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domingo, 30 de novembro de 2008

Cartão de Boas Festas

Como sou alérgico a cartões, não quero deixar, contudo, de dar as Boas-Festas a todos os autores do blogue e aos seus frequentadores, assíduos ou circunstanciais que sejam, pelo que resolvi enviar estes toscos versos antes que o Natal chegue e nos consumamos em lugares comuns. Espero que não levem a mal.

Quando o Natal chegar...

Quando o Natal chegar
liberta o pirilampo e liberta a Luz
arruma a ternura e arruma a casa.
E areja o sótão da tua infância.
Quando o Natal chegar
dá música aos surdos
e palavra aos mudos
afaga laranjas nas mãos frias
e figos secos ao luar
e amêndoas de Agosto a quem chegar
e limões, e ácidos limões, em teu lugar.


Quando o Natal chegar
à beira do rio olha a outra margem
cheia de sombras, pedras e perdas
e abre os braços, colunas e pontes
e começa a tocar a alma qual piano
na translúcida mágoa de nada tocar.


Quando o Natal chegar
Jesus já passou sem passar
na barca do tempo, entre margens
sem rio, mas à beira de naufragar.
Quando o Natal chegar
não leves granadas para casa
nem bombas para qualquer lugar.
Caça pombas ao anoitecer, morcegos
da tristeza, olhares cegos, vazios e frios.


Quando o Natal chegar
olha os filhos como se só então nascessem
e os dias fossem cristais
partindo grãos de romã,
tão sensíveis ao ouvido
mas sem pena nem sentido.


Quando o Natal chegar
adormece à beira dos violinos
com a loucura dos deuses
e a tristeza de Mozart.
Que os deuses devem estar loucos
porque a lareira está-se a apagar.


Quando o Natal chegar
cuida das prendas e ofertas
aos que nunca mais vão chegar.
Entre pedras e perdas
guarda o amor de guardar
que a face da mãe ondeia
e o pai adormece a lacrimejar.

Quando o Natal chegar
a nordeste de tudo, mais vale
encher o saco de Nada
e percorrer a noite, até ao abrigo
dos campos da quimera calcinada.
Com o saco cheio de Nada
visita a Índia e o Afeganistão.
Toca às portas da Palestina
e canta dor às portas da prisão.


Quando o Natal chegar
enche o saco de Nada.
Pode ser que por tanto Nada
algo te queiram dar:
um filho, um sorriso, talvez luar.


Quando o Natal chegar
talvez amor e amar.
Dádiva por dádiva,
aceita, é de aceitar.


Rogério Rodrigues

4 comentários:

N. disse...

um belo "cartão" de Natal, sem dúvida mais profundo do que os lacónicos "boas festas e feliz ano Novo". Algo melancólico, talvez, mas a mais não nos convidam os sinais dos tempos... Mas, dizem, Natal e Ano Novo são tempo de Esperança também, apesar do (ou "et pour cause de") cinzentismo dos dias...
Obrigado e, da minha parte também, e desde já, Boas Festas ao pessoal todo (bloggers e visitantes).

Anónimo disse...

Leio os seus poemas no blog .Dizem-me que os oferece aos amigos e os dispersa, como quem semeia a lanço, em abril na vilariça .E nós ,que somos só leitores,como fazemos para ter acesso ?Vamos ao rebusco?Esperamos....que a Dra. julia Biló diga;agora o apresentador sou eu,o Rogério está no seu lugar,na cadeira de autor

angel disse...

Hola amigos,en España ya sabeis que la navidad está muy materializada,y ha perdido todo sentimiento tanto religioso como social.
Yo sigo quedandome en sueños con ese natal de Miguel Torga de 1950,en que termina con:
Fiado en el calendario
o homem nem perguntou
se Deus era necessário...
e Deus não representou.

Creo que cada día es mas necesario.
Un abrazo a todos.Angel

Anónimo disse...

Natal

Hoje é dia de Natal.
O jornal fala dos pobres
em letras grandes e pretas,
traz versos e historietas
e desenhos bonitinhos,
e traz retratos também
dos bodos, bodos e bodos,
em casa de gente bem.

Hoje é dia de Natal.

- Mas quando será de todos?

Autor: Sidónio Muralha

Saudações

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