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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Entrudo no Felgar - a dança satírica

Dança do Entrudo (ou dança satírica) do Felgar, talvez nos inícios dos anos 70 (foto gentilmente cedida por Agripino Paredes, a quem agradecemos) 
Realizou-se na passada terça-feira de Carnaval, a famosa Dança Satírica, ou dança do Entrudo do Felgar.
O Padre Joaquim Manuel Rebelo chama-lhe a "Marcha Cantada Entrançada" (cf. A Terra trasmontano-duriense, ed. CMTM/ACTM, 1995, pág. 16), embora também utilize a palavra "Dança" para descrever o cortejo que se organiza depois em roda, a que se segue uma representação com diálogos entre as personagens, que integram um "velho" e uma "velha", quatro moços e quatro "moças" (rapazes fazendo o papel de raparigas).
O Prof. Santos Júnior, por seu lado, no estudo que dedicou a esta dança/representação entende que a mesma não se enquadra muito na designação de "marcha", preferindo a designação de "dança satírica" (Santos Júnior e A.M. Mourinho, Coreografia popular trasmontana, ed. SPAE, 1980).Todavia, é ainda este autor quem regista que os felgarenses também conheciam esta tradição como a "dança do amor à terra", devido ao facto de o cortejo, noutros tempos, levar uma tabuleta com esse escrito.
Em artigo publicado em 22.02.2002 no Mensageiro de Bragança, Mendes Corvo chama-lhe apenas "Dança do Entrudo" do Felgar. No entanto, convenhamos que (pelo menos nas representações mais recentes) também há pouco de "dança", tratando-se mais uma dramatização. No cartaz que este ano anunciava o evento, diz-se apenas: "Carnaval [porque não Entrudo?] do Felgar" e em subtítulo: "Teatro de rua". 
A origem desta representação, como a de tantas tradições, perde-se na bruma do tempo. Esteve meia perdida, mas, graças ao empenho e bairrismo da juventude do Felgar, a mesma tem vindo a ser felizmente retomada desde há uns anos a esta parte.

A "marcha" encaminha-se para mais uma representação, neste caso no largo por detrás da Junta de Freguesia.
Mas demos a palavra aos Mestres:
"Nesta 'Dança' entravam o Velho e a Velha, o Garoto e quatro ou cinco pares, todos rapazes, mas alguns vestidos de raparigas. Só podiam entrar na 'Dança' rapazes. / O texto da 'Dança' (...) era extremamente crítico, grosseiro, sobretudo em relação às raparigas que durante o ano tinham tido deslizes de ordem moral. Mas a Junta de Freguesia e o Pároco também não escapavam a estas críticas, ou então louvores" - digamos que, neste aspecto, a tradição se mantém, tendo principiado a dança de 2010 com as habituais farpas às raparigas, através dos seus referentes em presença (rapazes vestidos de raparigas, com trajos já mais em consonância com os da actualidade: mini-saias, adereços garridos e cabeleiras de madeixas coloridas).
E ele foi um "fartar-vilanagem" de "bocas" que só os felgarenses entenderão, os que estão dentro dos assuntos, e em que não faltaram os reparos aos namoros com o pessoal barrageiro que anda lá para o Sabor. Diga-se que, noutros tempos, ainda segundo o Padre Rebelo, as "bocas" iam para as que preferiam os mineiros da Ferrominas e Minacorvo, com quadras como esta: "Raparigas do Felgar, / casai com nós cá da terra, / não queirais malta de fora / que nós temos melhor tempéra".
Ah, mas o Padre, o Presidente da Junta, a Câmara, a Comissão de Festas, agora como no Passado, também não escaparam!
Tanto Santos Júnior como o Padre Rebelo se referem aos ensaios, sempre feitos no maior segredo, cerca de um mês antes do Entrudo. Iam por isso para lugares esconsos, fora do povo, "às vezes num velho e arredio palheiro" (Santos Jr., obra citada), tal como especifica o Pe. Rebelo: "fazia-se em lugares escuros - Ribeiro dos Moinhos, Abrolhal, Eirinha, etc.". Este ano sabemos que foi lá para as bandas do Sabor, julgamos que em Silhades.

Organiza-se a "roda", ora girando num sentido, ora noutro.
O texto, normalmente em verso, era da lavra de um mais inspirado criador, com acrescentos de outros membros do grupo. Há uma Entrada, mais ou menos estereotipada, tal como o Encerramento, e, de permeio os diálogos alusivos às situações que se procuram "denunciar", criticar, satirizar, ou, mais raramente louvar. O objectivo é suscitar a hilaridade da assistência (acabando por se rir, por vezes, até os próprios "actores"). O personagem do "Velho" (de chapéu, capote coçado, algo mal vestido, com uma bota de vinho a tiracolo, um pau ferrado na mão com um chocalho na ponta), com um apito comanda as operações: conduz o cortejo, organiza a roda e convoca os "visados(as)" por interpostas pessoas para o meio da roda, onde se dá uma espécie de "tribunal popular" (no fundo a "vox populi").
Entretanto há uma personagem castiça que é a "Velha", vestida de preto como manda a regra, agarrada a uma bengala, com um lenço e xaile e de tal forma curvada que não se lhe vê a cara (é a personagem-enigma). Pega normalmente nas deixas do "velho" e lança mais achas para a fogueira, com comentários acintosos. Ao contrário do que afirma Santos Júnior e em concordância com o nosso amigo Dr. Carlos Seixas (ilustre felgarense que também já escreveu sobre esta Dança), a "velha" não é uma figura apagada no contexto da representação. Talvez Santos Júnior assim o entendesse porque a Velha não toma propriamente a iniciativa e espera pelas acusações para depois "botar mais lenha" para a fogueira, como se costuma dizer.  Tal foi o caso, nesta última Dança, em que se mencionou a rotunda com uma fonte, que está em construção à entrada do Felgar: "- Deve ser pra lá buberem os buuurros!" - dizia a Velha. Muitas das vezes não se percebe bem o que que Velha diz, surgindo as suas falas mais como remoques relativamente ao que se disse.
O "Velho" toma posição no centro da roda, enquanto a "Velha" deambula pela periferia - às bocas, claro!
Refere Santos Júnior que se escolhiam para esta iniciativa "rapazes desembaraçados no falar e destemidos, isto é, capazes de aguentar qualquer reacção às críticas que vão fazer (...). A reacção de temperamentos assomadiços tem originado zaragatas, que os oito dançantes têm de aguentar e de levar a melhor", embora conclua: "a cordura, no entanto tem sido a norma" - tal como agora. O "escudo de protecção" era o tal "amor à terra", pelo que se entendiam estas críticas como construtivas, ou destinadas a "corrigir" desvios, comportamentos, ou então as iniciativas em relação às quais havia/há (alguma) discordância popular. E, em jeito de defesa, lá vinham (como continuam a vir) as desculpas finais, no momento do encerramento, como registou o Padre Rebelo: "Pois nós vamos terminar / Mas antes de acabar, / pedimos perdão de tudo. / E pedimos pelas Almas / que nos deiam muitas palmas / E passem bem o Entrudo".
Logo ao início as "raparigas" vão sendo convocadas ao centro da roda, para a descompustura, tipo "julgamento", por parte dos moços e do Velho.
Sobre o significado desta "dança", como escrevemos algures, ela insere-se no período do Carnaval (o Carnis Valerium = adeus à carne), tempo em que, como se sabe, desde a Antiguidade, tudo era permitido durante três dias de excessos, em que os prazeres da carne não eram só gastronómicos (o Santo Entrudo da carne gorda - a "tchicha do reco") e se alargavam ao mundano, à licenciosidade, à permissão social, tempo de inversão social (em que as mulheres se vestiam de homens e os homens de mulheres), numa espécie de mundo às avessas, em que as críticas e as partidas são mais ou menos toleradas ("é Carnaval, ninguém leva a mal"). No caso do Felgar, noutros tempos, não era só a Dança do Entrudo (ou dança satírica) que se fazia. Como anotou o Padre Rebelo, nas semanas próximas do Carnaval havia o costume das "cacadas": "pequenos grupos, quase sempre de jovens (rapazes e raparigas), disfarçados, pela calada da noite, quando as pessoas ceavam, abriam os postigos das portas daquelas casas cujos moradores não lhes eram simpáticos, ou ferviam em pouca água, e despejavam no átrio 'restos de louças partidas, pedras, cascos de bois, latas, pedaços de cântaros de barro e, por vezes, outras coisas menos delicadas. / O barulho provocado pelo lançamento destas 'coisas' era grande e os moradores revoltados vinham à porta, mas a escuridão da noite quase nunca lhes permitia conhecer e menos apanhar os prevaricadores". 

Continuam os "julgamentos", com muito povo ao redor e alguns fotógrafos e etnógrafos atentos.
Mas não era só: o Professor Adriano Vasco Rodrigues (que, como se sabe, casou no Felgar com a Srª. Drª. Maria da Assunção Carqueja), na monografia do Felgar publicada em parceria com sua esposa (em 2006), fala ainda do correr o Entrudo nesta aldeia, em que se punham dois rapazes nos extremos da povoação, proclamando, com auxílio de dois grandes búzios (para ampliarem a voz), o que se tinha passado ao longo do ano. Faziam ainda o Enterro do Entrudo, queimando um boneco de palha que previamente deitavam numa padiola, sendo levado numa espécie de funeral (tal como se fazia noutras aldeias trasmontanas). Quando o boneco de Entrudo era queimado, acabava o Carnaval e dava-se início ao período da Quaresma (Maria da Assunção Carqueja Rodrigues e Adriano Vasco Rodrigues, Felgar, 2006, pág. 172.).
Ui!, este é o momento em que os homens do povo atacam as instituições - nem Junta, nem Câmara, nem padre escapam!
Citando Mendes Corvo: "tal como nas antigas Festas dos Loucos medievais, cujas raízes se situam no período romano e, quiçá antes, o corpo social comprazia-se (ou avespinhava-se) nesta subversão, que seria como que uma manifestação do seu lado negro. O Carnaval corresponde, assim, a um momento de catarse colectiva, na transição do Inverno para a regeneração da Primavera que se aproxima. Um parto que não se faz sem a dor da Quaresma. / Função análoga à sátira carnavalesca do Felgar tinham as loas, colóquios, comédias, e, de certa forma, as serrações da Velha [sempre a Velha!...]. Para além do escapismo social, há nisto, por outro lado, uma associação cosmogónica decorrente dos ciclos do ano (expulsão do Inverno = Velho/Velha) e reordenação das forças do mundo [em que pontua a Juventude, não sendo por acaso que a Dança do Felgar é também um rito de iniciação da Juventude, com os seus desvarios, que os Velhos procuram corrigir e orientar, pela Crítica - o velho mundo e o mundo novo]. - São tudo velhas tradições que estiveram associadas a um modo de vida ancestral, hoje em vias de extinção. / Independentemente do fim de ciclo que deu sentido a estas manifestações, num tempo em que a televisão apareceu para exercer esse papel laudatório ou de pelourinho de uma sociedade mais alargada, urge preservar estas tradições como pergaminhos e penhor dos valores 'identitários' da 'aldeia real'."
Por isso faço minhas as palavras de M. Corvo, dando os meus parabéns à Juventude do Felgar, fazendo votos para que continuem e não deixem nunca morrer estas coisas - pelo Amor à Terra!
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Em tempo: para além dos textos citados, acrescente-se o excelente artigo de Carlos Seixas, intitulado "Felgar - As folias do Entrudo", in Terra Quente, 15.02.1998, que entretanto o autor nos entregou e a quem muito agradecemos. A par do trabalho de Santos Júnior é o registo mais completo que conhecemos sobre este costume felgarense. Porque não compilar estes estudos numa brochura? - fica o repto.
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Nota: pedimos as devidas desculpas pela extensão deste "post", mas julgamos que se impunha uma análise e uma interpretação um pouco mais alargada desta tradição, se bem que pessoal (fica aberta a discussão).

5 comentários:

Daniel de Sousa disse...

Parabéns ao Nelson por este magnífico post a propósito da Dança do Felgar. Ficamos muito elucidados sobre o seu contexto, quer cultural, quer social.Pessoalmente acho espantoso que ( e reporto-me a um passado de quase restrita endogamia, sem as facilidades actuais da comunicação, num quase medievo isolamento) estas manifestações de rua pudessem ser levadas a cabo com a liberdade de crítica que se adivinha. Restos de um comunitarismo de que ainda sobram hoje alguns resquícios no Nordeste?
Catarse colectiva, como sabiamente escreve Mendes Corvo? Ritos de transição? Ou um pouco de tudo isso?
Parabéns pelo magnífico trabalho e pelo seu significado.E claro parabéns aos Felgarenses.
Daniel
PS- Já agora lembro que hoje estão cada vez mais na moda cultural os teatros de rua...

A. L. R. disse...

Muito bom post.
Fez-me recuar no tempo e relembrar esses carnavais tão peculiares e originais. Espero que continuem e que não falte imaginação, talento e humor para por em pratos limpos as escorregadelas das gentes da aldeia.
Obrigada
A.Lopes

Anónimo disse...

Tive o enorme prazer de assistir, in locco, à dança lá no Felgar e adorei o belo desempenho da juventude felgarense que teima em manter viva a tradição. A eles os meus parabens e um especial muito obrigado...

Hoje, o excelente texto do N. sobre o nosso entrudo, também me encheu as medidas e daí ter de estender os mesmos parabens ao N. reconhecendo publicamente o quanto ele gosta do Felgar, pois, só assim seria possivel sair um post com uma qualidade tão elevada como a aqui postada sobre um quadro etnográfico ainda vivo.

Cps. felgarenses

Denso

Anónimo disse...

Caros Amigos, agradeço-vos as apreciações, mas as nossas felicitações devem ir todas para a juventude do Felgar, que mantém acesa a chama deste belo "interlóquio". Acabo de ler (ou se calhar reler, pois ao devorar as linhas, vinha-me à lembradura certas passagens) o magnífico artigo de Carlos Seixas sobre esta matéria, onde este ilustre felgarense insere vários excertos da letra de uma execução desta "dança", talvez realizada nos anos 60 (altura em que, ao que parece, os garotos "jogaram à bola" com crâneos saídos das obras da igreja do Felgar). Seria interessante uma recolha de diversas "letras" (ou guiões) da "dança", comparando-as; ao mesmo tempo são também um registo historial dos acontecimentos anuais do Felgar, já que, como anota o Carlos, isto é uma espécie de "Revista". Não concordo, todavia, com a denominação de "revista satírica", pois soa a algo muito erudito (a expressão pode ser utilizada pelos estudiosos, mas não deve ser fixada em termos de cartaz futuro, já que este acontecimento cultural merece maior projecção). Se aceitarmos a palavra "dança" num sentido mais genérico (e quem nos diz que em outros tempos não haveria uma execução mais ritmada, já que ainda nos meados do séc. XX, segundo Santos Júnior, havia acompanhamento de instrumentos musicais?), penso que se pode aceitar o termo "dança" (talvez preferível ao de "marcha") acrescido do qualificativo "de Entrudo", em vez de "satírica" (termo que não nos parece de uso popular). Fundamental mesmo, parece-me a compilação de toda esta informação e sua edição, proposta que fica para a associação cultural e desportiva do Felgar, eventualmente com o apoio da Junta de Freguesia e município. Ainda por cima há no Felgar pessoas com muita capacidade para o fazerem, a começar pela juventude. Como mero espectador, amigo destas coisas, e, como bem diz Denso, sendo eu um Amigo do Felgar e dos felgarenses (é só pena não ter tido ensejo de aí pagar o vinho), cá estarei para aplaudir e divulgar, aqui no blogue.
Abraço,
N.

Anónimo disse...

Faço minhas as palavras do amigo C.S.

Um acontecimento ímpar, descrito e registado de forma exemplar.

Estão de parabéns os felgarenses que mantêm viva esta tradição.

Felicito o Nelson pelo excelente "post"

A. Manuel

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