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terça-feira, 24 de novembro de 2009

Trás-os-Montes - por Rentes de Carvalho

Vale da Ribeira das Arcas, entre os Estevais e Carviçais. Estevas (cistus ladanifer) em primeiro plano (foto de Marisa Carloto, 2009)

«Trás-os-Montes. Perto da raia. Terras de pedra, de pão, calcinadas, oliveiras que os anos retorceram, pinheiros sombrios, fios de água que correm nos vales e não acodem à seca.
Abutres circulando no ar, vindos ao cheiro da ovelha morta que a aragem espalhou, vagarosos, à espera que o rebanho se afaste, chocalhos fúnebres, montes sem alegria, o fumo pairando sobre a aldeia, sete da tarde, sol bárbaro, o carro de bois chia na ladeira, lamento que se espalha, canção triste.
A torre quadrangular e escura da igreja, a casa do Capitão - com sentina - alvejando, a nossa derreada na encosta, pintada de amarelo.

Cumeada sobranceira à ribª. do Medal (foto de Marisa Carloto, 2009)

Ninguém sabe que voltei e enquanto aqui estou escondido entre os pinhos, animal do monte, é o passado que desliza, sardinhas que a minha avó fritou na tarde em que o tio Serafim subiu à figueira e eu atravessei o riacho a vau, gritando, certo que morria no meio metro de fundo e que a correnteza me levaria até ao Sabor, perdido, nu, repelente como o afogado que tinha visto no Douro, uma corda passada ao pescoço, preso à barca, azulado.

À esquerda o cemitério, os sobreiros em volta, caminho da Figueireda, andanças de menino. Meu pai plantou pessegueiros e laranjeiras que não dão, culpa das pedras. Mais longe o Cabeço. O nosso tio António morreu lá com uma ferida ruim. Ameaçava de navalha quando lhe chamavam ti Maricas.
Cheiro a estevas queimadas no forno, pão centeio ainda quente, bolas de azeite, mulheres enfarinhadas, cargas de lenha.
Domingo. Burras à espera do ferrador. O macho do Peleiro é enorme, aliviam-no da carga, dão-lhe sopas de vinho num alguidar e as galinhas, sem medo, depenicam também.
À porta da taberna Zé Cigano, o Zé do senhor João e o Fidalguinho tocam guitarra, maravilha, música que nunca mais hei-de ouvir, pasmo de criança».

RENTES DE CARVALHO, "Anotações", in O rebate. Edição Círculo de Leitores, 1973.

2 comentários:

Anónimo disse...

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Daniel de Sousa disse...

Este texto, embora com mais de 30 anos, reflecte julgo eu um pouco a personalidade do seu Autor - muito directo e conciso, com uma escrita de grande vigor e realismo. Infelizmente conheço pouco da sua obra literária. Em "Ernestina" ( que li recentemente) encontrei uma magnífica e comovente linguagem que foi para mim uma surpresa. Da resenha biográfica do Prof. Rentes de Carvalho que o Nelson faz, ressalta um percurso de exílio(mais um, a par por exemplo de Jorge de Sena) com uma espantosa obra cultural, que o tardio reconhecimento dos seus compatriotas apenas torna ainda maior. E sem qualquer mágoa ou ressentimento, reconhece nas suas raízes transmontanas um factor estruturante da sua vida que não renega, antes valoriza. Julgo pois que esta referência foi além de oportuna, muito justa.

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