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terça-feira, 31 de março de 2009

À Descoberta, até Felgueiras

Os primeiros dias de Primavera estiveram convidativos para um longo passeio. Foi o que eu decidi fazer, em companhia dos meus dois filhos, no dia 28 de Março.
O passeio iniciou-se no coração do vale da Vilariça, mais concretamente na ponte da Junqueira, precisamente onde começa o concelho de Torre de Moncorvo. Quem por ali passa quase nem se apercebe da existência de uma ponte mais antiga, uns poucos metros mais abaixo. Essa ponte foi destruída numa cheia que ocorreu a 17 do Junho de 1955, ainda assim se mantém desde então.

A primeira paragem foi na Junqueira. O dia estava frio, mas bastante agradável para passear. A primeira tentação foi trepar a um dos cabeços a nascente da pequena aldeia. Tivemos que desistir a meio, mas a tentativa valeu a pena. Conseguimos uma visão diferente. Estou mais habituado a ver a Junqueira do alto da aldeia abandonada do Gavião, espreguiçando-se indolente ao sol do fim da tarde.

Descemos de novo à aldeia e percorremos as principais ruas. Pouco depois, já quando partíamos em direcção a Moncorvo, alguém se sentiu incomodado com a nossa presença, adoptando uma postura muito hostil. São os contratempos de partir À Descoberta, nunca sabemos quem vamos encontrar pela frente.

Já em Moncorvo procurámos um restaurante para almoçar. Escolhi uma ementa mais ao gosto dos meus jovens acompanhantes, não queria “castigá-los” também com a refeição. Depois do almoço fizemos um passeio pela Corredoura. Tentei encontrar elementos dos contos da Júlia, bruxas, lobisomens, mas apenas me consegui recordar do calor das noites de Verão de quando ali vivi.
Subimos depois ao Museu do Ferro. O Nelson tinha recolhido em Freixo algumas imagens dos Sete Passos que me queria mostrar. Vistas as imagens (e muita conversa depois), continuámos o percurso, porque o nosso destino era Felgueiras.

De repente, o céu escureceu. Levantaram-se fortes rajadas de vento que trazia uma tempestade de areia Reboredo abaixo. Andam máquinas gigantescas a surribar os cumes que arderam recentemente! Começaram a cair algumas gotas. Procurámos refúgio na capela de Nossa Senhora da Teixeira.
A chuva já caía raivosamente, estava tudo escuro e revoltoso à nossa volta. Por momentos sentimos o isolamento do ermita que aqui habitou no século XVI. Esquecemos a chuva, o vento, para dedicarmos algum tempo a admirar os frescos que decoram a galilé. Vale bem a pena fazer uma visita a esta capela. Eu já a conhecia, mas foi bom visitá-la de novo, até porque pelo facto de ter que responder a uma série de perguntas dos meus acompanhantes me levantou muitas questões. Porque é que está ali, no meio daquele descampado, numa construção tosca, um vasto conjunto de frescos inspirados possivelmente em El Greco e na Capela Sistina? Porque é que esta preciosidade não está mais protegida?O tempo melhorou. Despedimo-nos da pietá, que nos franqueou a entrada, e voltámos à estrada. A paragem seguinte foi na Açoreira. Não deixa de ser curioso manter-se na Açoreira o culto a S. Marinha, também existente no concelho de Vila Flor e que remonta talvez do séc. IX. A sua festa é no Domingo de Pascoela, uma boa ocasião para se conhecerem algumas tradições da Açoreira.
A aldeia tem certamente origens bem antigas, como o provam as suas casas e palheiros em xisto.
A etapa seguinte esperava-nos a poucos quilómetros, Maçores. Percorremos algumas ruas da aldeia, mas o que nos marcou mais foram mesmo alguns palheiros circulares, em xisto, que perecem ter sido retirados de um filme sobre uma civilização antiga.
Deixámos Maçores em direcção a Felgueiras. A estrada, com acentuado declive, em pouco tempo nos colocou a quase 800 metros de altitude. O tempo melhorou ligeiramente mas nada que nos permitisse usufruir de toda a beleza que se pode contemplar deste ponto tão elevado. Pode-se “voar” até Peredo dos Castelhanos, e, com pequenos saltos de pardal, passar para Urros, depois Ligares, ou então olhar em sentido oposto e apreciar a Primavera que acorda em cada planta que cobre a serra de um verde rasteiro. Giestas, urzes, arçâs, estevas e sargaços são algumas das espécies que completam os espaços que os sobreiros, pinheiros e zimbros dominam.
Chegámos, por fim, a Felgueiras. A receber-nos estava a capela de Sta Edwiges, nome que sempre me causou alguma estranheza. Sei hoje que esta santa é a protectora dos pobres e endividados. A sua história é muito interessante e o seu papel social na ajuda dos mais necessitados é um bom exemplo para os dias que atravessamos.

Quase sem querer, cortei à esquerda nas primeiras casas. A minha intuição era de que o Lagar da Cera se situaria nessa direcção. Mesmo 14 anos depois, não me enganei! Embora em Felgueiras haja várias actividades económicas, é a cera que torna esta aldeia singular (também o trabalho do ferro teve grande tradição). Foi o lagar comunitário da cera que trouxe Santos Júnior a Felgueiras e que tem também levado a aldeia por várias vezes à televisão. O lagar, situado perto da ribeira de Santa Marinha (!), resiste ao tempo, mostra as suas rugas, mas não é tratado como merece. Se o projecto da sua recuperação foi distinguido em 1987, que se passou então? É pena que também este património esteja a perder-se pouco a pouco. Há que unir esforços. Não podemos esperar até que a sua preservação e recuperação sejam impossíveis.

Perto do lagar pude apreciar um espaço agradável, com uma original fonte. O painel de azulejos, apesar de moderno, está bem enquadrado no conjunto. Noutros pontos da aldeia há outros espaços, igualmente arranjados, alguns resultantes da demolição de casas abandonadas.
As casas onde se produzem velas estavam fechadas. Percorremos a aldeia. Tal como tantas outras, são evidentes os sinais de abandono. As pessoas mostraram-se afáveis, prestáveis, embora curiosas. Só um céu negro e uma chuva forte nos impediu de continuar À Descoberta de outros pontos de interesse da aldeia. Foi sem dúvida um bom passeio (de reconhecimento).
Voltámos à estrada, em direcção ao Carvalhal.
Quando atingimos o ponto mais alto do percurso, 831 metros, alguns farrapos de neve vieram colar-se ao pára-brisas do carro. O frio era muito e abstivemo-nos de fazer mais paragens no percurso. Descemos à vila, atravessámo-la e seguimos até à Foz do Sabor. As sombras já começavam a cobrir o vale. Seguimos pela estrada das Cabanas até à Quinta da Silveira, e depois até à Ponte da Junqueira.
Lavámos um par de horas a percorrer 73 quilómetros de estrada, mas “Descobrimos” um bom pedaço do concelho! O dia, risonho de manhã, trocou-nos as voltas à tarde. Mas, mesmo assim, valeu a pena. Este é um reino maravilhoso que vale a pena descobrir.

Linha do Sabor - Larinho

Nas imagens pode-se ver o antigo traçado da linha férrea do sabor, que foi desactivada há mais de 20 anos. Foi aproveitado pela Câmara Municipal de Torre de Moncorvo, dando lugar a uma Ecopista que serve tanto para a marcha a pé, como para ciclovia. Foi a primeira a ser realizada em Trás-Os-Montes. Desta forma, os “amantes” das caminhadas podem percorrer a antiga linha ferroviária e apreciarem a beleza da paisagem natural que circunda a vila de Torre de Moncorvo e restantes locais do concelho, por onde passava a Linha do Sabor.

O primeiro troço da Ecopista, entre Moncorvo e Carvalhal, abriu em 2006. A estação do Larinho deu lugar a uma cafetaria, onde as pessoas podem tomar algo, depois de uma caminhada ao longo da Ecopista.
O projecto contempla, também a recuperação da estação de Carviçais, sendo aí instalado um museu etnográfico e a recuperação das casetas ao longo da linha, servindo de apoio aos utilizadores. Uma terceira fase da ecopista irá contemplar a recuperação do troço entre Carviçais e o Pocinho
Pois é sempre bom ver algo de interesse nacional ser recuperado e reaproveitado, não ficando assim ao abandono, como acontece muitas vezes.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Felgueiras, lagar da cera

Em Maio de 75, era eu sócio e director da cooperativa de cinema Cinequanon, organizei duas idas a Moncorvo para as filmagens de dois documentários, ambos fazendo parte da série de programas Artes e Ofícios, para a R.T.P.: "Estevais Ano Zero" e “Velhas Profissões”. Neste último estão integrados uma tecedeira e um oleiro do Felgar, o lagar da cera em Felgueiras e um moinho. Este documentário encontra-se no Museu do Ferro e na Biblioteca de Moncorvo à disposição de todos. A equipa de filmagens era a seguinte: Sá Caetano na realização; eu, Leonel Brito, na produção e entrevistas; Elso Roque na imagem; João Diogo no som.

Os fotogramas são extraídos das imagens do lagar da cera

Nota: Espero que este post seja pretexto para se falar de Felgueiras e das suas gentes.


Moncorvo é notícia - Mar09

Outras Notícias sobre Moncorvo

domingo, 29 de março de 2009

O último apito


Abílio Carvalho passou cerca de 20 anos a comandar o comboio entre o Pocinho e Duas Igrejas

A última viagem na Linha do Sabor – entre o Pocinho e Duas Igrejas- foi efectuada por Abílio Carvalho, 69 anos, o ex-maquinista natural de Carviçais.

A via encerrou em 1988 e ainda hoje o ferroviário de outros tempos lamenta o facto da CP ter rebentado a linha que foi construída pelos transmontanos.
“Embora não andassem lá comboios gostava de ver o património no local, até porque não foi com o dinheiro da venda do ferro que a CP enriqueceu”, ironiza o antigo maquinista.
Abílio Carvalho iniciou a sua carreira nos caminhos-de-ferro como limpador de carruagens (em 1962), mas a ambição levou-o a efectuar uma série de formações e a concorrer, em 1970, para maquinista. “Só não fui inspector porque não quis, apesar de ter sido chamado”, diz com orgulho.
Com uma vida ligada aos comboios e, em particular à Linha do Sabor, o ex-funcionário da CP afirma que comandar o comboio tinha as suas dificuldades, devido à inclinação acentuada da linha na zona de Torre de Moncorvo.
Mesmo assim, Abílio Carvalho fala com saudade dos anos que dedicou aos comboios a carvão e às automotoras. “ Foram tempos em que todas as freguesias encostadas à Linha do Sabor tinham muito movimento, que desapareceu com a partida do comboio”, lamenta.

“Não há nada como o comboio. A passagem da máquina transformava a paisagem com o seu fumo negro”

Depois do troço entre o Pocinho e Duas Igrejas encerrar, a CP ainda disponibilizou, durante alguns anos, um serviço de camionetas, que faziam a ligação entre as antigas estações de comboio. Era nesse meio de transporte que o maquinista se deslocava até Carviçais quando foi transferido para Barca d` Alva.
“Não há nada como o comboio. A passagem da máquina transformava a paisagem com o seu fumo negro. Havia turistas que nos pediam para meter mais carvão à máquina para tirarem fotografias ao comboio a deitar fumo negro”, sublinhou o ex-ferroviário.
Enquanto maquinista, Abílio Carvalho conta que passou por algumas aventuras engraçadas, destacando uma peripécia que decorreu no café da aldeia, onde ganhou a alcunha “Apita Abílio”, que o acompanha até aos dias de hoje.
Tudo começou com a curiosidade de dois idosos de Carviçais, que pediram ao maquinista para fazerem a viagem entre os apeadeiros da Fonte do Prado e Mós, para verem como funcionava o comboio. Mas, a dada altura, um diz para o outro: “não te metas com os rapazes novos que ainda te metem na fornalha”. O medo apoderou-se dos dois homens e acabaram por não fazer a viagem, dizendo a Abílio Carvalho: “Quando passares nos locais mais perigosos, apita Abílio”.

Por: Francisco Pinto
O texto foi publicado no Jornal Nordeste em Novembro de 2006.
Fotografias: Aníbal Gonçalves

Linha do Sabor - Fotografias


A artigo sobre a Linha do Sabor despertou recordações a muitos dos visitantes do Blogue. Faziam falta algumas fotografias, mas já não faltam. Aqui estão elas, disponibilizadas por Rui Carvalho, de Carviçais. O meu muito obrigado.

sábado, 28 de março de 2009

Haverá uma literatura transmontana?

Desculpem insistir, mas como provavelmente vou estar algum tempo sem escrever (preparo-me para uma semana em Moncorvo onde vou mais para conviver e aprender do que escrever) publico este texto, lido e debatido na última feira do livro de Lisboa em que fomos convidados pela direcção da Feira para falar sobre literatura transmontana: o Bento da Cruz, o Amadeu Ferreira, o Vitor Barros, o Ernesto Rodrigues e eu. Foi um debate muito interessante, com a tenda/auditório repleto. Não defendi nenhuma tese. Apenas levantei algumas questões. Aqui vão elas:

"Cultura e literatura transmontanas

É complicado falar ou escrever sobre cultura e literatura transmontanas, como se fossem dois espaços distintos de uma realidade nacional. Além disso, tirando os particularismos, ora revivalistas ora acentuadamente regionalistas, só no campo da subjectividade é que poderemos reflectir sobre a magna questão, para nós, transmontanos: há ou não há uma cultura e literatura transmontanas?
Por muito que gere debate, é minha convicção de que não há uma literatura transmontana. Quanto à cultura lá iremos, em tempo próprio. Quanto muito, há uma temática regionalista (com expressão diferente, por exemplo, entre o Barroso e a Terra Quente), sobretudo em termos linguísticos, mas abrangente às Beiras interiores e às faldas do Minho, contíguo a Trás-os-Montes, a Aquilino e a um Camilo. As literaturas exigem uma língua própria e, mesmo aqui, o conceito é discutível. Começa a haver uma literatura mirandesa, porque tem língua própria, mas a sua temática e o espaço onde mergulha, não é diferente do universo dos escritores transmontanos de língua portuguesa. Mas sobre esta questão o Amadeu Ferreira poderá falar muito melhor do que eu. Regressando à língua: há uma literatura americana escrita em inglês como há uma literatura belga escrita em francês. Este facto poderia contradizer a minha afirmação, não fora que países, geografias e culturas diferentes assumem e funcionam em universos diferentes.
A temática regionalista pode ter uma dimensão nacional e internacional. No caso mais recente vemos A.M.Pires Cabral; no mais paradigmático, Miguel Torga. Mas lá iremos. O que existe são escritores, oriundos de Trás-os-Montes e Alto Douro que, não sendo esta posição porventura pacífica, são os divulgadores e investigadores de literatura assente numa dita cultura transmontana, seja ela passada, seja presente.

Até à década de 70, Trás-os-Montes era um espaço distante, um sítio onde se nasce mas de que nunca se sai, mesmo quando regressamos. Era um universo fechado. Falar a um citadino de Trás-os-Montes era como se falássemos de algo longínquo e inacessível. No princípio da década de 80 havia ainda o hábito de, na véspera do Natal, proporcionar alguns dias extra àqueles que tinham que ir à terra, uma expressão comum que deu o título a um livro do Modesto Navarro, para aqueles que não nasceram em Lisboa. Aproveitando dessa benesse, o meu amigo Vítor Bandarra, hoje na TVI e então no “Portugal Hoje”, pediu ao director do jornal para ir à terra. Concedido o pedido, no dia seguinte o Vítor passou pelo jornal. E o director perguntou-lhe: ‘Então não foste à terra?’ E ele respondeu: ‘Já fui e vim’. É que morava em Sintra.
Isto significa o quê?
O espaço geográfico era determinante, pelo isolamento que provocava e pela identidade cultural que se sedimentava, à falta de outros horizontes e alternativas. Uma identidade cheia de equívocos, por vezes, mas assente numa forte tradição oral e num conservadorismo de valores (vivia-se então, ainda numa economia comunitária, já cheia de brechas pelo fenómeno da emigração), cujo rigor iria marcar as nossas vidas, quando soltos ou presas aparentemente fáceis, no aglomerado urbano, volúvel e com outros conceitos bem mais flexíveis que os nossos.
O nosso sotaque sendo motivo de alguma troça, mas sobretudo de suspeitas e invejas mal contidas, foi-se perdendo com a normalização linguística dos media, uma normalização pela simplificação e poupança vocabular, num português standard e pobre, asséptico, sem sotaque, tendo como padrão não se sabe que normas linguísticas ou fonéticas.
Por outro lado, deixamos de ser um sítio longínquo, povoado de agressividade e violência (uma metáfora fácil para o forasteiro), mas também de pundonor, para nos transformarmos numa espécie de reserva de índios ou laboratório antropológico, com a explosão das auto-estradas e outras vias de comunicação. O que nos pareceu um recomeço de chegada, transformou-se no reinício de partida.
Não estou de modo algum a contestar os benefícios; estou apenas a constatar factos que diminuíram e continuam a adulterar os alicerces de uma eventual cultura transmontana, se é que ela existe, a não ser na perturbação e afirmação oral e nos restos, ruínas e destroços de civilizações que por aqui passaram e nos marcaram.

Quando me convidaram para este debate, não me impuseram nem sequer sugeriram que fosse idólatra.
Falemos então de literatura de escritores transmontanos. Em primeiro lugar, ainda que seja escassa a geografia transmontana da sua obra (muito embora nos reconheçamos no seu linguajar, mas também nos podemos reconhecer em Aquilino) temos Camilo, tão imitado e tão mal imitado, por escritores transmontanos. “O Santo e a Montanha” é um seu romance que acaba e começa em Moncorvo (na Serra do Roboredo), passando por Vila Flor, Braga e a Madeira. “A Queda de um Anjo”, relata a história de um morgado de Caçarelhos (Miranda do Douro) que é eleito para deputado e, depois de considerar Lisboa como Sodoma e Gomorra, se deixa levar pelos seus encantos e se apaixona por uma brasileira a quem monta casa. O romance, publicado em 1865, continua de uma actualidade extrema, seja para deputados transmontanos, seja para outros deputados.

Não temos, em quantidade, grandes escritores transmontanos, como, aliás, não temos grandes escritores portugueses, em qualidade. Escritores que ultrapassem a região, as bibliotecas municipais, os patrocínios regionais e uma glória efémera e muito localizada.
Sabendo que, porventura, vou pecar por injustiça (mas não de acinte) ou por omissão (mas não propositada), gostaria de sublinhar a existência e a permanência de Miguel Torga, Pires Cabral e Bento da Cruz entre os reconhecidos; Miguel Torga na sua universalidade, Pires Cabral porque conseguiu reconhecimento nacional, Bento da Cruz porque tem feito uma obra injustificadamente esquecida, um filho do Barroso alérgico ao marketing e que, exceptuando o “Hiram e Belkiss” (um espaço simbólico na construção do Templo de Salomão ou na construção do nosso próprio templo interior), tem erigido as terras do Barroso, a um espaço universal da luta do homem com as fronteiras, sejam as suas, sejam as da geografia imposta. Entre os esquecidos, vale salientar e recordar esse grande prosador, o homem que escreveu com tolerância e bonomia sobre a vulnerabilidade e corrupção dos corpos dos sofridos durienses, o médico João semana, João Araújo Correia.
Nesta onda memorialista não podemos deixar de lembra um escritor transmontano como Campos Monteiro, prolífero, autor de revistas e dramalhões, com sucesso garantido na época (lembrando alguns sucessos de hoje), urbano, com temática de classe média ou burguesia portuense, mas que escreveu, já no fim da vida, duas novelas, com acção e trágica acção na sua terra, Torre de Moncorvo. Dono de uma prosa camiliana, nascido em Trás-os-Montes, a sua temática (à excepção do livro citado), é perfeitamente urbana.
Temos também outros autores que, de origem transmontana, ultrapassam os limites da região.
Estou a lembrar-me de Eduardo Guerra Carneiro, de Chaves, um dos grandes poetas portugueses, mas sem proximidade temática, à sua terra (ao contrário do seu pai que escreveu os “Poemas Transmontanos”), embora se assumisse transmontano por inteiro.
Ainda a velhice não chegara, quando, por vontade própria, se despediu da vida.
Estou a lembrar-me do Vasco, o cartoonista que, ainda hoje, refugiado em Fontanelas, ausente há mais de 40 anos de Vila Real, mantém intacto o sotaque da “bila”. Os seus cartoons, de consagração internacional, não retratam nem lembram Trás-os-Montes. E, no entanto, continua transmontano.
Estou a lembrar-me do meu amigo Afonso Praça, também amigo de muito boa gente que aqui está. Escreveu dois livros (tirando as gastronomias com Maria de Lurdes Modesto e as receitas afrodisíacas, ilustradas por Francisco Simões), em que Trás-os-Montes é a presença e a saudade da ausência: “O Coronel morreu de Sentido” (novela cuja acção decorre, em pleno PREC, na sua aldeia, Felgar, concelho de Moncorvo) e “Um pouco de Ternura e Nada Mais” ( crónicas sobre Trás-os-Montes visto do Campo Pequeno).
Prolífero, mas com uma visão mais redutora da realidade transmontana, confinada a enredos assentes em lutas de classe e um certo neo-realismo já ultrapassado, temos a obra de Modesto Navarro, obra que se estende também ao Alentejo e mergulha mesmo no policial, sob o pseudónimo de Artur Cortez.
Por último, alguma literatura de Francisco José Viegas, natural do Pocinho, em que o Douro está presente. Mas a sua geografia narrativa é mais diversificada, ultrapassando os limites de Trás-os-Montes e as suas particularidades linguísticas.
Não falo de Ernesto Rodrigues. Ele está aqui presente e, melhor do que eu, falará sobre este tema e vários subtemas que lhe vêm agarrados.
Por último não quero deixar de sublinhar a utilidade ( não sei se a importância) de obras como a de Vitor Barros, sobre os transmontanismos ou de Barroso da Fonte sobre os transmontanos que ele considera (ou se consideram) ilustres.
Não podemos esquecer nestas andanças da memória, traiçoeira, por vezes, selectiva noutras, a existência de Trindade Coelho, Rentes de Carvalho e António Cabral. De Trindade Coelho, de quem se recorda este ano o centenário do seu suicídio, ficou-nos a marca do cidadão, mas também do homem bom e do animal bom, patente em “Os Meus Amores” e que um melhor conhecimento da criatura viria a dar ao escritor do Mogadouro o desencanto que o levou ao trágico passamento na Rua da Misericórdia. Rentes de Carvalho é outro caso curioso, nascido em Gaia, a sua memória mergulha em Trás-os-Montes ( Estebais do Mogadouro) com tal intensidade que ninguém acreditará que vive há mais de 40 anos na Holanda. Registem-se como sinais das férias da sua infância e da sua aprendizagem transmontana, “Montedor” (o primeiro romance), “O Rebate” e, por último “Ernestina” e “Coca” com pertinência autobiográfica.
Por fim, António Cabral, recentemente falecido, um poeta do Douro (Castedo de Alijó), com algumas peças de teatro e, sobretudo, um rigoroso prospector da cultura popular transmontana.

Uma palavra final sobre três vultos incontornáveis da cultura ( expressão em moda, mas que me saiu, pelo que peço desculpa por este pecado jornalístico-urbanófilo), nados e criados em Trás-os-Montes: Raul Rego, Paulo Quintela e Abade Baçal.
Um, na recolha de memórias etnográficas do Nordeste transmontano, num trabalho de sísifo de meio século; outro, na tradução, ainda hoje inexcedível, de Holderlin, Rilke, Brecht, entre outros poetas alemães, e na criação de um verdadeiro teatro de autores clássicos portugueses, em Coimbra; outro, pela sua intervenção política, pela sua importância no jornalismo de oposição e na investigação da Inquisição em Portugal e na divulgação do processo de Damião de Góis.
Estas três figuras honram a cultura portuguesa, como transmontanos.
E acabo esta charla que já vai longa, com a pergunta a que não respondi e que reconheço tenho dificuldade em responder: haverá uma cultura transmontana?
Haverá uma cultura transmontana com a televisão a uniformizar os gostos, os valores, os hábitos e os gestos?
Haverá uma cultura transmontana com aculturação dos emigrantes naifs e com expressões kich na imitação ( seja na arquitectura, seja nos comportamentos) dos países em que trabalham?
Haverá uma cultura transmontana quando os seus últimos transmissores morrem ou vão morrendo em lares?
Haverá uma cultura transmontana, quando somos cada vez menos, para a assimilar, perpetuar e transmitir?
Falando em cultura transmontana: Não é sábio o que muito sabe, mas o que continua a aprender.
E quem nos ensina?
Disse.

Rogério Rodrigues

Júlia Ribeiro retirada do armário

Soube hoje pelo Nelson que faleceu o Jaime e soube do Peredo onde decorreu o funeral que teve uma pequena multidão de saudade e afecto, que o Jaime bem merecia. Era um homem bom, como honrada e boa é a sua família. E, falando em homens bons, fui ao rebusco na minha arca informática e encontrei o texto que escrevi e li sobre os dois livros e contos e crónicas da minha amiga Júlia Barros (já lá vão, pelo menos três anos, será?). Como vai estar algum tempo separada de nós, aproveito a ocasião para publicar o texto. Estou mais descansado que assim não me vai "perturbar" com os seus comentários que, sendo de tamanha tolerância, nos fazem sentir mais pequenos. Creio que muita gente do blogue não conhece este texto, pelo que me atrevo a publicá-lo. Aqui vai:


"Excma senhora Júlia de Barros, sr. presidente da Câmara, minhas senhoras e meus senhores

Sinto-me honrado pelo convite que me foi endereçado por Maria Júlia de Barros que literariamente se assina Júlia de Barros Biló, para apresentar o seu último livro “Contos ao Luar de Agosto”, volume II, em boa hora patrocinado pela Câmara Municipal da nossa terra. Em simultâneo é apresentado outro livro, de crónicas e contos, “De Olvido e Silêncio”, retratos do imaginário social e da memória afectiva do bairro da Corredoura e de Moncorvo.
Trata-se, quanto a mim, de duas obras fundamentais, como registo de memória e reconhecimento da sociedade moncorvense, da década de 50 à década de 70, ainda que algumas das histórias se reportem ao final do século XIX, se tivermos em conta o diário de então de um funcionário administrativo, Francisco Justiano de Castro que deixou para a posteridade a sua caderneta de lembranças. Este manuscrito foi anotado pelo doutor Águedo de Oliveira e seria publicado, em Setembro de 1975, no Boletim do Grupo “Amigos de Bragança”. A história das onze castanhas, dos tiros no soto do Aníbal Lobo, da ausência de endoenças para os presos, do administrador Ramiro Guerra que mandou prender o Abade, fazem parte, são apontamentos sucintos deste diário que Júlia Barros Biló terá certamente conhecido e que, com rara mestria, transformou, dando-lhes corpo literário.

Os moncorvenses com a minha idade encontram aqui muitas das referências da sua infância, dos seus medos e sonhos.
Desde o pícaro ao trágico, numa linguagem depurada, mas a que não falta a fertilidade poética, a metáfora e o risível em que as gentes de Moncorvo são ricas e temíveis, desde a short story de que “Por Onze Castanhas” é a máxima expressão, pelo domínio da linguagem e do diálogo, até encontramos ao nosso lado, como se ainda o estivéssemos a ouvir e nos respingasse a cara, e nos pegasse no queixo, embrulhado na sua gabardina sebenta, o Horácio Espalha, o paradigma do reviralhista isolado em terras do interior, uma exacerbada consciência crítica. Até ouvimos a banda da Miranda tocar, em Duas Igrejas, o “Bandiera Rossa”, um dos grandes hinos internacionalistas que empolgou gerações, cantado num mirandês de múltiplos sabores. Estes dois livros espelham, mais do que qualquer estudo sociológico, a índole moncorvense, a sua matriz proletária centrada na Corredoura e a sua tendência para o pícaro ( tendência que se manteve provavelmente até aos dias de hoje e de que o Arnaldo, por exemplo, é a expressão mais apurada) e a crítica ácida aos senhores da Praça. Neste livros, os sábios são o povo. Os doutores são a tola arrogância, o convencimento fácil e a estupidez sem culpa formada.

A criação da atmosfera em Júlia Barros Biló assenta num espaço real, que não a lareira como é comum a quase todos os regionalistas e cultores do conto rústico, mas ao ar livre, em Agosto, na Corredoura, na geometria xistosa dos balcões.
Júlio Dinis, um dos grandes representantes do romance moderno, de convalescença na Madeira de uma tuberculose que haveria de o minar aos 30 e tal anos, ia reflectindo sobre a criação literária, em textos que, mais tarde, já depois da sua morte, foram condensados e publicados nos seus “Inéditos e Esparsos”.
O diálogo, um dos segredos da obra de Júlia Barros Biló, merece uma larga reflexão do autor da “Morgadinha dos Canaviais”. Escreve Júlio Dinis: ”O diálogo, sobretudo, não deve distanciar-se do linguajar falado na época, em que o autor escreve, sob pena de dissipar o vestígio da verdade da narração. É necessário acomodá-lo à índole, à posição social e especialíssimas condições do indivíduo que fala, para que na leitura dele a alma vibre como se assistisse a uma cena real (...) Para que o diálogo interesse e iluda, é mister que o autor se esconda o mais possível e, para isso, tem de abdicar do seu estilo próprio e expor na boca dos actores da sua narração palavras que fossem esperar deles por quem os tivesse previamente conhecido”.
Já Garrett defendia que o diálogo devia recorrer à linguagem oral e simples e não escrita e retórica.
Este conceito justo no tempo em que Garrett o enunciou, e justo ainda hoje, é, no entanto, diariamente ultrajado pelos guiões e diálogos da maioria das telenovelas portuguesas, por um desconhecimento profundo da língua e do abuso do adjectivo, como lugar comum, como mera escória da pepita que não se encontra. Mas este tema levar-nos-ia muito longe e creio não ser este o momento para sobre ele reflectir.
Continuando: já Trindade Coelho, cujos contos, repassados de realismo e assentes em costumes rurais, confessava, na sua “Autobiografia”, serem “talvez saudades”, motivadas pela distância, porque se vivesse na sua terra talvez os não tivesse feito.
A longa ausência de Júlia Barros Biló permitiu-lhe uma aproximação mais profunda, passe o paradoxo. Na sua memória, recriou o imaginário e estabeleceu os arquétipos. E conseguiu a síntese feliz, pela voz do povo, da condição social de Moncorvo, após a II Grande Guerra.
Ao lado rústico dos seus contos, na esteira de contistas transmontanos como Trindade Coelho, Araújo Correia e Miguel Torga, e algum Camilo, devemos acrescentar um certo imaginário, entre a superstição e a lenda e a fatalidade de alguns escritores latino-americanos. Moncorvo é a sua Macondo (espaço mítico e obsessivo de Gabriel Garcia Márquez).

A Corredoura aparece como o espaço umbilical, não o espaço central, da vila. A Corredoura assume-se como o reservatório, não só de uma memória colectiva, mas também como o epicentro da crítica social, da força do trabalho e da solidariedade vicinal, na dor e na alegria, que os tempos e as migrações foram, com muita pena, apagando.
Como que é na Corredoura que se reserva e preserva a cultura profunda, a mais profunda, de um povoado, servindo a Praça, não só como instrumento de vaidade de doutores, terreno de funcionários públicos, mas sobretudo, como o centro do Poder, opressor e gratuito. E a Corredoura é do contra.
E não deixa de ser curioso que, à minha semelhança, muitos dos que aqui estão presentes, tenham aprendido as primeiras letras na Corredoura. Na minha infância chamávamos-lhe os índios, ainda a distinção social dos bairros era tão acentuada e a Corredoura uma reserva de homens pobres mas livres.
Nos intervalos das aulas mijávamos no plátano que estava à beira do “canafechal”, na esperança de o secarmos. Não conseguimos. Mas na infância, o sonho é mais importante que o sucesso.


Júlia de Barros Biló confere ao diálogo um grande espaço discursivo. O manejar linguístico torna a sua prosa extremamente visual. Sente-se melhor, é visível no primeiro volume dos contos, quando o narrador é uma mulher. Ela própria o confessa quando afirma que os contos dos homens “ não tinham para mim aquele poder encantatório, aquela magia das histórias das velhas”
Neste volume que hoje é apresentado, o Ti Serafim Galego aparece com um dos grandes contadores em torno de feiticeiras, uma das quais, com dois cornos bem gravados na sola do pé esquerdo, se transforma em parreca nos sábados de lua cheia, após colocar erva dormideira no vinho do homem. A carga judaica do sabath e a importância da lua cheia em toda a literatura hermética e esotérica são constantes nas histórias de Moncorvo.
Já “A Pedra do Mundo”, no fabulário poético dos contares, tem um lugar à parte, onde a poesia se mistura à parábola e a magia quase alquímica do tesouro e dos encantamentos percorre muito do universo do romanceiro português e também moncorvense, na confluência de duas culturas que enformam o imaginário popular: a cultura árabe e judaica.
“Cornudo de si mesmo”, outro conto, entra noutra categoria em que o pícaro, a malícia e a maledicência, tão caras a Moncorvo, ocupam um espaço profano por excelência. A história é o retrato quase desbragado de alguma sociedade machista moncorvense. É contada por Zé Sangra, um homem bom e que, por bem, gostava de arreliar os garotos, oferecendo-lhes em seguida uma moeda para irem comprar rebuçados ao Basílio. Foi assim que o conheci na minha infância. Ao contar da história, também ela com uma conclusão cheia de beleza e poesia, a que o útil se junta ao agradável, assiste o Álvaro Chalaça, “um mulherengo encartado”, como ironiza a autora.
“Mesmo depois de morto...” é outra história pícara contada pelo Todu que eu ainda conheci e que na minha adolescência e juventude deu muitas boleias para Mogadouro e Vila Flor, num tempo em que ele tinha um café e era agente de automóveis.
Relata a história do Tio Tónio Calvo, tocador de bombo na banda de música que, até na morte, foi capaz de pregar uma partida aos vivos.
Depois há histórias mais trágicas onde é visível a passagem da I Grande Guerra por Moncorvo. Luis Malhógrão, desapareceu em combate na guerra de 14. Laura, a sua mulher, de 19 anos, vestiu de preto, mas jamais acreditando que ele tivesse morrido. Um dia imaginou que o seu Luís regressara e que intensa e longa fora a noite de amor. E assim viveu os últimos 20 anos da sua vida, numa pulsão erótica que a mergulhou no espaço trágico do Eros/Thanatos.
Cabe aqui também o registo da história de uma violação, assunto praticamente tabu, ao contrário dos zorros, na memória descritiva de Moncorvo. Houve em seguida o lavar da honra e o menos útil dos três irmãos, por deficiência física, ofereceu-se ao sacrifício, como personagem grega, dando-se ele como o único culpado, de modo a que os dois irmãos válidos ficassem a proteger a mãe e a irmã. Degredado para a
África regressa rico, ainda que com ares de pobre, com um saquinho cheio de diamantes.
Também neste livro vamos encontrar outro degredado de África, que partiu pobre e pobre regressou. Trata-se de João Caramês, o herói da novela “Ares da Minha Serra” de Campos Monteiro. O conto tem a particularidade de jogar com tempos diversos, de intrometer na narrativa o narrador e o herói, o narrador antes de escrever a narrativa e o herói já depois da punição do acto de heroísmo. Ou seja, João Caramês, o jovem da novela de Campos Monteiro, é o mesmo João Caramês, que já cumprido o castigo vai buscar o então ainda jovem Campos Monteiro ao Pocinho. As virtualidades do conto são imensas e o desfazamento dos tempos, entre o narrador e a narrativa e o novo contador da história dariam campo fértil para uma exegese do tempo na ficção.
Em “A Caixa de Rapé”, a autora regressa ao fantástico. Trata-se do relato de uma caixa de rapé pertença de Miguel Malafaia, cheia de diabinhos que ele de quando em quando soltava e que faziam todo o trabalho por ele.
Já “A cidade da Babilorna...” expressa um forte conteúdo social, determinado pela revolta dos escravos, uma história que seria recebida como uma clara alusão às condições de vida na Corredoura em relação a outros sectores burgueses e pequeno-burgueses da vila.
E outras histórias e outros contos mereceriam uma mais alargada análise. Deixo esse prazer para os leitores, porque a partir de agora, os livros já não pertencem a Júlia Barros Biló. Os livros são do leitor, ele próprio os reescreve, a seu modo e à sua memória.
Já vai longa esta reflexão de aprendiz. Não queria deixar, contudo, de lhes ler a história mais curta e no entanto, quanto a mim, a mais intensa e justa e perfeita dos dois livros agora apresentados: “Por Onze Castanhas”.
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Muito obrigado.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Visitas guiadas para assinalar Dia Nacional dos Centros Históricos


Vista do centro histórico (núcleo extra-muros), a partir da torre de igreja (Foto de N.Campos)

"Do alto do campanário vê-se o que resta do castelo e do velho burgo medieval. Vê-se a rede intrincada do casario e ruelas estreitas, o jogo volumétrico dos telhados, os saguões, as hortas e quintais, com seus perfumes de laranjeira, pinceladas de verde ou de tons outoniços, conforme as estações. (...)
Está na hora de descer da torre e, eventualmente, subir à serra, mas, antes, é melhor conhecer as gentes, entrar nas lojas, provar as iguarias tradicionais, ver os núcleos museológicos, imbuir-se do espírito do lugar, enfim, saborear Torre de Moncorvo!... Desejamos-lhe uma boa estadia (ou um excelente passeio)".
- Excerto de um texto (inédito) de Henrique de Campos.

Celebra-se amanhã (dia 28 de Março) o Dia Nacional dos Centros Históricos.

Torre de Moncorvo faz parte da Associação de Municípios com Centro Histórico, e possui, efectivamente, uma malha urbana multissecular, que se desenvolve em dois núcleos distintos: a zona do bairro do Castelo, de origem medieval, que se estruturou intra-muros, depois de D. Dinis a ter mandado fortificar, seguramente no seguimento da outorga do foral de 12.04.1285 (há um documento dionisino, de 1295, aludindo à construção da "fortaleza"). No entanto, desde cedo o casario extravasou as muralhas, devendo ter-se distribuído em redor da actual praça Francisco Meireles, no que então se chamava o "Arrabalde".

Estas e outras explicações serão dadas, amanhã, aquando das visitas guiadas que o PARM (Projecto Arqueológico da Região de Moncorvo) se propõe organizar, da parte da manhã (entre as 11;00h-12;30h) e à tarde (14;30h-16;30h, neste caso com passagem pela exposição fotográfica de alunos do Curso de Especialização Tecnológica do IPB, que será inaugurada no Centro de Memória, pelas 15;00 horas).
Inscrições para o telef. 279 252 724 (hoje, até às 18;00h).

Ver mais em: http://parm-moncorvo.blogspot.com/

quinta-feira, 26 de março de 2009

Linha do Sabor

A linha do Sabor nos anos 80 era a única que ainda tinha máquinas a vapor. A chegada do protagonista do filme Manhã Submersa à estação do Fundão foi filmada no Larinho, por indicação de Leonel Brito, director de produção. A realização é de Lauro António e a direcção de fotografia de Elso Roque. Intérpretes: Eunice Muñoz, Virgílio Ferreira, Jacinto Ramos, Canto e Castro, Joaquim Manuel Dias, Adelaide João.
SINOPSE: Adaptação do romance de Virgílo Ferreira, Manhã Submersa descreve o despertar para a vida de uma criança, passado entre a austeridade da casa senhorial de D. Estefânia (uma fabulosa Eunice Muñoz), a neve, a sensualidade da sua aldeia natal (Linhares, na Serra da Estrela) e o silêncio das paredes do seminário.
Uma obra poderosa, oscilando entre a luz e as sombras, por entre as quais um jovem de doze anos parte à descoberta de si próprio e do mundo que o rodeia: a repressão na educação, a pobreza da sua terra, as desigualdades sociais, o desejo do seu corpo em formação, a amizade e o amor.
A linha do Sabor num texto de Rentes de Carvalho, no romance A Amante Holandesa:

'O correio vem daqui a nada no comboio do Pocinho, aselha! Cruza com este no Felgar. Pensavas que vinha de cima? Então para que lado fica o Porto? Onde é que é Lisboa?’
'E as cartas de Bragança? Ou as de Miranda? Como é que cá chegam?', retorqui eu, contente de ter um argumento imbatível.
'Vai tudo para baixo. Para o Pocinho. Lá fazem outra vez os sacos e o correio que é para cá volta para trás.'
Achei confuso, mas porque tínhamos começado a comer, desinteressei-me. E afinal podia bem ser que ele tivesse razão, doutro modo não teria dito que tínhamos de esperar.
O comboio do Pocinho anunciou-se com um silvo que nos fez levantar da sombra onde estávamos sentados. Mas vi­nha longe ainda. Desapareceu um instante atrás dum outeiro, reapareceu num fundo, dando a impressão que ia em sentido contrário e, quando finalmente surgiu no princípio da recta, vimos que começava a perder velocidade na subida.


Fotogramas extraídos do filme Manhã Submersa

Nota: Sobre Rentes de Carvalho há muitos textos de qualidade do Nelson no blogue.


Fotografias da Linha do Sabor

Detalhes em Ferro 4

Também na Lousa podemos encontrar interessantes trabalhos em ferro forjado em muitos gradeamentos de escadas e varandas. Numa capela no meio da aldeia encontrei a sineta que a fotografia documenta. Este campanário não é em pedra como é mais usual, é em ferro forjado!

quarta-feira, 25 de março de 2009

Peredo: segundo olhar

Agora que consegui "desviar os olhares" para Peredo dos Castelhanos, mostro outra característica da aldeia (não difere muito de outras do concelho): as casas são muito humildes, feitas de xisto. Nalgumas pedras encontramos sinais enigmáticos, marcas de gerações. Na porta lateral da igreja há uma mensagem escrita já bastante deteriorada. Alguém a decifrou? Porque está ali?

terça-feira, 24 de março de 2009

Olhares (Peredo dos Castelhanos)

Num momento em todos parecem tão inspirados (será da Primavera?) apeteceu-me tentar "trocadilhos" com esta fotografia tirada em Peredo dos Castelhanos. É que também há poesia no olhar, de quem fotografa, e de quem vê.

Trata-se do Alberto Mandelo, ex-emigrante, com casa logo ao cimo da aldeia, com pequena piscina e grandes horizontes vistos do seu quintal, de regresso a casa em hora crepuscular, a hora do Peredo, um inexorável entardecer da gente.
Tudo é difuso, até as duas presenças ao longe, como que desfocadas na névoa do tempo em que vai mergulhando o Peredo.
Conheci-o de novo, ao Alberto Mandelo, um mouro de trabalho numa servidão quotidiana de que se libertou, como tantos outros, rumando em direcção à França.
Mas nesta serenidade de tempo morto em que só a camisola é cor e os alforjes claridade, observe-se a coexistência da besta com o tractor, o xisto com o poste de electricidade, a janela de persianas brancas, o automóvel e a beleza crua da árvore despida à espera da Primavera (a única que se renova naquela geografia temporal).
É todo o universo da aldeia numa fotografia a que só falta o cão. O rosto olha mais para dentro do que para a parede escura. Como se não tivesse outro horizonte além dele mesmo.
Só o humano tem vida e cor nesta usura do tempo. Um tempo parado. Um tempo à espera que o tempo acabe.
É um olhar melancólico sobre a minha aldeia. Um olhar de que comungo.
Rogério Rodrigues

segunda-feira, 23 de março de 2009

Exposição e palestra sobre Aves da região

Como foi aqui anunciado (ver post de 20.03.2009), dezenas de alunos e professores do Agrupamento Vertical de Escolas de Torre de Moncorvo foram ao Museu do Ferro & da Região de Moncorvo, onde puderam ver reunidos em exposição um belo conjunto de desenhos de aves por si realizados (sobretudo dos 5ºs. anos), ouvindo depois, no Auditório, uma palestra sobre “Aves da Região”, proferida Engº. Afonso Calheiros e Menezes, técnico superior do Parque Natural do Douro Internacional e presidente da direcção do PARM.

Visita à exposição de desenhos de aves, feitos pelos alunos.

Momento da palestra sobre aves da região, pelo Engº. Afonso Calheiros.

Chamariz (Serinus srinus), ave bastante comum na região


Cotovia-de-poupa (Galerida cristata), confundindo-se com a terra, nas proximidades de Sequeiros (foto de João Pinto V. Costa)

Fotos de N.Campos (excepto a da cotovia, cuja autoria vai indicada).

Poderá ver mais, sobre este assunto, em: http://parm-moncorvo.blogspot.com/

domingo, 22 de março de 2009

TRANSMONTANYA

DIA DA POESIA

Ontem, dia 21 de Março, foi também dia da POESIA. Parabéns a todos os nossos poetas blogueiros (Nelson, Angel, Júlia, Rogério, Daniel, Wanda, …) e não só (Maria da Assunção Carqueja, …).
De parabéns estamos igualmente todos pelo que estes nos oferecem e ofereceram outros no passado, nossos conterrâneos (Campos Monteiro, Afonso Praça, …).



TRASMONTANYA
Cumpro um ritual, uma litania.
Embrenho-me por montes, matagais,
Atravesso os vales e os ribeiros,
Percorro velhos caminhos e carreiros,
Por eles vou carpindo estes meus ais,
Trasmontânia, Pátria minha, Trasmontânia...


Terra de fadas, demónios, duendes,
Bosques de carvalhos imersos em brumas,
Musgos e líquenes donde pende o sinceno,
Como me acolhes quando o sol ameno
Transforma a neve em suaves espumas
E devolve a vida aos corações doentes...


Aquém dos últimos montes da Lusitânia
Estendem-se as serras do meu país.
Terras que a garra alheia não alcança,
São os cabeços onde espeto a minha lança,
Reino da corça, do javali, da perdiz,
Oh Transmontânia minha, Transmontânia...



H.C.
Torre de Monc., 6.03.2003






sábado, 21 de março de 2009

Versos amendrucais



Tenho as veias nas fragas
e os olhos no Reboredo,
à cotovia dou asas
e ao homem este segredo:
Depois do estoirar das cigarras
e do cortar da geada,
ofereço meu leque de vida
e em troca não quero nada.

Jardim da Primavera

21 de Março, para além de Dia da Árvore, é também o Dia Mundial da Poesia.
Assim sendo, aqui fica um poema a assinalar e a festejar a data:
JARDIM DA PRIMAVERA
Arábigo jardim
de socalcos suspensos
que amendoeiras florescem
laranjeiras perfumam
e romãzeiras espalham
de preciosos rubis
e onde pomos diversos
de várias árvores são versos:
cerejeira, ameixoeira,
pereira, macieira,
figueira, nespereira,
oliveira, amoreira,
entre outras cantam
seus hinos à terra.
Da terra e das paredes
de xisto antigo
brotam flores
de cores silvestres:
vermelho-papoila,
branco, lilazes,
do verde se desprendem
num festival de aromas.

Insectos zumbindo
são violinos,
pássaros trinando
serão clarinetes;
o resto da orquestra
que a imagine o poeta,
que está cheio de acordes
o Jardim da Primavera.

Tragam alaúdes,
almofadas e versos,
tragam odaliscas,
néctares, essências,
e vinde cantar o Amor
no Perfumado Jardim!...

Poema e fotos de Henrique de Campos

sexta-feira, 20 de março de 2009

Começou a Primavera! - comemoração nos jardins do Museu

Segundo nos informa o Seringador (Reportório crítico-jocoso e prognóstico diário para 2009), entrou hoje, dia de Santa Eufémia, pelas 11;44 horas, a Primavera!

Correspondendo ao Equinócio da Primavera (hoje o dia e noite terão exactamente a mesma duração, continuando depois os dias a aumentar e as noites a diminuir, até ao Solstício de Verão, na noite de S. João, a mais curta do ano...).


A Primavera era saudada, pelos povos da Antiguidade, com uma série de ritos relacionados com a Natureza e a fecundidade. Contudo, não sabemos se algum desses povos tinha por hábito plantar uma árvore nesta altura do ano, coisa pouco provável, pelo menos numa Europa ainda povoada de vastas florestas, até à conquista Romana.

Assim, o Dia da Árvore só viria a ser instituído no séc. XIX, mais precisamente em 1872, nos Estados Unidos da América (estado do Nebraska), e era em Setembro. A "Festa da Árvore", como se designou, depressa se expandiu por vários países do Mundo, tendo-se celebrado em Portugal, pela primeira vez, em 9 de Março de 1913.

Só em 1971, por proposta da Confederação Europeia de Agricultores, a FAO (organismo da ONU para as questões da Alimentação mundial) instituíu o Dia Florestal Mundial, com objectivo de sensibilizar as populações para a importância da floresta e manutenção do ecossistema global. Para o hemisfério Norte, foi estabelecido o dia 21 de Março (inícios da Primavera), sendo esta data celebrada pela primeira vez em 1972 por inúmeros países, entre os quais Portugal. No hemisfério Sul, nomeadamente no Brasil, o Dia Mundial da Árvore e da Floresta coincide com o dia 21 de Setembro.


Antecipando o Dia da Árvore (que será amanhã), hoje, nos jardins do Museu do Ferro & da Região de Moncorvo, foram plantadas, pelas crianças do Agrupamento Vertical de Escolas de Torre de Moncorvo, algumas árvores da região, nomeadamente laranjeiras, amendoeiras, carvalhos e um azevinho. Foi ainda inaugurada uma mostra de trabalhos dos alunos, tendo estes escutado, no auditório do museu, uma palestra sobre a importância da árvore e da floresta, pela professora Marlie Andrês (coordenadora da acção) e Engª. Mariana (engenheira florestal do município de Torre de Moncorvo).


Mais informação sobre este evento em: http://parm-moncorvo.blogspot.com/

Mais se informa que na próxima Segunda-feira, dia 23 de Março, pelas 10;00 horas, também no Auditório do Museu, será realizada uma outra palestra, ilustrada com imagens, sobre as Aves e Árvores da região, pelo Engº. Afonso Calheiros, presidente da direcção do PARM; esta acção é também sobretudo orientada para os alunos das Escolas (igualmente com participação do Agrupamento de Escolas), mas obviamente podem assistir todos os interessados, que poderão apreciar uma exposição de desenhos de alunos do 5º. ano, sobre diversas aves da região.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Sismo em Torre de Moncorvo - aconteceu há 151 anos!!

No artigo “Moncorvo, ou Torre de Moncorvo”, do Dicionário abreviado de chorographia, topographia e archeologia das cidades, villas e aldêas de Portugal, obra de José Avelino de Almeida, publicada em 1866, ao falar da nossa grandiosa igreja matriz, diz o autor o seguinte:

«No dia de S. Joseph, 19 de Março de 1858, chegou a deslocar-se e a cair uma pedra de cantaria da abóbada, por causa de um forte tremor de terra, mas foi logo substituída». - Mais informa que a pedra caiu junto do altar das Almas (o primeiro altar, do lado direito, para quem entra pela porta principal).

Não sabemos a amplitude de outros estragos que possam ter ocorrido na vila, impondo-se mais alguma investigação arquivística para apuramento de algo mais sobre este episódio sísmico. Que a falha da Vilariça tem sismicidade activa todos sabemos, embora os geólogos e sismólogos afirmem que é de baixa intensidade e que é difícil que ocorra um grande terramoto como o de Lisboa de 1755.


Em todo o caso, ouvimos dizer há um bom par de anos ao eminente geólogo Doutor António Ribeiro (autor da tese: Contribuition à l’étude tectonique de Trás-os-Montes Oriental, Lx., 1974), que terá ocorrido um importante sismo em Torre de Moncorvo em 1750, antes do de Lisboa. Não temos registo documental deste episódio, mas, a verdade é que a igreja apresenta preocupantes brechas em alguns pontos das suas paredes, sinais de uma existência algo atribulada.
Até há poucos anos existia no alto da serra, na zona das “Antenas”, uma estação sismográfica que enviava os dados (por telecomunicação) para a delegação local dos serviços do Ministério da Agricultura. Constou-nos que já foi desactivada. A ser assim, acho que se deveriam apurar os motivos.
Mais informamos que a secção de Geologia do PARM (Projecto Arqueológico da Região de Moncorvo), tem prevista para breve uma conferência sobre Sismologia e suas aplicações, a realizar no auditório do Museu, integrada nos ciclos de palestras sobre Geologia e Minas, que desde o ano passado se têm realizado.

Nota1: Agradecemos ao nosso colega “webmaster”, Aníbal Gonçalves, o ter-nos chamado a atenção para esta efeméride.

Nota2: Foto do interior da igreja matriz de Torre de Moncorvo de autoria de Lonel Brito (anos 70?). - A zona do desprendimento da pedra (certamente das nervuras da abóbada da nave lateral) está parcialmente encoberta pela 1ª coluna do lado esquerdo.

quarta-feira, 18 de março de 2009

19 de Março, Feriado Municipal em Torre de Moncorvo

Celebra-se no dia 19 de Março, dia de S. José, o feriado municipal de Torre de Moncorvo.

Quando surgiram os feriados municipais?
E qual a razão da escolha de S. José, já que a padroeira desta vila é N. Senhora da Assunção? Ou até poderia ter sido Santa Bárbara, em homenagem aos mineiros (de que Stª. Bárbara é patrona), considerando aqui a existência das importantes minas de ferro...

Respondendo à primeira questão, os feriados municipais foram instituídos logo após a República, por decreto de 12 de Outubro de 1910, ao que parece, em resultado da supressão de alguns feriados religiosos. Dava-se, contudo, possibilidade de cada concelho escolher uma festividade relevante, recaindo, normalmente a escolha sobre o santo padroeiro.

Em Torre de Moncorvo acontecia que o dia da padroeira (Senhora da Assunção), que era/é a 15 de Agosto, coincidia com um dos feriados religiosos que terão escapado ao laicismo da 1ª. República. Mesmo assim, porque o manto azul e branco da Senhora evocava vagamente a bandeira monárquica e um certo conservadorismo, os conservadores locais entendiam dever manter-se o feriado municipal no dia da padroeira, mesmo que daí resultasse não haver um dia de folga extraordinária, para lá do feriado que era geral para todo o país (o 15 de Agosto, celebração da Assunção de N. Senhora). Mas os mais progressistas entendiam que não senhor, deveria haver um outro dia! Qual ele seria e porquê?

A Santa Bárbara não fazia sentido, porque a actividade mineira organizada pura e simplesmente não existia (tinham-se feito uns trabalhos episódicos de prospecção no jazigo de ferro, nos finais do séc. XIX, por conta da Schneider, e nada mais); e os antigos ferreiros de antanho parece que eram mais devotos de S. Bartolomeu, do que, sequer, Stª. Bárbara. Aliás, na vila de Moncorvo não há uma capela dedicada a esta mártir, apesar de estar representada na fachada principal da igreja matriz.

No entanto, o S. José também não dispunha de nenhuma capela pública, nem de qualquer tradição relativamente ao seu culto. E a única capela que lhe era devotada estava associada a um solar (o antigo solar dos Tenreiros, comprado depois pelos Guerras, nos finais do séc. XIX, ou inícios de XX). Terão os Guerras também "adesivado" à República, e, neste caso, aos seus sectores mais radicais, candidatando o santo da sua capela ao feriado municipal da vila e concelho? Não o sabemos...

Sabemos, no entanto, por informação ouvida há muitos anos, que a razão essencial parece que era a seguinte: S. José era considerado o santo dos trabalhadores (era carpinteiro, como sabem...), como tal um "santo proletário", de plaina na mão, o que explicava as simpatias progressistas e agastava os conservadores. Ao que parece, então, o feriado municipal ia mudando, consoante ganhavam os partidários da Srª. da Assunção ou os do S. José. Quando chega o "Estado Novo" estava a Senhora da Assunção no "poder", quer-se dizer, estava senhora do feriado municipal, e assim se manteve por muitos e bons anos, mesmo até depois do 25 de Abril, sem que ninguém já se lembrasse da questão do feriado municipal. Ninguém, ou quase.

Em 1980, o vereador Adriano Sousa (já falecido), invocando o facto de Torre de Moncorvo, em verdade, não possuir um dia de feriado municipal, como os demais concelhos, porque a data coincidia com um feriado religioso nacional, propôs a criação de um dia alternativo, que não calhasse em feriado nacional. E qual haveria de ser? - S. José, pois claro! - A proposta passou em Assembleia Municipal, julgo que por unanimidade.

E porque não há festa sem procissão, e a Câmara não dispunha de imagem de Santo para o efeito, havia que o pedir emprestado à capela privada da casa dos Guerras (no início da rua do Cabo). O solar e a capela entraram, entretanto, em grande degradação e a dita família levou a imagem para uma outra casa sua, em Maçores, o que fez com que a Câmara comprasse há poucos anos uma imagem nova, a qual é guardada na capela de Srª. de Fátima (antiga capela de S. João Baptista), para sair nas procissões do Feriado Municipal.

Panorâmica de Moncorvo

Mais uma panorâmica de Torre de Moncorvo. Quando se sobe à Serra do Roboredo, não se consegue resistir a tirar umas fotografias desta linda vila do Nordeste Transmontano. Moncorvo visto da Serra tem outro encanto.

terça-feira, 17 de março de 2009

Mons-Curvus


Na província de Traz os Montes, entre os rios Douro e Sabor, ergue-se em successivos e irregulares degraus a notavel serra do Roboredo. Querem alguns escriptores que os romanos, no tempo da sua dominação, a designassem pelo nome de Mons-curvus, por ser apparente a curvatura do seu dorso. Foi sobre este que elles fizeram passar a via militar que de Merida conduzia a Astorga, e cujos restos ainda se encontram na parte mais elevada d’aquelle monte. Outros porém affirmam que elles a appellidaram Roboretum, por causa da prodigiosa espessura da floresta de carvalhos que n’aquellas eras revestia as encostas da serra. Parece dar-nos ainda hoje testemunho d'esse facto a nativa pertinácia que tão robusta essência florestal oppõe á ferocidade destruidora com que a atormentam os incorregiveis e brutaes lenhadores, e a indesculpável incuria da administração municipal. Entre alguns vestígios de construcções romanas, que se encontram não muito longe d´aquella serra, vê-se n'uma das pedras de granito, com que foi construída uma antiga capella, próximo das ruinas da Villa Rica de Santa Cruz entre o rio Sabor e a ribeira da Villariça uma inscripção sepulchral com o nome de Lelia Roborina. Derivaria o nome d'esta dama romana d'aquelle com que era designada a serra? Seja como for, o nome da serra do Roboredo deve ser contemporâneo da dominação romana.
Das margens do Douro e do Sabor sobe-se por Íngremes e elevadas encostas até attingir a base do Roboredo, onde está assente em um outeiro de amplo desenvolvimento e olhando para o noroeste a antiga villa da Torre de Moncorvo. Villa notavel entre outras da mesma provincia pelas suas condições topographicas, pelas suas riquezas naturaes e pela sua patriotica historia. Cercam-a por toda a parte pomares, hortas, vinhas e principalmente olivedos, os quaes se abrigam de preferencia nos estreitos valles, formados pelas pregas da montanha entre os outeiros que gradualmente vão descendo, de uma parte para o Douro, da outra para o Sabor e para a extensa e fertil veiga da Villariça. Esta veiga, a pertença territorial mais valiosa de Moncorvo, estende-se dilatada para o norte, desde a foz do Sabor até ás abas da serra de S. Bade, que de Moncorvo se vê esbatida de azul pela distancia a que se acha. Fecham a planicie pelo noroeste e oeste as alturas de Villa Flor e as asperrimas serranias graniticas de Cabeço de Mouro, de Cabeça Boa e da Louza, que, fragosas, áridas e severas, nos limitam por aquelles lados o horisonte.
Entre a agglomeração pouco regular das casas que formam a villa de Moncorvo, quando de qualquer lado se divisa, o que sobresáe e captiva a attenção é a escura massa de granito, de que é formada a sua notavel igreja matriz. A extraordinária corpulencia d’este edificio domina e amesquinha todas as casas que a cercam. É quasi uma monstruosidade de pedra; mas o seu aspecto severo infunde respeito. A sua architectura só póde ser classificada como pertencendo ao estylo hybrido que precedeu a renascença. Segundo alguns escriptores a construcção d'esta igreja data do meiado do XIV seculo. Ha menos de cincoenta annos existiam ainda no centro da villa as ruínas de um castello, cuja edificação se aittribuia a D. Diniz, mas que fôra acrescentado ou restaurado no reinado de D. Manuel. Esse castello, cujas espessas e grossas muralhas com suas torres de granito viamos ainda na nossa juventude, já não existe: foi arrazado, e sobre os seus fundamentos encontram-se hoje os modestos edifícios que abrigam as repartições municipaes e administrativas e uma escola primaria, tendo na frente um acanhado passeio arborisado e sobranceiro á praça publica. Gosa-se d'este passeio a vistosa perspectiva da serra do Robordo em toda a sua extensão. Lá na encosta vemos o antigo convento de S. Francisco e o seu templo convertido em fabrica de sabão; mais acima as capellas de S. Bento e de S. Lourenco, alvejando no cume dos outeiros destacados da montanha; ali a ermida de Santa Thereza, entre arvores frondosas, e algumas casas brancas entre a verdura de soutos e pinhaes.
N’essas poucas matas e devezas se está vendo o vigor da vegetação com que, se houvera mais acerto e previdencia na administração municipal, se podia ter creado e mantido uma frondosa floresta para deleitar a vista, enriquecer a terra e melhorar o clima.
Foi n'outros tempos grande a importância que a villa de Moncorvo teve na organisação judicial e administrativa do paiz, sendo a cabeça da mais extensa comarca do reino. Nas antigas cortes tinha assento no decimo terceiro banco. Era rica e aristocratica; eram numerosas as famílias nobres que a habitavam; gloriosas e patrioticas as tradições com que se honrava e a que lhe davam direito os feitos e proezas dos seus moradores desde os mais remotos tempos da monarchia, e principalmente na acclamação de D. Joio I e na restauração do reino em 1640, e que mais tarde se haviam de renovar no principio d'este seculo, para cooperar heroicamente na libertação da patria contra o dominio francez.

Texto de: Júlio Máximo O. Pimentel
Foto de: Lelo Brito
Transcrição do texto: Contchi

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