torredemoncorvoinblog@gmail.com

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

A partidela de amêndoa

Repórter não sou, mas, porque ontem estive num museu vivo, um museu que tenta preservar não só o espólio arquitectónico e cultural da região, mas também e a solidariedade da alma transmontana, apetece-me escrever sobre ela.

Ontem, foi o melhor dia da partidela, era o último, o dia das filhoses, o dia em que se terminava a safra anual e dava direito a ceia reforçada.
Ontem, fiz “serão” em casa do Ti Chico Sá, estava cheia, toda a vizinhança apareceu. Ontem voltei à minha meninice, aos anos setenta, voltei a ouvir aquele martelar constante: tac… tac… taaac… voltei a escutar as conversas de adulto que nem percebia. Soaram em mim vozes que, num linguarejar de outros tempos, pediam, com insistência, a luz da candeia para catar o grão que saltou e se esconde no meio do cascabulho. Ontem, maldisse a vida quando bati involuntariamente no indicador, ontem, entorpeceram-se-me novamente as pernas pelo longo tempo de imobilidade e voltaram-me a arder os olhos pela fumaça das cascas que tardavam a acender.
Ontem, não sei porquê, voltei aos gambozinos, vi-me de fachoqueiro na mão, afouto, noite dentro, à hora dos lobisomens, a arrepiar-me nas encruzilhadas, percorrer o empedrado irregular e húmido da Rua da Fonte-do-Prado.
Ontem vi os burros, atados pela arreata no cimo do amendoal, a rabejar incessantemente, a escarvar no chão, como que a pedir socorro do ataque continuado do regimento de moscas que, apoiados por uma bataria de moscardos artilheiros, voejavam em seu redor. Ontem vi muitas almas varonis ao longo da riba das Arcas. Iam de amendoeira em amendoeira, atentos às irregularidades do terreno, sempre a ver onde punham os pés e a varejar para o chão o fruto já bem seco. Vi as mãos calejadas do mulherio que apanhava desembaraçadamente amêndoa a amêndoa, no meio dos cardos, e despejava às mancheias nas cestas de vime asadas, mudadas à medida que se avançava encosta acima, com muito cuidado, não fossem esbarrondar-se e obrigar a nova e forçada apanha.
25.10.2009

Por: António Sá Gué
Fotos de: Camané Ricardo e de Rui Leonardo/PARM

Ainda sobre a VI Partidela da Amêndoa realizada no Museu do Ferro, ver: http://parm-moncorvo.blogspot.com/2009/10/vi-partidela-tradicional-da-amendoa_26.html

5 comentários:

Daniel de Sousa disse...

Belo texto este de Sá Gué, para dar maior visibilidade a uma ainda mais bela recriação dessa ancestral tarefa da partidela. Celebração comunitária em dias de tão fechado egoísmo, sem outro horizonte que o dos próprios muros, que se vão vivendo. Apesar das facilidades de comunicação e de todo o imediatismo. Assim Moncorvo marca o seu ritmo de intemporalidade, o mundo flui nas coisas que são verdadeiramente importantes. A memória do tempo readquire a sua verdade.
Claro que visitei o link para o PARM e deliciei-me com o que vi - as pessoas e os gestos. E já agora com a fabulosa mesa das doçarias que seria a minha perdição se aí estivesse! Eu que sou tão "pouco" guloso...

Anónimo disse...

Não há nada melhor do que as impressões da alma de um artista sobre um acontecimento. Indubitavelmente, a partidela da amêndoa ficou mais rica!
E parabéns pelo texto!

Isabel

Wanda disse...

Olá!

Adoro ler tudo isso!Para mim, todas essas coisas são novidades, aqui não há amendoeiras. Saber delas através de pessoas que conviveram e convivem com a cena é realmente instrutivo e gratificante.
A descrição que Sá Gué faz das suas memórias é tão rica e poética
que me dá a impressão de ter participado desses acontecimentos em algum lugar, em alguma vida.

Abraço

Wanda

São Paulo- Brasil

Anónimo disse...

Olá Amigos Daniel Sousa, Isabel e Wanda - todos tão longe e todos tão perto no aperto da saudade ou das memórias genéticas destes rituais lúdico-agrários. Pois a mesa das iguarias que deslumbrou o Daniel, faz sempre parte, evocando os magros ágapes de antanho, forma de agradecimento do anfitrião pela ajuda da vicinidade, o que impunha a reciprocidade dele para com os outros. Assim se cerzia o tecido social do mundo campesino. Mesmo se por acaso o anfitrião era um patrão, alguém que pagava o trabalho, a Mesa estava lá, mais somítica ou mais farta, consoante os casos. Como ainda há pouco me fazia notar o nosso Amigo José Albergaria, a Mesa e o ágape tem o seu quê de ritualesco. É um fulcro de harmonização social, até tribal - veja-se como terminam sempre as aventuras do Astérix, o gaulês. Veja-se a Mesa do Povo, no dia de Santo Estevão, tão bem captada num extraordinário documento etnográfico e social que foi o filme de M. Costa e Silva intitulado "Festa, Trabalho e Pão em Grijó de Parada" (1974). Aí figura o Padre, creio que à cabeceira, herdeiro dos sacerdotes (druidas?) de remotos tempos; aí os "homens-bons", os notáveis da comunidade, aí os outros homens, representantes das famílias, de que se excluíam as mulheres, como de todos os ritos solsticiais de inverno porque se associavam às Festas dos Rapazes. Como é lógico, a Mesa da partidela não tinha este significado, era algo mais simples, mais prático, uma buchinha para compor o estômago depois do longo serão e um gesto de agradecimento. Mas, nos arcanos das nossas representações mentais, a mesa e o "comer com", está sempre presente.
Esperemos que para a próxima Partidela vós os ausentes possam estar também presentes.
abraço para todos,
n.

Júlia Ribeiro disse...

Como estou a pôr a escrita em dia, também vim espreitar esse último dia da partição da amêndoa.
Que belo texto, Sá Gué.
Aqui lhe deixo um abraço,

Júlia

eXTReMe Tracker