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sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A Prova de Ferro - III (conclusão)

Ossadas de animais no interior da mina abandonada da Carvalhosa (foto de A.Botelho)
Com combinação de véspera, aproveitámos a liberdade de não termos escola ao sábado e pespegámo-nos desde a aurora à entrada da mina, muito colados à parede e sem rumores para não afugentarmos os seus actuais moradores. Numa rapidez sem asas, perseguimos os pequenos morcegos munidos pelo mesmo radar que servia aos quirópteros para procurar alimento. A ecolocação dos mamíferos voadores precipitava-nos também a nós na proximidade do rumor mais lento e esmorecido da concavidade donde o desgraçado do quadrúpede expiava há vários dias os castigos da fome, da sede, do abandono e da crueldade.
- Mal posso acreditar!... É o Farrusco, o velho Farrusco da Ti Prazeres!
- Coitado!, livraram-se dele. Quem comprou o rebanho não o quis levar.
- Pois foi! – lembrou a Candinha que estivera, até então, muito calada.
Parece que ele também só dava mostras de nos conhecer pelo júbilo da cauda. Os olhos semicerrados pareciam os dos morcegos que, um a um, se iam filando, pendurados pelas patas, no emparedado lateral escuso e no tecto da caverna alheados do rumor a que se tinham vindo a habituar desde a visita forçada daquele intruso. Imperturbáveis, digeriam a enchente de insectos, que se avizinharam das águas estagnadas da represa, ou algum anfíbio rugoso e desprevenido, durante a sua acostumada romaria por aquelas bandas. Escanzelado, as costelas do Farrusco desenhavam-se-lhe no ventre e as patas traseiras recusavam-se a suster-lhe em pé a pele e os ossos. No fundo da cova onde se tinha despenhado faziam-lhe companhia outras carcaças antigas completamente descarnadas. À sua volta, estas apenas alumiavam melhor a sua magreza!
- O Farrusco está ferido. Reparem no sangue empastado na perna bamboleante, do lado direito!...
Ao evedenciá-lo, Candinha quase se precipitava no buraco.
- Vamos tirá-lo já dali! – disse o Júlio decidido.
O rapaz tinha-se esquecido do ressentimento do animal perante a desumanidade dos homens e antes que se aproximasse dele foi preciso que as suas palavras doces lhe aquietassem o temor de uma nova traição, quando este lhe arreganhou os dentes em atitude defensiva.
- Deita, Farrusco! Deita! Eu vou buscar-te.
Com o Zé a pegar-lhe nos membros da dianteira e o júlio a segurar-lhe a parte detrás, puseram-no dentro do vagão desconjuntado, no qual se tinha dado o primeiro embate da queda. Depois, içaram-no em braços e galgaram o fosso. As raparigas apaparicaram-no com muitas festas e o cibo de pão guardado no bolsa da saia.
Em sinal de cooperação, o velho Farrusco queria parecer dizer-nos que se aguentaria serra abaixo. Afinal, palmilhara-a vezes sem conta! E, por causa disso, a Josefina olhou-o enternecida.
- Só podemos fazer isto de duas maneiras: descermos a encosta, num saltinho, e falarmos com o Professor ou irmos serra abaixo, um estirão, com ele ao colo. – opinou o Zé.
A Josefina achou muito melhor que nos encaminhássemos para o povoado. A Ti Betrenária lá daria conta do recado.
Assim se fez, para bem do Farrusco e alegria de nós todos!

8 comentários:

Daniel de Sousa disse...

Parabéns à Isabel pela magnífica história, pelo seu sentido e pela sua forma, num português belíssimo que nos remete para uma escola de rigor e de grande respeito pela nossa língua - hoje em dia infelizmente tão pontapeada.
O tema é amargo e conhecido, parte da vertente sombria da natureza humana. Verdadeiro não apenas na serrania transmontana, mas também na cidade cosmopolita. O abandono dos animais e, em particular dos cães. De trabalho ou de companhia. Quando não servem, ou são incómodos, abandonam-se à sua sorte, ou, como no caso do conto, deliberadamente para morrerem à míngua nas profundezas da mina. Eu,que sempre gostei de cães e sempre tive cães, agonio-me com esta realidade. Sobretudo porque dos meus cães sempre tive provas de desinteressada dedicação e colhi algumas lições de vida que nunca dos humanos me foi possível obter.
Parabéns ,pois, à Isabel pelo seu conto e obrigado pelo seu belo contributo para o blogue.

Daniel

Júlia Ribeiro disse...

Olá, Isabel:
Parabéns !
O conto, escancarando a crueldade humana para com animais velhos e/ou doentes - especialmente cães - é um hino ao afecto das crianças pelos mesmos animais.
Quanto à tua escrita : excelente e não diz tudo .
Um grade abraço,
Júlia

Júlia Ribeiro disse...

À Isabel e aos Amigos Blogueiros:

Chamaram-me a atenção para uma expressão minha que poderá ser ambígua. Aqui vai o devido esclarecimento.

Quando, no comentário anterior digo:

"Quanto à tua escrita: excelente e não diz tudo" é óbvio que o sentido é: "... excelente e esta palavra não diz tudo". Porque a Isabel diz tudo e que magnífico dizer o seu.

Júlia

Wanda disse...

Olá!
Muito emocionante Isabel!Comovente!
O ser humano não tem nem piedade de si mesmo,destruindo o mundo em que vive, o que se dirá de seu amor pelos animais.
Acho um absurdo que se maltrate qualquer animal, mas os cães merecem nossa especial atenção, porque ele ama e defende o dono mesmo que este lhe dê uns safanões de vez em quando.
Por aqui existe até uma piadinha que diz:
"Queres saber quem é teu amigo?
Tranque seu cachorro e seu melhor amigo dentro do porta bagagens do carro , deixa-os lá por uma hora, depois abra, veja quem é que ficará feliz em tornar a ver-te."
Pensem!
Vamos refletir e cuidar melhor dos nossos amiguinhos do reino animal.
Abraço a todos!

Wanda
São Paulo-Brasil

Isabel Mateus disse...

Começo por agradecer os comentários do Daniel, da Júlia e da Wanda, pois são, para mim, um belíssimo incentivo. Obrigada!
Há certas realidades que nos foram(são, afinal) tão próximas e das quais nunca fomos capazes de falar abertamente. Talvez porque as palavras sejam "mais veladas", pelo menos no primeiro embate, foi na altura em que pesquisava à procura de imagens de cães (animais) maltratados que a história do Farrusco mais me chocou. Há demasiadas fotografias que provam esta cruel realidade!E, como nos mais variados casos de crueldade e desumanismo, tanto ao nível do local, como do universal (assim bem o relembram os comentários ao conto aqui no "Blog"), mais situações semelhantes ficam, por certo, sem imagem!...

Abraços,

Isabel

Anónimo disse...

Na verdade, a Isabel mandou-me, para postagem, outras fotos chocantes de cães abandonados, que poderiam ferir a sensibilidade de pessoas mais sensíveis. Optei pela menos má e pela que me pareceu mais adequada à história. Presumo que o motivo inspirador do conto, foi, no caso do cão na mina, as ossadas (reais) que lá se encontram, e que devem ter pertencido a um animal de maior porte, talvez um burro ou mula. Visto que os ossos não estão muito espalhados, não deve ter havido intervenção de lobo (que os há por estes lados). Assim sendo, foi bicho velho deixado ao abandono e que aí se refugiou como sua última morada. Sendo a morte uma fatalidade (tanto para pessoas como para animais), e não havendo por aqui "cemitérios" para quadrúpedes de maior porte, informamos que, em situação de doença, se fale com o veterinário do município para se saber qual o melhor destino a dar à carcaça, no caso de doença/velhice irrecuperável, pois isto é também um caso de saúde pública para os humanos - presumo que há cuidados próprios a ter no caso de enterramento. Em circustâncias de morte repentina (atropelamento p. ex.) pode-se aproveitar a carcaça para alimento dos abutres, havendo também loclaizções específicas para isso, por ex. no Penedo Durão (perto de Freixo de Espada À Cinta), no Parque Natural das Arribas do Douro.
Julgo que também nestes casos o veterinário deverá opinar. Fica a dica.
N.

Leonardo disse...

Os meus parabéns e muito obrigado pela oportunidade de poder ler este conto, centrado num lugar tão mágico e desconhecido de muitos moncorvenses, que tivemos a oportunidades de revisitar nos últimos dias de Agosto.

Esperamos pelo próximo!

Isabel Mateus disse...

Obrigada, Leonardo.
Esperemos que o conto possa servir realmente de apelo e que mais moncorvenses visitem aquele "lugar de magia"! E que apelos como os da Visita de Agosto tenham cada vez mais sucesso! E muito obrigada por me terem proporcionado essa tarde inspiradora e de conhecimento!...

Abraço,

Isabel

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