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domingo, 17 de maio de 2009

Morreu o Sr. Joaquim dos Chibos!

Há poucos dias (2009.05.07) aqui noticiámos o lançamento de um livro que incorporava dois poetas populares da nossa terra – o tio António Bento Morgado e o tio Joaquim Martins (mais conhecido por Joaquim dos Chibos). Uma publicação “in limine”, em que, contrastando com a vitalidade do tio Bento Morgado, o Sr. Joaquim dava já alguns sinais de cansaço e esforço nesta sua longa caminhada da Vida. Uma vida que se finou no passado dia 15. Infelizmente.

Joaquim Marcelino Martins nasceu em 31 de Agosto de 1926 na Quinta dos Chibos, no termo da freguesia de Torre de Moncorvo, quinta essa mencionada numa das novelas de Campos Monteiro, creio que “A Rebofa”, in Ares da Minha Serra. Aí nasceu e aí viveu a sua juventude, nas velhas casas de xisto, hoje completamente arruinadas, mesmo ao lado da nova estrada de ligação de Torre de Moncorvo ao troço do IP-2. Um local árido e desolado nas proximidades do fértil vale da Vilariça, sendo este uma espécie de “Promised Land” onde o Sr. Joaquim gastou a existência para arrancar o seu sustento, e de sua família, às terras ricas mas pesadas, trabalhosas, calcinadas por temperaturas de 40º C à sombra, no Verão, sujeitas às “rebofas” invernais, e em que a humidade fomentava mosquitagens que eram fontes de sezões de tipo tropical.
Conheci o Sr. Joaquim dos Chibos nos idos dos anos 70, quando meu pai com ele negociava os afamados melões do vale. Homem íntegro, de boas contas, de palavra, trabalhador incansável, um dos últimos grandes lavradores antigos do vale da Vilariça que fez a transição da era dos bois para a dos tractores.
Lembro-me de alguns destes grandes heróis do Vale - a costela agrícola da Torre de Moncorvo (que nem só de ferro aqui viveu o Homem): o Sr. Júlio "Ferrador" (pai do Sr. Beto Castelo), com o seu velho tractor vermelho desbotado, o Sr. José Inácio, o Sr. Abel Vilela, …….. e o Sr. Joaquim dos Chibos (além de muitos outros lavradores e jornaleiros da Corredoura, que faziam esse trajecto quase diário para as courelas do vale, ao mesmo tempo rico e adverso). Temos ainda, graças a Deus que o mantenha (e que Ceres o abençoe), o Sr. Aníbal “Espanhol”, dono de uma ilha no Sabor e o último abencerragem destes lavradores da Ribeira.
Infelizmente, este lado “agrícola”, ancestral, de Torre de Moncorvo, está a acabar… E hoje, dia 16 de Maio, foi a enterrar, com o Sr. Joaquim, uma boa parte da alma da Vilariça que eu conheci, da Torre de Moncorvo profunda. Ficou dela, da sua vida, um pequeno mas eloquente testemunho: “Histórias da minha vida”, de que retiramos os excertos que se seguem, recomendando a sua leitura na íntegra. Uma escrita simples mas que condensa uma vida de lavrador honrado, de Homem de trabalho.
Chorando a sua morte, penitencio-me por não ter cumprido a promessa que lhe fiz de registar em vídeo a sua voz e a sua presença, declamando os seus versos junto dos pardieiros dos Chibos que lhe serviram de berço… Fica entretanto aqui uma foto de um momento muito bonito, em que nos leu alguns dos seus versos no Dia Mundial da Poesia, em 25.03.2005, no auditório do Museu do Ferro/Moncorvo. Tem a palavra o Senhor Joaquim Marcelino Martins:

Quinta dos Chibos

Oh, velha Quinta dos Chibos!
Estás toda derrubada
Tuas casas já velhinhas
Não podes ser habitada.

Lá nasci e me criei
Nesse velho casarão
Não tinha quartos nem sala
Amplo sem nenhuma divisão.

As janelas sem vidraças
Já podres do temporal
A porta não tinha chave
Mas não fazia mal.

Os terrenos “ladeirosos”
De cabeços e canadas
E nos grandes “fragaredos”
As terras eram cultivadas.

Tinha umas oliveirinhas
E um pequeno amendoal
Que não davam rendimento
Para contratar o pessoal.

Tinha bois e tinha vacas
Com que lavram as ladeiras
Para estarem preparadas
Para o tempo das sementeiras.

Às cinco da madrugada
Tínhamos que nos levantar
Para tratar dos bois
E irmos trabalhar.

Andávamos quase às escuras
Pouco se via ou nada
A candeia do azeite
Quase não alumiava.

No tempo das sementeiras
Era da escravidão
Não haveria mais nada
Mas comia-se bom pão.

Levava-se uma côdea no bolso
Para comer e andar
Em tempo de sementeiras
Não se podia parar.

Não havia hora certa
Mesmo a hora de jantar
Comer a côdea à pressa
Era comer e andar.

Era uma vida de amargura
No tempo da escravidão
Não haveria mais nada
Mas comia-se bom pão.

Havia sempre umas sardinhas
Para se “apeguilhar”
Que era muito boa e fresquinha
A sardinha de Ovar.

Havia umas mulheres
Que andavam a apregoar
Quem quer? Sardinha
Fresquinha de Ovar…

Joaquim Martins, Histórias da minha vida, Edição da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo, Abril de 2009, pág.18

9 comentários:

Anónimo disse...

Que dizer de uma memória que lentamente se desvanece até ao final, como uma foto amarelecida num velho album , como um som que fica cada vez mais distante , num recôndito qualquer do vale ou uma ave que se perde de vista por detrás do monte?
Assim como o sr. Joaquim da Quinta dos Chibos chegou ao fim da sua jornada.
Não o conheci , mas conheço-lhe as mãos e o rosto. A vontade e a palavra . O orgulho ancestral . A ligação à terra e aos seus segredos . Conheço-lhe o pensamento cândido e a vontade , conheço-lhe os passos.
Conheço-o nos meus Avós e sinto-o em mim próprio.
Tão perto que os sinto a todos, num passado ao mesmo tempo tão breve e tão distante. Um passado em que o erguer às cinco da manhã sob uma luz bruxuleante da candeia os levava à celebração rude do ofício do campo, regado , suado, sofrido.
Um passado em que o desconforto era mitigado pelo pão e uma sardinha , às vezes repartida por dois ou por três. Um passado em
que a escravidão se redimia no trabalho , sem deuses que velassem por si.
Descanse em paz , tio Joaquim dos Chibos.
Daniel

Anónimo disse...

Belíssimo o seu comentário, caríssimo Daniel. Um preito de Homenagem bem melhor do que o que eu escrevi. É verdade: trazemos estes Homens na nossa genética, carregamos todos (os que não temos o sangue azul de pretensos manuseadores de espadas) esta ancestralidade rural, agrícola, dos guerreiros do arado e das batalhas da Produção multisseculares, e que, a par dessa nobre arte de empobrecer alegremente (como meu avô definia a Agricultura), tinham uma Dignidade e uma Honradez sem par!... E ao mesmo tempo, é notável que alguns destes homens tenham desenvolvido, para além da dureza do seu trabalho, uma sensibilidade poética, uma capacidade de resumir as suas vidas em Memórias escritas, versejando as suas existências, os seus sentimentos, as suas experiências, as suas crenças... Depois de plantarem (muitas) árvores, de fazerem e criarem filhos, fecharam a cúpula da abóbada com o Livro das suas vidas e a seguir fecharam os olhos tranquilamente, como se do mundo fosse sua a parte feita. Homens completos, seguindo a preceito o provérbio árabe, ainda que em reinos da Cristandade.
Junto-me ao voto do Daniel, por intenção da alma do tio Joaquim dos Chibos: "Requiscat in Pace" meu bom e velho Amigo...
N.

vasdoal disse...

Tal como o acompanhei a dizer os seus versos, como testemunha a fotografia,prometo que lhos cantarei.Tio Joaquim, agora a arte é toda sua.

Wanda disse...

Olá!
Lindas palavras dos comentários!
Também não o conheci, mas conheci muitos Joaquins das Quintas dos Chibos, aqui no Brasil e outros vindos de outros paises e estabelecidos aqui.
Que deixaram plantadas por eles , muitas árvores, que até hoje muitos devem estar comendo de seus frutos.
Deixaram suas terras, migrando para outras estranhas, não porque não as amassem, mas porque já se tornava insustentável viver nela.
Também como Daniel diz, reconheço o Sr Joaquim em muitos heróis do campo, os que não abandonaram o navio nunca!Até nas tempestades, preferindo afundar com ele.
É bonito ver os comentários do blog, isso prova que ele não era apenas um cidadão, mas também um homem honrado e admirado por uma grande comunidade.
Que Deus o tenha bem perto de si!

Abraço!

Wanda

São Paulo,17 de maio de 2009

Xo_oX disse...

não conheci o sr. Joaquim, mas tenho a certeza que a sua alma sensível lhe deve ter permitido uma vida plena e a certeza de puder continuar a fazer versos num outro universo, onde talvez nos encontremos um dia...

Manuela Aleixo disse...

Numa das idas a Moncorvo, cheguei a casa dos meus pais e com eles, estava o Senhor Joaquim. Apenas nessa altura soube que ainda era meu parente , primo direito da minha avó Angélica. Nunca ninguém mo tinha dito. Até então, não o conhecia, apenas lhe sabia o nome.
O Senhor Joaquim tinha então ido ao Montezinho, propositadamente, para oferecer à minha mãe uma cadeirinha que fez com molas da roupa, em madeira, e com uma flor, feita também por ele,que colocou no assento.
A flor és tu - disse à minha mãe - num jeito tão simples e terno quanto ele, pensei. E isso fascinou-me . De tal modo que
assim que o Senhor Joaquim saiu, perguntei logo à minha mãe " um dia dás-me a cadeirinha não dás?"
Ainda não a tenho mas já é minha a ternura e a poesia que ela me diz do Senhor Joaquim.


Manuela Aleixo

Júlia Ribeiro disse...

Vim agora aqui e muito de fugida, para afinal deparar com a morte do nosso querido conterrâneo Joaquim dos Chibos. Vi-o pela última vez, tinha eu 20 anos e ele uns 30 e poucos. Era um homem na flor da vida. Que, penso, viveu em pleno: na ligação à terra, no trabalho, na simplicidade, na honradez .

Preciso de ler os seus versos pois, estou certa, me permitirão reconhecer o homem de que me lembro.

Que a terra lhe seja leve.
Júlia

Marco Deus disse...

Pela primeira vez entro neste blogue para receber uma má noticia, uma noticia que me deixa triste e de alma pesada. Conhecia o Sr. Joaquim já desde menino da Corredoura. Recordo que quando fiu morar para o Castelo o Sr. Joaquim sempre que me via cumprimentava-me e falava comigo, mais tarde quando chegaram os tempos de Universidade e sai de Moncorvo, O Sr. Joaquim não deixava de perguntar aos meus pais sempre que os via: - Como está o Marco? Dai se pode mesmo ver o carácter deste bom homem, sempre preocupado com os outros, amigo de todos e bastante popular. Deixa muitas saudades, desconhecia-lhe a veia poética, ao ler o poema aqui publicado, fiquei tocado pela sensibilidade do poeta ao descrever uma vida dura e cheia de privações com tamanha ternura e carinho. Lembrando que mesmo os momentos menos bons têm o seu lado positivo.
Apenas lamento não me ter despedido do Sr. Joaquim como pretendia, mas a morte é mesmo assim inesperada e fria, não deixa espaço ao adeus nem ao último abraço.
Um Bem Haja Sr. Joaquim e obrigado por tudo, uma abraço e até qualquer dia.


Marco Deus
Braga, 18 de Maio de 2009

Vitória disse...

Grande amigo do meu pai o Sr. Joaquim!
Já da Fundação Francisco Meireles, chegou a alugar um taxi para o ir visitar a Peredo dos Castelhanos. O meu pai já se encontrava doente.
Foram companheiros na tropa e essa amizade foi sempre conservada.
Quando o encontrava, falava-me sempre do meu pai e da sua sinsera amizade.
Em memória dessa amizade, guardo e guardarei sempre como recordação, as 3 cadeirinhas que ele fez e me ofereceu.
Que Deus o tenha em eterno descanso.
E até um dia...
Vitória

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