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quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Ainda Alma de Ferro

Mal eu sabia que um post meu de satisfação e conforto por ter visto nascer um grupo de teatro na minha terra, Torre de Moncorvo, iria dar tanta polémica, alguma profunda, outra oportuna e ainda outra, porventura, leviana. Não levei nada a mal as críticas que foram feitas, sobretudo por Elizabet Almeida que não tenho o prazer de conhecer e que, julgo eu, ela não tem a pouca sorte de me conhecer. A sua utilização da metáfora tem imanente um conceito de classe de que eu não comungo. E digo porquê: dizer que dou uma no cravo e outra na ferradura é como se eu fora ferrador, o que é um ofício digno, diga-se, e que não me ofenderia, se o tivesse. Por outro lado, o Alma de Ferro não é uma besta que se ferre. Quando digo que fiquei muito sensibilizado é porque me recordo de que quando fui professor em Moncorvo pus em cena com os meus alunos finalistas, o Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente. Era uma forma de estudarmos Gil Vicente eu e os meus alunos. O talento, a encenação e tudo o mais ficava a milhas do que eu vi no teatro de Alma de Ferro. Foi uma actuação muito pior e eu um muito mau encenador em relação às encenações que vi na noite do Celeiro. E senti-me vingado da minha ignorância. De qualquer modo quero dizer que o cine-teatro esteve cheio e a bilheteira ajudou à viagem dos finalistas que foram visitar o República e assistir ao primeiro espectáculo da Comuna (com João Perry, Jorge Silva Melo, João Mota), a Ceia, ainda numa sala improvisada, junto à cervejaria Portugália, na Almirante Reis ( Lisboa). O facto de falar nas adaptações que falei, foi mera sugestão. Eu estou sempre disposto a aprender, raramente a ensinar. Porque eu tenho um lema na vida: não é sábio o que já sabe muito, mas o que continua a aprender. Gostaria imenso que em volta deste teatro (e eu imagino bem as dificuldades que terão, pelo emprego, pela profissão, pelo tempo de trabalho) se criassem profundas solidariedades que nunca, mas nunca, significam a unicidades ou acriticismos. E por aqui me fico, saudando, mais uma vez, o teatro Alma de Ferro.

10 comentários:

Anónimo disse...

Uma no cravo e outra na ferradura:
Havia um senhor do Concelho de Moncorvo, que era de um humor irónico e mordaz, um dia num julgamento no Tribunal de Moncorvo, quando interrogado começou a entrar em contradição , ao qual o Juiz lhe disse em determinada altura senhor fulano o senhor dá uma no cravo e outra na ferradura. Resposta do senhor fulano: pois é senhor Drº Juiz o burro não está quieto com a pata.

elizabet almeida disse...

« Embora já existam cavalos e outros quadrúpedes para "calçar", (ferrar) há muitos milhares de anos, talvez não venha a despropósito, falar de "cravos" e "ferraduras", antes de entrar neste comentário, até porque é provável que muita gente nunca tenha visto um potente animal a ser ferrado...
O Ferrador, tinha de ser um indivíduo bastante forte e dotado de muita habilidade, para segurar a pata do animal entre as pernas, enquanto "alindava" o aspecto do "casco" (unha) à lima, e tinha de ter as duas mãos livres...e tinha de ir fazer à forja, uma ferradura ao tamanho do casco e fazer-lhe uma data de furos cónicos, com o ferro em brasa, e ir experimentando no casco do animal, até acertar a ferradura que, como é natural, não podia ser nem mais pequena do que o casco no animal, nem maior.
Depois vinham os cravos, uma espécie de pregos cónicos que tinham de ser enfiados um a um, de forma a entrarem pelo casco, como se fossem a nossas unhas, e saindo pelo lado, onde as pontas eram reviradas.
O ferrador tinha de fazer esta operação nas quatro patas do animal, trabalho que tinha de ser feito rapidamente, dado haver outros animais à espera e para que eles não ficassem extremamente nervosos e impossíveis de se deixarem ferrar. Cada martelada que o ferrador lhe dava, para ir cravando os cravos, os animais respondiam encolhendo a pata, e levando atrás o desgraçado do ferrador que a tinha bem apertada entre as pernas...
Era pois necessária muita habilidade para conseguir acertar nos cravos e muitas vezes, o martelo acertava era na ferradura.
Foi devido a esta situação de uma vezes se acertar no cravo e outras na ferradura, que surgiu a designação “dar um no cravo e outro na ferradura".

Assim, sempre que qualquer pessoa falhava nos seus intentos, o povo se habituou a dizer: dás umas no cravo e outras na ferradura, ou quando se teimava insistir numa ideia, mas às tantas, se mudava 180 graus para o lado oposto, era a mesma coisa. Quando alguém muda de opinião, é a mesma coisa...

Mas que há uma grande confusão,…

Anónimo disse...

Resposta do senhor fulano: pois é senhor Drº Juiz o burro não está quieto com a pata.
A resposta certa é: pois é, o senhor Drº Juiz não está quieto .
... tinha de ser um indivíduo bastante forte e dotado de muita habilidade, para segurar a pata do animal entre as pernas,
Continua complicado segurar o animal entre as pernas.
Agora falando sério. Um texto é um texto ,seja assinado por um anónimo ou com nome próprio, apelido ,B.I. etc.
O blog tem que estar protegido contra todos os vírus, quer informático quer humanos. Tem que ter um código de ética, de estilo .
Nenhum texto pode entrar directamente na Web .É da responsabilidade da redacção defender o conteúdo , a qualidade e a respeitabilidade do blog.
O que se passou com os comentários ao texto do professor Rogério Rodrigues ,não pode repetir-se. Retirar os textos de carácter pessoal e insultuosos depois do insulto é demasiado tarde e afecta o bom nome do BLOG, que com o nascimento do grupo de teatro ALMA DE FERRO são os grandes acontecimentos culturais do ano.

N. disse...

Não sei se o Anónimo2 é o mesmo que o Anónimo1, embora presuma que não, pelo teor da parte final do 3º comentário. Em todo o caso está um pouco como o fulano da estória do Tribunal: também dá uma no cravo e outra na ferradura: defende o anonimato (também não tenho nada contra, desde que se mantenha o nível) e a respeitabilidade do Blog (tb estamos de acordo). Só que, convirá, há quem utilize o anonimato para ser mais contundente e mordaz quanto às opiniões alheias. Acho que cada um é que deve ter o sentido de responsabilidade e não se exceder, pois o que conta é o que está no "Livro de Estilo" do Blog, postado no topo da coluna do lado direito: "Este blog destina-se à divulgação, em palavras e imagens, do concelho de Torre de Moncorvo; visitando lugares, recordando pessoas, dando notícias; da grandiosidade da história à singeleza das espécies, do contraste das estações, à procura das emoções. É um sítio virtual feito de realidades, povoadas de reflexos, condimentadas com os sentimentos de quem gosta de descobrir e partilhar".
Isto é que é importante! Discussão também pode haver, pq é sempre enriquecedora, sempre com o tal sentido de responsabilidade. Por exemplo, certos comentários que lemos, subscritos pelo "João", pelo que percebi, até foram retirados pelo próprio (pelo que os coordenadores do Blog não censuraram nada - apenas se fechou a discussão, pq se considerou que os pontos de vista representativos para o caso já tinham sido feitos, e, mais que isso, seria chover no molhado; e antes que descambasse...). Ou seja, o "Blogmaster" agiu bem.
Esperamos continuar com assuntos interessantes, no duplo sentido de: Unir os Moncorvenses / Divulgar a terra. Trocas de pontos de vista, embora devendo ser mais para um Forum, acho que também pode haver, mas tendo sempre em vista os princípios enunciados e o tal nível que se deve manter.

Em todo o caso, e apesar de não ter muito a ver com o 2º post do Rogério Rodrigues (acho eu, na minha ingenuidade), gostei das explicações da Elisabete Almeida sobre a arte dos ferradores. Pergunto se tinha alguém na família praticante? No Museu do Ferro, além de se representarem os ferreiros, também se tem recolhido informação sobre os ferradores (há registo de vários, dos últimos, no concelho de Torre de Moncorvo, pelo que interessava completar a informação). Já agora, sobre os cravos de ferradura, as partes do cravo eram: cabeça, colo, haste e ponta. Ora, considerando a secção quadrangular quadrangular da haste,
podemos dizer que do colo para a ponta seriam piramidais, ainda que pirâmide muito alongada (e não cónicos); as cabeças eram angulosas, podendo culminar em duplo bisel ou em mais ângulos, o que definiria vários tipos. Por exemplo, no Museu do Ferro estão representados os tipos: "cravo português", "inglês" e "francês". Estas peças eram, noutros tempos, obra des ferreiros. Mais recentemente passaram a adquirir-se cravos de fabricação industrial, que devem ser do tipo dos que ora se usam nos cavalos da GNR.
Se estimada visitante do Blog (Elizabet) se interessa pelo tema (e já vimos que sim), aqui fica o título de uma obra onde poderá obter mais informações sobre o assunto: "Manual do Ferrador instruído", Lisboa, Typographia Universal (1876) de autoria de Francisco Maria de Carvalho. Sabemos que é obra rara, mas talvez consiga na Bilbioteca Nacional.
É aonde nos levam as discussões em redor dos Almas de Ferro...
Cumprimentos,
Nelson R.

Anónimo disse...

Eu tenho uma ferradura na porta para dar sorte e cravos só os de Abril.
Se o texto cumpre as regras do blog não tem necessariamente de ser assinado. Se não assina é cobarde!!se assina é exibicionista? Mas como há muitas marias na terra este ex-anónimo passa a ter uma alcunha(há um bom texto do Nelson sobre alcunhas (ver caçada no Reboredo ).
Ainda a lição de ilustração sobre ferradura . No Google a palavra ferrador tem 242000 entradas, ferradura ,342000, farrier 1500000 ,horseshoe, 10.200.000 .
Consta que no famoso alardo da vilariça ...” e este foi o mais formoso alardo
que até ali em Portugal fôra visto.Fernão Lopes” – quando D. João I perguntou o numero de cavalos que tinham recolhido, alguém com o espírito elizabetiano lhe disse : Majestade ,estou a dividir o numero de ferraduras por quatro e já o informo do total .
Há no museu do Ferro um livro com um texto bem escrito e melhor documentado sobre os ferreiros da região de Moncorvo da autoria da Drª Maria João Moita .
Nelson ,que não lhe enferruje a paciência ,por favor.
Zé do cabo
...

N. disse...

Caro Zé do Cabo (só por curiosidade, será morador da antiga Rua do Cabo?),
pois, concordo com o q disse sobre o anonimato, e, como verá no meu comentário anterior, eu disse que em princípio não tinha nada contra, desde que não se fosse acintoso ou maldizente.
Quanto às ferraduras, vejo q fez uma grande pesquisa no Google! O que efectivamente comprova que há muita gente interessada no tema! Quanto à história que conta e que situa no alardo da Vilariça tem piada, e reconheço q não a conhecia. Será uma historieta local? ou foi adaptada ao nosso cenário? - é que isso das contas sobre as ferraduras não está no Fernão Lopes. E, mesmo que fosse, há aí um anacronismo, pois no tempo do D. João I ainda não se usava o "Majestade" como tratamento dirigido aos reis de Portugal, fórmula que surge mais tarde, não sei se com D. João III.
Sobre o artigo da Drª Maria João Moita no Catálogo do Museu do Ferro é, de facto, uma abordagem
muito importante para os ferreiros do concelho de Moncorvo. E, no final do artigo apresenta, realmente, uma lista de antigos ferreiros e ferradores cá do concelho, no século XX. Este trabalho está a ser continuado pelo Museu, através de uma ficha de registo de ferreiros e ferradores. Falta agora a continuação do trabalho no Arquivo Histórico municipal, onde sabemos que há várias referências, desde o século XVII. Por exemplo, no canto do Castelo, virado à rua Tomás Ribeiro, havia, no séc. XVII, um banco de ferrador, arrematado pela câmara. Era lógico, pois aí começava a estrada real que seguia para Bragança, logo a seguir, mais tarde, foi construído o "chafariz das bestas" encostado à muralha do castelo (removido nos anos 60); ou seja, era o equivalente às actuais estações de serviço: antes de se seguir viagem, ou ao terminar a víagem, chegando à vila, tinha que estar a "estação de serviço" - em vez da central de pneus, o ferrador e as ferraduras; e em vez da gasolina, abastecia-se de água os quadrúpedes que transportavam as pessoas ou puxavam aos carros/carruagens. em cada entrada de Moncorvo, estava o seu chafariz: Fonte do Concelho, à saída para Carviçais; Santo António, para quem subia a serra, para Felgueiras, ou para Mós, Freixo, Espanha, etc; Aveleiras, para Sul. Vejam-se agora onde estão as bombas de gasolina. As coisas parece que não mudam assim tanto...
Bem, esperando também já ter "desenferrujado" a sua paciência, caro Zé do Cabo, pro aqui me fico. Cumprimentos,
N.
P.S. - bem, como notará, muitas vezes também só me assino com o "N", que matematicamente pode ser "muitos", isto também para q não me acusem de exibicionismo intelectual. Embora isso não retire a acusação (injusta, pq não é esse o meu objectivo), ao menos evita a "chatice" da fulanização, quero dizer, podem usar o rótulo à mesma, mas ao menos preservamos a nossa garrafa, tenha ela conteúdo ou não. Por isso compreendo a sua relutância em expôr-se. O que não impede que comuniquemos ideias, conhecimentos, ou até saberes "de chacha" (dirão outros).

Anónimo disse...

Amigo n.
A majestade e as ferraduras são rasgos de humor falhado .
Divertida é obsessão pelas ferraduras como exercício de diversão ao texto critico e lúcido de Rogério Rodrigues pela Sª Elizabet Almeida, coadjuvada, com uma carga enciclopédica de um humor refinado, por si.
Saber e divertir.
Mais uma vez obrigado .
Zé do cabo

N. disse...

Eu é que agradeço, caro Zé do Cabo, ehehe - desculpe-me todavia (e dispense-me) da "carga enciclopédica"! - Tão pouca, sei-o eu, que dispensa qualquer sobrecarga e muito menos precisa de ser arrotchada! (como estamos entre conterrâneos, não é preciso traduzir, eheh)
abraço,
N

Anónimo disse...

Contra a preguiça um arrotcho.
Diziam os meninos na catequesse, antes de ir ao Asilo buscar as hóstias.
Pelo caminho comiam algumas.

Zé do cabo

N. disse...

Essa dos meninos do Asilo não conhecia. Mas, na verdade, o arrocho (pronunciando à transmontana: "arrotcho") tinha duas utilidades: uma (a principal) era arrochar a carga, funcionando como um esticador ao apertar uma corda que se colocava sobre a carga e que por isso se chamava "sobrecarga"; a outra, bem, a outra era para castigar os miúdos, pelo que "arrotchada" passou a significar "pancada com arrocho".
Teria piada meter aqui no blog algumas alfaias antigas, com a descrição das funções dos objectos, já que isto, para além de etnografia, já é Arqueologia... (para que os mais novos saibam como se trabalhou com estes objectos e não destruam estas velharias que ainda andam lá por casa dos avós da aldeia). Fica a sugestão.

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