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domingo, 8 de novembro de 2009

Um poema de juventude de Campos Monteiro

No arquivo da Casa do Rossio, propriedade da família Pinto Félix, guarda-se um precioso poema manuscrito, de autoria de Campos Monteiro, o qual foi publicado há vários anos, no “Mensageiro de Bragança”, pelo nosso saudoso mestre Padre Joaquim Rebelo. O facto de o poema estar assinado apenas como Abílio Monteiro, nome que utilizou nos primeiros escritos, situa-nos cronologicamente nos finais do séc. XIX (anos 90?). Quanto ao lugar onde foi escrito, só pode ser na serra do Roborêdo, pois do alto divisa a vila, como se depreende.
Campos Monteiro vai voltar de novo a este tema da dor perante a hipocrisia e a traição, num outro poema intitulado “Desterrado”, publicado in “Versos fora de moda” (Porto, 1915).

Vista da vila de Torre de Moncorvo, a partir da Quinta das Aveleiras, propriedade da família Pinto Félix.

O vento nos arvoredos
Geme uns íntimos segredos,
N’um confuso murmurar;
E os rouxinóis nas balceiras
Cantam as noites fagueiras
Inundadas de luar.

O doce correr da agoa [sic]
Dá um tom leve de mágua [sic]
À alma ardente dos poetas;
E a villa além, silenciosa,
Oculta-nos, receiosa [sic],
Os rostos das Julietas.

Sinto um feliz bem-estar
Quando alcanço este lugar,
Tão cheio de solidão.
Só aqui, longe do Homem,
Me não seguem e consomem
A Malvadez e a Traição.

Abílio Monteiro

4 comentários:

Anónimo disse...

A Quinta das Aveleiras é certamente um refúgio mítico das minhas memórias de infância e adolescência.Ainda hoje, por vezes, a revisito mentalmente.
Essa vista de Moncorvo que aí podemos ver, faz parte do meu imaginário profundo e também por isso agradeço ao Nelson o tê-la publicado.
Quanto ao poema de Campos Monteiro, apesar do seu inocente lirismo, tem um belo significado.
Já me prometi a mim próprio que da próxima ida a Moncorvo irei ficar na Quinta das Aveleiras!

Anónimo disse...

A quinta das Aveleiras é mesmo uma boa opção, caro anónimo. Isto publicidade àparte, nesta fase do ano, em que o bosquete de carvalhos se torna de um amarelo dourado e os medronheiros exibem os seus belos frutos vermelhinhos. Um verdadeiro retiro, onde, naturalmente, o jovem Abílio se refugiava, quando a Vida lhe dava a provar, porventura, as suas primeiras agruras. Não resisto a transcrever aqui, um outro poema seu a que aludi, o soneto intitulado "Desterrado":

Vou pela rua fora, e todo o dia,
olhando a irrequieta multidão,
eu leio em seu olhar a hipocrisia,
nos seus lábios o vinco da traição.

Como gazela tímida, arrediça,
retrai-se-me, sangrando, o coração,
buscando, n'uma ânsia doentia,
o inenarrável prazer da solidão.

Assim, errante como um velho lobo,
vivo exilado à tona d'este globo,
como em sua ilha Robinson Crusoé.

E a minha alma, que já nada espera,
murmura sem cessar: - "Ai! quem me dera
a minha pátria, que eu não sei onde é!"

Este tem sido, também, meu retiro, quando as desilusões me acontecem e constato o fundo mau de criaturas que de humano só terão a forma. Ontem como hoje, caro Abílio...
N.

Júlia Ribeiro disse...

Olá, Nelson:
Não há dúvida que o Outono, apesar das suas cores quentes, começa a fazer-nos pensar em penas e dores que nos trespassaram. E ainda nos amarguram. E mais a quem está no "outono da vida".
Mas, antes que a grande tristeza se instale, vamos fixar mais as cores outonais e menos as mágoas que nos querem consumir.

Um grande abraço,
Júlia

Daniel de Sousa disse...

Peço desculpa mas o "caro anónimo" saudosista sou eu, que me esqueci de assinar, tendo entrado no blogue por outra porta!
Mas na verdade a Quinta das Aveleiras é também um "must" de Moncorvo!
Abraços
Daniel

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