Saiu recentemente do prelo e em breve chegará às livrarias, o novo livro da nossa colega de Blogue, Doutora Isabel Maria Fidalgo Mateus, professora da Universidade de Liverpool.
Aqui ficam as imagens da capa e da contracapa, e respectivas badanas, onde se poderá saber mais sobre a autora e a sua obra (clicar sobre as imagens para as ampliar):.bmp)
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
"O trigo dos pardais" - novo livro de Isabel Fidalgo Mateus
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
"O relógio mentiroso" - um conto de Isabel Mateus
- Ó avó, não se esqueça da minha encomenda!
- Não me esqueço, não te aflijas! Só se não os houver… – respondia-lhe a avó pela milésima vez.
O dia de Feira requeria aos habitantes das Quintas uma jornada pensada de véspera e, mormente, muitas horas de preparação para o bom sucesso de tal evento. A Serra apenas olhava para o Vale, tentava-o e espreguiçava-se na sua inércia. Ela só convidava com as suas curvas proeminentes, depois quem quisesse que se esforçasse para descobrir os mistérios que vedava. Do outro lado, demasiado ao fundo para as patas das bestas e dos homens, só bem no seu cume se antevia a azáfama dos camponeses e do seu gado.
A subida pelos lados da olga do Paralta, por entre os soberbos castanheiros a ladearem o carreiro, tinha-lhes tirado o fôlego a eles e às animálias, ou a ambos. Não seria certamente apenas pelo ar puro da alva, mas pelo esforço de uma boa hora de caminhada. A partir do alto do Reboredo tudo era muito mais simples! “Pra baixo águas correm e todos os santos ajudam”, expressão que saía amiudadamente da boca da avó, não sei se para se animar, se para insinuar que ir à Feira a pé ainda custava muito mais do que aos homens escarranchados na cavalgadura e às mulheres sentadas de lado, num equilíbrio periclitante de saias. De pulmões cheios do bafejo da Serra e olhos postos na torre da igreja, o pensamento desviava-se para o apregoar da Corredoura. O caminho de terra batida da floresta, com manchas de cores variegadas na folhagem do arvoredo, refreava-lhes a descida e quase embatia no imponente Asilo, onde se resguardavam da aragem e dos lobos as freiras, o capelão e as meninas. Quando aqui se apeavam dos burros, machos, éguas, mulas ou cavalos e os deixavam com o rabeiro comprido, dependurado de ramo forte ou tronco rijo, e a regozijarem-se no fenasco, os iminentes negociantes largavam definitivamente as arreatas. Depois, matavam a sede nas grichas do fontanário de Santo António e refrescavam as frontes, se o calor já apertasse, como faziam lá na fonte lajeada ou poço bravio da sua terra. Levavam ao lado deles, pelo seu pé, os leitõezinhos que haviam transportado no aconchego dos cestos vindimeiros, à moda de cangalhas, e bem travados no seu baloiçar pela meia-lua do arrocho. Cada um fazia a sua entrada triunfal e ocupava o lugar que lhe estava destinado. Afinal era um fórum comercial com regras e demarcações: porcos e bestas de carga arrumados de costas voltadas para a escola primária, mesmo em frente da capela do Mártir São Sebastião e a toda a extensão do lado oposto do largo espraiavam-se ovelhas e cabras e também alguns tendeiros e jogadores de caricas, que fariam agora companhia ao busto do Embaixador A. M. Janeira. Mas havia, inclusivamente, quem não largasse os transportadores dos fardos, de quinteiros e do vivo, entenda-se, e se atrevesse, por ruas mais esconsas, como as do actual Museu do Ferro, a penetrar acompanhado aquele espaço comunal. Junto à feira dos porcos, o Porteiro camarário recebia as cavalgaduras, alguns tostões pelo zelo que punha na sua guarda e na manutenção da ordem entre a bicharada quadrúpede de grande porte, quantas vezes só conseguida à custas dum potente e nodoso varapau. Ao gado ovino e caprino estava-lhe inteiramente destinado o estrelato, deslocando-se sempre a pé pela imensa passadeira áspera desde que de manhãzinha os donos lhes tinham descerrado as cortes . Sem outro aparato que não fosse o balido manso e o suave tilintar dos chocalhos, as ovelhas caminhavam pachorrentamente por entre aquela mansidão harmoniosa, que se misturava na massa dos feirantes, em ondas lanudas, no Inverno, ou desnudadas e singelas, por alturas da Primavera e do Verão. Destacava-se tão somente daquela amálgama o berreiro esquivo das cabras ou a correria desesperada das crias à procura do leite das progenitoras. A Tasca das Trevonas alojava-se sobranceira às paredes da casa da aula e distribuía, ao longo do dia, peixes fritos ou sardinhas assadas em moletes e pataniscas de bacalhau, tudo regado a bom vinho para afrouxar a rouquidão que o pregão contínuo e o pó do grande afã avivavam. Para refrescar não faltava ainda o pucarinho aguadeiro da Cachopa, de cântaro ao quadril a bambolear gotas por chamariz entre a multidão.
Na altura em que se deu o acontecimento de que aqui falamos, os tempos já eram outros. Naquela manhã, a avó sumiu-se no cordão estreito de terra castanho-avermelhada que conduzia Valente acima. Alcançou o topo das Minas, desceu o desfiladeiro e prendeu o Ruço ao tronco do castanheiro, a uns bons metros da estrada nacional do Carvalhal. Sacudiu o pó dos sapatos com uma giesta e apanhou a camioneta da carreira. Os anos já não lhe permitiam as duas horas de ida e as duas horas de volta da expedição, quando não vendia a mercadoria que outrora levava. E isso não raras vezes acontecera! Com os porquinhos assim a grunhir dentro dos cabazes pela exposição ao frio do longo do dia, limitava-se a seguir a andadura do burro, também mais lenta pelo cansaço acumulado. Refastelada no seu assento, a sua preocupação era, presentemente, outra. Tudo aquilo lhe vinha como se fossem meros “Farrapos de Memória”.
Tinha prometido à netinha que lhe levaria o relógio. Antes que tivesse tempo de congeminar o plano para mercar o que desejava, já o veículo penetrava um dos estreitíssimos acessos que conduziam à praça. Apeou-se ao cheiro das buganvílias, muito enroscadas ao sol e aos muros do Castelo, e dirigiu-se ao local da feira. Ali não havia empedrado e a proximidade do chão de terra ganhava-lhe a sua confiança telúrica. Afoita e bem decidida, quis saber se o dono da primeira tenda tinha a mercadoria que ela procurava.
- Ó senhor homem, tem relógios mentirosos?
- Relógios mentirosos?! – inquiriu ele muito espantado. Os meus relógios não mentem, dão sempre horas certas, desde que não lhe falte a corda. Ó mulher, eu não vendo gato por lebre!...
- Não se zangue! É para a minha neta, para brincar! – respondeu de cara alegre e de riso escancarado nos lábios.
- Ah!, desses!
E o feirante, sorrateiro, foi entrando na conversa da velhota.
- Tinha. Até tinha muitos, mas veio aí o senhor da farmácia e levou-os por junto.
Num repente, tudo se iluminara. Mal agradeceu e se despediu, subiu de novo a rua íngreme, infiltrou-se por uma das artérias da praça, rumou em frente e cortou à direita. Estava às portas do velho edifício da botica. Entrou e, como acontece normalmente em dias como este, o estabelecimento estava à pinha. Teve que esperar pacientemente, até que a sua vez de ser aviada também chegou.
- Diga lá o que precisa de nós!
Muitas pessoas já tinham sido atendidas, mas o vaivém era contínuo.
- Disseram-me que têm relógios mentirosos. Quero um!
A empregada, pasmada, não acertava no que havia de dizer, até que por fim lá balbuciou:
- Ó Srª Candinha, quem lhe disse tal coisa não foi a sério!
Na sua inocência, a aproximá-la de novo da infância, deu uma risada e atirou num tom de caçoada íntima:
- Bem me admirei que vendessem relógios na farmácia, mas saiba que é para a minha netinha. Bem vê, não lhe posso aparecer de mãos abanar…
A empregada limitou-se a finalizar com um “tenho muita pena” e continuou na senda da sua avultada clientela. Por sua vez, em forma de desforra, a velhota saiu decidida na perseguição da sua busca, resmungando para os seus botões, aliviada, que ela não precisava para nada daquelas mixórdias medicinais.
Com este intuito, volveu à confusão do mercado. Passou de novo pelo mesmo vendedor ambulante e, sem dar a mão à palmatória, foi percorrendo com o olhar quantas barracas a abarrotar de mercadorias encontrou montadas e parou naquela que mais lhe pareceu, ao primeiro impacto, interessar – uma pequena bancada de brinquedos. Por entre ferrinhos de engomar de latão reluzente, com tampos de plástico colorido e aferrolhados por galinhos de cristas romanas, utensílios de cozinha e de regadores de crivos perfilados, o seu olhar negro, brilhante e inquiridor fixou-se em sete ou oito daqueles relogiozinhos multicolores, onde balançavam dois grandes ponteiros no mostrador redondo, igualmente garridos, e no qual se percebiam os desenhos indistintos de uns bonecos. Também tinha o tal roquete para dar corda e acertar as agulhas de que a neta lhe falara. A bracelete azul cintilante seria o contraste perfeito com a alvura do pequeno bracito, onde esta permaneceria noite e dia. Maravilhada e sem se questionar acerca do preço, coisa invulgar para a sua natureza de negociante de talho, de fruta, de feijões e tudo o que pudesse dar lucro, pagou e abalou. Ainda deu uma olhadela à procura de merino preto para fazer um avental novo, mas nem para isso teve paciência! Sem hesitações, regressou outra vez à praça, foi à Repartição pagar a contribuição dos prédios e voltou a montar na camioneta. O Ruço esperava-a coberto de poeira, por se ter espojado depois que escarvou a terra. Fora esta a maneira mais eficaz que encontrara para enxotar as moscas e os moscardos que lhe sugavam o sangue. Àquela hora adiantada do dia o préstimo do rabo e as abanadelas das orelhas teriam sido insuficientes e, como tal, recorreu ao instinto, rebolando-se no solo arado. Mais protegido do mosquedo, melhor consentiu o peso da proprietária que o conduziu, carreiro acima e monte abaixo, ao descanso e ao punhado de trigo da manjedoura.
- Traz-me o que lhe encomendei, avó?
- Não. Afinal, não encontrei o que tu querias…
- Está a brincar comigo!? Eu sei muito bem que mo trouxe!Os montes cobriam-se de sombras, a penumbra começava a habituar-se ao vento fresco da noite, que já soprava forte, e as duas sentaram-se ao lar na companhia dos estalidos das cascas dos pinhos. A avó mostrou-lhe o relógio mentiroso quando o último rebentamento do revestimento húmido da lenha se soltou no ar e originou um estrondo magnífico.
terça-feira, 10 de novembro de 2009
Recolha de rochas
Esta colheita de cogumelos fez-me recordar uma outra, mas de pedaços de rochas para colocarmos num determinado tabuleiro e depois aprendermos a classificar.
Foi o Dr. Ramiro quem ordenou a recolha, porque a turma era "bem mandadinha", miúdos e miúdas não só da vila, mas de uma dúzia de aldeias em redor, muito aplicados, atiladinhos, etc. etc.
O Dr. Ramiro gostava mesmo da turma e queria que fizéssemos um brilharete no dia em que o Sr. Inspector vinha inspeccionar o Colégio.
No Domingo que se seguiu, na vila e em muitas aldeias, só se via a miudagem de martelo na mão, à cata de encontrar uma pedra fora do vulgar. Eu e mais duas colegas andámos pelas rochas recém-cortadas do que viria a ser o campo da bola de S. Paulo. Tinham uns veios oblíquos com umas cores ocre, vermelho, castanho que achámos uma beleza.
Os cachopos das aldeias todos trouxeram o seu pedaço de rocha. Só um rapaz se esqueceu completamente. Prometeu trazer no dia seguinte.
Então colocámos as pedras no dito tabuleiro, em cima de um papel em que havíamos escrito o nosso nome, o local onde a pedra fora encontrada, a data, e em seguida tínhamos de observar muito bem, cheirar, riscar com a unha, raspar, etc. etc.
Na aula seguinte, o aluno-cabeça-no-ar voltou a esquecer-se . O Dr. Ramiro, muito zangado, ameaçou que o não deixava entrar se não trouxesse o diabo da pedra. Nós todos, debruçados sobre os calhaus, bem cheirávamos, raspávamos, até provávamos para começar a classificar , mas só com a ajuda do professor é que íamos acertando. Repetimos várias vezes e já sabíamos a cantilena de cor e salteada. Podia vir o Sr. Inspector.
E na aula pré-concertada lá estava ele. Entrámos, mas o aluno-cabeça-de-alho-chocho que, mais uma vez se esquecera da pedra, nem se atreveu a entrar. Deu meia volta a correr, regressou uns instantes depois com um paralelipípedo nas mãos que depositou em cima da secretária.
O Dr. Ramiro perdeu a fala de tão furioso que ficou ! Pegou no paralelipípedo, dirigiu-se à janela e zás , atirou-o à rua. O estrondo que fez foi enorme. Uma coisa estranha, de meter medo ! A miudagem estava em pânico, o inspector e o Dr. Ramiro espreitaram ... O pedregulho tinha caído no tejadilho do carro do Sr.Inspector.
E quereis saber quem era o aluno-cabeça-no-ar? Quem havia de ser ? O Urgel Guerra.
Uma jóia de moço que já não está entre nós. Mas ainda ríamos à gargalhada quando, em Mogadouro, recordávamos esse episódio.
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
A Prova de Ferro - III (conclusão)
A ecolocação dos mamíferos voadores precipitava-nos também a nós na proximidade do rumor mais lento e esmorecido da concavidade donde o desgraçado do quadrúpede expiava há vários dias os castigos da fome, da sede, do abandono e da crueldade.- Mal posso acreditar!... É o Farrusco, o velho Farrusco da Ti Prazeres!
- Coitado!, livraram-se dele. Quem comprou o rebanho não o quis levar.
- Pois foi! – lembrou a Candinha que estivera, até então, muito calada.
Parece que ele também só dava mostras de nos conhecer pelo júbilo da cauda. Os olhos semicerrados pareciam os dos morcegos que, um a um, se iam filando, pendurados pelas patas, no emparedado lateral escuso e no tecto da caverna alheados do rumor a que se tinham vindo a habituar desde a visita forçada daquele intruso. Imperturbáveis, digeriam a enchente de insectos, que se avizinharam das águas estagnadas da represa, ou algum anfíbio rugoso e desprevenido, durante a sua acostumada romaria por aquelas bandas. Escanzelado, as costelas do Farrusco desenhavam-se-lhe no ventre e as patas traseiras recusavam-se a suster-lhe em pé a pele e os ossos. No fundo da cova onde se tinha despenhado faziam-lhe companhia outras carcaças antigas completamente descarnadas. À sua volta, estas apenas alumiavam melhor a sua magreza!
- O Farrusco está ferido. Reparem no sangue empastado na perna bamboleante, do lado direito!...

Ao evedenciá-lo, Candinha quase se precipitava no buraco.
- Vamos tirá-lo já dali! – disse o Júlio decidido.
O rapaz tinha-se esquecido do ressentimento do animal perante a desumanidade dos homens e antes que se aproximasse dele foi preciso que as suas palavras doces lhe aquietassem o temor de uma nova traição, quando este lhe arreganhou os dentes em atitude defensiva.
- Deita, Farrusco! Deita! Eu vou buscar-te.
Com o Zé a pegar-lhe nos membros da dianteira e o júlio a segurar-lhe a parte detrás, puseram-no dentro do vagão desconjuntado, no qual se tinha dado o primeiro embate da queda. Depois, içaram-no em braços e galgaram o fosso. As raparigas apaparicaram-no com muitas festas e o cibo de pão guardado no bolsa da saia.
Em sinal de cooperação, o velho Farrusco queria parecer dizer-nos que se aguentaria serra abaixo. Afinal, palmilhara-a vezes sem conta! E, por causa disso, a Josefina olhou-o enternecida.
- Só podemos fazer isto de duas maneiras: descermos a encosta, num saltinho, e falarmos com o Professor ou irmos serra abaixo, um estirão, com ele ao colo. – opinou o Zé.
A Josefina achou muito melhor que nos encaminhássemos para o povoado. A Ti Betrenária lá daria conta do recado.
Assim se fez, para bem do Farrusco e alegria de nós todos!
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
A Prova de Ferro - II
O itinerário da próxima visita guiada empurrou-nos desta vez serra acima, em direcção à Ferrominas. Galgámos o estreito carreiro, que conduzia ao cume do monte, e aí iniciámos a exploração na nossa aula de Ciência Viva. Era evidente aos olhos de todos que o matagal começava a abondar por entre o esquecimento da exploração mineira. Por isso, as feridas abertas no ventre da montanha estacavam e iam cicatrizando em circunscrição mais apertada. Talvez por essa razão o som cavernoso que soou do subsolo nos tivesse atingido os tímpanos e a alma num clamoroso sofrimento.
- Donde vem este gemido?
- Será o latido de um cão ou o uivo de um lobo?
- A mim parece-me um cão!
Cada elemento do grupo tentava assim clarificar a situação, mas o esclarecimento do Professor não nos deixou na dúvida. Aquela era outra das formas encontradas de se livrarem do animal indesejado por velhice, doença ou algum acidente cinegético. Acorremos curiosos ao local donde provinha o barulho. Espreitámos, em vão, pela estreita abertura, rodeada por pequenos tufos de erva e vergônteas de giestas à mistura. Dali não se vislumbrava o mais pequeno clarão, nem se podia adivinhar a dimensão da profundidade da galeria. Não era só o cão que supostamente se encontrava encurralado, também nós pressentíamos a impotência de poder chegar perto do bicho.O Professor, conhecedor daqueles domínios, meteu-nos encosta abaixo e abriu-nos a cavidade de uma grande caverna. O terreiro ao seu redor permanecia um queixo limpo e de lisura irrepreensível de fêmea. Enfiámo-nos por ela adentro com os ossos enregelados da frescura íntima das entranhas de fraguedo e terra. Sem atavios que nos iluminassem e protegessem de alguma iminente derrocada, o Professor ordenou-nos que não avançássemos. Seguindo as pisadas dos velhos carris abandonados, sem vagões que os transportassem a eles ao fundo longínquo do túnel ou a nós de volta até à saída como dantes acontecia com o minério, ficámos ali especados e completamente imbuídos na semi-escuridão. Num repente, o brado do pobre animal chegou-nos novamente tal e qual o refluxo instantâneo e veloz de uma combustão explosiva de gases. Escutado de dentro da caverna, o bramido tornava-se lancinante.
- Vamos seguir o eco e procurar o pobrezinho! – implorou a Josefina.
- Impossível! Nunca o encontraríamos…
- Mas porquê?
- Olha além mais para a frente! Temos já ali duas narinas que nos conduziriam a sítios muito distintos e distantes…
- Vamos tentar! Vamos…
Sem perder a paciência, mas com visível consternação, diz-lhe para tomar atenção ao respiradouro; uma espécie de chaminé esguia, que ligava o interior da galeria à impoluta
respiração de fora. Explicou-lhe que havia vários daquele género na continuidade do subterrâneo e que nem todos estavam tapados como este. Em seguida, olhou-a nos olhos, com firmeza, e disse-lhe:- Pode ter sido empurrado por qualquer um destes respiradouros, não percebes?
Avizinhava-se a tarde e quando o pôr-do-sol descaía no horizonte banhado de montanhas escuras, passou um morcego que fustigou, com as suas asas abertas, o rosto de Josefina. Aquele roçar inesperado das membranas das mãos volantes petrificou-a. Felizmente, o Mestre exclamou a tempo:
- Quando eles regressarem, pela manhã, do seu esconderijo diurno, lá para os lados da barragem de Vale de Ferreiros, serão o melhor guia para chegar até ao covil!
Ia Josefina perguntar se havia mais, mas ficou queda e muda: uma revoada de microquirópteros deslumbrou-nos a vista, ao mesmo tempo que nos fez baixar instintivamente as cabeças.
- Mas temos de ir andando, que se faz muito tarde! – avisou o Professor mais assustado pelo adiantado da hora do que pelos morcegos.
(continua)
Por: Maria Isabel Fidalgo Mateus
Fotos: N.Campos
A Prova de Ferro - I
Recebemos, para postagem, mais um conto recente e inédito, da nossa parceira de blogue, Isabel Mateus. Tem por cenário as minas de ferro de Moncorvo, que se avistam nesta foto, ao longe:
Cenário do conto. Ao fundo, do lado esquerdo, a serra do Roboredo, onde se localizam as minas de ferro da Carvalhosa; ao centro a ribª. de Santa Marinha (foto de N.Campos)
O nosso professor levava-nos, uma vez por outra, por montes e vales e esgalgados ribeiros. Dizia ele que era importante conhecermos o sabor daquela beleza com os demais sentidos. O relancear dos olhos não lhe bastava. Mais tarde, a nós também não!
Pela manhã, calcorreávamos as redondezas, descíamos os desfiladeiros com as solas dos sapatos presas ao cascalho e depressa mergulhávamos as mãos nos regatos cristalinos que irrompiam pelas pedrinhas xistosas, puídas, muito finas e lisinhas. Mas num desses passeios deparámos, subitamente, com um cachoeirão de água funda. Este estava encavalitado sobre conchas enormes de rocha e rodeado por uma profusão de silvas-machas, cujo veludo verde-claro dos fetos alcatifava e o escuro das junças pontiagudas de novo espicaçava. As águas jorravam barulhentas, em redemoinhos numa reflexibilidade distorcida da harmonia do azul do ar, da brancura dos novelos de lã do céu e do canto dos pássaros. Foi ali sentados que descansámos da longa caminhada. Nisto, o Júlio não se conteve e perguntou:
- Qual é a serventia deste poço?
- Então não se vê logo que é para o gado beber?! – reclamou o Zé, muito seguro da sua resposta.
- Mas para isso bastava o ribeiro! Assim até as cabras e as ovelhas lá podem cair e depois não conseguem sair – retorquiu de novo o Júlio.
- E se ninguém as tirar a tempo, podem afogar-se – observou conscienciosamente a Candinha.
- É verdade, sucede o mesmo aos cães grandes quanto mais aos cachorrinhos!...
Esta sentença de morte veio da parte do Professor. Aí nós, os garotos, não nos contivemos:
- Os cachorrinhos?
O Professor, com a calma que pôde e a que já nos habituara, contou-nos que as cadelas pariam muito. No tempo em que havia mais ovelhadas e cabradas a mortandade era menor, porque se precisavam de mais patas e ladradelas para juntar as reses tresmalhadas por algum pasto muito apetecido, se bem que proibido, para as conduzir às cortes e caçar alguma lebre ou caçapo e levantar alguma perdiz. Agora estas continuavam a procriar e não se sabia o que fazer a tanta cria! Em vez de andarem cheios de fome, porque os montes estavam cada vez mais secos e a caça e o soro diminuíam, decidiam botá-los ao lago. Traziam-nos à socapa, quando a mãe sacudia as tetas moles e sem leite, após a mamada da manhã. Abafados os ganidos de recém-nascidos num saco de lona grossa para não saberem o caminho de volta, transportavam-nos assim às costas e ali os deixavam. Arrepiava-os o primeiro contacto com a limpidez fria das águas, contudo o instinto abria-lhes os olhos e movimentava-lhes as patas ao encontro coordenado do ritmo ondulado da queda de água. Frágeis e pequeninos, o mesmo impulso inato imobilizava-os com a desculpa da fadiga. Se a progenitora não os tivesse seguido, o que por milagre esporadicamente tinha lugar, morreriam afogados. Não havia outro fim possível à vista!
O regresso à escola para a hora do almoço arrastou-se penoso devido àquele relato arrepiante, pelo cansaço das pernas encosta acima e a fome, que também não transmitia força a nenhuma parte do corpo. Excepcionalmente guicha e iluminada, a imaginação de cada um de nós não parava na tentativa de rememorarmos a cena dos pequenos caninos. Muitas versões flutuavam nas nossas cabecitas, coincidindo quase todas no final feliz do salvamento, até que o povoado e a própria casa da aula se nos meteram pela frente.
(Continua)
Por: Isabel Maria Fidalgo Mateus
domingo, 27 de setembro de 2009
SOPAS DE CAVALO CANSADO
SOPAS DE CAVALO CANSADO
Ora, em maré de galináceos, de poleiros e de eleições, aí vai mais uma estorinha de burros.
Era uma vez um belo burrico ruço, já não muito novo , mas que ainda trabalhava no duro, porque percebia perfeitamente que, se nem sempre a manjedoura era de primeira, isso só acontecia, porque a dona velhota não podia dar-lhe melhor. A dona nova esfalfava-se a trabalhar e ele, Ruço, alombava com carradas de lenha para fazer “andar o forno”, carregava enormes sacos de pinhas para vender na Vila e, no verão quando todas as aldeias estavam em festa,
o Ruço sabia que, Sábados e Domingos, em vez de descansar como manda a lei e a Santa Madre Igreja, lá tinha ele de carregar os cestos de amêndoa coberta - arrobas de amêndoa coberta - mais a tábua e as pernas da mesa que as donas armavam no largo da capela, para as bandas do coreto e, de há dois anos para cá, ainda tinha de carregar o cestinho onde dormia a dona mais pequenina. Mas essa nem contava como peso. Era só um contrapeso...
Os caminhos é que eram carreiros de cabras e não sendeiros para burros. E léguas a calcorrear, que trotar já não era com ele .
- Amanhã vamos partir bem cedinho, para não apanharmos a força do calor. Eu já ando tão devagar , filha...
- E eu também - dizia o Ruço e a menina ria para ele. Só ela é que entendia o que o burrico dizia.
- Estás a rir-te? É que tu não vais à pata – dizia a mãe, feliz por ver a filhita a rir.
- Pois não. Vai às minhas cavalitas – o Ruço piscava o olho e a menina , que, no seu caminhar ainda bamboleante, vinha fazer-lhe uma festinha . Só lhe chegava ao joelho. As carícias daquela mãozita eram mimos que o Ruço agradecia com o olhar e ficava muito quieto, com receio de mexer alguma pata e ferir a miúda.
- Vá, senta-te para eu te lamber a mão. Eu sei que tu gostas. – Com uma risada a pequenita sentava-se.
- Aqueles dois até parece que se entendem. – comentava a avó.
- Elas nem sonham que nós nos entendemos. Dá cá a mão. Vamos à lambidela. E agora dormir, que amanhã são cinco léguas até ao Cabeço. É longe p’ra burro, salvo seja, que eu já devia estar a gozar a minha mais que merecida reforma.
A avó ia-se lamentando enquanto se deitava : - Eu já sou um estorvo.
- Não diga isso, mãe. Bem sabe que preciso de si, para tomar conta da menina.
- Pois é, filha...Vamos lá dormir umas 4 ou 5 horitas.
(Ler mais...)
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sexta-feira, 28 de agosto de 2009
Mais um conto de Júlia Biló: O ZÉ LEITINHO
Não sei se alguém em Moncorvo se lembrará ainda do Zé Leitinho, José Leite de seu nome oficial.
Magrinho, de altura mediana, pele macilenta, cabelo preto liso, risco ao meio e empastado de brilhantina para se manter fixo no seu devido lugar. Sempre vestido de fato preto, lustroso de tão coçado, pastinha preta debaixo do braço.
Creio que era funcionário menor da Câmara, talvez cobrador.
Também lhe calhava ir à Corredoura. Então aí, à roda do Zé Leitinho, juntavam-se as meninas da Corredoura que, ao tempo, eram as filhas da Sra. Camila Miranda, da Sra. Rosalina Mesquita, a Menina Alcina, jovem esposa do Sr.Todu, a Menina Gininha Galo (já não muito jovem) , as filhas da Sra. Delmina Terceira, a Menina Natalina, a Menina Idalina e ... não sei se me esqueci de mais alguma. Depois a roda alargava-se com mais algumas mulheres e , obviamente, a canalhada não podia faltar.
Nesta última faixa encontrava-me eu. Furávamos entre as pernas das pessoas (já uma pequena multidão) para chegarmos à frente e não perder pitada.
As filhas da Sra. Rosalina e da Sra. Camila pediam, suplicavam ao Zé Leitinho que lhes cantasse o “Passarinho da Ribeira”. E insistiam : “A sua voz é maravilhosa” , “Canta que nem um rouxinol” . “ Não , não canto. Por favor, não peçam mais” . “Se for preciso, peço-lhe de joelhos” . E uma mais atrevida pôs logo os joelhos em terra e, de mãos postas : “ Por favor, cante. Não nos faça sofrer mais “ .
E o Zé Leitinho atrapalhado - até o cabelo começava a fugir do seu arrumadinho lugar - queria sair dali, mas a roda apertava-se à sua volta.
Finalmente cedia em cantar “Só uma. Só uma e mais nada”. Fazia-se silêncio e o Zé Leitinho esticava o pescoço, pigarreava, olhava para o céu, fechava então os olhos e soltava a sua voz : “Passaaaarinho da Ribeira / Não seeeejas meu inimiiiiigo ... “ Aqui começava uma das Meninas a ficar sem forças, encostando-se a outra e mais outra que começava a desmaiar... e o Zé Leitinho, embebido na canção que existia na sua cabeça e não sabendo que a desafinação era completa, continuava “...Empreeeeesta-me as tuas aaaasas / Deixaaaaa-me ir voaaaaar contiiiigo...” Por esta altura, tinha de abrir os olhos , porque os “ais” das Meninas eram já muitos e os desmaios tantos que algumas iam a correr buscar água para deitar na testa das que haviam desmaiado e estavam nos braços de outras que fingiam chorar .
A aflição estampava-se na cara do Zé Leitinho que, em lágrimas verdadeiras, dizia confuso: “ Eu não queria cantar. Eu sei que a minha voz provoca este efeito nas jovens. Oh, Deus me valha! “ Lá conseguia que lhe abrissem o cerco e, tirando o lencinho branco que espreitava do pequeno bolso do casaco, fugia limpando a testa e a cara.
As Meninas em desmaio recuperavam de imediato e as lágrimas que agora lhes assomavam aos olhos eram das gargalhadas que o Zé Leitinho já não ouvia.
Eu era muito pequenita e até sentia pena do Zé Leitinho . Mas tenho de confessar que nunca ouvi voz tão desafinada. E mais, em alguém que não tinha a mais leve ideia da sua desafinação.
NOTA – Penso que o Lelo sabe outras estórias do Zé Leitinho.
Por: Júlia de Barros Guarda Ribeiro (Júlia Biló)
sexta-feira, 15 de maio de 2009
"O Gigante da Lua" - mais um conto de Júlia Biló
Penitenciando-nos pelo facto de, neste blog, termos vindo a descurar os mais novinhos, tentando corrigir a falta, então aqui fica este conto que nos foi enviado por Júlia Biló, com ilustração de sua neta Catarina - e isto ainda a propósito da Fraga do Facho, onde continua a "nascer" a Lua, embora já sem o gigante:
- Porquê, avó? - perguntou a Catarina.
- Naturalmente, porque precisava de dormir um sono grande. Porém, passados sete dias de repouso, lá aparecia ele sobre a fraga, como uma foice fininha , mas desta vez virada ao contrário.
Mas lindo a sério era em
- Mas agora o gigante já não está lá - disse desconsolada a Inês.
- Pois não, meu amor. Muitos pais foram para grandes cidades e até para outros países trabalhar. E os netos, quando vinham no verão ver os avós, diziam que nunca tinha havido gigantes. Ligavam a televisão e ficavam horas a ver filmes tontos de que as avós não gostavam ou iam para o computador e jogavam jogos que as avós não entendiam. E as avós deixaram de contar a história do Gigante da Lua que morava na Fraga do Facho.
Ficou tão triste, que se encolheu todo a chorar. E, numa noite de lua em quarto crescente, não apareceu em forma de foice fininha. E depois nunca mais brilhou nas noites de lua cheia.
Só ficou a fraga que, ainda hoje, se chama Fraga do Facho.
Moncorvo, Agosto de 2005
Júlia Guarda Ribeiro, a avó, escreveu;
Catarina Ribeiro Carvalho, a neta, ilustrou .
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