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quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

"Dança dos Pretos" de Moncorvo

Hoje é dia de Reis. Desde os inícios de Janeiro que, noutros tempos, se cantavam e pediam "os Reis", de porta em porta. Nessa ocasião, pediam-se chouriças, alheiras, ou outras coisas que as pessoas quisessem dar. Em tempos mais recentes, os géneros passaram a traduzir-se em dinheiro. Se, por acaso, a porta de quem se batia não se abria, cantavam-se cantigas jocosas ao "barbas de farelo" (unhas de fome).
Esta tradição de se pedir/dar algo no dia de Reis, tem a ver com as oferendas que os Reis Magos ofereceram ao Menino Jesus, no dia da sua chegada ao Presépio. Todavia, em termos antropológicos, enquadra-se no esquema mais geral da dádiva (o dar/receber) que coincidia com o início do ano, para se propiciar e reforçar os laços de vicinidade.
Por estes motivos, a data dos Reis (ou véspera), foi também a escolhida, não se sabe quando, para se realizar uma dança, composta por vários indivíduos de cara pintada de preto, e que andavam pelas ruas da vila, tocando e dançando, pedindo para o Deus Menino. Era a "dança dos pretos", que teve lugar pela última vez, em Moncorvo, no ano de 1935, conforme regista o Professor Santos Júnior, que a estudou e que, inclusivamente, a promoveu, em 1930. Por esta altura (anos 30), a dança já estava algo decadente, ou seja, não se realizava todos os anos.
É nossa convicção que originalmente devia ter sido executada mesmo por negros e que, depois, à falta destes, fossem sendo substituídos por brancos com a cara enfarruscada. Ora sabemos que, antes da independência do Brasil, houve bastantes negros que foram trazidos para Portugal, mesmo para terras tão remotas como Moncorvo, por funcionários da administração colonial, nobres ou ricos mercadores. Seria comum as casas ricas possuírem escravos ou criados africanos, que normalmente viriam por via do Brasil, tal como se mostrou num excelente documentário produzido pela RTP, com realização de Anabela de Saint-Maurice, em que se foca bem o caso de Moncorvo e da sua Dança dos Pretos. Esta dança era aqui promovida pela confraria de Senhora do Rosário, que, à semelhança do que se passava em Lisboa, Porto, Brasil ou Cabo Verde, e eventualmente em outras partes do império português, tinha por missão o enquadramento religioso dos "homens pretos".
Ainda quanto à "Dança dos Pretos" no nosso concelho, diz Santos Júnior (in "Coreografia Popular Trasmontana", obra publicada em parceria com o Padre Mourinho e editada pela Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia, em 1980, págs. 18 e seguintes) que também se realizava em Carviçais, onde apurou que se tinha efectuado nos anos de 1881, 1896, 1909 e 1935. É de supor que a dança de Carviçais fosse já uma imitação da de Moncorvo, vila onde poderia radicar no séc. XVIII, época em tal dança (em geral) teria sido criada, pois como afirma Santos Júnior, a sua "coreografia enquadra-se nas danças de composição paralela ou de coluna, muito do gosto dos séculos XVII e XVIII, que proliferaram por toda a parte, principalmente nas confrarias de mesteirais..."
O facto de se realizar em Torre de Moncorvo, salienta o precoce carácter urbano da nossa vila, pois só uma estrutura económica e social diversificada (não exclusivamente rural), justificaria esta multietnicidade, a que não é alheia a forte ligação que desde o séc. XVIII haveria com o Brasil e, certamente, com Àfrica, uma vez passado o ciclo do Oriente.
Interrogando-nos ainda sobre o porquê da realização da referida dança nesta data, julgamos poder encontrar justificação no facto de um dos reis magos ser negro - o S. Baltazar - além de os restantes serem cada qual de sua nação. Ou seja, não há data mais apropriada para salientar o ecumenismo da religião católica, em que todos os povos da Terra deveriam vir adorar o Menino-Deus nascido em Belém.

Aqui ficam algumas quadras da Dança dos Pretos de Moncorvo (recolhidas por Santos Júnior):

Boas novas moncorvenses
Dar a vós os preta (sic) vem;
Que nasceu o redentor
que nasceu o Redentor.

Belém terra de Judá
Onde o Redentor nasceu
Sua Mãe imaculada
Que tormentos padeceu.

Eu não posso compreender
Que Jesus , tão santo e nobre,
Tivesse o seu nascimento
Num lugar tão pobre!

......................................

Nota: fica um repto aos nossos amigos do Teatro Alma de Ferro - que tal, para o ano, tentar-se uma recriação desta dança, na altura dos Reis? - A música está registada e várias quadras também. Fica a ideia.

2 comentários:

António Sá Gué disse...

Amigo Nelson!
Tanto quanto sei em Carviçais faziam-se os "Reis Falados" e nunca ouvi falar na "Dança dos Pretos". Os "Reis Falados" era uma espécie de teatro de rua, que se desenvolvia em vários locais da aldeia, normalmente na praça. A recolha está feita e publicada pelo Dr A.M. Pires Cabral, ilustre escritor transmontano, que todos conhecem, e ex-director da Escola Secundária de Moncorvo. Se quiserem dar uma espreitadela no Fórum Carviçais e conhecer um pouco mais, aqui fica o "link"(têm que se inscrever):
:http://www.forum.forumcarvicais.com/viewtopic.php?f=15&t=1926

Abraços

Anónimo disse...

Viva António,
Pois não admira que não tenhas ouvido falar da "Dança dos Pretos" de Carviçais, pois isso foram coisas de há muuito tempo (e penso que pouco arreigadas aí). Já sobre os Reis Falados, lembro-me de ouvir falar nisso ao mestre Padre Rebelo. E deliciei-me ao ler essas "falas" pelo punho do Sr. Abílio Carvalho. Aí se mistura cultura popular e cultura erudita (pois dá para notar os conhecimentos bíblicos de quem em algum dia gizou a peça, para recitação e representação popular -seguramente algum clérigo). E, dada a extensão dos diálogos, não podemos deixar de admirar a prodigiosa memória do Sr. Abílio, ao reter tudo isso ao cabo de tantos anos!!! É simplesmente fantástico. Parabéns ao fórum de Carviçais, ao Sr. Abílio e ao Rui por divulgarem este precioso documento. Não conheço a recolha de Pires Cabral, mas vou procurá-la.
Abraço e obrigado pela dica (raramente vou ao Fórum carviçaleiro por falta de tempo e porque o registo prévio me obriga sempre a um exercício complicado de ter de me lembrar de senhas e de "logins", mas vou tentar estar mais atento).
N.

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