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terça-feira, 30 de junho de 2009

Epidemias



No espólio de meu Pai (muitos manuscritos, sobretudo poemas, fotografias, recortes de imprensa e outras coisas de índole pessoal), encontrei este registo que data de 1929. O conjunto, escrito num formato jornalístico e de cuidada caligrafia tinha ele 20 anos, e que intitula de "Cópias das notícias remetidas à secção regionalista do Diário de Notícias", reporta uma epidemia de gripe que efectivamente ocorreu nesse ano e teve , pelos vistos, reflexos na recôndita aldeia de Urros. Em Urros vivia então com os meus Avós ainda antes de se casar e fixar depois em Moncorvo.
Numa altura em que tanto se fala de uma nova epidemia de gripe, achei curioso divulgar este documento que, para além do seu valor sentimental que peço me relevem , traduz talvez uma sonhada vocação jornalística nunca concretizada...

ROTEIRO DA CORREDOURA ENTRE 1944/45 ATÉ 1959/60 - 9

Vista da Corredoura, num dia de neve, do longínquo ano de 1894. Ao centro vê-se a capela de S. Sebastião (Esta foto foi tirada pelo Padre Adriano Guerra, um dos pioneiros da fotografia em Torre de Moncorvo, tendo-nos sido cedida uma reprodução pelo Dr. Carlos Seixas - original em poder da família)


Só já nos falta um pequeno troço por trás da capela de S.Sebastião, em direcção ao Terreiro e à casa dos Mirandas: numa moradia bonita de rés-do-chão ( para arrumações e adega) e 1º andar, viviam o Sr. Todú e a esposa , a D. Alcina. Tinham duas filhas, mais ou menos da minha idade, a estudar fora de Moncorvo, num colégio interno, À esquerda havia um portão que abria para um pátio com uma casinha pequena onde morou a Tia Marquinhas Gata e depois a filha Teresa Gata com o marido e filhos. Pegada a esta, noutra casita também muito pequena viveu outra filha da Tia Marquinhas: a Adélia Gata e a família. À direita da casa do Sr. Todú e com ela pegada ficava a casa do Tio Cordoeiro, pai da Beatriz Cordoeira, da Cecília e do Alberto. Seguia-se a casa da Tia Filomena Vilela, marido e filhos. Mais recuada, ficava a casa da professora D. Graciete Gregório que, dizia-se, era má como as cobras. Vinham então mais duas casas, uma de rés-de-chão, só com porta e sem janelas, em que moravam a Sra. Amélia e o Sr. Fidalgo, guarda republicano, e depois outra casa com rés-de-chão e 1º andar e com varanda para o Largo da Corredoura, para Os Olmos e para a Vila. Um luxo ! Aí moraram a Menina Idalina e o marido Sr. Alexandre Morais, mais conhecido por Alexandre Verde e aí nasceram os seus cinco filhos. Esta casa fazia esquina e, mais recuado, no canto, ficava um forno que ainda trabalhava em pleno. A forneira era a Tia Alexandrina Tótó.

Vamos agora ao começo do caminho para S. Paulo: à esquerda ficava a casa do Sr. Manuel dos Carros e da mulher, a Sra. Rosinha. Esta casa também tinha um cabanal onde o Sr Manuel trabalhava e onde ficava uma casita em que viveu a Tia Maria Escalda com os filhos Leopoldo e Germano. A seguir a esta, mas no caminho para a Nória, vivia a Tia Aida, mãe do Xico Alfaiate (casado com a Menina Judite Gregório). Por cima, a Palmira do Álvaro. Pegada à casa da Tia Aida ficava uma cortinha da Sra. Guilhermina Galo e lá no fundo era a Nória. Já quase na Fonte Carvalho, numa casinha dentro de um quintal, vivia o guarda republicano Sr. Redondo, com a mulher , a Sra. Marquinhas do Redondo e os filhos.

Creio que dei a volta completa. Mas a memória é muito traiçoeira. Deve haver inúmeras falhas... Peço, por isso, a quem se lembrar de mais moradores da Corredoura ou que ache que a sequência não é bem assim, o grande favor de chamar a atenção, para que os erros possam ser corrigidos.

a) Não deveremos esquecer que este ROTEIRO diz respeito àquela dezena e meia de anos, mais ou menos entre 1944/45 e 1959/60.

b) Sugiro que alguém parta desta data (1960) e continue até 1975 – 1980;

c) ... e de 1980 até 2000 ; etc.

Com um grande abraço a todos os Amigos e Conterrâneos e um abraço muito especial aos Corredourenses.

Por: Júlia Barros Ribeiro (BILÓ)

Nota: A foto de baixo mostra a zona do bairro do S. Paulo, a caminho da Fonte Carvalho, com o antigo campo de futebol ao fundo, à direita. Em primeiro plano, o olival do Santo Cristo (que deu lugar ao bairro do mesmo nome) e a esquina de um dos edifícios da Cooperativa. - Foto de Leonel Brito, anos 70.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

ROTEIRO DA CORREDOURA ENTRE 1944/45 ATÉ 1959/60 - 8

Grupo de crianças da Escola Primária da Corredoura, com a professora D. Isabel. Foto de 1926/27, segundo informação de D. Maria Antónia Brito Castilho (Arquivo Leonel Brito)

Quase no fundo, ainda do lado esquerdo, numa casa pobre, com uma escada de degraus altos e muito falsos, pois não tinha corrimão nem qualquer apoio para as mãos, morava a Tia Delmira, o marido e filhos. A seguir era a casa de uma tia minha, a Tia Permelívia (que morreu muito nova) onde viveu com marido, Abílio Amador, e os filhos. Atravessada a boca da Canelha, numa casa com um pequeno alpendre, morou a D. Arminda de Maçores, com as filhas Camilinha (mais tarde casaria com o Sr. Inspector Costa) e Dulce, enquanto elas frequentaram o Colégio. Depois viveram aí o Henrique Chanfana e a mulher, Alice.
Ladeando esta casa, entrava-se num pequeno largo onde ficava a casa da Tia Alcina Guino, mãe da Miss, do Rei, da Princesa, do LoboMano e ainda a casa dos Amadores, já de razoável construção. Seguindo por uma abertura ia dar-se ao Carrascal e aos inúmeros palheiros que então aí existiam.

Voltando para trás e subindo agora a Rua de Baixo, ficavam à nossa esquerda as casas da Cacilda Marialva e da Carminda Marialva, irmã e filha da Tia Marquinhas Marialva. Havia depois uma cortinha, a “Feitoria”, tratada pelo Tio Caetano e pela mulher. Tinha um poço de água para regas, um grande tanque e a maior laranjeira que já vi, com laranjas enormes e sumarentas, mas muito azedas. A Tia Lucinda Gamboa dizia que era do sabão com que se lavava a roupa no tanque e que ia para as raízes da laranjeira.
Depois da Feitoria era a casa da Tia Maria Carmacha, casada com o César Caçador que criava cães perdigueiros portugueses lindíssimos. Vinham caçadores de todo o lado comprar-lhe perdigueiros. E eu ficava perdida, horas seguidas a ver os cachorrinhos. O Tio César só me deixava fazer-lhes uma festinha, senão ficavam “morrinhentos”.
(Continua)
Por: Júlia de Barros G. Ribeiro (Júlia Biló)
Nota: Excepto a fotografia do topo, as outras duas são de 1950 (informação de Leonel Brito, que as obteve de D. Maria Antónia Brito Castilho). Estes são os meninos da Corredoura (usando a expressão de Daniel de Sousa) de outros tempos. A foto intermédia foi tirada junto ao adro do S. Sebastião; a de baixo parece ser na famosa casa (hoje parcialmente destruída) que está na capa dos Contos ao Luar de Agosto, da autora deste "post".

domingo, 28 de junho de 2009

ROTEIRO DA CORREDOURA ENTRE 1944/45 ATÉ 1959/60 - 7

Momento da "arrematação" no adro da capela, durante uma festa de S. Sebastião, por volta de 21 de Janeiro, nos finais dos anos 70, ou inícios da década de 80. Do lado esquerdo, a casa grande era a dos Mirandas, em cujo baixo ficava o café S.Sebastião, do sr. Amílcar (foto do arquivo do Sr. Abílio Dengucho, cedida a Leonel Brito)

Antes de passarmos à Rua de Baixo, vamos seguir as casas de “O Alto” pelo nosso lado esquerdo até à casa da Menina Gininha Galo: na da esquina morava a Tia Teresa Costa, o marido, o Tio Miguel e os filhos, o Alexandre, o António e a Maria. Logo a seguir , fazendo um recanto que era um óptimo soalheiro abrigado do vento, morava a Sra. Delmina Terceira, o marido que era guarda-fios e três filhas: a Maria, a Conceição e a Julieta (minha comadre) e dois filhos, o António e o Zé. Depois era a casa de um arrematante de trabalhos nas estradas, que veio de Valdujo com a mulher e duas filhas. A mais nova, Floripes, era da minha idade. Acabados os trabalhos contratados, iam embora para outras paragens. Pegada a esta, ficava uma casita muito pobre que a minha mãe comprou à Sra. Guilhermina Galo. Os anos que ainda vivi em Moncorvo (até aos 21) passei-os nessa casa. A seguir morava outra família da grande família que eram os Vitelas: a Tia Maria Vitelas, casada com o Zé Vitelas, pais da Carmelina e da Lídia, minhas colegas de escola primária. E demos a volta: estamos já junto da casa da Menina Gininha Galo e da esquina da grande casa dos Mirandas.


Voltemos então à boca da Rua de Baixo que, como já disse atrás, começa precisamente entre a casa dos Mirandas e a dos Mesquitas. Quem desce a rua, à esquerda, vê os baixos da casa da Gininha Galo: aí, num pequeno cubículo, vivia e trabalhava o Deodato, sapateiro. Pegada a esta vinha a casa onde morou o Batateiro. Mais tarde viveram aí o João Falapão com a mulher a Beatriz Gata, pais da Emília e do Beto. Seguia-se a casa da Tia Perpétua dos Requeijões, onde íamos com a caneca ao soro.

Por: Por: Júlia de Barros G. Ribeiro (Júlia Biló)

Nota do postador: a foto de baixo mostra o início da Rua de Baixo; a esquina à esquerda é da casa dos Mirandas; junto às escadas que se vêm ao fundo, do lado esquerdo, era a casa do ti João Araújo "Falapão" e srª Beatriz, de que se fala neste fascículo do Roteiro de Júlia Biló; as escadas davam acesso à casa onde, nos anos 70, viviam os Vilelas.

Caça furtiva e triunfo dos porcos

Identificação e sinalização ( riscos e colocação de uma pequenina pedra ao alto como indica a seta) de um "sebadoiro", para a caça furtiva de porcos bravos. A ausência de vegetação indica a passagem destes animais por esse local. Para o "sebadoiro", colocam amêndoas para atrair o porco que é alvo desta armadilha. Será que o "triunfo dos porcos" não está na gripe suina?!

sábado, 27 de junho de 2009

Convite - Teatro

O Grupo de Teatro Alma de Ferro de Torre de Moncorvo tem o prazer de o convidar para assistir à repetição da peça "O Velho Ciumento" de Miguel Cervantes, que se realiza no dia 3 de Julho de 2009 pelas 21:30 em Moncorvo. O Grupo agradece a divulgação deste novo espectáculo através dos seus contactos. Já agora não se esqueça de comparecer e trazer um amigo também.


GTAF (Grupo de Teatro Alma de Ferro) de Torre de Moncorvo

S. Tiago "Fresco"

Nesta peregrinação pela nossa cultura, também há direito a uma pausa para admirarmos S.Tiago, um fresco da Ermida da Teixeira. (Foto: J. Costa, Março de 2005)

ROTEIRO DA CORREDOURA ENTRE 1944/45 ATÉ 1959/60 - 6

Vista do Largo da Corredoura hoje (27.06.2009) para comparação com a foto do Roteiro da Corredoura nº. 3 (post de 24.06.2009), já que foi tirada do mesmo ângulo (foto N.Campos)
Voltando à frente da casa da Tia Fusa, à nossa mão esquerda, ficava a casa da Tia Maria José Carlota, (que queria que a chamassem sempre pelos três nomes) mãe da Júlia Checha e do Alberto Checho. Depois havia uma casinha térrea, muito miserável, onde vivia a Laura vesga, com a mãe (a Tia Camila) que era quase cega e os filhos: a Maria, a Júlia, a Camila e o António Camilo. Uma das filhas era também estrábica. Vinha então uma casa de boa construção em cantaria, com loja para os animais e onde havia um quartinho feito de tabique para o albardeiro, cujo nome esqueci, e no 1º andar vivia o Tio Diogo Parrico. Seguiam-se três casinhas térreas: na que fazia canto com a casa do tio Diogo, vivia a Tia Maria Panda; na seguinte morava a Tia Aurora Choqueira casada com o Artur Ganchinho que morreu novo e na última morava a Tia Júlia Marruca. Passando a esquina desta chegamos a “ O Alto”, assim designado, porque fazia um leve declive na direcção das casas mais baixas. (Uma desgraça quando a chuva era muita). Na primeira casinha, pequena, térrea, vivia a Maria, sobrinha da Lucília Florista, com os filhos. (Mais tarde, depois do Guarda Republicano, pai do “Arreia Zeca” ter ido embora, foi morar na casa onde vivera a tia). Na segunda casita vivia a Tia Júlia Panela, cujo marido – ainda relativamente novo – teve um ataque cardíaco e ficou entrevado na cama até ao fim da vida. Tiveram dois filhos, um dos quais, quando recém-nascido, era os meus encantos e era preciso tirarem-mo do colo. Havia depois uma casa de varanda redonda onde morava a Tia Carminda Clareira no 1º andar; e, no rés-de-chão, sem qualquer janela, numa casa com chão de lajes muito desiguais e imperfeitas (uma ratoeira para quem andasse lá às escuras) morou a Ana Baloca. Depois, durante algum tempo, viveu aí a Maria Carmacha com o marido e um ou dois raparigos. Pegada e fazendo canto viviam, numa casa de soalho, a Tia Maria Cândida Moreira, a filha, a Menina Natalina, costureira, e os filhos: o Lúcio, o Zé Coelho, o António e o Manuel. (Este semicírculo era conhecido como “O Canto”). Seguiam-se duas casinhas muito pobres: numa vivia a Beatriz Carmacha, mãe da Maria, da Alice, do Artur e da Júlia, esta, minha colega na escola primária. Na outra moravam a Tia Zefa Maçorana e a neta Júlia, que devia ter uma grande miopia, mas não havia dinheiro para óculos. A rapariga cantava muito bem. Pegada, ficava a casa da Tia Marquinhas Marialva, que já dava para a Canelha que levava à Rua de Baixo. (Continua)

Por: Júlia de Barros G. Ribeiro (Júlia Biló)

Foto intermádia: vista geral do largo do "Terreiro", do bairro da Corredoura. Foto do fundo: é a zona do "Canto", de que se fala neste "post" - ao fundo do Canto existe a canelha que liga à rua de Baixo (fotos tiradas no dia 27.06.2009).

Daniel de Sousa

Há muito tempo que leio um blogue notabilíssimo e por vezes doloroso, das experiências que relata como médico, do nosso colaborador Daniel de Sousa. Envio-lhes o endereço: http://headandneckdanieldesousa.blogspot.com
Acho que seria muito interessante colocá-lo nos nossos favoritos. Recomendo a leitura de um texto memorialista e emotivo de Daniel de Sousa, "Retrato em Sépia" que pode ser lido nas mensagens antigas e que, com a sua permissão, poderia perfeitamente ser editado no nosso blogue.

Perspectiva

Do alto lá da Matriz ...
Foto: J.Costa

I Festival das Migas e do Peixe do Rio - Nota de Imprensa

I Festival das Migas e do Peixe do Rio, organizado pela Douro Superior Associação de Desenvolvimento em parceria com a Associação de Comerciantes e Industriais de Moncorvo, realizou-se de 18 a 21 de Junho, na Praia Fluvial da Foz do Sabor. Durante o certame foram servidas mais de 1800 refeições de Migas e de Peixe do Rio, dentro da tenda pelos dois restaurantes aderentes.
Os principais objectivos do festival foram assim atingidos, que eram a divulgação dos pratos confeccionados com migas e peixes do rio e a criação de uma dinâmica que envolvesse não só o local do festival, mas também os restaurantes tradicionais da Foz do Sabor.
O I Festival das Migas e do Peixe do Rio contou com a animação de alguns grupos da região como a Escola Sabor Artes, Banda Filarmónica de Freixo de Espada à Cinta e Carviçais e o Rancho Folclórico e Infantil de Vila Nova de Foz Côa, mas também com a actuação do Quim Barreiros. A par da animação musical fizeram parte do Festival um concurso de Pesca com cerca de 40 participantes, um concurso de desenhos com 20 participantes e um concurso de Pratos de Peixe com 4 participantes.
Durante o Festival, os visitantes tiveram ainda a oportunidade de fazer um cruzeiro do Pocinho à Foz do Sabor e de fazer alguns passeios de barco.
Os visitantes, agradados com a ideia, aderiram em massa ao certame, superando as expectativas da organização. Sendo este o I Festival, algumas das falhas verificadas servirão para melhorar uma próxima edição.

Torre de Moncorvo, 24 de Junho de 2009

Luciana Raimundo

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Foi há 113 anos: anexação do concelho de Freixo por Torre de Moncorvo

Mapa da época, com marcação do itinerário seguido pelos de Moncorvo, na operação de posse da documentação oficial do concelho de Freixo. A força militar que deu cobertura ao acto, certamente com receio da reacção popular, terá vindo do Porto pela Linha do Douro. Assim o trajecto assinalado foi apenas o do Administrador de T. de Moncorvo, do corpo policial que o acompanhava e, naturalmente, dos carrejões transportadores dos livros oficiais de registos. Como se sabe, esta anexação foi sol de pouca dura, mas a verdade é que, por momentos, Moncorvo foi um super-concelho, à custa do antiquíssimo concelho de Freixo.
Junho, 26 [do ano de 1896] – chegou à Barca d’alva o Snr. Governador Civil de Bragança, com 40 praças do corpo nº 18 que as trouçe consigo do Porto, e mandou ir ao nosso administrador [de Moncorvo] que era o Snr. Marculino Margarido a estar com elle e depois mandaram ir a toda a preça os dois pulicias que aqui estavam destacados a ter com eles e no dia 27 chegou às 9 horas de manhem o sr. admnistrador com 2 puliçiais e com as 40 praças a Freixo e mandou cercar as repartições e intrarão dentro e mandou inorcar [sic] todos os livros e papeis que avia nas repartições e mandou carregar tudo em jumentos que logo os levou para isso e marcharão para Poiares e onde estiverão todos a comer alguma coisa, por ainda estavão em jejum, porque não quizeram comer nada em Freixo, e chegarão à barca dalva às 9 horas da noite e no dia 28 pellas 4 horas da tarde chegaram a esta villa, o admnistrador e os 2 pulicçiais com a papelada toda nos 2 carros, o do correio e o do Lazaro”. – in Caderneta de Lembranças de Francisco Justiniano de Castro (transcrição e notas de Águedo de Oliveira, edição dos Amigos de Bragança, 1975), pág. 15

O moncorvense F. Justiniano de Castro (falecido em 16.07.1901), era um amanuense reformado da Administração do concelho de Torre de Moncorvo, que nos últimos anos de vida se entreteve a anotar episódios interessantes do quotidiano da vila e redondezas, num caderninho que intitulou de "Caderneta de Lembranças", o qual viria a ser publicado pelo Dr. Águedo de Oliveira (antigo ministro das finanças do Estado Novo, natural da Horta da Vilariça), no jornal “A Torre”, sendo depois republicado em separata pela associação Amigos de Bragança (1975).
O episódio que o referido cronista aqui nos relata tem a ver com a extinção do concelho de Freixo de Espada à Cinta e sua anexação a Moncorvo, em consequência de mais uma de muitas reformas administrativas ocorridas no séc. XIX, sendo esta decretada por um governo do Partido Regenerador, ainda nos tempos da Monarquia. Tudo isto tinha a ver com questões políticas da época, tendo motivado, meses mais tarde, aquando de um período eleitoral, uma forte reacção do Partido Progressista, que encenou, inclusive, um enterro do concelho de Freixo (com urna e tudo, coberta com a bandeira do concelho), dando-se morras! aos “traidores” que tinham compactuado com esta extinção e anexação. Com a vitória dos Progressistas (a que chamavam então os “Penicheiros”) o concelho de Freixo voltou a ser restaurado logo no ano seguinte (1897) e, naturalmente, devolvida a documentação oficial que tinha sido confiscada neste acto de força. Note-se que o trajecto foi feito por caminho-de-ferro (entre Pocinho e Barca d’Alva) e o resto do percurso nos dorsos de animais e em carros, também de tracção animal, claro! (ver mapa em cima).

Receita para fazer sabão

Lembro-me bem de, em pequeno, ver a minha avó fazer esta receita, que tinha herdado de um caderno da sua mãe, datado de 1924. Achei pertinente transcreve-la aqui, e com a grafia dessa altura, e com as expressões de uma transmontana. Aqui fica:

“Um kilo de soda caustica deita-se numa bacia que deve estar bem lavada, lançam-se-lhe 6 quartilhos dagua e ali se deixa estar até que a soda se derreta e guarda-se onde se lhe não caia sujidade, de quando em quando é bom mexê-la com um pau limpo para que se derreta mais depressa, logo que esta esteja desfeita lança-se essa agua numa caldeira ou vasilha que seja própria e deita-se-lhe uma remeia de borras de azeite as quaes devem estar bem apuradas deste e 5 ou 6 chávenas de cinza que deve ser peneirada e conforme se vai deitando, isto tudo ir mexendo sempre com uma colher grande de pau, mas ter o cuidado de mexer sempre para o mesmo lado até engrossar, pois quer ser muito bem batido e em estando bem grosso lança-se para as formas que devem ser de madeira e devem molhar-se com agua antes de se lhe lançar a massa e deixa-se estar a secar só até ao dia seguinte e com uma faca despega-se a toda a volta das paredes da forma e vira-se com cuidado e em caindo parte-se aos bocados e põe-se a secar.
Este sabão não serve para lavar roupa de lã, nem preta; de resto serve para tudo.
A soda deve-se empregar logo que se compre porque em casa derrete-se.
A cinza para o sabão dizem que é melhor de lenha de oliveira ou de vides, mas como seja branca toda serve em sendo peneirada.
As quantidades que leva:
- 1 litro de soda caustica
- Uma remeia de borras
- 5 ou 6 chávenas de cinza (chávenas das do chá)
- E mexer sempre para o mesmo lado.
- A soda deita-se de molho em 6 quartilhos de água.”

ROTEIRO DA CORREDOURA ENTRE 1944/45 ATÉ 1959/60 - 5

Feira de vestuário e panos, na Corredoura, junto à capela, nos anos 70 (foto de Leonel Brito)

Para a esquerda destes palheiros, num caminho estreito para o Carrascal, ficava a casa dos Majores: no rés-do-chão dormia o rebanho das ovelhas e no 1º andar viviam as pessoas. Para a direita dos mesmos palheiros, no largo já referido, ficava a casa dos Noventas. Ao canto, também à direita, era a casa onde morava a Sra. Aninhas dos Cerejais que, se bem me lembro, só bebia chás e comia sopinhas de leite e morreu de cancro do estômago. Para esse mesmo largo davam as costas do forno da Sra. Camila Miranda, que foi o que “andou” até mais tarde. A forneira era a Tia Maria Panda.

Vamos até à esquina e temos a bica do povo. (Que eu me lembre, só 4 ou 5 casas tinham água canalizada: os Mirandas, os Mesquitas, o Sr. Todú, a Menina Gininha Galo e a D. Aida). A seguir à bica era a porta do forno. Pegada ao forno ficava a casa em que vivi com a minha mãe e a minha avó desde os meus dois anos até aos oito. A casa pertencia aos Mirandas: na loja ficavam os seus bois e no 1º andar vivíamos nós. Depois, paredes meias com a nossa casa, morava a tia Cândida Patuleia com o marido e os filhos. A seguir era a casa do Tio Alberto Manco, padrasto do Nésio. Pegada a esta ficava a casa da Tia Beatriz Vilela, mãe da Virgínia, que foi minha colega no Colégio. Seguia-se a da Tia Maria Fusa que tinha uma família numerosa. A virar já para o Carrascal, morava a Tia Emília Mascarenhas, que tinha uma mão com os dedos encolhidos, por se “ter picado numa silva-macha, quando era pequena”. Nos baixos viviam a Tia Maria Casca Grossa e os porcos.
(Continua)

Por: Júlia de Barros G. Ribeiro (Júlia Biló)

PROSEMA

As palavras são correntes de lava e lágrimas e no lodo purificam-se em percursos matinais. Trocam de dores como trocamos de deuses. E no primeiro rosto da noite desaparecem guardiãs e vigilantes das Trevas.

Ainda não cheguei donde parti sem partir. A terra é feita de pedras das neblinas da memória desta cinza que amolece de um tempo de fogo e fúria.

Os rostos perdem-se na miopia dos anos mal vistos, na soturna passagem de testemunho de nada testemunhar do cavalo sangrando à beira do abismo como força e peso que promete asas para o voo de encontro à Luz.

Dirão os vindouros que esta não foi a minha terra, o lamento, o canto, o muro onde mijávamos em nome da saudade do futuro a faia que não secámos os vidros das janelas que não partimos e a tristeza de partir quando o redemoinho das feiticeiras nos convidava para a viagem mais longa que nos era dado sonhar.

(Noite, seca-me os olhos para que as lágrimas não inventem regatos nas rugas da face.
Noite, gota a gota ensina o orvalho a seduzir a manhã. Escondidas nas grutas do tempo permite que as flores tenham cheiro e no sussurro consentido aos deuses que as sílabas sibilem, balas à procura de um corpo livre que as aceite).


Regresso à terra de onde nunca cheguei a partir. De bornal vazio bato à porta e ninguém responde. A casa deserta e na varanda agridem cardos mal tratados.


A Vila é vilã de visita à culpa e ao seu punir.
Mas que violino se ouve ao longe que me abraço ridículo e jovem e áspero ao Manquinho de Açoreira?
Que deuses e lobos me consomem e devoram no respirar silêncios da serra muda?
Ai Manquinho! Ai Manquinho! Pego-te ao colo antes da chegada dos lobos, a ti, o violino da minha infância, a melodia sem fim para o meu ouvido surdo.

Apostila: Dizem que é de rabeca o teu tocar. Mas para mim continua a ser violino. E branco.

Meninos da Corredoura

Meninos da Corredoura

o tempo era então só nosso e escoava-se nas manhãs
com luz e grandes espaços
ouviam-se vozes na sombra sob os plátanos
de verdes e generosas folhas que anunciavam o verão em cada ano
e tombavam depois na agonia outonal sem
cessar redizendo o eterno
o tempo era imaculado gritante limpo infinito
corríamos de sandálias e calções rotos na poeira
num mundo só nosso
inexplicado e simples sem mistérios sem mágoas sem mentiras
também temível como a serra dos medos que ao fundo ocultava um segredo

sorvíamos o ar no peito
os nossos olhos brilhavam com fulgor e diziam do sol a redonda luz

depois o tempo guardou os sonhos depois o silêncio depois o frio
por fim sobreveio um inquieto torpor
e alguns dos meninos cujas vozes eu ainda lembro já não vejo

ou talvez sejam apenas vozes já muito distantes
como estrelas

Junho de 2009

quinta-feira, 25 de junho de 2009

ROTEIRO DA CORREDOURA ENTRE 1944/45 ATÉ 1959/60 - 4

Pessoas da Corredoura, na zona do "terreiro"? nos anos 70 (foto de Leonel Brito)

Num cubículo da casa atrás referida vivia a Maria Manquinha, com o marido e 3 filhos. Por baixo, o porquinho. A seguir, sempre à esquerda, ao fundo de uma estreitíssima quelha, ficava um forno tratado pela Tia Marquinhas Marialva. Vinha então uma casa com rés-de-chão e 1º andar (pertencente à Sra. Adelina Chavé), com varanda e janelas, pintada de cor de rosa, onde morava a Dona Aida, irmã do Dr. Ramiro Salgado, casada com o Sr. Antoninho, portanto cunhado do Dr. Ramiro e secretário do Colégio. Pegada a esta ficava a casa da Tia Maria Trovões onde vivia com filhas e netos. Por baixo , os burros e porcos. Na casa seguinte morava a irmã, a Tia Cacilda Trovões, mãe do Abel carteiro. Depois era o cabanal, um espaço com um telheiro onde se albergavam ora ciganos, ora os amoladores de tesouras e os caldeireiros que, de tempos a tempos, vinham até à vila. Pegada ao cabanal, mas ao nível do 1º andar, morava a Tia Lucília Florista. Mais tarde, após a morte da Tia Lucília Florista, morou lá um guarda republicano com a mulher e um filho da minha idade e que malhava em todos nós. Se, por um acaso, estava a perder a refrega, vinha a mãe ao balcão e gritava-lhe: “Arreia, Zeca, que o teu pai é guarda” .
Estávamos no coração da Corredoura.

A seguir à casa do dito guarda, vinha uma outra, de pedra, com rés.de-chão e 1º andar, bem construída e de dimensões razoáveis, onde vivia a Sra. Lucinda, uma das famílias dos Vitelas, lavradores já razoavelmente abastados. Depois seguia-se uma casa de 1º andar (na loja estavam os bois dos Vitelas), normalmente alugada a estudantes do Colégio. (Mais tarde, esta casa foi habitada pela Tia Idalina do Campo). Pegada a esta ficava a casa do Tio Caetano e da Tia Lucinda Gamboa, que gostava muito de mim porque, quando ia ajudar a minha mãe a fazer as alheiras, eu lhe dava um golinho de vinho às escondidas de toda a gente. Em frente destas três casas ficava um pequeno largo , onde existiam dois palheiros que, no tempo da apanha da azeitona serviam para albergar os ranchos das mulheres e homens que vinham das aldeias, a maior parte dos quais vinha (pela pronúncia que ainda guardo no ouvido) de Felgueiras. Apesar do cansaço, aí havia música – realejo e bombo - e bailarico até às tantas.
(Continua)

Por: Júlia de Barros Ribeiro ("Biló")

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Em Moncorvo



Ó montes que cercais a vila de Moncorvo,

Ó pinhos cujo odor continuamente eu sorvo,

Ó águas que a cantar passais a nossa vida,

Ó pobres camponeses sempre a trabalhar,

E vós carros de bois pela estrada a chiar,

E tu ó negra fome em todos os lares erguida,

Entoai-me uma canção que me faça chorar,

Que à vida nem eu sei que rumo hei-de já dar …



Gemei eternos montes, sempre adormecidos,

Ó pinhos abaixai vossos ramos erguidos

E vós águas das fontes chorai eternamente …

Camponeses, parai, de trabalhar, parai….

Chiai, carros de bois; Gemei, chiai, chiai …

E tu ó negra fome extermina-os sempre!...

Revolvei-vos montanha! Meu fim não tardará

Que o que me vai na alma não tem remédio já…



Vejo tulipas brancas estremecer de dor

Nesta terra maldita onde não há amor

Onde os homens se batem sabe-se lá porquê?

E onde os animais se comem uns aos outros,

E onde há tolos tantos e espertos tão poucos …

Onde do que era bom nem átomo se vê!

Eu que sou diferente de todos, que fazer?

O vácuo, o nada, o nada! Morrer, morrer, morrer!

30/VIII/1945

Poema: J. Lopes

Foto: Tomás Menezes


ROTEIRO DA CORREDOURA ENTRE 1944/45 ATÉ 1959/60 - 3

Feira do gado no Largo da Corredoura. Do lado esquerdo a capela de S. Sebastião; ao fundo a velha escola primária dos rapazes (foto dos anos 50 ou 60? - arquivo de Drª Júlia Ribeiro)

Pois, a seguir à casa do Sr. Miguel Mesquita vinha outra casa (pertencente aos Mirandas) que era normalmente alugada a famílias das aldeias vizinhas que traziam os filhos para estudarem no Colégio. Nela moraram a Eugénia Carlota, irmã do Galeguinho, e mãe da Eva. Depois morou lá uma senhora com uma filha chamada Astride, que andou no Colégio ao mesmo tempo em que eu andei. Esta casa fazia esquina e na esquina em frente era a casa dos Mirandas. Os Mesquitas e os Mirandas eram então as duas famílias de lavradores mais abastadas da Corredoura. (Nada tinham a ver com os grandes proprietários absentistas da Vila que só vinham a Moncorvo por altura das vindimas e colheita da amêndoa e alguns pelo Natal, que era também a época da lagaragem do azeite). Os homens das duas famílias mencionadas trabalhavam as suas terras com os bois, os machos e os jeireiros. As filhas não trabalhavam no campo. Entre a casa dos Mesquitas e a dos Mirandas começava a Rua de Baixo. Já lá iremos.

Dobrando a esquina da casa dos Mirandas, à direita era a casa da Sra. Guilhermina Galo, mãe da Menina Gininha Galo, empregada nos Correios, depois chefe. Casou já ia quase nos 50 com o sapateiro Álvaro Chalaça. (A velha Guilhermina Galo, que nunca aceitou tal casamento, repetia a cantilena “Sapateiro remendão, onde os outros põem os pés, põe ele a mão”). Em frente da esquina das casas da Sra. Camila Miranda e da Menina Gininha Galo, ficava a casa (pertença de Aníbal Miranda, sogro do Sr. Todu) em que morava a Menina Judite Gregório, casada com o Xico da Aida, alfaiate.

A escada que lhe dava acesso tinha uma data de degraus. Aí ouvi, em criança, as histórias que as velhas contavam. (Havia uma hierarquia determinada na ocupação desses degraus. Nos de baixo sentavam-se as mulheres mais velhas; algumas acocoravam-se encostadas à parede. Pelos outros degraus acima sentavam-se as mulheres com filhos de colo, outras mulheres e alguns homens). O Tio Diogo Parrico ficava sempre de pé, arrimado ao seu velho cajado. As moças novas namoravam ali por perto, à vista de toda a gente. A canalhada andava em correrias pelo terreiro, sim era aí o Terreiro, um largo bem delimitado. Quando se cansavam da brincadeira, vinham deitar-se na manta de trapo e, os mais resistentes ouviam histórias, os mais ensonados, dormiam.

Lamento profundamente que esta casa esteja praticamente em ruínas. Merecia ser reconstruída, pois parece-me que é a única que ainda conserva a traça das casas da Corredoura. (Continua)

Por: Júlia de Barros Ribeiro ("Biló")
Nota do postador: a casa referida no penúltimo e último parágrafo é a que figura no desenho da capa do livro "Contos ao Luar de Agosto" (ed. Magno, Leiria, 2000), da autora deste Roteiro. Aí se juntavam as velhotas a contar muitas das histórias que que figuram neste livro (e em "Contos ao Luar de Agosto-II"). Trata-se de uma obra de leitura obrigatória para quem pretenda entrar no "espírito da Corredoura".

terça-feira, 23 de junho de 2009

S. João em Torre de Moncorvo - partidas de outros tempos

Praça Francisco Meireles, cheia de vasos na manhã de S. João, nos anos 50? (foto do arquivo da Drª Júlia Ribeiro, cedidas por D. Maria José Garcia/foto Arco-Íris?)

Noutros tempos o S. João era comemorado em Torre de Moncorvo (vila), com a realização de várias cascatas em certos pontos da vila: Prado de Baixo, Largo do Poço (no bairro do Castelo), no Castelo... além das cascatas faziam-se fogueiras, onde se queimavam ervas aromáticas (bela-luz, arçãs, alecrim), sobre as quais se saltava. Assavam-se sardinhas, corria o vinho e havia bailarico, a rimar com manjerico, que era colocado atrás da orelha pelos galãs, novos ou velhos.

Mas, para além destes festejos comuns, análogos aos que se realizavam um pouco por todo o lado, havia outras costumeiras, como esta que nos contou a nossa conterrânea, a escritora Júlia Ribeiro (Biló):

"Os rapazes novos, comandados pelo Adrianinho Fernandes e pelo Tio Zé Sangra, passavam largas horas da noite de 23 para 24 de Junho a roubar vasos dos balcões e varandas e a colocá-los "artisticamente" na Praça. Aí ficavam durante os dias 24 e 25 . As pessoas iam regá-los, mas não os retiravam.
No dia 26 de Junho, as donas dos vasos, entre os risos de uns e os "rás parta a garotada" das próprias, lá levavam os vasos, sempre ajudadas por essa mesma garotada que agora se mostrava muito colaborante".

A foto que se mostra neste "post" documenta esta tradição, talvez nos idos da década de 50 ou 60 do séc. XX. Tudo isto se perdeu, assim como a das cascatas. No final dos anos 70 e anos 80 era ainda forte o baile popular do S. João no Castelo, tendo depois "descido" para a praça, onde se mantém. Hoje é noite de ir até lá comer uma sardinha e beber um copito.

Mas, porque não, em anos próximos, recuperarem-se as outras tradições S. Joaninas cá do burgo? - se agora é mais complicado roubar os vasos, pelo menos solicitar a sua exposição voluntária em redor de uma cascata no muro do castelo, creio que era exequível. Fica a ideia e bom S. João para todos!

ROTEIRO DA CORREDOURA ENTRE 1944/45 ATÉ 1959/60 - 2

A "vila" vista do largo da Corredoura, nos anos 70: à esquerda, a casa do ilustre republicano Sr. Miguel Mesquita (ver post de 13.03.2009, neste blog); ao cimo, a rua dos Palheiros; ao fundo do largo, os olmos onde se fazia a feira dos porcos (os "recos"). - foto de Leonel Brito.



Ao fundo da Rua das Amoreiras, para quem sobe, ficava à direita a “Casa da Luz” ou “Casa do Motor” onde o Sr. Moura ia todos os dias ao final da tarde ligar os motores que desligava à uma hora da manhã. À esquerda ficava o lagar de azeite do Dr. Henrique Seixas, donde escorria o piche para uma fonte de água claríssima da Nória.

Ao fundo das outras duas ruas (Canelha da Fonte e Rua dos Palheiros) ficavam “Os Olmos”. Aí começava realmente a Corredoura. À sombra dos olmos se fazia a feira dos porcos: varas e varas de porcos que eram trazidos do Alentejo e vendidos nas feiras do gado (dias 8 e 23 de cada mês).

A primeira casa para quem subia a canelha da Fonte, à esquerda, era uma casita térrea, pobre, onde morava a Tia Maria Segura, casada com o Zé da Régua e que tinham uma data de filhos.
Ao fundo da Rua dos Palheiros, à esquerda, ficava o Lagar da Azeite dos Barreiros, situado já na Corredoura.

Então, após “Os Olmos”, virados nós para a Capela de S. Sebastião, ficavam à nossa esquerda as duas escolas primárias, ambas masculinas. (Os rapazinhos da Vila vinham à escola à Corredoura, mas as meninas da Vila não). Seguia-se o Canafechal, um espaço com dois plátanos e várias árvores velhíssimas, da família das faias, que davam sombra que era um regalo. E, por alturas do Carnaval, floresciam em “moncos” compridos com que os raparigos e os entrudos enfeitavam o nariz, o cabelo e as orelhas.

À nossa direita, a seguir ao lagar de azeite dos Barreiros, ficavam duas casinhas térreas, muito pobres, sem janela nenhuma, onde viviam, numa a Tia Amélia Abrunhosa e o marido, o Tio Zé Dengucho, um bêbado muito castiço, na outra a Tia Palmira Borrega.

Seguia-se um quintal dos Barreiros, que já vinha detrás do lagar de azeite e que era tratado pelo Tio Zé Sangra. Pegado a este quintal começava a casa e a cerca do Sr. Miguel Mesquita e da Sra. Rosalina.

E temos os topos e os dois lados mais compridos que formam o rectângulo que é o Largo da Corredoura. Foi, durante anos, o campo de futebol, antes de haver o campo da S. Paulo.
Neste Largo e no Canafechal continuava-se a feira do gado - ovelhas, cabras, burros, bezerros - que ia até ao chafariz onde bebiam as bestas. Para lá deste chafariz começava o caminho que ia dar à capela de S. Paulo. Mas antes disso, ainda há muito para desbravar.
(continua)

Texto: Júlia Guarda Ribeiro ("Biló")

Fotos: Leonel Brito


APELO: a fim de ilustrar as próximas "postas" deste Roteiro da Drª. Júlia Ribeiro, agradecíamos que nos enviassem fotografias antigas da zona da Corredoura (de preferência dos anos 40 a 60 do séc. XX). Se tiverem as fotografias sem ser digitalizadas, em papel fotográfico, podem levá-las ao Museu do Ferro & da Região de Moncorvo, onde serão digitalizadas e devolvidas logo na hora. Também serão mencionadas as pessoas que possuam essas fotografias e nos facilitem a sua reprodução neste blogue. Em nome da autora, o nosso Muito Obrigado!

os céus do roboredo

Numa das minhas "expedições" à Ferrominas, vi a oportunidade que andava atrás já fazia há muito tempo. Fotografar os céus. E bem que podia dar mais uma das minhas galerias, "os céus da ferrominas".
Como já era bastante tarde e o sol e o céu estavam em sintonia deitei mãos à obra. E corri os montes, saltei os muros, desci ladeiras, as silvas e as giestas nem me deixavam andar, mas consegui uma bela galeria.
O problema é que tinha o carro estacionado junto às ventoínhas e tive que andar todo aquele percurso a pé, já era noite.
Mas valeu a pena.

Veja "os céus de moncorvo" em

Uma torre para este céu

Serenidade (Foto: J. Costa)

segunda-feira, 22 de junho de 2009

ROTEIRO DA CORREDOURA ENTRE 1944/45 ATÉ 1959/60 - 1

O largo da Corredoura, diante da capela de S. Sebastião, com feira do gado, nos anos 50 (foto do Dr. Horácio Simões?)


A pedido da nossa colaboradora Drª Júlia Ribeiro (para a gente da Corredoura a Julinha Biló), e devido a problemas informáticos no seu computador, aqui vamos “postar” um grande roteiro que fez do bairro da Corredoura. E “postar” é a palavra certa, porque, dada a sua extensão, será publicado às “postas”, durante dias diferentes, como os fascículos ou folhetins de antigamente. Por isso os nossos visitantes terão de copiar estes textos, espécie de visitas guiadas pela nossa cicerone, durante dias diferentes, colando-os num ficheiro “Word”, para no final ficarem com uma visão de conjunto da Corredoura de outros tempos.

Este roteiro vem na sequência de outros roteiros da ruas de Moncorvo já feitos por outros(as) cicerones, como Maria da Misericórdia, Horácio Espalha Júnior, Julieta Brito, além de Júlia Biló, e que ficaram lá atrás, em caixas de comentários, neste mesmo blogue. São roteiros que dão testemunho dos lugares da vila e dos seus habitantes, desde os anos 40 até cerca dos 60. Fazemos votos que toda esta informação possa ser reunida e publicada num livro colectivo. Seria muito interessante.

A Corredoura era uma espécie de aldeia satélite da vila, do seu lado poente, território de lavradores e de muitos jornaleiros. Noutros tempos, os da vila, sobretudo em consequência de renhidas partidas de futebol e talvez por influência dos primeiros “westerns” que passavam no cine-teatro vilóide, passaram a apodar de “índios” a rapaziada deste bairro. Um apodo pejorativo, claro, mas que fazia jus à braveza da malta da Corredoura.

Mas, a partir de agora tem a palavra a Drª Júlia Biló, uma corredourense nata (e até à medula):


ROTEIRO DA CORREDOURA ENTRE 1944/45 ATÉ 1959/60

De acordo com a minha memória mais recuada – e com algumas preciosas ajudas das Amigas D. Idalina Martins, da Júlia Trovões, da Maria José, e de moradoras da Corredoura no período acima mencionado - vou tentar traçar o que terá sido o Roteiro deste bairro vai para 6 décadas.

Da Corredoura subia-se (sim, porque a Corredoura ficava em baixo e a Vila em cima) até à Vila por 4 ruas à escolha:

a) Quem ia ao Hospital, à Igreja, à Praça das Regateiras ou à Guarda Republicana, tomava a Rua das Teixeiras, também chamada Rua do Hospital;
b) Quem ia ao Tribunal, à maior parte das lojas ou à Praça Francisco Meireles (o Picadeiro de então) tomava a Rua das Amoreiras ou ,
c) em alternativa, a Canelha da Fonte . (Penso que se lhe chamava Canelha por ser a mais torta de todas);
d) Quem ia ao ferrador, à Foto-Peixe e à Capela da Misericórdia, tomava a Rua dos Palheiros, também chamada Rua do Ferrador.

Ao fundo da Rua das Teixeiras e da Rua das Amoreiras corria um caminho que ladeava a Nória e ia dar aos Pocecos, à Fonte de Santiago e ao Cemitério. Os Pocecos eram duas correntezas de tanques de cimento individuais, cada um com sua torneira, (num total de umas duas dúzias) com cobertura de telha e onde as lavadeiras iam lavar a roupa das senhoras da Vila. As mulheres da Corredoura lavavam a roupa na Fonte Carvalho onde os dois tanques grandes eram comuns e não tinham telhado. (As mulheres da Corredoura não eram benvindas pelas lavadeiras encartadas dos Pocecos).
Ainda ao fundo da Rua dasTeixeiras havia uma lixeira a céu aberto, onde era vazado o lixo da vila e o do hospital. As nossas mães davam-nos uma sova valente se fôssemos à lixeira, pois se dizia que alguém já tinha visto lá um pé ou uma perna. Era só uma forma de nos meterem medo com a lixeira. Este espaço servia de terra-de-ninguém entre a Corredoura e a Vila.

(Continua)

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APELO: a fim de ilustrar as próximas "postas" deste Roteiro da Drª. Júlia Ribeiro, agradecíamos que nos enviassem fotografias antigas da zona da Corredoura (de preferência dos anos 40 a 60 do séc. XX). Se tiverem as fotografias sem ser digitalizadas, em papel fotográfico, podem levá-las ao Museu do Ferro & da Região de Moncorvo, onde serão digitalizadas e devolvidas logo na hora. Também serão mencionadas as pessoas que possuam essas fotografias e nos facilitem a sua reprodução neste blogue. Em nome da autora, o nosso Muito Obrigado!

Um hipopótamo à descoberta da Vila

Moncorvo, dizem-me, foi sempre pródigo no chiste e no pícaro. Vamos ao assunto: na primeira quinzena de Junho, um camião do circo que se vinha instalar de armas e bagagens e animais junto às paredes do cemitério da Vila, ter-se-á despistado na estrada, perto do Sabor. E do camião saiu um hipopótamo, de três toneladas, subindo a peso em direcção à Vila, de preferência a banhar-se nas águas do Sabor. Maltratou o tratador e levou um tiro de um GNR. Coisa de pouca monta.
Um noctívago, acabado de regressar a casa, estranhou o ruído, assomou-se à janela e berrou: “ó Maria, ó Maria, anda um elefante na rua”
E a mulher respondeu: “Deita-te mas é que ainda te não passou a bebedeira”.
A história do hipopótamo serviu de gáudio e conversa durante dias às gentes de Moncorvo, imaginando cenários, acrescentando situações à situação.
E o caso é certo que foi notícia de jornais.
Uma correcção final: este hipopótamo, à descoberta de Moncorvo, não passava, afinal, de uma hipopótama com o doce nome de Margarida.

Ainda sobre o hipopótamo que aqui deu à costa...

Como foi amplamente noticiado pela imprensa nacional, um(a) hipopótamo(a) de seu nome Rita Margarida teve de ir por seu pé desde a E.N. 102 até à vila, devido ao despiste do atrelado do circo Chen em que seguia, no passado dia 10 de Junho. Ao chegar à vila, depois de atacar o tratador que tentava dar-lhe de beber, teve de ser baleada numa pata, pela GNR local, a fim de libertar o homem. A bicha (salvo seja) parece que não ficou muito mal e continua a sua vida artística no referido circo.
Talvez como recordação do episódio, o atrelado-piscina (com capacidade para 7.000 litros de água) da hipopótama ficou no largo da feira, ao lado do cemitério. E o aviso (mesmo em francês) era explícito: “Attention Danger: Hippopotame”!
Porque não deixar ficar aí o veículo como monumento ao episódio que, durante uns dias, celebrizou Moncorvo, com honras de telejornal?

O atrelado-piscina, agora monumento ao peso-pesado que pôs Moncorvo nos telejornais.

Jornada Cultural no Centro de Memória e Biblioteca Municipal

Conforme anunciado neste blog, foi inaugurada no passado dia 20 de Junho (sábado), no Centro de Memória de Torre de Moncorvo, a grandiosa exposição intitulada “Moncorvo de Março de 1974 a Junho de 2009”, de autoria de Assis Pacheco (já falecido), Leonel Brito e Rogério Rodrigues. Esta exposição baseou-se em duas extensas reportagens publicadas respectivamente em vários números do jornal República (Março de 1974) e em O Jornal (1984), a que Leonel Brito e Rogério Rodrigues acrescentaram agora mais uma peça (texto e imagens), sobre o concelho de Torre de Moncorvo na actualidade.

Rogério Rodrigues e Leonel Brito, autores da Exposição Moncorvo 1974-2009

A importância da primeira reportagem publicada no República (com texto de Assis Pacheco, e fotografia de Leonel Brito), decorre do facto de ter sido feita mesmo nas vésperas do 25 de Abril, em que se faz um retrato social crítico do concelho, com os problemas da emigração, da guerra do ultramar, etc., além dos diversos constrangimentos de que padecia um concelho do interior, à época. Trata-se de um trabalho de grande fôlego (como se disse, saído em vários números), que é fundamental para a história contemporânea de Torre de Moncorvo, num momento charneira da história de Portugal.

A segunda reportagem, com assinatura de Rogério Rodrigues, saiu em O Jornal (periódico também já desaparecido, tal como o República), em 1984, e tinha por título genérico "Torre de Moncorvo, o futuro não tem pressa". Este é o momento em que, após a vinda dos chamados “retornados” do ultramar (1974-1975) se alcança um acréscimo demográfico significativo e a face do concelho se transforma significativamente, também em consequência das remessas dos emigrantes. Ainda sem dinheiros comunitários, era o tempo em que se sentia a premência de certas infra-estruturas (água canalizada, saneamento básico, etc) e das grandes carências de emprego, após a conclusão da barragem do Pocinho, vivendo-se então ainda as expectativas do relançamento da exploração das minas de ferro, projecto que, como se sabe, viria a ser chumbado no ano seguinte.

Um aspecto da exposição Moncorvo 1974-2009, no Centro de Memória

Passados 35 anos após a primeira reportagem e 25 sobre a segunda, impunha-se um olhar sobre a nova realidade do nosso concelho. Assim, a nova reportagem agora realizada (não publicada, a não ser nos últimos painéis desta exposição), com o título "O presente ao menos, 25 anos depois", começa logo por se destacar pelo cromatismo diferente. Em contraste preto e branco de outros tempos, recorre a abundantes fotografias a cores, oferecendo, por comparação, uma imagem actual dos espaços antigos, de onde se salientam as diversas mutações no espaço urbano da vila e aldeias do concelho. De uma forma que consideramos bastante objectiva, salientam-se os aspectos positivos dessas transformações, mas também os contrastes , como o da desertificação humana e o envelhecimento da população. Se as crianças de hoje aqui figuram muito limpinhas e associadas aos telemóveis e computadores, em contraste com as do passado (sinal dos tempos), salienta-se o facto de praticamente não existirem crianças na quase totalidade dessas aldeias. Novas infra-estruturas e equipamentos urbanos, grandes obras, tipo ligação de Moncorvo ao IP-2, barragens e torres eólicas na serra, são destacados. Como ponto final desta reportagem, termina-se com uma pequena local, em caixa, dando conta da peripécia do hipopótamo-fêmea que fugira do camião acidentado de um circo, vindo ter à vila, nove quilómetros andados por seu pé, suscitando o anedotário terra. Um episódio de humor em tempo de crise.

Outra secção da Exposição, no Centro de Memória.


A exposição é complementada pela passagem de filmes como “Artes de ofícios” (olaria, tecelagem, moinho de rodízio e fabrico da cera) e “A Encomendação das Almas”, trabalhos realizados por Leonel Brito respectivamente em 1974 e 1979, e uma apresentação de imagens em Powerpoint, mostrando fotografias actuais e de há 30-35 anos. Este material fotográfico foi oferecido aos presentes em DVD, através de reproduções efectuadas pela Biblioteca Municipal/Centro de Memória. Aliás, na sua alocução final, os autores fizeram questão de sublinhar o trabalho do pessoal desta instituição, nomeadamente da Drª Helena Pontes (chefe de divisão cultural), Drª Maria João Moita, salientando os contributos de Sandra Meireles (na parte gráfica) e Victor Almeida, entre outros.
Dada a sua importância para a compreensão do passado recente do nosso concelho, esta é, de facto, uma exposição a não perder.

O ex-director da "Voz do Nordeste" e Presidente da Câmara de Moncorvo, no momento da entrega do espólio do jornal


Depois da inauguração da Exposição, e dos discursos dos autores da mesma e do Presidente da Câmara de Moncorvo, decorreu a cerimónia de entrega do espólio do jornal “Voz do Nordeste” (de Bragança), pelo seu antigo director, César Urbino Rodrigues.

Apresentação do livro História do Poder Local Democrático em T. de Moncorvo, na Biblioteca



A finalizar esta jornada, decorreu no auditório da biblioteca municipal a apresentação do livro “O poder local democrático em Torre de Moncorvo no último quartel do século XX”, de autoria de Virgílio Tavares, sob patrocínio da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo.

domingo, 21 de junho de 2009

Felgar - Estação da CP




Gostei da exposição aqui anunciada e ontem inaugurada no Centro de Memória.

Gostei de ver, de conversar, de recordar.

O espírito de partilha, mais do que anunciar-se, consubstancia-se fazendo, realizando, mostrando, dando e dando-se.

Foi o que aconteceu.


Por ser felgarense, tocaram-me mais fundo as imagens da minha terra.

Creio que lhes via o "punctum" onde outros viam detalhes interessantes.


Ainda imbuído desse espírito, encontro esta imagem da estação da CP.

Foi demolida. Fica a lembrança.

sábado, 20 de junho de 2009

Congelar o tempo



Um ouriço congelado no tempo - 25 de Dezembro de 2008 - num souto do Roboredo, para baixar um pouco esta torreira. (foto: J.Costa)

"O Velho Ciumento" pelo Grupo de Teatro Alma de Ferro

Algumas cenas d'O Velho Ciumento de Miguel Cervantes que este grupo de teatro de Moncorvo levou à cena nesta localidade, no dia 3 de Julho. O GTAF irá apresentar o mesmo espectáculo em Moncorvo. Também estão previstas novas actuações, durante o mês de Setembro, noutras localidades fora do concelho.

Por : GTAF


Mais fotos:
Grupo de Teatro Alma de Ferro GAF - "O Velho ciumento"

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Linaria ricardoi

Foto: João Costa
Linaria ricardoi, espécie botânica em vias de extinção no Alentejo, mas ainda comum nos amendoais e olivais do concelho de Torre de Moncorvo, essencialmente nos terrenos de baixa intervenção humana.
A flor desta planta prestava-se às brincadeiras infantis, pela similitude com pequeninos "lobinhos".
Ver mais características em : http://www.icn.pt/pnc_flora_perigo/page2.htm

Olhar

Um moiro de trabalho, mas manso no olhar.
Foto: João Costa

aromas e espinhos

Opuntia ficus-indica ( Foto: João Costa)

Aproxima-se o tempo dos figos -da- Índia ou figos palmeiros. Estes exemplares, fotografados em Moncorvo, estão na maturação ideal para serem consumidos - nem muito verdes, nem muito maduros. Entretanto deve-se ter muito atenção a um sem número de minúsculos picos/pêlos que se podem cravar na pele. Por isso há que lhes retirar a "casca" com a ajuda de uma faca e de de um garfo. É mais uma lição da natureza a alertar-nos para os contratempos associados ao prazer e outros valores.

Os antepassados do blogue

Recortes da imprensa moncorvense

"Mais um que vem augmentar a lista dos correspondentes do Primeiro de Janeiro. / Causará certamente pasmo que Moncorvo tenha um correspondente, possuindo um semanario que apregoa urbi et orbe os seus feitos! É que o Moncorvense nem tudo diz; e é por isso que Moncorvo necessita de quem o represente lá fora /.../". ( "PJ", 1895.09.21, p. 1, c. 5 )

"Vai suspender definitivamente a publicação o Moncorvense, e espera-se a fundação d' outro semanario, intitulado Jornal de Moncorvo". ("PJ", 1895.09.27, p. 1, c. 5)

"É esperada com anciedade a apparição do Moncorvo /.../".("PJ", 1896. 10. 07, p. 1, c. 4-5 )

Aparecimento do primeiro número do jornal "Moncorvo" ("PJ", 1897. 04. 03, p. 1, c. 5 ) (Moncorvo, Achilles Democrito)

"Julga-se ter acabado a publicação do Jornal de Moncorvo / .../" ("PJ", 1898.07.02, p. 1, c. 5-6)

"Esteve um dia entre nós o laureado poeta Guerra Junqueiro"; "A Lei, um novo jornal, deve apparecer dentro de poucos dias". ( "PJ", 1898.07.29, p. 1, c. 6)

"Saiu na quinta-feira o novo jornal Torre de Moncorvo" ("PJ", 1900. 05. 05, p. 1, c. 3 )

Fonte: Hirondino da Paixão Fernandes, Bibliografia do Distrito de Bragança, in Revista Tellus, nº21,1993.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Das entranhas do Roboredo

Breves linhas do ferro na imprensa do século XIX

* "Jazigos de ferro de Roboredo" ("PJ", 1896. 06. 27, p. 1, c. 3 )
* "Saint-Hilaire, representante do Syndicat Franco-Etranger, pretende explorar uma grande parte dos jazigos de ferro de Moncorvo." ( "PJ", 1897. 06. 13, p. 2, c. 3 )

* "Um ingenheiro francez /.../ tem andado, desde o dia 9 do corrente, a proceder aos primeiros trabalhos graficos de um traçado para o caminho de ferro, de via reduzida, que deve ligar aquella villa e o monte Roboredo com a linha ferrea do Douro, e que é destinado ao transporte do mine rio d' esse monte e do cabeço da Mua". ("PJ", 1898.03. 05, p. 1, c. 4-5)

* "Traçado da linha férrea para a exploração das mina de ferro."(“PJ",1898.03.20, p.1,c.2)

* "Terminaram os trabalhos do estudo da linha ferrea para a exploração das minas do Roboredo" ("PJ", 1898.04.06, p. 1, c. 4-)

* "Esteve entre nós o sr. Saint-Clair, arrematante das minas de ferro do Roboredo, tendo regressado ao Porto" ("PJ", 1898.06.08, p. 1, c. 5)

* "Partiu o sr. Saint-Clair para o Porto. Volta em Agosto".("PJ", 1898.07.02, p. 1, c. 5-6)

* "Enviados pelo governo, acham-se n' esta villa alguns ingenheiros para proceder á demarcação dos terrenos mineiros do Rovoredo. O sr. de Saint­Clair, concessionario das minas, chegou hoje /.../”. ( "PJ", 1899.03.09, p. 1, c. 5 )

* "Já aqui estiveram mais alguns ingenheiros em commissão d' uma casa importante de Londres. Visitaram por vezes os jazigos ferriferos de Reboredo, levando algumas amostras de minerio".("PJ", 1899.04.01, p. 1, c. 2)

* “Saint-Clair já arrendou casa nesta vila.” ("PJ", 1899. 04. 02, p. 1, c. 2),

* "Nos trabalhos das minas do Roboredo andam já uns 80 homens e continua a ser admittida gente". (PJ", 1899.04.21, p. 1, c. 3-4)

* "No Roboredo (minas) trabalha actualmente um grande numero de homens". ("PJ", 1899.05.27, p. 1, c. 3)

Fonte: Hirondino da Paixão Fernandes, Bibliografia do Distrito de Bragança, in Revista Tellus, nº21,1993.

Nota: Depois de descer ao interior da alma com " Stabat Mater" de Rogério Rodrigues, tive que viajar ao interior da terra, com estas linhas da história de Moncorvo.

Stabat Mater...

Mãe, não me lembro dos teus olhos.
Mãe, só me lembro do teu olhar.
Do esquecimento do tempo já não sei
os anos. Exaustos fixamos o futuro
com tantas amarguras do passado
que o sorriso é a última flor
que apertamos de mãos dadas
numa indiscreta ilusão. Somos dois
como “sino dolente na tarde calma”.
Vestimos as palavras com trajes decentes
não vá o futuro pesar-nos na memória.


Mãe, quantos dos ecos não respondem à voz
apenas falsos simulacros do que quisemos
dizer? Não ligues, mãe, ao som do pássaro
desavindo com os seus. Errante ao crepúsculo.


Qualquer dia faz anos que a morte nos
ensombrou. Qualquer dia é sempre
um dia em que não sabemos porque
esse dia foi. Esperei esmagado que
os mortos ressuscitassem. Vem aí
o frio. Mãe, aconchega-me no teu
regaço flácido, como se houvera ainda
esperança que a neve nos tornasse
puros e isentos da morte do futuro.

Mãe, não me olhes como se não olhasses.
Deixo nas tuas mãos a última mágoa
de não ter sido feliz. Fui justo para contigo, Mãe.

Convite - Exposição

Exposição "35 anos de Torre de Moncorvo"

Uma viagem de 35 anos, cheia de gente que já não está e de outra que regressou. Moncorvo visto pelo olhar de Assis Pacheco, vindo de Lisboa, de Rogério Rodrigues, da terra, mas exilado na cidade, e da palavra, sempre lúcida, do Afonso Praça do Felgar, a coberto do olhar fotográfico do Leonel Brito, também da terra, mas exilado no Alentejo. Uma exposição de encontros, de memória, mas um itinerário das transformações ocorridas, em 35 anos, no nosso concelho. Hoje melhor do que ontem; amanhã, por certo, melhor do que hoje.
Esta exposição traça um percurso, desde a terra batida à derivação do IP 2 e força-nos a pensar e a reconhecer quanto estes 35 anos mudaram a paisagem e os costumes de Moncorvo.


Reportagens: “Moncorvo Zona Quente em Terra Fria ”, no jornal “República”, Março de 74 ; “Moncorvo, o Futuro não tem Pressa”, em “O Jornal” , Fevereiro de 84;
“ Moncorvo o Presente, ao menos”, Junho de 09.
Documentários: “Estevais Ano Zero”, Junho de 75 ;
“Velhas Profissões” (Lagar da Cera, o Moleiro, a Tecedeira, o Oleiro), Setembro de 75; “Encomendação das Almas no Nordeste Transmontano” , Abril de 1979.
300 fotografias e fotogramas de 74 a 09.

terça-feira, 16 de junho de 2009

I Festival de Migas e Peixes do Rio

O I Festival de Migas e Peixes do Rio decorre já nos próximos dias 18, 19, 20, 21 de Junho, na Praia Fluvial da Foz do Sabor. A sessão de abertura realiza-se quinta-feira, dia 18 de Junho, a partir das 18 horas e contará com a presença dos dirigentes da ACIM e da Douro Superior Associação de Desenvolvimento.
Durante o Festival, os visitantes têm a oportunidade de provar os diversos pratos confeccionados com migas e peixes do rio e podem participar nos mais variados concursos: pratos de peixe e desenho para os mais novos.
No dia da abertura a animação fica a cargo de Quim Barreiros e nos restantes dias são os grupos da região, como a Escola Sabor Artes, Banda Filarmónica de Carviçais, Banda Filarmónica de Freixo de Espada à Cinta e Rancho Folclórico e Infantil de Vila Nova de Foz Côa que vão animar o Festival.
No dia 20 realiza-se o concurso de pesca com início às 08h30m.
Os visitantes podem ainda participar num cruzeiro do Pocinho até à Foz do Sabor, no dia 19 de Junho, às 11h30, e durante os quatro dias usufruir de passeios de gaivotas, barco e bicicleta.
O I Festival das Migas e do Peixe do Rio, organizado pela Douro Superior em parceria com a Associação de Comerciantes, tem como finalidade promover os pratos de peixes do rio e migas, que são uma tradição no Douro Superior.
A entrada no festival é gratuita e o custo médio de uma refeição é de 10 euros.
Fonte: Nota de Imprensa de "Douro Superior Associação de Desenvolvimento"

Festa de Santa Leocádia - 1979

Foi há 30 anos...
Procissão da festa de Santa Leocádia, pelo caminho de trás-da-serra desde o S. Lourenço, no dia 10.06.1979:




Fotografias gentilmente cedidas pela moncorvense D. Adelaide Amaral Félix, a quem agradecemos.
Aproveitamos para lançar um desafio para quem pretenda identificar as pessoas que vão na procissão, além do Padre Sobrinho (que está na mesma!). Alguns dos aqui presentes, infelizmente, já nos deixaram...

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