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sábado, 19 de setembro de 2009

O coração da vila- II

Este “post” vem no seguimento de dois comentários feitos ao “post” anterior, sobre a praça Francisco António Meireles, pelo que aqui tentaremos fazer um breve historial e algumas reflexões sobre este espaço da vila.

Fotografia da Praça Central de Torre de Moncorvo nos anos 80 do séc. XIX (foto de aut. desconhecido, impressa em postal comemorativo edit. pela Assoc. Cultural de T. de Moncorvo, nos anos 80 do séc. XX)

Como é de esperar em áreas habitadas, os espaços evoluem, transformam-se (mais, ou menos) e conhecem dinâmicas diferentes consoante os tempos. Assim, podemos considerar que a antiga praça central de Moncorvo (que foi depois Praça da República e finalmente Praça F. Meireles) teve três grandes momentos, quer em termos urbanísticos, quer de função. O primeiro, da Idade Média até ao final do séc. XIX, foi basicamente um terreiro diante do castelo, onde temporariamente se fazia a feira e em que, em dado momento, se colocou um chafariz (séc. XVII) e uma espécie de larga passadeira de granito (em momento indeterminado). Inclusive era espaço de tourada, em momentos festivos, à maneira do que ainda acontece em algumas povoações espanholas. No final do séc. XIX, de acordo com a política dos melhoramentos, foi removido o chafariz, por se encontrar algo excêntrico em relação ao conjunto do largo, e apostou-se num empedrado de contorno oval, com desenho geométrico, raiado e com uns anéis concêntricos, construído com seixos (quartzo) e pedra ferrenha (hematite). Foi autor deste projecto o Engº José Ferro de Madureira Beça, nos anos 80 do séc. XIX. Era clara a intenção de se definir uma área de circulação, tipo placa giratória, distribuindo o trânsito (ao tempo de diligências, carroças, carros de bois, e animais de transporte) preservando o centro para o passeio recreativo da burguesia "fin de siècle", na continuidade de uma tradição decerto há muito arreigada.
Praça Francisco Meireles nos anos 30, em pleno Estado Novo (arquivo particular, cedida ao PARM)
Manteve-se ainda e por muito tempo, a utilização da função-feira, além de se reforçar a sua componente comercial, com a implantação de importantes casas comerciais em redor. Com o aparecimento do trânsito automóvel foi ligeiramente reduzida a placa central, a fim de se dar mais espaço à área de circulação dos novos transportes. Isto deve ter ocorrido já nos anos 30 do séc. XX, não alterando sobremaneira o fácies da praça e suas funções.
Com a sobrecarga do trânsito automóvel ao longo do séc. XX e sobretudo a partir da 2ª metade dos anos 70, num tempo em que ainda não havia o troço do IP-2 de Pocinho à ponte do Sabor, nem as variantes urbanas, todo o trânsito era "despejado" na praça, a partir de ruelas estreitas como a Rua das Flores (de que ainda me lembro ser de dois sentidos!), para aqui convergindo os autocarros, ao início e ao fim do dia, quando vinham trazer e buscar os estudantes para as aldeias e até vilas das redondezas. Quem tivesse estudado em Moncorvo pelos finais dos anos 70 e inícios de 80 (antes da estação de camionagem na variante), lembrar-se-á bem do ritual de ir ver partir as carreiras, ao fim do dia, sobretudo para verem ou despedirem-se das moças das aldeias.
Praça em dia de feira, nos anos 60? (foto enviada por Drª. Júlia Biló)
O que aconteceu entretanto? - 3º. momento: construção das variantes urbanas, sobretudo a avenida João Paulo II, onde está a estação de camionagem, e a variante do Prado; o troço do IP-2, que fez desviar de Moncorvo o trânsito que vinha do Sul do Douro (Lisboa, Coimbra, Foz-Côa) com destino a Bragança e que outrora era obrigado a subir, pela estrada do Pocinho, e passar por Moncorvo com destino a Bragança, passando obrigatoriamente pela praça; mais recentemente, desenvolveu-se a zona do largo da Corredoura e, já nos finais dos anos 90, arranjou-se o largo General Claudino, embora este tardasse a conhecer alguma animação, que só agora se verifica, sobretudo no Verão, em período de festas. Este facto talvez tenha tirado algum protagonismo à praça Francisco Meireles, mas a verdade é que esta nunca foi propriamente um lugar de estar, afora uma esplanada de um café que lá continua, na zona dos táxis. A praça F. Meireles foi sempre, ao longo da sua história, um ponto de convergência de pessoas que vinham tratar de assuntos à vila, ou simplesmente comprar/vender mercadorias, sobretudo em dias de feira. Era inevitável que daqui se retirasse a feira, embora concorde com a ideia de se poder organizar aqui, em certas ocasiões (ou em dias de feira de ano), algum tipo de certame, talvez de produtos regionais (embora para este efeito me pareça mais acolhedora a praça da igreja - a General Claudino). Era também inevitável que se retirasse daqui o trânsito pesado. Não me parece mal que se tivessem criado outras centralidades, como a Corredoura e a praça da igreja, ou a zona do Jardim Horácio de Sousa. Neste quadro, e até para compensar a relativa "desertificação" da praça F. Meireles, creio que a recolocação de um elemento monumental (que já lá havia estado) como é o caso do chafariz filipino (utilizando peças originais e outras reconstituídas), foi uma boa ideia. Para quem se aproxime da praça F.Meireles por qualquer das vias que lhe dão acesso (note-se que é uma praça quási rádioconcêntrica) aquele elemento arquitectónico faz-se notar, atraindo a atenção e o olhar e, como tal, reforçando no subconsciente de quem nos visita, a ideia de uma vila com bastante património.
Praça Francisco Meireles, nos inícios dos anos 80 (foto de N.Campos)
Conciliar este elemento com a oval do séc. XIX também me parece bem, pois a praça ainda não perdeu de todo (nem deve perder) essa função de redistribuir algum trânsito automóvel (já aliviado da pressão de outrora), para as necessidades do dia-a-dia. Pior seria querer transformar-se esta praça numa vasta zona de peões e de esplanadas (a ideia chegou a constar de um certo plano de salvaguarda do Centro Histórico), que naturalmente redundaria em catástrofe, até pela razão que E.L. apontou: aparecimento de outras centralidades e "falta de gente". Quanto a este aspecto, alguns responderão que é uma falsa questão, pois a vila nunca teve tanta população na sua história como agora! (à custa do despovoamento das aldeias, mas isto é outra estória). No entanto há que ter em conta que houve uma certa alteração ao nível dos costumes. Quem e quantos ainda cumprem aquele ritual de passear na praça (de palito no canto da boca e trocas automáticas de lugares no extremo de cada giro, sem nunca se virar as contas aos parceiros - a tal "arte de bem passear na praça")? Pois...
Torre de Moncorvo sempre foi uma vila de serviços, com muitos funcionários públicos, magistrados e bastante comércio. Hoje, com as políticas de redução do funcionalismo, mas sobretudo, com a alteração dos hábitos sociais (como esse do passeio depois de almoço, a "fazer horas" para entrar ao serviço, ou depois de jantar), é natural que o centro da praça se tenha despovoado, sem que disso o chafariz tenha culpa. A decadência desse hábito já vinha de trás, talvez com a entrada nos anos 90, e, mesmo que se quisesse manter, ainda sobrava espaço dos lados do dito chafariz. Os bancos da mesma praça, em certas horas, ainda se conservam povoados de reformados e se não o estão mais, tal se deve aos novos bancos que se colocaram do lado do tribunal onde as árvores são mais frondosas, no verão, e para onde os idosos se foram transferindo preferencialmente. E aqui se conserva outra das funções tradicionais da praça, a má-língua, naturalmente.
Exposição sobre Ambiente, patente no meio da praça, em Junho de 2008
Outra função essencial desta praça, de desde sempre, continua a ser mantida: a de atravessadouro e cruzamento dos caminhos do dia-a-dia, seja para se ir tratar de assuntos à Câmara, ou ao Tribunal, ou meter o correio (pois, com o correio electrónico já se sobem menos as escadas do castelo), ou para se ir a alguns comércios - este, infelizmente, é outro dos factores do esmorecimento da praça, pois as grandes casas comerciais de outrora foram decaindo.
Concordo que se devem pensar iniciativas de animação da praça (para além dos conjuntos musicais nas festas do verão ou da Flor da Amendoeira). É uma questão de imaginação e boa vontade. E para não me alongar mais, termino com um repto: que ideias para animar a praça Francisco Meireles? Por motivos óbvios, penso que é uma boa altura para que os cidadãos apresentem ideias e sejam construtivos e participativos.
Nota final: só para terminar e a propósito, era na Àgora (praça) que os Atenienses do séc. V a.C. (inventores da Democracia) discutiam as suas ideias sobre o que era melhor para a Cidade. "Cidade" que, em grego, se dizia "Polis". Daqui surgiu a palavra "política", para designar a arte de bem governar a Polis (Cidade), ouvindo-se a opinião de todos os cidadãos. Que este espaço (blogue) seja também uma extensão da Àgora moncorvense, a praça Francisco Meireles, são os nossos votos.

2 comentários:

Wanda disse...

Olá!
Muito não posso falar sobre a praça, pois ai não vivo no cotidiano com ela.
Posso falar da praça como turista.Estive em Torre de Moncorvo quando ainda não haviam restaurado o chafariz da praça e voltei depois de restaurado.
O Chafariz sem dúvida é uma obra de arte "Feito no ano do Senhor de 1636 por ordem de Doutor Julião de Figueiredo, Provedor e Contador nesta Comarca, à custo do povo".
Vejam quantos deles existem pelo mundo e que são famosos!No Porto mesmo existem alguns , o que mais gostei foi o Chafariz do Passeio Alegre.
Aqui em São Paulo, temos a Praça da República que aos domingos fica tomada por artistas, pintores , escultores, e todo tipo de artesãos, que apresentam e vendem suas obras.
Tem um coreto onde se apresentam cantores de todo gênero, serve para divulgação de CDs e shows.
Nesta praça não tem chafariz filipino , mas tem um lago pequeno e várias estatuas espalhadas ao seu redor.
Eu acho que nunca deveríamos desfazer as caracteristicas de um sitio, só preservá-los.
É lógico que a praça da República é bem maior que a Praça Francisco Meireles, mas temos que ter as devidas proporções, pois o número de pesoas aqui é infinitamente maior.
Caso queiram ver foto da praça o endereço:
http://www.facasper.com.br/turismo/conheca_sp_nota.php?tb_tur=&id=10

Acho que todo sonho pode se tornar real!

Abraço
Wanda
São Paulo, 20 de setembro de 2009

Júlia Ribeiro disse...

Olá, caríssima Wanda:
À escala de Moncorvo, a nossa praça espelhou bem o que era a vila. No centro passeavam-se os Senhores( proprietários de terras, a riqueza até há cerca de meio século. Depois faltaram os braços escravos, dado que os servos da gleba perceberam que valia mais emigrarem, mesmo comendo o pão que o diabo amassou, pois cá nem pão tinham para comer. E os senhores viram a terra desvalorizar-se... Mas isto é outra história.)
Dizia eu que no centro se passeavam os Senhores e os Srs Doutores. Mas nos bancos que rodeavam a praça já se ia sentando a arraia-miúda que, a meia-voz, começava a criticar os Senhores e os Srs Doutores. E não posso esquecer-me da voz crítica do Horácio Espalha (este em voz bem alta).

Um abraço
Júlia

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