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sexta-feira, 15 de maio de 2009

"O Gigante da Lua" - mais um conto de Júlia Biló

Penitenciando-nos pelo facto de, neste blog, termos vindo a descurar os mais novinhos, tentando corrigir a falta, então aqui fica este conto que nos foi enviado por Júlia Biló, com ilustração de sua neta Catarina - e isto ainda a propósito da Fraga do Facho, onde continua a "nascer" a Lua, embora já sem o gigante:


O Gigante da Lua

Era uma vez um gigante que vivia no cimo de uma grande serra, atrás de muitos montes. O seu lugar preferido era uma fraga escarpada onde, nas noites de lua cheia, ele brilhava como a própria lua. Por isso lhe chamavam o Gigante da Lua e a pedra enorme onde ele gostava de se erguer ficou conhecida como Fraga do Facho.
Quando a lua cheia começava a mingar, o gigante mingava também e ia-se tornando mais magrinho, mais fininho, ia-se curvando como uma foice no cimo da Fraga do Facho até que deixava de se ver.


Acontecia com o gigante o que acontecia com a lua: ficava escondido durante sete dias.
- Porquê, avó? - perguntou a Catarina.

- Naturalmente, porque precisava de dormir um sono grande. Porém, passados sete dias de repouso, lá aparecia ele sobre a fraga, como uma foice fininha , mas desta vez virada ao contrário.
E, tal como a lua no céu, o gigante ia engrossando, ficando cada vez mais reluzente, até ficar outra vez grande, gordo, brilhante como a lua cheia e o céu tornava-se tão claro que até parecia prata.

No inverno a lua corria por entre as nuvens escuras e o gigante ensombrava-se também.
Mas lindo a sério era em
Agosto: o brilho da lua, muito redonda, batia em cheio na Fraga do Facho, onde o gigante, enorme, sorridente, recebia toda aquela luz e resplandecia também.
- Mas agora o gigante já não está lá - disse desconsolada a Inês.
- Pois não, meu amor. Muitos pais foram para grandes cidades e até para outros países trabalhar. E os netos, quando vinham no verão ver os avós, diziam que nunca tinha havido gigantes. Ligavam a televisão e ficavam horas a ver filmes tontos de que as avós não gostavam ou iam para o computador e jogavam jogos que as avós não entendiam. E as avós deixaram de contar a história do Gigante da Lua que morava na Fraga do Facho.

O gigante foi entristecendo, entristecendo, porque já não havia meninos nem meninas a olhar para ele enquanto as avós lhes contavam a sua história.
Ficou tão triste, que se encolheu todo a chorar. E, numa noite de lua em quarto crescente, não apareceu em forma de foice fininha. E depois nunca mais brilhou nas noites de lua cheia.
Só ficou a fraga que, ainda hoje, se chama Fraga do Facho.


Moncorvo, Agosto de 2005
Júlia Guarda Ribeiro, a avó, escreveu;
Catarina Ribeiro Carvalho, a neta, ilustrou .

12 comentários:

Anónimo disse...

Hola amigos.Este comentario sería el n"32 de la entrada de los burros,para que quede costancia.
En cuanto a los años que estos vivían,mi padre tenía un dicho que era:
Quince años vive un perro,
treinta un caballo,
sesenta un caballero,
y cientoveinte un cuervo.
Un abrazo a todos .Angel

Anónimo disse...

Caras Autoras e Amigos:

Este conto, talvez para crianças, escrito pela pena sábia de Júlia Biló e ilustrado pelos lápis de cor da Catarina, na sua criatividade de menina a materializar-se em aprendizagem e conhecimento, creio que exige dos adultos (em especial, talvez, dos que exercem funções políticas) reflexões sérias.
Deixo apenas duas: a primeira tem a ver com o abandonar do campo (Terra-Mãe, fonte de Vida e fonte de Pão) e o ir para a cidade, onde mais não moram nem as estrelas nem a lua, com a sua luz de encantos e de mistérios. Quantas crianças da cidade vêem e sonham com a luz da noite, ora difusa ora intensa, em noite de luar com sombras de nuvens viajando livres, soltas ao vento, soltas ao luar!? E o que dizer da luz dos tiros rasgando noites sem luar, de afugentar, e o aclarar da noite pelo brutal incendiar?
A segunda reflexão tem a ver com a síntese perfeita entre avós e netos (expressa neste conto pelo escrever e pelo ilustrar), uns e outros produtivos, socialmente úteis, todos aprendendo e todos ensinando!
Quase deixava uma terceira: o valor das tecnologias...

Obrigado, caras Autoras.

J. Rodrigues Dias

Anónimo disse...

Blogueiros da minha terra,há muita coisa a ler no post do Remondes.É o que tem a foto do grupo .
Não digam que não leram ...que estava lá para baixo...

Um leitor do blog

Anónimo disse...

Excelente análise, a do Rodrigues Dias. Tal como em St. Exupèry, quando se sabe consegue meter-se muita substância por detrás do aparentemente naïf.
E o esclarecimento de sabedoria popular (espanhola/ibérica) que nos vem do outro lado do Douro, pelas palavras do Àngel, segundo seu pai, é também oportuno para quem perguntou sobre o probre do 91 precocemente levado na sua jumentude, digo, juventude....
120 anos para o corvo é que me parece de mais, mas sempre direi que os que estão nas fontes das Aveleiras e do Santo António, cá na vila, têm já muitos mais!... (talvez 400 ou 500).
abraço,
N.

Anónimo disse...

ORA A NOSSA JÚLIA BILÓ ATÉ DA FRAGA DO FACHO RETIRA INSPIRAÇÃO PARA UM CONTO TÃO LINDO. TENHO DE O CONTAR ÁS MINHAS NETAS.

BEIJINHO DE UMA MONCORVENSE,
MARIA

Anónimo disse...

Concordo com tudo o que o J.Rodrigues Dias escreveu. Como um continho aparentemente tão simples retrata o que se passa hoje quer no mundo das crianças quer no mundo dos adultos.Devemos reflectir sobre isso.
Mais uma vez, muito obrigado à Dra. Júlia Biló.

+ 1 Pucareiro.

Anónimo disse...

Uma vez mais a Julinha nos encanta com as suas estórias.Mande mais, mande todas!
E continue a(re)inventá-las.
Abraço agradecido.

M. da M.

Júlia Ribeiro disse...

Olá, Nelson:
Gostei dessa da "jumentude" do 9i .
O Mia Couto não teria feito melhor.

Abraço
Júlia

Júlia Ribeiro disse...

Olá, Amiga Maria da Misericórdia:

Prazer em vê-la por cá . Tem estado muito ausente. Espero que não tenha sido por doença.
No dia 6 de Junho quero dar-lhe um abraço muito grande, valeu?

Júlia

Anónimo disse...

Amiga Júlia
Onde alguns vêm filosofias eu vejo a sua enternecedora capacidade de emaravilhamento. Muito perto do reino poético onde os gigantes habitam as fragas que a lua adormece e desperta no seu ciclo sideral . Onde alguns vêm política eu vejo a libertadora capacidade de sonhar , que nos mantém vivos .
Nos seus contos existe uma comovente legibilidade , que nos surpreende e nos reconcilia com o mundo - algo entre o belo e
uma possível e iluminante paz .
Afinal depois de nós todos, a fraga e o seu gigante iluminado pela lua, continuarão a existir.
Como as estrelas. E os sonhos.
Abraço do
Daniel

Wanda disse...

Olá!
Já contei a estória a minha neta Eduarda que tem sete aninhos e ela já está curiosíssima para conhecer a Fraga do Facho..rs
As quatro fases da lua , o gigante, a rocha e por fim a melancolia só m fizeram constatar que crianças preferem internet e televisão do que uma boa estória.
Acho que há algum engano aí...crianças ainda adoram estórias.
Quer parar qualquer algazarra é só dizer:
-Vou contar uma estória!
E lá vem todos para ouvir.
A televisão vive fazendo isso por nós, pois muitos dos pais e avós não têm tempo para os miúdos, assim eles assistem as estórias na televisão ,onde os personagens são super-homens, batmans e feiosos bonecos japoneses.
A televisão e o DVD substituiriam as pessoas que contavam a estória para as crianças, o que é uma pena, pois os pequenos não precisam imaginar como é o gigante ou a fada, eles já vem prontinhos, do jeito que o desenhista imaginar!
Com isso se perde a oportunidade de surgirem outras escritoras tão encantadoras como a Júlia Biló.
Fazer o quê, né?
Abraços
Wanda
São Paulo, 15 de maio de 2009

Anónimo disse...

Lindo de uma vez.
Eu nunca me lembraria de inventar uma estória para a Fraga do Facho. Nem esta nem outras.

Como a Maria da Mesericórdia também lhe peço que mande mais.
Lieta

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