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domingo, 29 de novembro de 2009

Nove Poemas de Novembro

Pedro Castelhano

I

Vens vazio, sem possibilidade de voltar ao futuro,
carregado de bíblias, suspeitas e sangue escorrido
com os amigos em partida e um acre aceno de azedume
no início da onda que ignora onde começa ou acaba.
Vens vazio sem deuses enquanto o vento liberta vozes
na noite aguda que te absorve na penumbra muda.
Vens vazio a ponto de sonhares acender fogueiras na memória
para louvar o que perdeste, a sonoridade do riso,
a mão ligeira e portadora de mel, o aconchego
da rosa no silêncio.Vens vazio de mim, também de ti.
Vens vazio até ao recolhimento.
Vens vazio, mas nesta noite havemos de chorar juntos
com os olhos fustigados pelos mistérios das giestas, semáforos
destes caminhos e terreiros de bruxas e duendes,
que nem o álcool amacia, nem o sacrílego medo da vida.
Já não temos tempo para reencontrar a plenitude, ou inventar
caravelas sem mar. Se não vencermos as bruxas que será da manhã?
Vens vazio, com o olhar recolhido de cão mal afagado. Com leituras
clandestinas, com meio século de cinzas a marcar a página.
Mesmo vazio pensas que a mala ainda trás o que inventar,
a obsessiva presença dos ausentes, a naftalina dos verdes anos
quando ignorávamos que havia idades e na face luminosa da noite
/cantávamos.
Ai! tão vazio que tu vens, como esperma seco na paisagem estéril
que escolhemos para o final. Já não há poemas de amor desesperados
porque já não há poemas de amor. Apenas um vago violoncelo
e um sorriso súbito, sem sentido, de nostalgia ou lenço negro.
Vens vazio, com recomendações das almas para ignorar
a alegria e te libertares dos efeitos da luz. Não toques na carne
e que o teu sorriso seja de cilício. Que punja e amargue
e que te afaste das cidades e das tentações mais baixas
de ser feliz. Para que queres ser feliz se estás vazio e não és idiota?
Há rumores de que sons se aproximam como sereias.
Com acenos verdes e frutos mágicos à beira do olhar.
São suspeitas. São seduções. Também o deserto cansa
os eremitas. E tu és presa fácil, inábil e intranquila.
E tu vens vazio, portador de bagagens sem valor comercial.
Ignora os ritmos, a prosódia, a melodia, ignora-te
e parte para a procura do fim, despede-te da esperança,
não penses mais em construir a casa ou alterar o leito
aos rios. Deixa-os correr que o teu tempo já correu.

Vens vazio, fica vazio. A plenitude é uma maçada.

2 comentários:

Júlia Ribeiro disse...

É o poema mais - que palavra usar ? - mais dilacerante que já li. O vazio total, onde não cabem nem mesmo as memórias do que se perdeu, onde já nada há a encontrar, nada a reinventar, onde o tempo já findou...
Li o poema várias vezes. E de cada vez o vazio se tornava mais espesso, mais negro e mais frio.

E agora repito: para quando a publicação dos seus poemas?

Um abraço
júlia

Anónimo disse...

Sim, de facto os poemas de Novembro são da melhor poesia que já li. Também acho que sim, o R.R. deverá convencer o Pedro Castelhano a publicar (ao menos) este conjunto de poemas.
N.

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