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sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

QUADROS DA EMIGRAÇÃO I - por: Isabel Mateus

Sendo a nossa uma terra de "emigração" desde há muito, aqui damos início a algumas estórias de Emigrantes, portugueses ou não, e moncorvenses ou não, de autoria da nossa colega de Blogue, Doutora Isabel Mateus, que também anda lá por fora a lutar pela vida, como dizia um velho anúncio televisivo. Aqui fica então, para começar, esta história de...

Um Gungunhana no JOBCENTRE PLUS

Dirigiu-se ao JOBCENTRE PLUS. Mal entrou, indicaram-lhe a pessoa a quem iria servir de intérprete num caso de fraude. Cumprimentou-o, explicou-lhe quem era e ele, por sua vez, fez o mesmo.
     Era um autêntico Gungunhana!... Uma estatura desmedida com um tronco robusto e largamente encasacado, pernas longas a bandearem numas calças de ganga e os pés calçados em uns sapatos de desporto imensos. Encimava aquela postura, que se encontrava sentada e de membros inferiores esticados, aproximadamente até meio da sala de espera, uma pequena cabeça calva de gigante e uns óculos redondos encavalitados no nariz achatado que lhe ocultavam, à primeira vista, o verdadeiro carácter de guerreiro. De resto, eram os dois únicos aspectos dissonantes do retrato físico do homónimo.
     No final da entrevista, onde se encontrava o “Inspector” das fraudes fiscais relativas ao subsídio de desemprego por invalidez, em representação do Governo Britânico, o seu Assistente a trabalhar para o referido Jobcentre, o mencionado Intérprete e o próprio Gungunhana, o tradutor não pôde deixar de concluir que aquele herói-pícaro do Congo era um lutador nato a debater-se nos meandros administrativos do mundo agreste da emigração. Efectivamente, pouco antes de entrarem, tinha-lhe exposto claramente a sua situação numa voz cadenciada, mas onde surgiam flutuações sucessivas de cada vez que a conversa ganhava intimidade e se aprofundava nas entranhas da sua privacidade.
“Em 1999, cheguei a Inglaterra. Vinha com muita vontade de trabalhar e fiz por isso. A barreira da língua fui-a ultrapassando no local de trabalho e na Escola de Línguas. Porém, o joelho começou a doer-me cada vez mais. Não aguentava os dia em pé e o trabalho físico pesado. Assim, quando as dores se tornaram insuportáveis, abandonei o meu posto. A partir daí, vivo do subsídio que o Estado me oferece (“benefits”). É muito pouco!?... Este ano, então, com tanta neve e frio, tenho uma conta de electricidade que jamais conseguirei pagar! A minha esposa também não trabalha, porque está debilitada. Queremos ter um filho e anda em tratamentos. Quando estiver melhor, reiniciará o longo caminho de preparação para a inseminação artificial. Eu já tenho 45 e ela 38… temos de agir! As crianças fazem-me falta!
Ganhava folgo e logo voltava à carga.
     “Com este aspecto físico que vê, já tive sucesso em novo, lá no meu país. Apenas me rendi à evidência de que não podia trabalhar, quando a força de vontade e a persistência sucumbiram ao delírio da dor. Os médicos só me dão comprimidos para acalmar o sofrimento, pois dizem que ainda sou muito novo para me fazerem um implante. Desisti desta última consulta, já perdi a esperança para esta perna direita… Precisava dum emprego onde pudesse estar sentado, mas tenho poucos estudos e desse tipo de trabalho não arranjo. Recentemente, tenho ainda outra preocupação: a diabetes ataca-me os olhos e já leio muito mal.”
    Tirava os óculos, tinha mais do que um par, consoante necessitava de ver ao perto ou ao longe, e, nessa altura, via-se-lhe aquela luzinha nas pupilas que teimava e lhe queria indicar forçosamente a abertura para a vida no final do túnel.
     “Desde 2003 que não trabalho. Eu sei que não posso trabalhar, pois seria penalizado por lei. Mas revolta-me esta vida, porque não saio da cepa torta. Queria dar mais conforto à minha mulher, satisfazer-lhe algum do luxo feminino que ela merece. Queria que me ajudassem a procurar um trabalho compatível com a minha doença. Os meus braços estão saudáveis, tenho força de vontade, mas esta perna…”
     E apalpava nervosamente o joelho.
     Lá dentro, confrontaram-no com os comprovativos das entidades empregadoras. Ou seja, acabou por confirmar que realmente tinha trabalhado, mas porque não se resignava à sua situação. Explicou que, a custo, foi circulando por vários centros de emprego à procura de ocupação e que realmente arranjou trabalho durante algum tempo. Não mais de duas a três semanas, por vezes um mês, dois… Acrescentou ainda que não podia informar o JOBCENTRE acerca da sua situação de empregado, porque perderia em simultâneo a ajuda do Estado e o emprego que, de antemão, sabia provisório devido à doença. Foi interrompendo o discurso e viu-se obrigado a tirar os óculos de cada vez que as lágrimas lhe escorriam mais rápidas pela face abaixo. O Intérprete explicitava sempre que o Inglês não lhe saía e os seus desabafos pareciam, deste modo, mais fáceis e calorosos na sua língua pátria: o Francês. Porém, o Tradutor não sabia se lhe doía mais vê-lo naquele pranto ou quando lhe explicou as diferentes penas em que a sua fraude o terá feito incorrer. Isto é, ou pagar a multa referente ao montante (de pouca monta) que recebeu pelo trabalho precário que foi prestando, ou apresentar-se perante o tribunal como réu pelo delito cometido. Do JOBCENTRE ficou a promessa (sem prazo marcado) de aconselhamento e de ajuda futura para encontrar a profissão adequada à sua incapacidade física.
     O Inverno continua frio, as dores são as mesmas e este Gungunhana desespera numa lista de espera, onde nem sempre todos agem de boa-fé e enganam, à grande e à francesa, o Sistema.
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P.S. Durante o mês de Fevereiro irei a França (Nancy) para conhecer o local de emigração massiva, durante os anos 60, de tantos transmontanas. Já tenho encontro marcado na Associação Amizade Franco-Portuguesa de Vandoeuvre-lès-Nancy, onde espero encontrar conterrâneos dispostos a partilharem as suas experiências e vivências na terra de acolhimento. Por isso, faço também aqui um apelo aos leitores e seguidores deste blogue que queiram partilhar as suas histórias, através de episódios e acontecimentos que os marca(ra)m como aventureiros à procura de melhor sorte fora da pátria.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

O Cano de Mós


Fotos de Angel Garcia, 1.01.2010


Foto de Carlos Sambade, dias depois

A natureza submete O Cano de Mós ao imperativo do "Não há fome que não dê fartura", logo nos primeiros dias deste ano que, nesta medida, se anuncia farto (naturalmente que, quase logo a seguir, há um pequeno conjunto de pequenos pântanos que se evidenciam no terreno, a merecerem, ainda assim, uma bela visita com olhos de ver).
Carlos Sambade

domingo, 24 de janeiro de 2010

Festa de S. Sebastião da Corredoura (Torre de Moncorvo)

Procissão do Mártis S. Sebastião, após a missa, pelas ruas da vila (foto N.Campos, 2006)

A festa de S. Sebastião vem-se realizando desde tempos remotos, centrada na respectiva capela, situada ao fundo do largo da Corredoura. O pesado andor, com a imagem do santo mártir colocada sobre um castelo de cartão, é levado desde a capela até à igreja matriz, onde decorre a missa dominical (o dia do Santo é 20 de Janeiro, mas, devido aos horários de trabalho, nas últimas décadas a festa passou a fazer-se no domingo imediato ao dia de preceito). Depois sai a procissão pelas ruas da vila, voltando o Santo para a capela.

Vista geral do Largo da Corredoura, ao início da arrematação, hoje à tarde.

Da parte da tarde tem início a famosa arrematação das oferendas, compostas por doçaria (bolos), fumeiro (chouriças, salpicões, presuntos), aves (patos, tordas), vinho, etc.. Sinal dos tempos, até "pizzas" (certamente da pizzaria ao lado), e outros géneros da actualidade. Noutros tempos, os pastores de Moncorvo ofereciam borregos e cabritos. Esta é sempre uma parte muito esperada e participada da festa. - De salientar que, tradicionalmente, em todas as festas de S. Sebastião, mesmo de outras localidades, entra a arrematação de enchidos.

"-Quem dá mais?" - pergunta o arrematador. O sr. Fernando Cavalheiro ("Bispo") levanta as chouriças.

O culto de S. Sebastião encontra-se generalizado por todo o Portugal, e, como não podia deixar de ser, pela nossa região, sendo uma das raras festividades de inverno. Consta que o referido culto se generalizou a partir do séc. XVI, depois de uma grande peste. S. Sebastião é também o protector relativamente às pragas de ratos, esses vorazes inimigos dos lavradores.

Um bom momento de convívio de todos os moncorvenses, de todas as idades - e o bom tempo ajudou!

Há quem defenda que a generalização do culto, durante o período filipino, entre o final do século XVI e inícios de XVII, e mesmo depois, se deverá ao desejo do regresso do rei "Encoberto", D. Sebastião, o mártir de Marrocos, por analogia ao santo homónimo. Seja como fôr, a capela da Corredoura (propriedade da Junta de Freguesia de Torre de Moncorvo) deverá ter sido construída por essa altura, pelos lavradores da Corredoura que ao santo sempre tiveram uma grande devoção. Lembro-me das descrições que faziam os mais velhos da Corredoura, idos dos anos 70, sobre a animação do que eram os arraiais no "picadeiro" de pedra junto da capela. Ao "santinho" chamavam-lhe o seu "vizinho mais velho"!

Iguarias de fazer crescer àgua na boca - as famosas bolas fritas.

Apesar das mutações sociais e culturais, a festa do S. Sebastião da Corredoura vai resistindo aos tempos graças à carolice de algumas famílias antigas de Corredoura, de que é justo salientar os Ramos e o Sr. Lamares, grande animador das festas da vila, com a colaboração de diversos arrematadores (Srs. Pinto, Fernando Rabaçal, Fernando Cavalheiro).

O ajudante de arrematador, Sr. Fernando Rabaçal exibe um molho de tordas, oferta de um caçador.

Ah, e os parrecos também não podiam faltar!

Após a arrematação tem lugar o arraial popular, animado por um conjunto local, para se poder dar um pé de dança.

Força Corredoura! O nosso S. Sebastião tem de continuar sempre com a sua festinha!

Fotos: N.Campos

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Francisco Carneiro de Magalhães e o clima de Moncorvo II

(continuação do texto anterior)

“Finalmente o gêlo é já tanta porção que olhando para os campos no espaço que a nevoa deixa descobrir suscita-se immediatamente a idéa de que os da Syberia não poderiam apresentar a nossos olhos outra prespectiva. Fazendo-se a experiencia hontem de a presentar o thermometro em contacto com a atmosphera exterior da caza em uma varanda descuberta, desceu logo a meio gráu abaixo do gêlo, e haverá dois ou três dias me disse um sugeito que fazendo a mesma observação em outra caza na extremidade da villa para a parte da serra do Monte Roboredo a dois graus abaixo de gêlo !!! Separando outro indivíduo o gêlo que continha uma folha que produz a flôr chamada violeta, me asseverou havia de pesar bem cinco oitavas. As hotaliças de que abunda esta villa são presentemente inúteis, pois as folhas das couves estão dentro d’uma especie de luvas ou bolças de gêlo da grossura d’um pataco, e muitas estão já recosidas por elle de forma que se perderam. E no meio de tudo isto há d’aqui uma pequena legoa no cimo da serra uma aldeola chamada Felgueiras (pátria do grande chymico Thomé Rodrigues Sobral) cujos habitantes se teem gosado sempre do belo sol com excepção de dois dias sómente, em que levantoualgum tanto o nevoeiro, o que tem sido para os habitantes d’esta villa uma ventura, por ser d’aquella aldêa que vem moídas as farinhas para aqui: e do contrario talvez resultasse bastante prejuízo e até fome.

Basta: que já saiu mais extensa esta carta do que eu queria. Se a julgar digna de occupar logar no seu estimável periódico pela raridade do acontecimento fará muito obsequio ao que é de V. etc.

Moncorvo, 28 de dezembro de 1843

F. A. Carneiro de Magalhães e Vasconcellos”

Logo no dia 4 Janeiro, o autor dá conta do final da “terrível praga egípcia”.

Lago da Quinta das Aveleiras, 1902 (Reprodução de Arquivo Particular. Direitos Reservados)

“Terminação de uma praga egípcia (carta)

2582 Tendo-lhe participado em data de 28 do próximo passado o estado, a que por aqui tinha chegado o gêlo, e seus funestos effeitos, motivados pela pertinácia do nevoeiro; agora cumpre-me dizer a V. , que o primeiro dia d’este anno foi para nós o de maior satisfação; quando logo de manhã vimos o horizonte desafrontado, correndo um brando vento sul, e o gêlo caindo das arvores com toda a força. Com a maior alegria se davam os habitantes d’esta villa reciprocamente as boas festas, acompanhadas de gostosos parabéns pelo bom desenlace do drama, que não obstante haver apresentado scenas bem tristes, podia ter um desfecho muito mais trágico; e com effeito, se aquelle estado durasse mais quatro quatro (sic) ou cinco dias, ou se em logar de uma branda chuva , que sobreveio no dia um do corrente, viesse neve, ou um vento forte, então ficávamos sem oliveiras, e outras arvores, pois que assim mesmo houve uma grande perda; porque o pêso do gêlo era já tal, que chegou a abrir, pelo meio até juncto da terra, o tronco de um sovereiro da grossura de dois homens, caindo para o lado as duas ametades.

Os olivaes, que ficavam mais para a serra padeceram muito, e em algumas povoações circumvisinhas consta, que ficaram (com poucas excepções) sómente os troncos das oliveiras. As amendoeiras, pinheiros, castanhos, e geralmente todas as arvores, padeceram mais ou menos conforme o sitio em que se achavam. É porem de notar, que as hortas e nabaes, que estiveram por tanto tempo submersos no gêlo, e que se esperava encontrar perdidos, appareceram sãos; e em vista de tudo isto devemos bemdizer a Providencia, pois qwue podiam ser os prejuizos muitos maiores.

Principiára a nevoa no dia 16 de Dezembro, abrangendo por fim todo o espaço, que vae desde os estevaes do Mogadoiro (sic) até Macedo dos cavalleiros, chegando muito para baixo de Mirandella, e para a Beira dizem que à Meda, estendendo-se também pelo Doiro acima até lá para a Hispanha, ficando izemptos somente n’esta extensão os cumes das montanhas mais elevadas, onde se gozava de um bello sol.

Na noite de 29 de Dezembro tinha o mercúrio descido 3 gráus para baixo de gelo, e no dia 30 logo fez a differença de 2 gráus somente para baixo de gelo, o que nos deu esperança de melhoria de tempo. Chegou-se a congelar o leite nas vasilhas, em que era trazido das aldeias próximas para consumo d’esta villa; e em uma varanda envidraçada, onde estava uma gaiola com um pintasilgo, a quem naturalmente seu instinto ensinou que no poleiro, onde ordinariamente dormem, não estava tão abrigado como em baixo mas não tendo o tolinho a descripção de se desviar do bebedoiro, apareceo de manhã prezo pelas penninhas do rabo, que n’elle tinha metidas, e econgelando-se a agua, alli ficou até que o foram libertar; e felizmente não morreu.

Por estes dias tem-se conservado o thermómetro em 5 a graus acima de gelo

Moncorvo 4 de Janeiro de 1844

Francisco António Carneiro Magalhães.”

FONTE: "Revista Universal Lisbonense - Jornal dos Interesses Physicos, Moraes e Litterários collaborado por muitos sabios e litteratos e redigigo por Antonio Feliciano de Castilho", Imprensa da Gazeta dos Tribunaes, Lisboa, 1844, pp. 258, 270 e 271

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Reflexos II

Quando se deu o alardo da Vilariça quem é que alimentou os cavalos?
Os servos da gleba da Corredoura (outro nome que tivesse o bairro)? Já existia Corredoura ou apenas famintos com condição semelhante à dos cavalos? Afinal do que é feita a História? E tanta palha para quê? Qu'é do grão? Quem o comeu?
(Relendo as Crónicas de Fernão Lopes com desenhos e pintura de Rogério Ribeiro)

Reflexos I

Desu entrou em minha casa e disse: Eu não existo. Tu é que Me exististe.

Reflexos

Um dia um homem da aldeia chegou a Moncorvo e dirigiu-se ao Café Moreira ( hoje Café Central) onde, sabia, os médicos paravam O homem da aldeia sangrava. Alguém entrou no café--porque nem toda a gente entrava-- e disse e pediu ao médico presente: Senhor doutor está lá fora um homem muito mal, a sangrar.
E o médico, sem sequer levantar os olhos, respondeu, tuteando: Não me incomodes, estou a acabar um jogo de damas.
E havia quem se passeasse na Praça. Tranquilamente. Administrativamente.Comercialmente. Com um palito, sinal de boa comida ou dente cariado ou mentira de sopa mal mastigada. E andam e desandam e giram e cirandam os gravatinhas.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Francisco Carneiro de Magalhães e o clima de Moncorvo I

Na sequência de um post anterior, sobre o nevão que surpreendeu Moncorvo (10 de Janeiro), ena sequência dos ventos fortes que por cá deixaram marcas, trago aqui uma sequência de textos de um ilustre e ilustrado moncorvense do séc. XIX, Francisco António Carneiro de Magalhães e Vasconcellos, sobre um “prestígio natural”, seguido da “praga egípcia” aqui ocorrida no inverno de 1843-1844, publicada na Revista Universal Lisbonense, dirigida por António Feliciano de Castilho. Poderão alguns pensar que esta notícia poderia corresponder perfeitamente ao inverno de 2008-2009, que me fez lembrar deste texto. Aqui vai!

“Terrível prestígio natural (carta.)

(2552) Hoje [28 de Dezembro de 1843] se completa o decimo terceiro dia em que aos habitantes d’esta villa e povoações immediatas tem sido vedado ver brilhar em seu horisonte os beneficos raios d’esse astro vivificador, e alma do Universo; quando sabem egualmente que seus patrícios teem gosado geralmente de uma estação alegre e benigna; mas aqui uma tenacíssima e mui densa névoa, originada sem duvida pela próxima confluência dos rios – Doiro e Sabor – tem produzido o portentoso phenomeno de tornar em realidade essas maravilhosas e phantasticas descripções das mil e uma noites, e outras novellas produzidas por imaginações exaltadas , a que somente apraz o maravilhoso, ou impossível, descrevendo e pintando jardins, e arvoredos cujos arbustos, e arvores são nada menos que de prata, cristal, e diamantes; o que effectivamente por nossos olhos estamos observando realisado, pois que cercados por uma athmosphera frigidíssima que o calor do sol não pode penetrar, e aglomerando-se continuamente em pequenas gotas que a nevoa deposita sobre as arvores , plantas, e mais objectos em contacto com a atmosphera, immediatamente se congelam, apresentando aos olhos o mais insignificante destes objectos uma prespectiva magica; por exemplo, n’uma varanda onde por descuido, ou por serem quasi invisíveis antes d’este prazo se tinham deixado alguns fios de téas de aranha, gosa-se agora de uma vista que arrebata, imitando perfeitamente os fios e téas de aranha, festões, laços, e flores de finíssimas perolas ou fiadas de brilhantes.

Qualquer ramo d’ arvore ou arbusto finge exactamente um penacho de cisne como os de que se teem usado os militares; mas desgraçadamente se vão já sentido os efeitos lamentáveis d’este singullar phenomeno, pois que o peso do gêlo é já tal que as árvores não podem com elle, e os passageiros ficam aterrados com o súbito e estrondoso fracasso d’ um robusto pinheiro que se baqueia a seus pés arrancado pela raiz, ou estalando pelo tronco com o peso com que já não pode! E nas oliveiras tem já havido também uma grande perda, e tanto que hoje me disse um homem natural de Massores , aldêa distante daqui uma légua, que por lá tinham quebrado já quasi todas,e se este tempo assim continua póde trazer perdas incalculáveis, pois que a colheita do azeite por aqui era mais de mediana, e por isso as oliveiras não podem resistir ao pêso que o gèlo lhes augmenta, maxime para a parte da serra, onde a nevoa é constante, pois que ao puente d’esta villa felizmente ainda a nevoa levanta algum tanto deixando livres do maior gèlo uma grande porção d’olivaes que não estão em tanto perigo.”

(continua)

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Uma nota só para referir que se manteve a grafia original.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Apresentação de livro de Joaquim Sarmento, em Torre de Moncorvo

É amanhã, na Biblioteca Municipal:


Ainda sobre Violante Gomes, a Pelicana - algumas achegas

Em primeiro lugar queremos saudar a inicativa da Drª. Júlia de Barros G. Ribeiro em trazer à luz, aqui no blogue, a problemática de Violante Gomes, a "Pelicana", no que toca à sua relação com a nossa vila. Este é, também, um assunto que há muito nos interessa, sem que, todavia, o tenhamos conseguido dilucidar e com dúvidas sobre se, algum dia, se possa esclarecer em absoluto. Na verdade, o único argumento com alguma base de sustentação para se relacionar a Pelicana com Moncorvo é a tradição popular. E, neste particular, há dois grandes argumentos:

1º. – a passagem do Pe. António Carvalho da Costa, in “Corografia Portugueza”, vol. I, Livro II, Tratado I, Lisboa, 1706 (páginas 424 e 425), em que se diz claramente: “He tradiçam bem fundada, que foy natural desta Villa a mãy do Senhor D. Antonio, Infante, que seis mezes se vio coroado Rei de Portugal; ainda de presente se apontão as casas em que nasceo, e se conhecem pessoas, que lhe são conjuntas em sangue”. Carvalho da Costa, homem ilustrado, astrónomo, com preocupação de certo rigor científico, é tido como um autor probo, que não inventa histórias. Assim, recolheu a informação (certamente por inquéritos enviados aos párocos das localidades, ou junto dos senados dos concelhos) e publicou-a tal como lha enviaram. Tendo este autor nascido em 1650 e falecido em 1715, a maior parte das informações para a “Corografia” devem ter sido obtidas ainda no séc. XVII, possivelmente nos finais desse século. Ora o séc. XVII não estava ainda muito distante da verdade dos factos (as vidas de Violante Gomes e D. António percorrem o séc. XVI, tendo este falecido em 1595) sendo difícil de aceitar que alguém, localmente, inventasse a “estória” para prestigiar a terra, invocando ainda parentes de sangue da Pelicana (e por consequência de D. António) se não houvesse nada que o justificasse. A menos que haja fantasistas em todos os tempos, e se tenha dado com a Pelicana algo semelhante com o que se passa com a ascendência (também moncorvense) do escritor argentino Jorge Luís Borges. Mas, a ser assim, Carvalho da Costa, se tivesse como segura outra localidade alternativa mais credível para o berço da Pelicana, decerto que o diria, ou descartaria esta informação;

2º. Ainda com base em Carvalho da Costa, diz-se que “ainda de presente apontam as casas em que nasceu” [Violante Gomes]. Ora as tradições populares em sociedades em grande medida àgrafas tende a perdurar no tempo. As casas que então apontavam (nos finais do século XVII) só podiam ser as mesmas (passaria a ser uma só, mas decerto ligando duas casas contíguas) que se apontavam no início do século XX, ou seja, em 1908, quando na revista “Illustração trasmontana” (depois compilada num volume, mas em artigo correspondente a 1908) se dá uma foto com a legenda: “Moncorvo – casa onde viveu a Plicana[sic], mãe de D. António Prior do Crato”). Daqui se prova que a tradição não assentava no vazio: tinha/tem um suporte físico, material.

Mais uma achega: quando dei aulas em Moncorvo, há já um bom par de anos, lembro-me de ter um aluno de apelido “Pelicano”. Posteriormente conheci uma moça do mesmo apelido (é a mesma pessoa que consta na lista telefónica de Torre de Moncorvo). Perguntei-lhe se tinha alguma coisa a ver com a famosa Pelicana e ter-me-á dito que sim, mas não é credível que memórias familiares (sem pergaminhos a comprová-lo) tenham perdurado tanto no tempo. No entanto, avento uma outra hipótese: “Pelicano” não teria nada a ver com a ave, que aqui não há, nem tão-pouco em Évora ou Covilhã, ou mesmo em Portugal (a não ser no Zoo), mas teria a ver com uma outra coisa, ou seja, pode derivar de “peles” ou “pelicas”. Assim, “pelicano” seria alcunha dada àqueles que trabalhavam com peles, a quem também chamavam “Peliqueiros”. Ora isto de peles, é actividade caracteristicamente judaica. E onde fica a actual rua do Prior do Crato (antiga rua de Trás)? – à boca da rua dos… Sapateiros!!! Aqui está outra actividade ligada a judeus (basta lembrar o famoso Bandarra de Trancoso).

É nossa convicção (desde há muitos anos) que a “judiaria” de Torre de Moncorvo andaria extra-muros, no arrabalde, nas imediações da praça F. Meireles. Com a conversão forçada, os cristãos-novos aí continuariam e, ao alargar-se o casario em redor (e no encosto da muralha medieval da vila, ao longo do séc. XVI-XVII), o “locus” preferencial desses “cristãos-novos” esticar-se-ia ao longo da rua dos Sapateiros (facto que as transcrições que recentemente se têm feito de fontes inquisitoriais tem vindo a comprovar). Assim sendo, é preciso muita pontaria para alguém se lembrar de “inventar” uma casa para a Pelicana, em Torre de Moncorvo, num local onde seria de esperar, na convicção de que a senhora seria, de facto, de origens judaicas, o que terá pesado não pouco nas pretensões de D. António, sobretudo num quadro de Contra-Reforma, tridentino, inquisitorial, face a uma Espanha católica (Filipe era designado por "S. Majestade Católica") e anti-judaica.

É, assim, uma hipótese sedutora e cheia de romantismo essa da Pelicana ser uma cristã-nova natural (ou com ligações a) de Torre de Moncorvo. Isso não exclui ligações a Évora ou à Covilhã já que a gente da nação circulava muitíssimo (eram andarilhos por natureza, pelos seus negócios, e também por razões óbvias) – diríamos que tomavam o eixo do actual “IP-2”, num tempo em que a fronteira tinha uma grande vitalidade económica (rede de castelos), fortemente segurada pela “gente da nação” (lembremos Belmonte, Trancoso, Guarda…).

Estamos em crer que nunca se encontrarão documentos que esclareçam de vez o problema, pois a terem existido, teria sido de todo o interesse, por parte de muitos (até a nível local), a sua destruição/apagamento, nesses conturbados tempos que precederam o reinado filipino e mesmo depois. Ou então desapareceram mesmo na voragem do tempo. Ficou a Lenda, como sempre acontece nestes casos. No entanto, esta é uma lenda/tradição que nos interessa a nós, moncorvenses, acalentar. Até porque nos liga remotamente a um Resistente, a um homem que teve a ousadia de defrontar o soberano mais poderoso do mundo do seu tempo: uma formiga contra um elefante!

E a melhor forma de acalentarmos esta poética tradição é conservando a casa que, na ancestral versão popular, se diz ter sido de Violante Gomes e sua família. A nosso ver dever-se-ia picar-lhe o reboco, restituindo-lhe o aspecto que tinha no início do séc. XX. Ou então, substituindo o reboco de cimento e tinta azul por uma massa pobre caiada.E,inevitavelmente dever-se-ia colocar uma placa informativa na fachada, aludindo à tradição da Pelicana. Mais: a dita casa deveria ser classificada como Imóvel de Interesse Municipal ou Concelhio. E, já agora, a travessa da Farmácia Martins, em vez de travessa Prior do Crato, poderia ser travessa de Violante Gomes, a Pelicana. Mãe e filho assim associados e associados a Moncorvo, fosse a dita senhora nossa conterrânea ou não (mas nós queremos que seja)! - Tal como sete cidades gregas disputaram a naturalidade de Homero e outras tantas disputam ainda, em Portugal, a de Camões.

por: N.Campos

Fotos (de cima para baixo):

1 - frontespício da obra do Padre A. Carvalho da Costa, Corografia Portugueza (1708-1712)

2 - foto retirada de Ilustração transmontana, 1908.

3 - rua Prior do Crato, em Torre de Moncorvo (foto de N. Campos)

4 - casa que a tradição assinala como tendo pertencido à Pelicana (foto N.Campos)

5 - placa toponímica da R. Prior do Crato (foto N.Campos)

6 - idem, da travessa Prior do Crato, que poderia ser de Violante Gomes, a Pelicana (foto N.Campos)

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Violante Gomes, a "Pelicana" - V (conclusão)

[Continuação do post de 12.01.2010]

Para tentar atar todas estas pontas ou, pelo menos, algumas delas, haverá que responder a algumas perguntas:

Quem foi a mãe de Violante Gomes? Não há mais do que um leve indício, ainda que os intervenientes em Geneall–Forum, insistam neste ponto: Marta de Évora, filha de D. Diogo, Duque de Viseu, seria a mãe de Violante Gomes. Todavia, ao lado de opiniões equilibradas, ponderando documentos, indícios, sinais, acontecimentos históricos, penso que surgem neste debate ideias peregrinas que, por vezes, quase atingem as raias do delírio.

Onde nasceu? Três terras se reclamam de ser seu berço:

> Torre de Moncorvo, hipótese sustentada por Vilhena Barbosa e por Pinho Leal, citados pelo Abade de Baçal, e pela tradição da vila, onde é voz corrente que aqui nasceu a “bela Pelicana” e nos é apontada a casa em que terá nascido. Também na ficha biográfica de Violante Gomes que se encontra em Geneall (Web), aparece Torre de Moncorvo como o lugar do seu nascimento.

A breve nota sobre Violante que Pinho Leal nos apresenta no seu “Portugal Antigo e Moderno” é demasiado vaga para poder ser considerada como prova histórica. Mas, se à luz da História está longe de poder ser aceite como prova, vem, no entanto, corroborar a tradição.

O PARM (Património Arqueológico da Região de Moncorvo) e o site sobre Moncorvo fazem-se eco destes informes.

Há, também, uma interessante versão romanceada num artigo do jornal "Terra Quente", que segue a tradição e acompanha o artigo uma fotografia da casa onde terá nascido a Pelicana.
Quanto às minhas pesquisas, lamento dizer que apenas encontrei uma Violante Gomes ligada a Moncorvo pelo casamento de uma filha com Francisco de Arosa Pinto, desta vila. Outros Arosas Pinto de Moncorvo surgem nessas páginas. Nada têm a ver com Violante Gomes, a Pelicana. A obra em causa intitula-se “Pedatura Lusitana”.
Todavia, a História diz-nos que D. Manuel I, apaixonado pela viúva do Príncipe D.Afonso, D. Isabel, filha dos Reis Católicos, decidiu casar com ela. Para comprazer os sogros, mandou expulsar os judeus e confiscar-lhes os bens, investigar , prender e torturar cristãos-novos que, às escondidas , continuariam a praticar os seus ritos religiosas, e queimar os relapsos. Por isso, julgo que não poderá excluir-se a hipótese, bem plausível, de que precisamente devido a essa vasga de perseguições, Marta de Évora e seu marido Pedro Gomes, tenham procurado refúgio junto de parentes ou amigos, no norte do país, e por que não, em Moncorvo? Aqui terá nascido Violante Gomes.

> Évora, é a terra onde vive seu pai, Pedro ou Pero Gomes, e onde, sua suposta mãe, Marta de Évora, terá sido criada por D. Briolanja Henriques, filha de D. Fernando Henriques, 2º senhor das Alcóçovas e de Branca de Melo, senhora de Barbacena, casada com Aires de Miranda, alcaide-mor de Vila Viçosa. O Infante D. Luis era Duque de Beja e muito se alongava pelo Alentejo, até porque a corte também pousava com frequência por terras de Montemor, Évora, Beja...
Por outro lado, parece que toda a família de Violante era de Évora e/ou vivia em Évora. (Violante Gomes teria uma irmã, Clara Gomes, e sobrinhos, entre os quais Frei Diogo Carlos, teólogo e orador, que acompanhou o primo D. António no exílio e, em Paris, lhe redigiu o testamento).
Esta hipótese, historicamente, até pode ser convincente. Mas, obviamente, não é a única.

> Covilhã, ao que tudo indica, fundamenta a sua pretensão no facto de D. Luís ser senhor da Covilhã, como era senhor de Moura, Serpa , Seia e Marvão. Não parece, pois, ser essa base suficientemente forte para apoiar a sua pretensão.

Seria Violante Gomes judia, cristã-nova, cristã-velha, cristã? É tão difícil responder com certezas a esta pergunta como às anteriores. Não podemos perder de vista que todos os documentos referentes a D. Luiz, incluindo o original do próprio testamento, desaparecido da Torre do Tombo, (V. Veríssimo Serrão, op. cit. p.LIV), bem como os respeitantes ao filho D. António e, naturalmente, os que mencionassem Violante Gomes, desde que o seu teor fosse contrário aos interesses de Filipe de Espanha, foram todos bem rebuscados e destruidos, como nos diz este historiador. Transcreve cartas e partes delas entre Cristóvão de Moura e Filipe de Espanha que provam a busca (até o roubo) e a destruição sistemática dos documentos que não favoreciam o rei espanhol. De igual maneira procedeu o cardeal-rei reduzindo a cinzas tudo o que favorecesse o sobrinho António, a quem votava um ódio de morte. Este ponto: espionagem, roubo e destruição de documentos é, não só de grande importância para a História, como também para a ficção, pelo mistério envolvente e de que o leitor sente fortemente o apelo.
Teria Violante Gomes casado, de facto e canonicamente, com o Infante D. Luís, ou isso não terá passado de uma tentativa de logro por parte do Prior do Crato para fazer valer a sua candidatura ao trono como filho legítimo, como admitem alguns historiadores e estudiosos da nossa História, incluindo o probo Alexandre Herculano?
Ou o casamento, a ter existido um casamento, tal acto não passou de uma farsa, como quer Camilo? Sofreu a ludibriada Violante realmente a terrível humilhação de saber que o seu “marido”, falso como Judas, a enredara numa mentira medonha durante dez anos?
Ou a bela Pelicana foi, por sua vontade, a apaixonada amante do seu Príncipe?
O que levou Violante Gomes a separar-se de D. Luis e, antes dos 30 anos, enterrar-se num convento?
Também aqui, pela falta de documentos, é impossível dar respostas definitivas, sejam elas afirmativas ou negativas, embora cada um de nós tenha já, porventura, posto de lado algumas conjecturas e guardado outras no bolso, porque pendendo para um lado ou para outro, todos formamos os nossos juízos. E tudo leva a crer que a personagem, Violante Gomes, será capaz de atrair sentimentos profundos.
Então o que nos resta sobre a bela Pelicana?
Penso que, para a História, a não aparecerem documentos que comprovem estas ou aquelas hipóteses, resta pouquíssimo. Tudo o que sabemos com certeza, caberá em um ou dois curtos parágrafos.
E o que resta para a Literatura?
Aqui o caso muda de figura. Um escritor, romancista, homem de teatro, poeta, pegando na situação, que é riquíssima, com a sua liberdade de ficcionar episódios e criar diálogos em volta de alguns núcleos de accção reais e verdadeiramente dramáticos, terá certamente abundante material para nos dar uma visão não muito distante nem muito desfocada do que terá sido a vida da “fermosa Pelicana”, no enlevo do seu grande amor, nos seus sonhos, alegrias e ilusões e depois, jovem mulher mirrando na solidão de uma cela, atada no nó da sua amargura, procurando abafar o grito rouco da desilusão.

BIBLIOGRAFIA

A - HISTÓRIA:

Alves, Francisco Manuel, Abade de Baçal , “Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança – Os Notáveis “ , Tomo VII, pp. 208-212, Edição da Câmara Municipal de Bragança/ Instituto Português dos Museus - Museu do Abade de Baçal - Bragança, 2000.

António de Portugal Faria (Visconde de Faria, “D. António, Prieur de Crato, XVIII Roi de Portugal et sa descendence”, 1917, pp.5-7.

Carlos Jokubauskas , As jornadas de um bastardo: guerras antoninas pela coroa portuguesa (1580-1589), in Anais do XVIII Encontro regional de História – O historiador e o seu tempo, Univ. de S. Paulo/Assis, 24 a 28 de Julho de 2006 , cd-rom.

Garcia de Resende, Vida e Feitos de El-Rey Dom João II, Texto da edição crítica por Evelina Verdelho, CELGA, Fac.Letras, Univ. de Coimbra, 2007.

Marques, João Francisco, “Frei Miguel dos Santos e a luta contra a União Dinástica” - “O Contexto do Falso D. Sebastião de Madrigal”, in Revista da Fac. de Letras do Porto, ed. online, s/d, http://ler,letras,up,pt,/ficheiros/2084, pdf., pp.331-384, notas 102 e 106.

Moraes, Cristóvão Alão de , “Pedatura Lusitana”, in Nobiliário de Famílias de Portugal, Tomo V, Vol.IIl , Livraria Fernando Machado, Porto, s/d , ed. online, pp. 31-32.

Leal, Pinho, “Portugal Antigo e Moderno”, in Portugal Antigo e Moderno, vol. V, Manuel Amaral (coord.), ed. online, 2000-2009, 1875, pp. 381-390.

Serrão, Joaquim Veríssimo, O Reinado de D. António, Prior do Crato (Tese de Doutoramento), Coimbra, 1956, pp. XV-LXVII.

Serrão, Joaquim Veríssimo, “O Século de Ouro (1495-1580)”, in História de Portugal, vol. III, Verbo, Lisboa, 1978.

Sites de: Covilhã, Évora e Moncorvo

PARM: “Torre de Moncorvo – a Tradição e a Casa da Pelicana”, 20 de Março de 2008

WEB: GENEALL (Famílias e Costados)

GENEALL-FORUM (Debate sobre a legitimidade de D. António, Prior do Crato )


B - LITERATURA:

As obras registadas no corpo do texto e:

Cândido, António, Noções de Análise histórico-literária, Associação Literária Humanista, São Paulo, 2005.

Cardoso, Patrícia, “Um Rei não morre – Poder e justiça em duas tragédias portuguesas”, in Revista Letras, Curitiba, nº 68, Jan/Abr, 2006, pp. 101-114.

Menegaz, Ronaldo, “O Indesejado”, de Jorge de Sena: “O rei que foi apenas um homem” in, Revista Semear, nº 6, Cátedra Padre António Vieira de Estudos Portugueses, Rio de Janeiro, Março, 2006

Entrevista a Urbano Tavares Rodrigues, feita por Ricardo Paulouro e António Melo, in A.23 online,
n º 4, 01.06.2009, Associação Cultural da Guarda, Guarda, pp. 32-33.

Por: DRª. JÚLIA DE BARROS GUARDA RIBEIRO

Fim.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Violante Gomes, a "Pelicana" - IV

[Continuação do post de 12.01.2010]

Abordaremos, agora, o romance histórico Lago Azul de Fernando Campos. Gostaria de dizer uma palavra a propósito do título. Poderá haver quem pense tratar-se de uma novela leve, um romance cor-de-rosa. Nada mais longe da verdade. A referência é ao Lago Lehman, junto do qual viveram D. Manuel de Portugal, filho de D. António, Prior do Crato, e sua mulher Emília de Nassau e Orange, filha de Guilherme de Orange.
Casamento de amor que, depois de 10 anos e oito filhos, acabou em turbulenta separação.
Dentre as obras que seleccionámos é a que mais longamente se refere à Pelicana e que dela nos dá um retrato atraente, cheio de graça.
O narrador omnisciente é o vento que nos fala da morte, omnipresente e omnipotente:
“Tão formoso! Loiro, bom parecer, prazenteiro com todos, até com o sapateiro Simões Gomes que gosta de deitar as sinas dos futuros, galante com as damas e no vestir... Tanto projecto matrimonial falhado! Mas consta que se casou a furto com a formosa e jovem Violante Gomes. Paixão ardente. Ela, porém, honesta, só consentiu amores após o casamento.
- Sois mancebo viçoso e florescente, meu senhor – passeavam os dois namorados à tardinha, pelo recolher das aves ao gasalhado da folhagem. -
- Fico muito honrada com a vossa afeição, mas...
- Mas! – interrompia, desolado o infante D. Luis a sua amada
- ...mas esperam-vos, eu sei, toda a gente fala, casamentos com princesas, com infantas. Quem sou eu para me entremeter nos assuntos da vontade de el-rei nosso senhor?
- Minha princesa sois vós, Violante. Outra não quero... […] Sois de tal jeito insensível? Deixais-me para aqui como as ondas a bater em penedo na Serra da Arrábida? […]
- Donzela virtuosa e honesta minha mãe me ensina não dever dar ouvidos a galanteios de príncipes. Insensível não sou e com ternura meu coração recebe as vossas mostras de afecto, justas galantes, músicas, motes e cantigas em meu louvor, que não mereço...
-Mereceis isso e muito mais.
- ... porém, virtude e honestidade me obrigam. Cumpre-me obedecer- lhes.
- ... discrição e graça que mais vos eleva a meus olhos. [...] Casaríeis comigo?
- Oh! Meu senhor!
- Casaríeis?
- El-rei não consentiria.
- Casaríeis?
- E a princesa Maria de Inglaterra?..... E a princesa Cristina da Dinamarca?
E a princesa Edviges da Polónia?
- Não, não! – balbuciava o jovem infante.
- [...] Grandes e importantes são os negócios de matrimónios entre as famílias reais da Europa...
- A todas rejeito – segurava-lhe Luis as mãos, decidido, caloroso. – Casaremos a furto.
- Não sei. Tenho medo...
- El-rei, meu irmão, de nada saberá. [...]
- [...] Que dirão as pessoas? Vão maldizer-me, amaldiçoar-me... Já me chamam Pelicana...
- ...porque sois formosa...Não temais. Estareis sob a minha protecção.
Nove anos viveram casados Luis e Violante. [Mas ela] compreendeu que o príncipe pertencia mais à república que a ela e nem sequer era senhora do filho, [...] entregue a colégios de frades. Tomou então a resolução de se sacrificar para os não prejudicar...e recolheu-se a sepultar a virtude no convento de Vairão (pp.21-22)

Após esta longa citação, creio que o leitor terá construído um retrato, talvez aproximado do real, talvez beneficiado, de Violante Gomes. Por isso, poupo-me a quaisquer considerações.


Resta-nos a novela de Urbano Tavares Rodrigues: Os Cadernos Secretos do Prior do Crato.
Numa entrevista dada pelo escritor a Ricardo Paulouro e António Melo, em 1.06.2009, Urbano Tavares Rodrigues diz que esta sua obra é um livro da procura da serenidade, através da angústia e através do remorso, da perplexidade e da luta. Considera ainda que “ O Prior do Crato é um herói de causas perdidas. (Revista A23 online, Associação Cultural, Guarda).
E que nos traz, de novo, de Violante Gomes, mãe do Prior do Crato? De novo, propriamente, nada. Coloca na boca de D. António cerca de duas dúzias de palavras de conveniência: “Correm calúnias sobre minha mãe, Violante Gomes, senhora da pequena nobreza, com quem meu pai fez um casamento secreto. Dizem-na agora cristã-nova, de origem judaica. Nada tenho contra os judeus, mas é redondamente mentira”. (p.35)
Teremos em conta que, nesta altura, o escritor nos apresenta D. António exilado em Paris, velho, doente, cansado e pobre. Daí, os seus pensamentos de homem exausto e rei vencido, aquela saudade característica dos velhos e quiçá alguns remorsos:
“(...) minha mãe, a quem chamavam na mocidade "a bela pelicana´. Lembro-me vivamente dela, mas deixámos muito cedo de conviver quando, com o consentimento de meu pai, ela recolheu ao mosteiro de Almoster. Os recados que algumas vezes me mandou eram sempre descoroçoantes, a aconselhar-me reserva, moderação, abandono da luta. Não obstante, sinto ainda correr por mim um fio de amor quando alguém ma lembra ou ela vem ter comigo em sonhos.” (p.71)
É a primeira vez que Violante Gomes nos é apresentada no seu papel de mãe, aconselhando o seu filho único que, bem cedo, havia sido afastado dela.

por: JÚLIA DE BARROS GUARDA RIBEIRO

(Continua)

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Violante Gomes, a "Pelicana" - III

[Continuação do post de 11.01.2010]

Vejamos agora a obra Príncipes de Portugal, Suas Grandezas e Misérias, de Aquilino Ribeiro.
(Na sua nota de advertência ao leitor, os editores informam que o critério de Aquilino Ribeiro foi o do romancista: interessou-lhe tudo o que não é comum).
Revisitado o seu ensaio : António I, Rei Efémero, verifica-se de imediato que Mestre Aquilino não foi nada meigo para com os progenitores do Prior do Crato. Logo de entrada e sem mais delongas, mimoseia D. Luís com os epítetos de:
“(…) medíocre de entendimento, sagaz no viver, piedoso mas com boa dose de hipocrisia, acrescentando:
“(...) ele é o perfeito filho segundo de monarcas, tipo acabado de parasita nacional”.
É com fina ironia que remata , dizendo o que dele ficou para a História :
“(...) era pessoa de muito saber, amador de música (...)” e pouco mais.
Sobre Violante Gomes não é muito mais brando. No entanto, na voz de Aquilino perpassa um certo tom de pesar pelo que o destino reservou à bela e infeliz Pelicana: “(...) uma Violante Gomes, judia bonita e salerosa, alcunhada no bairro de Pelicana e ainda de Pandeireta, que [D.Luis] fez claustrar no Convento de Santa Maria de Almoster, quando se saciou dela e para atalhar ao engulho dos reais parentes que não podiam levar à paciência ter-se metido com uma criatura tão baixa e para mais rescendendo todos os ranços da Sinagoga”.

Quanto à tragédia, O Indesejado (António, Rei) de Jorge de Sena, obra grande no cenário da Literatura Portuguesa, buscaremos as palavras que o autor escreveu no Pós-Fácio: Esta peça é uma tragédia, uma tragédia histórica. Uma tragédia em verso. (…) Sendo a tragédia a representação simbólica de uma crise dialética … (p.153)
Qual a crise dialética nesta tragédia? Os gregos chamavam hamartia à culpa que o herói carregava sobre si, mas que herdara dos antepassados. D. António é o filho bastardo, o filho de D. Luis, sim, mas também o filho da Pelicana, da Pandeireta. Ele é, pois, o bode expiatório do pecado dos pais. É o próprio Jorge de Sena quem nos diz:
O Prior do Crato sofre as consequências de seu nascimento, da legitimidade duvidosa de sua pretensão. (p.154)
A explicação surge logo no 1.º Acto, em diálogo entre D. António e o Bispo da Guarda, seu fiel seguidor:
D. António: (...) E eu sou um homem. Que sou mais que um homem?
Que uma ambição lutando contra tudo (…).
Bispo : (...) Se tivéssemos
Com que comprar todas as memórias,
todos se lembrariam de nós.
Perdão, senhor, de vós, do vosso nome.
D. António: Qual? O que minha mãe não me concede?
E tantos me contestam?
Bispo: Esse ou outro.
Ninguém, senão a Igreja nos baptiza.
O resto: alcunhas, quando não são títulos.
D. António: Alcunhas (... ) “Pelicana” ( ...) ” Pandeireta” (...)
Bispo : Nomes de vossa mãe (... )Deixai que falem!
Judeu, bastardo – tudo vos chamaram. (pp.23-24)
D. António, o bastardo, o não legitimado, sente que tem de salvar o seu povo. É essa a sua missão. Mas é, ao mesmo tempo, um homem indeciso, inseguro.
D. António: (...) E sou tão frágil eu, nesta aventura.
Que só por ambição ainda flutuo ... (p.24)

Olhando para o Homem que carrega, qual cruz, a culpa legada por seus pais e que se move entre a ambição e a fragilidade, sentimos que é aí que reside o trágico. Portanto, o fado, a moira terá de cumprir-se: derrotado, não será rei.
Muito, muito mais há a dizer sobre esta obra imensa, mas que não cabe no objectivo nem no âmbito deste pequeno escrito.

Temos agora na nossa frente a peça de teatro de Jaime Gralheiro, A Longa Marcha para o Esquecimento.
À minha pergunta se classificaria a Longa Marcha como farsa ou como tragi-comédia, o autor respondeu-me sem hesitar: tragi-farsa.
E porque introduzi esta tragi-farsa, justamente a seguir à tragédia de Sena?
A obra foi escrita a propósito de grandes homens que deixaram obra notável e hoje estão totalmente esquecidos. Para concretizar este objectivo, o autor lançou mão da crise dinástica de 1580, com os seus traidores, os vira-casacas do tempo, o seu herói, D. António, e a sua ascendência, particularmente sua mãe.
O autor considera que a nobreza atribuiu tão pouca importância à mãe do Prior do Crato que produz o seguinte diálogo entre um nobre – que nem sabe ao certo o nome da mãe de D. António - um mercador e um clérigo, ou seja, os representantes das três classes sociais. As franjas, isto é, a plebe também está em cena, mas não dialoga. Escuta e dá vivas:
Real! Real! Por D. António, rei de Portugal! (p.4)
Nobre: Bom! D. António, Prior do Crato, é filho do Infante D. Luis, irmão do sr. Rei D. João III, que Deus guarde, e de uma tal Guiomar...
Clérigo: Filho do pecado!...
Mercador: Eu diria... filho do amor...
Nobre: Não! Não! Filho do pecado... Diz bem o Sr. Padre Francisco: filho do pecado.
Mercador: Pronto! Fica filho do pecado. E depois?...
Nobre: Como filho ilegítimo que é, está impedido de ser rei de Portugal...
Mercador: Ah! Quer dizer: os filhos da puta não têm lugar neste país . (pp.5-6)
Depois de o Nobre e o Clérigo se terem escandalizado com tal linguagem, ao que o mercador responde: “É a linguagem da gente da minha terra” (p.6) continua perguntando aquilo que realmente lhe interessa: se o Prior do Crato tem dinheiro para aguentar o comércio das Indias, para a guerra contra Filipe II, para a crise em que o país está ... Todos se calam, mesmo os que aclamavam D. António como rei. Chega então Cristóvão de Moura que distribui moedas de ouro às mancheias a toda a gente e logo o grito de todos passa a ser:
Real! Real! Por D. Filipe, rei de Portugal! (p.20)

Talvez o leitor se pergunte se esta peça tem lugar neste trabalho, ou se terá sido trazida aqui para chocar pela linguagem. Primeiro, esta linguagem hoje não choca ninguém. Segundo, que querem dizer sábios historiadores e doutos investigadores ao apodarem Violante Gomes de “concubina, amante, mulher ignóbil, criatura baixa, mulher de vida incerta”? Nem mais nem menos do que aquilo que Jaime Gralheiro pôs na boca do mercador.
Por outro lado, Gralheiro escreveu a Longa Marcha mantendo um pé na crise de 1580 e o outro na crise (ou na sequência de crises) que o país vem atravessando. Relembremos ainda que na crise de 1383-85, D. João I, apesar de filho ilegítimo de D. Pedro I, fora eleito rei de Portugal. A questão da legitimidade nunca então foi posta, nem houve aproveitamento da origem social da mãe para a cobrir de insultos e, por essa via, denegrir o futuro rei. Contudo, se o caso era rigorosamente paralelo, em termos pessoais, ao de D. António, era muito diferente em termos conjunturais.

Por: JÚLIA DE BARROS GUARDA RIBEIRO
[continua]

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Violante Gomes, a "Pelicana" - II

[continuação do post de 2010.01.09]

> Retrato de D. António, prior do Crato, filho de Violante Gomes, numa gravura posterior que o apresenta como D. António I, rei de Portugal e dos Algarves.



Quanto ao Quadro Histórico (1601-1660) que nos é apresentado por Camilo ( já D. António havia morrido em 1595, no exílio em Paris, na mais triste pobreza ), ainda está bem vivo o ódio do Escritor não só pelo derrotado Prior do Crato, mas por toda a sua descendência e ainda pelo Infante D. Luís, seu pai, a quem apoda de vil, infame e pérfido, ao contrário dos historiadores que consultei e que tecem rasgados elogios a este príncipe.

Porém, é Camilo quem, numa longa nota de rodapé (pp.112-119) nos dá uma assaz convincente opinião sobre a Pelicana e o seu casamento com D. Luís. Ouçamos, pois, o escritor: “Violante Gomes (...) Digo suposta judia, porque apesar da quase unanimidade dos historiadores, creio que Violante Gomes era christã velha. O pae de Violante era Pêro Gomes que residia em Évora em junho de 1554. (...). Os que dizem que Violante professou em Almoster e ao mesmo tempo a reputam judia, não reparam na incompatibilidade da profissão com o sangue inquinado. É certo, porém, que Violante nunca professou.
Esteve alguns anos em Vairão, e d’ahi passou para Almoster, onde morreu [em 1568], sobrevivendo quatorze anos ao infante.
Para muita gente está ainda indeciso se D. Luiz casou ou não casou com a mãe de D. António. Os documentos officiaes convencem de que não houve um casamento canonicamente válido; mas eu pendo a crer que houve um casamento simulado, uma fraude pouco menos de infame, uma perfídia para remover as dificuldades que Violante punha a deixar-se possuir. As minhas suspeitas esteiam-se em um documento coevo em que Pedro ou Pêro Gomes, pai de Violante, é nomeado sogro do Infante D. Luiz. No livro dos baptizados de uma freguezia de Évora lê-se o seguinte assento:
"Em 15 de julho de 1544, baptizou o bacharel della (da parochia, o Padre Diogo VidaL, a Luiz filho de uma escrava de Pêro Gomes sogro do infante D. Luiz, foram padrinhos (…), e por verdade assigneij. Diogo Vidal Cura (…)" [1].
Se aqui não há falsificação contemporânea a fim de fortalecer as pretensões de D. António à legitimidade em 1580, este documento tem grande valor para justificar a desmoralização do infante e a resistente virtude de Violante, enganada vilmente pelo aparato de um casamento em que também foi enganado o pai da atraiçoada e o cura que baptizou o filho da escrava. (…). Estes casamentos com falsos padres clandestinamente não eram extraordinários na sua sociedade”.
(Fim da citação da longa Nota de Camilo).


O mesmo assento de baptismo é transcrito de Camilo pelo Abade de Baçal que na sua obra “Memórias Arqueológico-Históricas do distrito de Bragança - Os Notáveis”, (Tomo VII, p.212), dele faz leitura bem diversa: “Este documento constituirá uma prova esmagadora a favor da legitimidade de D. António se realmente não foi forjado para reforçar as pretensões de D. António ao trono português”.
É esta também a opinião de Veríssimo Serrão e de vários investigadores. Aliás, este historiador, a começar pela a sua tese de doutoramento, tem procurado, com o seu labor, pesquisa e estudo aturado de documentos da época em Portugal e no estrangeiro, muitos deles inéditos, dar continuidade àquilo que o Visconde de Faria começara e a que podemos chamar a reabilitação da figura de D. António, muito denegrida durante a dinastia filipina, pois poucos historiadores se tinham interessado verdadeiramente por trazer luz a esta figura que tanto tempo permaneceu obscura, desgarrada e de tal modo esquecida que os seus ossos ainda repousam fora da Pátria.
Todavia, esta questão foi aqui trazida, não para confirmar ou infirmar historicamente da legitimidade do Prior do Crato, mas porque, do ponto de vista literário, é sempre essencial aclarar ideias sobre o carácter e o modo de ser das personagens. Neste caso, os heróis, infelizes e trágicos, seriam D. António e sua mãe, Violante Gomes.

Passemos a Júlio Dinis e ao seu Escrito Incompleto. Trata-se apenas de um esquema, nada mais que 16 páginas, orientadas talvez para novela, talvez para teatro. Júlio Dinis, nesta mancheia de páginas, é o único escritor a mencionar o nome de Marta de Évora, de quem há remotas suspeitas que possa ter sido a mãe de Violante Gomes. Historicamente nada se sabe da mãe da Pelicana e na Geneall está representada por um N, o que significa "Não Conhecida, Incógnita".

A ter Júlio Dinis concluído a obra em mente, qual teria sido a acção principal? Quais as acções secundárias? Como se teria desenvolvido o enredo? É que, para além da existência de Marta de Évora (supostamente filha bastarda de D. Diogo, duque de Viseu, irmão da rainha D. Leonor e de D. Manuel, assassinado por D. João II), criada como filha por Briolanja Henriques - personagem esta que é referida por Garcia de Resende na sua Crónica “Vida e Feitos de El-Rei D. João II”, e que poderá ser extremamente importante em todo o enredo e talvez mesmo na vida de Violante Gomes - o autor sugere que Marta estaria destinada pelo rei a casar com Antão de Figueiredo, seu camareiro, mas que, por oposição da Rainha a tal casamento, acabaria a donzela por casar com Pedro ou Pero Gomes, que foi pai de Violante Gomes.
Porém, para além desta história, há ainda outro mistério a desvendar: o rapto de uma judia de nome Ester pelo Infante D. Afonso, filho de D. João II e herdeiro da coroa, o qual veio a morrer da queda de um cavalo junto da Ribeira de Santarém. O que teria acontecido a Ester, raptada e violada pelo príncipe herdeiro e, ao que tudo indica, logo oferecida a Antão de Figueiredo?
E não são os únicos estes dois núcleos de acção. Outros parecem delinear-se, como o destino de D. Jorge, filho bastardo de D. João II, criado por sua tia, a Infanta D. Joana de Aveiro. Por morte desta, seu pai, o rei, não sem oposição da rainha D. Leonor, decidiu trazê-lo para a corte.
Bem como o destino de D. Afonso, outro filho bastardo do mesmo D. Diogo, Duque de Viseu, portanto irmão de Marta de Évora, e criado em Pinhel às escondidas do rei.
Ou o destino de uma outra criança, D. Beatriz, filha do Duque de Bragança, decapitado em Évora, e que a rainha D. Leonor protegia.
Todos estes fios e estas vidas parecem entrelaçar-se, só não sabemos como Júlio Dinis o teria feito.
Mas que têm estas dramáticas intrigas a ver com Violante Gomes? Apenas o seguinte: se todas as personagens e factos descritos e sugeridos por Júlio Dinis são verdadeiros ou têm a sua base histórica, porque o não seria Marta de Évora?
Assim, pelo menos a Literatura poderia ter um nome para atribuir à mãe de Violante, e um nome de linhagem real, além de uma alcunha.[2]
___________________________


[1] Peço desculpa por colocar esta nota num post do Blog. Mas penso que aqui impõe-se o esclarecimento seguinte:

Este assento de baptismo, de que muito se tem falado ultimamente, como tendo sido descoberto por Luís de Mello Vaz de São Payo e apresentado em um estudo recente (?): D. António, Prior do Crato e Outros Cavaleiros da Ordem de S. João, 1997, e que seria importantíssimo para provar a legitimidade do Prior do Crato, não parece ser uma descoberta assim tão recente. Deste estudo não achei rasto. Mas o mais curioso é que Veríssimo Serrão nos diz que o documento em causa foi descoberto por António Francisco Barata que dele falou a Camilo, tendo sido divulgado em primeira leitura por este escritor. Afirma que nele não consta (…) Pero Gomes sogro do Iffante dom Luís (…), mas sim (…) Pero Gomes sobrinho do Iffante dom Luis (…). Francisco Barata sustenta que no séc. XVI viveram muitas famílias de apelido Gomes na cidade de Évora e poderá tratar-se de um sobrinho de Violante Gomes, o qual seria também sobrinho por afinidade de D. Luís. Veríssimo Serrão não crê que o documento tenha sido forjado, mas admira-se que, escondendo D. Luís o seu casamento com a Pelicana para não ferir D.João III, o Piedoso, como permitiu que o seu nome figurasse naquele papel? Remata dizendo: A menos que D. Luis não se encontrasse presente na cerimónia do baptismo. Cf. Veríssimo Serrão em: O reinado de D. António, Prior do Crato, Coimbra, 1956, pp. LXIII-LXIV. Este assento não só está no livro competente, mas também se encontra copiado na Biblioteca de Évora no Códice CIII /1-17, fl. 56.

[2] Desculpem mais outra Nota. Prometo que não haverá mais:

Inúmeras vozes vêm sugerindo que D. Briolanja Henriques, que terá criado Marta de Évora, a terá ensinado a tocar pandeiro tendo, por isso, a menina recebido a alcunha de “Pandeireta” e terá passado essa alcunha a sua filha Violante. ( Ver: «Marta de Évora - Debate sobre a “Legitimidade de D. António, Prior do Crato”», in Geneall-Forum - Geneall.pt/Geneall.net/ Fórum/ Guarda-Mor/Livraria).

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Por: JÚLIA DE BARROS GUARDA RIBEIRO
____________

[CONTINUA]

Etarras detidos em Torre de Moncorvo encontram-se em Lisboa


> Recorte de notícia de 1ª. página do jornal "i", de hoje (11.01.2010)

Os dois suspeitos "etarras" capturados em Torre de Moncorvo, ao início da noite de 9.01.2010, encontram-se desde ontem em Lisboa, para onde foram conduzidos a fim de serem ouvidos no Tribunal Central de Instrução Criminal. Sabe-se agora que os referidos suspeitos são Garikoitz García Arrieta e Iratxe Yañez Ortiz de Barron, sendo esta considerada "a mais perigosa" e tida como suspeita de participação nos atentados de Burgos (Julho de 2009) e de Maiorca.

A perseguição terá começado em Bermillo de Sayago (Zamora), quando a Guardia Civil espanhola achou suspeita uma carrinha de matrícula francesa (a qual se verificou depois que transportava componentes para fabricação de explosivos), pelo que a mandou parar. Nessa ocasião o condutor (García Arrieta) apoderou-se da viatura da Guardia Civil e escapou-se rumo à fronteira portuguesa onde entrou por Bemposta. A Guardia Civil entrou em comunicação com a GNR e a perseguição continuou do lado de cá, com meia-dúzia de viaturas a seguirem os suspeitos a grande velocidade, tendo culminado à entrada da vila de Torre de Moncorvo, onde foram disparados tiros de intimidação contra um dos fugitivos. A mulher logrou escapar e acabaria detida já no concelho de Vila Nova de Foz Côa, na zona do Pocinho, segundo se comentou em Moncorvo.
É de esperar que os suspeitos, uma vez cumpridas as formalidades da lei portuguesa, venham a ser extraditados para Espanha, o que já foi solicitado pelo Ministro do Interior espanhol, Alfredo Pérez Rubalcaba. Esta decisão é contestada pela Associação de Solidariedade com Euskal Herria (País Basco), uma organização portuguesa de simpatizantes com o movimento separatista basco.

Para mais informação sobre este caso, ver:
Agência LUSA: http://www.google.com/hostednews/epa/article/ALeqM5jbSrHqJenHbPYkEcWyeUSLNi5PFg

RTP (Rádiotelevisão Portuguesa):
http://tv1.rtp.pt/noticias/index.php?t=GNR-confirma-prisao-de-dois-presumiveis-terroristas-da-ETA.rtp&article=309241&layout=10&visual=3&tm=8

TSF online (Rádio):
http://tsf.sapo.pt/PaginaInicial/Portugal/Interior.aspx?content_id=1466340

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