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domingo, 28 de dezembro de 2008

Dr. Armando Pimentel

Voz amiga comunicou-me o falecimento do dr. Armando Pimentel, figura de referência do último meio século do Nordeste Transmontano. Muito se pensou em fazer-lhe uma entrevista de vida. Chegámos tarde, tanto eu como o Nélson. Durante anos colaborou no Torre de Moncorvo, infelizmente extinto e no Primeiro de Janeiro com destino quase semelhante. Tinha uma biblioteca invulgar e podendo ter sido tudo, antes e depois do 25 de Abril, o que diz da sua independência, não quis nada. Solteiro, refugiou-se no seu ermitério dos Estevais ( Mogadouro). Lembro-me dele quase diariamente em Moncorvo a visitar os amigos. Mas os amigos foram morrendo. Com a sua morte fecha-se um ciclo de vida de Moncorvo. Não é este o tempo nem a oportunidade para reflectirmos sobre o ciclo que agora finda. É tempo sim de penarmos um pouco por não termos sabido aproveitar, em tempo próprio, a memória e a cultura do dr. Armando Pimentel. E de nos inclinarmos, com pesar, perante alguém que passou para o desconhecido.

7 comentários:

Anónimo disse...

É verdade, caro Rogério! - o Dr. Armando Pimentel, do alto da sua provecta idade, com toda a sua vivência e saber, era o que se pode chamar um Sábio, na plenitude da palavra. Era o último abencerragem de uma linhagem de senhores da terra, o último representante da casa grande dos Estevais, aparentado com outras casas grandes que se esvaziaram e ruíram, como a de Castelo Branco (Mogadouro) a cuja freguesia aliás os Estevais pertence... Era o 4º advogado na família, em linha directa, e contava-me o que lhe contava o pai, o que atira já para o séc. XIX, quando, estudante, ia a cavalo para Coimbra, armado com um pistolão sob a capa, por causa dos assaltantes de estrada.
Sei que teve solicitações no pós 25 de Abril para governador civil do distrito; para ministro da Justiça, duas vezes, diz-nos o nosso caro Amigo e ilustre conterrâneo e Amigo de desde sempre do Dr. Pimentel, o Professor Rentes de Carvalho... E não quis deixar o seu rincão sagrado!!! O último grande Senhor da terra, rodeado dos seus livros, dos seus terrenos, dos seus imensos afilhados (todos em Estevais eram afilhados...), o seu povo, a sua gente, as suas raízes, a Casa... Um Homem grande, numa terra ínfima (uma anexa de freguesia) e ainda por cima a definhar até quase ao deserto total... E ele, talvez por isso, ainda mais agarrado ao Locus. Como os velhos "senadores" romanos às suas "villae"... - resistiu à tal pulsão de evasão que, por outro lado, fez enfunar as velas, e partir, o seu conterrâneo (apesar de nascido em Gaia) Rentes de Carvalho, o grande escritor que a Holanda (re)conhece e Portugal desconhece! Dois Gigantes, um por fora, outro eternamente dentro, mas por dentro e atento ao que se passava no Mundo... Fabulosa a carta-livro manuscrita que escreveu nos anos 60 A. Martins Janeira, de Felgueiras de Moncorvo, então embaixador no Japão, seu condiscípulo dos tempos coimbrões... Uma carta notável que fez com que a viúva do embaixador, a Srª D. Ingrid Bloser Martins, quisesse conhecer o remetente, anos depois, o senhor que escrevia tão bem e de forma tão lúcida e tocante e por quem o seu falecido esposo tinha uma tão grande amizade e veneração. Acompanhei-a nessa ida aos Estevais, e foi um acontecimento!... Na sua biblioteca-museu-bazar chinês, pois o Dr. Armando coleccionava tudo (especialmente porta-chaves...), recebeu-nos como um director de museu mostra as suas preciosidades: os recortes censurados com o lápis azul, do artigo que escreveu sobre o livro do padre Telmo (pároco dos barragistas do Picote, nos anos 50, e percursor de um cristianismo militante de tipo teologia da libertação), intitulado "Há lodo nas estrelas"... Mostrou-nos a secção dos reservados, os livros antigos, encadernados a couro, as cartas de curso de Direito em Coimbra, dele e dos seus antecessores (pai e avô), ainda em pergaminho e em latim... Uma tarde magnífica, q foi um mergulho no tempo, enquanto na sua secretária pousava, meio lido, o Erro de Descartes de António Damasio...
Faltou, caro Rogério, essa grande entrevista.... é bem verdade: chegámos tarde, porque na convicção de que certas pessoas são Imortais (e são-no, de facto), vamo-nos esquecendo que as leis da Natureza não perdoam... e que mesmo os mais altos e rijos robles, de boa têmpera, têm o seu dia em que morrem. De pé, mas morrem.

Como sou incorrigível, mais uma vez me estiquei de mais, fazendo um post lateral, maior que o seu post no lugar público, o que é indelicadeza da minha parte. Mas este facto também me tocou muito, apesar de ser a pessoa menos habilitada para falar do Dr. Armando Pimentel. Por isso remeto os interessados para quem de direito, para o testemunho sentido de quem o conheceu melhor que ninguém, porque, Amigo, confidente, conterrâneo, Professor Rentes de Carvalho (além disso, escritor, e, como tal com melhor prosa):

é ver:http://tempocontado.blogspot.com/

Anónimo disse...

O Dr. Armando Pimentel, que não conheci mas de quem fala, tal como um seu amigo e dele, com tanta amizade e admiração faz, de certeza, parte daqueles que o tempo não deixará esquecer. Homens com esta envergadura não podem ser esquecidos pela história.
À sua memória, a minha já enorme admiração.

Anónimo disse...

Regressado hoje às lides profissionais, foi com grande pesar que tomei conhecimento da morte do Dr.Armando Pimentel.
Quero agora recordar a pessoa Amiga que, vai para uns 10 anos, me recebeu a mim e a um amigo em sua casa que lhe levava um pequeno recuerdo do México, nos mostrou a sua imensa biblioteca, os seus papeis, o cadeirão do bispo... e nos recebeu fidalgamente. Conhecia-o antes só de nome pelas prosas escritas no jornal Torre e depois via-o de vez em quando aqui por Moncorvo ou Carviçais.
sobre a sua pessoa o N. e o R. R. já quase disseram tudo. Eu limito-me a invocar e recordar um bom transmontano e um amigo e prometo hoje ir reler a magnifica introdução no escrito da monografia - Felgar - que muito nos releva sobre a essencia de tal pessoa.
Que descanse em Paz !

mandora disse...

Subscrevendo tudo o que já se disse sobre este grande vulto, deste filho bem-amado de Trás-os-montes, do pai dos Estevais de Mogadouro como ontem na paragem fúnebre dizia um velho ancião da mesma terra, apenas gostaria de fazer duas pequenas correcções. O Dr. Armando Sanches de Moarais Pimentel julgo que estava casado e o Dr. Armando Martins Janeira não foi condiscípulo em Coimbra mas sim ainda em tempos de liceu no Porto. Um vez que um fez em Lisboa outro em Coimbra o curso de Direito.
Fica no entanto como tão bem já foi descrito a terrível sensação, principalmente, aos que moram atrás da grande serra, que algo ficou por dizer, o reconhecimento, a agraciação. Para além de que a sabedoria das suas palavras não foram aprendidas.

Armando Gonçalves

Anónimo disse...

Dr. Armando Pimentel, homem bom e humilde, culto e sabedor. Desde que era garoto que gostava de falar com ele, ou simplesmente absorver as suas palavras.

Aquando o meu trabalho na Câmara Municipal de Torre de Moncorvo, tive a oportunidade de privar com algumas bonitas crónicas do Dr. Armando Pimentel, publicadas no extinto jornal "A Torre".

Resta agora, que os responsáveis municipais lhe prestem a devida homenagem, quem sabe até, publicando os seus textos.

Trás-os-Montes perdeu um grande homem.

P.S.: N., sabe onde encontrar essa recolha.

Anónimo disse...

Sei sim, caro João! Acho q é tempo (embora já fora de tempo, pois deixou de estar quem nos poderia explicitar o contexto q ditaram alguns desses escritos) para essa homenagem póstuma, que seria a compilação (que já está no que toca à Torre, feita por ti/Biblioteca Municipal) e a sua edição. Depois importaria fazer o mesmo com o que ele escreveu no Mensageiro de Bragança (estou a lembrar-me de uma revista do MB, talvez dos anos 60, em que ele publicou uma entrevista que fez ao Trindade Coelho - ou melhor, à estátua do Trindade C. - uma brincadeira e que fazia as perguntas e dava as respostas, da estátua, claro!); há depois a imensa colaboração em jornais nacionais, com destaque para o Primeiro de Janeiro, no tempo em q este era o grande jornal (até no tamanho das folhas) de referência... Alguém lembrou aqui, em comentário anterior, o prefácio ao livro do Prof. Adriano V. Rodrigues e Drª Assunção Carqueja, sobre o Felgar; este prefácio é outro testemunho eloquente (e recente, pois data de há uns dois ou três anos). Enfim, um grande manancial de uma vida de escrita e, o que é mais notável, a partir de Estevais para o Mundo... (via correio!... correio que ou era metido em Torre de Moncorvo, ou, noutros tempos, ia na velocidade lenta do combóio a vapor da linha do Sabor... talvez artigos levados por algum sucessor do "Gato", alcunha do rapaz do correio dos Estevais, que figura no extraordinário livro de Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa, de leitura obrigatória... > há à venda na Livraria Clássica, passo a publicidade!)... Porque não organizar-se uma comissão editorial para, conjuntamente com a família, se começar a editar a Obra completa do Dr. Pimentel. Há uma pessoa que, melhor que ninguém poderia encabeçar um trabalho deste género: O Sr. Prof. Doutor Rentes de Carvalho - o outro gigante dos Estevais, felizmente entre nós, e com garra e tenacidade para o fazer. Cumpre-lhe agora essa grande responsabilidade. Nós apenas podemos ajudar, tal como as autarquias de Torre de Moncorvo e Mogadouro, por onde distribuíu grande parte da sua existência.

Agradeço, Armando, a rectificação: tens razão, o Dr. Pimentel casou sim senhor, embora já tarde, acho que por questões familiares; quanto ao ter sido colega do Dr. Armando Martins Janeira, pois julguei que tinha sido nos tempos da faculdade de Direito de Coimbra. Peço desculpa pelo erro, e obrigado pela correcção e pelo teu testemunho. Ninguém melhor do que um descendente dos Estevais para o saber.

Anónimo disse...

José caro N., José... João é o mano mais velho...

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