhava desembaraçadamente amêndoa a amêndoa, no meio dos cardos, e despejava às mancheias nas cestas de vime asadas, mudadas à medida que se avançava encosta acima, com muito cuidado, não fossem esbarrondar-se e obrigar a nova e forçada apanha.
25.10.2009

Por: António Sá Gué
Fotos de: Camané Ricardo e de Rui Leonardo/PARM

Ainda sobre a VI Partidela da Amêndoa realizada no Museu do Ferro, ver: http://parm-moncorvo.blogspot.com/2009/10/vi-partidela-tradicional-da-amendoa_26.html

domingo, 25 de outubro de 2009

A Tuna do Peredo

A Tuna do Peredo

Recorri de novo ao meu baú informático e fui encontrar alguns elementos dispersos sobre a Tuna do Peredo que tocou e encantou ( excepto em Felgueiras onde foi corrida a nabos) as várias aldeias do concelho ( sobretudo Açoreira e Maçores) Era seu maestro Zé Martins que também organizava sessões de teatro no Peredo num antigo palheiro decorado com colchas. Muitos dos músicos da Tuna iam trabalhar para o Zé Martins, na Azenha, no Rio Douro e regressavam ao Peredo a tocar. Todos tocavam por música. Aqui ficam alguns nomes ( com alcunhas) que fui recolhendo: Artur Rodrigues (Carriço) tocava guitarra e cantava; Fernando Gil, guitarra; Manuel Quitério, bandolim; Mário Ferreira ( Panato), meio irmão do professor Ferreira, irmão da Ti Isolina, violão; Ângelo Campos (Chocalho); professor Ferreira, violino; António Gil( da Constância); António Rodrigues (Carró), bandolim; José Pestana ( Grilo), guitarra; António Dias (Russo).
Estes alguns dos nomes. Doutros, desconheço o instrumento que tocavam. Gente mais velha do Peredo pode completar esta memória.
Recolhi também alguns versos, ainda que incompletos, que a Tuna cantava. Aí vai um exemplo:

“Eu tenho um chapéu novo
Que me custou um cruzado
Não tem copa nem tem aba
Está todo roto de um lado.

Tenho uma camisa nova
Coisa assim nunca se viu
Nem tem mangas nem colar
A fralda já lhe caiu.


Tenho um casaco novo
Do mais fininho cotim
Remendo sobre remendo
O fato é todo assim.”

Havia ainda mais versos sobre meias, calças e sapatos mas que não consegui recolher.
Por último uma despedida que me é muito cara. O Fernando Gil, que era gago mas cantava muito bem, pai do nosso estimado Gil T., um dia partiu para o Brasil, onde esteve muito pouco tempo. E fez uma serenata à sua namorada, depois mulher, ainda viva, a Grata, com estes versos que não sei se são da sua autoria:
“Um adeus de despedida
É a coisa mais sentida
Que comove o coração.
Dizer adeus é tristeza
Pois nunca se tem a certeza
Se voltarei cá ou não.”

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Relembrando o Padre Rebelo

Correspondendo a um apelo feito em comentário ao post anterior, é um prazer (re)lembrar aqui o Padre Joaquim Manuel Rebelo, nosso saudoso mestre, já mencionado neste blogue a propósito da Encomendação das Almas, um ritual bem trasmontano que foi por ele estudado nos anos 60 e 70.

O Padre Rebelo, como era simplesmente conhecido, foi um distinto professor e investigador, além de sacerdote, nascido em Vila Nova de Foz Côa a 13 de Março de 1922, embora tivesse devotado grande parte da sua vida ao concelho de Torre de Moncorvo, onde viria a ser sepultado, após a sua morte, ocorrida em Coimbra, a 19 de Junho de 1995.
Frequentou o Seminário de Bragança e foi ordenado em 1945, fazendo parte de uma linha ilustre de padres eruditos formados por aquela instituição religiosa, em que pontuam nomes como o Abade de Baçal, Pe. José Augusto Tavares, Pe. António Maria Mourinho, que se celebrizaram no estudo da Etnografia, Arqueologia e Linguística da região trasmontana.
Como tal, o Padre Joaquim Rebelo, que ainda chegou a conhecer os dois primeiros e privou com o Pe. Mourinho, interessou-se também pela Etnografia e Linguística, tendo participado em diversos congressos da especialidade e publicado diversos artigos e livros relacionados com estas áreas.
Outro dos seus interesses era a dialectologia regional e o estudo dos regionalismos, tendo publicado uma série de contributos para o glossário de Trás-os-Montes e Alto Douro, na revista Tellus, de Vila Real, no início dos anos 90.
No entanto, a sua maior obra foi, talvez, como formador, tendo deixado grande saudade entre muitos dos que tiveram o privilégio de ter sido seus alunos. Leccionou as disciplinas de Português, História Universal, Religião e Moral, nas seguintes escolas: Externato de N. Srª. de Fátima (Carviçais), Escola Industrial de Torre de Moncorvo, depois Escola Secundária, e Escola Preparatória Visconde de Vila Maior (Torre de Moncorvo), entre 1964 e 1992.
Enquanto sacerdote, paroquiou as aldeias de Múrias (Mirandela), Castedo , Vide, Felgar, Souto da Velha e Larinho (estas no concelho de Torre de Moncorvo). Foi também capelão da Fundação Francisco Meireles e do Carmelo da Sagrada Família, em Torre de Moncorvo.
Era membro das seguintes instituições: Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia, Sociedade de Língua Portuguesa e Associação Port. dos Amigos dos Castelos.
Principal bibliografia. Destacamos entre os vários trabalhos e inúmeros artigos de imprensa, os seguintes títulos: Achegas para o estudo do Romanceiro de Trás-os-Montes e Alto Douro (separata da Revista de Etnografia, nº 5); Pequeno subsídio para uma paremiologia teológica ou um quadro vivo de Trás-os-Montes e Alto Douro (separata de Actas do Congresso Internacional de Etnografia de Santo Tirso, J.I.U., Lisboa, 1965); O culto dos mortos no Nordeste de Trás-os-Montes e Alto Douro (separata do Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, 1965); A encomendação das almas nos concelhos de Torre de Moncorvo e Freixo de Espada à Cinta (Cadernos culturais do Núcleo Cultural de Vila Real, Maio 1978; Resenha histórica de Torre de Moncorvo (conferência proferida em 21.02.1987); Para a história da imprensa de Trás-os-Montes e Alto Douro (in Brigantia, 1989); O convento de S. Francisco de Torre de Moncorvo (edição da Escola Preparatória de T. de Moncorvo, 1992); A terra trasmontana e alto-duriense. Notas etnográficas (ed. Câmara Municipal de T. de Moncorvo, 1995)
Haveria ainda a acrescentar outros títulos, resultantes da participação, com comunicação, em diversos colóquios e congressos, tal como ainda colaboração diversa (e dispersa) pela imprensa local (A Torre, O Fozcoense), regional (p. ex. Mensageiro de Bragança, Voz do Nordeste) e nacional (Comércio do Porto, Diário Popular), etc.
Reconhecimento e Homenagens. Ainda em vida, o Padre Rebelo foi alvo de uma homenagem por parte do município de Torre de Moncorvo, que lhe conferiu o título de Cidadão Honorário em 20.02.1995. Antes disso, um considerável grupo de moncorvenses promovera um almoço de homenagem em sua honra. Postumamente (em 1998) a Escola Secundária de Torre de Moncorvo deu o seu nome à Biblioteca Escolar, considerando o facto de o Padre Rebelo ter sido, responsável pela biblioteca, quando aí foi professor.
Em 2004 o município de Torre de Moncorvo atribuiu o seu nome a uma nova artéria da vila.

Em 2006, o Dr. António Manuel Pimenta de Castro, antigo colega e amigo do Padre Rebelo, igualmente professor na Escola Secundária denominada Dr. Ramiro Salgado, hoje Agrupamento Vertical de Escolas, escreveu um pequeno livro intitulado: “Subsídios para uma biografia de Joaquim Manuel Rebelo, Sr. Padre Rebelo” (edição da Escola, com apoio do município).

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

"Mandamentos" populares (sobre o Amor)

(Continuação do "post" anterior: o ti' Cara-Linda, a pedido da tia Xica Neiva, ensina às moças os Mandamentos do Amor, durante uma "partidela de Amêndoa", segundo uma recolha do Padre Rebelo, algo ficcionada, talvez dos anos 70):

- Os Mandamentos do Amor,
eu vos vou explicar:
São dez, minhas meninas,
Tratem de os decorar.

- E decorem-nos bem, - berravas tu!

1º. Amar a Deus sobre tudo quanto há.
Eu amo a Deus no Céu,
Mas amo-te a ti cá.

2º. Não jurar o Seu Santo Nome em vão.
Eu cá por mim fiz a jura
de te dar a minha mão.

3º. É guardar domingos e dias santos.
eu deixo de os guardar,
por causa dos teus encantos.

4º. É honrar nosso pai e nossa mãe.
Bastante os tenho honrado,
mas honro-te a ti, também.

5º. É não matar.
Eu nunca matei ninguém,
Só matava, se pudesse,
saudades que meu peito tem.

6º. É guardar castidade.
Bastante tenho guardado.
Só para te guardar respeito,
bastante tenho pecado.

7º. Não furtar o que a outrém pertencer.
Só te furtava a ti,
se acaso pudesse ser.

8º. Não levantar falsos testemunhos a ninguém.
Eu por mim não os levanto.
A ti só te quero bem.

9º. Não desejar a mulher do nosso semelhante.
Só te desejo a ti,
Se tu me fores constante.

10º. Não cobiçar as coisas que alheias são.
Só te desejo a ti,
com todo o meu coração.

- Estes 10 Mandamentos
encerram-se em dois:
Amo a Deus no Céu,
Mas amo-te a ti despois".

in: "A Terra Transmontana e Alto Duriense. Notas etnográficas", por Joaquim Manuel Rebelo (Padre Rebelo), ed. Câmara Municipal de Torre de Moncorvo e Associação Cultural de Torre de Moncorvo, 1995.

"Partidela" da Amêndoa

"- Ai quanto me custa morrer, ó Xica Neiva!
- Olha que Deus não é de brinquedos senão às vezes dava castigos, não achas?
- O que nós fazíamos quando éramos solteiros!
- Não te recordas daquelas noites de inverno, quando íamos ajudar a partir a amêndoa para a casa da tia Arminda Fanega?
- Primeiro cantávamos a vozes, ao som do martelar, o canto do Cravo Rijado.
- As costas e os pés estavam frios, mas os corações até deitavam fogo.
- Olha que tu tinhas mesmo uma voz de respeito, mas eu, também, não ficava atrás.
- Vamos tentar cantar uns versos desse cântico? Recordar é viver, home. Ora vamos lá ver se ainda acertamos.

E os nossos idosos, numa voz ainda firme, repassada de saudades, lembrando aquelas noites frias e o pum, pum, pum do partir da amêndoa e, as conversas chistosas do grupo das partideiras, começaram a cantar:

Fala-me, ó cravo rijado,
Fala-me fora da rama,
Fala-me sem cobardia, ó ai,
quem é cobardo não ama.

Quem é cobardo não ama,
Quem ama não é cobardo,
Fala-me ó meu amorzinho, ó ai,
Fala-me ó cravo rijado.

Fala-me aonde me vires,
Não te escondas de ninguém,
Eu na fama já sou tua, ó ai,
Por esse mundo além.

Acabada a cantiga, o ti Cara Linda atalhou logo:
- E quando tu dizias: Ó Cara Linda, ensina lá a doutrina a estas moças casadouras, senão o senhor padre não as casa.
- E eu então começava: Raparigas, ouvam lá o catecismo d'hoje" [continua]

in: "A Terra Transmontana e Alto Duriense. Notas etnográficas", por Joaquim Manuel Rebelo (Padre Rebelo), ed. Câmara Municipal de Torre de Moncorvo e Associação Cultural de Torre de Moncorvo, 1995.
Foto: Padre Rebelo? Legenda: "Partidela da Amêndoa" no Peredo dos Castelhanos.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

VI Partidela Tradicional da Amêndoa, no Museu do Ferro

(foto do cartaz, de A.Basaloco)

Realiza-se no próximo dia 24 de Outubro (sábado), a partir das 15;30h, a 6ª Partidela Tradicional de Amêndoa, organizada pelo Museu do Ferro & da Região de Moncorvo.
Como já informámos em edições anteriores, a “partição” ou “partida” da amêndoa, consistia na reunião das famílias, vizinhos e amigos, para, ao serão, durante as noites frias de Outono ou Inverno, se “entreterem” a quebrar a casca lenhosa das amêndoas, a fim de venderem o produto em grão, pois assim era mais bem pago pelos negociantes de frutos secos. Era um momento de trabalho, mas também de confraternização e de amena cavaqueira.
Este sistema de entreajuda, um pouco na linha do comunitarismo transmontano, era sobretudo usado pelos pequenos e médios proprietários. Os grandes proprietários, por seu lado, chamavam gente à jeira, normalmente mulheres, para executarem esse trabalho, o qual era pago consoante os alqueires que enchiam, completamente a transbordar.
É preciso recordar que boa parte do concelho de Torre de Moncorvo se situa na chamada Terra Quente Transmontana, com um microclima mediterrânico, onde se dão bem a vinha, a oliveira e a amendoeira. Esta última cultura, que é também responsável pelo cartaz turístico da Amendoeira em Flor, tem conhecido uma certa regressão nas últimas décadas, razão pela qual as “partidas” da amêndoa deixaram de se verificar. Já antes disso, as máquinas britadeiras tinham começado a substituir a mão humana. No entanto, as memórias persistem, e o Museu do Ferro, querendo recuperar estas tradições e, simultaneamente, desenvolver uma certa “museologia de proximidade”, envolvendo pessoas de todas as idades e de diversas proveniências (habitantes locais e visitantes de outras paragens) volta a reeditar esta actividade, que já é um cartaz habitual, nesta época do ano, sempre com assinalável êxito!

Aceitam-se inscrições até ao fim do dia 22 de Outubro, para o tlf. 279252724.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Arrocho

Dois exemplares de "arrotcho".

Uma pequena achega à função do "arrotcho" - servia para apertar a carga transportada pelo macho ou burro. Neste caso, a sua dimensão é maior do que a dos exemplos anteriores.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Uma nota de etnografia

Enquanto me encontrava a arquivar uns papéis em casa, reencontrei este artigo que me parece oportuno partilhar convosco. O seu autor é o eminente investigador, etnógrafo, historiador e arqueólogo Vergílio Correia, tendo sido publicado em 1937, numa colectânea de artigos de sua autoria denominada "Etnografia Artística Portuguesa", em Barcelos. É particularmente conhecido pelo seu trabalho desenvolvido na mais conhecida estação arqueológica do período romano em Portugal, Conímbriga. A grafia do texto é a original salvo o uso dos tremas que não consegui colocar.

Para Dra. Casimira Machado Leonardo, que do alto dos seus mais de 90 anos, muito me continua a ensinar sobre a históra, costumes e tradições da sua terra mater, o Larinho.


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"Arrôchos" de Larinho e Felgar (Moncorvo)

"Larinho e Felgar são duas boas aldeias do concelho de Moncorvo, cuja visita a nova, inacabada, linha ferroviária do Pocinho a Miranda já tornou fácil e, relativamente rápida.

E interessante, embora um tanto enigmática, a paisagem desta região de terras esbranquiçadas, onde os vales, largamente desdobrados, entestam com cabeços escuros e pedregosos, salpicados de arvoredo miúdo. Região de centeios e trigos onde raro se alteia uma bandeira verde ou amarelecida de milhão, aqui, peor que no Alentejo - onde os montes alegram de manchas brancas a solidão das charnecas e dos montados -, raramente o largo espaço que medeia de povo para povo é habitado. A população concentra-se quási exclusivamente nas aldeias.


Ora nestas duas terras de Larinho e Felgar encontra-se localizado um costume etnográfico digno de referência. Por ocasião das ceifas, não são os homens que atam, em fachas, os molhos de palha, como sucede em tôda a parte; é a mulher a encarregada dêsse serviço. Mas como, por menos forte, ela não pode, à simples fôrça de braço, apertá-los conveniente, serve-se do arrôcho para êsse fim.

Atando duas ou três hastes de centeio, trigo ou cevada - conforme o cereal ceifado -, pelas espigas, com um nó de tecedeira, passa a cinta assim preparada sob o molho, reune as extremidades que ficaram com nova laçada com a varinha levemente recurva do arrôcho, consegue o desejado apêrto.

Como êste utensílio é, portanto, de uso exclusivamente feminino - um homem teria vergonha de empregá-lo, menosprezando a fôrça do seu braço -, aparece adornado de rústicos entalhes que os pegureiros e os namorados nas horas vagas se entreteem a gravar, à navalha, sôbre troncos afeiçoados de freixo ou buxo.

Os exemplares reproduzidos na figura junta, a um têrço do seu tamanho, dão bem a impressão da rudeza decorativa dos arrôchos que, algumas vezes, aparecem também pintados de verde, vermelho e azul. O seu comprimento regula entre 0,25 e 0,30 [metros].

Outubro de 1916.

(desenhos de A. Correia)"

terça-feira, 23 de junho de 2009

S. João em Torre de Moncorvo - partidas de outros tempos

Praça Francisco Meireles, cheia de vasos na manhã de S. João, nos anos 50? (foto do arquivo da Drª Júlia Ribeiro, cedidas por D. Maria José Garcia/foto Arco-Íris?)

Noutros tempos o S. João era comemorado em Torre de Moncorvo (vila), com a realização de várias cascatas em certos pontos da vila: Prado de Baixo, Largo do Poço (no bairro do Castelo), no Castelo... além das cascatas faziam-se fogueiras, onde se queimavam ervas aromáticas (bela-luz, arçãs, alecrim), sobre as quais se saltava. Assavam-se sardinhas, corria o vinho e havia bailarico, a rimar com manjerico, que era colocado atrás da orelha pelos galãs, novos ou velhos.

Mas, para além destes festejos comuns, análogos aos que se realizavam um pouco por todo o lado, havia outras costumeiras, como esta que nos contou a nossa conterrânea, a escritora Júlia Ribeiro (Biló):

"Os rapazes novos, comandados pelo Adrianinho Fernandes e pelo Tio Zé Sangra, passavam largas horas da noite de 23 para 24 de Junho a roubar vasos dos balcões e varandas e a colocá-los "artisticamente" na Praça. Aí ficavam durante os dias 24 e 25 . As pessoas iam regá-los, mas não os retiravam.
No dia 26 de Junho, as donas dos vasos, entre os risos de uns e os "rás parta a garotada" das próprias, lá levavam os vasos, sempre ajudadas por essa mesma garotada que agora se mostrava muito colaborante".

A foto que se mostra neste "post" documenta esta tradição, talvez nos idos da década de 50 ou 60 do séc. XX. Tudo isto se perdeu, assim como a das cascatas. No final dos anos 70 e anos 80 era ainda forte o baile popular do S. João no Castelo, tendo depois "descido" para a praça, onde se mantém. Hoje é noite de ir até lá comer uma sardinha e beber um copito.

Mas, porque não, em anos próximos, recuperarem-se as outras tradições S. Joaninas cá do burgo? - se agora é mais complicado roubar os vasos, pelo menos solicitar a sua exposição voluntária em redor de uma cascata no muro do castelo, creio que era exequível. Fica a ideia e bom S. João para todos!

sábado, 18 de abril de 2009

Passeio da Pascoela para "desfazer o folar", na Senhora da Esperança

A tradição continua!

Aqui fica o cartaz-convite para todos participarem amanhã, Domingo (dia 19 de Abril), no Passeio da Pascoela para se “desfazer o folar” no adro da capela da Senhora da Esperança.

Para quem pretenda fazer o percurso a pé, como noutros tempos, pelo caminho antigo, a concentração é defronte da Junta de Freguesia (Avenida Engº Duarte Pacheco), com saída pelas 14;30h.
No adro da capela haverá jogos tradicionais, música, animação, convívio, enquanto se reconstitui a prática ancestral de “desfazer o folar”, neste caso antecipada para Domingo, pois o dia de preceito era a segunda-feira da Pascoela.
Depois de algumas tentativas episódicas para a sua recuperação, nos anos 80, a Junta de Freguesia de Torre de Moncorvo, com apoio da associação do PARM, procurou reatar este convívio, tendo-o organizado no ano passado, com bastante adesão. Este facto levou à repetição do evento no presente ano, esperando-se que haja cada vez mais participantes e este costume se mantenha em anos futuros.

Sobre esta tradição, aqui ficam alguns apontamentos de autoria do Padre Joaquim Manuel Rebelo, no seu livro A Terra Trasmontana e Alto Duriense. Notas Etnográficas (ed. Câmara Municipal de Torre de Moncorvo, 1995):

Depois da Páscoa era a festa dos folares, em lugares geralmente junto de velhas capelinhas, que a fé dos nossos avoengos espalhou por vales e montes.
Na segunda-feira da Pascoela muitos habitantes de Torre de Moncorvo deslocavam-se, a pé, até à Senhora da Esperança, mas sobretudo, à Senhora da Teixeira, carregados com os seus farnéis.
Na Senhora da Teixeira (…) havia missa cantada e depois no adro dançava-se animadamente ao som dos acordes da filarmónica de Torre de Moncorvo ou do realejo e concertina e saboreavam-se, à sombra das amendoeiras, as merendas, onde as empadas recheadas do apetitoso presunto e do saboroso salpicão eram o principal manjar.
As azeitonas, o queijo e o vinho faziam o acompanhamento.
Ao entardecer, depois de um dia bem passado, a nível espiritual, físico e lúdico, mais um bailarico, uns beijinhos dos namorados, às escondidas, e regresso a casa com um voto de ‘qu’eu pr’ò ano lá hei-de-ir’.”


Se quiser saber como foi a festa da Pascoela /2009, clique sobre o seguinte endereço electrónico:
http://parm-moncorvo.blogspot.com/2009/04/pascoela-na-senhora-da-esperanca.html

Sobre a Festa da Pascoela /2008, pode ver em:
http://parm-moncorvo.blogspot.com/2008/03/passeio-da-pascoela-dia-29-de-maro.html
http://parm-moncorvo.blogspot.com/2008/04/passeio-da-pascoela.html

sexta-feira, 10 de abril de 2009

"Encomendação das Almas", um filme de Leonel Brito, 30 anos depois

Depois do grande sucesso que foi a apresentação, ontem, no auditório municipal de Freixo de Espada à Cinta, do filme sobre a Encomendação das Almas, teremos hoje, no auditório do Museu do Ferro & da Região de Moncorvo, o visionamento do mesmo documentário, pelas 21;30 horas.

Será previamente feita uma introdução a este documentário, pelo próprio autor, o realizador Leonel Brito, e um dos autores dos textos de fundo, Rogério Rodrigues (ambos colaboradores do nosso blogue). O argumento teve também como co-autor o saudoso jornalista Afonso Praça, igualmente nosso conterrâneo, e contou com a colaboração especial, a nível da explicação etnográfica, do Padre Joaquim M. Rebelo, que, como Afonso Praça, infelizmente já não está entre nós.

Este filme é um verdadeiro documento etnográfico e antropológico, rodado há exactamente 30 anos, na vila de Freixo de Espada à Cinta (com o cortejo dos Sete Passos), e em algumas aldeias dos concelhos de Freixo e de Torre de Moncorvo (neste caso, Felgar e Urros). Além dos cânticos das Almas, que se realizavam pela Quaresma, vêm-se outros aspectos da vida rural desse tempo (1979), num momento charneira da nossa história recente, em que, a par de algumas transformações decorrentes da emigração, se vêm ainda aspectos da nossa ancestralidade.

Este é um documento notável que o autor, Leonel Brito, depois de o resgatar aos arquivos da RTP (entidade para quem foi produzido o filme), e de o passar para DVD, ofereceu aos arquivos do Museu do Ferro, da Biblioteca Municipal de Torre de Moncorvo, e à Câmara Municipal de Freixo. Impõe-se, agora, a sua edição, repto que deixamos às entidades competentes. Resta-nos enaltecer a generosidade e o empenho do realizador Leonel Brito, nosso conterrâneo e colega de blogue. Obrigado Leonel!

Então aqui fica o convite para logo à noite, às 21;30 horas, no auditório do Museu do Ferro!
Compareçam!

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