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quinta-feira, 8 de outubro de 2009

A Prova de Ferro - I

Recebemos, para postagem, mais um conto recente e inédito, da nossa parceira de blogue, Isabel Mateus. Tem por cenário as minas de ferro de Moncorvo, que se avistam nesta foto, ao longe:

Cenário do conto. Ao fundo, do lado esquerdo, a serra do Roboredo, onde se localizam as minas de ferro da Carvalhosa; ao centro a ribª. de Santa Marinha (foto de N.Campos)

O nosso professor levava-nos, uma vez por outra, por montes e vales e esgalgados ribeiros. Dizia ele que era importante conhecermos o sabor daquela beleza com os demais sentidos. O relancear dos olhos não lhe bastava. Mais tarde, a nós também não!
Pela manhã, calcorreávamos as redondezas, descíamos os desfiladeiros com as solas dos sapatos presas ao cascalho e depressa mergulhávamos as mãos nos regatos cristalinos que irrompiam pelas pedrinhas xistosas, puídas, muito finas e lisinhas. Mas num desses passeios deparámos, subitamente, com um cachoeirão de água funda. Este estava encavalitado sobre conchas enormes de rocha e rodeado por uma profusão de silvas-machas, cujo veludo verde-claro dos fetos alcatifava e o escuro das junças pontiagudas de novo espicaçava. As águas jorravam barulhentas, em redemoinhos numa reflexibilidade distorcida da harmonia do azul do ar, da brancura dos novelos de lã do céu e do canto dos pássaros. Foi ali sentados que descansámos da longa caminhada. Nisto, o Júlio não se conteve e perguntou:
- Qual é a serventia deste poço?
- Então não se vê logo que é para o gado beber?! – reclamou o Zé, muito seguro da sua resposta.
- Mas para isso bastava o ribeiro! Assim até as cabras e as ovelhas lá podem cair e depois não conseguem sair – retorquiu de novo o Júlio.
- E se ninguém as tirar a tempo, podem afogar-se – observou conscienciosamente a Candinha.
- É verdade, sucede o mesmo aos cães grandes quanto mais aos cachorrinhos!...
Esta sentença de morte veio da parte do Professor. Aí nós, os garotos, não nos contivemos:
- Os cachorrinhos?
O Professor, com a calma que pôde e a que já nos habituara, contou-nos que as cadelas pariam muito. No tempo em que havia mais ovelhadas e cabradas a mortandade era menor, porque se precisavam de mais patas e ladradelas para juntar as reses tresmalhadas por algum pasto muito apetecido, se bem que proibido, para as conduzir às cortes e caçar alguma lebre ou caçapo e levantar alguma perdiz. Agora estas continuavam a procriar e não se sabia o que fazer a tanta cria! Em vez de andarem cheios de fome, porque os montes estavam cada vez mais secos e a caça e o soro diminuíam, decidiam botá-los ao lago. Traziam-nos à socapa, quando a mãe sacudia as tetas moles e sem leite, após a mamada da manhã. Abafados os ganidos de recém-nascidos num saco de lona grossa para não saberem o caminho de volta, transportavam-nos assim às costas e ali os deixavam. Arrepiava-os o primeiro contacto com a limpidez fria das águas, contudo o instinto abria-lhes os olhos e movimentava-lhes as patas ao encontro coordenado do ritmo ondulado da queda de água. Frágeis e pequeninos, o mesmo impulso inato imobilizava-os com a desculpa da fadiga. Se a progenitora não os tivesse seguido, o que por milagre esporadicamente tinha lugar, morreriam afogados. Não havia outro fim possível à vista!
O regresso à escola para a hora do almoço arrastou-se penoso devido àquele relato arrepiante, pelo cansaço das pernas encosta acima e a fome, que também não transmitia força a nenhuma parte do corpo. Excepcionalmente guicha e iluminada, a imaginação de cada um de nós não parava na tentativa de rememorarmos a cena dos pequenos caninos. Muitas versões flutuavam nas nossas cabecitas, coincidindo quase todas no final feliz do salvamento, até que o povoado e a própria casa da aula se nos meteram pela frente.
(Continua)

Por: Isabel Maria Fidalgo Mateus

2 comentários:

Júlia Ribeiro disse...

Olá, Isabel:

O suspense já dura há umas longas horas... Estamos todos à espera para saber quem foi salvar os canitos !

Um grande abraço
Júlia

Isabel Mateus disse...

Esta quase, Julia! So mais um pouquinho de paciencia...

Abraços,

Isabel

P.S. Desculpem, mas estou sem acentos no teclado em terras de sua Sua Majestade!

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