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sábado, 28 de fevereiro de 2009

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

XXIII Feira de Artesanato de Torre de Moncorvo

No contexto das festividades da Flor da Amendoeira, foi inaugurada, no passado Sábado, a XXIII feira de Artesanato de Torre de Moncorvo, reunindo artesãos de todo o país, incluindo a ilha da Madeira.
Esta feira poderá ainda ser visitada até ao próximo fim-de-semana, no Pavilhão gimno-desportivo da Corredoura.
Não perca esta oportunidade de adquirir uma peça de arte única, ajudando os nossos artesãos!!!

Há lá peças preciosas e feitas com muita mestria, dedicação e carinho, além de licores e doçaria regional. – VISITE!!!!.... (é só até ao próximo fim de semana!)

Vista geral do "stand" de Torre de Moncorvo (clicar sobre a imagem para a ampliar)

Escultura em chapa de ferro, de autoria da Serralharia Irmãos Amaral (Torre de Moncorvo), um ex-libris do pavilhão de Torre de Moncorvo (a escultura não está para venda).

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

"Pintura" naif

Um instantâneo numa qualquer rua de Torre de Moncorvo.

Em Viagem II - continuação do poema de Campos Monteiro

Foto da entrada da vila de Torre de Moncorvo (às Aveleiras), no tempo de Campos Monteiro (in Ilustração Trasmontana, 1908-1910)
Olha agora à direita, e vê: parece um cromo.
No sopé da montanha uma sé colossal,
e em volta cinco ou seis centos de casas, como
Ao redor de um castelo um burgo medieval.
É Moncorvo! Está perto o termo do caminho ...
Lá vejo a casa em que eu à luz do mundo vim;
paira-lhe sobre o tecto um fumo cor de arminho,
tão branco, que parece um lenço de alvo linho
Posto ali a acenar, para chamar para mim !
Às Aveleiras, desço e sigo a pé. É perto...

Trajecto que o escritor seguiu, desde a Rua do Cabo, até à sua casa, na rua da Misericórdia -foto de N.Campos (clicar sobre a foto para a ampliar)
Estavam d’antes aqui a esperar-me - era certo!
- meu pai e minha irmã, ambos a par.
Mas a morte passou, e levou-os consigo.
Vê-se d’aqui, porém, o seu jazigo,
e é p’ra eles que mando o meu primeiro olhar,
agora, preparar! Vamos calcar a argila
da rua que conduz mesmo ao centro da vila,
e há caras conhecidas nas janelas
e às portas, a tomar o fresco. E em todas elas,
mal eu desponto, surge um clarão de alegria.
Tenho de saudar, dizer se passo bem,
e perguntar depois como eles vão, também.
E n’esta via-sacra atroz da Cortesia,
vou seguindo e parando ... Até findar o dia.
Aqui tens, logo à entrada, as senhoras Botelhos,
o Daniel e a mulher ... Coitados! Estão velhos,
mas sempre amigos: Dáfnis e Cloé.
Depois, no Lageado, a gente que passeia
n’este cair-de-tarde idílico de aldeia.
Caio em pleno triunfo! É a hora do café,
e o botequin do Ernesto está au grand complet!
E na Rua das Flores, e na Praça
toda a gente que está me saúda e me abraça.
N’um banco do Castelo, o ti’Zirra, ceguinho,
- santo velho! Cegou de tanto trabalhar!
- levanta-se, a sorrir: - «Deus o traga, vizinho!»
E a sua mão tremente de velhinho
Procura a minha mão, a tactear!
Meus bons patrícios, cheios de virtudes!
Honesta, digna, hospitaleira gente!
Como eu me sinto bem entre os seus braços rudes,
E como folgo em vê-los novamente!

Casa onde nasceu Campos Monteiro, em lamentável estado de degradação - foto de João Pinto V. Costa

Ao penetrar na minha rua, todos
Saem de casa para me abraçar.
Recebo beijos... Efusões a rodos...
E a Lídia, à porta, grita com maus modos:
- «Deixem-n’o em paz, que há de querer jantar!»-
Porém, sentado à mesa, tão contentes
Sinto os olhos, a alma o coração,
Que nem toco nos pratos excelentes
Cozinhados por minha devoção.
E a minha mãe - coitada! - a sorrir e a dizer:
- «Come, meu filho! Vais adoecer
Se começas assim a jejuar!» -

Como há de ter vontade de comer
A boca que só tem desejos de beijar!
Campos Monteiro, in “Versos Fora de Moda” (1915)

Amendoeiras em flor, no Peredo dos Castelhanos

Amendoeiras em flor no termo do Peredo dos Castelhanos, com o rio Douro ao fundo, vendo-se no horizonte o monte Meão e a fragada da Lousa:


Foto de Luís Lopes (direitos reservados) - clicar sobre a foto para a aumentar

Castelo Melhor e Almendra (que em castelhano quer dizer "amêndoa") na margem esquerda do Douro (concelho de Vila Nova de Foz Côa) e o Peredo dos Castelhanos na margem direita (concelho de Torre de Moncorvo), podem ser considerados o "solar da amendoeira" no vale do Douro. Não se sabe se é uma árvore endémica ou se foi aí introduzida (pelos árabes?), sendo certo que o topónimo Amíndula ou Almendra (=amêndoa), já existe desde, pelo menos, o século XI. A partir daqui esta cultura terá irradiado por todo o vale do Douro e seus afluentes, sobretudo no século XIX, depois da crise da filoxera ter atingido os vinhedos.

Pormenor de flor de amendoeira. Foto de Luís Lopes (direitos reservados)


Desde os inícios do séc. XX tornou-se uma cultura altamente rentável, até ao final da década de 70, período em que entrou em decadência devido à queda dos preços da amêndoa, motivada pela concorrência estrangeira, sobretudo da Califórnia.
A partir dos anos 90 os velhos amendoais tradicionais foram sendo substituídos pelas vinhas (esta é uma zona "de benefício" da Região Demarcada do Douro), como a foto de cima documenta, embora algumas amendoeiras tenham sido poupadas pelos lavradores, enchendo de encanto e beleza os nossos campos, nesta época do ano.
Esperemos que nunca as amendoeiras desapareçam do Peredo, pois esta foi a freguesia com maior produção de amêndoa do concelho de Torre de Moncorvo, facto que muito contribuíu para um certo desafogo dos lavradores, que, desse modo, puderam "pôr os filhos a estudar", nos anos 60 e 70. Este facto, a par das remessas dos emigrantes, muito contribuíu para que desde cedo se notasse uma maior escolarização e um certo número de licenciados, numa aldeia (e freguesia) relativamente pequena e aparentemente pobre.
Nota: as fotos que ilustram este "post" foram tiradas pelo Dr. Luís Lopes, no passado dia 21.02.2009, durante uma montaria ao javali no termo do Peredo dos Castelhanos - aqui fica o nosso agradecimento pela sua cedência.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

das fragas




Foto actualizada para juntar ao poema de Campos Monteiro. Ao fundo floresce também a capela da Sª da Teixeira. Estas ainda são espécies tradicionais.


Estendal em Torre de Moncorvo

estendal

Por ruas de Torre de Moncorvo, as cores vivas dos estendais contrastam com com o rústico das casas, muitas delas deitadas ao abandono ficando em completa degradação, como se constata na zona histórica da vila.

Detalhes em Ferro 2

Já quase depois do sol se esconder, encontrei este bonito portão no Felgar. A solução foi fotografar contra o céu, tentando captar os contornos do ferro forjado. É um exemplar muito bonito, com um trabalho muito pouco frequente.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

“Em viagem”, um poema de Campos Monteiro

Em tempo de amendoeiras em flor, é oportuno recordar um belo poema do nosso escritor Campos Monteiro (1876-1933), julgamos que escrito na sua juventude, em forma de carta, para uma amada (que só poderá ser a mulher de sua vida, Olívia, a quem dedicou também um dos seus primeiros escritos, intitulado “Violia”, anagrama de seu nome).

O poema-carta, publicado em Versos Fora de Moda (1915), tem várias partes, começando pelo desembarque do autor na estação do Pocinho; a seguir, este atravessou o Douro, talvez ainda na velha barca de passagem, uma vez que afirma que a diligência estava à espera do outro lado do rio; logicamente não estava construída a linha do Sabor, pois o percurso para Moncorvo é feito na diligência (também chamada mala-posta); segue-se a ascensão pela vertente da Quinta do Campo até à linha de cumeadas por onde corria o velho caminho, em direcção à Ventosa. Julgamos que seria este o trajecto, devido à descrição que o autor faz da paisagem que dele se avista (talvez ainda não estivesse construída a Estrada Real que coincide com a E.N. 220 (agora algo abandonada, depois da construção da recente ligação de Torre de Moncorvo ao I.P.-2).

Para não alongar muito o “post”, dividimos este primeiro poema em duas partes. Esta é dedicada ao trecho da viagem, antes de chegar à vila de Torre de Moncorvo. Colocaremos depois o trecho referente à sua entrada na vila e o percurso que faz até a casa de seus pais, na Rua da Misericórdia.

Nota 1 – actualizámos a ortografia, pois na edição original (que nos foi disponibilizada para consulta pela Biblioteca Municipal), dos anos 20, ainda se escreve “schisto” em vez de xisto; “scintilações” em vez de “cintilações”, etc.

Nota 2 – Sobre Campos Monteiro, ver os “posts” de Rogério Rodrigues, neste blog, datados de 14 e 16 de Maio de 2008 (para melhor facilidade de procura, clicar sobre a etiqueta Campos Monteiro, na coluna do lado direito).

Nota 3 – As fotografias que ilustram este “post” são de autoria de João Pinto Vieira Costa, a quem agradecemos a sua cedência (agradecemos também que sejam respeitados os seus direitos autorais).



I. - EM VIAGEM

Parto p’ra a terra. Sinto-me doente,
e é tal o amor que tenho ao meu cantinho,
que eu creio que melhoro de repente
ao avistar as veigas do Pocinho.
Salto às duas da tarde na estação,
e meto encosta abaixo em direcção ao rio.
O ar é tépido e brando: uma consolação.
Vê tu: no Porto faz ainda frio,
na minha terra já parece v’rão.
Do outro lado do rio a diligência espera
- e começa a ascensão. Nem sequer imaginas
quão pitorescas são estas ravinas
agora, ao começar da primavera!
Como um cortejo, mal organizado,
de donzelas coquettes e palreiras,
todas de branco, as amendoeiras,
descendo em grupos as ladeiras,
dão-nos a sugestão de irem p’ra um noivado.
E cada encosta é um tapete apenas de lírios,
arreçãs, malmequeres, verbenas ...
sulcada de carreiros e de trilhos,
casa-se ao verde intenso dos tremoços
o amarelo vibrante dos pampilhos.
Passam cachoeiras rindo: esse riso impudente
dos rapazes que veem a sair d’uma escola;
e em volta os lótus de húmida corola
tomam seu banho, consoladamente.
Aos raios de oiro pelo sol vibrados,
os xistos e os granitos dos montados
lançam cintilações de lantejoulas.
Corre um filete d’água lá no fundo.
E os trigos riem para o céu profundo
pelos lábios vermelhos das papoulas...
A quatrocentos metros de altitude
o Amâncio pára o carro, a descansar o gado.
E agora o quadro é outro e muito mais variado.
Dize-me se não dá mesmo saúde
olhar este horizonte dilatado!
O que temos subido ! Olha o Monte-Meão,
há pouco inda tão alto, e agora n’um fundão!
Por de sôbre ele vê-se uma faixa amarela
de montanhas, ao longe: é a Serra da Estrêla.
Da Burga, ao norte, a massa informe.
Serras ao poente. A Leste o Roboredo infindo.
E este caixilho sumptuoso, enorme,
que lindo quadro ele emoldura! ... Lindo! ...
Pela vertente das encostas,
co’a rigidez d’uma muralha,
as oliveiras, em cordões dispostas,
lembram soldados, de mochila às costas,
ordenados em linha de batalha.
E há vinhedos sem fim ... Imensos laranjais ...
E na toalha verde-escura
dos azevéns e cereais
põe uma intensa nota de frescura
as pinceladas brancas dos pombais.
Da Vilariça, em baixo, a multicor alfombra,
tão fértil que sustenta três concelhos.
A parte ocidental mergulha já na sombra,
mas nos casais de Leste há reflexos vermelhos.
Corre a meio o Sabor, todo apressado,
porque sabe que o Douro o está a esperar;
E ao chegar junto d’ele, fatigado,
fundem-se n’um abraço demorado,
descansam, dão a volta - e largam para o mar!
Dependurados pela serrania,
lugarejos, torreões, flechas de igreja.
Nos altos picos, d’um verniz de oleografia,
ainda a neve à luz do sol alveja.
Que variedade, d’uma e de outra banda!
Como isto é grandioso, e ao mesmo tempo ameno!
São a Suíça, a Itália, e a própria Holanda
em dez léguas quadradas de terreno!

(continua)

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Detalhes em Ferro 1

Quero agradecer aos que estiveram presentes, ontem, no Museu do Ferro, e a todos os que ainda vão passar por lá, durante o mês que se segue, para admirarem Detalhes em Ferro. Entretanto, chegou a altura do tema se estender ao Blogue. Os detalhes em ferro de hoje foram captados em Carviçais, freguesia que tem lindas varandas em ferro forjado, à espera de serem mostradas.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Exposição de fotografia

Já é hoje o dia da inauguração da exposição de fotografia "Detalhes em ferro". Ao contrário do que foi divulgado, a inauguração vai acontecer às 16:00 horas.
Todos os visitantes do Blogue estão convidados.

Desfile Carnavalesco das Escolas de Torre de Moncorvo - 2009

Dia 20 de Fevereiro, as crianças dos Jardins de Infância e 1.º Ciclo, voltaram a alegregar Moncorvo, com mais um desfile carnavalesco.
Este ano as crianças dos vários Jardins e 1.º Ciclo, juntaram-se todas na Escola Visconde Vila Maior, donde partiram para mais um desfile.

Desde Alunos, Professores e Axiliares, desfilaram pelas ruas da vila, passando pela praça, onde se encontrava maior número de populares a observar o desfile.




Depois de desfilarem pelas ruas da vila, chegou o momento de regressarem à Escola, sendo distribuido pelas crianças um lanche, como já acontecia em anos anteriores. Entretanto o grupo de animadores que acompanhou o desfile, enchia balões de diversas formas e davam às crianças, deixando-as super alegres.
Agora só nos resta esperar pelo proximo ano para voltarmos à rua para mais um desfile.
Parabéns a todos que organizaram, trabalharam e participaram no Desfile Carnavalesco das Escolas do Concelho de Torre de Moncorvo.

***
Um Bom Carnaval!

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Desfile Carnavalesco das Escolas de Torre de Moncorvo - 2008

Foi assim em 2008 o Desfile Carnavalesco das Escolas do Concelho de Torre de Moncorvo pelas ruas da vila.
Foi com enorme entusiasmo que as crianças dos Jardins de Infância e 1.º Ciclo, prepararam com alguma antecedência os seus fatos de carnaval, feitos com a ajuda de Educadores, Professores e Auxiliares.
Passando pelas várias ruas da vila, o desfile de carnaval encantou toda a comunidade que observava.




Além das crianças das escolas, também participou neste desfilhe um grupo de animadores vestidos de palhaços, acompanhado ao som de gaitas de foles. As crianças ficaram encantadas com todo este cenário e alegres por participarem.
O desfile terminou no recinto da cantina da Câmara Municipal, sendo distribuído o lanche a todas as crianças.
Foi assim o Carnaval das Escolas do Concelho de Torre de Moncorvo em 2008.

Hoje 20 de Fevereiro de 2009, as crianças das escolas voltam a desfilar pelas ruas da vila.

Venham todos ver mais uns deslumbrante desfile carnavalesco por parte das crianças das escolas do concelho de Torre de Moncorvo.

Amendoeiras em Flor - 2009

Chegou a flor da época: A Flor da Amendoeira. Depois do tempo frio, as amendoeiras floriram, tornando assim os campos de uma beleza magnífica. Por terras de Torre de Moncorvo, Vila Flor, Vila Nova de Foz Côa e Freixo de Espada à Cinta, encontramos um cenário florido, que encanta quem por lá passa.

Os concelhos atrás referidos, a partir de 21 de Fevereiro, estam em festa, pois da-se assim início a mais um programa das Amendoeiras em Flor, trasendo um grande número de visitantes a estes concelhos, como acontece todos os anos.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

O despertar da vida

Hoje foi dia de "caça" fotográfica por terras de Moncorvo. Sempre em transito, aproveitei para visitar algumas freguesias, tentando captar-lhe a alma que emergia à luz quente da tarde. Ao anoitecer fui encontrar, sem querer, alguns blogueiros catando ferro velho em ruínas do Felgar! Por isso hoje não vou mostrar ferro. Escolhi esta fotografia que tirei no Carvalhal, junto à estrada. É a a vida que desperta, desde a mais pequena planta, aos beirais dos telhados (no Felgar) onde já brincam as prometedoras andorinhas.

Peredo dos Castelhanos, 20 de Fevereiro de 1974



Esta fotografia não fere pela nostalgia. Magoa pela resignação. Vejam o ar da professora ou regente ou mestra. A única luz, e muito diluída e filtrada, é a que vem de fora, quase metáfora do tempo que então se vivia. Ou da bata branca das crianças, um prenúncio de futuro (?). Não há um sorriso sequer. Esta fotografia não podia ter cor.
Foi tirada faz exactamente hoje 35 anos. Ilustra uma reportagem do Assis para o República. Lembro-me que fui com ele e com o Lelo à minha aldeia, Peredo dos Castelhanos. É uma reportagem que deveria ser recuperada. Fica ao cuidado do Lelo.
Reparem no ar triste da senhora, vestida de escuro, com um penteado de quem nunca frequentou a cabeleireira, com uma parede branca quase despida, apenas habitada por uma imagem da Nossa Senhora, também ela de ar sofrido e o crucifixo de um Cristo martirizado. Apenas um ramo de flores na secretária.
Esta fotografia respira uma profunda tristeza. A mestra confundia-se com qualquer mulher de aldeia. A única diferença é que sabia ler e tinha permissão de ensinar.
Ampliando a fotografia, atente-se nas frases escritas no quadro, só possíveis e inteligíveis num meio rural, familiares à cultura daquelas crianças: “O ninho do passarinho”; A mãe da Chica tira a palha do palheiro”; “Ela apanhou o livro que caiu no chão”; “Amanhã vou à horta colher uma couve”; “O coelho foi morto pelo caçador”.
Nas carteiras ainda há tinteiros para molhar o aparo. Contam-se mais de uma dúzia de crianças, na maioria filhas de emigrantes ao cuidado das avós. A escola, esta, fechou. O Peredo já não tem escola nem crianças.
Reparem nas mãos da mestra, tão recolhidas e recatadas, na tristeza que se revela no seu olhar para a câmara. Tão conformada e resignada! Estávamos a poucos meses do 25 de Abril. O que terá sido feito destas crianças, todas elas hoje com mais de 40 anos?


Rogério Rodrigues

Livro e escritor - ... ainda Armando Martins Janeira

Porque o pequeno livro "Peregrino" poderá dizer pouco aos moncorvenses, visto que versa sobre personagem alheio à nossa região, em longínquas paragens, recomendamos em contrapartida, também de Armando Martins Janeira (1914-1988), um livro de contos das suas primícias, se bem que posteriormente revisto por si e reeditado em 2004, numa iniciativa da Comissão de Festas de Felgueiras.



Esse livro, intitula-se "Esta dor de ser Homem" e foi escrito quando o autor tinha aproximadamente 28 anos, nos inícios da década de 40, sendo a primeira edição de 1948. A despeito do seu interesse literário (que tem), é igualmente um testemunho das vivências do nosso mundo rural nessa época, dando conta do arreigado apego do autor às suas terras de origens, como bem evidencia Paula Mateus, na nota introdutória à 2ª edição: "Desde a primeira vez que saíu de Portugal, sempre o acompanharam três pedras da sua serra do Roboredo e um cântaro de barro de Felgar, por ele considerados um tesouro que lhe dava forças para superar agruras e caminhar o mundo da única forma que achava possível: 'de passo firme e cara ao alto'".

Não vamos referir-nos aos contos, pois o livro merece ser procurado e lido, mas não resistimos a transcrever algumas passagens do prefácio que deixou para uma eventual 2ª edição (que aconteceu, como dissémos, em 2004): 
"Neste livro estão as minhas raízes de homem. Sou um montanhês. O homem da terra tem raízes na terra como os castanheiros e os carvalhos. Se não fiquei preso ao chão, como as árvores e os cavadores da minha aldeia, é porque levei as minhas raízes comigo - a minha paixão pela terra, o meu amor pelos que trabalham com simplicidade e a minha humildade diante do seu pão, a minha indiferença pelos grandes, a minha independência que me teve sempre de cabeça direita ao falar aos grandes deste mundo - diante de homens e de deuses. 
Levei as cantigas do meu povoado e cantei-as por toda a parte, sozinho, na minha voz sem tom nem som, mas que me consolava e me refrescava a alma e o sangue. (...)
Falei com imperadores e com reis, presidentes, ministros, e toda a escala do poder e da grandeza. Nunca nenhum deles me impressionou porque os medi sempre, não pela imponência dos seus cargos ou pelo oiro das suas medalhas, mas pelo valor que é timbre real dos homens e das mulheres. 
E nesse, raras vezes chegaram ao escalão que me parecia deviam medir.
Como não tenho ambições de grandeza, a grandeza dos outros não me impressiona, nem se me impõe, a não ser aquela verdadeira grandeza humana que tenho encontrado mais vezes na gente humilde.
A vida é breve e a glória, que não tenho e espero nunca ter, aborreço-a. Mas é grande consolação para mim saber que em passagens deste livro primitivo e tosco uns poucos de leitores possam encontrar aquele virgem contentamento de ser homem que nele quis exaltar quando o escrevi".

- Cremos que este é um testemunho eloquente de transmontaneidade, que diz muito do carácter deste nosso conterrâneo. Continuação de boas leituras!

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Livro - "Peregrino" de Armando Martins Janeira

Foi reeditado recentemente, no Outono passado, com a chancela da editora Pássaro de Fogo e apoio da Câmara Municipal de Cascais, um belíssimo livrinho (pequeno no tamanho, mas belo no conteúdo), intitulado “Peregrino” de autoria do nosso conterrâneo o embaixador Armando Martins Janeira (a primeira edição, há muito esgotada, era de 1962).





Com excelente acabamento gráfico, a presente edição abre com uma nota da editora, referindo a intrudução de algumas emendas deixadas pelo punho do autor, assim como um glossário final e várias fotografias tiradas em 1954, no dia da homenagem a Wenceslau de Moraes (o peregrino a que o livro se refere), realizada no Japão, sob os auspícios do embaixador A. M. Janeira.

Esta edição, que se deve ao empenho da Srª D. Ingrid Bloser Martins, viúva do embaixador, foi ainda enriquecida com um prefácio da Drª. Paula Mateus, estudiosa da Obra de Martins Janeira, em que é explicitado o contexto em que “Peregrino” apareceu: “...partindo da descrição de um acto simbólico – a inauguração em Tukushima, no Japão, de um monumento a Wenceslau de Moraes. Estamos em 1954. Passam cem anos sobre o nascimento de Moraes, e vinte e cinco anos sobre a sua morte. // Armando Martins Janeira, o maior estudioso de Wenceslau de Moraes, escreve neste ano O Jardim do Encanto Perdido, publicado em 1956, e o pequeno Peregrino, que chega ao leitor apenas em 1962”. Sobre o resto do conteúdo do livro, a prefaciadora acrescenta: “…em Peregrino encontramos ainda a silhueta de Moraes, mas essa silhueta serve a Armando Martins Janeira para outras páginas, cheias de delicadeza e sensibilidade, sobre todo um sistema filosófico e religioso que então o fascinava – o budismo zen”.

Em última instância, esta ideia de “Peregrinação” paira, desde Fernão Mendes Pinto (séc. XVI), sobre os homens (portugueses) que foram a essas longínquas paragens do Japão. Talvez pela longa distância da viagem, ou pela viagem interior que a ela se associava.  Assim, terá acontecido também com Wenceslau (séc. XIX-XX), a quem A. M. Janeira foi buscar o título do livro, que assim começa: “Para poder entrar no Céu pelas piedosas mãos de Buda, Wenceslau de Moraes despiu-se do seu nome português e recebeu o Kaimyo, nome de morto, de Soukou Inden Hensou Bunken Daikoji, que magnificamente quer dizer: peregrino escritor habitante de um iluminado castelo de algas – algas movediças, sugerindo a vida de marujo e aventureiro”.

O resto deixamos para os nossos leitores mais curiosos. Alguns dos quais já se terão perguntado: mas quem é este Armando Martins Janeira? Pois… se calhar já passaram pelo seu busto, de bronze, no largo da Corredoura, em Torre de Moncorvo, e ainda nem repararam no seu nome… O mesmo perguntarão sobre Wenceslau de Moraes. - Tentando responder ao quem é quem? aqui ficam uns breves apontamentos, retirados das badanas da capa do livro “Peregrino”:

Armando Martins Janeira [mais precisamente Virgílio Armando Martins, nome a que acrescentou o apelido de sua mãe – Janeiro – e que transformou depois em “Janeira”, porque era assim que os japoneses o pronunciavam] nasceu a 1.09.1914 em Felgueiras [Torre de Moncorvo] e morreu a 19.07.1988, no Estoril.  Formado em Direito pela Universidade de Lisboa, cedo abraça a carreira diplomática, representando Portugal em capitais como Sydney, Tóquio, Bruxelas, Roma e Londres. É o grande responsável pela reactivação das relações luso-japonesas no séc. XX. Nas suas mais de vinte obras publicadas, destacam-se os estudos comparativos sobre o Oriente e o Ocidente, nomeadamente O Impacto Português sobre a Civilização Japonesa e Japanese and Western Literature.  Foi biógrafo de Wenceslau de Moraes”.  – Sobre este, aqui fica:

"Wenceslau de Moraes nasceu a 30.05.1854, em Lisboa. Estuda o curso de marinha e dedica-se a oficial da marinha de guerra, tendo feito inúmeras viagens pela América, África e Ásia. Após cinco anos na China, fixa-se no Japão. É cônsul de Portugal em Kobe e Osaca. Aos 59 anos retira-se para Tukushima, uma pequena cidade de província, e aí viverá até à sua morte, a 1 de Julho de 1929.  Escreveu primorosos ‘livros de costumes’, onde retrata a vida e a alma do povo japonês.  O Bon-Odori em Tukushima e O-Yoné e ko-Haru são dois dos seus livros mais admiráveis”.

_____________

Para saber mais sobre o nosso conterrâneo Armando Martins Janeira e também sobre Wenceslau de Moraes, recomendamos uma visita ao site: www.armandomartinsjaneira.net > está na coluna do lado direito aqui do Blog (secção “Ligações”), ora veja!

Se ficou mesmo interessado(a) em conhecer ainda mais sobre o embaixador Janeira, então vá ao Centro de Memória de Torre de Moncorvo (uma extensão da Biblioteca municipal), e veja a sala do Legado deste moncorvense ilustre, onde encontrará uma exposição de vários objectos pessoais, fotografias, manuscritos e a sua fabulosa biblioteca, que os seus herdeiros, especialmente a Srª Embaixatriz Ingrid Bloser Martins, fizeram questão de deixar a Torre de Moncorvo, gesto digno do nosso maior apreço. A parte da documentação manuscrita está guardada no Arquivo Municipal de Cascais, onde o casal Bloser-Martins Janeira residia e onde o nosso conterrâneo faleceu.

 

Biblioteca de Armando Martins Janeira, no Centro de Memória de Torre de Moncorvo - foto de autoria da Biblioteca Municipal de T.Moncorvo, in: www.armandomartinsjaneira.net

Em 1985 o embaixador Armando Martins Janeira foi alvo de uma homenagem colectiva a vários moncorvenses ilustres, promovida pelo município. Em 1994 foi feita uma pequena exposição sobre a sua vida e obra, no solar do Barão de Palme, por ocasião da inauguração do busto na Corredoura (iniciativa da Associação Cultural de Torre de Moncorvo com apoio do Município). Em 1997 reeditou-se essa exposição, com maior amplitude (e em colaboração com o Arquivo Municipal de Cascais e D. Ingrid Martins), no Museu do Ferro & da Região de Moncorvo, sendo inaugurada pelo então Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio. Em 2004 foi-lhe ainda feita uma singela homenagem na sua terra natal (Felgueiras), aquando da reedição do livro de contos "Esta dor de ser Homem", por iniciativa da Comissão de Festas local. 


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Ilustrando as "Páginas de Caça"...

A propósito do livro da caça a que o Rogério faz referência, aqui postamos mais uma foto da famosa caçada à raposa (ver o "post" de 25 de Novembro de 2008, neste blog), a qual nos foi gentilmente cedida por Leonel Brito:


Esta foto completa a anterior, tendo sido tirada no mesmo dia, algures na Serra do Roborêdo, nos finais dos anos 50 ou inícios dos anos 60 (agradecemos a quem souber a data exacta).
Na foto anteriormente "postada" estão os restantes caçadores, enquanto nesta estão só os organizadores e as autoridades, de que reconhecemos (entre os civis), de pé e ao meio, o Sr. Frederico Mesquita (de chapéu), e em baixo, de joelho em terra, à caçador, os Srs. Durão, Edmundo Garibáldi e César Martins.
Estas caçadas tinham que ser devidamente legalizadas e eram enquadradas pelas autoridades, neste caso a GNR (vemos dois soldados desta força a ladear os civis, de pé, e ao meio, e outros dois do lado direito - distinguem-se pelo barrete) e, julgamos nós, pela Avenatória (serão os restantes guardas com boné diferente, dois dos quais segurando espingardas Mauser).
A organização era perfeita e até se davam ao luxo de mandar vir um fotógrafo do Porto, da casa Fotobela, com sede na R. de Santa Catarina, nº 190, como consta no verso da foto, para as fotografias de conjunto, seguramente tiradas com tripé e, talvez, uma máquina de médio formato, atendendo à excelente qualidade das fotografias.

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