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quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

A Vilariça e a Foz do Sabor, lembrando as "rebofas" de antigamente

2009 despediu-se chuvoso e com fortes ventanias, alagando os campos e o vale da Vilariça, embora ainda sem atingir a dimensão das grandes "rebofas" de outros tempos.
No seguimento do post anteiror, aqui ficam algumas imagens do Vale e da Foz do Sabor, captadas hoje ao fim da manhã por um nosso conterrâneo:

Vale da Vilariça, visto da estrada da Foz, junto ao troço do IP-2
Foz do Sabor - se estivéssemos junto ao mar, poder-se-ia cantar: "não há gaivotas em terra", mas aqui há barcos na margem.

O rio Sabor vai cheio - arco-íris sobre a "ilha do Espanhol".

A ponte da Foz ainda resiste emersa...

Na zona da praia da Foz, as águas parecem querer avançar... até ao Bar!
Fotos de Higino Tavares, a quem se agradece a cedência em exclusivo para "T.M. in blog"

Felgar - Silhades e o Sabor

Vai encorpado o Sabor. Galgou as margens e Silhades ficou mais perto. Coisas de velhos amigos que não podem estar um sem o outro. Farão uma passagem de ano juntos, como sempre fizeram.

Para memória futura.




Entretanto no tanque do Valdusso ( habitualmente seco no Verão)a água corre livre e abundante.

Sinal de ano bom no que toca a chuva, dizem os que já viram muitos Invernos.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Ninho de histórias

Parabéns, Isabel, por este ninho de histórias.

"O trigo dos pardais" - novo livro de Isabel Fidalgo Mateus

Saiu recentemente do prelo e em breve chegará às livrarias, o novo livro da nossa colega de Blogue, Doutora Isabel Maria Fidalgo Mateus, professora da Universidade de Liverpool.
Aqui ficam as imagens da capa e da contracapa, e respectivas badanas, onde se poderá saber mais sobre a autora e a sua obra (clicar sobre as imagens para as ampliar):



Quanto ao conteúdo deste livro, para nos aguçar o apetite, aqui fica uma sinopse:
"O livro O Trigo dos Pardais, de Isabel Maria Fidalgo Mateus, pretende mostrar, através dos seus 22 contos, geralmente curtos, como era o mundo da brincadeira de um punhado de crianças e jovens num ambiente de ruralidade (transmontana) afastado da influência directa dos grandes centros urbanos. Aqui, as brincadeiras surgiam ao sabor das estações, em plena natureza, os brinquedos construíam-se com o que a flora oferecia, também ao ritmo de cada época do ano, e os garotos brincavam em interacção com o reino mineral, animal e vegetal. Muitas vezes, o entretenimento advinha em simultâneo com o dever laboral que desde cedo era imputado à criança. As cinco mecas, jogo de forte tradição e muito popular entre meninas e meninos, tanto podia ser jogado no adro da escola durante o recreio, como no alto da serra a guardar o rebanho.
Porém, com alguns dos contos levanta-se o véu e despertam-se consciências para a evolução dos tempos e do aparecimento de outros brinquedos e formas diversas de morar. Os netos já não se divertem com os mesmos jogos dos avós ou, pelo menos, têm acesso a brinquedos confeccionados com outros materiais e de produção em série, como o testemunha o conto “O Baptizado da Judite” com as bonecas que vêm de França. Esta situação é-nos apresentada pela boneca-narradora Judite, originária do referido país e sentindo-se profundamente injustiçada pela marca do seu próprio nome.
Mas é na conciliação do modernidade com o tradicional que se soluciona o problema de Judite e dos outros brinquedos sofisticados, quando sua mãe, uma menina, a põe a ela e à sua irmã a dormir ao lado da mona de trapo, no seu leito, e a caixa dos brinquedos retoma o seu lugar debaixo da sua cama. Os contos “As Malvas “ e “A Coca” não são mais do que o apelo do regresso à elaboração do objecto de brincadeira pela própria criança. No epílogo do livro, intitulado “Sem Tempo”, recomeça-se, afinal, o ciclo que se tinha perdido, na memória do tempo e do senhor Toninho, após ter aparecido na Cidade o fazedor de brinquedos - o senhor Silveiro.
A temática deste livro de contos surge com o propósito de alertar os mais jovens para o dever de conservação do planeta Terra numa atitude pro-ecológica de respeito pelo meio ambiente, pela preservação do património natural da região e do país e, porque não, de recordar, aos menos jovens, os seus tempos de brincadeira. Pegando nestas duas gerações, avós e netos, a aprendizagem passa ainda pelo humano e pelo sócioeconómico. Cuidar do velho planeta implica fazer uso da matéria-prima que este oferece ao homem, sem que nenhum elemento se desperdice e onde tudo se transforme e recicle".
A não perder!!!
Nota: considerando a temática do livro "O trigo dos pardais", antes da sua leitura convirá dar uma olhada no seguinte blogue: http://florabrin.blogspot.com/

Panorama editorial

O mês de Dezembro que ora finda trouxe-nos também duas prendas natalícias, no que respeita ao panorama editorial: por um lado, o já "antigo" (sai há cerca de 13 anos, mas com intermitências) "Mendo Corvo", um jornal escolar feito por professores e alunos, e, por outro, o "Sabor do Ferro", no seu número O (zero), de cariz mais generalista.


Começando pelo "Mendo Corvo", há a assinalar que passou do nível da tiragem em fotocópias para a edição impressa e em formato de jornal a sério. Recortamos do Editorial estas palavras do Director do Agrupamento de Escolas de Torre de Moncorvo, professor António Alberto Areosa: "este jornal do agrupamento, fruto da participação colectiva dos alunos desde o Ensino Pré-escolar aos do Ensino Secundário, docentes, representantes dos pais e encarregados de educação e parceiros plenos de um projecto maior que pretende ilustrar as expectativas mais caras à direcção e à comunidade educativa, a saber, o sucesso escolar efectivo e real, particularmente dos nossos alunos, a realização plena de todas as suas capacidades, o desenhar de um perfil de cidadão conscientemente lúcido em relação à comunidade envolvente que não poderá delegar nos outros o papel socio-cultural e humano a si destinado: aprender para saber ser (...)."
Em primeira página é destacada a comemoração do bi-centenário do nascimento do Visconde de Vila Maior, que recentemente teve lugar na escola de seu nome, nesta vila (antigo ciclo preparatório). Outros títulos de capa são a comemoração do aniversário da Convenção dos Direitos da Criança, o Magusto de S. Martinho para os mais pequenos, a atribuição dos Prémios de Mérito e a Noite das Bruxas (Hallween) nas Escolas.
Os interessados em adquirir o jornal poderão contactar o Agrupamento de Escolas de Torre de Moncorvo (tel. 279 200 280).

O "Sabor do Ferro" é uma estreia que promete vir para ficar, como publicação mensal. Tendo como director João Girão e responsável gráfico José Girão, define-se no Editorial como "o jornal do concelho de Torre de Moncorvo", supra-partidário, tendo por objectivo dar a conhecer melhor realidade do nosso concelho. Espera-se ainda que esta seja, "para alguns, a oportunidade de verem os seus anseios e lamentos expostos e afirmados", concluindo de forma jocosa que "para poucos, mas decerto variados, [o jornal será também] um entretém de faladura, que a nossa praça, à falta de motivos, precisa sempre de combustível para animar os passeios e o frio deste inverno que se aproxima".
Em primeira página é destacado em título: "Protocolo entre Câmara e EDP dá ambulância aos bombeiros"; "Leopoldina visita as escolas do concelho" e "GNR promove acção de sensibilização". Nas interiores, refira-se um excerto do nosso Blogue, dedicado à "Apresentação do livro 'A parábola dos Três Anéis' de Júlia Guarda Ribeiro" (pág. 5), uma "Mensagem de Natal" subscrita pelo Presidente da Câmara de Moncorvo, Engº. Aires Ferreira, "O meu relógio de bolso", crónica do Dr. Carlos Girão, "Por linhas tortas", pelo Dr. João Girão, "Curiosidade ou talvez não", por Leandro Vale; "Há pessoas que nos marcam", uma evocação da memória da Drª Lurdes Girão, pelo Dr. Nuno Gonçalves; "Pontapé na bola" (secção desportiva sobre Futsal); Mensagens de Natal pelos Padres Vicente e João de Barros; "De músico em música" (página musical) pelo Dr. Rui Rodrigues; "Cantinho do chefe Osvaldo" (Gastronomia), por Osvaldo Ferreira; "Balanço mensal de GNR" referente ao mês de Novembro; e o restante espaço dedicado a Passatempos, entrevistas de rua, publicidade diversa e um Cartoon ("O castelo de D. Mendo") assinado pelo Arqtº Paulo Afecto.
Sendo o 1º. número de distribuição gratuita, os pedidos podem ser efectuados pelos seguintes contactos: sabordoferro@gmail.com; tlm. 916623803, 932861077 ou 918680416.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Fruta da época


Fotografados no dia 25 de Dezembro de 2009, nos arredores de Moncorvo.

Um Bom Ano de 2010.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Uma noite de Natal moncorvense, há 109 anos...

Falámos aqui há dias na "missa do galo" e "fogueiras do galo", nas noites do Natal tradicional. Todavia havia ainda outras "tradições" que felizmente se perderam. E por falar em galos, naturalmente havia quem levasse a coisa a preceito e provocasse outros "galos"... na cabeça do parceiro! Era o tempo dos famosos "índios" da Corredoura, que vinham a atacar os "cowboys" da vila, e... nada menos que na noite de Natal!!!
Mas, passemos a palavra ao impagável Francisco Justiniano de Castro (com a sua ortografia muito peculiar):

"Dia 24 de Dezembro [de 1900], à noite, na ocasião em que se intrava para a missa do gallo veio uma malta da corredoura armada de paus e foices dando vivas à rapaziada da corredoura... também andarão pelas ruas a dar os mesmos vivas feitos pimpões e no adro quando estava o abbade a dar o menino deos nacido a beijar ó altar armarão um grande barulho que athe ouve tiros de revolve, e querião matar o António da Assumpção Albardeiro que o admnistrador e o filho e o polícia nº. 8 virão-se parvos para os acomodar que athe quizerão bater ó administrador e depois na praça tornou áver outra desordem, e também tiros de revolve, os fridos que aparecerão forão o filho mais velho de Luis Patuleia que lhe abrirão a cabeça com uma arrochada, e com o jaquetão e a faixa furada por uma bala; e o filho do Sebastiãozinho Pastor da cordoura também com um tiro no braço esquerdo, e o filho mais novo do Luis Patuleia também com a cabeça rachada, o snr. Administrador mandou alevantar um auto de investigação mas as testemunhas que depuzerão nem uma viu quem deu os tiros, nem quem bateu".

in: "Moncorvo, fim de século. Caderneta de Lembranças". Transcrição dum manuscrito e notas do Doutor Águedo de Oliveira" - Edição dos "Amigos de Bragança", 1975.

Iluminações natalícias

Ainda em tempo, aqui ficam alguns aspectos da iluminação natalícia deste ano, na nossa mui nobre villa.
Aspecto de uma "árvore de Natal" feita de luzes, no antigo Rossio da vila, actual largo General Claudino (também conhecido noutros tempos por "praça das regateiras"),
Pela rua das Flores, engalanada de luzes, a caminho da praça central - a beleza nocturna do centro histórico neste período do ano.

Chafariz filipino com edifício do Tribunal ao fundo, na praça Francisco Meireles.

Rua Constantino Rei dos Floristas, outra das vias de acesso à praça, brilhando com estrelas de luz...
Esta iluminação deverá manter-se até ao dia de Reis.
Torre de Moncorvo - uma proposta de visita, também nesta época do ano!

sábado, 26 de dezembro de 2009

Felgar - "Fogueira do Galo" II

Complementando a reportagem anterior do "pucareiro" Tó Manel, aqui ficam mais algumas imagens (nocturnas), de uma das "fogueiras do galo" do Felgar. Nas fotos, trata-se da fogueira do largo Santa Cruz; a outra é feita no largo da igreja. O normal era fazer-se uma só fogueira, por cada povo, mas talvez o Felgar pretenda agora compensar as terras onde já não se fazem estas fogueiras natalícias, como acontece na vila de Moncorvo, onde antigamente se acendiam na Corredoura.

As "fogueiras do galo" seriam assim denominadas porque se acendiam após a "missa do galo" (pela meia-noite do dia de nascimento de Jesus). O canto do galo teria o significado de anúncio desse Nascimento, para os cristãos o acontecimento fundador de uma nova era, prenunciada pelos Profetas. Todavia, sabemos hoje que o Cristianismo ajustou o seu calendário religioso a uma religiosidade de fundo muito mais antiga, a que chamou de pagã. Assim, no tempo do paganismo já se acenderiam fogueiras por alturas do solstício de Inverno - pretendem alguns que para "chamar o sol" em agonia, no dia da noite mais longa do ano - tal como se faziam no solstício do Verão: as fogueiras do S. João.
Estamos perante reminiscências de fogos rituais, sagrados, que tinham por função reunir as tribos num contexto de celebração, organizando o Tempo e honrando as potestades intimamente associadas à Natureza, da qual dependia o calendário agrícola. Ou seja, em última instância, estamos perante ritos que mergulham as suas raízes na noite dos tempos, quiçá no Neolítico Final/início da Idade dos Metais, quando se erigiram os primeiros monumentos neolíticos que teriam o seu expoente máximo no grande "cromelech" de Stonehenge (Inglaterra).
Por todo o Trás-os-Montes se faziam estas "fogueiras do galo", na noite de Natal, e, mandava a tradição que fossem os rapazes da aldeia (tal como os jovens guerreiros da tribo) a carregar a lenha pelos diversos cantos da freguesia, utilizando para isso carros de bois, que pediam por empréstimo, mas sem utilizarem os bois, ou seja, eram puxados pela rapaziada, num misto de sacrifício, mas também de força comunitária, aplicando-se o princípio de que "a união faz a força". No fundo estava em jogo a solidariedade e a unidade da comunidade; depois era o garbo, o treino da robustez física que se expressava noutras terras através da luta da "galhofa" (agora só pelas terras de Bragança), o alarde da capacidade de fazer uma fogueira maior do que a do povo vizinho. Os carros de bois chegavam a galgar paredes, carregados com possantes troncos de castanheiros, tal era a força bruta dos "jovens guerreiros" que para ali canalizavam as suas energias, forma de combater também o frio!
Depois era o momento da confraternização, noite dentro, tendo como mágico elixir anti-frio, além do calor da fogueira (exterior), o garrafão do vinho, para aquecer as almas (o interior). Claro que tudo isto só terá resistido à ortodoxia católica, sob o argumento de que a fogueira era para aquecer o Deus-Menino.
Sobre o Menino-Deus poderíamos associá-lo ao novo ano que nasce com o solstício do Inverno, num arco de transição que vai de 22-25 até ao dia de Reis (6 de Janeiro). Por isso, também mandava a tradição que a fogueira se aguentasse acesa até aos Reis.
Analisando as fotografias, vê-se bem que a tradição, no Felgar, ainda é o que era, se bem que os gigantescos troncos de castanheiro e outras lenhas, venham agora de atrelado puxado por tractores, e que certos desencontros de opinião tenham desembocado em duas fogueiras. Afora isso há que felicitar os felgarenses por manterem acesa a chama das nossas tradições ancestrais.
Texto e Fotos: N.Campos
(Nota: clicar sobre as fotos para as ampliar)

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Felgar - Fogueira do Galo

No dia 24 de Dezembro cumpriu-se a tradição: acenderam a fogueira, aqueceram o Menino.

No dia 25 encontram-se em torno da fogueira os residentes e aqueles que "fazem pela vida" noutras paragens. Confraternizam, matam saudades.

Mas a cada ano que passa nota-se e sente-se que são cada vez menos os que regressam nas quadras festivas.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Poema para uma noite de Natal

Os meninos sabem poucas palavras.
Por exemplo sabem que palavra é mãe
Porque mãe é uma palavra doce.
Sabem amor porque amor é uma palavra redonda.
Talvez saibam também
Que palavra é dor quando esfolam um joelho
E só porque na verdade lhes dói o joelho.
Sabem que palavra é cantiga, corrida, dança,
Que palavra é lágrima. E riso. E boca. E olhos. E mãos.
E barco.
E mar.
E árvore. E monte.
Flor é uma palavra de que os meninos gostam
Porque é bonita.

Os meninos sabem poucas palavras.
E entendem os contos de poucas palavras. Simples.
E também muitos poemas de palavras simples.

Os meninos não sabem porém o que habita certas palavras
Como dúvida, fome, partida, injustiça, revolta, guerra.
Como ignorância.
Como nada.
Não sabem o que uma palavra pode ser para além da palavra.
Não sabem por exemplo que esta noite tem dentro uma palavra de luz.

Natal de 2009

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Na tal rua

Na tal rua
Cobertor de jornais

Na tal praça
Num corpo de cristais

Na tal calçada
Calcada por pinhais

Na tal berma
Taberna de tantos ais

Na tal sorte
De um afago

Gémeas as palavras


Vasconcelos do Al, Na tal rua, in Pequeno Cancioneiro de Natal, CMVR, Vila Real , 2000

Mensagem sem mensagem e sem Natal


Há um ano escrevi este texto, sem perceber que, ao relê-lo, mantinha alguma actualidade. Como eu embirro com o Natal, esta quadra sinistra como costuma dizer um amigo meu, entre o consumismo selvagem e a solidariedade hipócrita, deu-me para a recordação e algumas reflexões. Aqui vão, datadas como é óbvio, com as necessárias Boas-Festas, pensando no que é bom e nas festas no sentido mais amplo do convívio ao afecto.

«Agora, que entrei definitivamente no grupo etário daqueles que não têm nome quando são atropelados, os sexagenários dos bares que vão morrendo, desencantados com o futuro, que já relêem mais do que lêem, avessos aos acordos ortográficos, mal sabemos o que havemos de fazer com o nosso passado. Torná-lo futuro? Ou dizermos que a história é a memória do futuro?São tantas as presenças como os dias que me faltam. As tardes longínquas e melancólicas com o Assis Pacheco no Fim de Século e no Hotel Britânia, as noites longas e sem cansaço, tão só de nostalgia transmontana, de uma ruralidade que não perdíamos, com o Afonso Praça, esse sólido mais líquido que me foi dado conhecer, esse odre de ternura, que passou de mansinho pela vida como se tivesse sempre a pedir desculpa pelo talento que tinha. As noites, longas, muito longas, em que o álcool corria como um regato de afectos contidos, mas sem fim, com o Cardoso Pires, entre o colérico, o iconoclasta, mas o melhor contador de histórias dos bas-fonds desta cidade ( leia-se Lisboa) que tanto amava. O Cardoso Pires, era de ódios e amores. E tinha muito mau perder, como ele próprio confessava.E depois o Luís, o Sttau Monteiro, o mais admirável e generoso mentiroso que me foi dado conhecer. Escrevia à minha frente a Guidinha, numa Hermes (máquina de escrever) pesada, a correr, que tinha que ir a algum lado. Efabulador, grande cozinheiro na sua casa de Campo de Ourique, inveterado bebedor de gin, homem de muitos encantos, de um charme muito britânico, de uma ironia corrosiva, era, porém, tansbordante nos afectos para os seus amigos. Morreu ainda as últimas rosas não tinham florido.Hoje, proclamam-se os best-sellers de aeroporto, lidos enquanto se mascam pastilhas; os jornais são economicamente obedientes, reverentes e pouco venerandos; a mediocridade, mas com boas maneiras, é um bom princípio para o sucesso. O país é apenas o reflexo do país, não a sua realidade. Utiliza-se o espelho como se fosse a verdadeira face. A imagem do rosto secundariza o rosto. Querem-nos impôr uma clandestinidade ética, tornar a norma da virtude como um desvio. Um perigoso desvio que deve ser tratado ou combatido.Querem-nos sem ideologia, assépticos, flor artifical, sem cheiro, mesmo do suor, sem tabaco ( se no céu não se pode fumar, eu não quero ir para o céu, escreveu Mark Twain), tão limpos que querem transformar a cidade num imenso hospital com multidões saudáveis mas proibidas de transgredir.Querem proibir a transgressão; são os inquisidores do interdito; os que definem a liberdade dos outros, como se a liberdade não fosse um valor individual; que tentam pôr um chip na nossa alma e controlar os nossos sonhos, e isto tudo para que vivamos mais anos a criar mais problemas à Segurança Social.Querem-nos clonados, sejamos novos ou velhos, querem-nos tão iguazinhos a ponto de um dia conseguirem que nós não saibamos quem somos. Apenas eles sabem, nos seus arquivos, o que nós fomos.Já cá não estarei por certo, quando algumas liberdades e indignações utópicas não passarem de mero estudo académico para teses de doutoramento, tão bem comportadas que até Júlio Dantas vai ser considerado, a par de José Rodrigues dos Santos, um génio injustamente ignorado por esses libertinos cuja memória é proibido recordar...»

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

NATAL da MINHA TERRA II - A Tradição ainda é o que era!

Sábado de manhã, rompemos em direcção a Londres. O sol, a reflectir o brilho dos raios na natureza alva de neve, animava as três longas horas da caminhada. As ovelhas pastavam animosamente, para seu espanto e nosso, a verdura branca. Via-se algum corvo a voar contra o ar lavado do céu azul-claro e a luminosidade do peito avermelhado de um ou outro “robin” a faiscar por ente os galhos repletos de neve.

Antes de chegarmos ao destino, parámos numa dessas estações de serviço onde se ingere depressa a habitual “fast food”. O sinal da diferença foi suscitado pela simpática Assistant Manager do Costa Café. Se não fosse pela língua que se falava e pela mercadoria que se vendia, dir-se-ia que nos encontrávamos nalgum café de bairro português: o docinho para a menina, o sorriso e a conversa e a familiaridade. Abalámos dali mais satisfeitos.

Pouco tempo depois, estacionávamos num bairro simpático da imensa cidade londrina. Abriram-nos a porta daquele pequeno “reino maravilhoso” do “Little Portugal” duas senhoras portuguesas. Indicaram-nos, muito conscienciosas do seu papel de anfitriãs, onde poderíamos comprar o melhor bacalhau e o polvo congelado: o estabelecimento Lisboa (ver 1ª. foto). Mas antes de nos prepararmos para a ceia do dia 24 do Natal, a noite de consoada, detivemo-nos do nosso lado direito da rua e entrámos na Biblioteca. A South Lambeth Library tem uma pequena secção de livros em língua portuguesa para adultos e crianças que foram doados por uma instituição bancária. Por isso, também não me pareceu mal lá deixar para a comunidade portuguesa Outros Contos da Montanha e a promessa de voltar, possivelmente em Janeiro, para trazer O Trigo dos Pardais e os apresentar aos leitores de lá (ver 3ª. foto).

Mais tarde, entrámos efectivamente em “Lisboa”. Lisboa antiga ou, talvez, qualquer outro estabelecimento comercial que ainda podemos encontrar (poderemos por muito tempo?) em algumas aldeias ou pequenas vilas de Portugal. A entrada fazia-se por uma porta que conduzia, de imediato, à pastelaria. No interior do estabelecimento, a porta lateral esquerda abria a montanha onde se albergava de tudo: estatuetas de santos, do Menino e da Virgem, nas prateleiras superiores, produtos tradicionais como, por exemplo, pegas, toalhas de mesa e aventais com o galo bordado ou desenhado, amontoados a um dos cantos do balcão, música portuguesa, em expositores modernos de café, e tantos outros artigos importados directamente de Portugal. Abeirámo-nos do balcão e dissemos que desejávamos bacalhau. Então, o Senhor do estabelecimento deslocou-se connosco a outro compartimento, bem lá no fundo da casa comercial. Como convinha a um Rei, o bacalhau tinha os seus próprios aposentos (ver a 2ª foto). Havia do miúdo e do graúdo. Comprámos dos dois. Vindos das bandas do fundo, havia agora que escolher o polvo. Da arca congeladora oceânica avistava-se o verde e o vermelho da bandeira nacional que, afixada numa grande extensão do tecto, concedia ao molusco uma cor mais viva e intensa. O tamanho do mapa de Portugal ao lado do mapa-mundo parecia, afinal, dizer que Portugal é imenso! E é! Prolongou-se em outros estabelecimentos comerciais daquela rua, onde ainda comprámos uma tronchuda, e, por uma mais uma boa meia hora bem medida, sentimo-nos pela primeira vez em Casa.

Estávamos em Portugal na cosmopolita Londres, por certo!


Porém, o mais importante foi saber que trouxemos o NATAL PORTUGUÊS para nossa casa!... FELIZ NATAL para todos!


Texto e Fotos de Isabel Maria F. Mateus
Legenda das fotos (de cima para baixo):
1 - A autora junto do estabelecimento comercial "Lisboa", algures em Londres.
2 - O "fiel amigo", o bacalhau, não podia faltar no "Lisboa".
3 - Fachada da South Lambeth Library, onde a autora foi oferecer os seus "Contos".
4 - A filhota Giulia sugando um "Compal" (product of Portugal, pois claro!)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Tomé Rodrigues Sobral (1759-1829)



Completam-se hoje 250 anos do nascimento do ilustre químico Tomé Rodrigues Sobral, nascido em Felgueiras, sendo uma das personalidades moncorvenses com maior projecção científica nacional, a par de Júlio Máximo de Oliveira Pimentel, seu predecessor na Universidade de Coimbra.


"Químico, mais conhecido como o “mestre da pólvora” e também como o “Chaptal português”, natural de Felgueiras, Moncorvo, nasceu a 21 de Dezembro de 1759, filho de João Rodrigues e Isabel Pires. Matriculou-se na Universidade de Coimbra, em Matemática e Filosofia, a 29 de Outubro de 1779. Foi ordenado presbítero na Arquidiocese de Braga em 1782, e concluiu o curso na Faculdade de Matemática e Filosofia em 26 de Junho de 1783. Foi demonstrador de História Natural a partir de Julho de 1986, substituto extraordinário para as cadeiras de Física em Outubro de 1786 e em Julho de 1788, História Natural em Julho de 1787 e Química em Julho de 1789. Sucedeu a Vandelli na direcção do Laboratório Químico em Janeiro de 1791, e foi nomeado Lente de Prima, proprietário da cadeira de Química e Metalurgia , ficando encarregado de elaborar o compêndio da cadeira, previsto nos Estatutos da Reforma da Universidade de Coimbra, de 1772, e que Vandelli nunca tinha elaborado.
Foi sócio da
Academia das Ciências de Lisboa, Cavaleiro professo da Ordem de Cristo e deputado às Cortes Constituintes de 1821. Em 24 de Maio de 1828 foi nomeado vice-reitor da Universidade de Coimbra, não tendo chegado a aceitar o cargo por doença, morrendo um ano depois, em Setembro de 1829. (...)"

Mais informações em:
http://cvc.instituto-camoes.pt/ciencia/p17.html (fonte do texto em aspas e da imagem)
http://www.museudaciencia.pt/index.php?iAction=Coleccoes&iArea=3&iId=50
http://invasoesfrancesas.blogspot.com/2007/02/tom-rodrigues-sobral-1759-1829.html
http://dererummundi.blogspot.com/2008/07/o-batalho-acadmico-de-1808.html

Exposição "Presé-pios" patente no Museu do Ferro & da Região de Moncorvo

O Artista junto da sua Obra

Foi inaugurada no passado sábado a exposição de autoria de João Pinto V. Costa, intitulada "Presé.pios". Esta mostra é composta por uma colecção de 16 peças de artesanato, utilizando vulgares pinhas de pinheiros, as quais são laboriosamente esculpidas pelo autor (por vezes com ajuda dos esquilos, uma vez que procura pinhas já roídas por estes simpáticos habitantes da floresta), no sentido de lhes dar a forma de pássaros. Estes são depois colocados nos mais diversos contextos - pombais, cabanais, ou simples ramos de árvore - mas sempre em conjunção familiar: casal + passarito (filho).
Momento da inauguração da exposição, na montra do Museu

Por isso, desiluda-se quem espere encontrar aqui as figurações da Nossa Senhora, do S. José e do Menino Jesus. A Sagrada Família aqui é substituída por "sagradas famílias" de aves, uma ideia que decerto agradaria a S. Francisco de Assis (o autor do primeiro presépio), dado o seu amor à Natureza e aos diversos seres que a compõem, e a quem se referia como sendo nossos "irmãos", já que somos todos filhos do mesmo Criador.


João Pinto Vieira Costa, explicando o seu trabalho

Segundo João Pinto V. Costa, esta foi uma maneira de homenagear a Floresta (recorrendo às pinhas e ramos de árvore) e a Natureza em geral, em que os pássaros se incluem, mas também o Património Cultural, uma vez que há referência a alguns elementos etnográficos e arqueológicos nos contextos em que os pássaros são colocados. Aí aparecem, por exemplo, os pombais trasmontanos, o dólmen de S. Martinho de Anta (alusão a Miguel Torga), um marmoiral medieval que existe na sua terra (Alpendurada), os simples cabanais. Num tempo marcado pelo consumismo, que tem o seu apogeu na época natalícia, esta foi uma forma de utilizar elementos naturais (madeira, pinhas, casca de pinheiro, pedras de xisto, etc) que há (de borla) pelos nossos campos, para produzir estas esculturas altamente decorativas. Claro que há ali muito tempo gasto, mas, como diz o nosso povo, "o tempo dá-o Deus de graça", o que, neste caso, não será bem assim, pois João Pinto V. Costa é professor, tem também a sua vida familiar e, de vez em quando, é ainda colaborador deste nosso blogue.

A exposição na montra do Museu, tal como pode ser vista durante a noite

Da parte do Museu do Ferro, foi referido que esta é uma exposição original, no que toca à sua colocação, pois a maior parte da colecção foi exposta na montra do museu (virada para o Largo do Dr. Balbino Rego), ficando assim patente 24 horas por dia. Todas as pessoas que passarem por este local serão "obrigadas" a ver a exposição. No entanto, será melhor entrarem (dentro do horário do museu), solicitarem o folheto explicativo e aproveitarem para visitarem a exposição permanente dedicada à temática do Ferro, ou ainda a exposição de Arqueologia e Património do concelho, que se encontra no Auditório.
Fica a proposta para esta quadra natalícia.

Quanto a esta exposição pode ainda ver, no Blogue "Flora de Brincadeiras":

http://florabrin.blogspot.com/2009/12/prese-pios-inauguracao-da-exposicao.html

http://florabrin.blogspot.com/2009/12/exposicao-de-prese-pios.html (neste link pode visionar uma excelente apresentação feita também pelo autor)

E do nosso correspondente do outro lado do Douro, de "tierras salmantinas", aqui fica também o registo em língua castelhana:

http://labodegadelasolana.blogspot.com/2009/12/presepios-los-otros-belenes.html

Texto e Fotos: N.Campos

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Presépios de antigamente...

Fotografia de um Presépio feito pelo Sr. Júlio "Sacristão", no interior da igreja matriz de Moncorvo (foto dos anos 70?, Arquivo particular - reprod. do Arquivo do PARM)

A palavra "Presépio" vem do latim: "praesepium", que significa "manjedoura dos animais", ou, em sentido lato, o "estábulo" onde se encontra a manjedoura. Tudo isto porque, segundo a tradição, o Menino Jesus nasceu num estábulo, nos arredores de Belém, quando os seus pais, tiveram de deslocar a essa cidade da província romana da Judeia, a fim de se serem recenceados, como todos os judeus, em cumprimento de um édito do imperador Augusto.
Esse nascimento, que muitos séculos depois viria a ser considerado como o ano 1 da Era Cristã, na verdade terá acontecido antes, entre o ano 7 e o ano 4 antes de Cristo!
Quanto à representação desse momento tão especial e transcendente para os Cristãos, utilizando figurinhas esculpidas, de uma forma tridimensional, parece que tal só ocorreu em 1223, quando S. Francisco de Assis, imbuído de grande piedade cristã e fervor missionário, resolveu recriar a situação desse Nascimento, numa gruta dos arredores da cidade de Greccio (Itália), onde pregava. As figuras eram de barro, à escala natural, e a ideia era pedagógica: explicar aos camponeses da região (e atraí-los) as circunstâncias e as personagens do Acontecimento. Dado o sucesso, anualmente, por ocasião do Natal, as igrejas e catedrais, primeiro de Itália e depois do resto da Cristandade, passaram a fazer presépios nesta altura, certamente por iniciativa dos franciscanos, costume que foi seguido por reis e nobres nos seus palácios. Ver: W http://pt.wikipedia.org/wiki/Pres%C3%A9pio
O período áureo dos presépios de barro foi o Barroco (séc. XVIII), havendo barristas notáveis que fizeram presépios.

Passando para Torre de Moncorvo, dada a existência, nesta vila, desde o séc. XVI, de um convento franciscano, é bem provável que este costume se tenha introduzido, pelo menos, desde essa época (não conhecemos registos escritos tão antigos). Contudo, em tempos mais recentes, há quem bem se lembre dos presépios feitos pelo sr. Júlio Dias, mais conhecido pelo Sr. Júlio Sacristão (que era também o guarda da igreja, subvencionado pela Direcção Geral dos Monumentos Nacionais, depois IPPC), como bem nos recordou há dias o nosso amigo Carlos Ricardo (Camané), dizendo que até vinham pessoas de fora de Moncorvo para ver os famosos presépios do sr. Júlio. Neste "post" divulgamos uma foto que nos foi oferecida pelo Sr. Júlio, há mais de uma dúzia de anos, pelo que, apesar de desconhecermos a data, deverá remontar aos anos 70. Fica aqui o apelo a outras pessoas que possuam fotografias de presépios do S. Júlio, que no-las façam chegar que aqui as divulgaremos.
Aproveitamos para informar que os Presépios se continuam a fazer no interior da igreja, entre as escadas da porta do lado do alpendre e o altar do Santíssimo. Havia (e há) a cerimónia de se beijar o Menino, após a Missa do Galo.
Esta é uma boa ocasião para os moncorvenses recordarem e reviverem estas tradições e visitarem a nossa Igreja Matriz.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Exposição "Presé-pios"

É inaugurada no próximo dia 19 de Dezembro (sábado), pelas 15;30h, no Museu do Ferro & da Região de Moncorvo, uma exposição intitulada "Presé-pios", de autoria de João Pinto Vieira Costa, professor de Português na Escola Camilo Castelo Branco (Vila Real) e artista nas horas vagas. Trata-se de uma maneira original de ver o Presépio, rompendo com os cânones convencionais.
Embora natural de Alpendurada (Marco de Canaveses), o Dr. João Pinto V. Costa é um amigo de Moncorvo, concelho que bem conhece por via do seu casamento com uma moncorvense de Sequeiros.
Esta mostra ficará patente até ao dia 6 de Janeiro.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Hoje o dia amanheceu com neve...

Torre de Moncorvo amanheceu polvilhada de neve. A fina poalha de "açúcar" sobre os telhados e quintais da vila, um pouco mais espessa na cumeada da serra...
Entretanto o nevoeiro baixou sobre o casario esbranquiçado, recriando o reino mágico de Avalon...
As ruas húmidas, com os beirais pingando o degelo...
Enquanto em Copenhaga se discute o "Aquecimento Global", a tradição ainda é o que era na serra do Roborêdo. Caminho nevado no alto da Portela de Felgueiras, parecendo um glaciar...

Vertente da serra na zona de Lamelas.

Pelos caminhos da serra - descendo para o Calhoal.
Os blocos de hematite (minério de ferro do Roboredo), dormindo sob a coberta de neve, à espera de quem o acorde... (talvez um dia...)

A povoação do "Carvalhal City", nas faldas da serra, terra fria por excelência, aqui tiritando sob um fino véu de neblina...

Fotos de N.Campos

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

HISTÓRIAS POLÍTICAS


A Senhora Dona Ponte do Pocinho



Foi em 15 de Novembro de 1903 que, em cerimónia solene, se procedeu ao lançamento da primeira pedra na obra de construção da Ponte do Pocinho sobre o rio Douro.


Para os leitores menos familiarizados com a geografia e a história do Nordeste Trasmontano, digamos que esta foi, sem dúvida, a obra mais sonhada durante muitos séculos. A este respeito bastará referir um documento do rei D. Fernando que, em meio das guerras com Castela, dizia mais ou menos isto:


- É mais importante o domínio sobre a Barca do Pocinho e o Castelo de Moncorvo do que sobre as praças e castelos de Chaves, Bragança, Vimioso, Miranda, Mogadouro, Freixo de Espada à Cinta… É que se perdermos estas praças, podemos novamente passar o rio Douro e reconquistá-las. Se perdermos o domínio sobre a Barca do Pocinho, ainda que aquelas praças todas estejam do nosso lado, acabaremos por perdê-las, mais cedo ou mais tarde, uma vez que as não podemos socorrer nem ajudar quando forem atacadas pelos nossos inimigos. E isto – acrescenta o mesmo documento – porque o porto é o mais chão e seguro que existe em todo o percurso do Douro, desde a cidade do Porto até à cidade fronteiriça de Miranda.


A provar a justeza desta estratégia político-militar, aí estão as crónicas sobre as muitas batalhas que, ao longo dos séculos, em todas as guerras, se desenrolaram no lugar do Pocinho. É que este era o ponto central das comunicações do Nordeste Transmontano para as Beiras e o sul do País.


Do ponto de vista da actividade económica e das viagens, acontecia o mesmo. Pela Barca do Pocinho passavam o rio Douro não apenas os homens, mas também os animais e as mercadorias. Existem fotografias mostrando a Barca carregada com cavalos, ovelhas, caixotes de toda a natureza.


Imaginem, pois, o que significava construir ali uma ponte que substituía o barco e a pesada portagem que se pagava, abrindo uma ligação rodo-ferroviária entre a Beira e o Nordeste Trasmontano.


Não admira, assim, que, naquele dia 15 de Novembro de 1903, acorressem a Torre de Moncorvo e ao Pocinho importantes delegações chefiadas pelas mais ilustres personalidades vindas de todos os cantos no Nordeste. Os de Miranda, Vimioso e Mogadouro vieram no dia anterior e trouxeram à frente, a banda de música de Carviçais. A delegação de Macedo de Cavaleiros chegou também de véspera e era chefiada pelo dr. Alberto Charula. Os de Carrazeda trouxeram a sua banda de música. E, para além das filarmónicas de Carviçais e Carrazeda, apresentaram-se ainda as de Moncorvo, Foz Côa e de Infantaria 6, do Porto.


Escusado será dizer que, nesse dia, os dois partidos políticos do rotativismo (Lazarões e Penicheiros) enterraram o machado de guerra e, nos discursos, houve elogios mútuos dizendo-se que “os progressistas iniciaram os projectos e os regeneradores iniciaram as obras”. A responsabilidade da construção da ponte foi da Companhia Industrial Portuguesa que já tinha construído outras estruturas semelhantes sobre o Douro e seus afluentes.


Roma e Pavia não se fizeram num dia e… passados quatro meses, lá estavam já os penicheiros de Moncorvo a publicar este irónico artigo no seu jornal:


- Recebemos ultimamente uma carta da Srª D. Ponte do Pocinho que em Novembro último partiu para a China, em viagem de recreio, pormenorizando-nos a sua feliz viagem e agradecendo as amabilidades que aqui lhe dirigimos por ocasião da partida. Espera demorar-se alguns dias em Pequim, ir visitar o José de Azevedo para lhe provar a sua utilidade naquele País e pedir-lhe que não deixe estragar a unha do dedo polegar, distinção muito apreciada naquele império. Tenciona visitar todo o Oriente e apresentar as suas felicitações ao governo de Tóquio, oferecer-lhe os seus serviços, etc., etc. Estamos a ver que é capaz de ainda ir substituir o almirante Togo!


Naturalmente que os lazarões davam a resposta no seu semanário local e naturalmente que os penicheiros voltavam à carga, meses depois, em vésperas de mais uma campanha eleitoral. Faziam-no, porém, com humor e isto é muito salutar nestas coisas da política. Vejam outra crónica referente ao assunto:


- Um telegrama recebido há dias nesta vila, transmitido pela agência Veritates, deu-nos a lamentável notícia de ter perecido no combate de Kumilatuff, a Srª D. Ponte do Pocinho, comandante em chefe da 9ª divisão japonesa que, conforme havíamos noticiado, foi-lhe entregue o comando desta divisão pelo governo de Tóquio. Por enquanto, há falta de pormenores, mas é de supor que o triste acontecimento fosse devido a uma granada. A notícia, como é de prever, espalhou-se pela vila com grande rapidez, sendo a consternação geral pela simpática heroína. O Grazina velho cofiou os dedos pelas barbas e murmurou: - São coisas de Moncorvo! O Candoso trinca o bigode e fica indeciso, com grande estupefacção. O Margarido, meio incrédulo, pede informações ao seu amigo Sousa Cavalheiro. O Artur Certa pergunta se já há informações mais exactas. O sr. Monteiro, secretário, bate três pancadas com a bengala no solo e estabelece comparações com um caso na azinhaga da sua aldeia. E o Boaventura Pinheiro e o Braz Saraiva, sem dizerem nada, parecem sentir não a poder fotografar, o que acreditaria muito o seu athelier. Consta-nos que o dr. Areosa já escreveu aos herdeiros a pedir-lhes procuração, a fim de tratar do processo gratuitamente, sem atender ao sr. Questâncio, o melhor advogado da actualidade. No Canto do Inferno há grande pânico e a matraca suspendeu-se em sinal de luto Adeus, ponte; que a história te seja grata!


António Júlio Andrade

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

O NATAL DA MINHA TERRA - por Isabel Mateus

Neve no Roborêdo, 2008 - ao fundo desta cumeada, embora não se vendo, ficam as Quintas da Granja ou de Felgueiras; em segundo plano o cume do Citoque (foto do Engº. Afonso Calheiros) > Clicar sobre a Foto, para a Ampliar
Sem Tempo,

Muito de mansinho,

Outro Natal chega,

E o Menino (re)nasce

Na perfeita harmonia

Da minha Terra:

O luar,

Quase de Janeiro,

A fria aragem

Do vento cieiro,

A fogueira do galo

E os cânticos ao Bendito,

Na eira,

A família à volta do brasido,

Onde o melhor cavaco é consumido,

As tronchudas, as batatas, o bacalhau e o polvo

À conversa

Na panela de ferro à espera dos milhos…

Porém, é do chão térreo

Da minha casa,

na manjedoira intacta

e sem o bafejo eterno do vivo,

que a minha ausência recebe

O grito frio do salvador Menino

E a plangente alegria de Maria.

_______

P.S. Devo uma explicação. Ou melhor, um esclarecimento. O que aqui vedes são apenas os meus sentimentos atribulados de emigrante que vê aproximar a quadra natalícia a passo largo e sente o desejo irrefreável de se meter à estrada, de pôr as cavacas na fogueira, de aninhar o Menino Jesus ao colo… E mais ainda vos digo: mesmo que a decisão da partida há muito já esteja adiada, este peregrino tem sempre a mala pronta para o destino da (sua) Viagem!...

Isabel Maria Fidalgo Mateus

sábado, 12 de dezembro de 2009

Moncorvenses recentemente premiados

1 – Arquitecto João Carlos Santos, enquanto coordenador da equipa responsável pela recuperação do Mosteiro de Tibães (Braga), arrecadou o prémio da Bienal Miami Beach atribuído pelo Instituto Americano de Arquitectos + Sociedade Americana de Arquitectos Paisagistas + Federação Pan-Americana de Associações de Arquitectos, destinado a galardoar os melhores projectos de recuperação arquitectónica a nível mundial. O projecto de Tibães, liderado pelo nosso conterrâneo, recebeu recentemente a medalha de ouro deste Prémio. Os trabalhos decorrem há cerca de 20 anos, com um custo global de 15 milhões de euros, em que se adoptaram soluções arquitectónicas arrojadas, articulando o novo com o antigo, sendo o claustro do refeitório do mosteiro uma das zonas intervencionadas que mais impressionou o júri norte-americano, conforme noticiou o Jornal de Notícias (edição de 9.12.2009, pág. 15).

Varanda do claustro do refeitório de Tibães (foto de Pedro Vila-Chã, in J.N., 9.12.2009)

João Carlos Santos nasceu em Torre de Moncorvo em 1962, tendo aqui feito o ensino secundário. Cursou Arquitectura na Universidade do Porto, tendo estagiado no atelier do famoso arquitecto Siza Vieira. Entrou para os quadros do IPPAR nos anos 90, onde tem desenvolvido projectos de recuperação e reabilitação em imóveis afectos ao Ministério da Cultura, nomeadamente para o remate da fachada poente do Palácio Nacional da Ajuda (sede do M.C.). Interveio também no projecto de remodelação do Museu do Abade de Baçal (Bragança), nos anos 90. Foi também o responsável pelo projecto da Biblioteca Municipal de Torre de Moncorvo (inicialmente com o Arqtº. A. Menéres) localizada num antigo solar de que aproveitou algumas estruturas. Actualmente – ainda de acordo com o J.N. – “coordena o projecto de Recuperação e Reabilitação do Mercado do Bolhão, no Porto”.

Sobre o prémio atribuído agora ao projecto de Tibães, ver: http://jn.sapo.pt/paginainicial/pais/concelho.aspx?Distrito=Braga&Concelho=Braga&Option=Interior&content_id=1442101

http://aeiou.visao.pt/arquitectura-recuperacao-mosteiro-de-tibaes-em-braga-teve-medalha-ouro-na-bienal-miami-beach=f539535

2 – Dr. José Eduardo Firmino Ricardo, vai receber no próximo dia 14 de Dezembro, o Prémio Douro /Ensaio, instituído pela Direcção Regional da Cultura do Norte, pelo seu trabalho: "Domus Mea est Orbis Meus: Campos Monteiro (1876-1933)", que corresponde basicamente à tese de mestrado do autor, recentemente defendida na UTAD e que foi aprovada com louvor. De igual modo, foi também por unanimidade que o júri do prémio Douro/Ensaio decidiu atribuir este prémio a José Ricardo, “tendo em conta os critérios de originalidade/contributo inovador, aptidão científica e qualidade literária”, aspectos que, ainda no entender do júri, se distinguiram, “pelo seu nível ensaístico, dos restantes trabalhos a concurso”. O prémio vai ser entregue pela nova Directora Regional da Cultura do Norte, Arquitecta Paula Silva, na próxima segunda-feira (14.12.2009), pelas 15;00h, na sede do Museu do Douro, em Peso da Régua.

Obra do escritor Campos Monteiro (1876-1933), foi objecto do trabalho de José Ricardo

José Ricardo é natural de Torre de Moncorvo, tendo estudado na Escola Secundária Dr. Ramiro Salgado, antes de se licenciar em Línguas e Literaturas Modernas e ter feito a tese de mestrado pela UTAD. É professor de Português em Vila Real , colaborador assíduo de “A voz de Trás-os-Montes” e comentador atento de assuntos de actualidade, com intervenção no jornal “Público”, na secção “cartas ao director”, bem como através do seu blogue: http://rescivitas.blogspot.com/

A tese de mestrado de José Ricardo, sobre Campos Monteiro, está já disponível na Biblioteca Municipal de Torre de Moncorvo.

(Agradecemos a seu irmão Carlos Manuel, “Camané” para os amigos, a informação disponibilizada).

Aqui ficam os nossos Parabéns a estes dois nossos conterrâneos pelo trabalho que têm realizado, cada um na sua área, sendo o reconhecimento nacional e internacional que obtiveram um motivo de grande orgulho para todos os moncorvenses.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Revista "Campos Monteiro", nº 4 - lançamento no Porto

(Clicar sobre a imagem para Ampliar)

Morreu o Arnaldo

Numa das passadas quinta-feiras, dia três de Dezembro, morreu no Porto, o Arnaldo Gonçalves, ou o Arnaldo Electricista como era conhecido em todas as aldeias do concelho. Foi uma figura de Moncorvo que marcou várias gerações ( e a mim particular e intensamente) pela sua generosidade, pelo chiste, pela reinvinção do pícaro, pela exploração de situações caricatas, pela criatividade única nas "partidas que pregava".
Estava já há bastante tempo acamado com a lucidez intermitente. Num dos seus últimos gestos de generosidade e desprendimento doou o corpo, para estudo, à Faculdade de Medicina do Porto (tem outro nome, creio que Ciências Médicas de Abel Salazar).
O Arnaldo era uma das últimas lendas de uma certa crítica social em que Moncorvo é um espaço privilegiado. Com ele perdem-se, pelo menos, duas décadas de memória, a não ser na lembrança dos seus amigos, nos quais com muita honra, me incluo.
Das últimas palavras que disse ao padre antes de morrer, consta, segundo me disse o seu cunhado, este desejo, ele que até era de Vilarelhos: "Ainda quero ir a Moncorvo"

Coisas de Moncorvo! III

Intervenções do deputado Ferreira Pontes

A legislatura de 1848 a 1851 terá sido uma das mais polémicas da nossa história parlamentar. Nela se discutiram a aprovaram, por exemplo, as bases da organização administrativa territorial que ainda hoje permanece baseada nos distritos.

A província transmontana era então representada por 7 deputados, entre eles pontificando João Pedro d´Almeida Pessanha (de Mirandela) e José Marcelino Sá Vargas (de Bragança).

A grande figura transmontana naquele Parlamento foi, no entanto, um deputado eleito pelo círculo de Braga, natural da aldeia de Peredo dos Castelhanos, concelho de Torre de Moncorvo – o cónego Joaquim Rodrigues Ferreira Pontes.

As actas das sessões são testemunho eloquente da sua “garra” parlamentar. Algumas vezes ele ficou sozinho e viu a generalidade dos deputados votar em bloco contra os seus projectos de lei. Vamos apresentar apenas dois exemplos, como prova dessa “garra” e da sua clarividência política.

Debatia-se, em determinada altura, a extinção de alguns concelhos (no actual distrito de Bragança ainda ficaram 17), a reorganização das comarcas e a criação dos distritos, bem como a nova lei eleitoral e a consequente definição dos círculos, assim como um novo plano rodoviário nacional. Em momentos diferentes, naturalmente e tratando projectos de lei diversos,

Em todos estes debates participou o deputado bracarense Ferreira Pontes, enquanto os outros ilustres deputados transmontanos guardavam silêncio. Em todos os debates, a sua linha de actuação foi idêntica e pode resumir-se assim:

1º Para que querem criar os distritos? Nos termos da proposta governamental, não servem para nada. Se querem retalhar as províncias, isso é muito mau. Se querem apenas mudar-lhe o nome, então deixem-nos com o distrito de Trás-os-Montes e estabeleçam a sua sede em Mirandela, que é o ponto mais central.

2º Como é que podem sobreviver tantos concelhos? Tenhamos a coragem de extinguir todos os que não têm verdadeira razão de ser e que não geram receitas para sustentar as despesas.

3º Porque não há-de a divisão judicial (as comarcas) coincidir com a divisão administrativa (os concelhos)? E porque não há-de o mapa eleitoral (círculos) coincidir com o mapa administrativo e judicial? Não ficavam os deputados mais ligados aos eleitores, mais conhecedores dos problemas das regiões?

4º Postos estes considerandos, entendia o deputado Ferreira Pontes que, na área do actual distrito de Bragança, deveriam ficar apenas 6 concelhos, que corresponderiam a igual número de comarcas judiciais e de círculos eleitorais.

Passados mais de 150 anos, digam lá os adeptos transmontanos da Regionalização se encontram melhor fórmula do que a criação de uma região de Trás-os-Montes e Alto Douro com a capital em Mirandela!

E digam lá os politicólogos transmontanos se não puxaríamos melhor as orelhas ao deputado eleito pelo nosso círculo mais pequeno? Digam lá se a divisão judicial de hoje é muito diferente? E digam lá se é razoável a existência de concelhos com menos de 5000 habitantes?

Um outro debate parlamentar em que Ferreira Pontes foi vencido (curiosamente contra ele votaram todos os deputados transmontanos) ilustra bem o seu conhecimento profundo das realidades locais. Veja-se:

A Câmara de Lisboa queixou-se ao Parlamento que as suas posturas não eram cumpridas e as multas não eram pagas, pedindo aos deputados que legislassem da seguinte forma:

- Quando alguma postura fosse violada, devia chamar-se o guarda de serviço e o escrivão e este lavrar p respectivo auto, que seria também assinado por duas testemunhas. O auto seria remetido ao juiz que avaliaria o processo e fixaria a respectiva coima.

Os deputados anuíram logo à proposta da câmara de Lisboa e transformaram-na em lei geral para ser aplicada em todo o País. Ferreira Pontes bem se esforçou por alterar a lei, propondo aditamentos, alterações, etc. Nada conseguiu, apesar de explicar tão terra-a-terra o descrédito com que seria recebida entre as populações rurais e a impossibilidade prática de aplicar semelhante lei. Dizia ele mais ou menos o seguinte:

1º Na minha região, como em tantas outras, existem matas concelhias, pastos comuns e folhas dos pães (terras onde a cultura dos cereais e o pastoreio de gados se fazem em rotação anual). A maior parte das posturas municipais respeitam à regulamentação do uso dessas matas, desses pastos e dessa folhas, para além da defesa da propriedade privada. A grande maioria das multas acontece exactamente pela transgressão dessas posturas.

2º Imaginem agora que uma cabra ou um burro se escapam e comem umas couves ou uma oliveira. O proprietário tem de ir chamar o guarda e o escrivão da justiça à sede do concelho que dista (na minha aldeia) mais de 20 quilómetros, para lavrarem o auto. Depois terá de perder um ou dois dias, ele e as testemunhas para a organização do processo e julgamento. No fim… as custas do guarda, do escrivão, das testemunhas, do tribunal e do juiz… serão bem maiores do que o tostão fixado para a coima na postura municipal, ou até superiores ao valor do próprio animal que causou o prejuízo.

3º Esta lei não é apenas odiosa para o povo, mas é também lesiva dos interesses do Estádio que verá os seus tribunais atulharem-se de processos e obrigará à multiplicação dos escrivães da justiça.

Diga-se que nem assim Ferreira Pontes conseguiu impedir a aprovação de tal lei, apesar de ter utilizado vários recursos, como o de apelar ao testemunho dos seus colegas transmontanos (ficaram mudos) e o de propor que, em tais julgamentos, os juízes não recebessem qualquer remuneração extra. Não adiantou ainda a sua proposta para retardar em 15 dias a discussão e votação da lei, a fim de poderem ser consultadas as restantes câmaras municipais. A maioria foi inflexível.

Não será de estranhar que esta legislatura tenha terminado com um golpe militar e revolução política que passou à história com o nome de Regeneração.

António Júlio Andrade

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Abel Gomes

No seguimento do "post" anterior, com excertos da "Caderneta de Lembranças", em que se mencionava o nome de Abel Gomes, o nosso Amigo e colaborador Vasdoal, enviou-me estas fotos que tirou no murete do alpendre da capela de N. Senhora dos Prazeres, ou da Teixeira (junto a Sequeiros, Açoreira), já que a dita capela foi comprada por aquele africanista, nos inícios do séc. XX. Um seu descendente (talvez o filho), gravou na pedra a inscrição: AGJ, que quer dizer "Abel Gomes Júnior":
De mais difícil interpretação é a outra inscrição: "CP" (serão as iniciais da esposa?):

Mas quem foi Abel Adriano de Almeida Gomes? - a esta pergunta responde-nos o seu amigo de infância Abade J. A. Tavares (1868-1935), numa monografia que escreveu sobre o ermitério de N. Senhora da Teixeira, oferecida precisamente a Abel Gomes. Aí se diz que foi "um espírito liberal e culto", tendo sido "o primeiro da vila de Moncorvo que estreou o registo civil no baptismo de seu filho [este registo foi instituído aquando da instauração da República]". E acrescenta: "este último facto foi simplesmente um capricho que muito arreliou o digníssimo e austero Abade de Moncorvo, Pe. Francisco Tavares".
Conferindo com o que se disse na Caderneta de Lembranças, Abel Gomes residiu na África Oriental, na Companhia de Pesca de Pérolas do Bazaruto, devendo ter amealhado aí algum pecúlio que lhe permitiria comprar a capela da Teixeira e o terreno em redor, e, nessa ocasião, parece ter constado que a iria demolir. Esta suposição popular talvez se relacionasse com o suposto "jacobinismo" do comprador, comprovado com a pirraça da estreia do republicano Registo Civil. Defende-o, porém o Abade Tavares: "Nada mais injusto!" - concluindo que o seu amigo, agora mais maduro e reflectido na sua orientação - " hoje, sem abdicar totalmente dos seus princípios, é um espírito reflectido e conservador e além disso, um devotado amante das nossas velhas e preciosas antiguidades". Como que a testemunhá-lo diz J. A. Tavares que, em recente visita ao seu amigo (a monografia deve ter sido escrita nos anos 20 do séc. XX), reparou que tinha um quadro religioso de muito valor pendurado à cabeceira e, nesse mesmo ano [que ano seria?], mandara "celebrar missa na sua capela, no dia de Nossa Senhora dos Prazeres" sendo ele próprio, Abade Tavares, o celebrante.
Refere algumas obras de conservação que Abel Gomes fez então na capela, talvez nos anos 20, nomeadamente no adro. Todavia, deve ter sido nesta altura que se demoliu a cela do ermitão, que ficava pegada à capela.
Da nossa parte, aproveitamos para, uma vez mais, lançar o alerta para a necessidade imperiosa de se recuperarem as valiosas pinturas murais deste pequeno santuário. Sabemos que da parte do actual proprietário, Dr. César Abel Gomes (residente no Porto), há toda a abertura, mas, dada a complexidade e elevado custo do restauro, terá de haver, necessariamente, apoio do Estado e/ou de fundos comunitários, até porque o imóvel está declarado "de interesse público", desde 1977.
Bibliografia:
Tavares, J. A., Monografia de N. S. da Teixeira (com introdução e notas do Pe. Rebelo), ed. da Associação de Santo Cristo, 1985.
Cavalheiro, Eugénio, Os frescos da Srª. da Teixeira. Ed. João Azevedo, Mirandela, 2000.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Aconteceu em Moncorvo, há mais de um século...

«1890 Dezembro, 9 - foiçe daqui o snr. Doutor Trigo.

1899 Dezembro, 9 - saiu desta villa para o Luabo, África Oriental, o Abel Adriano Gomes.

1900, Dia 9 de Dezembro, o filho Raule [Raúl] do Viçente Sugão deu sem querer um tiro de revolve na irman.»

In: Caderneta de Lembranças, de Francisco Justiniano de Castro (transcrição de Águedo de Oliveira, edição dos Amigos de Bragança, 1975).

Nota 1: foi respeitada a ortografia do autor, F.Justiniano de Castro, tal como foi transcrita por Águedo de Oliveira.

Nota 2: o Abel Gomes aqui mencionado, trabalhou (ou dirigiu?) em Moçambique, uma companhia de extração de pérolas. Regressou posteriormente a Moncorvo, onde comprou o terreno e capela de N. Srª. da Teixeira, que ainda hoje se mantém na posse da família.

Nota 3: quanto à alcunha (ou apelido?) de Sugões, note-se que aparece também um Sugão nos Ares da Minha Serra, de Campos Monteiro. Trata-se de uma família antiga de Moncorvo, de extracto popular, de que ainda há descendentes.

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