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sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Ainda sobre a terra dos nevoeiros…


Como se tem registado fotograficamente aqui no blog, há vários dias que o nevoeiro não nos deixa a vila, funcionando como uma tampa de arca frigorífica a conservar a geada, congelando-nos os ossos e os pavimentos, e, com estes deslizantes, aqueles fracturados, o que já aconteceu em várias quedas de que temos notícia (assim também se explica o topónimo da velha rua do Quebra-costas).

Todavia há que lembrar que sempre esta terra foi atreita a este fenómeno meteorológico. Senão vejamos o que nos diz o Abade de Miragaia, continuador da obra de Pinho Leal, o Portugal Antigo e Moderno (vol. V, 1875), no artigo sobre "Moncorvo":

“Em Dezembro de 1843 e Janeiro de 1844, estiveram os povos d’estes sítios 20 dias sem ver o sol, por causa de um densíssimo nevoeiro. Estava tudo coberto de neve, e o frio chegou a 3 graus abaixo de gelo (sic – seria de zero) – Chegou a gelar o leite!
Principiou o nevoeiro a 13 de Dezembro e durou até ao 1º de Janeiro, sobrevindo n’este dia uma chuva branda que o dissipou. A neve causou grandes prejuízos, destruindo com o seu peso, muitas árvores, principalmente oliveiras.
Esta calamidade abrangeu todo o espaço que vai desde os Estevais de Mogadouro até Macedo de Cavaleiros, chegando, em Trás-os-Montes, muito abaixo de Mirandela; e na Beira Alta até à vila da Meda”.


É verdade que os reinos mágicos (como o que evocou o nosso amigo Vasdoal – vd post anterior), são envoltos em brumas… e que estas sempre nos sugerem a esperança da chegada de um qualquer D. Sebastião que nos tire da eterna crise, também é certo. Para além disso, Londres, a capital do nevoeiro, não deixa de ter, por isso, uma certa mística (aliás, em inglês, névoa, diz-se: “mist” – talvez daí a “mística”, apesar de a londrina ser mais para o “fog”). Mas, em todo o caso, temos de convir que os nossos avoengos medievais que deixaram a vila de Santa Cruz da Vilariça “por razão de o dito sítio ser doentio” (assim o diz um documento do séc. XV), acabaram por não encontrar uma alternativa muito melhor…

Foto e txt. (excepto citação): N.

19 comentários:

vasdoal disse...

Preparem-se, porque, como diz o povo,esse nevoeiro costuma desaparecer depois de sete ou nove dias. Pois é, contas são contas!

Anónimo disse...

Caro N.,
Como sempre, a post no diálogo.
Zé do cabo

N. disse...

Cá vamos a-postando, caro Zé do Cabo, neste caso na história da meteorologia local - quiçá uns subsídios para uma História do Clima de Torre de Moncorvo. E para tal o adágio popular que o nosso amigo Vasdoal menciona é precioso. Onde o recolheste, Vasdoal? Em Sequeiros? (esse dito eu não o conhecia, e tem jeito, pois devem ter passado já os 7 dias de nevoeiro e com a chuva de hoje, que durante a noite foi de alguma neve - ainda há uns farrapitos ali em cima, no Roboredo - já se dissipou). Há ainda outro dito moncorvense, de previsão meteorológica: quando há "nevoeiro na serra / água na terra" (ou seja, é prenúncio de chuva).
Está dado o mote para quem souber de mais adágios meteorológicos...
(a-postando no diálogo, ehehe!:))

Anónimo disse...

Gelam os campos e ruas da Terra Mãe, agraciando-nos já com visão dos seus regulares e atipicos "nevoeiros", congelando aqui e ali a fauna e flora esplendorosa. Gelam fisicamente os espaços e gela também a alma de quem está longe e "exilado" na urbe citadina, pelo facto de não poder ser agraciado por tão ternas visões.
Marco Deus

Anónimo disse...

Nevoeiro denso e comprido como alguns posts.
E o nosso Sebastião não é D..É santo mártir e vive sozinho numa casinha no meio da Corredoura. A sombra de Caim vagueia pelas fragas..Fui embalado pelo texto anterior.
Tudo isto é uma má desculpa a ver se N. pica. Os seus textos libertam-nos do subúrbio...
Se pudesse pôr no meu c.v.; natural de Moncorvo, terra do Nelson,do Padre Rebelo,da Júlia Biló...

Zé do cabo

N. disse...

viva Zé do Cabo! Tem razão, o nosso Sebastião lá está na tal casita ao fundo do largo da Cordoira (como o povo diz). O antigo patrono dos lavradores da Cordoira (ou Corredoura), que eram também os lavradores da Vilariça... (convivo com a sua vizinhança há muitos e bôs anos...). Sobre a fantasmagórica sombra que evoca, vejo q conhece um certo livro de Henrique de Campos; como, não sei! mas já vi q é pessoa bem informada. Obrigado pela referência elogiosa aos meus modestos escritos, nada de especial, não passam de umas "bocas" como costumo dizer. Pelo que me deverá retirar do rol dos nomes ilustres que mencionou e em que teria muita honra em emparceirar, se outro fosse o meu engenho e arte: o Padre Rebelo, por exemplo, foi o Mestre e o Amigo (e que falta nos faz!); a Drª Júlia Biló é a melhor contista que temos, que em boa hora resgatou uma série de estórias de uma espécie de literatura oral e lhe deu um cunho pessoal, fixando-as num registo literário precioso, isto além de obras de maior investigação, como a biografia romanceada de Constantino Rei dos Floristas; mas poderia acrescentar Rogério Rodrigues (aqui nosso colaborador no blog), ou o saudoso Afonso Praça, ou Leonel Brito (também nosso colaborador), todos eles moncorvenses ligados ao mundo do jornalismo e às artes da palavra e não só (o Leonel também ao Cinema e à imagem em geral). Mas há mais: Victor da Rocha, de Carviçais, e que também temos que convocar para este "sitio", blog ou ponto de encontro, ou pelo menos, postando-lhe aqui uns excertos do seu magnífico "Postigo cerrado" ou da "Andadura do Tempo". Outros há ainda por aí (e por aqui às vezes), que, não sendo moncorvenses, a esta terra e região os ligam sólidos e antigos laços. É o caso, por ex., do Professor Rentes de Carvalho, de Estevais de Mogadouro, cujo blog mencionei num comentário ao post do Rogério, sobre o passamento do Dr. Armando Pimentel. Este, igualmente, outro grande vulto que perdemos... Colaborador que foi (e co-fundador) do jornal "A Torre", que se editou em Moncorvo entre os anos 50 e 70... Estes sim, nomes que pode evocar, com Obra e provas dadas, estando alguns já a colaborar neste espaço.

Anónimo disse...

Caro N.
Li com muita atenção este seu comentário e os nomes tão ilustres que invoca.
Permita-me que acrescente mais um : o Gil T. que foi uma pessoa que escreveu contos do melhor que li no jornal Terra Quente, ( jornal esse que o N. não lia )contos esses de tal qualidade que até Trindade Coelho invejaria escreve-los e é um crime de lesa cultura não haver alguém que os publique.
Também Gil T. tem Obra e deixou provas dadas. Regionalmente foi do melhor que li e esses guardo-os religiosamente.

Anónimo disse...

Caro Anónimo,
tem razão, e subscrevo inteiramente, para mais tratando-se de um Amigo meu! (dei só alguns exemplos, e às vezes esquecemos os que nos estão mais próximos). O Gil T. tem alguns textos fabulosos, pois pese embora eu não ler esse dito cujo jornal (e se sabe isso, também deverá saber o porquê!), os textos do Gil cá me chegavam (só os recortes). Lembro-me de um, que infelizmente não tenho, e que já dei voltas para o arranjar: a "Carta a Ida". Penso que foi o melhor escrito que li do Gil, uma carta lindíssima, repassada de nostalgia, quiçá o seu próprio "requiem" antecipado, bastante tempo antes de sequer imaginar o fim precoce, mas sobretudo pelo sentimento de solidão e de clivagem entre a que passou (a destinatária, a amada de antanho que recorda, e que, sei-o eu, nunca leu esse escrito) e aquele que ficou... ficou, bebendo copos pelas madrugadas adentro na tasca da tia Lurdes, recriando Fernando Pessoa no Peredo dos Castelhanos, e, como tal, ensaiando também uma espécie de "suicídio etílico"... Paz à sua alma, porque "morre jovem o que os Deuses amam", e curvo-me à sua memória.
E concordo plenamente que se deveriam compilar e editar os seus textos esparsos e inéditos. Se tem os recortes do tal jornal T.Q. reunidos, isso já é um bom começo. Eu posso arranjar-lhe mais qualquer coisa de um jornal escolar policopiado a stencil: a Folha Académica (da comissão de finalistas da Escola Secundária de Torre de Moncorvo, 1979/80) de que o Gil T. tb foi colaborador.

N. disse...

Bem, o último "anónimo" que respondeu ao anónimo anterior é (aliás sou), como se depreende, o tal de "N." - o destinatário saberá quem sou, está em vantagem, pq eu não sei quem é. Com a pressa esqueci-me de assinar com esta marca de "Zorro" (que não sou, e mt menos em sentido transmontano) colocada na vertical (como transmontanicamente se deve ser).
Com os meus cumprimentos e as devidas desculpas pelo esquecimento, quer da "assinatura", quer pelo Gil T., que falta nos faz, com o seu sentido crítico e o seu humor às vezes sardónico!
N.

Anónimo disse...

À ceia do Morgado :

Na grande cozinha
Sobre a longa mesa
O senhor juntou
Miséria e pobreza

Afilhado e bastardo
E o que por aí vai
Todos filhos da mãe
E incógnitos de pai
... ou

Na biblioteca municipal
È tanto o correr diário
Um dia parece arraial
Noutro dia infantário
...
do sentido critico e humor caustico do Gil T. transcrevo estes versos. Muitos mais existem.
Das suas excelentes prosas qualquer Peredano devia ter orgulho no conto da chegada da 1ª debulhadora ao P.dos C.nos idos de 1935; do asinino que não era burro; de como se acabou a agricultura; da feira ...na praça; da vaca da CEE e da subsidiodependencia... etc e etc.

Nesta terra de nevoeiro é sempre bom recordar alguém que já partiu mas que deixou muita coisa e que, se calhar, só falhou na profecia de que a torre, afinal, não caiu à meia-noite.

Recordo ainda um texto publicado em Ago. 2001 no M.B. de exortação à memória do Gil T.. Pensei, ao le-lo nesse altura, que mestre Aquilino Ribeiro tinha ressuscitado...

N. disse...

Era o nosso Mefistófeles do Peredo, caro anónimo!... (com a devida vénia ao Eça, pela adaptação do seu "Mefistófeles de Celorico").
Realmente a Torre ainda não caíu à meia noite, mas um dia pode cair, porque nada é eterno... A profecia não dizia quando... Mas os passeios "Portaro" (agora jeeps de outras marcas, já para além dos Patróis e dos Pajeros...) e os engenheiros e os topógrafos, arqueólogos e historiadores (que ele referia nesse fabuloso texto publicado na Folha Académica, 1979), já andam por aí... para a (re)construção de outras torres... que sempre de torres (=sonhos) se viveu nesta terra... O grupo Alma de Ferro bem poderia encenar esse texto, com um coro de tragédia grega repetindo esse refrão: "À meia-noite em ponto... a torre vai cair!" - Ah Grande Gil!...
Também recordo esse txt do MB. Obrigado por o ter lembrado, mas convenhamos que Aquilino é mt superior...

Anónimo disse...

Outros nomes há a juntar aos já citados . Repescando autores de livros e de textos publicados cuja temática é Moncorvo, encontramos entre outros :
Virgílio Tavares
Lúcia Pedro
Eugénio Carvalheiro
António Pimenta de Castro
Ilda Fernandes
António Gouveia
Justino Magalhães
Maria Adília
Helena Pontes
Maria João Moita Leandro Vale
Carlos Abreu
Creio ,caro N., que com estes nomes mais os que estão no seu arquivo são uma boa colheita .
Num texto seu, cita Kennedy e eu indo ao seu encontro digo só a segunda frase : Pergunta o que podes fazer por Moncorvo.
Sugestão:Na Páscoa todos no auditório do Museu do Ferro com respostas concretas .Só saímos de lá com uma boa taleiga de projectos. A Câmara com os seus olheiros na bancada e entrada livre.
Vamos ver quem responde á chamada .A trabalhar...
Zé do cabo

N. disse...

caro Zé do Cabo, tinha-me passado este seu comentário. Concerteza que há sempre muitos mais dos que nos lembramos, com contributos diferenciados, mais, ou menos, relevantes.
Quanto à proposta que faz, é uma ideia a considerar. Para já, (primeira fase), poderia ser um Encontro dos colaboradores e visitantes do Blog "Descobrir T.M.", tendo por tema: "De como promover a região, dentro e fora dela, usando as novas tecnologias?" tópicos? :
1 -Levantamento/identificação dos problemas e constrangimentos;
2 - Os agentes de desenvolvimento local/regional (autarquias; cidadãos/empresas sedeados na região; as grandes potencialidades dos moncorvenses da Diáspora; e os que não sendo naturais nem residentes, podem vir a ser os "apaixonados" pela região);
3 - Os recursos "endógenos" e Estratégias de desenvolvimeto (instrumentos/programas comunitários);
4 - Os Meios técnicos (novas tecnologias) que podem ajudar ao desenvolvimento das Estratégias - tendo por fim último a fixação de pessoas/contrariar a fuga/estancar a desertificação humana. P. Ex.: Novas tecnologias ao serviço da divulgação turística (o que este blog, de certa forma tb tem feito, com as belas fotografias de alguns dos nossos colaboradores); o teletrabalho, e um "etc." que fica em aberto ("imaginação ao Poder", era o lema do Maio de 68...).
Ah, e as entidades autárquicas serão necessariamente convidadas ao debate, como parceiros incontronáveis e nunca como "olheiros" na bancada, se é que queremos q algo se concretize...
Como se compreende, a organização de um Forum desta natureza requer alguma antecipação (para as coisas correrem bem), pelo que me parece muito apertado ser já para a Páscoa. Não sei se não seria melhor nas férias de Verão, ou lá para as vindimas (é mais fresco), em que muita gente que está fora "vem à terra"?

N. disse...

ERRATA: no penúltimo parágrafo, onde se lê "incontronáveis" é, obviamente, "incontornáveis". Peço desculpa pela gralha (prima dos nossos corvos, eheh)

Anónimo disse...

Até ao lavar dos cestos é vindima. É uma boa data, está fresco e o inicio de Outono transforma a nossa região num jogo de luzes único .Há mais disponibilidade para os da diáspora . É o fim das colheitas e o inicio das sementeiras.
A câmara e os seus olheiros. Era no sentido futebolístico do termo e não de mirones.
Todos em Setembro na cortinha da guarda.
Zé do Cabo

N. disse...

Viva Zé do Cabo,
assim dará mais tempo para se estruturarem as coisas, o q não impede que, até lá, se vão estruturando as ideias... (ainda q sem intenção, parece que sendo nessa ocasião ficamos mais perto das eleições, eheheh - o que até pode ser interessante em termos de contributo da "sociedade civil" para o debate político que, por essa altura, deve começar a aquecer...). E se houvesse "olheiros" de todos os quadrantes, no sentido futebolítico que diz, até seria melhor; talvez se gerassem consensos em termos de estratégias globais, e por cima das chamadas questões fracturantes, ou antes, de "lana caprina".
A "cortinha da Guarda" é um bom local, só carecendo do "agréament" do proprietário: CMTM, que, julgo, não irá contra isso.

Júlia Ribeiro disse...

Então, em Setembro, na "cortinha da Guarda" . Lá terão de me aturar...

Júlia Ribeiro

Anónimo disse...

N.,
E a mim ,pois claro!
Inscrições abertas. Venham mais cinco. O que faz falta é animar a malta.
Zé do Cabo

N. disse...

Então está combinado! vou propôr a quem de direito, para a programação anual das actividades a realizar no nosso mini-Serralves cá do sítio.
Abraço,
N.

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