SOPAS DE CAVALO CANSADO
Ora, em maré de galináceos, de poleiros e de eleições, aí vai mais uma estorinha de burros.
Era uma vez um belo burrico ruço, já não muito novo , mas que ainda trabalhava no duro, porque percebia perfeitamente que, se nem sempre a manjedoura era de primeira, isso só acontecia, porque a dona velhota não podia dar-lhe melhor. A dona nova esfalfava-se a trabalhar e ele, Ruço, alombava com carradas de lenha para fazer “andar o forno”, carregava enormes sacos de pinhas para vender na Vila e, no verão quando todas as aldeias estavam em festa,
o Ruço sabia que, Sábados e Domingos, em vez de descansar como manda a lei e a Santa Madre Igreja, lá tinha ele de carregar os cestos de amêndoa coberta - arrobas de amêndoa coberta - mais a tábua e as pernas da mesa que as donas armavam no largo da capela, para as bandas do coreto e, de há dois anos para cá, ainda tinha de carregar o cestinho onde dormia a dona mais pequenina. Mas essa nem contava como peso. Era só um contrapeso...
Os caminhos é que eram carreiros de cabras e não sendeiros para burros. E léguas a calcorrear, que trotar já não era com ele .
- Amanhã vamos partir bem cedinho, para não apanharmos a força do calor. Eu já ando tão devagar , filha...
- E eu também - dizia o Ruço e a menina ria para ele. Só ela é que entendia o que o burrico dizia.
- Estás a rir-te? É que tu não vais à pata – dizia a mãe, feliz por ver a filhita a rir.
- Pois não. Vai às minhas cavalitas – o Ruço piscava o olho e a menina , que, no seu caminhar ainda bamboleante, vinha fazer-lhe uma festinha . Só lhe chegava ao joelho. As carícias daquela mãozita eram mimos que o Ruço agradecia com o olhar e ficava muito quieto, com receio de mexer alguma pata e ferir a miúda.
- Vá, senta-te para eu te lamber a mão. Eu sei que tu gostas. – Com uma risada a pequenita sentava-se.
- Aqueles dois até parece que se entendem. – comentava a avó.
- Elas nem sonham que nós nos entendemos. Dá cá a mão. Vamos à lambidela. E agora dormir, que amanhã são cinco léguas até ao Cabeço. É longe p’ra burro, salvo seja, que eu já devia estar a gozar a minha mais que merecida reforma.
A avó ia-se lamentando enquanto se deitava : - Eu já sou um estorvo.
- Não diga isso, mãe. Bem sabe que preciso de si, para tomar conta da menina.
- Pois é, filha...Vamos lá dormir umas 4 ou 5 horitas.
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domingo, 27 de setembro de 2009
SOPAS DE CAVALO CANSADO
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