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segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Uma nota de etnografia

Enquanto me encontrava a arquivar uns papéis em casa, reencontrei este artigo que me parece oportuno partilhar convosco. O seu autor é o eminente investigador, etnógrafo, historiador e arqueólogo Vergílio Correia, tendo sido publicado em 1937, numa colectânea de artigos de sua autoria denominada "Etnografia Artística Portuguesa", em Barcelos. É particularmente conhecido pelo seu trabalho desenvolvido na mais conhecida estação arqueológica do período romano em Portugal, Conímbriga. A grafia do texto é a original salvo o uso dos tremas que não consegui colocar.

Para Dra. Casimira Machado Leonardo, que do alto dos seus mais de 90 anos, muito me continua a ensinar sobre a históra, costumes e tradições da sua terra mater, o Larinho.


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"Arrôchos" de Larinho e Felgar (Moncorvo)

"Larinho e Felgar são duas boas aldeias do concelho de Moncorvo, cuja visita a nova, inacabada, linha ferroviária do Pocinho a Miranda já tornou fácil e, relativamente rápida.

E interessante, embora um tanto enigmática, a paisagem desta região de terras esbranquiçadas, onde os vales, largamente desdobrados, entestam com cabeços escuros e pedregosos, salpicados de arvoredo miúdo. Região de centeios e trigos onde raro se alteia uma bandeira verde ou amarelecida de milhão, aqui, peor que no Alentejo - onde os montes alegram de manchas brancas a solidão das charnecas e dos montados -, raramente o largo espaço que medeia de povo para povo é habitado. A população concentra-se quási exclusivamente nas aldeias.


Ora nestas duas terras de Larinho e Felgar encontra-se localizado um costume etnográfico digno de referência. Por ocasião das ceifas, não são os homens que atam, em fachas, os molhos de palha, como sucede em tôda a parte; é a mulher a encarregada dêsse serviço. Mas como, por menos forte, ela não pode, à simples fôrça de braço, apertá-los conveniente, serve-se do arrôcho para êsse fim.

Atando duas ou três hastes de centeio, trigo ou cevada - conforme o cereal ceifado -, pelas espigas, com um nó de tecedeira, passa a cinta assim preparada sob o molho, reune as extremidades que ficaram com nova laçada com a varinha levemente recurva do arrôcho, consegue o desejado apêrto.

Como êste utensílio é, portanto, de uso exclusivamente feminino - um homem teria vergonha de empregá-lo, menosprezando a fôrça do seu braço -, aparece adornado de rústicos entalhes que os pegureiros e os namorados nas horas vagas se entreteem a gravar, à navalha, sôbre troncos afeiçoados de freixo ou buxo.

Os exemplares reproduzidos na figura junta, a um têrço do seu tamanho, dão bem a impressão da rudeza decorativa dos arrôchos que, algumas vezes, aparecem também pintados de verde, vermelho e azul. O seu comprimento regula entre 0,25 e 0,30 [metros].

Outubro de 1916.

(desenhos de A. Correia)"

5 comentários:

Artur Mesquita disse...

Realmente, o "arrôcho", talvez com uma dimensão um pouco superior, servia ainda para tocar os animais quando se deslocavam para o pasto. Era frequente ouvir dizer "dá-lhe com o arrôcho pelas costas". Resta dizer que o "ch" deve ser lido fechado como no mirandês ou como se pronunciam algumas palavras de português na nossa terra.

Bem hajam e aquele abraço transmontano


Artur Mesquita

Anónimo disse...

Caro Artur, não é "dá-lhe com o arrôcho", mas sim: "dá-lhe umas boas arrotchadas!" E olha que andam por'i alguns a precisar mesmo delas....
E se fossem "estadulhadas" ainda melhor! (alguém que explique agora o que era o "estadulho")

Anónimo disse...

O arrocho não era só utilizado pelas mulheres nem só nas épocas da colheita.Usava-se em todos os animais de carga, como se fosse uma chave inglesa.Era um utensílio para apertar as cargas, como bem disse o Vasdoal no último post.
O etnógrafo, no seu passeio de verão às fragas, aceitou a versão de um marialva larinhato.
Os desenhos, pela sua qualidade, podiam hoje servir de modelo para peças de artesanato, em vez dos estafados pratos com a imagem da torre.
Obrigado ao Rui pelo post.Bem-vindo a bordo!

Meem Corvo

Anónimo disse...

"Um arrotcho faz-se com um pau direito,que com um torto já está feito"
sabedoria popular

cumps.
E:L

Anónimo disse...

Oh, E:L... mas que raio de conversa vem a ser esta? "pau direito", "pau feito"... além de no "post" se dizer que é o dito arrôcho é "utensílio exclusivamente feminino" - que diacho!
Num há nechexidade... ora bamos lá manter o níbel.
Beato dos Remédios

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