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sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Relembrando o Padre Rebelo

Correspondendo a um apelo feito em comentário ao post anterior, é um prazer (re)lembrar aqui o Padre Joaquim Manuel Rebelo, nosso saudoso mestre, já mencionado neste blogue a propósito da Encomendação das Almas, um ritual bem trasmontano que foi por ele estudado nos anos 60 e 70.

O Padre Rebelo, como era simplesmente conhecido, foi um distinto professor e investigador, além de sacerdote, nascido em Vila Nova de Foz Côa a 13 de Março de 1922, embora tivesse devotado grande parte da sua vida ao concelho de Torre de Moncorvo, onde viria a ser sepultado, após a sua morte, ocorrida em Coimbra, a 19 de Junho de 1995.
Frequentou o Seminário de Bragança e foi ordenado em 1945, fazendo parte de uma linha ilustre de padres eruditos formados por aquela instituição religiosa, em que pontuam nomes como o Abade de Baçal, Pe. José Augusto Tavares, Pe. António Maria Mourinho, que se celebrizaram no estudo da Etnografia, Arqueologia e Linguística da região trasmontana.
Como tal, o Padre Joaquim Rebelo, que ainda chegou a conhecer os dois primeiros e privou com o Pe. Mourinho, interessou-se também pela Etnografia e Linguística, tendo participado em diversos congressos da especialidade e publicado diversos artigos e livros relacionados com estas áreas.
Outro dos seus interesses era a dialectologia regional e o estudo dos regionalismos, tendo publicado uma série de contributos para o glossário de Trás-os-Montes e Alto Douro, na revista Tellus, de Vila Real, no início dos anos 90.
No entanto, a sua maior obra foi, talvez, como formador, tendo deixado grande saudade entre muitos dos que tiveram o privilégio de ter sido seus alunos. Leccionou as disciplinas de Português, História Universal, Religião e Moral, nas seguintes escolas: Externato de N. Srª. de Fátima (Carviçais), Escola Industrial de Torre de Moncorvo, depois Escola Secundária, e Escola Preparatória Visconde de Vila Maior (Torre de Moncorvo), entre 1964 e 1992.
Enquanto sacerdote, paroquiou as aldeias de Múrias (Mirandela), Castedo , Vide, Felgar, Souto da Velha e Larinho (estas no concelho de Torre de Moncorvo). Foi também capelão da Fundação Francisco Meireles e do Carmelo da Sagrada Família, em Torre de Moncorvo.
Era membro das seguintes instituições: Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia, Sociedade de Língua Portuguesa e Associação Port. dos Amigos dos Castelos.
Principal bibliografia. Destacamos entre os vários trabalhos e inúmeros artigos de imprensa, os seguintes títulos: Achegas para o estudo do Romanceiro de Trás-os-Montes e Alto Douro (separata da Revista de Etnografia, nº 5); Pequeno subsídio para uma paremiologia teológica ou um quadro vivo de Trás-os-Montes e Alto Douro (separata de Actas do Congresso Internacional de Etnografia de Santo Tirso, J.I.U., Lisboa, 1965); O culto dos mortos no Nordeste de Trás-os-Montes e Alto Douro (separata do Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, 1965); A encomendação das almas nos concelhos de Torre de Moncorvo e Freixo de Espada à Cinta (Cadernos culturais do Núcleo Cultural de Vila Real, Maio 1978; Resenha histórica de Torre de Moncorvo (conferência proferida em 21.02.1987); Para a história da imprensa de Trás-os-Montes e Alto Douro (in Brigantia, 1989); O convento de S. Francisco de Torre de Moncorvo (edição da Escola Preparatória de T. de Moncorvo, 1992); A terra trasmontana e alto-duriense. Notas etnográficas (ed. Câmara Municipal de T. de Moncorvo, 1995)
Haveria ainda a acrescentar outros títulos, resultantes da participação, com comunicação, em diversos colóquios e congressos, tal como ainda colaboração diversa (e dispersa) pela imprensa local (A Torre, O Fozcoense), regional (p. ex. Mensageiro de Bragança, Voz do Nordeste) e nacional (Comércio do Porto, Diário Popular), etc.
Reconhecimento e Homenagens. Ainda em vida, o Padre Rebelo foi alvo de uma homenagem por parte do município de Torre de Moncorvo, que lhe conferiu o título de Cidadão Honorário em 20.02.1995. Antes disso, um considerável grupo de moncorvenses promovera um almoço de homenagem em sua honra. Postumamente (em 1998) a Escola Secundária de Torre de Moncorvo deu o seu nome à Biblioteca Escolar, considerando o facto de o Padre Rebelo ter sido, responsável pela biblioteca, quando aí foi professor.
Em 2004 o município de Torre de Moncorvo atribuiu o seu nome a uma nova artéria da vila.

Em 2006, o Dr. António Manuel Pimenta de Castro, antigo colega e amigo do Padre Rebelo, igualmente professor na Escola Secundária denominada Dr. Ramiro Salgado, hoje Agrupamento Vertical de Escolas, escreveu um pequeno livro intitulado: “Subsídios para uma biografia de Joaquim Manuel Rebelo, Sr. Padre Rebelo” (edição da Escola, com apoio do município).

4 comentários:

ex aluno anónimo disse...

A voz meiga ainda a recordo com saudade a mesma saudade que sinto pelo afecto que ele tinha por todos nós, recordo o brilhante sermão de despedida na matriz de Foscôa ao companheiro e ex-aluno Acácio Carlos Queija mais conhecido por «chui» e que bem ele ensinava a falar o bom português... Com professores deste calibre mesmo hoje com 50 anos voltaria a estudar...tratou-me sempre bem mesmo quando eu não merecia, porque ele conhecia como ningém os labirintos das nossas almas. Bem Hajas caro mestre e repousa em paz na terra que escolheste para ficar.

Anónimo disse...

O Padre Rebelo foi o único professor que conheci que tinha a humildade de pedir desculpa a um aluno, na aula seguinte, se tivesse chegado à conclusão de que tinha sido injusto, de alguma maneira, para com esse aluno(a). Para além das suas qualidades como professor, tinha estas qualidades humanas. Defeitos? quem os não tem? Deuses não há. Professores, há muitos, até bons professores, mas, para mim Mestre, só aquele que sabe aliar o seu Saber com qualidades humanas (mesmo com defeitos e tudo). Por isso gostei de ler o comentário anterior e, também eu considero que o Padre Rebelo foi o meu Mestre, que não esqueço e a quem estarei para sempre grato.
Não consegui entrar no cemitério no dia do seu funeral... Mas aqui hoje desejo Paz à sua alma e que permaneça sempre viva a sua lição, entre os que tivemos o previlégio de ter sido seus alunos, quer no plano do Saber, quer no plano da Dignidade.

Anónimo disse...

O professor Padre Rebelo confundia-nos sempre o nome. Por isso, chamava-nos à ordem, dizendo: "- Matos, Mateus." Isto, porque durante a aula estávamos sempre a falar da matéria e a discorrer sobre "As Viagens na Minha Terra". Não ficávamos indiferentes a nada daquilo que ele dissesse e ainda hoje guardo muitos dos seus ensinamentos. Muito obrigada, Mestre!

Isabel

Anónimo disse...

Padre Rebelo foi o professor mais influente que tive, apesar de não me lecionar o seu português, mas muitas vezes nos degladiavamos, com vários autores e questões gramaticais, mas num exame nem me lembro mais qual ele me deu uma verdadeira lição, me deu um 12 e explicou para espanto de todo o auditório. Quando das RGA para mudança de escola para onde hoje são, ninguem o sabe, só eu e poucos ele foi um dos incentivadores bem contra a direção da escola da época. Não fico triste pela sua morte, pois sei que ele está onde merece, se é que esse lugar existe, um amigo que nunca esquecerei e que concerteza muitos dos que conviveram com ele, um intelectual ao melhor nível que Moncorvo merecia e que a igreja sempre desprezou.....

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