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sábado, 14 de junho de 2008

Entre a ponte do Sabor e as ruinas da Vila Velha


O desafio de partir À Descoberta do concelho de Torre de Moncorvo, não tem nada de difícil, só é necessário partir. Desta vez escolhi dois motivos bastante próximos: a Ponte do Sabor e as ruínas da Vila Velha de Santa Cruz.
A tarde não estava muito convidativa. Quem vive ou já viveu em Moncorvo, sabe o que significa fazer calor, nestas paragens! Talvez por isso, o Rio Sabor já era frequentado por um número considerável de pessoas, a pescar, a brincar na água, ou mesmo a apanhar sol, que apesar de encoberto, cada vez que se mostrava, “queimava” a pele.

Parei o carro mesmo junto à ponte do Sabor, na EN325. Esta foi intervencionada recentemente, ao nível dos pilares, do tabuleiro, da pavimentação e dos passadiços marginais, estando agora com um aspecto impecável. A ponte mostrava já o peso da idade, apresentando mesmo algum risco ao trânsito. O seu futuro é incerto. Não “encaixa” no traçado do IP2, e, com a tão badalada Barragem do Sabor, corre o risco de ficar submersa. Na estrada, entre a ponte e a Quinta da Portela está marcada nas rochas, a cal, a cota 139 metros. Terá essa marcação algum significado? A ter, a água chegaria muito perto das casas da Quinta da Portela!

Desci ao rio a jusante da ponte. Um casal de aves de rapina fazia um gracioso bailado e enormes peixes debatiam-se nas águas pouco profundas sobre um banco de areia ali próximo. Penso que a época da desova já passou!
Disparei algumas fotografias em direcção à ponte. A sapata dos pilares foi reforçada e todas a juntas estão tapadas. Os sete arcos de volta redonda são desiguais. Há olhais rectangulares sobre cada um dos fechos dos arcos. Os passeios apoiam-se numa cachorrada, como a que existe em algumas igrejas! As guardas são de ferro, novas. As antigas foram substituídas na última interverção. A ponte foi construída na idade média, mas foi alterada no Séc. XIX. O seu aspecto a montante e a jusante, é bastante semelhante, à excepção dos contrafortes do arco central que apresentam reforços, a montante.

Na erva verde da margem do rio encontrei as primeiras flores de fel-da-terra (Centaurium umbellatum), com o seu rosa característico, que encontraria em quantidade no alto do cabeço.
A subida até às muralhas da antiga vila de Santa Cruz da Vilariça, Vila Velha de Santa Cruz da Vilariça ou Derruida, foi penosa. Caí na asneira de ir de calções. Além dos danos causados nas pernas, cheguei ao fim do passeio com quase meio quilo de sementes espetadas nas sapatilhas e nas meias, de cada pé! Apesar de a pujança de Maio e Abril já ter passado, ainda há muitas plantas em flor e rapidamente me esqueci das dificuldades, para começar a desfrutar do passeio. Encontrei muitas borboletas, abelhas, aranhas e toda a qualidade de bicharada. Também o cuco fazia ouvir o seu canto lá para os lados das Cabanas. O perdigão procurava parceira num monte próximo. À medida que ia subindo, ia-se alargando o horizonte e compreendi porque razão o homem aqui se fixou, desde o Séc. XII.

Não foi a primeira vez que visitei estas ruínas, já aqui tinha estado em 1992. Sempre gostei de passear nestas montanhas! Tinha prazer em fotografar os lírios em flor, que aqui abundam. Curiosamente encontrei frutos com sementes de lírio (Iris germanica), estava convencido que apenas se reproduziam por caules (rizomas)!
As ruínas da vila, que além das designações que já disse contou ainda com a de Vila Rica, Mesquita, Roncal e São Mamede, estão situadas num cabeço com 245 metros de altitude, entre a Ribeira da Vilariça e o Rio Sabor. Estranhamente poderá ter sido esta proximidade a tanta humidade que ditou a sua morte, contrariamente à lenda do ataque de formigas, que já tantas vezes ouvi contar.
No início do séc XIII Vila de Santa Cruz da Vilariça, recebeu, de D. Sancho II, uma carta foral que lhe concedia importantes isenções a regalias fiscais e penais. A mudança da população para Torre de Moncorvo deve ter-se dado no final desse século, sendo possível que os dois povoados tenham coexistido.

A localidade tinha muita importância, era sede de concelho na Idade Média, abrangendo parte dos actuais concelhos de Alfândega da Fé, Carrazeda de Ansiães, Vila Flor e Torre de Moncorvo.
Percorri toda a plataforma antes de me dirigir ao ponto mais alto, ao centro. A muralha ainda está bastante preservada, tem vários metros de altura nalguns locais, sendo ainda intransponível. Há pontos em que se distingue mais de uma muralha. A poente são bem visíveis os restos de dois torreões, circulares, que deviam ladear a única entrada. Em vários pontos distinguem-se restos de paredes de casas e de caminhos.

Por fim, dirigi-me ao ponto mais elevado das ruínas. Aqui existem sepulturas escavadas nas rochas, junto do local onde se pensa ter sido a igreja. Ainda se distinguem algumas paredes e encontrei blocos de granito rusticamente aparelhados. Todas as muralhas e paredes interiores são construídas em xisto, por isso chama a atenção a existência de granito neste ponto. Também há argamassa presa a algumas pedras, não sei se se trata de cimento. É um sinal mais do que evidente da existência de uma construção até uma data bem recente. Não me admirava que depois da vila ter sido abandonada, aqui se tenha mantido a igreja, ou uma capela, durante vários séculos.

Já por diversas vezes aqui foram feitas escavações. É uma pena não haver um estudo mais aprofundado deste local. Imaginei-me a participar nas escavações, deve ser muito interessante esse tipo de trabalho. O local está em completo abandono. Cresce mato por todo o lado e, mesmo para aqueles que se interessem em o visitar, não é uma tarefa fácil. Pior do que subir ao local, que pode ser feito por um caminho partindo da Quinta da Portela, é a circulação em volta e no interior das muralhas. Nalguns lugares é mesmo impossível circular.
Do alto do cabeço tem-se uma vista ímpar sobre o vale. Procurei um lanço de muralha mais segura e instalei-me para saborear o final de tarde. Não pude deixar de sorrir com a velocidade com que os veículos circulam ao longo do vale! O som do acelerador a fundo perturba a calma do morro. Que feliz me sinto por poder desfrutar destes momentos de paz!
O sol foi-se encolhendo. A luz subiu pelo Reboredo acima com a mesma calma com que as águas do Sabor se diluíam no Douro, lá ao fundo, na Foz. Os insectos pareciam agitados, tentando aproveitar os últimos raios de sol. Também eu queria aproveitar todos os momentos. Liguei o flash e “persegui-os”, até nos momentos mais íntimos.

Quando só já havia silêncio em redor, desci a encosta, de novo em direcção à Ponte do Sabor.
Não me arrependi das escolhas que fiz para este passeio. Dividi-me entre a ponte e a vila, entre a água e a montanha, entre a história e a suposição, entre a beleza das pequenas formas de vida e a imensidão de um vale que nos surpreende e encanta, sempre que paramos para o olhar.

4 comentários:

vasdoal disse...

Parabéns e obrigado por esta viagem completíssima!

PARM disse...

Caro Aníbal,
Os nossos parabéns pela excelente reportagem e magníficas fotos!
A título informativo, as escavações realizadas em Santa Cruz da Vilariça, mais conhecidas por Vila Velha, ocorreram em 3 campanhas, entre 1989 e 1992, e consistiram numa vala de sondagem no sector Sul da muralha (do lado interno), sendo da responsabilidade do PARM. O objectivo era determinar o início do povoamento e período de construção da fortificação aí presente, face a algumas hipóteses que alguns investigadores haviam colocado, de uma origem "castreja" (Idade do Ferro) com ocupação romana, chegando a colocar-se a hipótese de ser aqui a sede da civitas Baniensium. A sondagem realizada permitiu-nos comprovar a origem medieval da fortificação, talvez dos finais do século XII, sem outros vestígios anteriores. É possível que o monte onde se implanta a vila deserta de Santa Cruz da Vilariça tivesse tido, em algum momento, uma ocupação episódica, admitimos que até na Pré-história recente (o que se comprova por achados de machados polidos nas imediações), mas o que lá está visível é datável de um curto lapso de tempo, entre o séc. XII e o final do séc. XIII, quando, efectivamente, o grosso da população terá ido estabelecer-se no lugarejo de Torre de Mendo Corvo (hoje Torre de Moncorvo), por mandado de D. Dinis, que, como se sabe, andou por estas paragens por volta de 1285. Nessa data o velho foral de Santa Cruz (de 1225) é praticamente reescrito, apenas se lhe alterando os limites, agora circunscritos ao baixo-Vale da Vilariça, pois a parte Norte, que pertencera a Santa Cruz, passou então para Vila Flor e Alfândega da Fé.
Quanto à ponte sobre o Sabor, próximo da Portela, não é medieval, mas sim do século XVI. Foi naturalmente alteada, talvez no séc. XIX, por causa das cheias do Sabor. Não há registo escrito de ponte medieval, pelo que seria utilizada alguma barca, ou passagens em vaus, quer a montante, quer a jusante, no sítio dos Passadouros, não esquecendo que os materiais geológicos de arrastamento (calhaus rolados e areias) formavam bancos a meio do rio, de tipo cascalheiras, onde inclusive se colocavam pesqueiras. Há referências a estas pesqueiras, por exemplo ainda no foral manuelino de Torre de Moncorvo (de 1512).
Nelson R.(PARM)

Elmano Saborino disse...

"Até quando?...
até quando passaremos
sobre as pontes de Remondes e da Portela?

Até quando cantarão as águas
sob os arcos delas?

Até quando viverão apreensivas e em agonia pela morte anunciada,
as deusas Flora e Fauna e os Faunos?

Até quando o rio é livre
e o vale pode ainda respirar a liberdade?

Pois parece que em breves anos
o mundo que foi desde o princípio do Mundo,
terá chegado ao fim...
Em nome do Santo Betão e da Santa Energia,
um Padre-Nosso e uma Avé Maria...

(ou como diria o J.C.: "Pai, perdoai-lhes...")

- Elmano Saborino

Anónimo disse...

A cota de 130 metros significa que nas cheias de 1969 a agua chegou a essa altura. O meu avo que é natural de estevais da vilariça, conta que a agua deixou a ponte submersa!

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