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quarta-feira, 22 de abril de 2009

Descobrir


Mestre,
Ideias novas não surgem,
Apesar de tanto pensar!

Apesar de tanto pensar,
Ideias não emergem,
Mestre!

Olho de um e de outro lado,
Como me tens tanto ensinado,
Olho o caminho já caminhado,
E nada, nada de novo vislumbrado!

Que problema, mestre!

Estou cansado, olhos sem ver, enraivecido,
Quase tudo me parecendo ter esquecido;
Mas lembro-me de ti a dizer
Que solução há-de haver!

Dizes-me que talvez este ainda não seja
O tempo para o meu fruto colher,
Por tempo ainda o fruto não ter
Para, naturalmente, amadurecer.
Dizes-me ainda que tranquilo esteja
E a reflexão ao sol deixe a aquecer.

Olhos semi-cerrados,
Abertos e fechados,
Vendo sem ter de ver,
Por profundo saber,
Em sábio gesto de mundo abarcar
Dizes-me ainda para descansar e olhar!


Olha!

Olha a borboleta lá fora,
A chamar-te,
A voar na primavera,
Voando de flor em flor,
Em hino ao amor.

Olha,
Faz isso, vai com ela,
Procura a luz,
Olha o céu,
Voa, voa, voa,...
E volta,
Tranquilo!

Volta então à tua reflexão.
Fixa bem os pressupostos,
Define bem os objectivos
E parte, decidido, a caminhar,
À procura da certa solução
Que decerto vais encontrar.

Minimiza o duro caminho,
Que é duro o caminho
E, quantas vezes, difuso,
Em nevoeiro escondido.

Chora quando tiveres que chorar!

Vê os desvios do caminho,
Assinala-os com raminhos de acácia
Mas não te desvies do traçado primordial.

Talvez a eles possas voltar mais tarde,
Quem sabe se para muita sede
Poderes então saciar em inesperadas fontes
Que neles poderás então encontrar,
Para novas lágrimas poderes chorar!

Mas não te deixes agora inebriar.
Olha os pressupostos e os objectivos;
Olha apenas o caminho principal,
O caminho principal!

Ao caminhar,
Faz como o vedor,
Mesmo que nele não acredites;
Sente os sinais,
Mesmo que sinais
Não te pareça encontrar.

Há sempre sinais!

Vai caminhando,
Pára de vez em quando,
Refresca a mente,
De lágrimas eventualmente,
E sente!

Há sempre sinais!

Sente o pulsar do coração
E o pular do pensamento!

Caminha e sente,
Que há sempre sinais!

Há sempre sinais!

....

Sim, mestre,
Estou a sentir,
A ver afloramentos,
A fazer acontecimentos,
A descobrir!

Obrigado,
Mestre!

2009-02-20
J. Rodrigues Dias

1.ª Fotografia - Pormenor lateral da Igreja Matriz de Torre de Moncorvo.
2.ª Fotografia- Pormenor numa Capela de Felgueiras.

6 comentários:

Anónimo disse...

Saúdo a estreia, neste blogue, de J. Rodrigues Dias, através deste magnífico poema de ressonâncias orientais e cheio de espiritualidade Zen. Para além da evocação de um Mestre desconhecido (que só ele sabe), quiçá de ignoto templo de Shaolin, os dois tercetos iniciais são dois quase Haikus, formando um painel díptico (talvez namban); mesmo o "caminho caminhado", lembrando A. Machado, contém nele a demanda do Óctuplo Caminho, a via transcendente e difícil para a iluminação (zen), procurada por entre as recomendações ciciadas (em espírito) pelo ignoto mestre que ramos de acácia quiçá denunciam...
"Olha a borboleta lá fora,/ A chamar-te,/ A voar na primavera,/
Voando de flor em flor,/Em hino ao amor" - a lembrar o haiku de Issa Kobayashi: "Borboletas -/ voando como se o mundo / não tivesse nenhum fim" (in "Primeira neve", versão de J. Sousa Braga, ed. Assírio & Alvim), ou estoutro de Ramos Rosa: "Duas borboletas pousaram / cada uma em sua flor / e depois trocaram de flor"...
Quanto aos atalhos e ao Caminho principal, talvez seja melhor deixar que o Mestre nele se perca, na possibilidade de o verdadeiro Caminho se encontrar enredado no meio de todos os atalhos, aliás, ser o somatório de todos os atalhos. E é nos atalhos e secundários caminhos que se descobrem porventura violetas: "Num atalho da montanha / sorrindo / uma violeta", disse o grande poeta nipónico Bashô(séc. XVII).
"Define bem os objectivos
E parte, decidido, a caminhar" - pois sempre direi (substituindo-me ao Mestre evocado) que talvez não haja mais objectivos nesta vida terrena do que colher borboletas, ou violetas, nem mais metafísica que comer chocolates, como pretendia Àlvaro de Campos, recomendando-o à pequena suja, na sua inefável Tabacaria...
Sem pretensões a crítico literário, mas apenas como mero consumidor (de chocolates poéticos), quero apenas dizer que muito apreciei este poema (que recomendo para acompanhar com um bom chá e uns eflúvios de incenso, ou aromas de laranjeira, num fim de tarde primaveril - de preferência nas nossas montanhas).
Parabéns e abraço,
n.

Anónimo disse...

Voltei, apenas para uma palavra breve de apreço pelas duas fotos a P&B do Mestre-fotógrafo Xo_Xo. Dois fragmentos de dois Templos outros (cristãos, estes), das nossas terras, um grandioso, imponente, majestático, belo no pormenor do seu alpendre gradeado; ignoto o outro, modesto, decerto um simples oratório numa aldeia esconsa de atrás da serra (Felgueiras) e que se impõe descobrir, como o "post" e o poema sugerem.
E por falar em Felgueiras e em espiritualidades orientais, será A.M.Janeira o Mestre evocado? - não quero devassar (ou desvelar) mais do que o poeta nos oferece, mas sempre direi que o poema "postado" iria bem com o nosso embaixador.
Nota: aproveito para agradecer aqui à D. Ingrid B. Martins, viúva do Sr. embaixador Janeira, a recente oferta do seu opúsculo sobre "O conceito ínfimo do significado do Eu na poesia Haiku" (ed. da C.M. de Viana do Castelo, 2004) e o belo livrinho "Primeira Neve" de Issa Kobayashi (ed. port. acima cit.). A análise anterior foi seguramente afectada por essas leituras. Que me desculpe J. Rodrigues Dias se desvirtuei o sentido do que quis transmitir.
n.

Wanda disse...

Olá!
O Anibal continua descobrindo!
Belas descobertas !Do poema e das fotos!
Nesse 22 de abril também comemora-se a descoberta portuguesa das terras brasileiras!
22 de abril de 1500-Descobrimento do Brasil!
Abraço
Wanda
São Paulo, 23 de abril de 2009

Júlia Ribeiro disse...

Sobre o poema de J. Rodrigues Dias, o amigo Nelson já disse tanta coisa linda ... Eu subscrevo.

Júlia

Anónimo disse...

Caros Amigos:

Embora tardias, pelo que peço desculpa (sim, é o trabalho, mas a culpa é minha), quero deixar palavras de sincero reconhecimento pelas palavras de simpatia que expressaram sobre as minhas palavras em jeito de poesia ("Descobrir"), como gosto de as adjectivar. Permitam-me destacar, em especial, as de n. (que não conheço, com pena minha, por muito ter com ele a apreender).

J. Rodrigues Dias

Anónimo disse...

Caríssimo Rodrigues Dias,
agradeço as suas palavras, perdoando-lhe todavia o exagero. Aprendemos sempre alguma coisa, no contacto uns com os outros. É esta a piada da blogosfera: o mundo infinito da Comunicação. Abraço, até um dia destes (paro cá pelo burgo)
n.

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