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quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

A Vilariça e a Foz do Sabor, lembrando as "rebofas" de antigamente

2009 despediu-se chuvoso e com fortes ventanias, alagando os campos e o vale da Vilariça, embora ainda sem atingir a dimensão das grandes "rebofas" de outros tempos.
No seguimento do post anteiror, aqui ficam algumas imagens do Vale e da Foz do Sabor, captadas hoje ao fim da manhã por um nosso conterrâneo:

Vale da Vilariça, visto da estrada da Foz, junto ao troço do IP-2
Foz do Sabor - se estivéssemos junto ao mar, poder-se-ia cantar: "não há gaivotas em terra", mas aqui há barcos na margem.

O rio Sabor vai cheio - arco-íris sobre a "ilha do Espanhol".

A ponte da Foz ainda resiste emersa...

Na zona da praia da Foz, as águas parecem querer avançar... até ao Bar!
Fotos de Higino Tavares, a quem se agradece a cedência em exclusivo para "T.M. in blog"

sábado, 1 de agosto de 2009

Ainda se colhe cereal na Vilariça

Ainda há machos na Vilariça... (foto N.Campos)

Tendo em conta a feritilidade dos terrenos da Vilariça, é de supor que desde tempos imemoriais este vale tivesse sido o grande celeiro regional. A quantidade de vestígios romanos que aí se encontram são um indício disso mesmo, sendo possível que daqui saísse muito cereal para alimentar as legiões romanas estacionadas noutras paragens.
Também sabemos que a base da alimentação medieval, até ao séc. XIX (antes do incremento da batata), foi o cereal - trigo ou centeio. E se este era confinado às terras mais pobres, já o trigo era semeado nas terras boas, mais férteis, como era o caso da Vilariça.
Aquando do famoso "alardo" promovido pelo mestre de Avis (D. João I) nos campos da Vilariça, já depois de Aljubarrota, diz o cronista Fernão Lopes que o vale estava repleto de "pães" (designação genérica dada ao cereal) já quase amadurecidos. Foi no mês de Maio de 1386.


Uma máquina ceifeira-debulhadora ao fundo e os fardos já prontos a carregar... (foto N.Campos)

Ainda no séc. XIX e XX o cereal ocupava uma boa parte das terras do vale, tendo vindo a perder terreno, nos últimos decénios, em favor do plantio da vinha e de algumas árvores fruteiras. Hoje praticamente não se vê uma seara no vale, pelo que nos despertou a atenção e curiosidade ver uma ceifeira-debulhadora em acção, nos inícios de Julho, nas proximidades das Cabanas de Baixo, entre a estrada municipal e o rio Sabor. O lavrador era das Cabanas, e diz que só ainda faz por cereal sobretudo por causa da palha. Que o grão dá pouco e cada vez menos... Encontrámo-lo a carregar os fardos na sua carroça, ainda puxada pelo fiel e tradicional "matcho"... Uma imagem rara nestes princípios de séc. XXI. Esperemos que com esta "crije" sem fim, este meio de transporte ecológico não venha a ser mais utilizado (atendendo ao preço dos combustíveis) e não tenhamos que voltar a ver o crescimento das searas, se quisermos o pão para a bucha!....
Pode ser também que a Vilariça, outrora cantada como uma "Promised Land", ainda venha a ser a tábua de salvação de Moncorvo e arredores.... - Ou será que os consórcios agrícolas (dominados por capital estrangeiro) a virão descobrir para aqui plantarem uma agricultura industrial, de regadio, e cheia de transgénicos, com pessoal "aero-transportado" de outras paragens, sem criarem sequer postos de trabalho para os indígenas locais?
Que nos reserva o Futuro?

domingo, 17 de maio de 2009

Morreu o Sr. Joaquim dos Chibos!

Há poucos dias (2009.05.07) aqui noticiámos o lançamento de um livro que incorporava dois poetas populares da nossa terra – o tio António Bento Morgado e o tio Joaquim Martins (mais conhecido por Joaquim dos Chibos). Uma publicação “in limine”, em que, contrastando com a vitalidade do tio Bento Morgado, o Sr. Joaquim dava já alguns sinais de cansaço e esforço nesta sua longa caminhada da Vida. Uma vida que se finou no passado dia 15. Infelizmente.

Joaquim Marcelino Martins nasceu em 31 de Agosto de 1926 na Quinta dos Chibos, no termo da freguesia de Torre de Moncorvo, quinta essa mencionada numa das novelas de Campos Monteiro, creio que “A Rebofa”, in Ares da Minha Serra. Aí nasceu e aí viveu a sua juventude, nas velhas casas de xisto, hoje completamente arruinadas, mesmo ao lado da nova estrada de ligação de Torre de Moncorvo ao troço do IP-2. Um local árido e desolado nas proximidades do fértil vale da Vilariça, sendo este uma espécie de “Promised Land” onde o Sr. Joaquim gastou a existência para arrancar o seu sustento, e de sua família, às terras ricas mas pesadas, trabalhosas, calcinadas por temperaturas de 40º C à sombra, no Verão, sujeitas às “rebofas” invernais, e em que a humidade fomentava mosquitagens que eram fontes de sezões de tipo tropical.
Conheci o Sr. Joaquim dos Chibos nos idos dos anos 70, quando meu pai com ele negociava os afamados melões do vale. Homem íntegro, de boas contas, de palavra, trabalhador incansável, um dos últimos grandes lavradores antigos do vale da Vilariça que fez a transição da era dos bois para a dos tractores.
Lembro-me de alguns destes grandes heróis do Vale - a costela agrícola da Torre de Moncorvo (que nem só de ferro aqui viveu o Homem): o Sr. Júlio "Ferrador" (pai do Sr. Beto Castelo), com o seu velho tractor vermelho desbotado, o Sr. José Inácio, o Sr. Abel Vilela, …….. e o Sr. Joaquim dos Chibos (além de muitos outros lavradores e jornaleiros da Corredoura, que faziam esse trajecto quase diário para as courelas do vale, ao mesmo tempo rico e adverso). Temos ainda, graças a Deus que o mantenha (e que Ceres o abençoe), o Sr. Aníbal “Espanhol”, dono de uma ilha no Sabor e o último abencerragem destes lavradores da Ribeira.
Infelizmente, este lado “agrícola”, ancestral, de Torre de Moncorvo, está a acabar… E hoje, dia 16 de Maio, foi a enterrar, com o Sr. Joaquim, uma boa parte da alma da Vilariça que eu conheci, da Torre de Moncorvo profunda. Ficou dela, da sua vida, um pequeno mas eloquente testemunho: “Histórias da minha vida”, de que retiramos os excertos que se seguem, recomendando a sua leitura na íntegra. Uma escrita simples mas que condensa uma vida de lavrador honrado, de Homem de trabalho.
Chorando a sua morte, penitencio-me por não ter cumprido a promessa que lhe fiz de registar em vídeo a sua voz e a sua presença, declamando os seus versos junto dos pardieiros dos Chibos que lhe serviram de berço… Fica entretanto aqui uma foto de um momento muito bonito, em que nos leu alguns dos seus versos no Dia Mundial da Poesia, em 25.03.2005, no auditório do Museu do Ferro/Moncorvo. Tem a palavra o Senhor Joaquim Marcelino Martins:

Quinta dos Chibos

Oh, velha Quinta dos Chibos!
Estás toda derrubada
Tuas casas já velhinhas
Não podes ser habitada.

Lá nasci e me criei
Nesse velho casarão
Não tinha quartos nem sala
Amplo sem nenhuma divisão.

As janelas sem vidraças
Já podres do temporal
A porta não tinha chave
Mas não fazia mal.

Os terrenos “ladeirosos”
De cabeços e canadas
E nos grandes “fragaredos”
As terras eram cultivadas.

Tinha umas oliveirinhas
E um pequeno amendoal
Que não davam rendimento
Para contratar o pessoal.

Tinha bois e tinha vacas
Com que lavram as ladeiras
Para estarem preparadas
Para o tempo das sementeiras.

Às cinco da madrugada
Tínhamos que nos levantar
Para tratar dos bois
E irmos trabalhar.

Andávamos quase às escuras
Pouco se via ou nada
A candeia do azeite
Quase não alumiava.

No tempo das sementeiras
Era da escravidão
Não haveria mais nada
Mas comia-se bom pão.

Levava-se uma côdea no bolso
Para comer e andar
Em tempo de sementeiras
Não se podia parar.

Não havia hora certa
Mesmo a hora de jantar
Comer a côdea à pressa
Era comer e andar.

Era uma vida de amargura
No tempo da escravidão
Não haveria mais nada
Mas comia-se bom pão.

Havia sempre umas sardinhas
Para se “apeguilhar”
Que era muito boa e fresquinha
A sardinha de Ovar.

Havia umas mulheres
Que andavam a apregoar
Quem quer? Sardinha
Fresquinha de Ovar…

Joaquim Martins, Histórias da minha vida, Edição da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo, Abril de 2009, pág.18

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