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terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

HISTÓRIAS POLÍTICAS

O Anel do Navarro


Em 1904 inaugurou-se em Torre de Moncorvo um moderno hospital. Era, sem dúvida, uma das melhores casas do género, então existentes no Nordeste Trasmontano. Foi baptizado com o nome de Hospital D. Amélia, em homenagem à rainha.
O edifício era uma casa antiga, de muito nobre arquitectura, sólida e bem arejada. Nela funcionara, na década anterior, o Colégio de Santo António que chegou a contar com setenta e tantos alunos internos. Antes disso fora sede da Reitoria da Igreja Matriz.
Era conhecida como a Casa das Teixeiras por ter sido arrematada em hasta pública, na altura da extinção das ordens religiosas, por uma família daquele nome que parece nunca ter nela habitado. Foi então vendida para hospital.
Na comissão instaladora do novo hospital pontificavam os chefes regeneradores: dr. Ferreira Margarido e Caetano de Oliveira. Mas quem angariou mais dinheiro para comprar o edifício foi César Augusto Macedo Ribeiro, um moncorvense que estava emigrado no Brasil e bem de vida. Conseguiu angariar por aquelas bandas a formidável quantia de 5 contos e tantos mil réis. Aos maiores contribuintes eram cedidos títulos honoríficos, um diploma com o selo da monarquia e a assinatura de um ministro. O mecenato sócio-cultural era então muito barato e não dava direito a desconto nos impostos. Quem conseguia esses títulos em Lisboa? Naturalmente que era o deputado eleito pelo círculo de Moncorvo, o dr. Lopes Navarro, a pedido do dr. Margarido e Caetano de Oliveira.
Naturalmente que, por detrás de tudo isso, havia também os interesses políticos. E foi assim que, na véspera de mais umas eleições, se procedeu à inauguração do hospital. Imaginam, com certeza, que tal solenidade se transformou em mais um acto de campanha eleitoral do partido regenerador. E imaginam também que as honras foram todas para o deputado Lopes Navarro, dando-se menos importância ao grande benemérito César Ribeiro, ausente no Brasil.
Aconteceu que, para além da bênção do padre, o gesto principal da cerimónia consistiu na oferta de um anel, por parte do dr. Margarido, ao deputado Navarro.
Só que o anel custara uma fortuna e o dinheiro foi retirado daqueles cinco contos que César Ribeiro angariou – segundo disseram os penicheiros na campanha eleitoral que se seguiu. E o anel do Navarro transformou-se no principal argumento deste partido não apenas naquela campanha eleitoral mas em outras que se seguiram.
E a verdade é que, a partir de então, Lopes Navarro não voltou a ser apresentado como candidato a deputado pelos regeneradores de Torre de Moncorvo.
- Será com medo que lhe peçam o anel? – Perguntava-se com escárnio, no jornal do partido progressista da terra.
E também terá sido por causa do anel que a estrela do dr. Ferreira Margarido começou a empalidecer, deixando as rédeas do poder em Moncorvo escaparem-lhe das mãos.
Diga-se, porém, que os políticos de outrora gostavam muito de usar o humor nas suas prosas jornalísticas. Veja-se, a título de exemplo, este trecho publicado no órgão oficial do partido Progressista de Moncorvo em 29.1.1905, a este respeito:
- Vai brevemente passar a segundas núpcias a Srª D. Barba Margarido, viúva desconsolada do dr. Mosquito (António Bernardo de Morais Leal), com o exº sr. Conselheiro Navarro Lopes. Diz-se que já houve troca de anéis, sendo de grande valor o que a noiva ofereceu ao seu futuro consorte. É um auspicioso enlace, porque ela é uma virtuosa senhora, gaguejante e alma desinteressada; e ele é um cavalheiro digno em todos os sentidos, forte em letras e em tretas e por um triz não é um grande orador parlamentar. Como amigos de suas excelências, desejamos-lhe uma lua de mel prolongada e podendo ser… estrelada!

Por: António Júlio Andrade


Nota do postador:

Fotogramas do documentário "Gente do Norte" .Em 1977 o antigo hospital funcionava como escola.Solicito ao Vasdoal que envie um convite para colaborador a António Júlio ,como fez,e muito bem, a Sá Gué.
Leonel Brito


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