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terça-feira, 22 de setembro de 2009

Reflexão sobre a Viagem de Armando Martins Janeira na obra "Peregrino"

No belíssimo prefácio ao livro Peregrino, de Armando Martins Janeira (1914-1988), Paula Mateus, entre outras coisas, esclarece que Peregrino é muito mais do que na sua “base” aparenta:
“a inspiração em Peregrino vai além da personalidade de Wenceslau de Morais (…) Assim, em Peregrino, encontramos ainda a silhueta de Morais, mas essa silhueta serve a Armando Martins Janeira de ponte para outras páginas, cheias de delicadeza e sensibilidade” (pp.11-12).
Uma “ponte” que me leva a estabelecer a comparação entre Martins Janeira e Miguel Torga (1907-1995) pelo que estes peregrinos têm em comum: a peregrinação, a viagem como móbil e o seu método de viajar. Pouco distantes no respeitante à data de nascimento e ao solo geográfico que os viu nascer, estão, indubitavelmente, muito mais próximos naquilo que legaram à sua região, ao seu Portugal e ao Mundo, pela sua escrita.
Foi do muito pouco que conheço da obra literária de Armando Janeira, e aqui peço desculpa por tal, que me surgiu de imediato esse paralelismo justificado. Não apenas pelos contos Esta Dor de Ser Homem (1948), que assina sob o pseudónimo de Mar Talegre, nem apenas por Linda Inês ou O Grande Desvairo (1957), mas, sobretudo, pela obra em questão, Peregrino. Como estudiosa de Torga, verifiquei que em ambos se manifesta o mesmo desejo “da busca do homem universal”, expressão que deu título à exposição sobre o Embaixador e Autor, no passado mês de Agosto, no Centro de Memória de Torre de Moncorvo.
Na primeira leitura que fiz de Peregrino tirei algumas notas e gostaria de aqui partilhar algumas convosco. Apresento-vo-las, porém, segundo uma ordem que nada tem de aleatória. Apercebi-me, de imediato, que com Armando Janeira estávamos perante um peregrino, cuja deslocação física da viagem se deveu a motivos profissionais, à carreira de diplomata que abraçou até ao seu regresso definitivo à Pátria, mas que não se confinou a isso. Isto, porque ao longo da leitura de Peregrino fui-me deparando com uma escrita de primeira pessoa, que nos dá testemunho da realidade do Outro sem recorrer à atitude imperialista, de superioridade racial e cultural, tão em voga na mente do Governo do Estado Novo de António Oliveira Salazar. Ainda que ao serviço do Ditador, viu o mundo e as suas gentes de modo diverso: encontrou-se na alteridade do Outro, utilizando o método de prospecção.[1] Ou seja, o Mesmo (Janeira/o eu) perscrutou a realidade do Outro (a cultura nipónica e o seu habitante) para se conhecer e, consequentemente, se encontrar a si próprio, formando a sua identidade.
Dos vários extractos da obra que aqui poderia citar, apresento-vos o que, em minha opinião, me parece o mais elucidativo sobre o que tenho pretendido demonstrar:

“Wenceslau foi para longe do seu país, deixou os seus familiares, o seu ambiente e todas aquelas coisas em que se enraíza, com o seu afecto, o sentimento de pertencermos a um mundo, a um género de felicidade. (…) De propósito, procurou o mais estranho dos ambientes e, aí, as situações mais estranhas; serve-se de si próprio como de um instrumento para, na conjuntura com o mundo, conhecer-se. Ir à descoberta de homens, de costumes, de nações é aprofundar o conhecimento do homem” (pp. 67-68).

A “ponte” de que se fala no prefácio e à qual me referi no início deste texto, torna-se agora notória. As reflexões de Armando Janeira compreendem também a sua postura perante este novo país que respeita e admira. Mas não sucedeu o mesmo com Torga, emigrante no Brasil, com apenas 13 anos de idade, e do qual nos dá disso testemunho quando embarca para o Brasil, em 1954, no Diário VII (1956) e, bem mais tarde, em A Criação do Mundo – O Sexto Dia (1981)? O amor pelo telúrico e pelo povo, onde reside a essência, o conhecimento profundo do Japão, do Brasil, de Portugal une certamente estes três vultos. E, mais uma vez, a máxima que o Autor de Peregrino retira da homenagem que os japoneses e ele próprio, único representante de Portugal, fazem a Wenceslau, reúne Armando Janeira e Miguel Torga. Dizer no livro Peregrino “Não há “Oriente” nem “Ocidente”, há um homem e um mundo (p. 64)” significa o mesmo que “O universal é o local sem paredes. É o autêntico que pode ser visto de todos os lados, e em todos os lados está certo, como a verdade” (Traço de União, p. 69).
Podemos concluir que estamos perante dois escritores (e, se estivermos atentos, constatamos que, afinal, Wenceslau de Morais lhes abriu o caminho) que têm uma perspectiva Pós-Modernista para o significado de Peregrino. Ou melhor, para o escritor-viajante que concebe o seu semelhante e a sua cultura como um igual, onde o Outro já não é visto à luz do relativismo cultural resultante da atitude imperialista a vigorar na Metrópole desde o tempo das Descobertas.
Agora, tudo isto nos pode parecer simples, mas num regime de Ditadura estes nossos dois ilustres conterrâneos não passavam já de Iluminados e de visionários do Futuro!

Por: Isabel Mateus


[1] Mateus, Isabel Maria Fidalgo Mateus, A Viagem de Miguel Torga. Coimbra: Gráfica de Coimbra, 2007, p. 28. A Autora considera fundamental o método de prospecção para demonstrar que Miguel Torga é um escritor de Viagens do Pós-Modernismo.

10 comentários:

Daniel de Sousa disse...

Isabel gostei muito da sua análise embora pense que Wenceslau de Morais é um caso diferente pelas sua motivações pessoais que o levaram a embeber-se na cultura japonesa, não configurando a meu ver qualquer relação com a proposição humanista de Martins Janeira. A visão do Embaixador sobre o Japão é, seguramente, muito apaziguadora mas reflecte pragmaticamente um filtro estético sobre uma realidade que poderia não ser assim tão edénica. Repare que Martins Janeira está no Japão, numa primeira fase, num período pós-guerra em que ressoava ainda o cataclismo de Hiroshima e Nagasaki e o povo nipónico interiorizava as próprias feridas. Decerto não com "um sorriso de luz brincada". Depois, numa segunda fase, já o Japão ensaiava uma política de demarcação dos EUA e aproximação à China , à URSS e a alguns países árabes, movimento que a monolítica política salazarista não via com bons olhos. Portanto o papel do Embaixador não foi fácil. Nem num momento, nem no outro. Registe-se pois o seu respeito pelos valores culturais locais, pela arte e pela diversidade religiosa.
Assim, vejo-o mais como um homem do mundo, cosmopolita, civilizado, culto, certamente superior. Digamos - um peregrino observador e pragmático.

Anónimo disse...

Se bem entendi, a Isabel pretendeu salientar as motivações de viagem de três portugueses pelo mundo: o primeiro, Wenceslau de Morais (natural de Lisboa), que segue em missão diplomática para Macau, se apaixona pelo Oriente e acaba por ir parar ao Japão, tendo-se aí "japonizado", cortando as amarras com a pátria de origem e optando por aí morrer, junto da sua família nipónica; os outros dois casos, são os trasmontanos Miguel Torga, por terras do Brasil, e o moncorvense (de Felgueiras) Armando M. Janeira, por várias paragens, mas sobretudo centrado na cultura japonesa. Decerto o Daniel tem razão no que respeita às motivações pessoais. Enquanto Wenceslau e Janeira partem em missões oficiais, homens já feitos e com uma orientação definida, o pobre do jovem Adolfo Rocha emigrou forçado pela necessidade da família e não se fez velho por terras brasileiras. Como é evidente, essa "evasão" de cada um deles (mais ou menos espontânea, mais ou menos entusiástica ou voluntária) foi fundamental para a sua visão do mundo, com repercussões nas suas obras. Mais profundas (e de que maneira!) em Wenceslau, de grande curiosidade e até na esteira dos passos do precedente, com A.M.Janeira, mais tangenciais em Torga. No que toca aos "orientalistas" a busca do Outro e a compreensão da sua cultura é fundamental. No que toca a Torga - e isto é uma mera impressão, pois não conheço bem os passos da sua passagem pelo Brasil - a passagem pelo Brasil terá servido para acentuar ainda mais o seu telurismo, caldeado pela distância e, seguramente, pela saudade das fragas trasmontanas. Acabaria por regressar a Portugal e, fixando-se em Coimbra, era maneira de não estar muito longe das terras de origens. Mesmo na ida ao Brasil por ocasião das conferências que proferiu nas Casas de Trás-os-Montes, de que resultou o opúsculo Traço de União, são os Portugueses da Diáspora que ele visita, é a eles que ele se dirige, e são as terras das origens que constituem o motivo da evocação. Há de facto um mergulhar no seu interior a partir da experiência do longínquo, mas no caso de Torga, mais em direcção às suas/nossas raízes. No caso de A.M.J. é um jogo bipolar em que o estudo do Outro também o conduz às raízes. Já Wenceslau funde-se com o Outro. Mas, repito, isto é uma mera percepção superficial, pois não conheço suficientemente a obra de cada um dos autores mencionados. Seria interessante ouvir aqui também a opinião da Drª. Paula Mateus, especialista em Wenceslau e A.M.J.. E a Isabel pode ter aqui matéria interessante para desenvolver, no quadro do seu próprio "exílio estrangeirado".
Abraço,
N.

Anónimo disse...

Penso que mais interessante do que o meu atrevimento em opinar sobre "Peregrino", de Armando Martins janeira, foi o aparecimento da qualidade destes dois comentários. E espero que surjam mais!
O paralelismo que estabeleci entre A.M.J. e Miguel Torga concebi-o à luz da Literatura de Viagens dos séculos XX e XXI. Comparando estes dois autores, pretendi realçar o respeito pelo multiculturalismo e a superioridade deste dois vultos na observância dos valores dos outros. Wenceslau de Morais foi referido, porque esteve na base de um outro peregrino: A.M.J..
Moraes sofreu o processo de assimilação eterna pela cultura nipónica, devido à mulher(a dele, especialmente)deste país:"a gentileza e a graça infinita da mulher japonesa - que foi, apenas ela, que enfeitiçou Moraes e aqui lhe guarda o coração, para sempre (in Peregrino, p.59). O Srº Embaixador Janeira regressou Iluminado ao seu Deserto. Repousa como homem universal no seu país de origem, sobrepondo-se às tais durezas históricas do Japão na época, como muito bem salienta o Daniel.
De Torga poderia dizer-vos tantas coisas, mas vou ser sucinta. O N. tem razão em muito do que disse em relação a Miguel Torga, mas não nos podemos esquecer que este homem de Agarez de "A Criação do Mundo", que nos escreve na primeira pessoa as suas vivências de emigrante no Brasil, começando pela sua infância e juventude,em Os Dois Primeiros Dias, cresce física e psicologicamente, passando da viagem psicológica à viagem social para culminar com a artística, em A Criação do Mundo - O Sexto Dia.
Nos primeiros dois tipos de viagem, Torga não valoriza apenas o aspecto telúrico de Portugal (S. Martinho/Agarez). Pelo contrário. Na comparação que estabelece entre a pátria e o Brasil, já em O Primeiro Dia a exuberância luxuriante da Natureza, quer a fauna, quer a flora é valorizada, embora o ponto de referência, a matriz seja sempre Agarez. Em O Sexto Dia, homem maduro e com estatuto daquele que vai representar Portugal, a Europa no Novo Mundo, com as condicionantes políticas do Regime daqui e de lá,continua a identificar-se com o Brasil rural, profundo, o que também acontece em Portugal, mas devemos salientar que ele se sente dividido entre estes dois países. Em O Sexto dia, aquando da referida visita, diz: "O Brasil tatuara-se realmente na minha alma como uma tinta indelével. A longa ausência não lhe desbotara sequer o brilho original"(p. 113). Esse conflito interior aparece ainda mais aceso no "Diário VII" ou em "Traço de União (O Drama do Emigrante Português): "Mas o Atlântico é inexorável!Como em Quinhentos, pulsa com a mesma impiedosa vitalidade. Embora encurtado pelo progresso, há-de ser sempre uma barreira entre diversidades.(...) E o remédio é oscilar, hesitar, sofrer. Gemer por Portugal no Brasil, e pelo Brasil em Portugal. Ougar num por alheiras, e no outro por feijão preto. Trazer o corpo e o espírito neste vaivém de grávida com desejos"(p. 117).
Embora penso que para Torga não seria inconcebível, nem de modo algum repugnante poder ter sido enterrado no Brasil, o certo é que descansa em S. Martinho de Anta, ao lado de "Jeanne", sua esposa.E o (seu) mundo sempre o perspectivou a partir dali.
Resumindo, apesar das suas diferenças, estes ilustres das letras unem-se pela fase artística no modo como encaram o mundo: "Os seus primeiros livros (de Moraes)têm por certo esse tom pretencioso e incómodo de divulgador de exotismos. É a fase de iniciaçãodo homem;o escritor está a exercitar o seu arco. Até que por fimo homem ascende à Iluminação - e surge o escritor verdadeiro. Um no outro - tão unificados que os temas, antes de tomarem forma, lhe circulam no sangue e na alma -, como o operário que entrega a obra saída das suas mãos, sem lhe passar pela mente que é melhor que a dum outro, mas satisfeito porque ela é o seu trabalho e nasceu do nobre espírito de servir os homens"(Peregrino,p.79).
Com esta tirada sublime de A.M.J., só me posso e devo retirar.

Um abraço,

Isabel Mateus

Anónimo disse...

Cara Isabel, olá de novo. Uma saudação também ao Nelson e ao Dr. Daniel de Sousa, cujos comentários li com grande interesse. Não sendo propriamente uma especialista sobre Wenceslau de Moraes e Armando Martins Janeira, como o Nelson refere (não foi o Nelson que me disse para pôr os Drs. de lado?!), gostava de deixar aqui algumas palavras, pois achei muito curiosa esta nova ponte traçada pela Isabel e que une Torga e Janeira, e mesmo Moraes. De Miguel Torga, o que conheço melhor é a sua poesia, e, acreditando que o poeta não é assim tão fingidor, terei lido nos poemas dos seus "Diários" inúmeros traços da sua personalidade, mas não sei o suficiente para me aventurar a compará-lo com Janeira ou vice-versa. No entanto, reconheço que nestes três homens há um motivo comum, sintetizado na frase brilhante de Torga que a Isabel refere neste "post" e que o Nelson também já tinha mencionado num "post" anterior a propósito da exposição sobre Janeira e do lançamento de "Outros Contos da Montanha". Fico a pensar se os grandes homens deste mundo, com percursos e opções de vida divergentes, não serão todos irmãos nesse ambicionar de universalidade, de uma civilização planetária, de um homem inteiro, formado pelas culturas oriental e ocidental. Ocorre-me ainda a ideia do tempo circular nesta busca contínua de conhecimento pelos homens, de aperfeiçoamento do Eu para melhor compreender-se a si próprio e apreender o Outro. Em Janeira é muito evidente o cíclico, o explorar o mundo sem cessar e regressar ao lugar de partida para o conhecer e olhar como se fosse a primeira vez. Como dizia o Dr. Daniel de Sousa num comentário anterior, "o local é a referência para o universal". E mesmo o rebelde Moraes, que escolheu fixar-se no Japão, seu paraíso terrestre, e aí morrer, nunca perdeu de vista o seu país, a sua referência. Porque Moraes nunca foi apenas português, nem apenas japonês, apesar de nunca ter saído do Japão nos últimos trinta anos da sua vida. Penso que o seu maior sofrimento terá sido esta incapacidade de conciliar as duas civilizações. Para provar o que digo, pegaria no curioso quadro que é capa do "Peregrino": Moraes está sentado de joelhos sobre o "tatami", a esteira de palha de arroz, debaixo de ameixeiras em flor (mais parecidas estas com as nossas amendoeiras do que as cerejeiras do Japão), com o delgado cachimbo japonês na mão direita e a esquerda na caixa do tabaco, e mais ao longe as "geta", as sandálias japonesas. Tem vestido um quimono azul e por cima deste um "haori" preto, e na cabeça o seu boné de Portugal. Janeira levava sempre consigo três pedrinhas da sua serra do Roboredo e um cântaro de barro do Felgar. E Torga, Isabel? E se Torga se sentiu dividido entre o Brasil e Portugal, Janeira por várias vezes esteve tentado a ficar para sempre no Japão. Escolheram regressar, ao contrário de Moraes, mas poderiam não ter regressado.
Sobre o pequeno livro "Peregrino", que de pequeno apenas tem o formato, sem dúvida, dizia-me o Nelson há tempos que ele se lê quase como um pequeno livro de orações, e de facto esta ideia resume plenamente o que eu própria sinto. Se por um lado Janeira transformou em livro um acto seu de meditação, digamos, em que a prece e a contemplação encontram abrigo nas suas palavras, por outro lado teve a mestria de nos levar a nós, através da leitura dessas palavras, a vivenciarmos a mesma proximidade com o Mistério, e é sobretudo essa "habilidade" que me encanta na sua narrativa. Aliás, vejo essa encantação do leitor como o desígnio de toda a grande obra.
Obrigada uma vez mais, Isabel, pelo seu interesse por este "Peregrino" de Janeira/que é Janeira.
Um abraço a todos,
Paula Mateus
P.S. Este blogue não pára! e já vi que surgiram novos "posts", e a seguir a este fala-se sobre outros "peregrinos". Parabéns ao Nelson por este trabalho.

Anónimo disse...

Há, havia duas edições de Peregrino. Uma de formato agenda de Bolso, que custava dez contos. Outra, em formato A3, que, em 1993, que me custou cem contos, a minha maior loucura em livros. Eram menos de trezentos exemplares, aparentemente, desde logo por que acompanhados de um postal ilustrado autêntico de Venceslau de Morais, postais esses disponíveis em número finito. Possuo um com o respectivo postal. Outro, encontrei-o, por essa ocasião, em cima de uma estante, na horizontal, devido ao tamanho, na Biblioteca de Moncorvo,na proximidade de vulgares edições e ao alcance de todos. Estava bem, se não se apresentasse cheio de pó depositado no rosto da respectiva caixa. Não é bem um livro, é mais um álbum. Ainda andará por lá? Certamente que sim. Informaram-me, na altura, que havia sido doado pela viúva do nosso escritor. Alguém o colocou, na ocasião, após alusão, minha, à sua raridade, em lugar mais reservado, para limpar, pelo menos, e refiro isto sem ironia, arma que não sei manusear.

Para compreender as diferenças entre AMJ e W de M começa-se por ler um e outro. Deles, só o que vem depois as pôde estabelecer. É a lei da vida, naturalmente. Nós fazemos deles o que quisermos.Interessei-me por um e outro, mas parei para não os idolatrar. É a lei da vida também aqui a ditar ordens a que a gente obedece para ser livre. O silêncio é de ouro (ou oiro, como em tempos se quis) desde que entrecortado por palavras.

Carlos Sambade

Outono de 2009

Júlia Ribeiro disse...

Só hoje, enquanto a netinha mais pequenina dorme aqui ao meu lado, é que arranjei tempo para ler em sossego as magníficas análises ao(s) Peregrino(s) que , como finíssimos tecidos orientais, se desdobram perante os meus olhos deslumbrados.
Não vou acrescentar nem mais uma palavra que seja. O que merece ser dito, está dito.
Muito obrigada a todos vós, desde a Isabel e Daniel ao Nelson e à Paula.

Um grande abraço
Júlia

Anónimo disse...

Volto a este "post" para dizer que o exemplar de luxo do "Peregrino" a que o Dr. Carlos Sambade se refere, o tal poeirento na Biblioteca Municipal, é um dos objectos da exposição que se inaugurou no Centro de Memória no dia 29 do mês passado. Julgo que hoje a Biblioteca está consciente do valor desse livro incomum, bem como do valor de outros livros e objectos que a viúva de Armando Martins Janeira tem vindo a doar ao Município de Torre de Moncorvo. O texto do "Peregrino" remete-nos para acontecimentos de 1954, e terá sido escrito nessa altura, embora me pareça que até 1962, data da sua publicação, o Autor o tenha de alguma forma depurado. Oito anos é muito tempo na vida de um Escritor. Portanto, na edição de 1962 (1.ª edição), o "Peregrino" teve dois formatos, como aponta o Dr. Carlos Sambade: o formato de bolso, idêntico ao da 2.ª edição de 2008 da Pássaro de Fogo, e o formato A3, edição muito especial de apenas 100 exemplares (na edição de bolso faz-se referência àquela como sendo de 103 exemplares). A edição luxuosa, quer parecer-me que em papel de amoreira, mas não tenho a certeza, tem como capa uma caixa coberta com "tenugui", pano estampado de algodão, de Tokushima, onde Moraes viveu a partir de 1913 até à sua morte, em 1929. Dentro da caixa, ao jeito dos álbuns antigos de gravuras japonesas, encontram-se as páginas do "Peregrino", em português e japonês, ilustradas com reproduções de "ukiyo-e", ou gravuras japonesas, de pintores famosos, fotografias de Moraes, folhetos informativos sobre Tokushima e Moraes e páginas de livros de Moraes em japonês, além da tal oferta especial: um postal original de Wenceslau de Moraes, dirigido certamente à sua irmã querida, Francisca de Moraes Paúl, ou a algum outro amigo do seu Portugal distante. Assim, cada exemplar é único. Uma edição muito delicada, apesar do tamanho. Como curiosidade, na mostra "Armando Martins Janeira, Peregrino", que se organizou aqui em Cascais em 2008, estava exposta uma carta datada de 1965 em que o Palácio Imperial comunicava a Janeira que o imperador do Japão agradecia a oferta de um exemplar da edição de luxo do "Peregrino". Na 2.ª edição (apenas de bolso) mantive a ilustração da capa da 1.ª, embora nesta se tivesse reproduzido a pintura do japonês Seiran Fukuoka a preto e branco, e com um ligeiro risco preto ao meio, por se tratar de um biombo, e na 2.ª edição eu já tenha optado pela reprodução a cores do quadro/biombo, sem risco ao meio, graças às habilidades do Photoshop.
Um abraço,
Paula Mateus

Anónimo disse...

Boa noite, Dra. Júlia Ribeiro. Não dei pela chegada do seu comentário quando aqui entrei para deixar o meu esta tarde, senão ter-lhe-ia enviado também um abraço. De qualquer forma, aqui fica o abraço e um beijinho para si, e aproveito para a felicitar pelos seus "posts" nestes últimos meses em que tenho acompanhado o blogue mais de perto e com muito interesse.
Um abraço também aos restantes colaboradores desta fã de Moncorvo,
Paula

Anónimo disse...

Obrigado a todos, especialmente à Doutora Paula Mateus.

Quando refiro que parei com os nossos escritores que amaram o Japão «aumentando», assim, Portugal, foi, está bom de ver, para que em mim não se operasse um fenómeno redutor. Não posso com eles, isto é, ultrapassam-me. Estão na estante da sala, em sítio alto, junto ao Porto, ao Douro, ao Sabor e às serras das regiões de Moncorvo e de Alfândega da Fé, não sei o que lhes hei-de fazer.
Quando vou à Corredoura, em Moncorvo, viro sempre, mentalmente, a cara de Armando Martins Janeira para a serra, a fim de melhor encontrar os mares, o oceano, vagas que com a lua se desdobram tal como o sol ao longe e para não queimarem muito, afogando.
É um modo de me ir salvando, preparando.

Carlos Sambade

Sorobai disse...

Obrigado por evocar a memória de tão grandes portugueses. Quanto às ofertas de postais originais referidas nos comentários não posso concordar. Não deveriam estar num museu ao abrigo de eventuais danos e extravios!? Infelizmente, salvo raras excessões, Portugal sempre descurou muito a sua cultura e os seus maiores vultos humanos. Já no Japão foi erguido um museu em louvor desse grande escritor português, Wenceslau de Morais, com a prestigiosa ajuda do Sr. Embaixador Armando Martins Janeira, também ele, dessa mesma tempera de homens que mesmo longe não esquecem a sua pátria e tudo fazem por ela.
Obrigado uma vez mais.

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