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quinta-feira, 3 de julho de 2008

Ser ou estar

Um dos comentadores do blog "À descoberta de Torre de Moncorvo" fez questão em afirmar que, da sua geração, será o único a residir em Moncorvo. Ainda que seja uma afirmação categórica, e não estatisticamente comprovada (haverá gente da sua geração, que é a minha, que se manteve na terra, embora num registo não académico e, porventura, honradamente proletário), não deixa de ser motivo de reflexão.
Com efeito, na esteira de Kierkgaard, em conceito mais tarde desenvolvido por Eduardo Lourenço, eu nunca saí do lugar onde tantas e tantas vezes regresso. Todas as viagens que faço é para um lugar de que sou, embora não seja um lugar onde estou.
O problema de ser e estar tem originado reflexões pertinentes, nomeadamente na filosofia alemã de Heidegger.
Mesmo em termos linguísticos o ser e o estar só são distintos no português, no castelhano e creio também no italiano. Quanto ao francês e ao inglês, être e to be são a palavra única para ser e estar. O mesmo acontece no alemão.
Já me ia afastando do que me provocou este post : eu sou de Moncorvo, embora não esteja em Moncorvo.
Gostaria, após este pequeno e discutível comentário, lembrar o excerto de uma intervenção do historiador e grande medievalista José Mattoso ao receber o Prémio Latino (um prémio de grande prestígio) no ano passado. Escreve José Mattoso: "Muitas vezes me apeteceu dizer, como o profeta Elias quando iniciou a sua caminhada no deserto e, cansado da sua luta contra a idolatria, pedia a Deus a morte: " Já basta, Senhor, pois não sou melhor do que os meus pais" (1 Reis,19.4)
Também nós, quando recordamos as esperanças dos anos 60, e as comparamos com a multiplicação da actual violência e da injustiça, perguntamos para que valeram os nossos esforços. Mas, se, olharmos à nossa volta, nos sentirmos irmãos dos atormentados pelo desejo da verdade, irmãos dos desesperados pelas suas próprias contradições ou inseguranças, e formos capazes de descobrir, nascidos, não se sabe como, num mundo sombrio, os que persistem em cultivar a infinita variedade de formas que revestem o amor, a justiça, a esperança, a beleza, a alegria, a paz; se aprendermos a ver, com os que sabem olhar através da espessa camada da vulgaridade quotidiana, a maravilha do que é justo e simples, deixamos de lamentar a frustração das esperanças".

Parecendo que nada tem a ver com o blogue, este excerto tem tudo a ver com a descoberta de Moncorvo, ou seja, com a descoberta de nós próprios através de um espaço tão real quanto simbólico. Libertos da "vulgaridade quotidiana", cultivemos a essência, residentes interiores na nossa descoberta, simultânea da nossa procura.

3 comentários:

N. disse...

caro Rogério,
Também li o comentário referido e, penso, o que seu autor (aliás identificado) pretendeu dizer foi que ele fez uma opção, a de viver/residir e trabalhar em Torre de Moncorvo, subentendendo-se que outros da sua geração debandaram daqui para fora. Ora isto, quanto a mim, introduz uma outra questão que é a do fenómeno da desertificação humana do interior, que, sabemo-lo bem, tem duas razões principais: a) a ausência de expectativas de emprego por parte da gente jovem, já que as ambicionadas ocupações nos ramos do terciário aqui não abundam, e o sector primário e secundário estão como se sabe, resultando daí que uma opção pela agricultura, mesmo mecanizada (e agora com o preço do gasóleo agrícola!) parece ser um esforço inglório, além de ser pouco cativante para a juventude, por ser algo socialmente desconsiderado; b) o piscar dos "néons" das grandes urbes, que atraem fatalmente essa mesma juventude para os mundos onde se "passa tudo" por oposição ao sítio "onde não se passa nada" e onde a pressão social da cuscuvilhice torna o anonimato da urbe altamente sedutor. - Penso que o nosso conterrâneo procurava alardear o seu carácter de "resistente", sobretudo em face destes últimos. Todavia, há que não esquecer que muitos dos outros até gostariam de continuar a viver aqui, mesmo ganhando menos, por também gostarem disto. Só que nem a todos é dada essa possibilidade, infelizmente! Como é que se pode inverter esse ciclo? Porque a "urbanização" (eu digo "urbanóidização") é um fenómeno global, receio bem que não se consiga nos próximos tempos... Pelo que já é muito se conseguirmos ir mantendo a população que está, e procurando estancar o máximo possível o êxodo. Como? a única via possível terá que passar pelo agro-turismo (procurando apostar nos produtos-base tradicionais: vinho, azeite, frutos secos e pouco mais) e a floresta, associada à valorização do património, onde caberão (infelizmente) as ruínas das aldeias, cujo fim à vista parece iminente. Pode ser que o "mercado da nostalgia" seja também um dos "produtos" essenciais do interior, quando Portugal fôr só um eixo de Lisboa ao Porto, com um apêndice para Guimarães-Braga-Galiza e a colónia inglesa e alemã dos Algarves...
É aqui que entra este "blog", pelo menos na minha conceptualização, já que, à partida, isto nasceu de geração espontânea, através de uma conversa com o amigo Aníbal Gonçalves e de uma visita dele ao Museu do Ferro. Mas espero que no dia 19 se possa elaborar melhor um suporte teórico (uma "theoria", no sentido filosófico, a partir da "praxis" já existente). Mas, adianto já a minha opinião - a meu ver, o blog procura falar a 3 níveis de destinatários:
a) O público local, levando-os a amar e a estimar e valorizar o que temos, e que tantas vezes nos passa ao lado porque não reparamos, ou seja, procura suscitar o gosto de aqui viver, conhecendo os encantos do que temos, quiçá contrariando a tal pulsão de evasão de alguns;
b) Os moncorvenses da Diáspora, os tais que infelizmente tiveram de partir, por opção ou por não terem opção para ficarem. E todos sabemos como gostamos de receber notícias, neste caso, imagens e referências da "santa terrinha" do "rincão sagrado", de tudo isso que tem a ver com a palavra "saudade" - desta forma, o blog procura levar uns pedacinhos de Torre de Moncorvo aos que estão longe (quem diz Moncorvo diz também do resto da região: Vila Flor, Carrazeda, Mogadouro, etc, através dos links, assim como links de instituições e freguesias, numa espeécie de união de família);
c) Os "outros", os de fora, os que se calhar nunca ouviram falar de Torre de Moncorvo, mas a quem nós podemos reenviar o endereço do blog (e através dele de outros sites e blogs), para potenciais visitantes: ou seja, uma estratégia de captação turística, no quadro da "aldeia global"; daí a abundância de imagens, com fotos excelentes dos nossos colaboradores, forma de dizer; venham visitar-nos!!!
E nesta estratégia, como já foi referido, procurámos não ser só nós, virados para o umbigo, mas tirando partido do conceito do experimentado blogger Aníbal Gonçalves (basta só ver o score de visitas aos blogs de sua inteira responsabilidade: À descoberta de Vila Flor, idem Carrazeda!), procura-se um encadeamento regional que tem a lógica de um percurso: se a entrada fôr por Carrazeda > segue-se Vila Flor > T. Moncorvo > Freixo E. C. > e rota da "posta": Mogadouro > Miranda do Douro!... Ou ao contrário, para quem venha de Espanha. Ou seja, as terras de entre-Sabor-e-Douro + Vila Flor/Carrazeda. O próprio Aníbal (que ele me perdoe o desvendar da sua vida privada) é um exemplo dessa rota: nasceu no concelho de Carrazeda, casou no de Mogadouro, leccionou em Torre de Moncorvo, e presentemente está em Vila Flor. Um dos filhos nasceu no nosso concelho. Por isso, voltando ao "ser" é um Transmontano na plenitude, como também o são os de adopção. E todos somos precisos e necessários, acabando com aquele "racismo" estúpido "dos de gema" por oposição "aos de fora". Aí faz todo o sentido o discurso humanista do Prof. Mattoso, que o Rogério citou. E, voltando a ele, faz sentido o "ser" (= identidade) que remete para as origens, neste caso, o nosso rincão sagrado, por oposição ao "não ser" mais característicos dos "não-lugares" (no sentido de M. Augé), que são as urbes, com as suas catedrais do consumo de que os Mac Donnalds são os ex-libris. Ainda que alguns para aí tenham preferido ir (ou que fossem obrigados ao "exílio"), é importante reestabelecer as ligações, suscitando-lhes este reencontro consigo mesmos. É isto que me anima a participar nesta "coisa".
Aonde me levou o "post" do Rogério!!!
Abraço e até breve!
Nelson

João disse...

Ora, mas que título de blog mais sugestivo. Aonde vos levou o "À Descoberta de Moncorvo": a descobrir um Moncorvense, que até nem é de cá (e falo de mim, pelos vistos por oposição a demais convivas do blog), mas está cá.
Agradeço as sábias palavras e fica a rectificação: Realmente, não deveria ter referido geração, mas sim "criação". E da boa...
E se ao meu fado foi permitido ser cantado em tom maior, não foi com muita facilidade. Tive que ajustar bem a voz, e cantar num tom menos confortável, para, embora não seja, possa estar. E o estar aqui implica todas as agruras por que passamos, não os de cá, mas os que cá estão. E humildemente levamos, porque há outros como eu, o nome da Bila mais longe, de dentro para fora.
Espero bem que o português-português se mantenha, para quem quem seja, seja, quem é, seja, quem está está, e quem não está, não está! E embora a conjugação no gerúndio exista, o estando não seja nem esteja usual nesta Língua.

Vou tentar perceber se foi o discurso, se foi o pretenso desrespeito (nunca intencional) pelo proletariado não académico, ou ainda, se foi pelo meu erro de semântica.
Resta-me pedir humildes desculpas por tão efusiva participação.

N. disse...

Caro João, pela minha parte (de modesto colaborador) falo: o que queremos são "efusivas participações"! E que não haja "proletariados académicos" porque também não há aqui ninguém com veleidades intelectuais. Somos um grupo de transmontanos e moncorvenses (adoptivos ou não, isso não importa), a querer construir um local de convívio virtual (um blog é isso), em torno da nossa região, mostrando os seus encantos, lembrando as suas tradições e personalidades (ou até personagens que não foram "personalidades", como é o caso do "Lindo Menino" agora lembrado no último post do Rogério) e dando a conhecer tudo isto a quem não nos conhece.
Quanto ao "quem está", aos que vão "estando" e aos que "não estão", isso parece-nos de somenos, porque o nosso objectivo é que uns continuem "a estar", outros, continuem "estando" (nas férias, em espírito ou quando possam), e os que "não estão" (por opção ou não), possam vir "a estar", no futuro. E se motivássemos alguns moncorvenses a regressarem às origens, a investirem aqui, ou até virem para cá gozar a sua reforma? (já há alguns que o fizeram e ainda bem!) Talvez assim lográssemos repovoar estas terras, pelo menos por mais uns tempos... Quanto a nós a desertificação humana do interior é o grande problema (ainda hoje o Presidente da República o foi dizer ao Alentejo, só que não lhe ouvimos soluções...); essa é a nossa preocupação, bem como a perda das memórias que isso arrasta. Pouco ou nada pode fazer um modesto blog contra isso, mas que seja um repositório dessas memórias, um traço de união, e, porque não, também com algumas divergências, pois é da discussão que nasce a Luz, para citar Werner Heisemberg. Por isso é desejável que o pessoal faça os seus comentários (sempre com respeito pela opinião dos outros), já que a ideia é fomentar um pequeno forum de discussão.
Abraço e continua a participar!
Nelson

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